REME - Revista Mineira de Enfermagem

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ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 14.2

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Pesquisa

O ensino sobre substâncias psicoativas na graduação em enfermagem da Universidade Federal do Espírito Santo

The teaching of psychoactive substances at nursing degree courses at the Federal University of Espírito Santo

Simone Vizeu Ferreira AlvesI; Patrícia Rossetto CortesII; Samira Rangel da Costa FreireII; Sarah Letícia Bello LemosII; Sandra Cristina PillonIII; Marluce Miguel de SiqueiraIV

IEstudante do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Bolsista PIBIC/CNPQ-UFES 2007/2008. End.: Av. Jones Santos Neves, 99, Centro, Serra, ES. CEP: 29176260. e-mail: svizeu@yahoo.com.br
IIEstudantes do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)
IIIProfessora Associada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP)
IVProfessora Associada II do Depto. de Enfermagem da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Orientadora

Endereço para correspondência

Simone Vizeu Ferreira Alves
Av. Jones Santos Neves, 99, Centro
CEP: 29176260 - Serra, ES
E-mail: svizeu@yahoo.com.br

Data de submissão: 15/12/2008
Data de aprovação: 14/4/2010

Resumo

O fenômeno do uso de drogas no Brasil constitui um problema de saúde pública. Diante da relutância dos profissionais enfermeiros em incluir essa temática em suas atividades assistenciais, neste estudo buscou-se analisar a opinião dos docentes do curso de enfermagem da Universidade Federal do Espírito Santo sobre a importância da inserção da temática "substâncias psicoativas"(SPAs) no currículo de graduação em enfermagem. Trata-se de estudo qualiquantitativo do tipo transversal. A amostra foi composta por 36 (67,9%) docentes do Curso de Enfermagem da UFES. Quanto à capacitação do enfermeiro na temática SPAs, 97,2% valorizam a prevenção; 94,4%, o tratamento; e 83,3%, a reinserção social do usuário. Notou-se que 94,5% são favoráveis ao desenvolvimento de pesquisas sobre drogas, 58,3% responderam positivamente à questão sobre inserção do conteúdo SPAs no currículo e 27,8% concordam com a necessidade da inserção. Evidenciou-se que 86% afirmaram que possuem conhecimento sobre tal temática e 50% interessaram-se em capacitação nessa área. Concluiu-se que existe a urgente necessidade da adequação do ensino à realidade da população com relação às SPAs. Assim, torna-se fundamental o envolvimento de aspectos que vão além do biológico, envolvidos na prática profissional, que irão contribuir de maneira efetiva no preparo profissional do enfermeiro.

Palavras-chave: Transtornos Relacionados ao Uso de Substâncias; Enfermeiro; Capacitação Profissional

 

INTRODUÇÃO

No Brasil, o álcool é responsável por 85% das internações decorrentes do uso de substâncias psicoativas (SPAs), 20% das internações em clínica geral e 50% das internações masculinas psiquiátricas.1 Observa-se, também, o aumento da demanda de usuários de substâncias psicoativas nos diversos ambientes de saúde.2-6 Em decorrência disso, as escolas de enfermagem têm buscado adaptações curriculares para o enfrentamento dessa temática, com o intuito de preparar tais profissionais para oferecer uma assistência mais especializada. Atualmente, o corpo de conhecimento nessa área tem se tornado mais consistente e vem contribuindo de forma mais efetiva na prática do enfermeiro.7-11

Diversas foram as tentativas, mas foi somente a partir da década de 1980 que os profissionais ligados à saúde mental começaram a se preocupar com esse problema, tentando analisar as motivações pessoais para o uso de álcool e de drogas.11

No Espírito Santo, dados da Secretaria Estadual de Saúde mostraram que o número de internações psiquiátricas por uso de álcool e outras drogas no período de 2001 a 2005 chegou a 7.563 internações, das quais 1.042 corresponderam ao município de Vitória.12

No intuito de fortalecer o trabalho em rede, o Governo Federal promulgou a Lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2006, instituindo o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas (SISNAD), estabelecendo medidas de prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas, bem como normas para repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas.13

O Sistema Único de Saúde (SUS) tem aumentado a cada ano a oferta de serviços de saúde para a assistência aos usuários com problemas decorrentes de substâncias psicoativas (SPAs) e, atualmente, preocupa-se em ampliar ainda mais o acesso ao tratamento e aperfeiçoar o serviço desenvolvido. Entretanto, um dos problemas enfrentados é a baixa retaguarda dos hospitais gerais para internações em curto prazo, que pode ser explicada pela resistência desses hospitais em atender esses casos e, também, dos profissionais que possuem formação sobre dependência de substâncias psicoativas limitada ou ausente.13

Os profissionais da equipe de enfermagem prestam os cuidados de saúde e estão em contato com os usuários das mais diversas substâncias psicoativas e, mais frequentemente, com aqueles hospitalizados. A pouca experiência desses profissionais em relação ao tratamento do uso, abuso e dependência dessas substâncias limitam-lhes a intervenção efetiva.14 No estudo realizado por Ramos,15 são considerados elementos fundamentais no ensino sobre SPAs para enfermeiros: mudanças de atitude, aquisição de conhecimento e desenvolvimento de habilidades.

Os currículos de enfermagem têm contemplado, de alguma forma, a abordagem do uso e do abuso de substâncias psicoativas. No entanto, esse conteúdo é majoritariamente ministrado nas disciplinas que envolvem saúde mental, com uma carga horária que não tem permitido habilitar o enfermeiro para o desempenho adequado de suas funções no que tange a essa problemática.16 Por esse e outros motivos, estudos apontam para a necessidade de melhor investimento em treinamentos ou capacitação nessa temática, porém em níveis de especialidade. Soma-se a isso o fato de que nem sempre enfermeiro faz a opção por especializar-se no assunto, por mais que a presença de usuários de SPAs ocorra na prática do nos diversos ambientes de saúde.17

De acordo com Mendonza,18 a investigação sobre o uso de SPAs e a educação formal dos enfermeiros registra a "necessidade de sensibilizar as instituições de educação superior para que estas lhes deem maior importância à administração de conteúdos sobre substâncias psicoativas para os alunos de enfermagem". Deve-se oferecer uma educação básica mínima como prerrequisito na capacitação do enfermeiro, para que este preste assistência de qualidade e ofereça cuidado adequado aos pacientes que fazem uso de substâncias psicoativas.

Dada a importância do tema para a formação do enfermeiro, o objetivo com este estudo é analisar a opinião dos docentes do curso de enfermagem da UFES sobre a importância da inserção de conteúdos sobre substâncias psicoativas no currículo de graduação em enfermagem.

 

METODOLOGIA

Desenho do estudo - Trata-sedeumestudoexploratório, descritivo, transversal, do tipo qualiquantitativo.19

Local - Foi realizado no Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), no período de agosto de 2007 a julho de 2008.

População-amostra - Os sujeitos da pesquisa foram os docentes do curso de enfermagem da referida instituição, num total de 53 professores. Todos foram procurados para participar do estudo, porém 17 não aceitaram. Assim, a amostra final foi composta por 36 docentes da graduação em enfermagem da UFES, sendo que desses 13 ministram aulas no ciclo básico e 23 no ciclo profissionalizante.

Procedimentos - O questionário utilizado foi desenvolvido e testado pela Comissão Interamericana de Combate ao Álcool e outras Drogas (CICAD),20 possuindo questões abertas e fechadas, de autopreenchimento e sem a identificação pessoal do profissional, não havendo obrigação de preenchimento pelo docente. O instrumento foi constituído pelas seguintes variáveis: 1) interesse do profissional enfermeiro sobre o problema do consumo de SPAs; 2) capacitação do enfermeiro para desempenhar atividade de promoção da qualidade de estilos de vida; 3) capacitação do enfermeiro para desempenhar atividade de prevenção; e 4) capacitação do enfermeiro para desempenhar atividade de prestação de cuidados especializados aos usuários de SPAs; 5) papel do enfermeiro na reinserção do exusuário de SPAs; 6) realização de pesquisas na área de SPAs por docentes e alunos; 7) necessidade de inserção do conteúdo sobre álcool e drogas no currículo de enfermagem; 8) informações recebidas pelos docentes sobre SPAs; 9) interesse em receber capacitação na área; e 10) temas e experiências de aprendizagem para os docentes sobre as SPAs.

Inicialmente, foram enviadas cartas às chefias do Departamento e do Colegiado de Enfermagem da UFES, apresentando este projeto e solicitando o apoio para o desenvolvimento do estudo. Posteriormente, foram feitas explicações sobre a pesquisa e, ao concordar com a participação no estudo, o professor assinava o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Em seguida, foi aplicado o questionário aos docentes presentes nas reuniões do Departamento de Enfermagem dos dias 21/11 e 10/12/2007, como também àqueles que se encontravam presentes em suas salas no dia da aplicação. Os dados coletados foram tabulados no programa Microsoft Excel e analisados qualitativamente, empregando-se a análise de conteúdo21 para as variáveis 1, 7, 8 e 10 mencionadas. Na análise quantitativa,22 empregou-se a estatística descritiva,23 utilizando-se a frequência absoluta (FA) e a frequência relativa (FR) para todas as variáveis estudadas.

Aspectos éticos - O projeto de pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa do CCS da UFES (CEP nº 086/07), sendo elaborado e conduzido de acordo com os dispositivos da Resolução nº 196, de 16 de outubro de 1996.24

 

RESULTADOS

Os questionários foram preenchidos por 36 (67,9%) docentes do curso de graduação da UFES, dos quais 36,1% ministram disciplinas no ciclo básico e 63,9% no ciclo profissionalizante, sendo que 25 (69,4%) eram do sexo feminino.

No estudo, identificou-se que 33 (91,7%) docentes pesquisados do Curso de Enfermagem da UFES acreditam que o consumo de drogas representa um problema de grande interesse para o enfermeiro. Quanto às suas justificativas, podemos observar, na TAB. 1, os argumentos pelos quais os professores consideravam importante essa temática para o profissional: como um problema de saúde pública ou impacto na sociedade (41,7%); campo de atuação do enfermeiro (25,0%); relevância estatística, ou seja, aumento do consumo de SPAs pela sociedade (13,9%) e pelo uso de drogas por profissionais da saúde (11,1%).

 

 

Neste estudo, identificou-se, ainda, que 35 (97,2%) docentes concordaram que o enfermeiro, uma vez capacitado, desempenhará melhor sua função na promoção da qualidade de estilos de vida.

As opiniões dos docentes de enfermagem da UFES em relação à importância da capacitação do enfermeiro na temática substâncias psicoativas envolveram os seguintes aspectos: 35 (97,2%) valorizam a capacitação na área de prevenção, 34 (94,4%) no âmbito do tratamento e 30 (83,3%) na área de reinserção social do usuário.

Além disso, 34 (94,4%) docentes do curso de enfermagem da UFES são favoráveis ao desenvolvimento de pesquisas sobre SPAs envolvendo docentes e estudantes (FIG. 1).

 

 

Em relação à inserção do conteúdo sobre álcool e drogas no currículo de enfermagem, 21 (58,3%) das respostas dos docentes foram favoráveis a essa inserção; 10 (27,8%) acreditaram que era algo necessário/importante e 2 (5,6%) alegaram que tal temática já é abordada no decorrer do curso (TAB. 2). Sobre as estratégias apontadas pelos docentes para a inclusão desse tema no currículo, 21 (58,3%) das respostas apontam que a melhor forma de inserção seria que tal conteúdo fosse ministrado como parte integrante de outras disciplinas; 4 (11,1%) opinaram por seminários; 3 (8,3%) sugeriram a organização de uma disciplina específica; 2 (5,6%) demonstraram que o tema deve ser abordado em especializações e 6 (16,7%) não propuseram estratégias (TAB. 3).

 

 

 

 

Na FIG. 2 demonstra-se que 24 (86,0%) dos docentes do curso de enfermagem da UFES afirmaram ter recebido algum tipo de informação sobre álcool e drogas. Quanto aos veículos de informações que contribuíram para a temática, notou-se a presença marcante dos meios de comunicação - TV, jornais, internet (27,8%); informações provenientes do meio acadêmico; graduação, dissertações, estudos, especializações, cursos (27,8%); outras especificações (22,2%); conhecimento obtido por meio de eventos científicos - congressos e seminários sobre o tema (13,9%); e por meio de instituições de apoio (5,5%) (TAB. 4).

 

 

 

 

Em relação à capacitação na área, metade dos docentes opinou a favor (50,0%). Dentre as respostas dadas pelos docentes (TAB. 5), os temas sugeridos para a capacitação foram: tratamento/intervenções (25,0%); sinais e sintomas da dependência (19,4%); consumo de SPAs por populações especiais - criança, adolescentes, mulher, familiares (16,7%); outros tipos de SPAs (8,3%); e 11 não indicaram um tema (30,6%).

 

 

DISCUSSÃO

O estudo permitiu identificar que a maior parte dos entrevistados pertence ao sexo feminino (69,4%), o que se justifica pela história de a profissão estar ligada ao cuidado e à doação, características tipicamente do universo feminino.25

Pode-se observar que 91,7% dos professores acreditam que o aumento do consumo de drogas é um problema de grande interesse para o enfermeiro. Esse achado corrobora com as observações de Carraro16 e David,26 que mencionam que o perfil epidemiológico da população, a legislação e os locais onde as ações serão desenvolvidas devem ser levados em consideração para o desenvolvimento de uma profissão, e as graduações têm a missão de formar enfermeiros capazes de lidar com necessidades de todos os grupos populacionais.

Os resultados obtidos no relatório da CICAD20 em 1998 mostram que todos os docentes pesquisados naquela ocasião responderam positivamente a essa questão. Ao classificar-lhes as justificativas, 41,7% descreveram as SPAs como um problema de saúde pública ou expuseram o impacto que as drogas trazem sobre a sociedade. Esses argumentos inserem-se no contexto atual em que os gastos do Ministério da Saúde com os problemas relacionados às substâncias psicoativas correspondem a 7,9% do PIB anual.28 Além disso, no documento da OMS27 de 2001, estima-se que haja um crescimento desses transtornos e que, decorrentes deles, os anos vividos com incapacidade serão elevados para 15% em 2020.

Outro fator relevante, evidenciado por 11,1% das respostas, foi a importância dada pelos docentes ao uso e abuso de drogas por usuários do serviço de saúde. Segundo eles, tal temática é um campo de atuação do enfermeiro no tratamento desse fenômeno. Tanto o relatório da OMS quanto a Política Nacional Antidrogas28 apontam nesse sentido, visto que o impacto socioeconômico da doença mental resultará no aumento das necessidades de serviços sociais e de saúde, nas necessidades das famílias e dos cuidadores desses doentes e nas áreas de atuação do profissional enfermeiro.

Quanto à capacitação do enfermeiro em substâncias psicoativas e, posteriormente, uma atenção mais aprimorada, os professores responderam positivamente nos aspectos: prevenção: 35 (97,2%); tratamento: 34 (94,4%): e reinserção social do usuário: 30 (83,3%). Tais achados corroboram com os objetivos e diretrizes tanto da Política Nacional sobre Drogas28 quanto da Política de Atenção Integral aos Usuários de Álcool e Drogas,29 vigentes em nosso país, as quais preconizam a educação formal e o treinamento continuado para os diversos setores da sociedade. Esses valores ainda se destacam pelo fato de que, segundo o art. 1º do Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem,30 "a Enfermagem é uma profissão comprometida com a saúde do ser humano e da coletividade. Atua na promoção, proteção, recuperação da saúde e reabilitação das pessoas [...]".

Como se pode observar, 34 (94,4%) docentes do curso de enfermagem da UFES são favoráveis ao desenvolvimento de pesquisas sobre drogas envolvendo docentes e estudantes, 58,3% responderam positivamente à questão sobre inserção do conteúdo SPAs no currículo e 27,8% apontam para a necessidade dessa inserção de forma a facilitar o preparo dos futuros profissionais, com mais qualificação na identificação e intervenção aos usuários de álcool e outras drogas, como mostra Pillon.31 Carraro,16 no entanto, destaca que

[...] o ensino formal na área de Enfermagem sobre o uso e abuso de drogas parece não corresponder às reais necessidades que a temática vem impondo à sociedade nos últimos anos. Os currículos de Enfermagem têm contemplado de alguma forma a abordagem do uso e abuso de substâncias lícitas e ilícitas, no entanto, este conteúdo é majoritariamente ministrado nas disciplinas que envolvem saúde mental, com uma carga horária que não tem permitido habilitar o enfermeiro para o desempenho adequado de suas funções no que tange a essa problemática.

Vale ressaltar que no atual currículo de enfermagem da UFES houve a extinção da disciplina Enfermagem em Saúde Mental no 2º semestre de 2007, e parte do seu conteúdo deslocado para as disciplinas Atenção à Saúde do Adulto (4º período) e Saúde do Adulto (5º período). A extinta disciplina era ministrada em dois momentos - teórico e prático -, ambos com carga horária de 60 horas.

Em relação ao desenvolvimento de pesquisas, existe na UFES o Núcleo de Estudos sobre o Álcool e outras Drogas (NEAD), um programa permanente de extensão, que inclui entre seus vários objetivos a realização de pesquisas na área de dependência química, como também a produção e a divulgação de conhecimento referente a essa temática.32

Como discutido, o aumento do consumo de drogas gera mudanças no contexto social, necessitando de atualizações para a formação do enfermeiro. Diante da gravidade desse quadro é preciso formar o acadêmico para que seja capaz de identificar precocemente o uso de risco ou nocivo de SPAs (diagnóstico), avaliar a gravidade desse uso, por meio da avaliação dos problemas relacionados ao uso de SPAs, e desenvolver intervenções para reduzir esse uso nocivo.33

Como se pôde observar, 24 (86,0%) docentes do curso de enfermagem da UFES afirmaram que possuíam algum tipo de informação sobre o conteúdo álcool e drogas. Segundo Abreu,34 essatemáticaéconsideradaumassunto que, direta ou indiretamente, diz respeito aos cidadãos de uma nação, aos participantes de uma comunidade, aos profissionais de saúde e, principalmente, aos pesquisadores e docentes. Para tanto, justifica-se o engajamento pleno e indispensável deles, uma vez que essa temática é de inquestionável relevância, exigindo, assim, responsabilidade, treinamento e, sobretudo, conhecimento científico. Os resultados desta pesquisa mostram, também, que os meios de comunicação estão sendo considerados pelos docentes como forma de adquirir conhecimento científico, tão importante quanto as capacitações formais.

Observou-se que apenas 18 (50%) docentes opinaram em favor de uma capacitação nessa área. Este último resultado vai de encontro do artigo 4º, inciso VI, das Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Enfermagem, que diz:

[...] os profissionais devem ser capazes de aprender continuamente, tanto na sua formação, quanto na sua prática. Desta forma, os profissionais de saúde devem aprender a aprender e ter responsabilidade e compromisso com a sua educação e o treinamento/estágios das futuras gerações de profissionais [...].35

Deve-se ressaltar que entre os docentes que não opinaram a favor de uma capacitação dois justificaram sua negação por já trabalharem na área.

Num estudo realizado por Gonçalves eTavares,36 obtevese que 100% dos 30 enfermeiros entrevistados na pesquisa manifestaram interesse em realizar capacitação na temática SPAs, o que mostra déficit de conhecimento na atenção à saúde prestada. Esse resultado vai de encontro aos achados da pesquisa com os docentes de enfermagem da UFES, visto que apenas 50% deles demonstraram interesse em capacitar-se na área de abuso de álcool e drogas. Note-se que o tema não recebe importância pela maioria dos professores como área de capacitação para a docência, porém é sabido que eles são responsáveis pela formação dos profissionais. No entanto, eles serão futuramente prestadores de assistência e, de acordo com Gonçalves e Tavares,36 é relevante tal conhecimento na atuação do enfermeiro assistencial.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Percebeu-se o interesse dos docentes numa formação mais consciente, crítica e ativa. Contudo, somente alguns reconhecem a necessidade de uma capacitação específica sobre SPAs, a qual propiciaria a redução da resistência ao conteúdo e, por sua vez, melhoria das informações para os discentes, nos diversos aspectos - físicos, psíquicos e sociais - que envolvem o problema, resultando, assim, num profissional capaz de lidar com as diferentes necessidades da população, inclusive com as drogas de abuso.

A necessidade de adequação do ensino ministrado sobre substâncias psicoativas na Universidade à realidade econômico-social e cultural da população é fundamental. O compromisso em realizar uma autoanálise sobre a temática é uma responsabilidade das instituições de ensino de enfermagem, a fim de formar profissionais capacitados para atender à sociedade, e não para o mercado. Assim, bem mais do que competência nos domínios de aspectos biológicos envolvidos na prática profissional, deve-se preparar o enfermeiro para que desenvolva competência também quanto às dimensões que abrangem o uso indevido de substâncias psicoativas, levando em consideração o meio no qual o indivíduo está inserido.

Por se tratar de um trabalho pioneiro, há necessidade de mais estudos nessa área, a fim de avaliar se o ensino sobre substâncias psicoativas tem sido adequado, o que resultaria num impacto positivo sobre o processo de formação profissional na área da saúde, especialmente do enfermeiro, bem como na qualidade da atenção prestada.

 

AGRADECIMENTOS

A Deus, pela conclusão de mais um trabalho. À professora Marluce, pelo incentivo e dedicação de sempre na orientação. Ao Núcleo de Estudos sobre Álcool e outras Drogas e a toda sua equipe, pelo apoio. À professora Sandra, pelas contribuições relevantes. Aos docentes da graduação em enfermagem da UFES, pela participação. Ao PIBIC/CNPQ-UFES, pelo apoio financeiro. Ao professores Vitor Buaiz e Jorge Luis Huapaya, pela revisão de português e espanhol. E a todos aqueles que contribuíram, direta ou indiretamente, para a realização deste estudo.

 

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