REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 19.2 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20150033

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Pesquisa

Construção e validação de conteúdo do histórico de enfermagem guiado pelo referencial de orem

Construction and validation of the historical contents of nursing guided by orem reference

Camila Santana Domingos1; Priscila Camara de Moura1; Luciene Muniz Braga2; Nayara Vilela Rodrigues3; Marisa Dibbern Lopes Correia4; Alessandra Montezano de Paula Carvalho5

1. Enfermeira. Especialista em Gestão de Programas de Saúde da Família. Residente em Saúde da Família pela Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF. Juiz de Fora, MG - Brasil
2. Enfermeira. Docente na Universidade Federal de Viçosa - UFV. Doutoranda em Enfermagem na Escola Superior de Enfermagem de Lisboa da Universidade de Lisboa - ESEL/ULISBOA. Lisboa, PT - Portugal
3. Enfermeira. Enfermeira da UNIMED. Navegantes, SC - Brasil
4. Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Docente da UFV.Viçosa, MG - Brasil
5. Enfermeira. Mestranda no Programa de Pós Graduação em Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina da UFJF. Técnica Administrativa de Nível Superior da UFV. Viçosa, MG - Brasil

Endereço para correspondência

Camila Santana Domingos
E-mail: camilasantanadomingos@gmail.com

Submetido em: 03/02/2015
Aprovado em: 07/04/2015

Resumo

Realizou-se investigação com o objetivo de construir e validar um instrumento de coleta de dados para a consulta de enfermagem a indivíduos hipertensos e/ou diabéticos em unidades de Estratégia de Saúde da Família, pautado no referencial teórico filosófico de Orem. O instrumento foi organizado segundo os Requisitos da Teoria, subdividido em títulos dos Domínios da Nanda-Internacional, facilitando o raciocínio clínico de enfermagem. Foi submetido à validação de conteúdo com apreciação de nove juízes, cuja concordância entre eles foi analisada pelo cálculo de porcentagem. Os itens reformulados foram aqueles que não atingiram 80% de concordância em todos os critérios avaliados pelos juízes. Concluiu-se que o instrumento construído e validado oferece subsídios para direcionar os enfermeiros e estudantes de Enfermagem a documentarem a consulta de enfermagem sob um referencial teórico da profissão, permitindo discussões e pesquisas futuras.

Palavras-chave: Enfermagem; Teoria de Enfermagem; Processos de Enfermagem; Estudos de Validação; Coleta de Dados.

 

INTRODUÇÃO

As doenças crônicas não transmissíveis constituem-se em um problema de saúde de ampla magnitude no Brasil. Elas acarretam elevado número de mortes prematuras, perda da qualidade de vida e alto grau de limitação em atividades laborais e de lazer. Entre elas, incluem-se a hipertensão arterial e o diabetes mellitus.1

A hipertensão arterial sistêmica é uma condição clínica de alta prevalência, de origem multifatorial, sendo alguns desses fatores modificáveis ou preveníveis, como a obesidade, a ingestão de sal e álcool. Caracteriza-se pelo aumento dos níveis de pressão arterial e é fator de risco para doenças cardiovasculares e metabólicas, como diabetes mellitus.2

O diabetes mellitus é uma das doenças de um grupo de distúrbios metabólicos, no qual a hiperglicemia é o sinal clínico clássico, resultado de defeitos na ação e/ou secreção de insulina.3

A hipertensão arterial sistêmica e o diabetes mellitus são doenças com baixa taxa de controle e associadas a outras doenças cardiovasculares e cerebrovasculares, representando um importante problema de saúde pública.2 Os custos de uma doença crônica não controlada são elevados para o sistema de saúde, pois ela representa uma das principais causas de internações hospitalares. Também o impacto financeiro para as famílias é importante, pois o tratamento dessas doenças é longo, além da possibilidade de perda da produtividade no trabalho e diminuição da renda familiar.1

Dessa forma, é importante que ações preventivas e de promoção da saúde sejam implementadas com o objetivo da detecção precoce, minimizando os riscos à saúde e oferecendo tratamento oportuno para manter os indivíduos já diagnosticados com mínimas repercussões em suas vidas.4

Porém, a alta prevalência dos diagnósticos de enfermagem "risco de glicemia instável" e "autocontrole ineficaz da saúde" em indivíduos hipertensos e/ou diabéticos na atenção primária chama a atenção para a dificuldade de controle desses problemas e a necessidade de planejar e implementar ações para a promoção da saúde e prevenção de complicações.5,6

A atenção primária é destaque no "Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) no Brasil, 2011-2022", em que vinculam os portadores ao cuidador e à equipe, garantindo a referência e contrarreferência para a rede de especialidades e hospitalar e favorecendo a continuidade do cuidado e a integralidade na atenção.4

Com a implantação do Programa de Saúde da Família na atenção primária, a assistência à saúde e a prática clínica do enfermeiro têm sofrido modificações nas últimas três décadas, havendo ressignificação do papel desse profissional. Este vem sendo construído e consolidado numa dimensão assistencial e pautado no trabalho em equipe, nas características do contexto e centrado no usuário, ou seja, nas necessidades de saúde da população, com vista ao bem-estar.7,8

Neste sentido, o fazer em enfermagem tem buscado uma modificação do "paradigma da fragmentação da assistência e do trabalho baseado no 'modelo funcional' para a modalidade de 'cuidados integrais', utilizando várias tecnologias assistenciais e gerenciais."9:61

Entre elas, destaca-se o planejamento da assistência de enfermagem que favorece a organização do trabalho do enfermeiro e permite o desenvolvimento de sua prática clínica, tornando possíveis a operacionalização e a documentação do processo de enfermagem. Este, quando implementado na atenção primária à saúde, corresponde à consulta de enfermagem.9-11

A consulta de enfermagem é uma ferramenta pautada em conhecimento científico e fundamentada em um modelo teórico de enfermagem, com vista a determinar as necessidades e o grau de dependência dos indivíduos, família e/ou comunidade.12,13

A coleta de dados realizada durante a consulta de enfermagem é a primeira etapa do processo de enfermagem e subsidia a identificação dos problemas de enfermagem na perspectiva psicológica, biológica, social, econômica e espiritual para determinar o grau de dependência de cuidados dos usuários e a elaboração do plano de cuidados.9,10

A utilização da teoria do déficit de autocuidado proposta por Dorothea Elizabeth Orem aplica-se a pessoas com doenças cardiovasculares e crônicas, em especial a hipertensão arterial e o diabetes, tendo em vista a possibilidade de comprometerem a capacidade de autocuidado do sujeito acometido.14

O modelo proposto por Orem é baseado na premissa de que os indivíduos podem cuidar de si próprios. É organizado em três categorias de requisitos do autocuidado: universais, desenvolvimentais e de desvio de saúde.12,14 Nos Requisitos Universais encontram-se as necessidades básicas do ser humano (processos de vida, manutenção da integridade da estrutura e funcionamento humano); nos Requisitos de Desenvolvimento Humano o autocuidado está relacionado a eventos naturais, como o envelhecimento; e o autocuidado por desvio de saúde surge em condições de doença, ferimento ou moléstia, consequência de medidas médicas para diagnosticar ou corrigir determinada condição, podendo ser permanente ou transitório.15

Ao realizar uma consulta de enfermagem, sugere-se utilizar um instrumento para registro dos dados coletados e para sistematizar os conceitos da teoria, permitindo que o processo de enfermagem seja viável, auxiliando no processo de decisão, tornando a assistência de enfermagem eficiente e eficaz.12,13

Tendo em vista o panorama apresentado, ao realizarmos consultas de enfermagem a indivíduos hipertensos e/ou diabéticos em uma unidade de saúde da família no interior de Minas Gerais, verificou-se que o impresso utilizado pelos enfermeiros e estudantes de enfermagem era organizado de acordo com a proposta do prontuário de saúde da família do governo estadual e seu enfoque era centrado na doença, não possibilitando abordagem integral do indivíduo, família e/ou comunidade e a identificação dos fenômenos de enfermagem.16

Diante dessa inquietação, da assistência à saúde e da prática clínica do enfermeiro centrada nas necessidades dos usuários, famílias e comunidade na atenção primária, realizou-se investigação com o objetivo de construir e validar um instrumento de coleta de dados aplicável à consulta de enfermagem de indivíduos hipertensos e/ou diabéticos em unidades de Estratégia de Saúde da Família, pautado no referencial teórico filosófico de Orem, na Resolução COFEN 358/2009 e nas diretrizes do Sistema Único de Saúde do Brasil.

 

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo que consistiu de revisão bibliográfica sobre o tema, construção e validação de conteúdo de um instrumento de coleta de dados para portadores de hipertensão arterial sistêmica e diabetes mellitus baseado na teoria de Dorothea Elizabeth Orem a ser aplicado na atenção primária.

Primeira etapa: revisão bibliográfica e construção do instrumento de coleta de dados

Esse primeiro momento constituiu-se de uma revisão integrativa da literatura, a fim de identificar estudos que utilizaram instrumentos de coleta de dados na consulta de enfermagem a indivíduos hipertensos e/ou diabéticos, pautados na teoria de Dorothea Orem e que tenham subsidiado a construção de um instrumento de acordo com o contexto em investigação.

A revisão integrativa da literatura foi realizada na base de dados CINAHL, PUBMED e BVS e foram critérios de inclusão: publicações em português, inglês, italiano e espanhol, entre os anos de 1990 e 2011. A escolha desse período foi devida a ser ele posterior à apresentação da Teoria Geral de Enfermagem de Orem organizada em três construtos teóricos relacionados: o autocuidado; as deficiências do autocuidado e os sistemas de enfermagem (1985); e a ênfase nos seus escritos nos grupos e na sociedade (1991).17

Como critério de inclusão, a publicação deveria apresentar no título ou no resumo os termos de busca nas seguintes associações: hipertensão arterial e teoria de enfermagem; hipertensão arterial e autocuidado; hipertensão arterial e diagnóstico de enfermagem; diabetes e teoria de enfermagem; diabetes e autocuidado; diabetes e diagnóstico de enfermagem. O critério de exclusão adotado foi a publicação não apresentar o instrumento de coleta de dados na íntegra.

O segundo momento consistiu na construção do instrumento para registro da consulta de enfermagem, utilizando os artigos encontrados na revisão bibliográfica, livros e publicações sobre a teoria de Dorothea Orem e livros sobre semiologia aplicada à enfermagem.

Segunda etapa: validação de conteúdo do instrumento de coleta de dados

Realizado estudo qualitativo, exploratório e descritivo por meio da técnica Delphi para estabelecer a validação de conteúdo do instrumento de registro da consulta de enfermagem a indivíduos hipertensos e/ou diabéticos, guiado pelo referencial de Orem. A técnica de Delphi debruça-se sobre o julgamento de um grupo de especialistas, consistindo em questioná-los sobre assuntos específicos. Os especialistas expressam suas opiniões sobre determinado tema, com o objetivo de alcançar consenso, existindo construção participativa, mas sem contato face a face, pois o contato é realizado por meio de correio eletrônico, com o auxílio de um questionário de avaliação sobre o instrumento.18

Após aprovação da investigação pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Viçosa, parecer número 213.265/2013, o instrumento de coleta de dados e um manual com instruções sobre os critérios a serem avaliados foram enviados a 33 juízes, por correio eletrônico, assim como o termo de consentimento livre e esclarecido, entre os meses de março e junho de 2013. Os juízes foram selecionados por meio de avaliação das publicações relacionadas ao tema e/ou técnica de validação, sendo 33 o número máximo encontrado.

A avaliação do instrumento de coleta de dados, respondida por e-mail, foi considerada consentimento positivo para participar da pesquisa. Os peritos foram selecionados de acordo com os seguintes critérios: enfermeiro/docente com titulação de doutor e experiência em teorias de enfermagem; enfermeiro/docente com titulação de doutor e domínio acerca da metodologia de validação; enfermeiro com titulação de mestre e com objeto de investigação relacionado à teoria de Orem; e enfermeiro com titulação de mestre com experiência em fatores crônicos (hipertensão e diabetes). Para análise dos itens do instrumento foram utilizados os critérios de pertinência, clareza, abrangência e organização.13,19

Terceira etapa: análise e consolidação dos itens do instrumento de coleta de dados

As respostas dos juízes foram tabuladas no programa Microsoft Excel 2010 e posteriormente analisadas no programa estatístico Epi Info versão 3.5.1. O índice de concordância adotado para inclusão e/ou exclusão e/ou modificações nos itens do instrumento foi de valor igual ou superior a 80% entre os juízes. Os componentes que não atingiram essa porcentagem foram analisados individualmente, quanto à pertinência, pelos pesquisadores. Ao final do processo de análise havia espaço para que os juízes descrevessem as dúvidas, opiniões e sugestões ao modelo. Em seguida, foi realizada a porcentagem de concordância entre os juízes, empregando-se a fórmula:

Ao usar esse método, devem-se considerar 80% como taxa aceitável de concordância entre os juízes, conferindo validade ao instrumento.19

 

RESULTADOS

Revisão integrativa

A revisão integrativa da literatura selecionou três referências elegíveis, que atenderam aos critérios de inclusão e exclusão. As pesquisas foram publicadas em revistas brasileiras, nos anos de 1996, 2003 e 2008, e realizadas em unidade secundária (ambulatório) e centro de pesquisa e extensão universitária. Não foi identificada investigação sobre a temática na atenção primária.

As referências incluídas na revisão integrativa fizeram breve descrição dos itens do instrumento para registro da consulta de enfermagem a pessoas hipertensas e/ou diabéticas, os quais eram organizados dentro dos requisitos universais, desenvolvimentais e os desvios de saúde propostos por Orem. Os autores descreveram sobre cada item que incluíram nos requisitos citados anteriormente, facilitando a compreensão do leitor e a utilização do instrumento.20

Contudo nos demais artigos, os requisitos mencionados por Orem são alocados no instrumento apenas como um campo para preenchimento, ficando a cargo do enfermeiro levantar as possíveis demandas de cada requisito. Becker, Teixeira e Zanetti são os únicos que trazem incorporado ao instrumento os déficits de autocuidado e o estabelecimento dos sistemas de enfermagem.21,22

A partir da análise dos resultados da revisão integrativa, de referências bibliográficas sobre a teoria de Orem, anamnese e exame físico em enfermagem sobre as doenças crônicas (hipertensão e diabetes) e a experiência clínica dos investigadores, a equipe de investigação construiu um instrumento para subsidiar a coleta e o registro dos dados na consulta de enfermagem a pessoas com hipertensão e/ou diabetes, fundamentado na teoria de Orem.

Construção do instrumento de coleta de dados

O instrumento para coleta e registro dos dados para a consulta de enfermagem a pessoas hipertensas e/ou diabéticas baseado no referencial de Dorothea Orem contém um cabeçalho com dados de identificação. Em seguida, é dividido nos requisitos de autocuidado (universais, desenvolvimento humano e desvio de saúde), déficit de autocuidado e sistemas de enfermagem. Para agrupamento das informações que compõem o instrumento, optou-se pelos domínios da NANDA Internacional.23 Os domínios foram alocados dentro dos requisitos do autocuidado de Orem, de forma a facilitar o levantamento dos diagnósticos de enfermagem posteriormente.

Validação de conteúdo

Após confecção e estruturação do instrumento para coleta e registro dos dados, este foi submetido à validação de conteúdo por juízes. Os instrumentos foram enviados a 33 juízes, havendo retorno de nove (27%). Entre os juízes que responderam, três eram mestres (33,5%), quatro doutores (44,5%) e dois possuíam pós-doutorado (22%). Cinco tinham experiência em validação de instrumentos, consulta de enfermagem, sistematização da assistência de enfermagem e diagnósticos de enfermagem (55,5%) e quatro em enfermagem relacionada ao fator de condição crônica: hipertensão e/ou diabetes (44,5%). Quanto à região de atuação, cinco eram do Sudeste (56%), três do Sul (33%) e um do Nordeste (11%).

Nas Tabelas 1 a 3 são apresentados os resultados da avaliação dos juízes para os itens. Foi adotado o critério de 80% de concordância entre os juízes para análise das questões. Todas as questões que tiveram concordância inferior a 80% foram reformuladas.24

 

 

 

 

 

 

Nos Requisitos Universais, os itens que não atingiram o índice de 80% de concordância em algum dos critérios analisados pelos juízes foram: importância da saúde, tempero/condimentos, tipo de óleo, líquidos, consumo diário de água, cultura/religião X alimentação, atividade e repouso, atividade de lazer, interação social, satisfação, enfrentamento/tolerância ao estresse, você se considera estressado?, nível de adesão ao tratamento e captação de água.

O item "o que você tem feito para melhorar a sua saúde" foi o único que atingiu 80% de concordância em todos os critérios.

Entre as readequações sugeridas no instrumento, foram incluídos itens sobre: a) cabeçalho: município de residência, bairro, logradouro, número e complemento, diagnóstico médico; b) Requisitos Universais: promoção da saúde - participação em grupos de educação em saúde; nutrição e hidratação - preferências e aversões alimentares, uso de mel, sal, pimenta, condimentos industrializados e temperos naturais; interação social - rede de apoio social; sexualidade - parceiro fixo ou não.

Entre os itens excluídos, destacam-se dados sobre: a) profissão, contemplado em atividade e repouso; b) princípios da vida: adesão ao tratamento, pois já está contemplado nos desvios de saúde e religião, que foi substituído por espiritualidade. A atividade de vida diária foi substituída por ocupação.

Nos Requisitos de Desenvolvimento Humano, no item sobre "história da doença atual", foram incluídos dados sobre: início, primeiros sinais e sintomas, evolução e hospitalizações. O item que aborda a interferência da doença na vida/trabalho foi remanejado para desvios de saúde. Os itens que atingiram 80% de concordância em todos os critérios foram: "abdome/ruídos hidroaéreos e quais estratégias utiliza para enfrentar o estresse?".

Os itens que não atingiram 80% em algum dos critérios foram: queixa atual; história familiar; exames realizados; exames preventivos; cirurgias; medicamentos; urina/disúria; fezes; história de complicações do trato; murmúrios vesiculares; ruído adventício; doença cardiovascular; doença musculoesquelética; olhos; ouvidos; nariz; tato; problemas neurológicos; uso de órtese; autopercepção; sistema de suporte-família; vida sexual; enfrentamento/tolerância ao estresse; barreira para adesão ao tratamento; pele/mucosas; e sistema de enfermagem.

Nos desvios de saúde foram incluídos dados sobre: a) processo saúde-doença - o ano de diagnóstico hipertensão/diabetes, conhecimento sobre sua doença, interferência da doença na sua vida/trabalho; b) atividade e repouso - no subitem sono: dificuldades para iniciar, manter o sono, roncos e apneia; c) percepção/cognição - nos subitens sobre fala, avaliação da marcha e equilíbrio e risco de quedas; d) papéis e relacionamentos - conflitos familiares; e) enfrentamento e tolerância ao estresse - causa do estresse e manifestações do estresse; f) princípios da vida - foi construída uma tabela com as categorias: tratamento medicamentoso, dieta, atividade física e consulta com profissional de saúde, a fim de relacionar os níveis de adesão (não adere, parcial ou total); g) segurança e proteção - barreiras para adesão ao tratamento, automedicação, alergias, exames, uso de órtese, avaliação do equilíbrio e ambiente doméstico.

Ainda nos desvios de saúde foram excluídos os seguintes dados: a) processo saúde-doença: exames preventivos, pois não contemplava o dado que se desejava obter; b) nutrição e hidratação: diagnósticos médicos de desnutrição, obesidade, bulimia, anorexia e disfagia; estes foram substituídos por distúrbios alimentares; o subitem alterações em boca também foi excluído, pois não contemplava o dado que se desejava obter; c) eliminação e troca: a dor foi transferida para o item conforto; d) percepção cognição: problemas neurológicos.

De acordo com sugestões dos juízes foi elaborado um guia de apoio com o objetivo de orientar a utilização do instrumento de coleta de dados por enfermeiros ou estudantes de Enfermagem. Os itens não mencionados anteriormente permaneceram no instrumento. Outros foram modificados quanto às categorias e o instrumento foi formatado.

 

DISCUSSÃO

A utilização de um instrumento para registro e coleta de dados na primeira etapa do processo de enfermagem tem por finalidade levantar os dados do indivíduo, família e/ou comunidade de forma abrangente, com vista a tornar possível a identificação dos problemas que agregam danos ao cliente e/ou comunidade e potencialidades na busca pela manutenção da saúde. Esses dados organizados subsidiam a construção de um plano de cuidados, baseado na interpretação crítica dos dados coletados (diagnóstico de enfermagem), a fim de atender às necessidades, prevenir danos e promover ações que reforcem um comportamento de busca de saúde, bem-estar e autocuidado.8,14

A sistematização da assistência de enfermagem constitui um instrumento fundamental no trabalho do enfermeiro, pois possibilita visualizar a prática assistencial do profissional, viabiliza a valorização do seu fazer e constitui-se em ferramenta de melhoria institucional.13,25

Nesse sentido, este estudo procurou tornar o instrumento significativo para o cuidado de enfermagem, fornecendo dados que guiassem as decisões clínicas do enfermeiro e colaborassem para a implementação de mudanças no fazer da enfermagem, no contexto da atenção primária à saúde.26

A utilização do modelo de Orem tem aplicabilidade em vários âmbitos, pois proporciona a participação ativa do cliente no seu autocuidado, melhorando os resultados em saúde e, consequentemente, a qualidade de vida e o bem-estar do indivíduo.27,28

Identificar as necessidades de pessoas com hipertensão e/ou diabetes é relevante, tendo em vista o Programa de Saúde da Família na atenção primária, cujas práticas de enfermagem visam à prevenção de doenças, manutenção e promoção da saúde. Dessa forma, a identificação dos déficits de autocuidado associada à classificação do indivíduo dentro dos sistemas de enfermagem poderá subsidiar ações de enfermagem relacionadas ao ensino de cuidados para o autocontrole e participação ativa no autocuidado, principalmente aquelas que envolvam mudanças no estilo de vida e reconhecimento de sinais e sintomas que evidenciem riscos à saúde.14

A partir da avaliação dos juízes e ajustes realizados, considera-se que o instrumento contemplou a maior parte dos dados relevantes à avaliação das necessidades de autocuidado de pessoas hipertensas e/ou diabéticas na atenção primária. No entanto, deve-se considerar que a utilização dessa tecnologia não descarta os conhecimentos e competências dos enfermeiros, sua capacidade de análise e julgamento clínico e a avaliação do contexto. Sempre que necessário, o profissional deve refletir criticamente frente a um indivíduo e/ou família na consulta de enfermagem, adequando e redirecionando a coleta de dados.

Frente à composição de um novo instrumento de coleta de dados para hipertensos e diabéticos segundo a teoria de Orem, percebeu-se uma dificuldade na confecção, devido à escassez de informações presentes nos artigos selecionados para a pesquisa. A opção de organizar os requisitos de Orem dentro dos títulos de domínios da NANDA-Internacional teve como objetivo facilitar o levantamento dos diagnósticos de enfermagem, dando sequência ao processo de enfermagem. Essa lógica de raciocínio também oportuniza aos enfermeiros estruturar uma metodologia de coleta de dados mais adequada à profissão, que englobe outras questões além das biofísicas, na abordagem do indivíduo durante as consultas de enfermagem.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A validação de conteúdo por juízes contribuiu significativamente para adequar e estruturar o instrumento pautado na teoria de Orem, colaborando para a implementação da primeira etapa do processo de enfermagem e para o aperfeiçoamento deste.

O instrumento construído e validado oferece subsídios para direcionar os enfermeiros e estudantes de Enfermagem a documentarem a consulta de enfermagem, permitindo discussões e pesquisas futuras, além de permitir adaptações de acordo com as características de cada serviço.

Entre as dificuldades e limitações deste estudo, destacam-se: a escassez de estudos e informações na descrição dos instrumentos de coleta de dados utilizados nas consultas de enfermagem a pessoas hipertensas e/ou diabéticas e fundamentados na teoria de Orem; o fato de os juízes terem competências/experiências distintas; a falta de um guia de apoio sobre os dados do instrumento, com o objetivo de auxiliar na avaliação dos juízes.

O instrumento foi implementado na consulta de enfermagem a indivíduos hipertensos e/ou diabéticos em uma unidade de saúde da família no interior de Minas Gerais, tendo uma boa avaliação. Destaca-se que há necessidade de validação em outros cenários para melhor aperfeiçoamento do instrumento (Tabela 4).5

 

 

AGRADECIMENTOS

À Estratégia de Saúde da Família do bairro Silvestre em Viçosa, Minas Gerais, ao Programa Institucional de Bolsas de Extensão Universitária da Universidade Federal de Viçosa - MG e aos juízes que contribuíram para o aprimoramento deste instrumento.

 

COLABORAÇÕES

Moura PC e Rodrigues NV contribuíram para a revisão de literatura, construção do instrumento e redação do artigo. Braga LM, Correia MDL e Carvalho AMP contribuíram para a construção do instrumento, interpretação, análise dos dados e redação do artigo.

 

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