REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume Atual: 22:e-1082 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20180012

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Pesquisa

Motivos atribuídos por usuários à procura de tratamento em um  centro de atenção psicossocial álcool e drogas

Reasons attributed by users seeking treatment in a psychosocial care center alcohol and drugs

Daiana Foggiato de Siqueira1; Marlene Gomes Terra1; Keity Laís Siepmman Soccol1; Janaina Lunard Canabarro1; Claudete Moreschi2

1. Universidade Federal de Santa Maria - UFSM. Santa Maria, RS - Brasil
2. Hospital São Francisco de Assis. Santa Maria, RS - Brasil

Endereço para correspondência

Daiana Foggiato de Siqueira
E-mail: daianasiqueira@yahoo.com.br

Submetido em: 30/08/2017
Aprovado em: 22/02/2018

Resumo

OBJETIVO: compreender os motivos atribuídos por usuários de substâncias psicoativas à procura de tratamento em um Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas.
MÉTODO: estudo fenomenológico à luz da fenomenologia social de Alfred Schütz, que foi realizado em um CAPS ad, localizado na região centro-oeste do estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Participaram da entrevista, no período de março a junho de 2014, 11 usuários de substâncias psicoativas que realizavam tratamento nesse serviço.
RESULTADOS: foi possível compreender os motivos por que e os motivos para da procura de tratamento pelos usuários. Em relação aos motivos por que, têm-se duas categorias: agravos na saúde e relacionamentos sociais. E dos motivos para, aqueles que têm olhar direcionado para o futuro, ao que se espera alcançar emergiram duas categorias concretas do vivido: tendo em vista reconstruir suas relações familiares; e, expectativa de reinserção social.
CONCLUSÃO: esta pesquisa permitiu compreender os motivos atribuídos por usuários de substâncias psicoativas ao procurarem tratamento em um CAPS ad, não apenas no contexto individual da ação, mas em um mundo de relações com os outros, no qual possui significado intersubjetivo, contextualizado no mundo social

Palavras-chave: Usuários de Drogas; Transtornos Relacionados ao Uso de Substâncias; Centros de Tratamento de Abuso de Substâncias.

 

INTRODUÇÃO

O uso abusivo de substâncias psicoativas, como o álcool e outras drogas, atinge direta ou indiretamente os distintos setores da sociedade, causando prejuízos relacionados à saúde, bem como danos sociais e econômicos. Além disso, têm-se os acidentes de trânsito, a violência ocasionada pelo uso dessas substâncias, a redução do autocontrole entre jovens que direcionam a possibilidade de adoção de condutas de risco, que são agravos relacionados à vida dos usuários e das pessoas do seu convívio.1-3

Diante da complexidade que envolve o uso abusivo dessas substâncias e suas consequências na vida dos usuários e sociedade, o Ministério da Saúde, por meio da Política de Atenção Integral a Usuários de Álcool e outras Drogas, recomenda a construção de redes assistenciais composta por um dispositivo especializado, o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS ad). Esse serviço tem por objetivo atender os usuários que apresentam transtornos decorrentes do abuso de substâncias psicoativas ou casos que apresentam grave comprometimento sociofamiliar.4

O CAPS ad auxilia os usuários de substâncias psicoativas, tanto no ponto de vista preventivo, quanto na sua reabilitação, a partir do fortalecimento de fatores de proteção da saúde, prevenção e tratamento por meio da intervenção terapêutica e da reinserção comunitária e social. O CAPS ad promove a melhoria das condições de saúde dos usuários e da população em geral, tirando o foco de uma assistência centrada no controle e na repressão.4,5

Ao buscar tratamento no CAPS ad, os usuários de substâncias psicoativas encontram um motivo para realizarem essa ação. Nesse sentido, pressupõe-se que a compreensão dos motivos seja relevante aos profissionais, uma vez que eles estão envolvidos no cuidado de modo a compreender a subjetividade do usuário e possibilitar apoio emocional e suporte terapêutico a eles e as pessoas envolvidas.

Diante do exposto, teve-se como pergunta de pesquisa: quais os motivos atribuídos por usuários de substâncias psicoativas à procura de tratamento em um Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas? E, como objetivo: compreender os motivos atribuídos por usuários de substâncias psicoativas à procura de tratamento em um Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas.

 

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa fenomenológica à luz da fenomenologia social de Alfred Schütz. A fenomenologia social pauta-se no indivíduo que vivencia a experiência de determinado fenômeno, uma vez que somente o ator envolvido pode referir o motivo da sua ação. Assim, valoriza o sujeito, suas vivências, suas ações conscientes e suas expectativas6, em que se busca compreender a intencionalidade das ações de um indivíduo e/ou um grupo social, ou seja, dos usuários de substâncias psicoativas que procuram tratamento em um CAPS ad.

Na fenomenologia social, procura-se estabelecer o típico da ação do grupo social pesquisado que vivenciou uma situação em comum. Portanto, a tipificação em Schütz resume-se nos traços típicos de um fenômeno social, caracterizando a ação em processo6 como, por exemplo, a ação da procura de tratamento dos usuários de substâncias psicoativas.

Nessa perspectiva, a fenomenologia social possibilita compreender a ação por meio dos motivos que representa um estado das coisas, em outras palavras, o propósito que se pretende conseguir com a ação. Assim, conceitua os motivos “por que” como aqueles evidentes nos acontecimentos concluídos, portanto, compreende uma direção temporal voltada para o passado. E os motivos “para” ou “com-a-finalidade-de” são percebidos como os motivos referentes a algo que se pretende realizar, que se procura alcançar, tendo uma estrutura temporal voltada para o futuro.6

A pesquisa foi realizada em um CAPS ad localizado na região centro-oeste do estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Participaram 11 usuários de substâncias psicoativas que realizaram tratamento nesse serviço. Os critérios de inclusão no estudo foram homens e mulheres com idade de 18 anos ou mais e que frequentavam o serviço. E, como critérios de exclusão: usuários sob efeito de alguma droga e com dificuldades de comunicação no momento da produção de dados.

As informações foram coletadas por meio de entrevistas fenomenológicas nos dias em que os usuários tinham atividades no CAPS ad. Algumas foram realizadas antes ou após grupos ou consultas, mas todas previamente agendadas conforme a disponibilidade dos usuários. O período da coleta de informações foi de março a junho de 2014. Para as entrevistas, utilizou-se a seguinte questão norteadora: “o que levou você a procurar tratamento neste CAPS ad?”

Na entrevista fenomenológica, o entrevistado refere seus motivos e sua intencionalidade por meio da conversação. Possibilita ao indivíduo expor sua vivência a respeito da temática em questão.6 O tempo de duração das entrevistas foi de acordo com a disponibilidade de cada participante. O número de participantes para as entrevistas não foi predefinido, uma vez que, na entrevista fenomenológica, o quantitativo pode ser encerrado quando houver repetição significativa das informações nas falas, visto que se pretende alcançar em profundidade e não a sua quantificação.7 As entrevistas foram realizadas de modo individual, mediante autorização de cada usuário. As falas foram gravadas em um gravador digital e, posteriormente, transcritas.

Para a análise das falas, foi utilizada a estratégia metodológica7 com a finalidade de compreender os motivos atribuídos por usuários de substâncias psicoativas à procura de tratamento em um Centro de Atenção Psicossocial à luz do referencial de Alfred Schütz.6 Para tanto, foram desenvolvidas algumas etapas. Primeiramente, procedeu-se a leitura e releitura das entrevistas, buscando agrupá-las por afinidade e captar os motivos atribuídos por usuários de substâncias psicoativas à procura de tratamento em um CAPS ad. Para a compreensão dos motivos, foi realizado um recorte das falas e depois foram identificadas as ideias comuns remetidas nesses recortes. Cada entrevista foi lida e relida na íntegra a fim de confirmar as ideias ao longo das falas dos usuários.

Portanto, procurou-se, por meio das leituras das falas, identificar as unidades de significados, a relação das categorias concretas do vivido entre si, chegando assim ao típico da ação dos usuários de substâncias psicoativas que procuram o tratamento, ou seja, o que é comum a esse grupo social. Os resultados foram interpretados em concepções teóricas da fenomenologia social de Alfred Schütz.6

O anonimato dos usuários foi preservado utilizando-se a letra U para a identificação, seguida do número correspondente à ordem em que a entrevista foi realizada. Assim, U1 representa o primeiro usuário entrevistado, U2 o segundo, e assim sucessivamente até o U11.

Para o desenvolvimento da pesquisa, foram observados os aspectos éticos, conforme Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012, do Conselho Nacional de Saúde.8 Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), sob o parecer nº 558.261.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Embasada nas vivências dos usuários de substâncias psicoativas que procuram tratamento em um CAPS ad e a partir da análise das falas à luz do referencial da fenomenologia social de Alfred Schutz, foi possível compreender os motivos por que e os motivos para da procura de tratamento pelos usuários.

Em relação aos motivos por que, têm-se duas categorias: agravos na saúde e relacionamentos sociais.

Agravos na saúde

Desvelou-se que os agravos na saúde dos usuários provocados pelo uso de substâncias psicoativas foram elementos facilitadores para motivar a procura pelo tratamento em um CAPS ad. As consequências prejudiciais do uso dessas substâncias ocorrem em diversos aspectos, sobretudo de ordem emocional e os relacionados à saúde. Ao perceber esses agravos, os usuários procuram tratamento para a suspensão ou diminuição do uso dessas substâncias.2

Os usuários verbalizam que o uso de substâncias psicoativas estava comprometendo sua saúde:

Vou procurar ajuda. Não estou conseguindo sozinho. Eu acho que minha condição de saúde não está indo bem e pode ficar mais grave, posso vir a óbito. Por isso, procurei vir aqui, senão eu morro (U1).

É a viagem ruim, alucinação, barulho, escutar coisas. É complicado! Foi aí que eu procurei para sair da viagem ruim, por mais que a viagem era ruim eu não conseguia parar (U2).

Porque tinha pancreatite e ainda tinha úlcera. Aí, eles [médicos] me disseram: pancreatite mata. Eu tenho que abandonar a cachaça. Eu bebia, mas não era só cachaça. Aí eu adoeci, fiquei mal mesmo (U6).

Depois já começaram de novo os problemas de saúde, foi subindo a pressão [...] do jeito que eu estava, meu coração não batia mais, ele tremia. O álcool estava me tirando tudo, o pâncreas com certeza, detonei com o álcool. Entrando aqui [CAPS], eu sabia que eu ia conseguir e me ajudar de tudo quanto era jeito, psicologicamente, psiquiatricamente, clinicamente (U10).

Em decorrência do uso de substâncias psicoativas o usuário pode ter sua saúde comprometida, uma vez que engloba danos biológicos e psicológicos. Essas acarretam sobrecarga emocional e estados de tensão, demonstrados por alterações comportamentais em virtude do agravamento da dependência.8,9

Ao compreender que os usuários buscaram tratamento em virtude dos agravos à saúde, é importante destacar que o motivo para a procura pelo tratamento se faz presente na situação biográfica dos usuários, a qual revela o momento da vida em que eles se encontram, as influências de suas experiências passadas relacionadas ao uso de substâncias psicoativas. Assim, os motivos estabelecem um processo transitório e dinâmico do mundo da vida desses sujeitos, onde eles vivem, considerando suas vivências, experiências e relações interpessoais.6

Ao experienciarem o uso de substâncias psicoativas, os usuários estavam comprometendo sua saúde, e perceberam que, se continuassem nessa situação, poderiam vir a óbito. Sendo assim, procuram tratamento no CAPS ad em busca de uma recuperação da sua saúde. As situações do mundo da vida, como os agravos na saúde, e da situação biográfica de cada usuário de substâncias psicoativas fizeram-se presentes como motivações para a procura de tratamento em um CAPS ad.

Relacionamentos sociais

Ao direcionarem seu olhar para o passado, com a intenção de compreender as motivações da procura de tratamento, os usuários mencionaram que as várias perdas que tiveram foram motivos para a busca de tratamento: estrutura familiar, abandono de pais e filhos, de companheiros, de confiança, da moral e do respeito.

Meu pai, ele me abandonou. Eu perdi a minha família, eu perdi meus amores, a pessoa que eu amava e a sociedade (U3).

Perdi esposa, perdi os filhos, tudo. Foram tudo embora (U5).

Eu perdi minha família, minha mãe. E tem a minha filha, que agora também usa droga, antes não usava. E a gente não se dá bem por isso (U7).

Eu andava bebendo demais, perdendo a moral. A gente perde o respeito das pessoas que gostam da gente e afasta as pessoas. E a pessoa não bebendo, todo mundo te quer bem (U8).

Os usuários, ao sedimentarem suas experiências vividas, seu estoque de conhecimento à mão dada pela sua situação biográfica, revelam um vivido de perdas sociais, que envolvem seus antecessores, sucessores e contemporâneos. O estoque de conhecimento à mão diz respeito às vivências e experiências que a pessoa acumula ao longo da sua vida, que possibilita a sua interpretação do mundo. E, conhecendo a situação biográfica de cada pessoa, compreender suas motivações.6

No mundo da vida as pessoas estabelecem relações sociais umas com as outras, podendo acontecer com antecessores, sucessores e contemporâneos. Desse modo, o antecessor é a relação social vivida como modo passado. O sucessor é o vivido como perspectivas que se anteabrem a um futuro. O contemporâneo é aquele com o qual se realiza uma troca, um intercâmbio social atual.6 Com as perdas dessas relações sociais tem-se o rompimento das relações face a face.

A relação face a face ocorre quando os usuários compartilham de um mesmo tempo e espaço com os seus antecessores, sucessores e contemporâneos e esses fazem o mesmo em relação a eles, assim todos estão conscientes um em relação ao outro. Quando acontece o rompimento dessa relação, passa-se a ter uma relação de anonimato que significa que ambos não compartilham mais do mesmo tempo, espaço e situação biográfica.6

A partir do estoque de conhecimento à mão e das relações sociais vivenciadas pelos usuários no seu mundo da vida, eles revelaram suas intenções e escolhas, as quais resultaram nas motivações para a procura de tratamento no CAPS ad. Além disso, foram também motivações as relações sociais estabelecidas pelos usuários, sejam com a família, ex-cônjuges, pessoas do local de trabalho, profissionais de saúde de outros serviços de atenção à saúde e de outros usuários que estavam em tratamento no CAPS ad.

O mundo da vida onde ocorrem as relações sociais é intersubjetivo, o que significa que ele não é privado, é comum a todas as pessoas. É nele que convivem semelhantes com os quais se estabelece distintas relações, que é compartilhado, vivenciado e interpretado pelo sujeito e mesmo por outros semelhantes. Viver no mundo da vida significa envolver-se de forma interativa com várias pessoas, em complexas redes de relacionamentos sociais.6 Assim, o envolvimento no mundo da vida dos usuários de substâncias psicoativas teve influência na motivação para a procura pelo tratamento.

Eu vim por intermédio da minha ex-esposa. A gente entrou em comum acordo. E na empresa também (U5).

Eu procurei aqui porque eu estava demais, incomodando muito, e passava mal seguido. Daí ela [esposa] disse que eu tinha que parar também, e sabe que ela me disse pra vim e me trouxe aqui (U9).

Na realidade, quem me indicou foi minha mãe antes de falecer, porque ela tinha problema com alcoolismo (U11).

Os usuários, ao serem influenciados pelas relações sociais que estabeleceram com seus antecessores e com seus semelhantes, revelaram a orientação-pelo-Tu. Esta foi estabelecida por uma pessoa com a qual o usuário teve contato direto, neste estudo identificado pela figura da mãe, ex-esposa e pessoas com quem trabalha. A orientação-pelo-Tu pode ser considerada unilateral ou recíproca. Unilateral quando somente um dos sujeitos percebe a presença do outro; e a recíproca quando ambos os sujeitos estão reciprocamente conscientes em relação ao outro.6

Quando os sujeitos estão conscientes um em relação ao outro e compartilham um da vida do outro, por mais que seja por curto período de tempo, é denominada de relação-do-Nós, a qual é a forma recíproca da orientação-pelo-Tu.6 Assim, quando os usuários e seus semelhantes atuam com perspectivas recíprocas um em relação ao outro, eles estabelecem a relação-do-Nós, a qual tem influência nas motivações dos usuários na procura pelo tratamento.

Pode-se considerar que as substâncias psicoativas interferem na vida das pessoas, uma vez que as perdas pessoais, afetivas e sociais fazem parte do cotidiano dos usuários que repercutem na vida familiar e no afastamento da sociedade.10 Essas perdas e as intervenções das relações sociais representaram os motivos por que dos usuários realizarem a procura de tratamento em um CAPS ad.

E, dos motivos para, aqueles que têm olhar direcionado para o futuro, ao que se espera alcançar emergiram duas categorias concretas do vivido: tendo em vista reconstruir suas relações familiares; e expectativa de reinserção social.

Tendo em vista reconstruir suas relações familiares

Os usuários ao procurarem tratamento têm em vista a reconstrução de suas relações familiares, almejando reconquistar cônjuges e filhos. O uso da substância faz com que os familiares se afastem dos usuários, ocasionando o rompimento da relação-do-Nós. Assim, os familiares e o usuário não estabelecem mais uma relação de reciprocidade. O rompimento da relação-do-Nós resulta na orientação-pelo-Tu, no qual as pessoas não estão mais conscientes uma em relação à outra e não compartilham um da vida do outro.6 E, ao procurarem o tratamento, eles têm em vista o restabelecimento da relação-do-Nós.

Quando há essa reciprocidade entre usuários e familiares, há o testemunho recíproco, que é a maneira como lidamos com nossa consciência, a qual pode ser modificada a partir da relação que o indivíduo estabelece com o outro. E só existe verdadeira relação social se a pessoa responder de algum modo à consciência que tem do outro. Os sujeitos nessa relação estão mutuamente conscientes, possuem implicações especiais para a interação social.6

Eu procurei mais para tentar recuperar minha esposa, minha ex-esposa que é mãe do meu filho. E eu gostaria de voltar para ela, voltar ter a família normal como nós éramos antes, mas ela me largou mais por causa da bebida (U4).

Estou decidido a isso: meus filhos vão voltar a morar comigo agora, dois deles (U5).

Os usuários buscam tratamento após perceber que não têm mais apoio da família ou quando começam a perder bens materiais, trabalho e vínculo com as pessoas do seu convívio. As consequências que o uso de substâncias psicoativas gera na família interferem negativamente no contexto familiar, pois podem ocasionar a desagregação familiar e o sofrimento.10 Sendo assim, os usuários, ao vivenciarem essas perdas familiares, buscam tratamento no CAPS ad tendo como finalidade a reconstrução dos seus vínculos familiares.

A procura do tratamento pelos usuários está motivada pela necessidade de resgatar alguns valores como a confiança, encontros prazerosos/lazer e o respeito de sua família, como também pela necessidade de parar com o uso das substâncias psicoativas para poder ajudar um familiar doente.

O próprio comportamento da pessoa em relação ao outro é baseado, em primeira instância, em propósito de motivos não questionados a despeito de estes serem ou não seus reais motivos. Então, passa-se a estabelecer peculiaridade da relação face a face. A interação não consiste em uma estrutura específica do contexto de motivações recíprocas em si mesmo, mas em uma descoberta dos motivos da outra pessoa.6

Não posso beber mais. Minha mãe ficou doente, teve que fazer cirurgia e eu tenho que estar sempre presente para ajudar ela (U8).

O usuário, às vezes, inicia o processo terapêutico nos serviços de saúde, em decorrência de situações de risco envolvendo familiares, trabalho, problemas financeiros, legais e/ou rompimento de relacionamento afetivo.11 Assim, os usuários acreditam que o resgate de alguns valores, como o respeito e a confiança dos membros da sua família, consiste nas motivações para a procura pelo tratamento no CAPS ad.

Expectativa de conseguir reinserção social

Aliado aos motivos dos usuários ao procurar tratamento em um CAPS ad, eles têm a expectativa de conseguir sua reinserção social. Pretendem, assim, conseguir um trabalho, uma moradia e bens materiais.

A reinserção social possibilita ao usuário conviver com sua família, amigos e demais membros da sociedade por meio da ocupação dos espaços sociais.12 Sendo assim, observa-se que o mundo da vida é experienciado pelos usuários como uma estreita rede de relações sociais, com sua estrutura particular de significados, de formas institucionalizadas de organização social, de sistemas de status e prestígio.6

O ato de beber pode estar associado à influência das relações sociais estabelecidas entre a família e os amigos, principalmente em jovens. Dessa forma, o uso pode não ser percebido como prejudicial à saúde e sim entendido.13 A fim de construir um status em meio social, os usuários procuram o tratamento tendo em vista a interação social.6

Nesse sentido, o significado subjetivo que o grupo social tem para seus membros se estabelece no conhecimento de uma situação comum com o vigente sistema de tipificações e relevâncias. O sistema de tipificações e relevâncias compartilhado com outros membros do grupo determina os papéis sociais, as posições e o status de cada pessoa.6

A expectativa de conseguir uma posição e status social está associada ao desejo de inserir-se, ser aceito ou respeitado por um determinado grupo social. Assim, confirma o significado subjetivo que o grupo social possui para seus membros, pois comumente é apresentado por sentimento de pertencimento, de compartilhamento de interesses comuns.6 Para os usuários, os interesses comuns compartilhados com esse grupo social são fundamentais para o êxito de sua reinserção social.

O meu retorno à sociedade porque basicamente quem bebe vive numa sociedade, mas não faz parte dela [...] Conseguir um apartamentinho e tocar minha vida (U1).

Conseguir uma namorada, um trabalho digno, pois a sociedade é muito injusta, às vezes assim, a tua fisionomia conta na hora de selecionar um funcionário (U3).

Os usuários são conscientes de que a dependência das substâncias psicoativas traz limitações na sua vida, como a perda do emprego e de bens materiais. E acreditam que o CAPS ad, por meio das atividades e atendimentos oferecidos, contribui para a sua reinserção na sociedade, bem como com o seu retorno com as atividades da vida profissional.1

Os usuários desejam dar continuidade à sua vida, regressar à faculdade, ir às festas e divertir-se sem fazer uso de substâncias psicoativas. Desse modo, o interesse à mão motiva o pensar, projetar e agir e, assim, constitui os problemas a serem resolvidos pelo pensamento e os objetivos a serem alcançados pelas ações. As relevâncias intrínsecas são resultado de interesses escolhidos, constituídos por nossa decisão espontânea.6

Espero voltar a ser quem eu era antes. Retomar minha faculdade, retomar meu bom emprego (U11).

O interesse à mão do sujeito no mundo social é notavelmente prático, pois surge do seu cotidiano. É um interesse prioritário incluso em um sistema maior de interesses inter-relacionados, que define o que será pensado e projetado a fim de realizar uma ação. O sistema de interesse não é homogêneo, algo único, pode modificar conforme o papel desempenhado pelo ator social, em distintos âmbitos do mundo social. Tampouco é constante, uma vez que é capaz de adquirir ou mais ou menos prioridade entre o agora e o agora que acabou de passar.6

Assim, a motivação dos usuários pela procura do tratamento no CAPS surge do seu cotidiano e de seus interesses, já que esse serviço tem como objetivo resgatar a autonomia, a subjetividade e a autoconfiança de pessoas que foram historicamente excluídas e depostas de seus papéis sociais.12

O mundo da vida é um mundo social que aparece ao sujeito de maneira pré-estruturada. O sujeito assume o mundo social a seu redor como algo determinado, no qual a sua experiência, o uso ou a rejeição de alguns objetos naturais já estão presentes em seu cotidiano.6

O mundo social possui um sentido próprio e uma estrutura de significados para as pessoas que vivem, pensam e atuam dentro dele. Essas pessoas pré-interpretam-no por meio de uma série de constructos do sentido comum sobre a realidade cotidiana. Os objetos de pensamento determinam sua conduta, definem a intenção de sua ação e o ajudam a orientar-se dentro de seu meio natural e sociocultural e a relacionar-se com ele.6

Portanto, os motivos atribuídos por usuários de substâncias psicoativas têm sentido próprio no seu mundo social, com significados de acordo com a realidade do seu cotidiano que determina sua ação da procura de tratamento no CAPS ad.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esta pesquisa permitiu compreender os motivos atribuídos por usuários de substâncias psicoativas ao procurarem tratamento em um CAPS ad, não apenas no contexto individual da ação, mas em um mundo de relações com os outros, nos quais possui um significado intersubjetivo, contextualizado no mundo social.

Desvelou-se que o mundo da vida do usuário de substâncias psicoativas foi permeado pelos agravos na sua saúde. Além disso, a intervenção nos relacionamentos sociais, como a perda da estrutura familiar, perda de amores, perda da confiança, perda da moral, perda de bens materiais, bem como abandono de pais e filhos, compreende seus motivos da ação da procura pelo tratamento. Nesse sentido, os usuários têm a finalidade de reconstruir suas relações familiares e de conseguir sua reinserção social.

É importante que os profissionais de saúde conheçam os motivos que levaram o usuário a procurar tratamento para poder desenvolver um cuidado singular pautado na necessidade de cada um. Assim, os serviços de atenção à saúde podem auxiliar o usuário na busca de estratégias para lidar com as dificuldades no contexto familiar e social, estimulando-o a refletir, projetar e agir no seu mundo da vida.

 

AGRADECIMENTOS

À Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul (FAPERGS), pela concessão da Bolsa de Mestrado.

 

REFERÊNCIAS

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