REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

Busca Avançada

Volume Atual: 22:e-1104 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20180032

Voltar ao Sumário

Pesquisa

Fatores associados ao perfil da equipe de enfermagem de um hospital psiquiátrico e suas implicações para a saúde do trabalhador*

Factors associated with the profile of the nursing team of a psychiatric hospital and its implications for occupational health*

Kayo Henrique Jardel Feitosa Sousa; Elizabeth Camacho Fonseca Soares; Katerine Gonçalves Moraes; Kely Cristine Batista; Tayane Silva Gonçalves; Regina Célia Gollner Zeitoune

Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ, Escola de Enfermagem Anna Nery, Departamento de Enfermagem de Saúde Pública. Rio de Janeiro, RJ - Brasil

Endereço para correspondência

Kayo Henrique Jardel Feitosa Sousa
E-mail: kayohenriquejardel@hotmail.com

Submetido em: 16/07/2017
Aprovado em: 11/06/2018

Resumo

OBJETIVO: discutir as implicações do perfil sociodemográfico e laboral, as condições de saúde e hábitos de vida para a saúde do trabalhador de enfermagem de um hospital psiquiátrico.
MÉTODO: estudo transversal realizado com 74 participantes. Foi utilizado questionário para caracterização sociodemográfica, laboral e de condições de saúde e hábitos de vida.
RESULTADOS: verificou-se associação entre a categoria auxiliar/técnico de enfermagem da raça/cor preta (p<0,001), nível médio de escolaridade (p<0,001), carga horária semanal superior a 30 horas (p=0,007), mais de um vínculo empregatício (p=0,034), trabalho noturno (p=0,018) e transtorno mental comum (p=0,015). Observou-se associação significativa entre a categoria enfermeiro e o tempo de atuação no setor (p=0,028).
CONCLUSÃO: os resultados sugerem que a natureza do trabalho executado exerce forte influência sobre a saúde do trabalhador, em especial sobre os auxiliares/técnicos de enfermagem.

Palavras-chave: Enfermagem; Saúde do Trabalhador; Saúde Mental; Hospitais Psiquiátricos.

 

INTRODUÇÃO

Ao longo dos anos, diferentes modelos de atenção ao portador de transtorno mental foram implantados. A partir de 1970 iniciou-se, no Brasil, o processo de reforma psiquiátrica, tendo como eixo norteador a desinstitucionalização, porém somente com a promulgação da Lei 10.216/01 que ele foi fortalecido. A vigente legislação desencadeou diversas mudanças, como a redução de leitos e internações em hospitais psiquiátricos, migração dos leitos para hospitais gerais, apoio matricial, atenção ao usuário na atenção básica e implantação de serviços substitutivos, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).1

Frente à conjuntura política e ideológica na implantação do modelo substitutivo, ainda concentra-se nos serviços hospitalares o atendimento nas situações de emergência em saúde mental. Advêm dessas questões grandes desafios, como a escassez de profissionais qualificados para atuar sob os novos paradigmas e doutrinas, pouca adesão dos profissionais, custos financeiros para implantação e manutenção da rede de serviços psicossociais, além do adoecimento do trabalhador e não reconhecimento pelos pares.1

Somado às questões ideológicas e paradigmáticas, os hospitais psiquiátricos são instituições que lembram abandono, sofrimento, punição e dor. Quanto às condições de trabalho, estudos revelam que a precariedade de tais instituições contribui para a intensificação do trabalho, por serem locais estruturalmente inadequados para a execução de tarefas e do cuidado, para o qual se necessita de estado de vigilância contínua. Ainda, a escassez de recursos materiais, humanos e equipamentos aumenta a vulnerabilidade do trabalhador ao adoecimento. Contudo, mesmo com os entraves, o processo de desinstitucionalização avançou e vem se tornando mais eficaz e resolutivo no modelo de atenção em rede.2,3

A política de saúde mental em voga no Brasil estimula o desenvolvimento de práticas de ensino, pesquisa e extensão multidisciplinares, nas quais a enfermagem está inserida. A atividade de enfermagem caracteriza-se como um trabalho fragmentado, pautado em divisão de poder e formas de controle rígidas, típico de modelo administrativo taylorista, que quando acrescido por condições de tensão e carga de trabalho é tido como fator de vulnerabilidade ao adoecimento.4

Desse modo, o objetivo deste estudo foi discutir as implicações do perfil sociodemográfico e laboral, as condições de saúde e hábitos de vida para a saúde do trabalhador de enfermagem de um hospital psiquiátrico.

A pesquisa justificou-se pela lacuna na produção de conhecimento na medida em que no levantamento bibliográfico não foram encontrados estudos que discutiram essas implicações. Contribuiu para identificar a importância dos indicadores individuais do trabalhador no processo saúde-doença dos profissionais de enfermagem que atuam em hospitais psiquiátricos. Destarte, há necessidade de se ampliar o debate sobre o perfil do trabalhador de enfermagem no âmbito do processo de desinstitucionalização e reestruturação dos serviços de saúde mental na perspectiva da saúde do trabalhador.

 

MÉTODO

Estudo descritivo e transversal realizado em um hospital psiquiátrico da região Nordeste do Brasil.

Os participantes do estudo foram trabalhadores da equipe de enfermagem do hospital (enfermeiro, auxiliar e técnico em enfermagem). Foram excluídos os trabalhadores de enfermagem que exerciam funções administrativas e não prestavam assistência direta ao cliente. Para o cálculo amostral consideraram-se 95% de nível de confiança, 05% de estimativa de erro e 05% de nível de significância. Em um universo de 90 trabalhadores que atendiam aos critérios preestabelecidos, levantou-se tamanho amostral de 70 participantes. Participaram da pesquisa 74 trabalhadores, sendo 14 enfermeiros e 60 auxiliares/técnicos em enfermagem, equivalente a 82,2% da população elegível. As perdas corresponderam a oito trabalhadores que se recusaram a participar da pesquisa e outros oito que não foram encontrados durante a etapa de coleta de dados.

O período de coleta de dados foi entre março e abril de 2016. Os dados foram coletados mediante entrevista realizada pelo pesquisador e auxiliares de pesquisa devidamente treinadas, guiada por questionário semiestruturado, elaborado e submetido à pré-teste pelo pesquisador, sendo ajustado conforme necessidades do serviço. Esse processo foi conduzido no interior da instituição pesquisada durante os turnos de trabalho, sendo as entrevistas agendadas pessoalmente ou por contato telefônico. Ressalta-se que os trabalhadores foram esclarecidos sobre a pesquisa e somente foram entrevistados após anuência por meio da assinatura no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Utilizou-se para coleta dos dados questionário com informações autorreferidas, acerca do perfil sociodemográfico (idade, sexo, situação conjugal, filhos menores de seis anos, raça/cor e escolaridade), laboral (função, setor de atuação, tempo de formado, tempo de atuação na Psiquiatria, na instituição e no atual setor, carga horária semanal, vínculos empregatícios, turno e noites trabalhadas na última quinzena) e de condições de saúde e hábitos de vida (prática de atividade física, tempo livre para lazer, problemas de saúde com diagnóstico médico, problemas de saúde relacionados ao trabalho, satisfação com o sono, insônia e transtorno mental comum). Os transtornos mentais comuns foram medidos utilizando-se a escala Self Reporting Questionnaire (SRQ-20) na sua versão reduzida amplamente aplicada em estudos semelhantes no Brasil e em outros países.

Os dados foram organizados, processados e analisados com o auxílio do Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 21.0. Foram realizadas análises descritivas de frequências absolutas e relativas para as variáveis categóricas, de tendência central (média) e de dispersão (desvio-padrão) para as variáveis contínuas. Para as variáveis contínuas ainda foi analisada adesão à distribuição normal por meio do teste de Kolmogorov-Sminorv, e somente a variável idade atendeu ao pressuposto de normalidade (p>0,20). Foi utilizado o teste qui-quadrado de Pearson ou teste exato de Fisher, quando a frequência esperada era menor 5%, para verificar as associações entre as variáveis categóricas e a categoria profissional. Para a variável idade foi utilizado o teste t de Student, e para as demais variáveis contínuas (tempo de formado, tempo de atuação na Psiquiatria, na instituição e no atual setor) o teste U de Mann Whitney para verificar a associação com a categoria profissional. O nível de significância adotado foi de 0,05.

O estudo obedeceu às normas nacionais e internacionais para pesquisas envolvendo seres humanos, sendo aprovado por Comitê de Ética em Pesquisa sob o parecer número 1.434.109.

 

RESULTADOS

A maioria dos participantes era do sexo feminino (91,9%, n=68), sem companheiro (54,1%, n=40), sem filhos menores de seis anos (87,8%, n=65), declarou-se parda/amarela (65,8%, n=48) e tinha até o ensino médio completo (58,1%, n=43). Identificou-se que 81,1% (n=60) eram auxiliares/técnicos em enfermagem, 63,5% (n=47) desenvolviam atividades no setor de internação psiquiátrica, 70,3% (n=52) trabalhavam até 30 horas semanais, 54% (n=40) informaram não possuir outro emprego, 56,8% (n=42) faziam plantões noturnos e 12,2% (09) cumpriram mais de seis plantões noturnos nos 15 dias anteriores à coleta (Tabela 01).

 

 

Identificou-se diferença estatística significativa entre as categorias profissionais considerando-se as variáveis raça/cor (p<0,001), escolaridade (p<0,001), carga horária semanal (p=0,007), outro emprego (p=0,034) e trabalho noturno (p=0,018).

A categoria profissional auxiliar/técnico de enfermagem está associada à raça/cor preta, à carga horária superior a 30 horas semanais, a possuir mais de um vínculo empregatício e a cumprir plantões noturnos. No que se refere ao grau de escolaridade entre os enfermeiros, a maioria possuía pós-graduação do tipo especialização (64,3%, n=09), enquanto para os profissionais de enfermagem de nível médio constatou-se que um (6,3%) auxiliar de enfermagem e 16 (36,4%) técnicos de enfermagem possuíam nível superior.

A média de idade dos participantes do estudo foi de 49 anos (±9,22), o tempo médio de formado de 19,7 (±9,97) anos, de trabalho em enfermagem psiquiátrica 18,58 (±11,73) anos, de trabalho na instituição pesquisada 17,62 (±11,73) anos e de trabalho no setor 7,14 (±8,57) anos (Tabela 02).

 

 

 

 

Observou-se associação significativa somente entre as categorias profissionais e o tempo de atuação no setor (p=0,028). Os enfermeiros foram os profissionais com mais tempo de atuação no mesmo setor em relação aos auxiliares/técnicos de enfermagem.

No tocante às variáveis relacionadas às condições de saúde e hábitos de vida, identificou-se que a maior parte dos trabalhadores praticava atividade física (56,8%, n=42), possuía tempo livre para lazer (78,4%, n=58) e estava insatisfeita com o sono (54%, n=40). Ainda, 25,7% (n=19) referiram quatro ou mais problemas de saúde com diagnóstico médico, 17,6% (n=13) declararam problemas de saúde relacionados ao trabalho, 8,1% (n=06) referiram insônia e 25,7% (n=19) apresentaram transtorno mental comum (Tabela 03).

 

 

Entre os problemas de saúde com diagnóstico médico destacaram-se como os mais frequentes: varizes (44,6%, n=33), hipertensão arterial (36,5%, n=27) e colesterol elevado (24,35%, n=18). Entre os problemas de saúde referidos como relacionados ao trabalho, destacaram-se: transtornos mentais e comportamentais (46,1%, n=06) e doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo (15,4%, n=02).

Em relação às variáveis relacionadas às condições de saúde e hábitos de vida, a variável transtorno mental comum mostrou-se associada à categoria auxiliar/técnico de enfermagem (p=0,015). Nesse conjunto de variáveis não foram encontradas outras com diferenças estatísticas significativas entre as categorias profissionais (p>0,05).

 

DISCUSSÃO

Os resultados encontrados referentes à idade confirmam os dados da pesquisa Perfil da Enfermagem Brasileira, que identificou 40,1% de trabalhadores de enfermagem com idade entre 36 e 50 anos. São trabalhadores que se encontravam na fase de maturidade profissional, caracterizada por amplo desenvolvimento de capacidade técnica e prática, produtividade, criatividade, com domínio de habilidades e destreza cognitiva. Fase de certeza e afirmação profissional e de busca por prosperidade econômica, que reflete no aperfeiçoamento e idealização de ascensão profissional, por parte dos técnicos de enfermagem, na maioria das vezes, pelo ingresso no curso superior.5

Por outro lado, essa maturidade pode equivocadamente ser entendida como uma proteção contra os riscos e acidentes no trabalho, quando se sentem habilitados e com destreza. E a falta de política de plano de carreira pode levar à insatisfação profissional, comprometendo a saúde do trabalhador. Outra condição importante à saúde do trabalhador se refere à condição de que trabalhadores com mais idade podem vir a trabalhar menos horas.

No estudo, quando o total de 17 auxiliares/técnicos em enfermagem possuía graduação, inferia-se busca por qualificação. Pesquisa afirma que quanto maior a qualificação, maior a possibilidade de escolhas profissionais, influenciando a inserção laboral.6 Pensando nos aspectos da saúde do trabalhador, espera-se que a qualificação profissional traga comportamento de prevenção aos riscos ocupacionais, na perspectiva de que esta temática tenha sido incluída na formação. Em relação à qualificação, os achados permitem inferir, ainda, que maior qualificação remete mais possibilidades de escolha para setores de atuação, dados revelados estatisticamente significativos no estudo em tela, em virtude do maior tempo de atuação no mesmo setor por parte dos enfermeiros.

Verificou-se predominância do sexo feminino na amostra avaliada. As questões de gênero, portanto, não podem ser deixadas de lado quando da avaliação do processo de trabalho em enfermagem, em especial o processo saúde-doença-trabalho, considerando-se que a mulher ainda exerce dupla jornada laboral, sendo responsabilizada socialmente pelas atividades domésticas.

Referente à situação conjugal, o maior estrato era de trabalhadores que não viviam com companheiro, equivalente àqueles profissionais que se encontravam no momento da entrevista solteiro, viúvo e divorciado e não tinham filhos menores de seis anos.

Quanto à situação conjugal, em que a maioria não possui companheiros, a predominância verificada neste estudo tem consonância com pesquisa realizada com enfermeiras hospitalares de Taiwan7 e outra com enfermeiras hospitalares do Rio de Janeiro8, o que, contudo, diverge de outras pesquisas nacionais3,4 e internacionais09,10. A situação conjugal pode atuar como fator contributivo para a saúde psicossocial do trabalhador, afetando o processo saúde-doença. Essa questão demanda estudos mais aprofundados, buscando essa relação causal.

No tocante ao fator ter filhos, os dados são semelhantes aos de estudo11 realizado em instituição psiquiátrica localizada no interior paulista. Esse resultado pode refletir menor sobrecarga doméstica a esses trabalhadores. A maioria dos trabalhadores de enfermagem se autorreferiram mestiços (pardos e amarelos). Esse dado diverge de pesquisas realizadas com profissionais de enfermagem do Mato Grosso do Sul12 e do Rio Grande do Sul6, para as quais a maior parte dos trabalhadores se autorreferiu branca. Essa divergência pode ser atribuída a questões regionais, à medida que o estudo em tela foi desenvolvido no Nordeste brasileiro, região marcada por suas características afro-brasileiras.

Os dados referentes à raça/cor revelam uma disparidade ainda latente na enfermagem, quando feita uma análise estratificada por função. Enquanto a maioria dos enfermeiros se declara branca, a maioria dos auxiliares/técnicos de enfermagem parda/amarela; somados, os trabalhadores de enfermagem de nível médio que se autorreferiram mestiços e pretos se sobressaíram em relação aos declarados brancos. Essa constatação também foi mostrada na pesquisa Perfil da Enfermagem Brasileira, já mencionada anteriormente.5

Estudos revelam que no Brasil os negros permanecem ocupando espaços no mercado de trabalho em atividades menos valoradas, com mais demanda de esforço físico, menos desempenho intelectual e baixa remuneração, em detrimento daqueles que se declaram brancos e com formação de nível superior.13

As variáveis laborais indicam a predominância de auxiliares/técnicos em enfermagem (81,1%), sendo 18,9% (n=14) enfermeiros. A proporção de enfermeiro na equipe é superior à levantada em estudo12 realizado com profissionais de enfermagem no município gaúcho de Campo Grande, que identificou 15,7% da equipe como enfermeiros. Caso essa proporção encontrada no local pesquisado esteja em conformidade com os parâmetros de dimensionamento de pessoal, a quantidade de enfermeiros pode ser fator benéfico à saúde do trabalhador, tendo em vista que o melhor dimensionamento de pessoal resulta melhor distribuição de cargas de trabalho e ainda pode refletir em menos sobrecarga laboral aos auxiliares e técnicos de enfermagem.

Mais da metade dos profissionais de enfermagem exercia suas funções no setor de internação. Este dado diverge de estudo14 realizado com profissionais de saúde mental da Jordânia, para o qual somente 44,6% assistiam pacientes de longa permanência. Observa-se que a distribuição de profissionais de enfermagem nos setores da instituição exerce forte influência sobre sua saúde. No estudo em tela, os trabalhadores de enfermagem atuam além do setor de internação, nas áreas de urgência e emergência, ambulatorial, administração e central de material e esterilização, o que reflete uma demanda de estratégias de promoção e prevenção de adoecimento diferenciadas, tendo em vista que cada setor apresenta condições de trabalho diferentes, com cargas e riscos ocupacionais diversificados.

Os resultados salientam trabalhadores com elevada experiência profissional e tempo de atuação profissional na instituição, dado semelhante ao encontrado em estudo na Suécia.15 A longa experiência no cuidado psiquiátrico ao mesmo tempo em que pode ser tratada como positiva à saúde do trabalhador, pois determina mais destreza, habilidade, conhecimento e segurança na atuação, pode remeter a uma exposição prolongada aos riscos e agravos à saúde relacionados ao setor/instituição.

A carga horária de trabalho semanal mais frequente foi até 30 horas (70,3%, n=52), e em relação a outro emprego constatou-se que a maioria (54%, n=40) não o possuía. Os dados de carga horária semanal divergem de pesquisa realizada em hospital público da Bahia com profissionais de enfermagem, que observou 59,9% exercendo carga horária semanal superior a 40 horas.16 No que cabe ao número de empregos, outras publicações encontraram resultados semelhantes ao reportarem que os trabalhadores não tinham outro emprego, porém, com percentuais bem superiores aos levantados neste estudo.6,17

É pertinente ressaltar que os dados desta pesquisa retratam uma realidade diferente da maioria dos trabalhadores de enfermagem no Brasil, onde a maioria possui mais de um vínculo empregatício, retratado por carga horária de trabalho semanal superior a 40 horas18. Possuir mais de um emprego é muito comum na enfermagem brasileira, em virtude dos baixos salários, insuficientes para suprir as necessidades da família. Apesar do crescimento econômico da profissão de enfermagem, esta ainda é submetida a jornadas laborais semelhantes e/ou superiores à do médico, porém com salários inferiores aos dos outros profissionais da saúde de nível superior.4 Assim, ao se prolongar a jornada laboral, os riscos se intensificam, traduzindo-se em condições que podem levar ao adoecimento físico ou mental, por exemplo, transtornos mentais e lesões muscoloesqueléticas.

Em relação ao turno de trabalho, apurou-se elevado percentual de profissionais do turno noturno. Estudo alerta que o trabalho noturno é prejudicial à saúde do trabalhador à medida que promove alterações na rotina para adequação às atividades noturnas, diminuição da capacidade mental e cognitiva, cansaço físico e risco de exposição a acidentes e falhas, alterações nas funções gastrointestinais e no ritmo circadiano e ainda pode determinar prejuízos nas relações familiares e sociais.4,16

Os dados encontrados neste estudo revelam que profissionais da categoria auxiliar/técnico são mais vulneráveis ao adoecimento, pois são os que trabalham mais horas, consequentemente, têm mais empregos e mais chances de trabalhar à noite.

Como hábitos de vida, houve predominância de profissionais que praticavam atividade física e possuíam tempo para lazer. Pesquisa com enfermeiros que atuavam em clínica cirúrgica acusou que a maioria não praticava atividade física, apresentando médias elevadas de danos sociais.16 Na Lituânia, a inatividade física e de lazer foi responsável por avaliações negativas do estado de saúde do trabalhador de enfermagem.19 Assim, acredita-se que a prática de atividade física e de lazer promove impacto positivo na saúde e qualidade de vida do trabalhador de enfermagem, agindo como estratégia para o enfrentamento dos problemas provenientes do ambiente laboral.

A existência de doenças diagnosticadas por médico foi informada por todos os trabalhadores de enfermagem da instituição, sendo que 25,7% (n=19) referiram mais de quatro problemas de saúde, dos quais as varizes (44,6%) foram o mais frequente, seguida de hipertensão arterial (36,5%) e colesterol elevado (24,3%).

Varizes também foram identificadas em estudo transversal que tinha por objetivo estimar a ocorrência de agravos à saúde referidos pelos trabalhadores de enfermagem em um hospital público de Feira de Santana, Bahia, no qual 46,3% informaram apresentar varizes em membros inferiores.4 Esse dado, segundo os autores, pode ser justificado pela natureza do trabalho da enfermagem, que submete o trabalhador a longos períodos em posição ortostática e a percorrer longas distâncias.

A hipertensão arterial também foi relatada pelos trabalhadores. A 7ª Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial recomenda a prática de atividade física tanto para a prevenção como para o tratamento, ainda a redução do tempo sentado, levantando-se por cinco minutos a cada 30 minutos sentados.20 Embora este estudo apresente predominância de profissionais ativos fisicamente e com tempo livre para lazer, demonstrou-se elevada a proporção de trabalhadores com hipertensão arterial e colesterol elevado.

Verificou-se que 17,6% (n=13) dos trabalhadores de enfermagem do hospital referiram problemas de saúde relacionados ao trabalho. Os transtornos mentais comuns (TMC) tiveram significância estatística entre os auxiliares e técnicos de enfermagem. Esses dados são consistentes com estudo realizado na região Sul do Brasil, que evidenciou transtornos mentais e comportamentais na realidade da equipe de enfermagem, sendo estes responsáveis por elevado número de afastamentos e dias de ausência no trabalho.21

O TMC é um termo de difícil definição, contudo, apresentam-se propostas operacionais, tais como: grupo de sintomas que caracterizam transtornos de ansiedade, depressão e relacionados ao estresse (incluindo burnout e transtornos somatoformes e de adaptação/ajustamento), excluindo assim os transtornos psicóticos, os provocados por substâncias psicoativas e outros transtornos mais graves, considerando-se que os sintomas relacionados à ansiedade, à depressão e ao estresse são muito próximos quanto à origem, manifestação e tratamento.22 Essa definição operacional surgiu, pois os diagnósticos da Classificação Internacional de Doenças (CID) e do Manual de Diagnósticos e Estatísticas das Perturbações Mentais (DSM) para transtornos não psicóticos e não provocados por uso de substâncias psicoativas são específicos demais, o que estaria trazendo aos psiquiatras clínicos muita dificuldade na definição dos diagnósticos e da terapêutica.23

Corroborando esses achados, pesquisa realizada com profissionais de saúde mental em instituição psiquiátrica identificou baixo impacto na avaliação dos escores globais referente ao trabalho nesse contexto, apesar disso, detectou que o escore com mais alto nível de impacto foi relacionado às repercussões emocionais do trabalho.24

Diversas questões abordadas nos resultados deste estudo são realidade nos serviços de enfermagem, não somente espaços de cuidado em saúde mental, como também em instituições hospitalares de cuidados de urgência e emergência, atenção à saúde da mulher e criança e serviços de atenção básica, entre outros. Os dados revelam condições passíveis de generalização e trazem implicações importantes para a prática de enfermagem, em especial aos auxiliares e técnicos de enfermagem, profissionais submetidos aos maiores índices de transtornos mentais comuns e ao trabalho noturno, condições que atuam como estressores sistêmicos ao equilíbrio do trabalhador. Essas ponderações nos colocam diante da necessidade de estratégias mediadoras das condições adversas de trabalho que porventura venham a oferecer risco para o adoecimento do trabalhador.

Os limites deste estudo estão relacionados ao reduzido tamanho amostral, que inviabilizou análises estatísticas mais profundas, à sua tipologia, que identificou somente associações, sem levantar possíveis relações de causa e efeito, e à exiguidade de estudos referentes à população avaliada, o que talvez possa vir a prejudicar as comparações com outros cenários semelhantes. Generalizações, porém, podem ser feitas tendo-se em vista que os dados vão ao encontro de estudos com outras populações de cenários diferentes.

 

CONCLUSÃO

O perfil dos trabalhadores do estudo exibe aproximações com o perfil dos profissionais de enfermagem do Brasil. É importante salientar que é um grupo com elevada idade e experiência no serviço pesquisado. A raça/cor preta, nível médio de escolaridade, carga horária semanal superior a 30 horas, mais de um emprego, trabalho noturno e transtorno mental comum mostraram-se associados à categoria profissional auxiliar/técnico de enfermagem.

Os resultados enfatizaram questões políticas e administrativas inerentes à profissão, como os mais baixos salários, longa jornada laboral e menos reconhecimento pelo trabalho dos auxiliares/técnicos de enfermagem. Sugerem, ainda, que a natureza do trabalho executado exerce forte influência sobre a saúde do trabalhador, em especial sobre os auxiliares/técnicos de enfermagem.

O estudo contribuiu para reflexões acerca do impacto do trabalho na saúde dos auxiliares e técnicos de enfermagem, na medida em que estes apresentaram exclusivamente transtorno mental comum, ressaltando para a necessidade de outros estudos que investiguem a associação desse adoecimento ao trabalho realizado por esse grupo de profissionais.

 

REFERÊNCIAS

1. Pessoa Junior JM, Santos RCA, Clementino FS, Oliveira KKD, Miranda FAC. Mental health policy in the context of psychiatric hospitais: challenges and perspectives. Esc Anna Nery Rev Enferm. 2016[citado em 2017 jul. 11];20(1):83-9. Disponível em: http://dx.doi.org/10.5935/1414-8145.20160012

2. Costa PHA, Colugnati FAB, Ronzani TM. Mental health services assessment in Brazil: systematic literature review. Ciênc Saúde Coletiva. 2015[citado em 2017 jul. 11];20(10): 3243-53. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/1413812320152010.14612014

3. Souza SRC, Oliveira EB, Mauro MYC, Mello R, Kestemberg CCF, Paula GS. Cargas de trabalho de enfermagem em unidade de internação psiquiátrica e a saúde do trabalhador. Rev Enferm UERJ. 2015[citado em 2017 jul. 11];23(5):633-8. Disponível em: http://dx.doi.org/10.12957/reuerj.2015.19563

4. Machado LSF, Rodrigues EP, Oliveira LMM, Laudano RCS, Sobrinho CLN. Agravos à saúde referidos pelos trabalhadores de enfermagem em um hospital público da Bahia. Rev Bras Enferm. 2014[citado em 2017 jul. 11];67(5):684-91. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167.2014670503

5. Machado MH, Aguiar Filho W, Lacerda WF, Oliveira E, Lemos W, Wermelinger M, et al. Características gerais da enfermagem: o perfil sociodemográfico. Enferm Foco. 2015[citado em 2017 jul. 11];6(1):11-7. Disponível em: http://dx.doi.org/10.21675/2357-707X.2016.v7.nESP.686

6. Magnago TSBS, Prochnow A, Urbanetto JS, Greco PBT, Beltrame M, Luz EMF. Relationship between work ability in nursing and minor psychological disorders. Texto Contexto Enferm. 2015[citado em 2017 jul. 11];24(2):362-70. Disponível em: https://dx.doi.org/10.1590/0104-07072015002580013

7. Lin SH, Liao WC, Chen MY, Fan JY. The impact of shift work on nurses’ job stress, sleep quality and self-perceived health status. J Nurs Manag. 2014[citado em 2017 jul. 11];22:604-12. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1111/jonm.12020

8. Rotenberg L, Costa AS, Griep RH. Mental health and poor recovery in female nursing workers: a contribution to the study of gender inequities. Rev Pan Salud Pública. 2014[citado em 2017 jul. 11];35(3):179-85. Disponível em: http://www.scielosp.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid =S1020-49892014000300003&lng=en

9. Ahmed M, Hayat AA, Haq I, Minhas FA. Minor psychiatric morbidities in nurses. J Rawal Med Coll. 2012[citado em 2017 jul. 11];16(2):194-7. Disponível em: http://www.journalrmc.com/volumes/1394805512.pdf

10. Taghinejad H, Suhrabi Z, Kikhavani S, Jaafarpour M, Azadi A. Occupational mental health: a study of work-related mental health among clinical nurses. J Clin Diagn Res. 2014[citado em 2017 jul. 11];8(9):[aprox. 3 telas]. Disponível em: http://dx.doi.org/10.7860/JCDR/2014/8247.4835

11. Dias GC, Furegato ARF. Impacto do trabalho e satisfação da equipe multiprofissional de um hospital psiquiátrico. Rev Enferm UERJ. 2016[citado em 2017 jul. 11];24(1):e8164. Disponível em: http://dx.doi.org/10.12957/reuerj.2016.8164

12. Theme Filha MM, Costa MAS, Guillan MCR. Estresse ocupacional e autoavaliação de saúde entre profissionais de enfermagem. Rev Latino-Am Enferm. 2013[citado em 2017 jul. 11];21(2):[09 telas]. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S0104-11692013000200002

13. Julusto N, Roselino JE, Ferro AR. A evolução recente da desigualdade entre negros e brancos no mercado de trabalho das regiões metropolitanas do Brasil. Rev Pesq Debate. 2015[citado em 2017 jul. 11];26(02):105-27. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/rpe/article/view/23066/17600

14. Hamaideh SH. Occupational stress, social support, and quality of life among Jordanian mental health nurses. Issues Ment Health Nurs. 2012[citado em 2017 jul. 11];33:15-23. Disponível em: http://dx.doi.org/10.3109/01612840.2011.605211

15. Hanna T, Mona E. Psychosocial work environment, stress factors and individual characteristics among norsing staff in psychiatric in-patient care. Int J Environ Res Public Health. 2014[citado em 2017 jul. 11];11:1161-75. Disponível em: http://dx.doi.org/10.3390/ijerph110101161

16. Rodrigues EP, Rodrigues US, Oliveira LMM, Laudano RCS, Sobrinho CLN. Prevalência de transtornos mentais comuns em trabalhadores de enfermagem em um hospital da Bahia. Rev Bras Enferm. 2014[citado em 2017 jul. 11];67(2):296-301. Disponível em: http://dx.doi.org/10.5935/0034-7167.20140040

17. Silva RM, Zeitoune RCG, Beck CLC, Martino MMF, Prestes FC. The effects of work on the health of nurses who work in clinical surgery departments at university hospitals. Rev Latino-Am Enferm. 2016[citado em 2017 jul. 11];24:e2743. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/1518-8345.0763.2743

18. Conselho Federal de Enfermagem. Pesquisa perfil da enfermagem no Brasil: banco de dados. Brasília: COFEN; 2015. [citado em 2017 jul. 12]. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/perfilenfermagem/#dados-regionais2.

19. Malinauskiene V, Leisyte P, Malinauskas R, Kirtiklyte K. Associations between self-rated and psychosocial conditions, lifestyle factors and health resources among hospital nurses in Lithuania. J Adv Nurs. 2011[citado em 2017 jul. 11];67(11):2383-93. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1111/j.13652648.2011.05685.x

20. Malachias MVB, Souza WKSB, Plavnik FL, Rodrigues CIS, Brandão AA, Neves MFT, et al. 7ª Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial. Arq Bras Cardiol. 2016[citado em 2017 jul. 11);107(3Supl.3):1-83. Disponível em: http://publicacoes.cardiol.br/2014/diretrizes/2016/05_HIPERTENSAO_ARTERIAL.pdf

21. Santana LL, Sarquis LMM, Miranda FMA, Kalinke LP, Felli VEA, Mininel VA. Health indicators of workers of the hospital area. Rev Bras Enferm. 2016[citado em 2017 jul. 11];69(1):23-32. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/0034-7167.2016690104i

22. Vries H, Fishta A, Weikert B, Sanchez AR, Wegewitz U. Determinants of sickness absence and return to work among employees with common mental disorders: a scoping review. J Occup Rehabil. 2017[citado em 2018 jun. 11];1-25. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s10926-017-9730-1

23. Goldberg D, Huxley P. Common mental disorders: a bio-social model. London: Tavistock; 1992.

24. Alves AP, Guidetti GECB, Diniz MA, Rezende MP, Ferreira LA, Zuffi FB. Avaliação do impacto do trabalho em profissionais de saúde mental de uma instituição psiquiátrica. REME - Rev Min Enferm. 2013[citado em 2017 jul. 11];17(2):424-8. Disponível em: http://dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20130032

 

* Artigo extraído da dissertação: Fatores associados aos transtornos mentais comuns entre trabalhadores de enfermagem em um hospital psiquiátrico. Escola de Enfermagem Anna Nery, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2017.

Logo REME

Logo CC BY
Todo o conteúdo da revista
está licenciado pela Creative
Commons Licence CC BY 4.0

GN1 - Sistemas e Publicações