REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 22:e-1138 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20180067

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Pesquisa

Estratégias ativas de ensino e aprendizagem: percepções de estudantes de enfermagem

Active teaching and learning strategies: perceptions of nursing students

Márcia Regina Cangiani Fabbro; Natália Rejane Salim; Jamile Claro de Castro Bussadori; Aline Cristiane Cavicchioli Okido; Giselle Dupas

Universidade Federal de São Carlos - UFSCar, Departamento de Enfermagem. São Carlos, SP - Brasil

Endereço para correspondência

Natália Rejane Salim
E-mail: nat.salim@gmail.com

Submetido em: 31/01/2018
Aprovado em: 23/08/2018

Resumo

Diante da necessidade de mudança no modelo tradicional de ensino e aprendizagem, um grupo de docentes das disciplinas Atenção à Saúde da Mulher e da Criança de um curso de Enfermagem de uma universidade pública decidiu incorporar metodologias ativas de ensino. Este estudo teve como objetivo compreender a vivência do estudante após mudanças no método de ensino e bem como o processo de implementação das novas estratégias. A coleta de dados foi realizada em junho de 2016 com o grupo de estudantes que cursou a disciplina. Foi aplicado questionário de avaliação da disciplina composto por questões fechadas e uma questão dissertativa, com o intuito de que os estudantes elaborassem uma narrativa. Foram realizadas análise estatística descritiva e análise de conteúdo dos dados. Os principais resultados mostraram que, na avaliação geral da disciplina, a maioria atribuiu conceito ótimo e bom, os aspectos mais citados foram “professores”, “campos de prática” e “aulas de laboratório”. Na prática clínica foram destacadas “autonomia”, “discussão de casos” e “consulta de enfermagem” como pontos positivos; entre os negativos foram identificadas a “relação com o enfermeiro do serviço” e “recepção da equipe”. Da análise de conteúdo das narrativas emergiram os seguintes temas: “vivendo a metodologia ativa”, “observado associação entre teoria e prática” e “indo para além da técnica”. No processo vivenciado, os estudantes destacaram experiências para além do aprendizado técnico, como aquisição de valores morais, crescimento como ser humano, importância para a cidadania, respeito e sensibilidade nas relações humanas, incorporando conceitos como integralidade, horizontalidade e autonomia.

Palavras-chave: Educação em Enfermagem; Educação Superior; Enfermagem Obstétrica; Enfermagem Pediátrica; Estudantes de Enfermagem.

 

INTRODUÇÃO

A mudança dos modelos de atenção à saúde na perspectiva da integralidade requer dos profissionais de saúde conhecimento ampliado das dimensões objetivas, subjetivas e sociais, bem como no modo de produzir gestão e cuidado.1,2

Nessa direção, tem-se observado um crescente movimento de reorganização dos currículos dos cursos superiores da saúde, bem como na busca da implementação de metodologias ativas de ensino-aprendizagem (MAEA), à medida que potencializa a proatividade do estudante, favorece o desenvolvimento de autonomia profissional3 e privilegia o atendimento das necessidades de saúde de determinada população. Todavia, o desafio está em romper com as estruturas rígidas dos modelos de ensino tradicionais, que distanciam a teoria da prática.4-6

Nas últimas décadas, diversas MAEAs vêm sendo desenvolvidas, tais como: aprendizagem baseada em problemas (ABP), problematização, aprendizagem baseada em projetos, em equipes, por meio de jogos ou uso de simulações.3 No entanto, independentemente da estratégia adotada, os pressupostos assemelham-se: o estudante é protagonista central, o docente facilitador do processo educativo, consideração do conhecimento prévio, valorização e diversificação de cenários de práticas e compreensão de que o conhecimento implica acesso e constante reconstrução das informações.7

A MAEA pode proporcionar ao estudante a capacidade de refletir sobre suas próprias concepções, possibilita a formação de sujeito crítico-reflexivo, leva ao processo de aprender a aprender e ser agente de mudança, à medida que a responsabilidade de aprendizado e aquisição de novos saberes passa a ser compartilhada.3,8

Essa nova concepção de ensino é capaz de definir rumos para a formação profissional, o que pode ter impactos na prática, no fazer em saúde. Nesse pensamento, o campo da enfermagem se mostra propício para a utilização de metodologias ativas, considerando um ensino que visa formar profissionais comprometidos com seu papel social, humanistas, críticos e reflexivos.8,9

As disciplinas Atenção à Saúde da Mulher e da Criança de um curso de Enfermagem de uma universidade pública do interior de São Paulo ocorriam isoladamente até o ano de 2008 e eram organizadas de acordo com o modelo tradicional. Em 2009, inquietos com esse modelo, um grupo de docentes iniciou um processo gradativo de inserção de MAEA, com avaliações sistemáticas a cada oferta das disciplinas, de forma a inserir mudanças visando superar os obstáculos identificados. Vale destacar que ainda são mantidos alguns momentos de ensino tradicional, que vem sendo repensados a cada ano, com o intuito de privilegiar as estratégias ativas de ensino e aprendizagem.

Diante do exposto, a seguinte questão de pesquisa foi construída: quais são as percepções dos estudantes de Enfermagem diante das estratégias ativas de ensino e aprendizagem implementadas nas disciplinas de Atenção à Saúde da Criança e Atenção à Saúde da Mulher? Assim, o presente estudo tem como objetivo descrever as percepções dos estudantes de Enfermagem em relação à incorporação de estratégias ativas de ensino e aprendizagem.

 

MÉTODO

Trata-se de pesquisa descritiva com delineamento transversal realizada em uma universidade pública do interior do estado de São Paulo. Participaram da pesquisa 28 estudantes do sétimo semestre do curso de graduação em Enfermagem. O critério de elegibilidade foi ser estudante de graduação de Enfermagem que cursou as disciplinas no ano de 2016. É pertinente destacar que não foram incluídos os demais estudantes que cursaram as disciplinas anteriormente, devido à não padronização do instrumento de avaliação das disciplinas e não apreciação ética anterior.

No que se refere às estratégias ativas de ensino e aprendizagem, destaca-se a utilização da aprendizagem baseada em problema (ABP) disparada por “situações-problemas” e atividades de simulação da prática profissional. Segundo a literatura, a ABP é constituída por sete passos, os quais são: esclarecer termos e expressões no texto do problema; definir o problema; analisar o problema; sistematizar análise e hipóteses de explicação ou solução do problema; formular objetivos de aprendizagem; identificar fontes de informação para adquirir novos conhecimentos individualmente; sintetizar esses conhecimentos e revisar hipóteses iniciais para o problema.3

A coleta de dados foi realizada em junho de 2016, durante a avaliação final das disciplinas. Utilizou-se um instrumento denominado “Instrumento de avaliação da disciplina” validado entre os docentes envolvidos. O instrumento continha três seções: a primeira referente aos dados sociodemográficos, a segunda com questões fechadas que permitiam atribuir os seguintes conceitos: adequado, parcialmente adequado, inadequado para avaliação da relevância das disciplinas, do conteúdo teórico, da carga horária, da articulação teoria/prática, das estratégias ativas de ensino e aprendizagem e das formas de avaliação. Vale ressaltar que, embora o objetivo do presente estudo seja descrever as percepções dos estudantes em relação às estratégias ativas de ensino e aprendizagem, os autores consideraram relevante apresentar os conceitos atribuídos aos demais aspectos da disciplina, haja vista que tais aspectos estão direta ou indiretamente relacionados às estratégias adotadas.

A terceira seção continha um espaço destinado à descrição das vivências dos estudantes, bem como para registrar suas percepções sobre sua formação pessoal e profissional, entendido como um documento pessoal. Segundo a literatura, documentos pessoais se referem a qualquer narrativa na primeira pessoa que descreva as ações, experiências e crenças do indivíduo. Neles, os sujeitos escrevem por si próprios ou são solicitados a escrever. Uma vantagem é a garantia de que certo número de pessoas escreva sobre o mesmo acontecimento.10

Os dados coletados na seção 1 e 2 foram armazenados em uma planilha estruturada no Microsoft Excel®, a partir de dupla digitação para eliminar possíveis erros e garantir confiabilidade. Para a descrição das variáveis foram utilizadas as medidas de frequência absoluta e relativa. Para a análise dos documentos pessoais foi utilizado o método de análise de conteúdo, cumprindo as seguintes etapas: pré-análise; exploração do material ou codificação; tratamento dos resultados, inferência e interpretação. Assim, os documentos pessoais foram desconstruídos e reconstruídos em temas gerais e depois agrupados em categorias, as quais consistem num conjunto de elementos ou aspectos com características comuns ou que se relacionam entre si.11-13

Assim, esta investigação possibilitou o encontro das seguintes categorias: “vivendo a metodologia ativa”, “observando associação entre teoria e prática” e “indo para além da técnica”.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), conforme Protocolo nº 1.602.550. Os alunos foram identificados com a Letra “A” e enumerados à medida que iam entregando as avaliações.

 

RESULTADOS

Participaram do estudo 28 estudantes que cursaram a disciplina Atenção à Saúde da Mulher e da Criança em 2016. A média de idade foi de 24,43 anos, mediana de 24 anos, mínima de 21 e máxima de 31 anos. Houve predomínio do sexo feminino (92,9%). Todos se declararam de nacionalidade brasileira (100%), sendo que 78,6% eram procedentes do interior do estado de São Paulo. Em relação à religião, 39,3% dos estudantes eram católicos e 17,9% espíritas. A maioria se declarou de cor branca (71,4%) e cursou o ensino médio em instituições particulares (57,1%); 14(50%) não pertenciam ao perfil acadêmico (conjunto de disciplinas que caracterizam o semestre cursado), ou seja, não estavam cursando as disciplinas do semestre que deveriam cursar (segundo o ano de ingresso), provavelmente por reprovações anteriores. A Tabela 1 apresenta a caracterização dos estudantes participantes da pesquisa.

 

 

No tocante aos conceitos atribuídos pelos estudantes quanto a relevância da disciplina, conteúdo abordado, carga horária, articulação teoria/prática, estratégias ativas de ensino e aprendizagem e formas de avaliação, observou-se que a maioria dos estudantes considerou os itens avaliados como adequados. Todavia, é pertinente destacar que alguns estudantes atribuíram o conceito “parcialmente adequado” para os itens carga horária, estratégias ativas de ensino e aprendizagem e formas de avaliação. A Tabela 2 apresenta a distribuição dos conceitos atribuídos de acordo com os aspectos avaliados.

 

 

A análise temática da narrativa construída pelos estudantes culminou nas seguintes categorias: “vivendo a metodologia ativa”, “observando associação entre teoria e prática” e “refletindo para além da técnica”.

Vivendo a metodologia ativa

A vivência dos estudantes com metodologia ativa não é nova para a maioria deles. Outras disciplinas no departamento oferecem disciplinas nesse modelo. Com a disciplina de Saúde da Mulher e Criança os alunos identificaram pontos positivos e negativos. Os positivos retratam os ganhos na aprendizagem do uso de ferramentas de busca e discussões na formulação das novas sínteses. Os estudantes destacam em seus relatos as dúvidas, anseios, preocupações no início das primeiras experiências com o pequeno grupo e o desafio representado para sair da zona de conforto proporcionada pelo método tradicional. No decorrer das vivências passam a visualizar o movimento de progressão, ao adquirir segurança em si mesmo, o que proporciona calma e confiança no processo. Os recortes a seguir retratam essa evolução.

No início achei bem desafiador o método, por ter que sair da minha zona de conforto, tanto por ter que me expor diante do grupo, tanto por ter que ir atrás do conteúdo. Mas vejo isso como uma coisa muito boa para o meu crescimento pessoal e profissional, pois terei que me colocar diante da equipe e ter segurança em mim mesma. Além disso, desenvolve autonomia na busca do conhecimento e favorece o raciocínio integrado, pois os temas não são vistos isoladamente (A9).

Nos fez pesquisar e discutir, nos fez pensar mais do que em uma aula exposta em que ficaríamos mais em memorizar, o que nos faz tornar profissionais mais críticos para levar isso para a nossa atuação profissional (A10).

Foi um desafio no início... no final percebi que aprendi e retive muito mais conhecimento quando comparado à experiência da metodologia comum (A14).

Vale ressaltar que, entre as abordagens das MAEAs, essa experiência utilizou a Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP) e algumas atividades simuladas em laboratório. Ao vivenciar o método nessa disciplina em especial, os alunos identificaram pontos negativos que são muito importantes de serem considerados, dado que é na explicitação deles que os docentes conseguem aprimorar a utilização da MAEA. Ficou evidente a necessidade de repensar um modelo de avaliação mais condizente com a MAEA, a percepção de superficialidade na discussão de determinados temas e, também, foi destacado como ponto negativo a necessidade de o estudante expor suas ideias, o que para alguns pode ser penoso. Os relatos a seguir exemplificam esses aspectos.

O método tem muitas vantagens e facilita o aprendizado, porém em alguns momentos o conteúdo ficou superficial por falta de tempo de discussão (A5).

Apesar de ser uma metodologia que estimula a busca e o autoaprendizado... não é uma metodologia que eu gosto, pois acaba privilegiando pessoas mais extrovertidas (A6).

A metodologia é muito boa, mas poderia ser intercalada com aulas tradicionais, devido ao tempo. Faltou tempo para aprofundar alguns tópicos (A16).

Observando associação entre teoria e prática

Um dos pontos destacados pelos alunos com ênfase foi a articulação teoria e prática proporcionada pelo método, além da necessidade de retomar outros temas, à medida que a vivência no campo da prática constatava lacunas. As discussões realizadas no decorrer da prática clínica proporcionaram uma visão ampliada do papel do enfermeiro como reflexão crítica sobre o contexto geral da saúde da mulher, criança e família, indo além da visão biologicista, bem como a importância, tanto de procedimentos técnicos como dos aspectos relacionados à educação em saúde, de forma a valorizar a função educativa do enfermeiro.

À medida que me aproximei dos cenários consegui exercer a prática gradativamente, adequando ao conteúdo aprendido a realidade local, identificando as minhas lacunas e buscando preenchê-las (A8).

Os campos me fizeram ter uma abertura da visão do enfermeiro, as diferenças dos campos trouxeram os conteúdos vistos na teoria (A9).

Conseguimos relacionar a teoria com a prática. Consegui visualizar o aprendizado da teoria nos campos práticos e realizar educação em saúde, além de realizar procedimentos técnicos (A10).

Conteúdos que não tinham ficado reforçados na teoria foram contemplados na prática, assim como novos conhecimentos. A autonomia e segurança desenvolvidas foram muito importantes para o meu crescimento pessoal (A21).

Refletindo para além da técnica

A vivência dos estudantes na articulação das duas áreas de conhecimento: mulher e criança e o uso de estratégias de ensino mais participativas proporcionaram não somente aprendizado técnico científico. Eles destacam o aprendizado de valores morais, crescimento como ser humano, a importância da cidadania, do respeito ao outro e a constante necessidade de escuta, do interesse e sensibilidade nas relações humanas. Para além da técnica, a disciplina proporcionou um olhar ampliado sobre as condições de vida e processo saúde-doença dos usuários atendidos, incorporando conceitos como integralidade, horizontalidade nas relações com o outro, superação dos obstáculos, desenvolvimento da autonomia e de habilidades de comunicação. O método ainda proporcionou mais aproximação e respeito nas relações entre docentes e estudantes, bem como entre eles.

[...] mais do que conhecimento teórico e prático, essa disciplina nos proporcionou aprender valores... modelo que eu levarei para a minha vida pessoal e profissional (A2).

Essa disciplina contribuiu não somente para minha formação acadêmica, mas para meu crescimento pessoal, como ser humano e parte integrante de um contexto ampliado de cidadania (A3).

Pude compreender a importância do meio sociocultural e suas influências na elaboração de um plano de cuidado adequado (A23).

Durante toda a disciplina me senti muito à vontade para expor meus conhecimentos, vivências e dúvidas, de forma a participar ativamente do que era proposto. Acredito que as discussões em pequenos grupos são fundamentais para não só discutir a teoria, mas como um espaço de incentivo ao diálogo e a aproximação com as docentes (A28).

 

DISCUSSÃO

O perfil dessa turma de alunos foi de um público adulto jovem, feminino, procedente do interior de São Paulo. A maioria cursou o ensino médio em escolas particulares. Outro resultado que chamou a atenção foi que metade da turma no período da pesquisa estava fora do perfil acadêmico, sendo assim, tiveram reprovações durante a trajetória na graduação em Enfermagem. Esses dados levam a crer que há dificuldades em aprovações nas disciplinas da área básica que são, em sua maioria, realizadas pelo método tradicional de ensino. O contato com a MAEA acontece somente em algumas disciplinas específicas do campo da Enfermagem. Nesse sentido, são alunos que trazem boas e más memórias das experiências pregressas.

Estudo que analisou o uso da metodologia ativa no estágio supervisionado de um curso de Odontologia ressalta o desafio, tanto para o docente como para o discente, pela presença de uma grade curricular tradicional em que há a fragmentação do saber e a dicotomia entre os aspectos teóricos e práticos. Esse mesmo modelo também persiste, em decorrência de haver ampla geração de docentes que foram formados no modelo tradicional e que corroboram esse modelo.14 Entretanto, os dados do presente estudo evidenciaram que o grupo discente também apresenta resistências, muitas vezes decorrentes de uma trajetória no ensino médio pautada no modelo tradicional de ensino ou de ter tido vivências pouco satisfatórias com o método.

Apesar de algumas dificuldades de aceitação, os dados indicam uma percepção positiva dos estudantes em relação à utilização da metodologia ativa e a articulação entre a teoria e a prática. Esse dado está em consonância com outros estudos no âmbito da formação em saúde que avaliaram a percepção de estudantes frente à incorporação de um novo modelo de ensino e também identificaram que as estratégias de metodologia ativa favorecem o processo de aprendizagem, bem como a interação do conhecimento teórico com atividades práticas.5,8,9,14

Nesse estudo, a boa aceitação do método se deve, em parte, à forma como se deu o processo de mudanças no ensino-aprendizagem. A cada ano a disciplina foi avaliada pelo grupo de docentes, tomando como parâmetro a percepção do aluno com a MAEA e as dificuldades das professoras, o que permitiu adequações ao longo dos anos.

Um dos principais pontos na proposta das metodologias ativas é que todo o processo de ensino-aprendizagem seja centrado no estudante. Isso difere integralmente da pedagogia tradicional, em que as ações de ensino apresentam-se centradas na transmissão de conhecimentos pelo professor ao aluno, sendo o professor o único responsável pela condução do processo educativo, uma autoridade máxima no que concerne às estratégias de ensino. Já como uma nova tendência pedagógica e inovadora, surge a pedagogia crítica, na qual o professor assume o papel de mediador, ao conduzir os alunos à observação da realidade e apreensão do conteúdo que extraem dela, um processo educativo que visa à transformação social, econômica e política, além da superação das desigualdades sociais.15

Nesse contexto, um dos grandes desafios na incorporação das metodologias ativas está na postura dos estudantes diante da nova forma de ensino. Nos relatos emergiu a expressão “sair da zona de conforto”, que diz respeito à necessidade do grupo de estudantes se tornar protagonista do processo de aprendizagem, a fim de potencializar o desenvolvimento da autonomia.16 Por outro lado, este estudo evidencia alto nível de ansiedade, que mostra fazer parte do processo de compreensão do seu papel para a aprendizagem. Quanto mais os(as) estudantes vivenciam o método, também passam a administrar da melhor forma esses sentimentos e percepções.17

Outro aspecto que merece ser destacado é a percepção de superficialidade na abordagem de determinados temas, o que indica dificuldades do grupo de estudante no entendimento do seu papel e da intencionalidade do método, bem como a necessidade de constante avaliação e capacitação do grupo de docentes no uso das MAEA.

Assim como mostrado em outro estudo, existe uma percepção dos próprios estudantes de não se sentirem plenamente capacitados para o exercício profissional, sem o respaldo do professor.14 Esse é um desafio que exige a comunicação a partir da relação dialógica entre docente e estudante. Essa aproximação permite o conhecimento de particularidades do estudante, o que reflete na adoção de estratégias e propostas para que o processo ensino-aprendizagem seja efetivo, prazeroso e para que também permita transformações.

Nesse processo de transformação é preciso constantemente considerar as resistências para as mudanças e os desafios, tanto para alunos quanto para o docente, dado que grande parte deles vem de modelos escolares e universitários tradicionais, em que os currículos não privilegiam alguma estratégia inovadora de ensino. Também é preciso levar em conta as subjetividades dos estudantes, como uma das participantes destacou neste estudo, que esse tipo de metodologia privilegia pessoas mais extrovertidas. Nessa conjuntura, é necessário dar abertura para as diversidades e aplicar estratégias para que os estudantes possam desenvolver novas habilidades e concomitantemente descobrirem suas potencialidades.

Nesse sentido, estudo que objetivou analisar a ABP afirmou que o método promove o desenvolvimento da autonomia do aluno, à medida que considera a necessidade de desenvolver o “aprender a aprender” como um processo a ser vivido e aprimorado. Esse método ativo de ensino e aprendizagem vem sendo muito utilizado na formação em saúde.

Na “gestão do conhecimento”, a capacidade de aprender a aprender torna-se indispensável para o sucesso profissional; cabe então buscar alternativas que possibilitem aos estudantes momentos de reflexão crítica na prática e na reestruturação do conhecimento.18 Essa reflexão vai ao encontro dos achados deste estudo, presente nas vivências dos (as) estudantes, nas habilidades adquiridas que foram proporcionadas por meio das mudanças implementadas. Nesse sentido, a autonomia destacada nos resultados é validada por este estudo, presente nas experiências do grupo de estudantes, na medida em que necessitam se sentir sujeitos do processo de formação e não objetos dele, de modo que participem da tomada de decisões e do questionamento acerca das necessidades de saúde da população.19

No campo da enfermagem o emprego dessa estratégia é capaz de desenvolver a autonomia precocemente durante a graduação, o que é indispensável para o exercício da prática profissional.5,20

Nesse cenário, é essencial que estudantes da área da saúde, ressaltando aqui a formação em Enfermagem, devam ir além de suas habilidades técnicas, havendo necessidade do aperfeiçoamento de habilidades intra e interpessoais. É preciso problematizar o compromisso político com a educação e a sociedade, bem como a compreensão histórica do momento atual do ensino de Enfermagem no Brasil.21 Os resultados deste estudo mostram que para os estudantes a vivência da metodologia ativa refletiu diretamente na prática do cuidado ao destacarem os seguintes pontos: facilitação na articulação entre ensino, serviço e comunidade; união entre teoria e prática ao longo das atividades; problematização de situações e contextos sociais; sensibilização diante das necessidades sociais e de saúde da população; oportunidade de vivenciar a realidade dos usuários do SUS; reflexão crítica sobre a realidade e o protagonismo discente.

A incorporação das metodologias ativas nos currículos dos cursos da saúde deve estar em constante aprimoramento. Uma das formas de aperfeiçoar o ensino é a partir da compreensão da experiência dos estudantes, considerando suas percepções, queixas e recomendações. Estudo que teve como objetivo analisar a satisfação dos estudantes diante da introdução de técnicas de metodologias ativas em uma disciplina de ética em saúde corrobora a presente investigação à medida que também identificou a carga horária como um fator limitante para o bom desempenho dos estudantes.22

Nesse processo, um dos aspectos que devem ser destacados é o desenvolvimento do raciocínio crítico e problematizador dos estudantes. Um dos estudos mostrou que os estudantes que vivenciaram a metodologia ativa em pequenos grupos, mediados por um docente tutor, relataram que, apesar de se sentirem inseguros, perceberam que o movimento de realizar as próprias buscas, instigados por suas dúvidas e necessidades, possibilitou melhor elaboração dos temas estudados e do desenvolvimento pessoal como parte da construção do conhecimento.8

A experiência de uma universidade pública na incorporação de metodologias ativas na formação em Ciências Sociais e da Saúde destacou que, ao reestruturar uma disciplina, é possível elaborar novas concepções de saúde e de educação e tornar as relações entre professores e estudantes mais democráticas.9

Essa nova concepção de ensino é capaz de definir novos rumos para a formação profissional, o que mostra ter impacto na prática, no fazer em saúde. Nesse pensamento, o campo da enfermagem é propício para a utilização das metodologias ativas, dado que a formação visa desenvolver profissionais comprometidos com seu papel social, humanistas, críticos e reflexivos. Para isso, é necessário romper com os distanciamentos entre teoria e prática e levar em conta a diversidade e o contexto contemporâneo para dentro das salas de aula. Para além de formar bons profissionais, a universidade precisa cada vez mais assumir o seu papel social e contribuir para a formação de cidadãos críticos, reflexivos e agentes de transformação.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os caminhos trilhados pela disciplina mostram a necessidade constante de avaliação da prática docente, dado que somente na reflexão e autorreflexão que se possibilita o movimento necessário e motivante, de não somente “fazer diferente”, mas também “fazer melhor”, do ponto de vista da avaliação constante da prática docente, bem como da formação do aluno como ser humano. A proposta metodológica de ensino adotada pela disciplina sintetiza um forte desejo de promover a aprendizagem significativa, ao inserir espaços e diálogos alternativos à tradicional sala de aula e aula expositiva. Acredita-se que a formação de profissionais críticos, reflexivos e socialmente responsáveis perpassa pelo conhecimento e inserção acadêmica na complexidade dos problemas sociais.

Este estudo teve limitações, em especial por avaliar somente uma turma desde que a implantação de novos modos de ensinar e aprender foram sendo incorporados. No entanto, ressalta elementos importantes, em especial a autonomia e compromisso social e ético com um cuidado humanizado, resolutivo e respeitoso; mas também realça desafios como ultrapassar as dificuldades para os alunos saírem da “zona de conforto” proporcionada pelo método tradicional, repensar estratégias para superar a percepção de superficialidade na discussão de determinados temas e rever um modelo de avaliação mais condizente com a MAEA. Portanto recomendam-se novos estudos que abordem esses aspectos, para o alcance de um ensino e prática em saúde inovadores.

 

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