REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 14.2

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Relato de experiência

Pesquisar com jovens: desafios e perspectivas na relação entre o pesquisador e o jovem*

Researching with youngsters: challenges and perspectives on the relationship between researchers and youngsters

Natália de Cássia HortaI; Roseni Rosângela de SenaII; Márcia StengelIII

IEnfermeira. Doutoranda em Enfermagem. Professora do Curso de Enfermagem da PUC Minas
IIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Emérita da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. Pesquisadora do CNPQ
IIIPsicóloga. Doutora em Ciências Sociais pela UERJ. Professora do Curso de Mestrado em Psicologia da PUC Minas

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Data de submissão: 21/9/2009
Data de aprovação: 30/4/2010

Resumo

Trata-se de relato de experiência por meio do qual discute a postura do pesquisador diante dos jovens na realização de pesquisa. Essa reflexão surge com base na proposta de estudo de doutorado, com o objetivo de elucidar a concepção de saúde trazida por esses sujeitos, além das demandas e necessidades que apresentam para a promoção da saúde. O foco é na construção de pesquisas com jovens, estruturadas com base na realização de teste piloto, no qual foi possível apreender questões sobre o campo da pesquisa com jovens e os analisadores referentes à saúde estruturadas pelos jovens. Os jovens apresentam uma crítica à realização de pesquisas que não possibilitam o retorno dos dados, bem como a utilização de interlocutores não jovens para explicitar demandas e necessidades vividas pela juventude. Destaque-se a concepção de jovem como um vir-a-ser, o que os coloca numa posição de passividade perante o mundo, o que não é real. Os jovens afirmam que tal fato busca justificar políticas que vêm de forma impositiva sem passar por uma negociação de sentidos para eles próprios. Conclui-se que há necessidade de pesquisas que busquem conhecer o cotidiano dos jovens e a impertinência de trabalhar somente no campo de riscos e vulnerabilidades no que se refere à saúde deles.

Palavras-chave: Promoção da Saúde; Adolescente; Pesquisa Qualitativa; Políticas Públicas

 

INTRODUÇÃO

A temática da juventude tem sido alvo de inúmeros estudos no campo das ciências sociais, educação, trabalho e cultura.1-3 A vivência contemporânea da juventude nos dias de hoje revela mudanças na dinâmica social e a emergência de novos desafios para as tradicionais instituições socializadoras, como a escola e a família. Atualmente, a tecnologia, por meio da internet e celulares, por exemplo, tem possibilitado novas formas e redes de socialização de jovens. Os jovens podem se comunicar com amigos e até com desconhecidos com maior rapidez e facilidade, ampliando suas redes de socialização. Tal fato colabora para que as relações que eram estabelecidas na família e na escola, instituições tradicionais de referência para os jovens, sejam colocadas em xeque e revelem sua crise, justificada pela dificuldade de apreensão do conjunto de mecanismos que comportam novas linguagens, inclusive na maneira de escrever, novas formas de relacionamento e interação que presidem a constituição dos diferentes modos de ser jovem na sociedade atual.4

Ao se fazer um balanço sobre os estudos sobre a temática da juventude no Brasil, percebe-se que a maior parte das reflexões, no meio acadêmico, se destina a discutir os sistemas e instituições na vida dos jovens, sendo ainda reduzidos os estudos que buscam perceber como eles vivem e elaboram suas situações de vida.5 Os estudos voltados para a consideração dos próprios jovens só mais recentemente têm ganhado visibilidade.

Quando se estuda a juventude, é importante definir o conceito atribuído a essa categoria, uma vez que se nota a naturalização da juventude no cenário atual, ou seja, a juventude é pensada como uma etapa da vida descontextualizada da história, cultura, gênero, raça/etnia, nível socioeconômico. Assim, pensa-se juventude como uma "coisa" monolítica, única, sem diversidades. O termo "juventude" se revela como um daqueles que parecem óbvios, que se explicam por si mesmos e sobre os quais todos têm algo a dizer. No entanto, quando se busca precisar um pouco mais as dificuldades aparecem e fica posta a contradição com a obviedade. Tal tema nunca esteve tão presente nos discursos e nas pautas políticas, mas com uma indeterminação e indagações a respeito do que é designado por ele.3

Na conceituação do termo, é fundamental considerar que há uma perspectiva etária para se pensar a juventude que, no Brasil, vai dos 15 aos 24 anos. Esse limite etário se diferencia da adolescência, considerada entre 12 e 18 anos, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Destaque-se que os diferentes campos do conhecimento discutem adolescência e/ou juventude com base em recortes específicos. A psicologia, tradicionalmente, trabalha com a ideia de adolescência, com foco principalmente nos processos psíquicos que se dão nessa fase da vida. A saúde também se refere de forma predominante à adolescência como fase de transição e se atendo às modificações biológicas vivenciadas com a puberdade. As ciências sociais, com o referencial de juventude, constroem uma reflexão que remete à inserção social e as experiências vividas por esses sujeitos. Entretanto, é possível pensar numa perspectiva psicossocial, ou seja, o sujeito psíquico em suas relações e interseções sociais com a construção da concepção de juventude que engloba a adolescência como primeiro momento e com uma compreensão mais ampla de constituição de sujeitos.6

Assim, estudar a temática da juventude, hoje, demanda que os pesquisadores adentrem o contexto de vida e de relações desses sujeitos, seja com as diferentes redes sociais, como a escola, a família e a rede de amigos, para que, a partir daí, possam ser desveladas as virtudes, as contradições e as inquietudes vivenciadas pelos jovens.

É importante também refletir sobre as ações e práticas instituídas com os jovens para que essas sejam cada vez mais adequadas a suas necessidades e pertinentes com o contexto de vida de tais sujeitos. Merecem destaque, aqui, as ações de intervenção do Poder Público e de outras instâncias da sociedade que têm sido pontuais e fragmentadas, além de revelarem concepções equivocadas da juventude.4

Como um dos setores fundamentais de atenção à população jovem, a saúde configura-se como um campo de prioridades políticas no enfoque e na construção de estratégias para os jovens pela interface com outros setores ao buscar a promoção da saúde e a prevenção de agravos com relação aos jovens. No Brasil, o foco dado à Política Nacional de Promoção da Saúde relaciona-se aos comportamentos saudáveis, incluindo os jovens como população-alvo dessa política.7 Entretanto, o cotidiano vivenciado pelo jovem pode revelar outras ações promotoras da saúde acionadas pelos recursos possíveis para esses sujeitos, muitas vezes não reconhecidas nem incorporadas na relação com os jovens.

Destaque-se que os múltiplos condicionantes e determinantes do processo saúde/doença/cuidado colocam o setor saúde como articulador em meio a uma rede importante quando se discute a saúde do jovem, uma vez que é necessário levar em conta o âmbito social, a educação, o trabalho, o lazer, a cultura e o esporte, dentre outros.

Com base no exposto acima, neste artigo busca-se discutir a postura do pesquisador perante jovens na experiência de realização de pesquisa. Parte-se, nessa construção, de uma problemática que se refere às possíveis fragilidades dos estudos, principalmente na área da saúde, em relação à forma como percebem a juventude e se propõem a dialogar com os jovens e discutir suas questões específicas. Essa forma de abordar os jovens na realização de pesquisas pode ser reveladora de um discurso normatizador ou de um discurso capaz de explicitar os dilemas e conflitos vividos pelos jovens. Essa reflexão surgiu da proposta de pesquisa de doutorado cujo objeto de estudo foi a saúde no cotidiano dos jovens, com o objetivo de elucidar a concepção de saúde trazida por esses sujeitos, além das demandas e necessidades que apresentam para a promoção da saúde.

 

A METODOLOGIA DA EXPERIÊNCIA VIVIDA

A experiência discutida neste artigo se refere à realização do teste piloto de pesquisa de doutorado em enfermagem com foco na saúde dos jovens. Este estudo, obedecendo às questões éticas em pesquisa envolvendo seres humanos, foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (Parecer ETIC nº 608/07) e pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte (Parecer nº 098/2007). Trata-se de uma pesquisa qualitativa cujo cenário é um bairro de periferia do município de Belo Horizonte e cujos sujeitos são os jovens moradores desse bairro.

Este artigo pauta-se pela reflexão construída com base no teste piloto dos instrumentos de coleta de dados da tese, realizado com um grupo de jovens de um Aglomerado de Belo Horizonte. Teve como sujeitos a coordenadora do grupo de jovens e 15 jovens participantes do grupo, sendo utilizada como técnica de coleta de dados a entrevista com roteiro semiestruturado e o grupo focal.

Esse grupo se reúne semanalmente para ensaios de dança em um espaço cedido por um equipamento social da comunidade e não possui vínculo com nenhuma instituição ou projeto. Caracteriza-se pela participação de jovens entre 13 e 20 anos, predominantemente do sexo masculino. A maior parte deles está na escola, sendo que alguns estudam à noite e trabalham durante o dia. A coordenadora do grupo é também uma jovem moradora do bairro, educadora social e estudante, que já trabalhou como oficineira do projeto Fica Vivo, desenvolvido pela Secretaria Estadual de Segurança Pública de Minas Gerais, com foco na redução da criminalidade.

Para viabilizar a realização do grupo focal, fez-se a identificação de um grupo de jovens fora do cenário proposto na pesquisa de doutorado. Neste artigo, não é priorizada a análise dos dados referentes às questões de saúde no cotidiano dos jovens, suscitadas pela entrevista e pelo grupo focal. São focalizados os momentos vividos na realização da entrevista com a coordenadora do grupo de dança e com os jovens nos dois encontros propostos, que remetem à reflexão sobre a interação entre pesquisador e jovens, estruturantes para a realização de pesquisas com essa população. Busca-se discutir a forma como se abordou os jovens na realização de pesquisas que, mesmo sendo uma construção metodológica, não pode ser descontextualizada e impositiva, considerando fundamental refletir sobre o lugar ocupado pelos jovens e como ele dialoga com o produto de tais pesquisas.

 

DISCUSSÃO DA VIVÊNCIA

Essa experiência revelou elementos importantes na forma de interação entre pesquisador e pesquisados e o sentido do retorno das pesquisas desenvolvidas para os participantes. A experiência vivenciada com os jovens e com a coordenadora do grupo trouxe à tona reflexões que vão desde a concepção de ser jovem até a vivência da juventude em uma periferia, englobando pontos como cultura, educação, saúde, cidadania e direitos.

Partindo da reflexão conceitual sobre juventude, na experiência com os jovens desse grupo explicitou-se que eles vivenciam esse momento da vida de forma diversificada. Nesse sentido, a coexistência de conceitos sobre a juventude, vista ora de forma romântica, ora como um vir-a-ser pela sua transitoriedade, como uma fase de conflitos e transição, pode fazer com que ao jovem seja atribuída sempre uma ótica negativa e de forma monolítica, sem considerar o contexto de vida e as condições de ser jovem, estando fechado para a construção que se dá de forma particular.5,8

Assim, a relação frequentemente feita da juventude com irresponsabilidade e violência, muitas vezes, distanciase do cotidiano dos jovens que buscam estruturar "respostas" para a sociedade que os marginaliza. Desse modo, o jovem, invisível na sociedade por outros meios, pode ser aquele que recorre a armas para reconquistar a visibilidade, mesmo que pelo avesso. O jovem, por ser invisível e excluído, aparece por meio da violência. Imputando medo e provocando a violência, o jovem ganha visibilidade da sociedade, ainda que esta o associe à negatividade.9

É preciso, então, entender a violência atribuída à juventude em determinado contexto. A cultura pode ser para o jovem, também, uma resposta a essa invisibilidade social, não precisando que ele recorra à violência para ganhar visibilidade, mas tenha um lugar social positivo.10

Na experiência vivida com esses jovens, uma situação relatadapelajovemcoordenadoradogrupoexplicitabem a relação conceitual da juventude com a violência:

Aí um dos meninos tava abrindo a garrafa de refrigerante pra gente pegar água. Aí o policial chegou e falou assim: 'Aqui se tá fumando, fumando não, cê tá com alguma droga aí?' E pegou a garrafa. E assim, no meio da praça... e isso decepcionou muito. Aí eu falei: 'Ô gente, vamo levantá e vamo dançá'. Aí tipo a gente levantou e foi dançá. Então é uma forma que a gente, jovem, não pode agredir o policial, mas ele pode vim e agredir a gente de qualquer forma, a qualquer momento. E ele agrediu a gente. Então a forma que a gente tem de expressar pra ele é dançando, sabe. E eu acho que o que a gente não pode dizer verbalmente a gente pode fisicamente, sabe.

No grupo implementado com esses jovens, foi possível apreender que eles querem ser reconhecidos, querem uma visibilidade na dança que constroem no grupo, querem ser alguém num contexto que os torna, muitas vezes, invisíveis, ninguém na multidão. A eles não é possibilitado o espaço para mostrarem o que realmente têm de habilidade e potencial, sendo que a inserção cultural é, em muitas situações, o espaço que lhes permite ser o que realmente são.

A marca dos espaços institucionais como a escola é revelada nessa vivência como um espaço distanciador do jovem da possibilidade de uma construção positiva bem alicerçada para a vida, como afirma a jovem que atua como coordenadora do grupo: Eu acho que quando cê chega numa escola e a professora chama você de malandro, não vale a pena, sabe. Esse relato remete a outra situação de violência a que esses jovens estão submetidos: a violência provocada por instituições, que, a princípio, deveriam proteger, cuidar e educar os jovens.

Partindo-se da imprecisão conceitual de juventude, por um lado, pela produção dos adultos e, por outro, do cotidiano revelador da juventude,essa mesma contradição se dá no âmbito das políticas públicas para os jovens que não consideram os adultos como enunciadores de suas demandas e necessidades. Nesse sentido, Abramo3 afirma que, em sua grande maioria, são raras as experiências que consideram os jovens como interlocutores significativos em sua formulação e implementação. Em geral, as políticas são construídas para os jovens sob a ótica dos problemas definidos pelo mundo adulto, e não sob a ótica dos direitos de juventude.

Tendo em vista que a reflexão construída neste artigo sobre a relação entre pesquisador e jovens em um contexto de pesquisa se deu com base em um estudo com o propósito de discutir a temática da saúde com tais sujeitos, fazem-se, a seguir, algumas considerações sobre essa temática. Destaque-se que o foco proposto não está nas práticas de saúde ou em como os jovens percebem a questão da saúde, mas, sim, na interação entre o pesquisador e o jovem.

Ao passar pelo contexto da cultura e da escola abordado pelos jovens nos encontros, buscando refletir com eles sobre a saúde, percebe-se a direcionalidade das ações de saúde para os comportamentos. Os referenciais sobre saúde construídos pelos jovens nos encontros são capazes de revelar a centralidade da saúde nos comportamentos tidos como saudáveis. Os discursos dos jovens e as possibilidades de cuidado com a saúde reproduzem o discurso da mídia com uma fala estruturada e responsável sobre a saúde, mas permeada por contradições ao revelarem o cotidiano. Desse modo, parece que os jovens fazem menção às questões da saúde em sua vida somente com base nos discursos politicamente corretos para os jovens veiculados pelos meios de comunicação e também sustentados pelos profissionais de saúde. Assim, a própria integração deles em grupos sociais e o lazer não são abordados como formas cuidadoras da saúde.

Além disso, construir a relação entre juventude e saúde precisa ser um esforço constante, uma vez que, por longos anos, o setor saúde vem se ocupando das demandas e necessidades dos jovens com base em focos biológicos e curativistas. Assim, o aparato conceitual da saúde se concentra no entendimento do jovem com referenciais de adolescentes como uma fase de transição somente.11,12 A experiência com os jovens descrita neste artigo pôde revelar o que é apontado por Soares9 como necessário: "Vencer a barreira da questão de discutir o significado do ser adolescente, encarando-o como sercidadão", para que ele possa viver sua vida de maneira responsável e feliz.

Para Valadão,13 o discurso biomédico da saúde visa normatizar a vida dos jovens e colocá-los como sujeitos incompetentes para responsabilizar-se pelas questões de sua vida. Esse discurso segue a contramão das possibilidades de corresponsabilização pelo processo saúde-doença e do empoderamento de tais jovens para a construção e a implementação dos projetos de vida. Aos profissionais de saúde Muza14 faz uma recomendação de que precisamos, desde já, deixar de olhar os adolescentes com os estereótipos desqualificadores, como preguiçosos, drogados e violentos e passar a vêlos como parte da solução.

Assim, incorporar no setor saúde a categoria juventude requer novas práticas no encontro com os jovens capazes de considerá-los como atores sociais e com responsabilidades sobre o modo de andar a vida, indo além das práticas dirigidas à prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e gravidez na adolescência.15,16 Além disso, nessa construção, faz-se importante conhecer e analisar como se dá a relação entre os profissionais de saúde e os jovens que procuram os serviços de saúde, o que remete à discussão da relação do jovem com a escola, que também não está sabendo lidar adequadamente com esses jovens. Desse modo, ou o jovem é colocado num lugar infantilizado, ou seja, daquele que não sabe de si, que não é responsável por si, ou é colocado no lugar da marginalidade. Sentem-se desrespeitados ou mal compreendidos na escola e nas instituições de saúde, perdem essas instituições como referência, o que remete à necessidade de compreensão de tais causas.

Como essas instituições têm escutado efetivamente esses jovens? Elas têm sido capazes de olhá-los como eles "realmente" são e não como elas gostariam que fossem ou olham-nos com base em concepções prévias que têm sobre eles? A escola mencionada neste estudo se apresenta como aquela em que o jovem é um sujeito malandro, que não quer aprender nada, que não se interessa por nada. A instituição de saúde tem uma concepção dos jovens como sujeitos com problemas - gravidez, DST/Aids - provocados por irresponsabilidade e falta de conhecimento. Para Muza14 e Horta,17 os jovens mostram uma resistência à aproximação com as instituições de saúde, ao mesmo tempo em que as instituições de saúde têm dificuldade em acolher os que as procuram, o que é bem revelado na experiência com esses jovens.

Com as questões reveladas neste estudo, alguns questionamentos ficam ainda mais evidentes: Como os programas podem pensar de forma mais ampliada a saúde dos jovens? Como articular profissionais de saúde e jovens? Como articular saúde e futuro? Saúde e projetos profissionais e projetos afetivos? Como ir além da prescrição de comportamentos saudáveis para os jovens, que são concebidos pelos adultos, e não pelos próprios jovens ou com eles?

Um terceiro ponto importante, revelado nessa experiência com os jovens, refere-se diretamente à forma como se contata e se aborda os jovens como pesquisadores, discussão que permeou de forma mais implícita os tópicos acima. O modo de inserção nos espaços cotidianos dos jovens pode, muitas vezes, distanciar o pesquisador dos sujeitos pesquisados.

A primeira vivência que contribuiu para essa reflexão e que embasou as demais temáticas apresentadas neste artigo se deu no encontro com a coordenadora do grupo de jovens selecionado, no qual ela expôs sobre o desgosto que tem com pesquisas que, dependendo de como se desenvolvem, não trazem retorno nenhum para o contexto e para os participantes. Em seu discurso, a coordenadora sinalizou pontos fundamentais que embasaram essa reflexão:

Então, porque é assim, as pessoas vêm aqui, fazem pesquisa, depois a gente fica sabendo que o nome da gente foi falado em lugar que a gente nunca foi e a gente não tem retorno nenhum.

Sobre a temática proposta no estudo, a coordenadora ressaltou, ainda, a importância da discussão do tema da saúde dos jovens, afirmando que

tá todo mundo preocupado com a cultura e com a violência dos jovens e a saúde fica aí [....]. Tá todo mundo querendo estudar a juventude, mas a juventude não tá lá falando. Falam pela juventude.

Nessa experiência, como pesquisadora, considerava que os jovens estariam esperando a apresentação da pesquisa a priori do desenvolvimento do encontro do dia, fato que não ocorreu. Destaque-se que esse grupo dos jovens se encontra duas vezes na semana para realizar atividades de dança de rua. Nesse dia, havia 15 jovens presentes, na faixa etária entre 13 e 20 anos. Após o ensaio de dança do grupo, foi feita uma roda para apresentação da proposta da pesquisa. Para minha surpresa e reflexão, fundamental para a pesquisa, os jovens fizeram primeiramente toda a dinâmica normal do ensaio programado para, em seguida, se disponibilizarem a ouvir minha proposta. Além disso, foram questionadores do compromisso e do retorno da pesquisa, explicitando a importância de os benefícios serem para ambas as partes, inclusive para a vida cotidiana deles:

Por que você está fazendo essa pesquisa? Você está aqui porque é bom para seu currículo? (J1)

O que essa pesquisa vai trazer pra gente aqui? (J2)

O que nós vamos fazer pra participar? O que é isso de promoção da saúde? Esperar dois anos ainda pra eu terminar a pesquisa, isso é muito tempo, não? A gente nem sabe se vamos tá aqui mais! A gente vai ser o seu instrumento, como assim? (J3)

Desse modo, houve, então, um momento de esclarecimento das questões trazidas pelos jovens e de construção de uma proposição com os dados e a análise construída com base em encontros com os jovens que objetivavam discutir questões relacionadas à saúde. Destaque-se que os jovens cobravam aspectos relativos ao retorno que a participação na pesquisa lhes traria. Cobravam por alguma ação que trouxesse impacto em seu cotidiano de vida ou que fosse capaz de propiciar uma discussão crítica com eles. Desse modo, concordaram em participar da pesquisa e disseram que seria legal participar porque o jovem não pensa muito nisso de saúde. (J3)

Com base nessa vivência, foi possível constatar que a interação com uma comunidade de periferia requer do pesquisador uma sensibilidade especial para que saia do espaço de poder e, muitas vezes, de arrogância para uma abertura ao novo. Percebeu-se o quanto os sujeitos pesquisados "testam" o pesquisador, buscando conhecer seus preconceitos e os estereótipos possíveis. O agendamento da entrevista pela coordenadora em uma associação educacional dentro da vila é capaz de exemplificar a elucidação de possíveis reações do pesquisador ao percorrer os becos da vila, em lugares em que o acesso é dificultado.

Outro ponto que merece destaque, na interação entre pesquisador e pesquisados, é o quanto a vinculação e a participação do pesquisador de forma mais ativa, no contexto da pesquisa, por meio de aproximações sucessivas, podem revelar maior riqueza no trabalho de campo. Minha participação como espectadora na apresentação cultural do grupo de dança causou repercussões na interação dos jovens comigo e foi motivo de comentários entre eles.

Nos encontros com o grupo de jovens, a presença de um observador foi fundamental para as readequações e para o retorno na utilização dessa técnica. Também foi possível rever as questões referentes ao vocabulário utilizado nas falas com os jovens, às vezes considerado requintado, com a utilização de palavras que dificultavam o entendimento dos jovens em relação ao estudo e ao que se propõe discutir.

Com essa experiência ficou evidente que a discussão sobre a saúde e a promoção da saúde com os jovens precisa se dar de forma que parta das experiências vividas no cotidiano desses jovens, e não de conceitos atribuídos pelos jovens que reproduzem o discurso tido como correto sobre a saúde e a promoção da saúde. Essas, sim, são capazes de revelar o fazer e o não fazer do jovem em relação ao cuidado e à promoção da saúde.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As reflexões suscitadas com base nessa experiência na interação da pesquisadora com os jovens puderam revelar os percursos e percalços dessa trajetória, além de outras possibilidades na construção de pesquisas com jovens e de elementos importantes para uma compreensão mais profunda do cotidiano deles. O primeiro deles sobre a importância de compreender as políticas direcionadas à juventude, que veem, pela ótica desses, com base na constatação do jovem como um vir-a-ser e, por esse motivo, não estabelecem uma escuta atenta de suas demandas. Faz-se importante entender, então, no cenário atual, com espaços organizados para os jovens, como conselhos de juventude, seminários e conferências, como eles têm se organizado e sido representados.

Outro ponto interessante, revelado pela experiência, refere-se à própria construção teórica sobre juventude. Como profissional de saúde, foi possível perceber o quanto a formação e o cotidiano do setor saúde apoiam-se em referenciais conceituais sobre esse momento da vida que limita a possibilidade de uma interlocução com o jovem, focada nos aspectos biologicistas, sem avançar até mesmo para as ações cuidadoras da saúde, de forma mais autônoma e responsável.

Além disso, merece destaque o quanto essa experiência colaborou para a revisão da construção metodológica e da abordagem do objeto de pesquisa no projeto de doutorado, assim como da importância do olhar amplo do pesquisador e da abertura para mudanças. Ficou clara a importância da inserção e das aproximações no cenário de pesquisa para além de visitas pontuais com foco na coleta de dados. Apreender a questão da promoção da saúde na juventude remete a uma capacidade de decifrar o cotidiano dos jovens e buscar neles os determinantes sociais na saúde e as ações promotoras da saúde.

Essa experiência apontou para a necessidade de ver os jovens de forma mais respeitosa, percebendo-os a com base neles próprios, e não na ótica do pesquisador, como sujeitos que querem ser ouvidos e respeitados. Aponta para a necessidade de estratégias metodológicas diferenciadas na interação com os jovens, numa perspectiva que os considerem não como objetos ou fonte de informações, mas como participantes que interagem e se posicionam perante o mundo de forma emancipatória e crítica.18,19 Por isso, tais jovens cobram um retorno da pesquisa, uma participação diferenciada nela com impacto no seu cotidiano, o que remeteu à reconstrução de minha postura no trabalho de campo.

Desse modo, revela-seque desenvolver a temática da promoção da saúde com base no cotidiano dos jovens pode promover um movimento no sentido da formular novas bases político-sociais para as práticas de atenção, gestão e formação em saúde e demais setores envolvidos nas ações promotoras da saúde dos jovens, baseando-se no contexto em que estão inseridos.

 

REFERÊNCIAS

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* Os discursos dos participantes foram mantidos na íntegra neste artigo, sem alterações ortográficas.

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