REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 19.3 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20150050

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Pesquisa

Fatores de proteção para a redução da vulnerabilidade à saúde

Protective factors to reduce vulnerability to health

Marta Angélica lossi Silva1; Marilene Rivany Nunes2; Elis Maria Teixeira Palma Priotto3; Iara Falleiros Braga4; Silas Daniel dos Santos5

1. Enfermeira. Professora Associada do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo-EERP/USP Ribeirão Preto, SP - Brasil
2. Enfermeira. Doutoranda pelo Programa de Pós Graduação Enfermagem Saúde Pública da EERP/USP. Professora do Curso de Enfermagem da UNIPAM Patos de Minas. Patos de Minas, MG - Brasil
3. Enfermeira. Doutora em Ciências. Professora da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE. Foz do Iguaçu, PR - Brasil
4. Terapeuta Ocupacional. Doutoranda pelo Programa de Pós Graduação Enfermagem Saúde Pública da EERP/USP. Ribeirão Preto, SP - Brasil
5. Psicanalista. Mestre em Ciências Sociais e da Religião. São Paulo, SP - Brasil

Endereço para correspondência

Iara Falleiros Braga
E-mail: iarafalleiros@gmail.com

Submetido em: 26/01/2015
Aprovado em: 27/07/2015

Resumo

Estudo de natureza qualitativa, fundamentado na Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano, que objetivou conhecer os fatores de proteção para a redução da vulnerabilidade à saúde, a partir da percepção de adolescentes. Foram realizadas 14 entrevistas semiestruturadas com adolescentes, em uma escola de um município do interior do estado de São Paulo. A partir da análise temática dos dados, foi possível identificar quatro eixos temáticos: conhecer para se proteger; valores humanos como fatores de proteção; proteção familiar; e melhora nos atendimentos dos serviços públicos. Apreende-se que esses fatores refletem aspectos pessoais, processuais, contextuais e temporais vivenciados pelos adolescentes no seu cotidiano e nas suas relações sociais ou entre pares, na família ou na comunidade. Devem ser considerados os fatores de proteção vislumbrados pelos adolescentes e fortalecê-los para a busca de espaço que garanta uma participação efetivamente protagônica, para gerir grandes e promissores caminhos de promoção de processos de enfrentamento às situações de vulnerabilidade.

Palavras-chave: Adolescente; Vulnerabilidade em Saúde; Proteção; Política Social; Enfermagem: Saúde Pública.

 

INTRODUÇÃO

A adolescência é entendida como uma fase do desenvolvimento humano caracterizada por mudanças e transformações no âmbito psicossocial e cultural, nos quais o adolescente é visto como um sujeito único, social, histórico e coletivo.1 Nesse contexto, reconhecer a complexidade de ser adolescente e compreender a sua saúde na conjuntura da vulnerabilidade é apreender que a saúde pode estar relacionada ao grau e à qualidade da informação que os sujeitos dispõem sobre possíveis problemas e agravos; a capacidade de elaborar essas informações e incorporá-las ao seu repertório cotidiano de ação e comportamento; e finalmente o interesse e as possibilidades efetivas de transformar essa ação em práticas protegidas e protetoras.2-3

Assim, é possível contextualizar a saúde do adolescente em situação de vulnerabilidade nos aspectos: individual - comportamento pessoal, social - contexto social e programático - recursos sociais necessários para a proteção do indivíduo a riscos à integridade e ao bem-estar físico, psicológico e social, considerando as chances desses adolescentes ao adoecimento, como aspectos que acarretam mais suscetibilidade aos agravos e de modo inseparável mais ou menos disponibilidade de recursos de todas as ordens para se proteger de ambos.4

Nesse sentido, os recursos pessoais, processuais e contextuais que auxiliam a modificar e a reduzir as adversidades ou que modificam e melhoram as respostas do sujeito a fatores vulnerabilizantes na vida são chamados de fatores de proteção. Esses fatores atuam, desde a infância até a adolescência, como processos relacionados à família na provisão de apoio e respeito mútuo; à própria capacidade individual de se desenvolver autonomamente com autoestima positiva, autocontrole e características de temperamento afetuoso e flexível, ao apoio oferecido pelo ambiente social, no relacionamento com amigos, e ao suporte de pessoas significativas e de experiências escolares positivas.5

Buscando compreender os fatores protetivos dos adolescentes, levando em conta suas percepções, interações e relações sociais, busca-se como referencial teórico a Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano,6-7 que considera que o desenvolvimento ocorre por meio de processos progressivamente mais complexos de interações recíprocas e ativas, concebidas a partir de quatro núcleos dinâmicos e interdependentes: o processo, a pessoa, o contexto e o tempo (PPCT).

A teoria abarca as continuidades e mudanças que acontecem nos ambientes e propõe um construto teórico e processos proximais que são entendidos como formas particulares de interação entre organismo e ambiente, que operam ao longo do tempo e compreendem os primeiros mecanismos a produzir o desenvolvimento humano,6 representando uma tentativa de superação de modelos unidimensionais, pois trabalha com uma natureza integradora decorrente da interação de fatores macro (sócio, econômico, político) e micro (história de vida, funcionamento e estrutura familiar).

A partir das premissas anteriores, este estudo objetivou conhecer os fatores de proteção para a redução da vulnerabilidade à saúde, a partir da percepção de adolescentes. A relevância desta pesquisa se justifica pela necessidade de identificar fatores protetivos aos adolescentes, para o direcionamento de ações e programas voltados para a saúde dessa população.

 

MÉTODO

Trata-se de estudo de natureza qualitativa, buscando compreender a visão de mundo e as percepções dos adolescentes, como sujeitos que possuem uma história e uma consciência crítica acerca do objeto em estudo, ou seja, os fatores de proteção. A abordagem qualitativa é aqui compreendida como aquela que permite incorporar significados e a intencionalidade como inerentes aos atos, às relações e às estruturas sociais e que são consideradas práticas interpretativas que contemplam os sentidos que os sujeitos atribuem aos fenômenos.8

O campo de estudo se configurou a partir de uma escola municipal de ensino fundamental localizada em um bairro periférico de um município do interior do estado de São Paulo. A conveniência aconteceu por ser um espaço de desenvolvimento de atividades acadêmicas dos pesquisadores, dessa forma possuindo vínculos efetivados.

A região é caracterizada pela escassez de equipamentos e investimentos sociais, como redes de apoio e programas, fatores esses que vêm mantendo os níveis de desigualdade econômica, cultural e social.

A seleção dos sujeitos da pesquisa foi realizada a partir da técnica de bola-de-neve. Essa técnica de bola-de-neve (snowball) inicia-se a partir de um ator ou um grupo de atores que indicarão novos sujeitos, estes indicarão outros, e assim sucessivamente, possibilitando ao pesquisador a imersão em seu círculo social.9

Foram então buscados, como informantes-chave, professores do ensino fundamental da escola que indicaram três alunos adolescentes. Estes, mediante o conhecimento e a participação na pesquisa, indicaram outros adolescentes da comunidade, adolescentes estes atuantes em organizações não governamentais/ONGs e grupos religiosos, dando origem, assim, ao grupo.

Para este estudo adotou-se a adolescência como a faixa etária dos 12 aos 18 anos, conforme estabelecido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.10 O número de sujeitos entrevistados buscou atender à representatividade do grupo de sujeitos e à profundidade dos sentidos presentes nas falas dos mesmos, sendo interrompida a captação de novos participantes quando o conjunto das entrevistas individuais realizadas em questão foi julgado suficiente empiricamente para o desenvolvimento de novas reflexões sobre o tema.11

A coleta dos dados apoiou-se em entrevistas semiestruturadas, feitas em horários e locais escolhidos pelos entrevistados, procurando-se estabelecer uma conversa dirigida com os pesquisados em torno do tema, buscando conhecer os fatores de proteção que podem contribuir para a redução da vulnerabilidade à saúde na adolescência.

O roteiro de entrevista definido possuía quatro questões norteadoras:

1. que problemas você acha que os adolescentes que estão na sua escola, no seu bairro ou na sua cidade enfrentam hoje em relação à vida do dia a dia?

2. você também enfrenta esses problemas, fale-me sobre eles?

3. em sua opinião, o que pode ajudar a diminuir ou até mesmo a se proteger desses problemas?

4. isso que você mencionou, como fatores que o protegem, também tem ajudado a enfrentar e a superar os seus problemas ou situações em que você se vê em dificuldade?

Os tópicos centrais da entrevista, de forma geral, visavam a identificar e a compreender os fatores de proteção. Realizou-se o total de 14 entrevistas individuais, as quais foram alcançadas considerando-se a representatividade dos sujeitos, a reincidência e a saturação das informações.11

Para garantir o caráter sigiloso das informações e dos sujeitos, na transcrição das entrevistas utilizou-se a codificação por letras, sendo "E1" refere-se à entrevista número um; "E2" refere-se à entrevista número dois, e assim sucessivamente.

Em termos de tratamento dos depoimentos, utilizou-se a análise de conteúdo na modalidade temática, desvelando-se os núcleos de sentidos,6,12 tendo como base a Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano.6,7

A escolha pelo referencial teórico proposto6-7 como suporte para a análise dos dados justifica-se por se entender que tal proposta possui um potencial explicativo na atualidade, o que explicita a indissociabilidade entre o sujeito, seu desenvolvimento e o seu contexto de vida.

A trajetória analítico-interpretativa percorreu os seguintes passos:

contato exaustivo com o material, procedendo, inicialmente, à leitura geral e compreensiva das comunicações para contato com o todo de cada entrevista, buscando as primeiras familiarizações com o conteúdo, sem, no entanto, definir classificações (leitura flutuante);

apreensão das particularidades do material gerado pela pesquisa, identificação e recorte temático dos depoimentos, acerca da seguinte questão: quais os fatores de proteção citados pelos adolescentes como meio de diminuir a sua vulnerabilidade e a que aspectos da Teoria Bioecológica esses fatores estão associados: aspectos pessoais, processuais, contextuais e/ou temporais;

organização do material, considerando critérios de exaustividade, representatividade, homogeneidade e pertinência (constituição do corpus);

determinação de palavras-chave ou frases, recortes, modalidade de codificação e conceitos teóricos a serem analisados no estudo;

exploração do material, identificando as ideias centrais de cada fala e, em seguida, encontrando os núcleos de sentido, classificando-os em temas e correlacionando os núcleos de sentidos de cada fala;

elaboração da síntese interpretativa.8,12,13

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto - USP, conforme Protocolo nº 0886/2008. Foi assegurado o anonimato da identidade dos sujeitos e solicitados, aos adolescentes participantes da pesquisa e a seus responsáveis, os consentimentos espontâneos por meio dos termos de Assentimento e Consentimento Livre e Esclarecido.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os depoimentos refletem aspectos ligados às percepções e aos significados atribuídos pelos adolescentes em relação à sua proteção. Esses significados são construídos a partir de aspectos multidirecionais e inter-relacionados, sejam eles individuais, sociais e relacionais ao longo da trajetória de vida, corroborando a Teoria Bioecológica.6 Nessa teoria, o desenvolvimento humano é definido como um conjunto de processos a partir dos quais as particularidades da pessoa e do contexto interagem dinamicamente, delineando as características da pessoa no curso de sua vida como uma construção pessoal e histórico-sociocultural.

O processo e o âmbito destacam-se nas falas dos adolescentes como mecanismos responsáveis pelo desenvolvimento, sendo este visto como as interações recíprocas progressivamente mais complexas do sujeito com as pessoas, objetos e símbolos presentes no seu ambiente imediato6,7 e são denominados processos proximais.5 Ressalta-se que, na análise das entrevistas, não foram identificados aspectos relativos ao tempo.

A partir da análise das percepções dos adolescentes acerca dos fatores protetores que são importantes para diminuir a vulnerabilidade, emergiram núcleos de sentidos que foram classificados em quatro eixos temáticos, norteadores da discussão dos resultados: conhecer para se proteger; valores humanos como fatores de proteção; proteção familiar; melhora nos atendimentos dos serviços públicos.

Conhecer para se proteger

Este eixo temático emergiu do núcleo de sentido de conhecimento que envolve a ideia de ter informações, saber e aprender, destacado pelos adolescentes como uma forma de proteção frente à vulnerabilidade, o que pode ser elucidado pelas falas:

Porque quanto mais informação, pode ajudar a resolver, a tomar uma decisão (E3).

Estar protegido, aprender a se proteger não é do dia para noite, sabe aquilo de viver e aprender acho que é por aí (E8).

O conhecimento adquirido pelo adolescente possibilitou o desenvolvimento de características cognitivas, comportamentais e emocionais, considerando ainda suas convicções, nível de atividade, temperamento, além de suas metas e motivações que produzem, dinamicamente, a maneira como ocorrem suas relações interpessoais e, consequentemente, o seu aporte desenvolvimental, gerando, então, fatores de proteção para redução da vulnerabilidade na adolescência.7

Estudos confirmam a importância do conhecimento como fator de proteção para os adolescentes e indicam o espaço escolar como um locus privilegiado para obter informações e orientações, promovendo o autocuidado e a autonomia sustentada pela criticidade, pilares esses da promoção de relações vinculares saudáveis.14-15 Em outras palavras, a escola como espaço de aprendizagem, de trocas afetivas, de socialização, de construção de autonomia e de ação protagônica pode auxiliar os adolescentes na superação de situações de vulnerabilidades.

As informações que os adolescentes adquiriram na escola, bem como por intermédio da família e amigos, ampliaram os fatores protetivos, pois essas informações e conhecimentos possibilitaram que eles tivessem escolhas, melhor compreensão de momentos vivenciados e esclarecimentos de dúvidas, auxiliando-os e protegendo-os em situações de vulnerabilidade.

Esse nível de proteção acontece no microssistema e no mesossistema, pois representa os ambientes cujos níveis de relação são proximais e sua influência é predominante, fundamentais no processo de desenvolvimento.

Valores humanos como fatores de proteção

Destacam-se, como fatores de proteção, os valores humanos envolvendo a ideia de ter respeito para serem respeitados, boas amizades e fé, como está evidenciado nas falas:

É difícil falá, mas eu acho que ter respeito pelos outros, ajuda a gente a se proteger, não sei se você entende, mas quando a gente respeita a gente é respeitado, a gente se protege, tem sempre alguém que vai te ajudar" (E10).

Muito importante para mim são os amigos, com quem eu ando, minhas amizades, meus pais sempre falam isso (E14).

O que pode ajudar na nossa proteção é entregar a vida pra Deus (E14).

Neste tema, a espiritualidade e os valores humanos compõem o macrossistema, que é formado a partir do padrão global de ideologias, crenças, valores, religiões, formas de governo, culturas, situações e acontecimentos históricos presentes no cotidiano das pessoas e que influenciam seu desenvolvimento.7 O macrossistema é influenciado pelos ambientes específicos - família, escola e amigos, mas também pelos mais amplos, como valores e ideologias. Dessa forma, a cultura e os valores transmitidos pela família, bem como pela sociedade, influenciam a formação dos adolescentes que, consequentemente, os identificam como fatores de proteção.

De acordo com os adolescentes, com a prática desses valores é possível ampliar seus fatores protetivos, sentindo-se mais fortalecidos perante situações de vulnerabilidade a que possam estar sujeitos.

Proteção familiar

A proteção familiar foi destacada pelos adolescentes na concepção do diálogo, orientação familiar e apoio familiar que se encontram expressos nas descrições que seguem:

O que me ajuda e sei que podia ajudar muita gente é conversar com os pais, isso pode proteger sim de muitos problemas (E4).

A família é importante, porque quem apoia não são as pessoas de fora, quem apoia é a família. Então por isso, que sempre que se tem um filho ou uma filha, tem que sentar e conversar (E9).

Segundo o modelo proposto pela Teoria Bioecológica,7 o componente contexto é dividido em quatro níveis ambientais que se relacionam dinamicamente, a saber: microssistema, mesossistema, exossistema e macrossistema.

O microssistema corresponde aos padrões de atividades, papéis e relações que o sujeito em desenvolvimento experimenta num determinado meio, com características físicas, materiais e particulares. Simboliza, por exemplo, a família e a escola, que são os sistemas mais imediatos com os quais a pessoa estabelece relações sociais, sendo a família a principal fonte de apoio socioafetivo da pessoa.7

A proteção familiar foi o fator protetor mais frequentemente citado pelos entrevistados, adquirindo importância na estruturação do ser e fornecendo, segundo os próprios adolescentes, elementos essenciais como apoio, carinho e proteção.

As famílias que proveem coesão, apoio, continência e estabilidade, nas quais as relações são permeadas por afeto e senso de pertencimento promovem melhor qualidade de vida, conferindo a proteção.5

Além das boas relações pessoais com familiares, relações positivas com amigos, professores, vizinhança são consideradas como fonte de proteção, pois contribuem para o desenvolvimento e manutenção da autoestima, da autoeficácia, auxiliando no enfrentamento das adversidades.16

O mesossistema compreende as inter-relações de dois ou mais meios nos quais a pessoa em desenvolvimento participa ativamente, exemplo de relações entre a família, a escola e os amigos. Nesse sentido, os adolescentes destacam os fatores relevantes em relação à vida social, à escola, aos amigos e ao trabalho.

A escola também pode ajudar a nos proteger, não só conversando com a gente, ver se a gente tá fazendo a coisa certa, mas também ensinando melhor, para que a gente possa ter cultura, saber das coisas (E11).

"A família é importante, porque quem apoia não são as pessoas de fora, quem apoia é a família. Então por isso que sempre que se tem um filho ou uma filha, tem que sentar e conversar (E9).

Acho que a gente tem que querer se proteger, a gente e os amigos, é uma opção de cada um, porque se eu não penso em mim, nos meus amigos, e eles em mim se a gente não pensa o que é bom ou ruim, aí é problema (E5).

Melhora nos atendimentos dos serviços públicos

Este núcleo temático revela fatores de proteção relacionados ao exossistema e ao macrossistema.7 Aqui o exossistema refere-se a um ou mais meios que não incluem a pessoa em desenvolvimento como participante ativo, mas nos quais se produzem acontecimentos que afetam o que acontece à sua volta. Já o macrossistema abrange os sistemas de valores e crenças que permeiam a existência das diversas culturas e que são vivenciados e assimilados no decorrer do processo de desenvolvimento.

Nesse sentido, os fatores de proteção evidenciados a partir das falas dos sujeitos foram: melhores locais de moradia; atendimento dos serviços de saúde e da escola; e segurança pública.

Acho que proteger os jovens uma coisa que vejo que precisa é proporcionar melhores locais para as famílias dos adolescentes morarem, às vezes são lugar que eles ficam em mais perigo, você entende? (E13).

Ah é preciso mais projetos sociais sobre gravidez, drogas, melhorar as escolas e os postos de saúde, nem sempre a gente consegue atendimento lá no bairro (E12).

Você sabe, precisa melhorar a segurança das pessoas, mesmo nós jovens corremos muito risco de violência, assalto, precisava a polícia apanhar mais drogas (E2).

Verificou-se que o desenvolvimento humano, na proposta ecológica,6,7 é observado a partir de mudanças duradouras na maneira como os adolescentes percebem e lidam com seu ambiente. O ambiente é considerado, nesta abordagem, como percebido, constituído de quatro níveis crescentes interarticulados, que tanto sofrem alterações decorrentes das ações dos indivíduos como influenciam o comportamento destes.

O desenvolvimento do adolescente não depende apenas das condições de proteção dentro de sua rede primária básica, no microssistema familiar, mas também da interação com o mesossistema,7 que se localiza nas redes de serviços sociocomunitários, tais como a creche, a escola, as igrejas, as organizações sociais não governamentais. Depende, também, das interações e relacionamentos interpessoais que se fazem presentes na vida social do adolescente, sendo estes importantes para o alcance de um adolescer saudável.17 O estudo demonstrou ainda que as fontes de proteção se constroem por intermédio das inter-relações do adolescente com os membros de seu contexto familiar, comunitário e escolar, caracterizando-se como centrais no processo proximal.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao tomar os relatos dos adolescentes entrevistados quanto às percepções e aos significados atribuídos aos fatores de proteção, é evidente, no decorrer deste estudo, que os eixos temáticos se aproximam e estão interligados aos componentes aqui destacados pela Teoria Bioecológica.

Considera-se necessário dar voz aos adolescentes para a identificação das fontes de proteção que auxiliam os mesmos na busca de crescimento psicossocial e na melhoria de sua saúde e qualidade de vida.

Devem ser considerados os fatores de proteção vislumbrados pelos adolescentes e fortalecê-los para a busca de espaço que garanta participação efetivamente protagônica, para gerir grandes e promissores caminhos de promoção de processos de enfrentamento às situações de vulnerabilidade.

A existência dos fatores de proteção associa-se às redes de apoio social que aconteceram entre membros da família, grupo de pares, equipes, profissionais e comunidade. O apoio social oriundo dessa rede social, por sua vez, pode potencializar a qualidade de vida, diminuindo a vulnerabilidade a que os adolescentes estão expostos.

Sustenta-se que este estudo contribui para a ciência e a prática de enfermagem, na medida em que possibilita oportunidades de aprendizagem ao discutir os fatores de proteção como um instrumento capaz de compreender as reais necessidades dos adolescentes, levando em consideração sua história de vida e com isso diminuindo a vulnerabilidade a que estão expostos. No entanto, reconhece-se que outros estudos podem ampliar o campo de conhecimento sobre o tema, problematizando o impacto dos fatores aqui listados e outros na vida dos adolescentes.

 

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