REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 20:e966 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20160036

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Pesquisa

Estratégias de coping utilizadas por trabalhadores de enfermagem em terapia intensiva neonatal

Coping strategies used by nursing professionals in neonatal intensive care

Fernanda de Moraes1; Eliane Raquel Rieth Benetti2; Gerli Elenise Gehrke Herr3; Mariléia Stube4; Eniva Miladi Fernandes Stumm5; Laura de Azevedo Guido6

1. Enfermeira. Especialista em Enfermagem em Terapia Intensiva. Secretaria Municipal de Saúde. Ijuí, RS - Brasil
2. Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, Hospital Universitário. Santa Maria, RS - Brasil
3. Enfermeira. Especialista em Enfermagem Hospitalista. Hospital Unimed Noroeste. Ijuí, RS - Brasil
4. Enfermeira. Especialista em Oncologia. Universidade Federal de Pelotas, Hospital Escola. Pelotas, RS - Brasil
5. Enfermeira. Doutora em Ciências. Professora. Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. Ijuí, RS - Brasil
6. Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Associada Aposentada. UFSM. Santa Maria, RS - Brasil

Endereço para correspondência

Eliane Raquel Rieth Benetti
E-mail: elianeraquelr@yahoo.com.br

Submetido em: 15/02/2016
Aprovado em: 13/07/2016

Resumo

Estudo quantitativo, transversal e descritivo desenvolvido com 23 trabalhadores de enfermagem com o objetivo de identificar as estratégias de coping utilizadas por trabalhadores de enfermagem de uma unidade de terapia intensiva neonatal. Os dados foram coletados em setembro e outubro de 2012 por meio de formulário para caracterização sociodemográfica/funcional e Inventário de Estratégias de Coping. Projeto aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa, CAAE 06163312.8.0000.5346. Após análise dos resultados verificou-se que os fatores do inventário mais utilizados pelos trabalhadores foram autocontrole, reavaliação positiva e suporte social. Essas estratégias, centradas tanto na emoção quanto no problema, são consideradas ativas, pois conduzem para a tomada de decisão na resolução da situação estressora. Concluiu-se que identificar as estratégias de coping utilizadas pelos trabalhadores de enfermagem de terapia intensiva pode possibilitar o conhecimento de como as situações estressoras são enfrentadas e favorecer o planejamento de ações de educação permanente, para sensibilizar e instrumentalizar os trabalhadores para o uso efetivo do coping.

Palavras-chave: Estresse Psicológico; Adaptação Psicológica; Enfermagem; Unidades de Terapia Intensiva; Saúde do Trabalhador.

 

INTRODUÇÃO

A unidade de terapia intensiva neonatal (UTIN) se constitui em um ambiente que possui condições técnicas adequadas à prestação de assistência especializada para o cuidado integral ao recém-nascido (RN) grave ou potencialmente grave e engloba instalações físicas, equipamentos e profissionais especializados.1 Atualmente, a UTIN é um espaço multiprofissional, permeado por distintas tecnologias e saberes, que demanda dos profissionais conhecimento científico, habilidade técnica e competência em realizar a avaliação e manejo criterioso dos pacientes.2

Desde a criação das UTINs, a utilização de novas tecnologias e o aprimoramento do cuidado têm contribuído para a diminuição da mortalidade de neonatos, especialmente pré-termos. Em relação à enfermagem, o cuidado se concretiza por meio de diferentes competências, como as habilidades, manuais e técnicas, pensamento crítico, raciocínio clínico, conhecimentos e intuição.3 Além de assistir o RN, a equipe interage continuamente com familiares e, dessa forma, acontece a criação de vínculo com os mesmos, ou seja, os profissionais compartilham todo o processo, desde a internação até a alta ou óbito, período que pode ser de alguns dias ou prolongar-se por meses.

Essa convivência diária desencadeia diferentes sentimentos na equipe, que abrangem da alegria e satisfação até a frustração e estresse diante do sofrimento e fracasso, que podem acarretar repercussões negativas na saúde desses profissionais e prejudicar a assistência prestada por eles.4 Ademais, o processo de trabalho e as particularidades de uma UTIN como o ritmo acelerado de trabalho, dupla jornada de alguns profissionais, as relações com equipe multiprofissional e o cuidado a RNs graves ou potencialmente graves e a seus familiares podem ser percebidos como situações estressoras. Dessa forma, infere-se que a UTIs são ambientes permeados por situações estressoras devido à complexidade dos procedimentos ali executados, ao uso de equipamentos técnicos sofisticados e à própria dinâmica da unidade.5

É notório que a maioria dos profissionais de enfermagem que atuam em UTIN sente prazer em cuidar. Entretanto, a necessidade de realizarem procedimentos minuciosos e dolorosos ao RN, bem como a complexidade e precisão exigida para realizar todas as atividades livres de qualquer erro, pode ser situação que causa ansiedade e estresse. Além disso, o cuidado ao RN é permeado de paradoxos: por um lado, os avanços obtidos em UTIN proporcionam a sobrevida de RNs cada vez mais prematuros e portadores de malformações, antes incompatíveis com a vida; por outro, a sobrevivência desses RNS impõe para as equipes o desafio de devolver para a família e sociedade uma criança capaz de desenvolver de maneira plena o potencial afetivo, cognitivo e produtivo.6

Diante dessa conjuntura, os trabalhadores de enfermagem desenvolvem estratégias de enfrentamento para suportar situações estressoras, como a iminência da morte em sua prática diária. Essas estratégias de enfrentamento são denominadas coping e representam os esforços cognitivos e comportamentais constantemente alteráveis para controlar, vencer, tolerar ou reduzir as demandas internas ou externas específicas que são avaliadas como excedentes aos recursos da pessoa.7 Essa definição implica que as estratégias sejam ações deliberadas de modo que podem ser aprendidas, usadas e descartadas. Nesse sentido, a forma como a pessoa lida com as situações estressantes exerce importante papel na relação entre o estresse e o processo de saúde-doença.

Destaca-se que o coping pode ser dividido em duas categorias: focalizado no problema e na emoção. Quando utilizam o coping focado no problema, os indivíduos buscam controlar os estressores e as ações são dirigidas para diminuir ou eliminar essas situações. Considerada a estratégia mais resolutiva, compreende esforços para identificar o problema, definir soluções alternativas, avaliar custos e benefícios das ações, adotar posturas para mudar o que é possível e aprender novas habilidades em relação ao resultado desejado ou esperado.7,8 O coping focado na emoção corresponde a estratégias que derivam de processos defensivos em que os indivíduos evitam confrontar-se com a ameaça.7,8 Com o uso dessa estratégia, o indivíduo modula a emoção diante da situação estressora e, assim, reduz a sensação desagradável causada pelo estresse.7 Diante dessas, pontua-se que, apesar de serem diferentes, as estratégias focadas no problema e na emoção complementam-se e podem ser utilizadas ao mesmo tempo.

Ressalta-se que as interações entre trabalhador e o ambiente de trabalho, as condições da organização, bem como as características pessoais, necessidades, experiências e visão de mundo, são fatores que interferem na relação entre estressores e coping.9 Assim, compreende-se que identificar as estratégias de coping utilizadas pelos trabalhadores de enfermagem de uma UTIN é importante, uma vez que o uso dessas estratégias pode minimizar os efeitos dos estressores, prevenir o agravamento do estresse e interferir no bem-estar e na saúde dos profissionais. Além disso, perante a lacuna de estudos sobre essa temática, este estudo contribui para a construção do conhecimento e instiga a realização de novos estudos.

Diante do exposto e da hipótese de que o cuidado em UTIN possui múltiplas dimensões e que os profissionais de enfermagem que ali atuam vivenciam situações estressoras no dia a dia e para o enfrentamento se utilizam do coping, esta pesquisa objetiva identificar as estratégias de coping utilizadas por trabalhadores de enfermagem de uma unidade de terapia intensiva neonatal.

 

MATERIAIS E MÉTODO

Trata-se de estudo transversal, descritivo, com abordagem quantitativa, desenvolvido em uma UTI neonatal e pediátrica, de um hospital privado do noroeste do Rio Grande do Sul, Brasil. A população do estudo compreendeu cinco enfermeiros e 18 técnicos em enfermagem, totalizando 23 participantes. Incluíram-se profissionais de enfermagem com atuação na unidade por período superior a três meses; foram excluídos os trabalhadores de enfermagem em férias ou afastados por licença de qualquer natureza (dois profissionais).

Os dados foram coletados em setembro e outubro de 2012 por meio de formulário de caracterização sociodemográfica e funcional e Inventário de Estratégias de Coping (IEC) de Lazarus e Folkmann.7,10 O formulário foi elaborado pelas pesquisadoras e contemplou variáveis quantitativas (idade, número de filhos, tempo de formação, tempo de serviço na instituição e na atual unidade e faixa salarial) e qualitativas (sexo, situação conjugal, cargo ocupado, turno de trabalho, se escolheu trabalhar nessa unidade, se recebeu treinamento para atuar nessa unidade e qual o tipo de treinamento, se possui outra atividade, município de residência, tempo gasto para chegar ao trabalho, se pratica atividades físicas ou de lazer).

O IEC7 adaptado e validado para a realidade brasileira é composto de 66 itens que englobam pensamentos e ações utilizados para lidar com as demandas internas ou externas de um estressor.10 Os itens do instrumento estão distribuídos em oito fatores, quais sejam: confronto (itens 6, 7,17, 28, 34, 46), afastamento (itens 12, 13, 15, 21, 41, 44), autocontrole (10,14, 35, 43, 54, 62, 63), suporte social (8, 18, 22, 31, 42, 45), aceitação de responsabilidade (9, 25, 29, 51), fuga e esquiva (11, 16, 33, 40, 47, 50, 58, 59), resolução de problemas (1, 26, 39, 48, 49, 52) e reavaliação positiva (20, 23, 30, 36, 38, 56, 60). Os itens 2, 3, 4, 5, 19, 24, 27, 32, 37, 53, 55, 57, 61, 64, 65 e 66 não compõem algum fator e não pontuam na avaliação. Como opções de resposta, apresenta-se uma escala tipo Likert (zero - "não uso da estratégia", um - "usei um pouco", dois - "usei bastante", três - "usei em grande quantidade").

Para análise do IEC, realizou-se a soma das pontuações atribuídas a determinado item do instrumento e dividiu-se esse valor pelo número de participantes do estudo, obtendo-se a média do item para a população. Esse processo foi repetido para cada item do IEC. Os itens de maior média representaram as estratégias mais utilizadas pelos profissionais de enfermagem. Ademais, para identificar a média por fator do IEC, realizou-se a soma das pontuações atribuídas aos itens de um mesmo fator, dividida pelo número de itens que compõem o referido fator, obtendo-se a média do profissional em cada fator do instrumento. Com a soma dessas médias, dividida pelo número de participantes, obteve-se a média da população por fator do IEC. Dessa maneira, os fatores de maior média foram considerados os mais utilizados diante dos estressores do ambiente laboral.

Após a coleta, construiu-se um banco de dados no Excel for Windows, com dupla digitação independente, e a análise descritiva deu-se pelo programa de Software Statistical Package for Social Science (SPSS), versão 21.0. A avaliação da confiabilidade do IEC foi realizada pela análise da consistência interna dos itens que o compõem, por meio do coeficiente Alfa de Cronbach. As variáveis qualitativas foram apresentadas em valores absolutos e percentuais e as quantitativas por meio das seguintes medidas descritivas: média, desvio-padrão, valor mínimo e máximo.

Este estudo integra o projeto "Estresse e coping entre trabalhadores de enfermagem no âmbito hospitalar", o qual atendeu à Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde11, sendo aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria/RS, CAAE 06163312.8.0000.5346, sob o Parecer Consubstanciado n° 74051/2012.

 

RESULTADOS

A análise descritiva definiu o perfil dos profissionais da UTIN em termos de percentuais. Assim, os dados obtidos estão apresentados em quatro tabelas, sendo a um e dois referentes à análise das características sociodemográficas e funcionais e a três e quatro relativas à análise descritiva das estratégias de coping.

A faixa etária prevalente foi dos 20 aos 29 anos (47%) e os profissionais do sexo feminino computaram 95% do total. Entre os participantes, 65% eram casados e 56% não possuíam filhos. O tempo médio de atuação profissional na área, para 47% dos profissionais, era de seis a 10 anos, o que caracteriza uma equipe jovem. Destaca-se que 69,57% dos profissionais, respectivamente, escolheram atuar na UTIN e participaram de treinamento antes de iniciarem as atividades no setor.

 

 

Destaca-se que, entre os profissionais, 56,52% exercem outra atividade, seja como profissionais remunerados em outros setores ou como estudantes. Quanto ao percurso até o trabalho, 95,65% residem no mesmo município da UTIN que trabalham, sendo que 86,96% demoram menos de 30 minutos para chegar ao hospital. No tocante à atividade física, 43,48% responderam que realizavam alguma atividade e 69,57% referiram desfrutar de atividades de lazer.

 

 

Na análise da confiabilidade dos 66 itens, o Alfa de Cronbach foi de 0,922, o que atesta consistência interna satisfatória do IEC para essa população. A análise dos resultados do IEC evidenciou que os fatores que obtiveram médias mais altas, portanto, considerados os fatores mais utilizados, foram autocontrole, reavaliação positiva e suporte social, como explicito na Tabela 3.

 

 

A seguir, na Tabela 4, apresentam-se os fatores de coping e suas medidas descritivas de acordo com a categoria funcional dos profissionais de enfermagem da UTI neonatal.

Conforme descrito na Tabela 4, quando analisados os fatores de maior média nas diferentes categorias profissionais, verificou-se que autocontrole, afastamento e resolução de problemas foram mais utilizados pelos técnicos em enfermagem. Os fatores mais usados pelos enfermeiros foram autocontrole, suporte social e reavaliação positiva.

 

DISCUSSÃO

Os resultados relacionados à caracterização sociodemográfica e funcional delinearam uma equipe predominantemente feminina. Dado convergente foi encontrado em estudo com equipe de enfermagem que atua na assistência ao recém-nascido, internado sob cuidados intensivos, composta em sua totalidade por mulheres.12 Provavelmente devido à característica da UTIN, que integra cuidados meticulosos e delicados, ainda o sexo feminino se sobrepõe ao masculino, especificamente em algumas especialidades. Também números do Conselho Federal de Enfermagem confirmam que a enfermagem brasileira é caracterizada pelo sexo feminino.13

A faixa etária predominante na amostra foi dos 20 aos 29 anos, o que totalizou 47% dos trabalhadores. A análise do perfil dos profissionais realizada pelo COFEN evidenciou predomínio da faixa etária dos 25 aos 35 anos no Brasil, bem como no Rio Grande do Sul.13 As participantes do presente estudo eram mulheres jovens, na sua maioria casadas (65%), sem filhos (56%), que exerciam outra atividade remunerada ou estudavam e, portanto, encaravam diariamente uma tripla jornada, o que pode contribuir negativamente na produtividade e favorecer o estresse.

Em relação ao estresse, a dupla jornada pode ser fator desencadeante, ainda mais quando associada ao sexo feminino, pois a jornada de trabalho engloba responsabilidades externas ao trabalho.4 Em contrapartida, cabe também analisar um fator que pode contribuir positivamente no enfrentamento do estresse: as mulheres eram, na sua maioria, casadas e, nesse contexto, ter um companheiro pode representar um suporte social no dia a dia. Estudo conduzido com 344 profissionais de enfermagem atuantes em UTI verificou que o estado civil foi uma variável associada ao coping controle e que se comportou como fator de proteção, o que identifica a importância do companheiro como apoio, segurança e estímulo para o enfrentamento dos estressores no trabalho.14 No entanto, resultado divergente foi encontrado na literatura e evidenciou associação significativa entre coping e estado civil, sendo que os enfermeiros casados utilizaram menos as estratégias de enfrentamento do que os solteiros.15 Esses resultados remetem à subjetividade do processo de avaliação dos estressores e utilização das estratégias de coping, a qual depende de fatores laborais e individuais.

Outra característica representativa dos participantes que se considera atenuante foi que 69% deles escolheram atuar nessa unidade e receberam treinamento para iniciarem as atividades. Esse é um fator que influencia nas situações de estresse, pois o trabalhador sente-se capacitado para as atividades14, o que melhora a autoconfiança, diminui as possibilidades do erro e contribui positivamente na produtividade e nas situações que demandam domínio técnico e psicológico.

Considerando que a UTIN é um local de carga emocional significativa em relação aos demais ambientes hospitalares, para a equipe ali atuante o trabalho pode se tornar um fardo, trazendo decepções, medo, agressividade e, por fim, doenças. Diante disso, entende-se que as estratégias de enfrentamento impedem a evolução da tensão e do sofrimento. Nesse entremeio as pessoas encontram formas de reagir e mantêm a esperança de que a situação venha a se modificar.7

O fator de coping mais utilizado pelos participantes, no geral, foi o autocontrole. Esse constructo refere-se a uma estratégia ativa, moderada, para não agir de forma impulsiva ou prematura; representa que a pessoa está tentando lidar com o problema, mas tem um efeito de passividade, pois o autocontrole exige um tempo de auto-organização no qual o indivíduo está voltado para suas reações enquanto não age.16 O profissional analisa rapidamente a situação enquanto decide o que fazer e o que dizer naquela determinada circunstância e, assim, evita atitudes precipitadas e desnecessárias que poderão tornar-se motivo para culpa e consequente sofrimento.

A reavaliação positiva foi a segunda estratégia mais utilizada. Esta é considerada a aceitação da realidade, na qual o indivíduo tenta descobrir aspectos que amenizem a situação ou se concentra nos aspectos positivos da mesma, a fim de diminuir a carga emotiva do acontecimento e, assim, redimensionar o estressor.7 Pode-se dizer que essa estratégia consiste no redimensionamento do estressor a partir da modificação do estado emocional e, embora essa estratégia não esteja voltada diretamente para a resolução do problema, ela permite que o indivíduo alcance um equilíbrio emocional que, muitas vezes, é necessário como um passo anterior à ação.16

Relacionando as considerações dos autores à realidade analisada, infere-se que na estratégia "rezei", que foi a mais utilizada, o trabalhador procura ressignificar o acontecimento, com a finalidade de encontrar aspectos favoráveis para amenizar a gravidade da situação e concentrar-se nos aspectos positivos. Considera-se que, diante de situações que exigem a tomada de decisão e a atuação imediata dos trabalhadores de enfermagem, a estratégia de rezar pode ser utilizada a fim de buscar, na espiritualidade, força para enfrentar os estressores.17

O suporte social foi o terceiro fator mais utilizado. Resultado semelhante foi encontrado por estudo que analisou estratégias de enfrentamento utilizadas pela equipe de enfermagem de UTI adulto perante estressores.18 Essa estratégia define-se como a existência ou disponibilidade de pessoas em quem se pode confiar que demonstrem empenho, valorização e afeto. É importante, nessa perspectiva, tanto a dimensão da rede social quanto o comprometimento com a mesma, ou seja, o retorno que a pessoa tem quando requer ajuda e os recursos de que dispõe ao seu redor.7 O suporte social foi utilizado por sujeitos de diferentes estudos, o que significa que o indivíduo recorre às pessoas do seu meio social na tentativa de obter apoio emocional.19,20

Diante desse cenário, destaca-se que a utilização de diferentes estratégias de coping pode ser favorecida porque a UTI, em seu ambiente dinâmico, tem na comunicação verbal ampla fonte de estruturação de confiança entre a equipe multidisciplinar. Isso fortalece as relações e estimula a sensibilização de que a experiência é imprescindível para que as decisões em torno da assistência ao paciente e sua família sejam resolutivas.21 A partir do momento em que a equipe consegue utilizar estratégias com o intuito de fomentar a união do grupo, fator essencial para a atividade laboral, sua utilização é considerada positiva, indicando a essência de apoio no grupo.

Quando analisados os fatores de maior média nas diferentes categorias profissionais, verificou-se que autocontrole, afastamento e resolução de problemas foram mais utilizados pelos técnicos em enfermagem, enquanto que para os enfermeiros os de maior média foram autocontrole, suporte social e reavaliação positiva. Quanto à influência da formação na escolha das estratégias a serem utilizadas, estudo revelou que quanto maior o status acadêmico, maior a utilização da resolução de problemas no enfrentamento dos estressores.22 Entretanto, outros pesquisadores não encontraram correlações significativas entre a categoria profissional e os fatores de coping.23 Nesse sentido, salienta-se que as estratégias de enfrentamento dependem das características individuais do profissional e das situações vivenciadas no ambiente ocupacional.

Retomadas as estratégias de coping utilizadas pelos trabalhadores de enfermagem, afirma-se que todos os fatores do IEC foram utilizados, em maior ou menor frequência, tanto as focadas no problema quanto na emoção. Esse resultado é corroborado por pesquisa que mostrou que as estratégias focadas no problema e na emoção foram empregadas de forma igual entre 484 enfermeiros de diferentes regiões da Latvia, uma vez que existem diferenças mínimas em seus valores médios, sendo os fatores predominantes para essa amostra a resolução de problemas, autocontrole e reavaliação positiva.24 Diante disso, o coping pode ser visto como um processo determinado pela avaliação cognitiva e condicionado ao âmbito em que o indivíduo está inserido, dependente de suas vivências e experiências anteriores. Além disso, as características sociodemográficas e funcionais interferem na elaboração e definição da estratégia a ser utilizada.

Dessa forma, considera-se que o coping pode ser aprendido e que as estratégias podem ser efetivas ou não. Logo, é importante que os trabalhadores de enfermagem sejam instrumentalizados sobre esse constructo a fim de favorecer a opção por estratégias mais efetivas para o enfrentamento dos estressores no ambiente de trabalho, respeitando-se as particularidades cognitivas de cada um. Para isso, a combinação entre condições organizacionais e esforço individual é fundamental para o adequado enfrentamento dos estressores laborais.

 

CONCLUSÕES

Os fatores do IEC mais utilizados pelos trabalhadores foram autocontrole, reavaliação positiva e o suporte social. Essas estratégias, centradas tanto na emoção quanto no problema, são consideradas ativas, pois mesmo as centradas na emoção, em seu pressuposto, conduzem para a tomada de decisão na resolução da situação estressora ou do evento com potencial estressor.

Identificar as estratégias de coping utilizadas pelos trabalhadores de enfermagem atuantes em terapia intensiva pode possibilitar o conhecimento de como as situações estressoras são enfrentadas pelos diferentes profissionais e favorecer o planejamento de ações de educação permanente, a fim de sensibilizar e instrumentalizar os trabalhadores para o uso de estratégias que minimizem o estresse no trabalho.

Algumas limitações do estudo devem ser consideradas. A escassez de trabalhos sobre essa temática em terapia intensiva neonatal condicionou a análise dos resultados a partir do referencial teórico desse constructo e estudos de caráter geral; o número de participantes limitou análises estatísticas, porém, a fim de minimizar esse item, foi incluída a população de profissionais de enfermagem da UTIN investigada; o desenho transversal não permite estabelecer relações de causa e efeito e possibilita baixa capacidade de generalização. Contudo, os resultados deste trabalho constituem importante avanço para a Enfermagem, pois os dados analisados coincidem com informações da literatura e contribuem para a construção do conhecimento sobre as estratégias de coping utilizadas pelos trabalhadores de enfermagem em terapia intensiva neonatal.

 

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