REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 19.4 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20150071

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Pesquisa

Gerenciamento de risco: percepção de enfermeiros em dois hospitais do sul de Minas Gerais, Brasil

Management: perception of nurses of two hospitals in the south of the state of Minas Gerais, Brazil

Cibele Leite Siqueira1; Chayenne de Carvalho e Silva2; Jamille Keila Neves Teles2; Liliane Bauer Feldman3

1. Enfermeira. Mestre em Ciências da Saúde. Doutoranda do Programa de Pós Graduação da Faculdade de Enfermagem da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP. Professora titular da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais campus Poços de Caldas. Poços de Caldas, MG - Brasil
2. Acadêmica do Curso de Graduação em Enfermagem da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais campus Poços de Caldas. Poços de Caldas, MG - Brasil
3. Enfermeira. Doutora em Ciência. Professora titular do Centro Universitário São Camilo. São Paulo, SP - Brasil

Endereço para correspondência

Cibele Leite Siqueira
E-mail: cibsiq@gmail.com

Submetido em: 14/07/2015
Aprovado em: 05/10/2015

Resumo

O gerenciamento de risco vem sendo utilizado pelas organizações de saúde como um processo investigativo e técnico-científico para alcançar a qualidade da prestação de serviços e a segurança dos pacientes e dos profissionais de saúde. Este estudo objetivou compreender a percepção dos enfermeiros acerca do gerenciamento de risco hospitalar e analisar as dificuldades e facilidades encontradas. Trata-se de um estudo com abordagem qualitativa, de caráter exploratório, descritivo, com a participação de 29 enfermeiros assistenciais e gerenciais de dois hospitais de caráter privado e de grande porte localizado no interior de Minas Gerais. As entrevistas foram audiogravadas, utilizando-se roteiro semiestruturado. Os dados foram submetidos à técnica de análise de conteúdo, resultando em cinco categorias: deficiência na conceituação do gerenciamento de risco, gerenciamento de risco qualificando a assistência, necessidade de mudança de cultura para operacionalização do gerenciamento de risco, o gerenciamento de risco percebido como notificação e os recursos humanos influenciando no gerenciamento de risco. Os resultados mostraram que os enfermeiros relacionam o gerenciamento de risco como ferramenta de qualidade e segurança na assistência ao paciente. Constatou-se que, mesmo havendo a comunicação dos eventos adversos, muitas vezes há subnotificação por falta de tempo no preenchimento dos formulários, sobrecarga de trabalho, medo da represália e punição mediante o erro. A sensibilização da equipe, os programas de educação permanente e o apoio diretivo são estratégias sugeridas para avançar nos processos de trabalho.

Palavras-chave: Gestão de Risco; Segurança do Paciente; Cuidados de Enfermagem; Assistência Hospitalar; Qualidade da Assistência à Saúde.

 

INTRODUÇÃO

A qualidade na prestação de serviços em saúde tem sido amplamente discutida, com vistas a garantir e assegurar que o cuidado prestado proceda de forma eficiente, livre de erros e falhas e que estejam dentro dos padrões de qualidade estabelecidos.1

Para que o paciente receba uma assistência de excelência, é imperativa a aplicação do gerenciamento de risco (GR). Gerenciamento de risco é a aplicação sistemática de políticas de gestão, procedimentos, condutas e ações, para análise, avaliação, controle e monitoramento de risco e eventos adversos, de forma sistemática e contínua, que afetam a segurança, a saúde do paciente e, consequentemente, a imagem institucional.2

As ações a favor da segurança tiveram início na década de 90, após a publicação do relatório do Institute of Medicine dos Estados Unidos da América, que apresentou resultados críticos sobre a situação da assistência à saúde daquele país.3

No Brasil, o GR foi expandido em 2001 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), no projeto Hospitais-Sentinela. Seu objetivo foi elaborar estratégias para minimizar eventos adversos na prática clínica, na rede desses hospitais.4,5

A partir daí, várias estratégias foram sendo construídas, tendo em 2004 a Aliança Mundial para a Segurança do Paciente implantado os Desafios Globais sobre a Infecção Relacionada à Assistência à Saúde, a Segurança da Assistência Cirúrgica; e em 2014-2015, Enfrentando a Resistência Antimicrobiana.1 Essa preocupação com a qualidade da assistência, processos e tecnologias utilizadas em serviços de saúde deixou de ser um privilégio e passou a ser um tema relevante e questão de primazia na agenda de diversas entidades, como da Organização Mundial da Saúde (OMS), em prol de ações voltadas para a segurança do paciente.3

Nos países desenvolvidos, os erros relacionados à assistência hospitalar ocorrem entre 5 e 15% das admissões hospitalares. As principais causas desses erros estão relacionadas a defeitos no sistema, ausência de barreiras de segurança eficazes e de processos padronizados, sobrecarga de trabalho e repetição de tarefas.6

Considera-se que o GR é a mola mestra para obter condições adequadas no quesito assistência e oferta de trabalho seguro. Para a implantação, são necessários a execução sistemática das estratégias de gestão organizacional, a integração de todos os processos de cuidado, o uso de melhores evidências, transparência, responsabilização, criação de cultura de segurança, sensibilização, atitude de reagir as mudança e prevenir danos.2,7

Assim, percebe-se a necessidade de estudos que possam aprofundar o tema, visto que se está a cada dia incorporando novas tecnologias e recursos em saúde. Desse modo, as ações nessa área têm se tornado mais complexas e passíveis de risco, que podem ocasionar erros, danos ou perda pessoal, material, moral, patrimonial e de prestígio organizacional. Destarte, a questão que norteou este estudo foi averiguar como o enfermeiro percebe o gerenciamento de risco hospitalar.

Para isso, foram traçados os seguintes objetivos: conhecer a percepção dos enfermeiros acerca do gerenciamento de risco e analisar as dificuldades e facilidades encontradas para a operacionalização do gerenciamento de risco hospitalar.

 

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa de campo qualitativa, que se aplica ao estudo das relações, representações, crenças, percepções e opiniões de grupos pela interpretação que os seres humanos fazem a respeito de si mesmos e como sentem e pensam.8

O estudo foi realizado em dois hospitais. Um privado, de natureza filantrópica, de grande porte, com 159 leitos, nomeado pela letra A. O outro, também de grande porte, com 102 leitos, privado e acreditado nível 1 pela Organização Nacional de Acreditação (ONA), nomeado pela letra B. Ambos são localizados na cidade de Poços de Caldas no sul de Minas Gerais. Optou-se em estudar duas realidades distintas, sendo um hospital que trabalha na lógica do Sistema Único de Saúde (SUS) e outro com saúde suplementar. Foram encaminhadas cartas de autorização às respectivas instituições de saúde.

A população foi constituída por enfermeiros em atividades gerenciais e assistenciais das respectivas instituições de saúde, que atenderam aos seguintes critérios de inclusão: enfermeiros com mais de seis meses de atuação, que estavam presentes no momento da pesquisa e que concordaram em participar do estudo mediante assinatura no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Previamente à coleta, os participantes foram informados via e-mail pelas enfermeiras responsáveis técnicas (RTs) das instituições sobre o objetivo do estudo, assim como da técnica de coleta de dados. As RTs disponibilizaram uma lista com os nomes, setores e horários de trabalho dos enfermeiros, sendo posteriormente utilizada para entrar em contato com os sujeitos.

A amostra constituiu-se de 16 enfermeiros do Hospital A e 13 do Hospital B, totalizando 29 enfermeiros. A coleta de dados foi feita no próprio local de trabalho dos participantes, nos meses de março e abril de 2015, de acordo com a disponibilidade.

Para a coleta de dados, utilizou-se a técnica de entrevista semiestruturada e foi efetuada somente uma entrevista com cada participante. Não houve perdas na composição da amostra; todos os sujeitos aceitaram participar do estudo. A entrevista foi composta de duas partes, sendo a primeira a descrição sociodemográfica e profissional dos sujeitos e a segunda parte, composta de questões claras e flexíveis sobre a percepção dos enfermeiros em relação ao GR hospitalar. As questões disparadoras foram: descreva como você percebe a auditoria em enfermagem e o que dificulta e o que facilita essa atividade. As entrevistas foram realizadas individualmente, em lugar escolhido pelo próprio profissional, dentro das dependências do hospital, proporcionando mais privacidade. A coleta de dados findou quando houve a saturação dos dados, que é a compreensão, por parte do pesquisador, sobre a lógica interna do grupo que está estudando8.

As falas dos participantes foram gravadas, sendo posteriormente transcritas pelas próprias pesquisadoras, garantindo o sigilo e a confidencialidade dos sujeitos. Os nomes dos participantes foram substituídos pelas letras E de enfermeiro seguida das letras A ou B correspondentes a cada hospital e o número em ordem crescente das entrevistas.

Os dados foram avaliados pela análise temática de conteúdo, com base no referencial teórico de Minayo, que permite tornar replicáveis e válidas inferências sobre dados de determinado contexto, por meio de procedimentos especializados e científicos. Foram cumpridas as etapas de pré-análise, exploração do material e o tratamento e interpretação dos resultados.8 Cabe salientar que um pré-teste foi feito no intuito de verificar a pertinência do instrumento, não sendo necessária sua reestruturação.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais sob o nº CAAE 38488214.4.0000.5137. As instituições de saúde autorizaram a coleta de dados e todos os participantes assinaram o TCLE.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os participantes do hospital A quanto à faixa etária eram oito (47,05%) de 20 a 30, sete (41,17%) de 31 a 40 anos e um (5,88%) de 41 a 50 anos, predominando o sexo feminino (16=100%). Quanto às especializações cursadas, verificou-se que cinco (29,41%) profissionais possuíam especialização em alta complexidade e Unidade de Terapia Intensiva (UTI), quatro (23,52%) em Oncologia, seguido por dois (11,76%) em Gestão Hospitalar, dois (11,76%) em Urgência e Emergência, dois (11,76%) em Cardiologia e dois (11,76%) em Neonatologia e Obstetrícia, um (5,88%) em Enfermagem do Trabalho, um (5,88%) em Nefrologia, um (5,88%) em Programa de Saúde da Família, um (5,88%) em Auditoria, um (5,88%) em Cuidados Intensivos, e um (5,88%) em Controle de Infecção Hospitalar. Cabe ressaltar que alguns enfermeiros tinham mais de uma especialização. Destacou-se um (5,88%) sujeito com mestrado em qualidade de vida e desenvolvimento sustentável e um (5,88%) que não fez especialização.

Em relação ao tempo de formação, verificou-se que cinco (29,41%) enfermeiros formaram-se entre um e cinco anos, oito (47,05%) de cinco a 10, e três (17,64%) entre 10 e 15 anos.

No hospital B, quanto ao sexo, nove (69,23%) eram do sexo feminino e quatro (30,76%) do sexo masculino. Quanto à faixa etária, quatro enfermeiros (30,76%) tinham 20 a 30 anos, oito (61,53%) 31 a 40 anos e um (7,69%) 41 a 50 anos. Quanto à pós-graduação, cinco (38,45%) profissionais possuíam especialização em Alta Complexidade e UTI, dois (15,38%) em Urgência e Emergência, dois (15,38%) em Gestão Hospitalar, um (7,69%) em Centro Cirúrgico, Central de Material e Esterilização, um (7,69%) em Nefrologia, um (7,69%) em Oncologia, um (7,69%) em Cuidados Paliativos e um (7,69%) em Serviço de Controle de Infecção Hospitalar. Destaca-se um (7,69%) sujeito que está cursando a pós-graduação. Do mesmo modo que no hospital A, alguns enfermeiros tinham mais de uma especialização.

Em relação ao tempo de formação em Enfermagem, verificou- se que oito (61,53%) formaram-se há cinco anos, quatro (30,76%) entre cinco e 10 anos e um (7,69%) entre 10 e 15 anos.

Em ambas as instituições foram identificadas escalas de trabalho diária de 12 por 36 horas e de oito horas, variando a carga de trabalho semanal de 42 a 84 horas. Quatro enfermeiros tinham duplo vínculo empregatício tanto no Hospital A quanto no B.

Ao final da exploração do conteúdo das entrevistas, foram encontradas três categorias comuns aos dois hospitais: deficiência na conceituação do gerenciamento de risco, gerenciamento de risco qualificando a assistência e necessidade de mudança de cultura para operacionalização do gerenciamento de risco. Apreenderam-se no Hospital A duas categorias: o gerenciamento de risco percebido como notificação e recursos humanos influenciando no gerenciamento de risco.

 

DEFICIÊNCIA NA CONCEITUAÇÃO DO GERENCIAMENTO DE RISCO

Os sujeitos do estudo, quando indagados como percebem o GR na sua prática, não conseguem elaborar um conceito sobre o tema. Eles relacionavam o conceito de GR como ferramenta para melhoria da qualidade do trabalho, como meio para oferecer assistência segura e uma forma de barrar erros que são comuns, sem causar danos ao paciente e ao funcionário. Também foram exemplificados os riscos relacionados à assistência de enfermagem, sendo eles: flebite, queda, perda de dispositivos, úlcera por pressão, erro de medicação, alergia e broncoaspiração.

As falas a seguir confirmam essa ideia:

"O gerenciamento de risco é a gente, [...] manter um controle [...] dos cuidados [...] de todo o serviço que a gente presta pro paciente, pra que ele não sofra nenhum tipo de risco. No caso, os que a gente trabalha aqui na instituição, a gente gerencia o risco de queda, de flebite, de úlcera [...]" (EA3).

"O gerenciamento de risco eu vejo como uma ferramenta de qualidade aqui dentro da instituição, [...] que é capaz de gerenciar [...] vários riscos em todas as unidades, com o intuito, assim, de melhorar mesmo a qualidade da... da assistência ao (ao paciente) [...]" (EB12).

Esses relatos diferem do conceito apresentado na literatura, que define o GR como a aplicação sistêmica e contínua de políticas, procedimentos, condutas e recursos na avaliação e controle de riscos e eventos adversos que afetam a segurança, a saúde humana, a integridade profissional, o meio ambiente e a imagem institucional.9,10 Muitas vezes há equívoco entre o que se executa no gerenciamento da qualidade e no GR, necessitando de clareza conceitual e prática.

O conhecimento tem papel fundamental na assistência de enfermagem, pois ainda que o enfermeiro não tenha clareza no conceito, ele sabe que "gerenciar riscos... para o paciente não sofrer danos" é vital e isso é considerado um dinamizador das suas atividades no processo de trabalho. Assim, é necessário deter aprendizado e adotar atitude preventiva junto com a equipe, para a identificação de fatores potenciais de risco e fragilidades nos processos que contribuem para a ocorrência de incidentes9

Por ser o enfermeiro líder de sua equipe, ele é o elemento-chave com competência para coordenar e gerenciar todas as etapas do cuidado junto ao paciente e a gestão organizacional, ao mesmo tempo em que oferece credibilidade e engajamento ao programa de qualidade e de gerenciamento de risco. O programa de qualidade é direcionado para a resolução das não conformidades e busca da excelência, enquanto que o programa de segurança é focado na prevenção de riscos e minimização de danos.9 Ambos fazem o salvamento de vidas.

Na fala de EA6 há a percepção do GR como segurança da assistência para o paciente e funcionário.

"Eu acho que são as condutas que a gente toma pra poder fornecer pro paciente uma assistência segura, não só pro paciente, mas também pro funcionário, pra que tudo no hospital ocorra de uma forma a barrar erros" (EA6).

Em estudo realizado com enfermeiros do maior hospital da rede pública de Fortaleza-Ceará, observou-se que os enfermeiros conseguem identificar os principais riscos aos quais os pacientes sob seus cuidados estão expostos (físicos, químicos, assistenciais, clínicos e institucionais), que devem ser alvo de atenção. Essa atitude de identificação compartilhada dos riscos pode ser considerada o passo inicial para o estabelecimento da cultura de segurança.11

Com a associação do conhecimento e as melhores práticas do GR, os enfermeiros poderão otimizar os processos do cuidado por barreiras implantadas e engajar a sua equipe para melhorar o desempenho no tocante aos aspectos da prevenção de danos que podem afetar o paciente, os colaboradores, o meio ambiente e a organização.

Percebeu-se nos discursos a preocupação com a existência do risco assistencial a que os pacientes estão sujeitos durante o cuidado de enfermagem. Porém, a maioria dos entrevistados desconhece os diferentes tipos de riscos. Os riscos a que os profissionais estão expostos são: profissional, ambiental, institucional, financeiro, social e que estão intimamente relacionados ao processo de trabalho e à responsabilidade civil do enfermeiro.9

Percebeu-se ainda que nenhum sujeito compreende a importância da sistematização das ações para o GR.

 

GERENCIAMENTO DE RISCO QUALIFICANDO A ASSISTÊNCIA

O GR representa uma das principais estratégias para identificar precocemente situações perigosas, além de fornecer o suporte e informações necessárias para a tomada de decisão com o foco na atitude assertiva e no desempenho seguro nos serviços.12

Nesse aspecto, o enfermeiro gestor se torna um agente facilitador e motivador na implantação de ações que visem ao alcance dos resultados e ao envolvimento de todos no processo, atuando de forma segura, qualificada e competente. Para atender a essas necessidades e expectativas, torna-se imperativo o estabelecimento de políticas de gestão, disponibilidade de recursos estruturais, planos de ação e comunicação eficaz.

Nessa categoria foi possível perceber, nos relatos, as mudanças ocorridas na atuação profissional, revelando mais facilidade para prestar assistência com qualidade, assim como adequação e melhoria dos processos após a implantação do GR.

''[...] Melhorou! A qualidade do serviço melhorou [...]" (ao falar da implementação do gerenciamento de risco) (EA1).

"[...] o benefício que a gente teve foi que a gente hoje consegue gerenciar nosso trabalho e a qualidade do nosso serviço prestado aos pacientes" (EB11).

A adoção de boas práticas e dos protocolos favorece a efetividade dos cuidados e a sistematização dos processos de saúde nas instituições hospitalares. Durante a pesquisa foi possível verificar que no hospital B existe preocupação da enfermagem em utilizar indicadores da assistência, protocolos padronizados e procedimentos sistematizados como importante instrumento gerencial e de avaliação da qualidade da assistência de enfermagem. Na admissão do paciente são identificados os riscos assistenciais, sendo o risco de queda, flebite, úlcera de pressão (UPP) e alergia representados por adesivos coloridos anexados ao prontuário do paciente e na cabeceira do leito.

"[...] Identificar é... No leito aqui ele tem risco de queda, lá no prontuário a gente tem esse caderno aqui, então a gente identifica" (EB2).

"[...] vejo só facilidade porque a gente tá sempre é identificando o risco de alergia, queda, os riscos assistenciais [...] identificados, fica mais fácil pra gente [...] prestar uma assistência segura pro paciente" (EB9).

Como expresso por EB2, outro estudo indica que o prontuário do paciente é um instrumento relevante para a comunicação e rastreamento de eventos adversos, possibilitando conhecer causas e traçar estratégias para preveni-los.13 Além disso, possibilita atuar de forma preventiva, eficiente e que visa à minimização da ocorrência de falhas, por meio de protocolos e procedimentos que garantam assistência de modo seguro em todas as etapas do cuidado.

Destaca-se que os indicadores citados foram criados por enfermeiros gestores de vários hospitais e publicado pelo Manual do Núcleo de Apoio a Gestão Hospitalar (NAGEH).14

A gestão de risco vem como um aliado das organizações de saúde, pois fornece subsídios para que os gestores tomem decisões necessárias para proporcionar um ambiente seguro aos usuários e aos profissionais da área e melhorar a assistência prestada.12

 

NECESSIDADE DE MUDANÇA DE CULTURA PARA OPERACIONALIZAÇÃO DO GERENCIAMENTO DE RISCO

A cultura de segurança é definida como o produto de valores, atitudes, competências e padrões de comportamento individuais e de grupo, os quais determinam o compromisso, o estilo e a proficiência da administração de uma organização saudável e segura.15

Nessa categoria, percebeu-se que os enfermeiros entendem a cultura organizacional como um fator crítico, devido ao processo lento no que se refere à melhoria. As falas ainda denotam um paradigma de punição e ocultação do erro, devido à preocupação com o fato de o registro poder ser usado contra o próprio profissional. Sabe-se que um ambiente organizado e livre da cultura punitiva garante o sucesso na assistência segura ao paciente.

"[...] é o processo identificado mesmo que é na verdade uma cultura organizacional onde a gente encontra essa dificuldade, mas que a gente não desiste, a gente tenta cada dia melhorar e modificar, não é?[...]" (EA2).

Os processos educativos, para prevenção e controle de erros, ainda precisam ser feitos de forma libertadora e participativa, deixando-os livres, sem opressão à comunicação, por meio de estratégias que valorizem a participação ativa, não apenas repassando protocolos e normas. Só assim pode ser possível a mudança de atitude dos profissionais.16

"[...] as pessoas ainda têm a cultura de que se ela fala, se ela conta, ela vai ser punida, não é? Então, a gente começa o trabalho. A hora que você começa a desenvolver o trabalho, aí às vezes dá uma queda, não é? [...]" (EA12).

EA12 percebe o GR ainda como punição, contrariando a nova cultura a ser adotada nas instituições de saúde.

Estudo realizado em dois hospitais de grande porte, localizados no estado de Minas Gerais e Rio de Janeiro, evidenciou que a cultura de segurança do paciente na amostra brasileira se apresenta como uma cultura punitiva frente à ocorrência de erros.15 Alcançar uma cultura de segurança requer desenvolvimento de valores, crenças e princípios, ou seja, normas que regem e revelam a empresa e como ela procede nesse âmbito.

O GR deve fazer parte da filosofia de gestão e, para isso, é necessário o estabelecimento de uma política administrativa eficaz, com o objetivo de formar líderes competentes e dar incentivo aos talentos, à excelência da qualidade, além de buscar a prevenção e segurança.9

As falas de EB6 e EB12 confirmam que a instituição tem uma filosofia que precisa de mudanças e sugerem que a sensibilização é um caminho.

"[...] a implantação fica um pouco mais dificultosa por causa da aceitação, não é? Porque tem muito profissional que já vem com uma mentalidade antiga [...]" (EB6).

"[...] Olha, o que dificulta na verdade eu acho que é a falta de sensibilização mesmo das pessoas, de entender o que é gerenciamento de risco, porque às vezes eles não notificam, [...]. Mais aí eu vou dedurar o funcionário, vou dedurar meu amigo, não é? Eu vou falar o erro do outro e não é isso. Então, acho que é isso que tem que colocar na cabeça deles, não é apontar o erro do outro, fazendo uma notificação [...]" (EB12).

No Brasil, propostas relacionadas à segurança do paciente foram publicadas na Portaria nº 529/abril de 2013 do Ministério da Saúde, na qual foram definidas estratégias de implantação, a participação diretiva efetiva e o envolvimento do paciente na prevenção de incidentes. 17

As instituições de saúde necessitam superar a tradicional cultura de culpa e castigo, incentivando o relato da notificação e o aprendizado por meio de falhas. Para atuar com qualidade é vital a avaliação dos serviços; e para a prevenção dos perigos, difundir para a equipe a importância em detectá-los, sendo este um dos meios para gerenciar os riscos.12,18

 

O GERENCIAMENTO DE RISCO PERCEBIDO COMO NOTIFICAÇÃO

A notificação é um importante instrumento de medida preventiva, estando diretamente relacionada ao GR, pois identificar e investigar o erro possibilita a realização de novos treinamentos para que as falhas não ocorram novamente.13

Os sistemas de notificação de incidentes, com foco na segurança do paciente, têm sido amplamente utilizados pelas instituições, objetivando a identificação e a análise consistente dos eventos adversos, além da divulgação de informações para promover ações educativas, a prevenção de riscos e minimização de danos com foco na segurança.

Durante a coleta de dados, foram identificadas sete unidades de registro que demonstram o GR como um instrumento de notificação e não como uma etapa essencial do GR.

Notificação é uma comunicação feita por profissionais, a fim de relatar o aparecimento de queixas técnicas e/ou eventos adversos relacionados a produtos ou medicamentos.19

"[...] as notificações [...] nós trabalhamos para melhorias, não é? Então, por exemplo, uma perda de sonda nasoentérica, a gente faz o gerenciamento de risco, uma medicação que não é administrada no paciente, um antibiótico que não é administrado, então nós fazemos a notificação [...]" (EA4).

[...] Tudo que você notifica tem uma melhora, tudo que você vê e não notifica... Se não se faz nada não tem como melhorar [. ] Então, todo processo tem que ser catalogado, ele tem que ser notificado, então pra melhoria [...]"(EB6).

Pelas falas de EA4 e EA6 é possível perceber forte associação da notificação com a melhoria da qualidade da assistência.

Estudo realizado num hospital de ensino do interior do estado de São Paulo constatou que os profissionais, em seus depoimentos, entendem a notificação de eventos adversos como um instrumento de auxílio à gestão do cuidado à saúde, na identificação do problema e na busca de alternativas para solucionar problemas relacionados à assistência.20

A notificação consiste em um instrumento de trabalho padronizado na instituição que segue protocolos próprios de preenchimento e de ação diante do acontecido. Percebe-se nos discursos que, após a notificação, os formulários são encaminhados ao setor de comissão de gestão de risco e, em seguida, designada a educação continuada da equipe de enfermagem, com a finalidade de agregar novos conhecimentos e habilidades.

"[...] toda vez que a gente notifica um evento, a gente tem que fazer educação permanente, então, assim, nosso número de educação permanente aumenta muito mais, a gente tá cobrando muito mais dos técnicos [...]" (EA5).

Os registros de incidentes devem ser utilizados não apenas como meio de informação, mas como meio de assegurar aos profissionais da saúde, especialmente à equipe de enfermagem, um recurso de comunicação prático a respeito desses fatos inesperados e indesejados, possibilitando a exploração das situações, a construção de um banco de dados e a execução das modificações necessárias ou oportunas no processo da assistência.11

 

OS RECURSOS HUMANOS INFLUENCIANDO NO GERENCIAMENTO DE RISCO

A percepção dos sujeitos do hospital A sobre o GR parece ter forte relação com o dimensionamento inadequado de pessoal de enfermagem e a alta rotatividade, e esses fatores interferem na sua operacionalização. EA6 demonstra claramente tal fato em sua fala.

"[...] dificulta ter que preencher o papel, porque aqui você vê que a gente trabalha em poucos enfermeiros, o setor aqui tem 42 pacientes e um enfermeiro. Então, pra ele parar o serviço dele pra preencher um papel, pra fazer uma notificação, às vezes as notificações passam batidas [...]" (EA6).

Os aspectos quantitativos dos profissionais de enfermagem nas instituições de saúde interferem diretamente na garantia da segurança dos procedimentos, na qualidade da assistência ao cliente, na continuidade da vigília e na atenção da equipe de enfermagem. 21

Os achados deste estudo coincidem com estudo realizado em hospitais brasileiros em que os profissionais responsáveis direta ou indiretamente com o cuidado do paciente afirmam lidar com cargas excessivas de trabalho e recursos humanos insuficientes em suas atividades laborais diárias.15

O dimensionamento incorreto da equipe de enfermagem é um dos fatores para a ocorrência das frequentes subnotificações de eventos adversos na instituição. Tal realidade prejudica a análise dos riscos e eventos ocorridos e a implantação de melhorias e compromete a efetividade dos cuidados de enfermagem e o seu gerenciamento de modo seguro.

Outro aspecto relevante mencionado pelos profissionais é a grande rotatividade de profissionais em curto período de tempo.

"As pessoas é... começam a notificar, aí muda muito a equipe... do ano passado pra esse ano é..., a nossa equipe de enfermagem mudou muito, não é? Assim, a rotatividade dos técnicos tem sido muito grande dentro do nosso hospital. Então, isso... descaracteriza um pouco o serviço" (EA12).

A rotatividade pode ser definida como o volume de pessoas que ingressam e saem da instituição ou quando esse processo ocorre internamente entre as unidades da instituição.22

As causas da alta rotatividade do pessoal de enfermagem, segundo a literatura, ocorrem devido à baixa remuneração aplicada ou às condições de trabalho e elevado nível de estresse na instituição.23 Não foi objeto deste estudo conhecer as causas da rotatividade de pessoal, porém percebeu-se que EA12 identifica a alta rotatividade como uma das dificuldades para a operacionalização do GR. A rotatividade traz graves efeitos negativos na assistência de enfermagem, comprometendo a qualidade da assistência. Cabe aos diretores diagnosticar o que provoca desvios para a rotatividade e criar meios de superá-la.

Destaca-se que os achados deste estudo limitaram-se à percepção do GR pelos enfermeiros lotados nas respectivas instituições, o que gerou impacto e possibilitou a tomada de decisões estratégicas. Entretanto, sugere-se a expansão do estudo com a realização de pesquisas futuras, inclusive em outras regiões, possibilitando ampliar a discussão na perspectiva de outros enfermeiros.

 

CONCLUSÃO

Neste estudo, foi possível conhecer como os enfermeiros percebem o GR em dois hospitais de Minas Gerais. O GR foi conceituado pelos enfermeiros de maneira equivocada, pois misturam o conceito de qualidade com o de segurança. Contudo, sabem que se trata de gerenciar riscos para o paciente não sofrer danos, o que serve como barreira para prevenir eventos adversos e é uma ferramenta estratégica, beneficiando o cuidado e o serviço prestado.

O GR vem sendo usado como um processo analítico, preventivo e normativo para melhorar o desempenho nas organizações de saúde e subsidiar a tomada de decisão por parte dos gestores, inclusive no monitoramento dos indicadores de enfermagem. Entretanto, a cultura do GR é vista como fator crítico oriundo do processo lento no tocante às melhorias estruturais e devido ao paradigma da punição, acusação do erro e subnotificações.

Observou-se que, mesmo havendo a comunicação dos eventos adversos, muitas vezes são subnotificados, por falta de tempo para preenchimento dos formulários, sobrecarga de trabalho, além do medo da represália por conta do erro.

Percebeu-se a interferência no GR gerado pela rotatividade e ou inadequação dos recursos humanos compatíveis com a complexidade do cuidado e ou mal dimensionados. Esses são fatores potenciais de risco para a ocorrência de incidentes e mortes preveníveis.

Evidencia-se a necessidade de refletir sobre o impacto do evento adverso no profissional, repensar a retenção dos talentos nos hospitais, analisar o custo das mortes gerado pela falta do GR efetivo, as falhas de comunicação e, sobretudo, da lentidão das respostas.

 

REFERÊNCIAS

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