REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume Atual: 22:e-1095 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20180025

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Pesquisa

A síndrome de burnout entre policiais civis

Burnout syndrome among civilian police officers

Cleyton Cézar Souto Silva1; Gracielle Malheiro dos Santos2; Michelly dos Santos Amorim3; Maria do Monte Herculano Costa4; Soraya Maria de Medeiros5

1. Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, Departamento de Enfermagem, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem na Atenção à Saúde. Natal, RN - Brasil
2. Universidade Federal de Campina Grande-UFCG, Núcleo de Estudos e Pesquisas em Epistemologia. Campina Grande, PB - Brasil
3. Secretaria de Estado da Segurança e da Defesa Social do Estado da Paraíba, Gerência de Inteligência. João Pessoa, PB - Brasil
4. Universidade Federal da Paraíba-UFPB, Departamento de Enfermagem em Saúde Pública e Psiquiatria. João Pessoa, PB - Brasil
5. UFRN, Departamento de Enfermagem. Natal, RN - Brasil

Endereço para correspondência

Cleyton Cézar Souto Silva
E-mail: csoutosilva@gmail.com

Submetido em: 09/12/2016
Aprovado em: 10/03/2018

Resumo

OBJETIVO: identificar a ocorrência da Síndrome de Burnout entre policiais civis.
MÉTODOS: estudo descritivo-quantitativo realizado com todos os policiais civis que atuam na Gerência de Inteligência da Secretaria de Estado da Segurança e da Defesa Social do estado da Paraíba/Brasil, no total de 25 profissionais. Na coleta de dados, em agosto e setembro de 2011, foram utilizados o Maslach Burnout Inventory e um questionário com dados sociodemográficos e profissionais. Para análise dos resultados utilizou-se estatística descritiva.
RESULTADOS: constataram-se traços de Burnout, mas não a ocorrência da síndrome, no grupo de policiais civis pesquisados, uma vez que detectaram-se exaustão emocional em nível médio em 11 (44%), despersonalização em nível baixo em 15 (60%) e reduzida realização profissional em nível alto em 18 (72%).
CONCLUSÃO: há necessidade de implantação de ações de caráter preventivo entre os policiais civis como a adoção de estratégias que visem garantir a integridade física e emocional desses profissionais.

Palavras-chave: Esgotamento Profissional; Enfermagem; Saúde do Trabalhador.

 

INTRODUÇÃO

Mudanças complexas e intensas ocorrem atualmente no âmbito do trabalho, exigindo que o trabalhador se torne polivalente e apto a exercer múltiplas tarefas em seu processo de trabalho. Diante disso, diversos riscos ocupacionais se relacionam ao labor, podendo acarretar problemas na saúde física e mental dos trabalhadores.1

Nesse contexto, a Síndrome de Burnout (SB) foi reconhecida como um risco para profissões que desenvolvem cuidados com saúde, educação e segurança pública, decorrente da tensão emocional crônica vivenciada pelo trabalhador e caracterizada por exaustão emocional, despersonalização e baixa realização pessoal.2,3

A exaustão emocional refere-se à sensação de esgotamento de recursos emocionais necessários para lidar com a situação estressora. A redução da realização pessoal no trabalho surge da insatisfação com as realizações e declínio no seu sentimento de competência e interação social e a despersonalização apresenta-se com atitudes negativas, insensibilidade e despreocupação, levando o profissional a tratar os pacientes, colegas e organização de maneira desumanizada.4

O impacto negativo da SB está associado à diminuição da satisfação do trabalhador, à perda de empatia, à diminuição da produtividade, ao aumento da taxa de absentismo laboral e à desistência da profissão. Além disso, pode condicionar repercussões sociofamiliares, abuso de substâncias, depressão ou mesmo ideação suicida.5

Vários fatores contribuem para o desenvolvimento da síndrome. Entre estes se encontram características como o tipo de ocupação, tempo de profissão, tempo na instituição, trabalho por turnos, sobrecarga, relação entre o profissional e o cliente, tipos de clientes, relacionamento entre os colegas de trabalho, insatisfação no trabalho, falta de responsabilidade, ausência de progressão no trabalho e conflito com os valores pessoais.6

Evidências científicas indicam que as características do trabalho e as condições laborais dos policiais os expõem a riscos e sofrimentos físicos e mentais. Suas demandas apresentam múltiplas tensões, exigências institucionais, manejo emocional, manutenção da ordem e zelo pela lei, harmonia com a sociedade. Além disso, possuem mais riscos de morte e propensão ao desenvolvimento de estresse, devido às relações internas próprias da corporação, à sobrecarga de trabalho e ao caráter das atividades que realizam. Isso demonstra a suscetibilidade dessa categoria à SB e a necessidade de investigar esse transtorno nos seus membros.6,7

A necessidade de ampliação do conhecimento sobre o Burnout no ambiente laboral dos policiais civis torna-se evidente na medida em que esses trabalhadores estão propensos a desenvolver a SB. Além disso, a importância de criar políticas destinadas à promoção da saúde do trabalhador policial, assim como a prevenção do agravo, ressalta a necessidade de informações sobre a saúde ocupacional destes e especificamente sobre a detecção da doença nessa população.8

A enfermagem tem a capacidade de contribuir criticamente sobre seu papel na promoção da saúde em diversos espaços de trabalho. Seu papel no processo de trabalho dos policias é de sugerir formas de se reduzir ou prevenir o Burnout por meio de estratégias de enfrentamento ativos, medidas interventivas ou preventivas como atividades de educação permanente, melhor utilização das tecnologias do processo de trabalho, melhoria das condições do ambiente de trabalho, gestão dos processos de trabalho e pesquisa de outras realidades de trabalho para torná-los menos desgastantes.3

Destarte, o objetivo do presente estudo foi identificar a Síndrome de Burnout entre policiais civis. O referencial que norteou o estudo baseou-se no conceito de estresse ocupacional e sua relação com o aparecimento de transtornos mentais.

 

MÉTODOS

Trata-se de estudo exploratório-descritivo realizado nas dependências da Gerência de Inteligência (GINTEL) da Secretaria de Estado da Segurança e da Defesa Social (SEDS) do município de João Pessoa-Paraíba, Nordeste brasileiro.

As atividades desse órgão se constituem em resposta e apoio ao combate à violência em geral e, principalmente, aos crimes de alta complexidade, procurando identificar, entender e revelar os aspectos ocultos da atuação criminosa que seriam de difícil detecção pelos meios tradicionais de investigação policial. Serve, ainda, para assessorar as autoridades governamentais na elaboração de planos e políticas de segurança pública. A instituição é constituída por policiais civis, possuindo ainda uma agente de investigação com curso superior em Enfermagem.

O policial civil (PC) é o primeiro elo na produção da justiça criminal e tem como tarefa principal a investigação e a denúncia de crimes, atuando, basicamente, após a sua ocorrência. Especificamente, a PC é responsável pela investigação de crimes e sua autoria, elaboração de boletins de ocorrência de qualquer natureza, expedição de cédula de identidade, expedição de atestado de antecedentes criminais e de residência, expedição de registro de porte de arma e expedição de alvarás de produtos controlados, entre outros.9

Também é competência da PC fiscalizar o funcionamento de determinadas atividades comerciais e autorizar a realização de grandes eventos. Os policiais que a integram são de carreiras diversas, como delegado de polícia, escrivão de polícia, investigador de polícia, perito criminal, médico-legista, perito papiloscopista e agente de polícia científica.9

A amostra do estudo foi constituída pelos 25 policiais civis lotados na GINTEL. Não houve perda amostral e todos os policias da instituição atenderam aos critérios de seleção estabelecidos de: ser lotado e exercer atividades no mínimo por um ano. Após os devidos esclarecimentos, todos os membros do grupo concordaram em participar da pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

A coleta de dados ocorreu nos meses de agosto e setembro de 2011. Dois instrumentos foram utilizados, um questionário que solicitava informações sociodemográficas e profissionais e o Inventário em Burnout de Maslach (MBI).5 Além das características demográficas, o questionário investigava os dados ocupacionais relacionados ao tipo de trabalho e condições laborais, situação de saúde e satisfação com o trabalho.

O MBI foi criado por Susan Jackson e Cristina Maslach e investiga os sentimentos pessoais e atitudes de profissionais assistenciais em seu ambiente de trabalho, tais como policiais e enfermeiros, e viabiliza o estudo epidemiológico para detectar o Burnout no âmbito das relações entre profissionais provedores de serviços e cuidados e seus receptores.5

O instrumento original autoinformativo é constituído por 22 itens, para ser respondido de acordo com uma escala tipo Likert de 1 a 6. A pontuação procede do zero, que corresponde ao item nunca acontece e procede gradativamente até o seis, que indica que o item acontece todos os dias. O instrumento avalia as três dimensões da SB: exaustão emocional (EE), despersonalização (DE) e reduzida realização profissional (RP).5

As principais variáveis pertencem às categorias do instrumento utilizado, no caso da dimensão da EE são sentimento de sobrecarga emocional, perda de energia, esgotamento e sentimento de fadiga constante que afetam o indivíduo física e/ou psiquicamente, inclusive reduzindo sua capacidade de produção laboral. A DE vem acompanhada da perda de motivação, ansiedade e aumento da irritabilidade, distanciamento/isolamento social, atitudes desumanizadas, cinismo e rigidez nas relações sociais. E por fim a RP surge com sinais de inadequação pessoal e profissional ao trabalho com respostas negativas, para consigo e para com o trabalho, tais como depressão, redução das relações interpessoais, baixa autoestima, baixa produtividade e sentimentos de incompetência. A fim de preservar a identidade e os princípios éticos dos entrevistados foram atribuídos letras e números aos seus questionários.1

A pontuação de cada uma das três subescalas é considerada separadamente, não sendo combinadas em uma única pontuação total. Desse modo, considera-se que uma pessoa em Burnout apresenta pontuação alta em EE e DE e baixa pontuação em RP. Pontuações médias nas três subescalas refletem grau médio de Burnout. Pontuações altas na subescala RP e baixas nas subescalas EE e DP indicam baixo grau de Burnout.1

A coleta de dados foi realizada pelos próprios pesquisadores, por meio de um questionário e do MBI, os quais foram disponibilizados aos participantes da pesquisa no início do expediente de trabalho e foram recolhidos no final deste com permissão do gerente da GINTEL.

Os dados do questionário sociodemográfico e profissional bem como os do MBI foram armazenados em um banco de dados e analisados por meio de estatística descritiva, com base em um software estatístico livre.

O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Paraíba (CAE: 0205/11) e sua execução e análise dos dados respeitaram as determinações éticas da Resolução nº 196/96, vigente na época, e Resolução nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde.

 

RESULTADOS

Características sociodemográficas e de trabalho

O estudo foi composto por 25 policiais civis, sendo 19 do sexo masculino (76%) e seis do sexo feminino (19%). Esses achados são compatíveis com a distribuição por sexo nesse tipo de ocupação, em que tradicionalmente o número de homens é superior ao de mulheres.

A faixa etária predominante dos participantes do estudo foi entre 20 e 30 anos (44%), compondo um grupo de profissionais formados, em sua maioria, por jovens. Investigando a escolaridade, extrai-se que a grande parte desses profissionais possui ensino superior completo (68%). Quanto à situação marital, verifica-se que a maior parte é casada (56%) e tem um (24%) ou dois (24%) filhos. Em relação à condição de moradia, constata-se que a maioria desses profissionais possui casa própria.

Na Tabela 1, visualiza-se que a maioria dos profissionais lotados na Gerência de Inteligência (GINTEL) ocupa o cargo de agente de investigação, embora exerçam algum tipo de função relacionada à atividade de inteligência policial. Em relação ao tempo de exercício profissional, a maior parte dos policiais tem no máximo 10 anos de profissão, ganha remuneração de até cinco salários mínimos e cumpre até 40 horas de trabalho semanais, legalmente definidas por lei, embora uma parte significativa tenha afirmado que trabalha entre 40 e 60 horas por semana.

 

 

Em relação aos plantões extraordinários, a maioria dos profissionais alegou realizá-los como forma de complementar a sua renda. Grande parte desses trabalhadores dedica 84 horas ou mais mensalmente a essas atividades extraordinárias e afirma receber algum tipo de benefício quando precisa estender a sua carga horária por necessidade do serviço, sendo que poucos recebem esse benefício em forma de folga e muitos em forma de dinheiro. Uma parte representativa afirmou nada receber quando sua carga horária precisa ser estendida (Tabela 1).

Na Tabela 2, quanto à questão da autonomia e poder de decisão, a maioria dos profissionais revelou não possuí-la. Referente ao planejamento das atividades, grande parte afirmou realizá-las e sua totalidade alegou desenvolver atividades que requerem atenção. Em relação às atividades oferecidas pela instituição para a melhoria da saúde do trabalhador, todos referiram que não é oferecida alguma atividade pela GINTEL, embora a maioria tenha afirmado realizar um trabalho cansativo e ser o trabalho exigido ou mais que o exigido pela instituição.

 

 

No tocante às cobranças, relevante quantitativo afirmou sofrer cobranças internas (gerente imediato e gerente executivo) e externas (delegados de polícia, juízes, Secretário de Segurança, Governador do estado). E a respeito do reconhecimento pelo trabalho realizado, a grande maioria revelou não ter reconhecimento por parte da instituição em relação às atividades realizadas pelos profissionais. Mesmo assim, a maioria afirmou estar satisfeita com o trabalho que desenvolve (Tabela 2).

A Síndrome de Burnout

Segundo a literatura, elevado nível de BURNOUT é indicado por altos escores em exaustão emocional e despersonalização e baixos escores em reduzida realização profissional. Este trabalho revela que 11 pesquisados apresentaram média de 44% de exaustão emocional, entretanto deve-se observar com cautela a referida frequência, uma vez que está muito próximo da EE alta (10 sujeitos; 40%). A frequência em DE apresentou-se baixa (15 sujeitos; 60%), ressaltando-se, na mesma dimensão, o índice DE médio (nove sujeitos; 36%). No tocante à RP, o índice apresentou-se alto (18 sujeitos; 72%).

Esses resultados revelam que não há ocorrência da SB entre os policiais civis da GINTEL, porque a maioria dos participantes do estudo apresentou exaustão emocional em nível pesmédio, despersonalização em nível baixo e realização profissional em nível alto.

Por outro lado, foi avaliada a frequência das respostas às questões de cada dimensão da Síndrome de Burnout. Segundo a Tabela 3, a dimensão EE revela que a maior parte dos pesquisados sente-se altamente cansada todos os dias, no final de cada jornada e ao levantar pela manhã e ter que enfrentar outra jornada de trabalho, sentindo-se exaustos.

 

 

É importante destacar que boa parte dos policiais declara que trabalhar com pessoas o dia todo raramente exige grande esforço. Também afirmam que poucas vezes se sentem frustrados em seu trabalho uma vez ao ano ou menos e menor parte sente a mesma frustração algumas vezes por semana, não estando ainda no limite das forças.

Por fim, confessam, em média, que se sentem esgotados emocionalmente devido ao seu trabalho e estão trabalhando em demasia alguma vez ao mês. Essa dimensão mostra características de trabalhadores cansados ao extremo e com a sensação de não ter energia para enfrentar o dia de trabalho.

A Tabela 4 demonstra as respostas da dimensão DE. Nessa dimensão, destaca-se que os policiais raramente tratam as pessoas como se fossem objetos impessoais; poucas vezes se culpabilizavam pelos problemas delas, uma vez ao ano ou menos. Em média, havia preocupação real pelo que ocorria às pessoas atendidas. Entretanto, observa-se alta preocupação com o fato de que o trabalho os esteja endurecendo emocionalmente. Em suma, esse resultado não revelou a adoção de atitudes de insensibilidade ou hostilidade em relação às pessoas que devem receber o serviço/cuidado.

 

 

Os resultados da dimensão realização profissional são visualizados na Tabela 5. Os dados informam alto índice para entender com facilidade o que as pessoas sentem quando procuram ajuda de um policial civil, que por sua vez sentem que podem influenciar positivamente a vida das pessoas todos os dias. Assim, sentem vitalidade e eficiência em resolver os problemas das pessoas cotidianamente.

 

 

Em média, algumas vezes por semana os pesquisados declararam sentir-se estimulados após trabalhar em contato com as pessoas. Por fim, confessam sentir que sabem tratar de forma adequada os problemas emocionais no seu trabalho, algumas vezes ao mês. Essa dimensão consegue revelar sentimentos de incompetência e de frustração pessoal e profissional quando presente nos trabalhadores.

 

DISCUSSÃO

Existe alta incidência da Síndrome de Burnout entre aqueles trabalhadores que realizam assistência ao público. Assim, é importante não confundir o estresse normal com o Burnout. Na SB, em pessoas que não sofriam de algum transtorno psíquico predominam sintomas comportamentais relacionados ao trabalho em detrimento aos sintomas físicos, como: exaustão mental, depressão, diminuição do afeto, fadiga e atitudes negativas.10

Contudo, o fato de alguns entrevistados apresentarem nível médio e outros nível alto na dimensão EE, além de nove em nível médio na dimensão DE, indica a existência de traços de estresse ocupacional, ainda que não signifique a instalação do Burnout, como demonstra pesquisa na qual foi constatado que policiais apresentavam SB em andamento com grande nível de EE acompanhada de sintomas físicos e psíquicos.6

Dessa forma, o estresse ocupacional e a EE média identificada neste estudo podem ter relação com o trabalho cansativo, as cobranças internas e externas, a falta de autonomia e poder de decisão e reconhecimento relatados pelos sujeitos da pesquisa. Geralmente, os estressores no trabalho policial são classificados em: estressores inerentes ao trabalho policial; decorrente das práticas e políticas internas do departamento de polícia; advindos de tensões com o sistema de justiça criminal e da sociedade, em geral, e estressores (internos) do próprio policial.9

Os aspectos relativos à organização do trabalho policial são responsáveis pela percepção de maior carga de trabalho como a atuação em ambientes perigosos e insalubres. As pressões e exigências do próprio trabalho, além das demandas administrativas e organizacionais, afetam negativamente a saúde e o estilo de vida desse profissional, gerando estresse e sofrimento psíquico.6

O trabalho do policial como agente da lei e repressor da criminalidade exige estado de alerta constante para atuar em meio à violência urbana. Sendo assim, o perigo e o medo, por si e pela família, de ser reconhecido como policial em dias de folga tende a isolar o profissional de outros segmentos sociais, trazendo ansiedade, desgaste físico e emocional, estimulando condutas impulsivas de defesa pessoal que geram diversos prejuízos à saúde e à qualidade de vida.9

Os escores médio e alto na dimensão EE podem estar relacionados à carga horária extra de trabalho, já que boa parte dos investigados afirma realizar plantões extraordinários como forma de complementar sua renda e, destes, mais da metade faz ou ultrapassa o número de 84 horas extras mensais. Além disso, todos os policiais civis pesquisados alegam não ser oferecido pela instituição algum tipo de atividade voltada para a melhoria da saúde, ainda que a maioria deles afirme estar realizando um trabalho cansativo.

Segundo pesquisa realizada sobre a percepção dos policiais sobre a sua profissão, não é o trabalho em si que adoece, mas a forma como o trabalho está organizado e as condições para realização do mesmo. A incidência de escores médios de EE não pode ser desconsiderada como processo de adoecimento, uma vez que essa dimensão pode ser relevante para a despersonalização e a diminuição da realização pessoal.8

Os índices baixo e médio na dimensão DE podem estar associados aos valores consideráveis para o endurecimento emocional e ao fato de não se preocupar com as pessoas. Podem também estar relacionados a alguns dados ocupacionais como as cobranças, falta de autonomia e o não reconhecimento por parte de sua instituição.

O endurecimento emocional pode decorrer da necessidade de expressar e suprimir emoções diversas, desde ser simpático e acolhedor com a vítima a ser hostil e inquiridor com o acusado. Essa exigência do manejo emocional pelo policial de exibir emoções positivas e negativas decorrentes das interações com diversos atores sociais em um contexto de trabalho marcado por tensões, pressões e exigências pode estar relacionada ao Burnout.7

Os policiais civis podem ter altas expectativas ou expectativas não atingidas, em relação a desafios no trabalho, a recompensas, ao reconhecimento, à progressão na carreira e a outros aspectos laborais que podem gerar estresse e à SB. As expectativas dos trabalhadores acerca da profissão, da organização e da sua própria eficácia pessoal podem constituir significativa contribuição para o Burnout.9

O escore alto encontrado na RP pode ter relação com as frequências média e alta nas variáveis: sentir que por meio do seu trabalho influencia positivamente a vida das pessoas, todos os dias; sentir com facilidade as pessoas; vitalidade e eficiência em resolver os problemas das pessoas. Também pode contribuir para o alto índice de realização profissional dos pesquisados a instituição oferecer boas condições de trabalho e a maioria alegar que sente satisfação com o trabalho que realiza.

Em pesquisa sobre a percepção dos policiais sobre seu trabalho foi verificado entre os entrevistados uma postura de decepção, falta de apoio e desvalorização. Fazer o necessário seria uma atitude adotada por alguns policiais como indicativo de não haver mais a realização com o trabalho e a atuação ser apenas para cumprir obrigações. Já a autonomia tinha relação com a confiança, liberdade e privacidade entre os membros como um fator de proteção ao desenvolvimento da SB.8

Percebeu-se neste estudo que os policiais não possuem reconhecimento profissional, ferindo sua identidade profissional como trabalhador de uma instituição coletiva, embora hierarquizada. Sua satisfação reflete a imagem de herói projetada pelos próprios policiais na comunidade e opostamente possui uma imagem preconceituosa e de aversão ao trabalho policial construída pela mídia. A idealização da profissão e sua escolha pela grande maioria dos policiais são baseadas na ideia da contribuição para um mundo melhor e o comprometimento em fazer algo a favor da sociedade, como um ideal de vida.8

O adoecimento do policial merece um olhar atento da enfermagem, levando em consideração que o processo saúde-trabalho-adoecimento é complexo e resulta em significativo impacto econômico e social. Dessa forma, a identificação precoce de situações estressoras e formas de enfrentamento do desgaste no processo de trabalho pode contribuir para minimizar o risco de adoecimento e acometimento pela Síndrome de Burnout.6

 

CONCLUSÃO

Neste estudo, os policiais pesquisados não apresentaram pontuações condizentes com Burnout. Contudo, é preciso alertar para o risco de desenvolvimento da síndrome, devido aos resultados observados de exaustão emocional e os valores médios de despersonalização encontrados. Logo, pode-se afirmar que esses indivíduos sofrem no desenvolvimento de suas atividades laborais com diferentes intensidades e percepções.

As contribuições da enfermagem nesse contexto de trabalho vão ao encontro das atribuições do enfermeiro em ser educador, que utiliza a educação em saúde e/ou a consulta de enfermagem como estratégia para preservar a saúde, em função dos riscos ocupacionais a que esses profissionais estão expostos. Entre essas medidas podem ser destacadas ações/ comportamentos para enfrentamento do estresse bem como o apoio emocional e social.

O enfermeiro tem, assim, o papel de desenvolver ações de caráter preventivo entre os policiais civis lotados na instituição estudada, que visem promover a integridade física e emocional desses profissionais. Uma atuação desse tipo poderá melhorar a qualidade de vida desses trabalhadores em seu ambiente de trabalho e, consequentemente, reduzir ou eliminar os traços de Burnout presentes no grupo pesquisado.

Ampliando a reflexão, fica perceptível que tanto o governo como as próprias instituições não atribuem o devido valor ao trabalho policial, visto que há poucos investimentos nas condições de trabalho, salários baixos e falta de programas em saúde do trabalhador para essa categoria. Apenas agora a Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara dos Deputados do país aprovou o projeto de Lei 5.492/2016, que garante aos integrantes do sistema de segurança pública de todo o Brasil o adicional de periculosidade pelo desgaste orgânico e psicossomático sofridos na garantia da preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas.

A limitação da pesquisa está em o instrumento utilizado descrever um momento específico dos entrevistados, situação que pode modificar-se diante de suas atividades diárias.

 

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