REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 19.3 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20150054

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Pesquisa

Conhecimento das puérperas com relação aos métodos não farmacológicos de alívio da dor do parto

The knowledge of puerperae about non-pharmacological methods for pain relief during childbirth

Janie Maria de Almeida1; Laís Guirao Acosta2; Marília Guizelini Pinhal3

1. Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora do Departamento de Enfermagem da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUCSP. Sorocaba, SP - Brasil
2. Enfermeira. Enfermeira assistencial da Unimed São Roque. São Roque, SP - Brasil
3. Enfermeiro. Coordenadora Ambulatórios. Ambulatório Médico de Especialidades Sorocaba - AME. Sorocaba, SP - Brasil

Endereço para correspondência

Janie Maria de Almeida
E-mail: janie@pucsp.br

Submetido em: 21/04/2015
Aprovado em: 01/09/2015

Resumo

O uso dos métodos não farmacológicos para o alívio da dor da parturiente aumenta a tolerância à dor, possibilitando benefícios para a maioria das mulheres e participação no processo parturitivo. Essas práticas têm a finalidade de tornar o parto o mais natural possível, diminuindo as intervenções e cesarianas desnecessárias e a administração de fármacos. Avaliar o conhecimento das puérperas de maternidade filantrópica em relação aos métodos de alívio da dor, verificar sua opinião e identificar a técnica mais aplicada foram os objetivos deste estudo quantitativo, com participação de 120 puérperas. As entrevistas foram realizadas durante a internação no alojamento conjunto, em fevereiro e março de 2012, e abordaram questões referentes ao perfil sociodemográfico e aos métodos não farmacológicos de alívio da dor do parto. Os resultados mostram que esse grupo é caracterizado por mães jovens, primíparas, com união estável, com escolaridade média, na maioria desempregadas, com predomínio do desfecho de parto vaginal. O conhecimento dos métodos durante todo o período gravídico é deficiente, pois somente 23% das mulheres conheciam alguma técnica para aliviar a dor no parto. A opinião delas sobre a aplicação desses métodos foi relatado com sentimentos ambíguos de alívio e intensificação da dor, porém favoreceu a evolução do trabalho de parto, pela rapidez e eficiência. A técnica mais utilizada e considerada efetiva e confortável foi o banho de chuveiro. Este estudo evidenciou que o foco da deficiência de conhecimento sobre tais métodos não está na maternidade, mas sim no pré-natal.

Palavras-chave: Conhecimento; Trabalho de Parto; Dor do Parto, Enfermagem Obstétrica.

 

INTRODUÇÃO

A maternidade é uma das mais importantes experiências na vida das mulheres, representando um conjunto de fenômenos biológicos e psicoemocionais marcantes. O parto, como episódio fisiológico, representa o ápice dos fenômenos bioquímicos, porém, para a mulher, extrapola e torna-se um evento psicoemocional, existencial, significando a transcendência, ou seja, a superação dos próprios limites.1

A partir da década de 40 do século passado, iniciou-se a hospitalização do processo de parturição. O evento saiu da esfera domiciliar para ocupar lugar nas instituições de saúde, permitindo assim a medicalização e controle do período gravídico puerperal e do parto, tornando-se um dos responsáveis pela queda da mortalidade materna e neonatal. No entanto, esse processo, ainda que asséptico e conveniente para os profissionais de saúde, representou, e ainda representa, um cenário desconhecido para a mulher.2

No bojo da incorporação dessa tecnologia, reconhece-se a sua contribuição para a qualidade da assistência obstétrica no Brasil.2,3 Essa tecnologia incluía como rotina o jejum, o isolamento da parturiente no pré-parto sem a presença de acompanhante, ausência de liberdade para deambular, intervenções desnecessárias como: o uso de indutores para acelerar o parto, episiotomia culminando com a cesárea, que caracterizam um modelo de assistência que pode perturbar e inibir o desencadeamento natural e fisiológico do parto; tornou-se sinônimo de doença e de intervenção médica, transformando-se em uma experiência marcada pela dor e impotência da mulher.

Esse modelo de intervenção no processo natural do parto foi encarado como um parto moderno, racional, sem gemidos e genitais expostos, gerando o apagamento da dimensão sexual do parir.2,3 Não surpreende que as mulheres considerem a cesárea como a melhor forma de dar à luz, sem medo, sem risco e sem dor.3

Há cinco anos, o Brasil cruzou a linha dos 50% de partos por cesárea, enquanto o recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é que apenas 15% do número total não sejam partos normais.4

Atualmente, existe um movimento mundial para a humanização do parto e nascimento, composto de grupos sociais organizados, em diferentes países, que têm se mobilizado para que ocorram mudanças em diversos aspectos da assistência obstétrica, entre eles a adoção de práticas baseadas em evidências, que inclui o suporte durante o trabalho de parto e o parto.3, 5,6

Diante desse cenário, a OMS e o Ministério da Saúde vêm propondo mudanças na assistência, incluindo o resgate do parto normal por meio de várias estratégias, entre elas, da importância da participação da família e garantia de seus direitos como cidadãos6,7, aliada à estimulação da atuação da enfermeira obstetra na assistência à gestação e parto. Trabalhos de Brüggemann5 e Amorim8 mostram que, quando acompanhadas por esses profissionais, a mulher necessita de menos analgésicos e intervenções com resultados melhores do que aqueles assistidos por médicos, já que estabelecem maior vínculo ao fornecerem suporte emocional à mulher, responsabilizando-se por identificar e avaliar a dor, notificar à equipe médica, quando necessário, e principalmente implementar métodos não farmacológicos de alívio da dor.

No tocante à temática do alívio da dor da parturiente, o uso dos métodos não farmacológicos é proposto como uma opção para substituição de analgésicos durante o trabalho de parto e o parto. Nessa perspectiva, esses cuidados são incentivados a partir da recomendação da prática de algumas ações não farmacológicas, como liberdade de adotar posturas e posições variadas, deambulação, respiração ritmada e ofegante, comandos verbais e relaxamento, banhos de chuveiro e de imersão, toque e massagens e o uso da bola. Essas práticas têm a finalidade de tornar o parto o mais natural possível, diminuindo as intervenções, cesarianas desnecessárias e a administração de fármacos.9,10

A OMS realiza recomendações para o atendimento ao parto normal e classifica os métodos não farmacológicos de alívio da dor do parto (MNFAD) como "condutas que são claramente úteis e que deveriam ser encorajadas". São estratégias utilizadas no trabalho de parto para aumentar a tolerância à dor, possibilitando benefícios para a maior parte das mulheres.10 Além disso, a não utilização da analgesia farmacológica permite à mulher mais controle sobre o processo parturitivo.

Boaretto10 e Lima e Leão11 explicam que, apesar da satisfação da mulher com o seu parto não estar relacionada à ausência da dor, deve-se lembrar de que o enfrentamento da dor é condicionado pelo ambiente e pelo suporte que ela recebe dos profissionais e acompanhantes.

As práticas mais utilizadas são classificadas em: exercícios respiratórios, relaxamento muscular, massagem lombossacral, bola de Bobat, deambulação e banho de chuveiro ou imersão, as quais podem ser utilizadas combinadas ou isoladamente.12,13

Assim, este trabalho tem como objetivo avaliar o conhecimento de puérperas em relação aos métodos não farmacológicos de alívio da dor, verificando sua opinião em relação aos métodos aplicados, e identificar a técnica mais aplicada durante o trabalho de parto dessas mães, bem como associar dados sociodemográficos com esses métodos.

 

MÉTODOS

Trata-se de estudo quantitativo, transversal, desenvolvido em maternidade-escola do município de Sorocaba, estado de São Paulo. A coleta foi realizada em fevereiro e março de 2012. São realizados aproximadamente 1.800 partos por ano, entre usuárias do SUS e assistência suplementar.14

Foram elegíveis para a pesquisa as puérperas admitidas em trabalho de parto (mesmo com desfecho em cesárea), que autorizaram sua participação no estudo a partir da assinatura no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Foram excluídas aquelas internadas em período expulsivo ou para cesárea eletiva e/ou tiveram partos fora das unidades da maternidade em questão (carro, casa, ambulância). Dessa forma, a amostra foi constituída de 120 puérperas que concordaram em participar da pesquisa.

A obtenção dos dados ocorreu por meio da aplicação de um questionário estruturado, com questões referentes ao perfil sociodemográfico e ao conhecimento e opinião das mulheres sobre métodos não farmacológicos de alívio da dor do parto (MNFAD), bem como ao momento em que receberam as orientações pertinentes. Essa abordagem foi durante a internação no alojamento conjunto.

Para a análise dos dados, foram utilizadas tabelas de contingência avaliadas mediante a estatística de qui-quadrado de Pearson (quando pertinente, obtida por meio de simulação de Monte Carlo), complementado pela análise de resíduos de qui-quadrado e o coeficiente de concordância Kendall, conforme descrito por Siegel e Castellan Júnior.15 Os resultados foram considerados significativos quando o p-valor foi inferior a 5%.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da PUC-SP, sob o parecer número CEP 1.463/SISNEP 835.

 

RESULTADOS

Os resultados mostram que esse grupo é caracterizado por mães jovens, primíparas, com união estável, com escolaridade média, na maioria desempregadas, com predomínio do desfecho de parto vaginal, conforme Tabela 1:

 

 

O conhecimento das puérperas em relação aos métodos não farmacológicos de alívio da dor foi avaliado por meio de perguntas - já ouviu falar sobre MNFAD? Sabe o que é? Como soube?

Os resultados revelaram que 23,3% das mulheres entrevistadas diziam saber sobre os métodos não farmacológicos de alívio da dor do parto e 76,7% delas desconheciam esses métodos, fato que demonstra deficiência sobre os MNFAD. Estudo de Mung'ayi que avaliou o conhecimento de mulheres sobre métodos de alívio da dor realizado em Nairóbi encontrou 56% das participantes com conhecimento sobre métodos de alívio da dor do parto.16

As mulheres que referiram ter conhecimento sobre MNFAD constituíram pequena parcela da amostra (26,5%) e esse conhecimento foi fornecido pelo profissional de saúde, na maioria dos casos.

Como forma de verificar se o conhecimento sobre o MNFAD poderia ser relacionado às variáveis sociodemográficas, foi realizado um teste de qui-quadrado para tabelas de contingência, cujos resultados estão sintetizados na Tabela 2, a seguir:

 

 

Os resultados mostram que o conhecimento sobre o MNFAD é independente para todas as variáveis sociodemográficas analisadas, ou seja, o fato de ter mais filhos, a escolaridade e tipo de parto não se relacionaram ao maior ou menor conhecimento das técnicas e métodos não farmacológicos de alívio da dor do parto.

No entanto, quando inquiridas sobre o fato de terem ouvido falar sobre o MNFAD, os resultados foram independentes para todas as variáveis (p-valores >0,05), exceto para escolaridade (Tabela 3), conforme resultado descrito a seguir:

 

 

Com base na análise de resíduos de qui-quadrado foi possível constatar que ter ouvido falar sobre o MNFAD foi independente para as respondentes com ensino fundamental completo e incompleto. Como era de se esperar, os resultados foram significativos para ensino médio completo, no sentido de que a contagem observada para "sim" foi significativamente maior que a esperada (z-escore de 2,8), o que indica mais informação nesse grupo. No entanto, para as respondentes com ensino médio incompleto, os valores foram significativos (z-escore de 2,3) no sentido de menos conhecimento do que o esperado.

Quando o conhecimento sobre os MNFADs foi avaliado por meio da leitura das opções, ou seja, as principais técnicas (exercícios respiratórios, deambulação, banho de chuveiro, bola, massagem lombo sacral, relaxamento muscular) foram lidas para as mães, buscando identificar pela lembrança, o resultado foi que as puérperas estavam a par dessas informações, apesar de não saberem que tais métodos são empregados para aliviar a dor do parto, cujos resultados estão enumerados na Tabela 4, na coluna que trata "métodos conhecidos pelas puérperas".

 

 

Esses resultados foram comparados com informações recomendadas no pré-natal e durante o trabalho de parto.

O método não farmacológico para alívio da dor do parto mais frequente entre as participantes do estudo foi o banho de chuveiro, que apareceu em 53% dos relatos das puérperas, sendo o preferido e citado como resolutivo.

A estatística W de Kendal de 0,97 (p-valor <0,001) mostra alta concordância dos métodos conhecidos e os recomendados, tanto no pré-natal quanto durante o trabalho de parto. É possível verificar que os métodos conhecidos e aqueles indicados no pré-natal e parto estão na mesma ordem de importância, ou seja: banho de chuveiro, bola, deambulação, massagem lombossacral e relaxamento muscular. Esses resultados estão na mesma direção dos achados de Gayeski, Bruggemann.17

Vale lembrar, no entanto, que os resultados estão associados somente a puérperas que manifestaram conhecer algumas técnicas, mesmo desconhecendo tratar-se de MNFAD. Existindo diferença muito grande quanto ao momento em que receberam as informações, se 79,4% das puérperas realçaram não terem recebido qualquer informação no pré-natal, esse número cai apenas para 8,6% durante o trabalho de parto.

De acordo com esses resultados, houve predomínio de 104 mulheres (79,4%), que declararam não terem recebido orientações sobre MNFAD durante o pré-natal realizado em unidades básicas de saúde. E na maternidade somente 8,6% das mulheres não receberam algum tipo de recomendação a respeito dos métodos não farmacológicos de alívio da dor do parto.

Os depoimentos de 104 puérperas não terem recebido alguma orientação sobre os MNFADs durante todo o período gestacional é preocupante, ensejando uma reflexão sobre as causas do problema relacionado à falta de conhecimento e preparo dessas mulheres quando chegam para dar à luz.

O conhecimento adquirido na maternidade durante o trabalho de parto apresentou aumento significativo, mas ao se considerar a recomendação da OMS10, a implementação de estratégias não farmacológicas para aliviar o desconforto da dor durante o trabalho de parto, a adesão a essa prática ainda tem sido influenciada pela filosofia da instituição de atendimento ao parto.18

Neste estudo, os dados mostram que o enfermeiro foi o profissional que mais orientou as parturientes sobre adotar alguma técnica para alívio da dor, aparecendo em 61% das respostas das mães, sendo que 21% delas foram orientadas por médicos e 10% por outros profissionais.

Quanto à opinião sobre os métodos e o que sentiram durante o trabalho de parto, os resultados estão sintetizados na Tabela 5 a seguir:

 

 

O número de respondentes é menor devido a algumas parturientes não terem recebido recomendações dos métodos, por restrição no leito. Algumas puérperas não avaliaram devido à rápida evolução do trabalho de parto.

Apesar de não conhecerem inicialmente os MNFADs, as mães, quando estimuladas, aderem às práticas e sentem alívio (47,1%) ou melhora (20,2%) da dor, referindo ter ajudado muito (61,5%) a aplicação de tais técnicas.

 

DISCUSSÃO

Ao avaliar o conhecimento de puérperas em relação aos métodos não farmacológicos de alívio da dor do parto, encontrou-se relevante prevalência de mães que nunca ouviram falar e que não souberam conceituar os métodos para alívio da dor. Essa situação possibilitou associá-lo a um estudo16 realizado com 202 gestantes no Quênia; entretanto, os achados revelaram melhor condição a respeito do conhecimento dos métodos, na qual 44% das gestantes entrevistadas desconheciam estratégias para alívio da dor do parto.

Estudo qualitativo exploratório desenvolvido no centro obstétrico de uma maternidade escola de Curitiba/PR19 com 10 parturientes que estiveram em trabalho de parto efetivo mostrou que das 10 entrevistadas somente cinco receberam informações sobre MNFAD, sendo que dessas cinco só uma foi orientada durante a consulta de pré-natal. O que chamou a atenção dos pesquisadores20, e que pode ser corroborado nesta pesquisa, é que a maioria das puérperas recebeu alguma orientação sobre o assunto somente no momento do parto.

O predomínio das puérperas que não receberam orientação durante todo o acompanhamento gestacional no pré-natal indica a dificuldade de comunicação existente nos serviços de saúde, seja por falta de interesse ou de credibilidade devido à deficiência de estímulo e mais divulgação quanto à eficácia dos métodos não farmacológicos de alívio da dor.19,20

Aplicar os MNFADs é uma das formas de praticar a humanização do atendimento nas maternidades22. Outra maneira é oferecer informações à gestante durante todo o período gravídico para que, no trabalho de parto e no parto, essas orientações sejam reforçadas e não inéditas, como encontrado nesta pesquisa.

Se humanizar o parto é oferecer conforto, tranquilidade e alívio da dor e as mães desconhecem esses métodos, isso implica deficiência na assistência ao processo de parturição.7

Pesquisa realizada no município de Maringá1 com dois hospitais referências para atendimento ao parto mostrou que a equipe de enfermagem foi a categoria que utilizou com mais frequência os métodos não farmacológicos de alívio da dor, em contraste com a equipe médica, o que se assemelha a este estudo, corroborado por Pereira.22

Nesta pesquisa, o enfermeiro foi o profissional que mais recomendou os MNFADs às parturientes, coincidente com o estudo20 que encontrou 71% das mães utilizando MNFAD a partir da orientação e recomendação da equipe de enfermagem, sendo que somente 21% foram auxiliadas pela equipe médica. Esses resultados são evidenciados em estudos que revelam a assistência do enfermeiro norteada pelos aspectos fisiológicos, emocionais e socioculturais do processo reprodutivo.6,7,19

Ao identificar a técnica para alívio da dor mais aplicada durante o trabalho de parto, o banho de chuveiro foi referido como o método mais aplicado, que encontra amparo na literatura, a qual tem demonstrado que entre os MNFADs mais utilizados estão o banho de chuveiro, a deambulação e a massagem lombossacral, relaxamento muscular e dos exercícios respiratórios de forma combinada ou isolada, sendo efetivos no alívio e conforto da dor de parturientes em trabalho de parto em sua fase ativa.22,23, 24

Esse benefício também foi considerado pelas mães entrevistadas como mais resolutivo para o momento do parto, já que promoveu relaxamento e alívio durante o trabalho de parto.23,24,25

Embora a opinião das mães sobre a aplicação de MNFAD enseje melhoria da dor do parto, também houve descrição de considerável piora da dor. Essas percepções divergentes indicam que foi bom ter piorado a intensidade das contrações, pois ajudou na evolução e rapidez do trabalho de parto.21

Diante de um cenário no qual as informações sobre o alívio da dor do parto e os cuidados não farmacológicos não são disseminados e valorizados1,7, não é de se surpreender que a maioria das mulheres desconheça essas técnicas, cujos resultados foram independentes para todas as variáveis sociodemográficas, o que significa dizer que o conhecimento ou não dessas técnicas não tem relação nem mesmo com a escolaridade da gestante.

No entanto, quando inquiridas sobre se ouviram falar sobre o MNFAD, tanto aquelas com menos escolaridade quanto com escolaridade superior manifestaram mais conhecimento, ao contrário do baixo conhecimento entre as de nível incompleto.

Uma hipótese para essa situação, que necessitaria de estudos mais aprofundados para sua comprovação, seria associar a escolaridade à renda e, por conseguinte, ao tipo de parto dentro da faixa de renda. A realidade brasileira4 demonstra que as mulheres de baixa renda (escolaridade) estão em contato com o cenário do parto normal, o que explica pelo menos "terem ouvido falar" sobre MNFAD. De outro modo, ainda que seja reduzida a proporção de partos normais, bem como a paridade para as mulheres de mais escolaridade, ouvir falar pode estar relacionado ao acesso às informações dessas gestantes. Finalmente, a falta de informação na escolaridade média pode ser explicada pelo pouco acesso à informação.

As limitações deste estudo estão relacionadas a uma instituição específica, com um único grupo de mulheres e em curto período, o que pode dificultar generalizações.

Os resultados encontrados podem estimular pesquisas equivalentes em outras maternidades, a fim de revelar o conhecimento das mulheres sobre o MNFAD e fomentar uma assistência humanizada durante o trabalho de parto.

 

CONCLUSÕES

Ao concluir a discussão dos resultados obtidos neste estudo, que abordou os métodos para aliviar a dor do parto, foi possível concluir que: o conhecimento dos MNFADs durante todo o período gravídico é deficiente, pois foi baixo o número de mulheres que conheciam alguma técnica não farmacológica para aliviar a dor no parto.

Durante o pré-natal, as depoentes passaram por consultas médicas e de enfermagem e não foram informadas quanto aos métodos existentes que auxiliam no trabalho de parto. Algumas mulheres já tinham ouvido falar por meio da mídia e amigos/parentes, mas quando perguntadas se conheciam alguma estratégia de alívio da dor, a resposta era negativa.

Este estudo evidenciou que o foco da deficiência de conhecimento sobre métodos não farmacológicos de alívio da dor do parto não está na maternidade, mas sim no pré-natal realizado pelas mulheres entrevistadas, de forma independente das variáveis estudadas, exceto para escolaridade.

A maternidade pesquisada adota as recomendações da OMS, pois as puérperas foram estimuladas para as práticas sobre os MNFADs no trabalho de parto, com a primazia do enfermeiro nessas orientações.

A opinião das mulheres foi marcada pela ambiguidade, uma vez que relataram o aumento das contrações, o que influenciou na evolução e rapidez durante o trabalho de parto. A técnica mais utilizada, considerada eficiente e confortável, foi o banho de chuveiro, que reduziu o tempo do trabalho de parto e amenizou a sensação de dor, provocando relaxamento nas parturientes.

As implicações dos achados deste estudo poderão incrementar a discussão para a melhoria e aperfeiçoamento da assistência ao trabalho de parto, pois investiga o conhecimento e a opinião das puérperas em relação aos MNFADs no contexto de estímulo ao parto normal.

Considerando que a aplicação dos MNFADs contribui para o alívio da dor no trabalho de parto, é importante estimular a adoção e implementação dessas técnicas junto aos profissionais que atendem a mulher, principalmente, durante o acompanhamento pré-natal.

 

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