REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 22:e-1124 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20180047

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Pesquisa

Sentimentos, expectativas e adaptação de idosos internados em instituição de longa permanência

Feelings, expectations and adaptation of elderly people living in a long-stay institution

Narciso Vieira Soares; Bianca Rafaela da Silva Corrêa; Rosane Teresinha Fontana; Zaléia Prado de Brum; Carine Amábile Guimarães; Alessandra Frizzo da Silva; Francisco Carlos Pinto Rodrigues

Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, Departamento de Ciências da Saúde, Curso de Graduação em Enfermagem. Santo Ângelo, RS - Brasil

Endereço para correspondência

Narciso Vieira Soares
E-mail: nvsoares@san.uri.br

Submetido em: 21/02/2018
Aprovado em: 11/06/2018

Resumo

OBJETIVO: identificar os sentimentos, as expectativas e a adaptação dos idosos ao processo asilar.
MÉTODO: estudo descritivo com abordagem qualitativa, do qual participaram nove idosos de uma instituição de longa permanência de idoso no município de Santo Ângelo, Rio Grande do Sul, Brasil. A coleta dos dados ocorreu no mês de agosto de 2016, por meio de entrevistas semiestruturadas, gravadas em mídia digital e transcritas na íntegra. A análise dos dados se deu à luz da análise de conteúdo temática, evidenciando-se as seguintes categorias: sentimentos vivenciados ao ser internado em instituição de longa permanência de idosos; a adaptação do idoso ao processo de internação; pedidos, sonhos e expectativas do idoso institucionalizado.
RESULTADOS: dos entrevistados houve predomínio do sexo masculino – 55,5% (n= 5), com média de idade entre 60 e 77 anos 44,4% (n= 4), com prevalência do estado civil separados de 33,3% (n= 3).
CONSIDERAÇÕES FINAIS: consideram-se as ILPs importantes espaços para o cuidado qualitativo ao idoso, por isso, em seu planejamento e implantação devem-se incluir, além do conforto e acolhimento, ações que permitam ao residente o exercício da autonomia, a elevação da autoestima e o enfrentamento adequado ao processo do envelhecer.

Palavras-chave: Envelhecimento; Institucionalização; Saúde do Idoso Institucionalizado; Relações Familiares.

 

INTRODUÇÃO

A população idosa é, hoje, uma realidade em todos os países do mundo. De forma veloz e significativa, o número de idosos vem aumentando em todos os países e esse crescimento se evidencia pelas modificações aceleradas na estrutura etária.1 No Brasil, as mudanças têm transcorrido de maneira abrupta, em uma sociedade que se encontra pouco preparada para dar o suporte e o apoio necessários a essa faixa etária, que é a terceira idade.2,3

Estudos indicam que, em 2025, o Brasil terá a sexta maior população mundial de idosos. Isso corresponde a aproximadamente 15% da população, ou seja, equivalente a cerca de 30 milhões de pessoas. A longevidade do país vem acompanhada da cronicidade das doenças não transmissíveis, sendo comum entre os idosos a ocorrência de mais de uma condição crônica com risco de complicações e comprometimento funcional, assim como quadros de dependência e isolamento social.4,5

É crescente o número de idosos que residem em instituições de longa permanência de idosos (ILPI). A família, por vezes, encontra dificuldades em cuidar do idoso no domicílio, em decorrência de diversos fatores, tais como a falta de recursos financeiros para contratação de profissionais qualificados em saúde domiciliar ou mesmo pela incapacidade de ajustar-se às reais necessidades da pessoa idosa, especialmente quanto aos próprios cuidados e habilidades que a situação requer. É nessas situações que a internação em ILPI passa a ser a opção mais viável.6

O Estatuto do Idoso, em seu artigo 3º, considera prioridade absoluta a garantia e a efetivação dos direitos do idoso à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária. Tais direitos devem ser garantidos como uma obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do poder público.7

Nesse sentido, a garantia desses direitos exige o acompanhamento e o apoio familiar, que vão muito além do apenas cuidar. Devem ser oferecidas à pessoa idosa atitudes de afeto, amor, carinho e atenção, pois é de extrema importância para uma boa qualidade de vida e para a melhoria da sua autoestima. Quando ela é residente em uma ILPI, essas necessidades aumentam, visto que, mesmo rodeada de pessoas, pode sentir-se só e triste por não estar com seus entes queridos no seu dia a dia.5

Contemporaneamente, percebem-se as dificuldades que envolvem os relacionamentos familiares, influenciando na forma como são tratadas as pessoas de idade mais avançada. Com o envelhecimento da população brasileira, é comum a presença de no mínimo uma pessoa com mais de 60 anos no seio familiar e que necessita de cuidados. Os familiares, por vezes, consideram a ILPI como um ambiente melhor do que a residência do idoso, na medida em que oferece estrutura física voltada para as suas condições fisiológicas, assim como o cuidado que lhe é oferecido por profissionais qualificados para atenderem às suas necessidades durante 24 horas por dia.8

É importante destacar que a qualidade de vida do idoso está diretamente relacionada ao envelhecimento com autonomia e à sua capacidade funcional ativa e bem-sucedida, associada à reduzida probabilidade de doenças crônicas, bem como se relaciona às capacidades físicas e mentais preservadas, aliadas às interações sociais significativas. Assim, tornam-se relevantes os programas de prevenção e de promoção da saúde voltados para os usuários na terceira idade.9

O interesse em estudar esse tema surgiu do pressuposto de que conhecer os sentimentos, as expectativas e a adaptação dos idosos, ao serem internados em uma ILPI, pode contribuir para o planejamento e implementação de estratégias de cuidado singular a cada idoso, na perspectiva de melhores práticas assistenciais, levando-se em conta suas necessidades e limitações. Assim, o estudo pode contribuir para a formulação de políticas públicas que melhorem a adaptação do idoso à internação na ILPI. A partir da lacuna encontrada emergiu o seguinte questionamento: quais os sentimentos as expectativas e como vem ocorrendo a adaptação do idoso internado em ILPI? Com vistas a responder à questão de pesquisa, o presente estudo teve por objetivo identificar os sentimentos, as expectativas e a adaptação dos idosos internado em ILPI.

 

MÉTODO

Desenho, local do estudo e período

Trata-se de estudo descritivo numa abordagem qualitativa, na medida em que se trabalha com o universo dos significados, das crenças, dos valores, a partir da análise da realidade de diferentes formas, para representar as experiências vivenciadas pelas pessoas ou a vivência de determinado fenômeno.10

O estudo foi realizado em uma instituição de longa permanência de idosos, no município de Santo Ângelo, região noroeste do estado do Rio Grande do Sul, local onde são desenvolvidas atividades teórico-práticas da disciplina de Cuidado ao Idoso do curso de graduação em Enfermagem da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI) Campus de Santo Ângelo. O município possui aproximadamente 86.000 habitantes e apresenta registro de 6 ILPIs cadastradas na rede municipal de atendimento aos idosos. A ILPI em estudo é filantrópica, mantida com recursos oriundos das contribuições dos idosos, de doações da comunidade local, de repasses da Secretaria Municipal de Assistência Social e abrigava 55 idosos no período de coleta dos dados. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) considera que as ILPIs são instituições governamentais ou não governamentais de caráter residencial destinadas a domicílio coletivo de pessoas com idade igual ou maior de 60 anos, com ou sem suporte familiar em condições de liberdade, dignidade e cidadania.11

População ou amostra; critérios de inclusão e exclusão

A entrada em campo dos pesquisadores para a realização do estudo processou-se mediante autorização da direção institucional, contato com a enfermeira responsável técnica da ILPI, a qual atuou como facilitadora no momento da abordagem dos idosos. Participaram da pesquisa nove idosos de ambos os sexos, residentes na ILP e selecionados aleatoriamente. Os critérios de inclusão na amostra foram: ter idade igual ou maior de 60 anos, ser consciente dos objetivos da pesquisa e aceitar consciente e voluntariamente a participar do estudo. Nenhum dos idosos abordados foi excluído, uma vez que todos apresentavam a capacidade de expressarem-se verbalmente. A quantidade de participantes seguiu o critério de saturação de entrevistas, neste estudo, com número de nove entrevistados.

Para a obtenção dos dados, optou-se pela entrevista a partir de um instrumento semiestruturado com questões relacionadas à caracterização dos participantes, aos sentimentos vivenciados, às expectativas e à adaptação ao processo de internação na ILPI, a qual se mostrou adequada para responder aos objetivos do estudo, não havendo, portanto, a triangulação de dados. Indagou-se aos participantes: quais eram os sentimentos vivenciados por eles ao serem internados na ILPI? Quais suas expectativas em relação ao futuro e como ocorreu a adaptação à condição de internado na ILPI? Esse tipo de entrevista comporta uma série de questões a serem respondidas pelos participantes com vistas a atender os objetivos propostos. Por ser flexível, possibilita, ainda, que se incluam novas questões durante a entrevista, fator que colabora para a obtenção dos dados.12

Utilizou-se a gravação em mídia eletrônica para registro das informações colhidas, transcritas logo após de maneira integral e fidedigna. Na sequência, submeteram-se os dados coletados ao processo de análise de conteúdo temática, a qual se constituiu na compreensão dos temas que emergiram das falas dos participantes. Conforme dispõe Minayo10, organizou-se esse processo em três fases: a pré-análise; a exploração do material; e o tratamento dos resultados, contemplando a inferência e a interpretação dos dados.

A pré-análise constituiu-se na sistematização das primeiras ideias, momento em que se realizou a transcrição das entrevistas; logo, representou o início do contato com os dados. A seguir, realizou-se a leitura flutuante a fim de se obter uma relação mais direta com os depoimentos e, após, compôs-se o corpus, o qual permitiu a organização do material empírico, de forma que foi possível obter uma visão geral dos dados coletados.

No caso do presente estudo, a análise de dados se deu por meio da interpretação dos conteúdos temáticos das falas. Esse método é usado quando se quer ir além do significado da leitura real; nesse caso, o pesquisador pode avaliar a personalidade de uma pessoa, suas intenções e compará-las aos padrões adequados ao objetivo pretendido.10

Com vistas a atender aos aspectos éticos da pesquisa, conforme recomenda a Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, que dispõe sobre diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos, submeteu-se o projeto à avaliação do Comitê de Ética na pesquisa da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – Campus de Santo Ângelo. Dessa forma e de acordo com o Parecer nº 1.678.959, respeitaram-se os princípios éticos pertinentes a esse tipo de investigação, sendo o projeto devidamente aprovado por esse Comitê.

Os participantes da pesquisa assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e garantiu-se o anonimato mediante a substituição do nome dos entrevistados pela letra E, seguida de numeração cardinal, a saber: E.1, E.2, … E.9.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

De modo geral, o perfil dos idosos caracterizou-se como do sexo masculino 55,5% (n= 5) e feminino 44,4% (n= 4), com idade variando de 60 a 77 anos 44,4% (n= 4), casados 22,2% (n= 2) e separados 33,3% (n= 3), com tempo de permanência na instituição variando entre seis meses e cinco anos. Os dados qualitativos convergiram para a obtenção das seguintes categorias: sentimentos vivenciados ao ser internado em instituição de longa permanência de idosos; a adaptação do idoso ao processo de internação; pedidos, sonhos e expectativas do idoso institucionalizado.

Sentimentos vivenciados ao ser internado em instituição de longa permanência de idosos

O processo de envelhecimento abrange vários fatores, que estão diretamente associados à cultura e à história de vida de cada indivíduo, gerando alterações em momentos e intensidades diferentes, segundo características individuais do sujeito.12 Em vista disso, os sentimentos vivenciados e a aceitação ou não de residir em uma ILPI varia conforme cada idoso, pois são diferentes as formas de avaliar as situações que se apresentam ao longo da vida. Uns encaram com naturalidade o afastamento, outros aceitam por não haver outras opções.13,14

Os discursos de 44,4% (n=4) dos entrevistados transparecem que a institucionalização tornou-se necessária em virtude de problemas familiares. Por questões pessoais, as famílias não podiam mais prestar o cuidado necessário, fator que tornou inevitável a internação, mobilizando no idoso sentimentos e emoções negativos como medo, ansiedade e insegurança pelo afastamento do domicílio. Nas falas evidencia-se, ainda, que 77,7% (n=7) dos entrevistados apresentou boa aceitação em relação à internação, tendo como resultante a mobilização de sentimentos positivos como a satisfação, o conforto, a esperança e o acolhimento pela equipe da instituição. As afirmações a seguir comprovam essa realidade:

Quando vim para cá fiquei triste, fiquei com medo do que iria acontecer comigo, a gente fica sem saber o que fazer, perde o chão. Eu tive que aceitar. Eu estava prejudicando minha filha. Eu morava com minha filha, mas antes de eu ter um AVC eu morava com meu filho mais novo e ele é doente também, mas eu morava com ele. A gente tava se dando bem […] Depois que eu tive o AVC, daí eu fui pra o hospital e ele foi pra ala psiquiátrica, que ele tem esquizofrenia. Desde ali eu não vi mais ele também (E. 1).

[…] Fui bem-recebida aqui, me sinto bem, estou contente pois tenho a liberdade de fazer o que eu quero (E. 7).

Me senti bem, porque minha nora era ruim pra mim, aqui me sinto uma pessoa contente, alegre e feliz, canta bastante, passo o dia intertida (E. 2).

A prefeitura que trouxe nós aqui, a prefeitura, trouxe a minha mãe e eu, eu morava com minha mãe, depois ela ficou doente, né, daí do hospital trouxeram ela para cá, aí nós ficamos aqui, daí quando eu fui ver ela estava morta, morreu na minha frente. Triste isso até hoje eu não posso me lembrar. Eu fiquei faceira quando fiquei sabendo que viria, morava só nós duas sozinha, só nós duas (E. 3).

Os depoimentos anteriores revelam que a internação na ILPI ocorreu predominantemente a partir da decisão de terceiros e não por vontade própria do idoso. A família é considerada a responsável pelo cuidado para com o idoso, motivada por sentimentos como amor e gratidão.15 Por vezes, os desdobramentos da organização familiar não comportam uma estrutura suficientemente capaz de oferecer suporte à permanência do idoso em seu domicílio; nesses casos, a internação se apresenta como a melhor alternativa.16

A internação em ILPI surge como uma opção para as famílias, na medida em que muitos idosos apresentam sua capacidade funcional comprometida, fator este que impede a realização do autocuidado. Diante da decisão da família pela institucionalização em uma ILPI, o idoso, sem alternativa, aceita passivamente, iniciando-se, a partir daí, um processo de adaptação ao novo ambiente, capaz de gerar sentimentos e emoções tanto positivas, quanto negativas.6

A partir do momento em que o indivíduo passa a residir em uma ILPI, a família aos poucos vai se desligando do idoso, o que resulta em um distanciamento progressivo entre os familiares e que, por vezes, se transforma em abandono. Por não dispor de alternativas, o idoso aceita o que foi decidido sobre sua vida e, dessa forma, passa a conviver com pessoas que não faziam parte do seu cotidiano relacional. Como consequência, o idoso passa a se submeter às rotinas do novo ambiente onde está inserido, deixando para trás muitos costumes e valores de sua história de vida.13

Alguns idosos se deparam com situações de perdas familiares, baixa qualidade de vida, acuidades diminuídas, desamparo familiar, risco de abandono e, em alguns casos, até mesmo situações de violência.5 Essas condições ressaltam a relevância do planejamento e da implementação do cuidado a esses indivíduos, os quais devem ser pensados sob uma perspectiva multidisciplinar, na medida em que se multiplicam as dimensões que devem ser trabalhadas em relação às necessidades que emergem da condição de idoso.

A adaptação do idoso ao processo de internação

Em relação à adaptação e ao ajustamento a essa nova fase da vida na ILPI, os idosos referenciaram em suas falas aceitação e adaptação, fazendo parte de um novo grupo, de uma nova família, sendo atendidos em suas necessidades básicas, conforme afirmações que se seguem:

É que aqui eu ganho roupa limpa, comida, as quatro refeições por dia. Tudo na hora certinha sem problema nenhum. Eu gosto, é bom (E. 4).

Eu senti bastante, porque eu trabalhava para fora então comecei a sentir dores do reumatismo, então tive que parar de trabalhar e vim para cá contrariada, mas eu não iria vir, mas meu irmão me deixou aqui. Quando estou aborrecida, fico mais quieta no meu canto, a gente se sente inútil (E. 5).

Eles são muito bons aqui. Cuidam bem, tratam bem a gente, comida boa, remédio na hora. Eu gosto de morar aqui, eu acostumei aqui, agora se eu ir para casa, acho que não vou acostumar, vou estranhar, porque não vai ter aquele movimento, sabe, é só eu e a mulher daí (E. 3).

Nos depoimentos anteriores ficam evidentes também as dificuldades de adaptação ao processo de internação enfrentado pelos idosos, representado pela expressão de sentimentos de contrariedade à institucionalização e pela manifestação de emoções negativas como isolamento, baixa autoestima. Essas constatações também foram evidenciadas em um estudo ao constatar que os idosos com dificuldades de relacionamento e conflitos com a família “tendem a vivenciar sentimentos e emoções negativas, como solidão, baixa autoestima, insegurança, apatia, isolamento social e perda de motivação”.17

O afastamento do idoso do convívio familiar implica separar-se de seu lar, de seus pertences e também de toda sua história, seu espaço, seu lugar de aconchego e repouso. Em vista disso, a organização da nova realidade de vida pode causar-lhe grandes transtornos emocionais.18

Apesar de a nova residência oferecer as condições de moradia, boa higiene, alimentação e acompanhamento de saúde, o idoso, nessas instituições, vivencia situações limitadas. O fato de passar a conviver com outras pessoas faz com que o idoso tenha de se adaptar às normas da instituição, precisando ajustar-se aos horários estabelecidos na sua rotina diária e isso gera uma situação que pode afetar a sua privacidade e alterar a sua individualidade.1 Talvez isso justifique a falta de sonhos diante das lembranças significativas da vida e que agora se desfazem. Perderam-se os significados afetivos do idoso para recomeçar uma nova adaptação de vida dentro desse espaço que é a ILPI.18,19

Os idosos que têm mais independência sobre si buscam na nova moradia um lugar de lazer e de novas amizades, aproveitando o tempo de repouso, de descontração para não dar oportunidade ao sentimento de solidão, desfrutando de um envelhecimento ativo para o seu bem-estar.6 Estudo realizado em 2016 revelou que a independência, a autonomia, o bem-estar psicológico e o sentimento de utilidade social têm forte ligação com as dimensões da qualidade de vida.1

Quanto a isso, identificou-se, nas entrevistas, que as relações interpessoais, o vínculo afetivo com os funcionários na ILPI e a melhor aceitação e adaptação no local se sobressaem nos idosos que mantêm sua autonomia para realizar as atividades diárias e que têm liberdade para visitar seus familiares. Fica nítido que o apoio familiar favorece o bom relacionamento do idoso com os cuidadores e outros idosos da ILPI.

Os participantes expressaram-se sobre as necessidades que emergiram após a internação na ILPI. Entre essas, destacam-se as necessidades sexuais, o convívio familiar e o afastamento da família, como se percebe nas seguintes manifestações:

[…] Não, é que aqui não pode fazer sexo, não existe. Eu com 65 anos, então, é algo que modifica muito (E. 4).

Do meu convívio com meu filho, porque eu perdi o contato com ele depois que eu tive o AVC. Isso foi o que mais me machucou, pois perdi totalmente o contato com meu filho (E. 1).

Senti falta da minha mãe, porque eu fiquei sozinha, ela era minha companheira, por isso que estou aqui, para não ficar na rua, né? (E. 3).

Nos relatos dos idosos aparece a sexualidade, a qual deve ser compreendida de forma natural como qualquer outra necessidade básica do ser humano, pois segundo estudos não se esgota com o avançar da idade.15 Com o passar dos anos, as mudanças são inevitáveis e o envelhecimento corporal pode interferir no desejo e na satisfação sexual do idoso. Todavia, a compreensão dessas transformações contribui para que seja possível vivenciar experiências prazerosas.

Constata-se que as mudanças sociais vêm alterando a estrutura familiar, embora se reconheça que o melhor lugar para o indivíduo, na terceira idade, é ao lado da família. Entretanto, as condições do idoso e o tempo disponível do familiar para acompanhá-lo e se fazer presente para cuidar dele podem constituir-se em fatores determinantes à internação em uma ILP, ambiente, por vezes, mais acolhedor do que o próprio lar.18

O indivíduo que reside em uma instituição de longa permanência pode apresentar distanciamento progressivo da família, resultando, por vezes, em abandono. Isso varia conforme a estrutura e o contexto familiar em que o idoso convive. Observa-se que a saída do idoso do seu próprio lar, associada ao distanciamento familiar, pode causar diminuição na qualidade de vida. Mesmo que a ILPI assuma um importante papel, no sentido de atender às necessidades dos idosos institucionalizados, o suporte familiar, as relações vividas em família, o amor e o carinho são fundamentais na vida do indivíduo.1

Pedidos, sonhos e expectativas do idoso institucionalizado

Os entrevistados, apesar de sua condição de institucionalizados, relataram que têm sonhos e expectativas de mostrar que ainda são úteis à sociedade e que podem contribuir nesse sentido com suas experiências de vida. Identifica-se que, mesmo em ambiente asilar, os idosos mantêm a expectativa de realizar atividades que lhes eram inerentes quando jovens em idade produtiva, como se evidencia nas falas a seguir:

Era de trabalhar na minha mesma profissão que eu tinha antes, eu trabalhava de carpinteiro, construía casa, gostava, e às vezes chego a sonhar que estou construindo, queria voltar de novo, mas é que minha idade não permite (E. 6).

Me apertou agora […] Realizar sonho que já está parado pouco resolve. Tanto tempo a gente sem fazer nada, mas isso pela idade também (E. 2).

Meu pedido seria voltar a caminhar, eu preciso voltar a caminhar de novo se eu quiser ter uma vida normal, eu parei de caminhar depois que tive o AVC, o meu pedido seria esse, porque então eu poderia ir lá visitar o meu filho, poderia ter minha casa eu não precisava estar aqui (E. 1).

Nas expressões verbais dos idosos identificaram-se referências à sua identidade passada e presente, saudades dos caminhos trilhados ao longo da vida, junto com as pessoas com quem construíram vínculos e histórias. Falar do passado permitiu aos idosos expressarem-se sobre suas experiências, reconstruírem e atualizarem imagens, relembrarem experiências positivas e negativas vividas, enquanto atores sociais de uma história construída, cada uma, à sua maneira.

Percebeu-se, ainda, nas entrevistas, que os idosos estão conformados com a sua situação de vida, embora tenham manifestado não ser essa sua escolha de vida para a velhice. Expressaram sentimento de tristeza ao encarar a terceira idade e as consequentes limitações, tais como a impossibilidade de tomar suas próprias decisões quanto ao seu futuro.

Os sujeitos enfatizaram que o comprometimento funcional e orgânico contribui para a inatividade e a concretização de seus sonhos, emergindo, a partir daí, sentimentos negativos e sofrimento psíquico, decorrentes, segundo eles, de estarem isolados do mundo exterior. Tais dificuldades podem ser justificadas pela maneira como as instituições desenvolvem as atividades diárias entre os idosos, visto que aqueles que não conseguem, por algum motivo, realizá-las adequadamente sentem-se impotentes, incapazes e até mesmo abandonados.18,19

Este estudo apresenta limitações relacionadas ao contexto regional dos participantes, o que não possibilita a generalização dos resultados encontrados. Os achados salientam a importância da realização de pesquisas que adotem uma metodologia longitudinal com a triangulação dos resultados, as quais poderão contribuir para melhor compreender os sentimentos as expectativas e a adaptação de idosos internados em instituição de longa permanência.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo teve como objetivo identificar os sentimentos, as expectativas e a adaptação dos idosos ao processo internação em uma ILPI. Com base em um estudo descritivo de abordagem qualitativa, buscou-se igualmente ampliar os conhecimentos sobre essa temática, pela compreensão dos fenômenos implicados nesse processo, tais como a importância do apoio familiar e o suporte da família para o bem-estar do institucionalizado, bem como a implementação de estratégias de cuidado.

A partir dos estudos realizados, analisaram-se as condições de vida dos idosos nessas instituições e seus sentimentos como institucionalizados, que podem variar em grau de satisfação e sentimento de abandono por parte da família. Verificou-se que, em termos de cuidado, essas instituições atendem satisfatoriamente a seus compromissos organizacionais, tanto em termos das necessidades básicas dos instituídos como em relação ao necessário acompanhamento individual a cada um dos idosos.

Considera-se relevante os enfermeiros e cuidadores atentarem para as necessidades e carências dos idosos, a fim de prestarem cuidados visando proporcionar-lhes melhores condições de vida. De igual forma, verificou-se o quanto é importante que os enfermeiros que atuam em Estratégia Saúde da Família (ESF) identifiquem na comunidade situações em que os idosos necessitem de internação, para, assim, poderem discutir com os familiares sobre a melhor decisão a ser adotada em relação ao paciente.

Outra importante constatação diz respeito ao fato de que, nos dias atuais, nem sempre a família pode estar presente da forma como deseja junto ao idoso e que devem ser trabalhados fatores como a paciência para com o idoso, a atenção e o reconhecimento de sua contribuição social. Os profissionais da saúde, principalmente os enfermeiros que trabalham em ILP, devem favorecer ao idoso residente um relacionamento agradável e afetivo, dessa forma minimizando a angústia, tristeza e o sentimento de solidão de alguns dos instituídos por estarem afastados dos familiares.

Por isso, no planejamento e implementação de programas que promovam a saúde do idoso, é necessário, ao enfermeiro, atentar para as demandas desses usuários, ampliando a qualidade de vida, o envelhecimento ativo, preservando suas capacidades funcionais, estimulando sua autonomia e desenvolvendo atividades de lazer que os façam conviver com a sociedade.

Conseguir viver mais não significa viver melhor, pois a velhice também está relacionada ao aumento da dependência, declínio fisiológico, sentimento de tristeza, isolamento social, entre outros fatores. A terceira idade deve ser vivida com qualidade, com bem-estar físico e social, com bom humor e, preferencialmente, com a permanência do idoso junto à família, das pessoas de quem gosta, de quem lhe quer bem, já que essas são prerrogativas inegáveis de uma velhice saudável.

Diante da importância das ILPIs como espaços para o cuidado qualitativo ao idoso, recomenda-se que em seu planejamento e implantação sejam incluídas, além do conforto e acolhimento, ações que permitam ao residente manter sua autonomia, valorizando e fortalecendo sua autoestima e facilitando, assim, o enfrentamento no processo do envelhecer. Deve-se incentivar a adoção de estratégias que auxiliem o idoso a manter sua independência funcional, podendo sentir-se mais alegre, útil e estimulado a construir sonhos, dando suporte a novas criações e demonstrando que a internação não é o fim da vida, mas um novo recomeço. É o início de uma nova fase, em que as principais e fundamentais características são os cuidados, a qualidade de vida e o respeito ao idoso em sua nova condição social.

 

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