REME - Revista Mineira de Enfermagem

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Enfermagem UFMG

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Volume: 14.3

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Pesquisa

A necessidade de informação do cliente em pré-operatório de colecistectomia

Necessities of information of the client in the preoperative

Regiane Aparecida dos Santos Soares BarretoI; Ana Carolina de Oliveira AraújoII; Karina SuzukiIII; Verônica Carrijo de FreitasIV

IEnfermeira mestre. Professora assistente II da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Goiás (FEN/UFG)
IIEnfermeira graduada pela FEN/UFG
IIIEnfermeira mestre. Professora assistente II da FEN/UFG
IVAcadêmica de Enfermagem na Faculdade FEN/UFG

Endereço para correspondência

Regiane Aparecida dos Santos Soares Barreto
Rua 25 A nº 290 ap. 102 Setor Aeroporto
CEP: 74070-150. Goiânia-Goiás
remajau@yahoo.com.br

Data de submissão: 12/5/2009
Data de aprovação: 16/6/2010

Resumo

Toda cirurgia traz ao cliente dúvidas e medos sobre o procedimento e suas consequências, e a assistência pré-operatória de enfermagem se mostra fundamental nesse período. Como uma das cirurgias mais realizadas no Brasil e no mundo, a colecistectomia foi eleita neste estudo para que fossem levantadas as necessidades de informações de 20 clientes em pré-operatório, internados na clínica cirúrgica de um hospital público de Goiânia-GO, de junho a setembro de 2008. Os dados referentes às preocupações dos clientes foram analisados e categorizados em seis classes: nutrição pós-cirúrgica e restabelecimento das funções orgânicas; repouso pós-operatório e retorno às atividades diárias; interferência de comorbidades e fatores de risco cirúrgico; formação do cálculo e função da vesícula biliar; cirurgia/anestesia; cuidados pré-operatórios. Cabe à enfermagem e aos demais membros da equipe multiprofissional uma assistência focalizada nas necessidades do cliente, contribuindo para a qualidade e integralidade do atendimento.

Palavras-chave: Cuidados de Enfermagem; Assistência Perioperatória; Colecistectomia

 

INTRODUÇÃO

O cliente com a possibilidade de intervenção cirúrgica é acometido pelos medos da morte, anestesia, alterações na imagem corporal, mudanças no estilo de vida, preocupações em relação a problemas financeiros, responsabilidades familiares e compromissos profissionais, todos comprometidos pela internação. Diante disso, o contato prévio com o cliente cirúrgico representa um momento importante, uma vez que a explicação sobre os procedimentos a que será submetido diminui o medo e a insegurança.1,2

Esse contato pode se dar por meio da visita pré-operatória de enfermagem (VPOE), primeira etapa da sistematização da assistência de enfermagem perioperatória (SAEP), atividade de interação enfermeiro-cliente que possibilita a obtenção de dados para o planejamento da assistência individualizada e integral no período perioperátório (fases pré-operatória transoperatória e pós-operatória).2,3

Por meio de uma entrevista, o enfermeiro detecta, orienta, prepara o cliente psicoemocionalmente e ensina procedimentos preparatórios, a fim de diminuir a possibilidade de complicações e o tempo de recuperação pós-operatória. Tal entrevista deve ser informal, permitir total liberdade de questionamentos, esclarecedora, sem, no entanto, dar explicações desnessárias, a menos que o cliente não possua informações cruciais quanto ao seu restabelecimento, ou o ato anestésico-cirúrgico acarrete transformações no autocuidado, na autoimagem, bem como na sua vida social e sexual.4,5

O enfermeiro é o profissional mais capacitado para a atividade de ensino pré-operatório, dado seu preparo técnico-científico e a assistência contínua aos clientes. O ideal seria iniciar esse ensino no momento da decisão cirúrgica (ambulatório, unidade de saúde, consultório médico) e prosseguir nas consultas até a admissão no centro-cirúrgico (CC).5,6

Durante o período de internação pré-operatória, as informações prestadas são muitas vezes rápidas e pouco esclarecedoras tanto para o cliente como a família, dada a ansiedade de ambas as partes em solucionar rapidamente o problema. Além disso, essa situação é agravada pela falta de preparo das equipes em sanar as dúvidas e questionamentos dos clientes e pela supervalorização dos cuidados físicos, proporcionando uma assistência que não contempla, muitas vezes, as expectativas do "ser humano" assistido.

Na VPOE, o enfermeiro elabora suas ações de forma que o cliente alcance a aprendizagem desejada. Para isso, são necessários subsídios pedagógicos sistematizados que conduzirão à reflexão crítica e ao desenvolvimento da capacidade de tomada de decisões adequadas às necessidades e à avaliação contínua por meio da observação e percepção, quanto ao desempenho e à aquisição do conhecimento por parte do cliente.5

Neste estudo, utilizou-se o Método do Arco, proposto por Marguerez, como subsídio para investigar as necessidades relatadas por clientes em pré-operatório e direcionar a VPOE no real interesse sobre a cirurgia a qual seriam submetidos.

Nessa perspectiva, o objetivo com esta pesquisa foi levantar as necessidades de informação do cliente em pré-operatório.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Estudo descritivo, qualitativo, realizado na clínica cirúrgica de um hospital de ensino de Goiânia-GO, em 2008, com 20 clientes em pré-operatório de colecistectomia. O projeto obteve aprovação em Comitê de Ética (CEPMHA/HC 120/2005).

Os clientes foram entrevistados quanto às dúvidas sobre o ato anestésico cirúrgico segundo a técnica da saturação dos dados (repetição de respostas), enquanto a pesquisadora gravava em mídia digital as respostas, com a anuência prévia. Os critérios de inclusão para a pesquisa foram: ser maior de 18 anos, ter condições físicas e mentais para dar consentimento à pesquisa e responder à entrevista. Todos os clientes foram informados sobre a pesquisa e assinaram previamente o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

A coleta de dados seguiu a ordem: 1) Elaboração de material didático contendo grande variedade de informações necessárias ao pré-operatório de colecistectomia; 2) Primeiro contato com o cliente para percepção dos temores e dúvidas; 3) Levantamento, com os clientes, dos pontos-chave da entrevista; 4) Esclarecimento das dúvidas do cliente por meio da pesquisa no material elaborado.

Tal ordem foi necessária para que a sistematização da coleta de dados ocorresse conforme as fases do Método do Arco5: 1) Observação da realidade: estabelecer comunicação interpessoal com o cliente, descrever sua percepção e sentimentos sobre a doença, listar expectativas, preocupações e necessidades no pré-operatório e discutir o processo vivenciado; 2) Ponto-chave: estabelecer os pontos que o cliente e o enfermeiro observaram como os mais importantes e discutir suas relações e explicações; 3) Teorização: fornecer subsídios teórico-práticos sobre o preparo cirúrgico, relacionados às expectativas e tensões dos clientes; 4) Hipóteses de solução: descrever ações e formas que o cliente considera adequadas para sanar suas necessidades, listar e identificar dificuldades e facilidades no seu desenvolvimento; 5) Aplicação da realidade: concretização de ações viáveis e práticas do cliente para sanar suas necessidades no período perioperatório e o domínio para a tomada de decisões adequadas na fase posterior à sua hospitalização.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A maioria dos entrevistados era do sexo feminino, adulto-idosos, casados e com profissões variadas.

Quanto aos tipos de cirurgias indicadas aos clientes, a videocolecistectomia e a colecistectomia convencional obtiveram 50% cada uma.

Com base nas entrevistas, as dúvidas dos clientes foram classificadas em seis categorias de necessidades: 1) cirurgia/anestesia; 2) repouso pós-operatório e retorno às atividades diárias; 3) nutrição pós-cirúrgica e restabelecimento das funções orgânicas; 4) formação do cálculo e função da vesícula biliar; 5) interferência de comorbidades e fatores de risco cirúrgico; e 6) cuidados pré-operatórios.

A categoria "cirurgia/anestesia" foi a que apresentou maior frequência de questionamentos (26,8%). Interferência de comorbidades e fatores de risco cirúrgico e cuidados pré-operatórios apresentaram menor frequência de questionamentos (4,9% cada). Todos os questionamentos demonstraram a preocupação dos clientes quanto ao procedimento a que seriam submetidos e suas consequências na vida pessoal e profissional.

A seguir, as categorias serão apresentadas com trechos de falas dos entrevistados para exemplificá-las. Para manter o anonimato, os nomes citados são fictícios.

Cirurgia e anestesia

Com base nos relatos, percebem-se muitas dúvidas com relação à cirurgia, as técnicas cirúrgicas e o procedimento anestésico aos quais os clientes serão submetidos:

Como é a cirurgia? (João)

Como é a cirurgia por vídeo? (Ambrosia)

Como é o procedimento? (Carla)

A anestesia é onde? (Bento)

A anestesia é geral ou local? (Ambrosia)

Para recuperar da anestesia é quanto tempo? (João)

A colecistectomia consiste num dos procedimentos cirúrgicos mais realizados no mundo. No Brasil, segundo dados do Sistema Único de Saúde (SUS), em 2008, 17.102 procedimentos foram realizados.7,8

A cirurgia consiste na remoção da vesícula biliar e dos cálculos e tem por finalidade aliviar os sintomas ocasionados pelos cálculos e possibilitar uma dieta normal. Logo, é indicada para o tratamento de doenças como colecistite aguda ou crônica, colelitíase, coledocolitíase, neoplasias ou malformação de vesícula biliar. Observa-se baixo índice de mortalidade (0,1%), exceto em situações específicas: indivíduos idosos, cirróticos, em período de inflamação da litíase biliar ou nas cirurgias emergenciais.6,7

Duas técnicas operatórias são utilizadas: colecistectomia aberta e videolaparoscópica ou laparoscopia. Na colecistectomia aberta, a vesícula biliar é removida mediante a incisão abdominal oblíqua subcostal direita.9 Já na colecistectomia videolaparoscópica ocorre uma pequena punção, feita na parede abdominal (cicatriz umbelical), onde é insuflado cerca de 1 litro/minuto de dióxido de carbono (CO2) (pneumoperitônio) até atingir a pressão de (-2) a (+2) mmHg, transformando-a de cavidade abdominal virtual para real, possibilitando a visualização e manipulação dos órgãos durante o ato cirúrgico.6,9,10

Comparando-se ambas, a técnica videolaparoscópica supera a aberta, pois é minimamente invasiva, proporciona menor tempo de hospitalização, recuperação e retorno precoce às atividades do dia a dia, menos dor pós-operatória e morbimortalidade, além de melhor resultado estético. Além disso, o menor tempo de exposição do cliente reduz complicações relacionadas à cicatrização da ferida cirúrgica - por exemplo, a infecção.9

Em geral, para ambas as técnicas é empregada a anestesia geral,3,6,10 na qual o cliente retoma a consciência em duas horas aproximadamente. Até esse retorno, é ideal que permaneça na sala de recuperação pós-anestésica (SRPA), embora na maioria dos hospitais ele seja encaminhado diretamente para o leito de origem, na unidade de internação cirúrgica, sendo necessária a observação contínua por esse período.

Por ser um momento complexo na vida do cliente, reforça-se a importância da realização de orientações pelo enfermeiro no período pré-operatório, com esclarecimentos sobre os problemas de saúde, os procedimentos aos quais será submetido, suas consequências, pois o conhecimento adquirido permite a redução do estresse, do medo e da ansiedade.

Repouso pós-operatório e retorno às atividades diárias

A gente pode andar com quantos dias de cirurgia? (Augusta)

Como é o repouso? O que posso fazer? (Juliana)

Posso utilizar a máquina de costura a motor? (Zoraide)

Quando poderei voltar às minhas atividades diárias (ir à faculdade)? (Beth)

Quando posso trabalhar? (Idelma)

Quanto tempo vai demorar para eu voltar a arrumar a casa? (Marta)

Como em qualquer cirurgia, o cliente submetido a colecistectomia necessita de um tempo de repouso no pós-operatório para se recuperar do trauma cirúrgico e retomar suas atividades habituais. Esse período varia de 48 horas a 6 semanas, dependendo da recuperação individual do cliente e da técnica cirúrgica utilizada.6

Quando o procedimento é o convencional, têm sido recomendados de 10 a 15 dias para o reinício das atividades. Já na colecistectomia videolaparoscópica, o retorno precoce das atividades diárias é possibilitado, geralmente, entre um a cinco dias e o retorno ao trabalho em uma semana.6,11 Atividades como dirigir automóvel devem ser reiniciadas após três ou quatro dias e carregar objetos com mais de 2,5 kg deve ser evitado depois da cirurgia, geralmente por uma semana.6

Cabe ao enfermeiro orientar o cliente em pré-operatório a desenvolver atividades leves de forma gradativa, como a deambulação no primeiro dia de pós-operatório, até que todas suas atividades diárias sejam retomadas por completo. Salientar que, mesmo na ausência de dor/mal-estar, atividades pesadas devem ser evitadas, pois podem desencadear complicações, como abertura da sutura e formação de hematoma por baixo da incisão com consequente possibilidade de infecção da ferida operatória.

A orientação sobre o repouso e o retorno das atividades deve ser transmitida verbalmente, durante o pré-operatório, no momento da alta hospitalar e/ou repeti-las quando o cliente solicitar. O cliente esclarecido encara o pós-operatório de forma tranquila e, estimulado, participa com o enfermeiro no planejamento de suas atividades de reabilitação,1,11 dando ao atendimento caráter individualizado e humanizado.

Nutrição pós-operatória/restabelecimento das funções orgânicas

O que a gente come depois da cirurgia? (Augusta)

Como é a alimentação? (Bento)

Quando comerei comida normal? (Beth)

A comida tem que ser como? (Bruna)

O cliente submetido a colecistectomia deve ser orientado durante a VPOE sobre as alterações temporárias no organismo após a cirurgia e sobre os hábitos alimentares pós-operatórios. O enfermeiro deve orientá-lo quanto à pobre ingestão de lipídios e rica ingestão de carboidratos e proteínas,1 distribuídas em cinco ou seis refeições diárias. O preparo dos alimentos deve ser preferencialmente grelhado ou cozido, evitando assá-los ou fritá-los, o que é contraindicado.12

O baixo teor de lipídios na dieta é atribuído à baixa disponibilidade da bile em auxiliar na digestão e absorção deles, pois, na ausência da vesícula, a bile é secretada diretamente no intestino, impossibilitando a realização de suas funções.13

A restrição de gorduras na dieta dependerá da tolerância do cliente quanto à sua ingestão. Geralmente, a suspensão da dieta especial inicia-se de quatro a seis semanas, gradualmente, quando os dutos biliares dilatam, formando uma "bolsa simulada" que armazena a bile igualmente a vesícula biliar. Com o restabelecimento do organismo, ao ingerir lipídios, a bile será secretada para o trato digestivo, emulsificando as gorduras e possibilitando sua digestão.6,13

A explicação sobre o restabelecimento integral da função do organismo após a cirurgia e a maneira como a dieta é reinserida na vida do cliente são imprescindíveis, uma vez que o objetivo do cuidado de enfermagem é evitar desconfortos e complicações no pós-operatório.

Formação do cálculo e função da vesícula biliar

A semente de fruta pode virar pedra? (Juliana)

O que forma a pedra? (Maria)

A vesícula faz falta? (João)

Qual é a função da vesícula? (Bento)

A vesícula biliar é um órgão em formato de pera, oco e sacular, localizado na superfície inferior do fígado. Sua função é armazenar e concentrar a bile (constituída por bicarbonato, bilirrubina, colesterol, lecitina, eletrólitos e água).6

Em condições anormais, a bile torna-se hipersaturada de colesterol ou cálcio, ocasionando sua precipitação, formando cristais sólidos que se agregam e formam os cálculos de colesterol ou de pigmentos de bilirrubina.6,9

Os cálculos de colesterol são os mais frequentes (80%) e originam-se exclusivamente na vesícula biliar. Contêm teores de colesterol que variam de 50% a 100%. De acordo com as proporções de carbonato de cálcio, bilirrubina e fosfatos exibem colorações do amarelo ao preto. Frequentemente são encontrados múltiplos cálculos na vesícula biliar.6,9

Os cálculos pigmentares correspondem a 20% do total e são classificados em negros e castanhos. Os negros, geralmente, estão associados a distúrbios do metabolismo da hemoglobina e estão presentes em grande número na vesícula, fragmentando-se ao toque. Já os cálculos castanhos estão associados à bile cronicamente infectada, sendo laminados e moles, com consistência viscosa.6,9

Os fatores de risco para o desenvolvimento da litíase biliar são: obesidade, tratamento com estrogênio, ressecção ou doença ileal, fibrose cística, diabetes mellitus e multiparidade. A prevalência dos cálculos aumenta, ainda, com a idade em ambos os sexos, predominando o feminino, como pode ser observado neste estudo.6

Durante a VPOE, é muito importante que o enfermeiro esclareça as dúvidas do cliente quanto à formação do cálculo e à função da vesícula, para que ele compreenda que, apesar da importância dela, o organismo se adapta à sua falta, retomando o funcionamento normal.

Interferência de comorbidades e fatores de risco cirúrgico

A pressão alta e a diabetes vai atrapalhar na cirurgia? (Amélia)

Se aumentar a pressão eu faço cirurgia? (João)

Risco cirúrgico é toda possibilidade de perigo ou dano que ocorre com um cliente, candidato à cirurgia em decorrência de diferentes fatores que possam afetá-lo no pré-operatório, no transoperatório e/ou no pós-operatório. Para a detecção precoce de problemas, a equipe deve realizar anamnese, exame físico, laboratoriais, de imagem e outros. Com base na avaliação dos fatores, tentativas para estabilizá-los devem ser realizadas.3,6 As principais comorbidades e fatores de risco cirúrgico detectados nos sujeitos do estudo foram: tabagismo, obesidade, hipertensão arterial sistêmica e diabetes mellitus.

O tabagismo é um fator de risco cirúrgico importante, pois proporciona complicações pós-operatórias, como o risco de atelectasias, infecções pulmonares, derrame pleural, enfarte pulmonar e bronquites. Ainda influencia sobre a recuperação de clientes submetidos a determinados tipos de drogas anestésicas.6,14

Ao deparar com a necessidade de uma intervenção cirúrgica, o cliente tabagista deve ser instruído pelo enfermeiro, no pré-operatório, sobre a necessidade de interromper o hábito de 2 meses a 24 horas (quando não há possibilidade) antes do ato anetésico-cirúrgico, pois tal medida já contribui para a redução do potencial de efeitos adversos associados ao fumo.6

A obesidade é um fator que aumenta o risco e a gravidade das complicações associadas à cirurgia, sendo as mais frequentes as pulmonares e as incisionais. Os obesos têm produção aumentada de dióxido de carbono e fraqueza dos músculos respiratórios, o que aumenta o risco de hipoventilação e complicações pulmonares pós-operatórias, tais como atelectasias, pneumonias, tromboses e embolia pulmonar. Além disso, durante a cirurgia, os problemas técnicos e mecânicos aumentam, por isso o surgimento de deiscências, hérnias incisionais e infecções na ferida operatória podem ocorrer.6,14

No cliente cirúrgico, a hipertensão arterial é um dos agravos mais frequentes. Por isso, é necessária a elaboração de um plano de cuidados que contemple a adoção de estilo de vida saudável: controle do peso, redução do consumo de sal e padrão alimentar, realização de exercícios físicos, moderação/abandono do alcoolismo e tabagismo e uso contínuo de medicamentos, a fim de controlar a pressão arterial e reduzir o risco cardiovascular. Esse plano deve ser implementado no pré-operatório, evitando riscos de complicações cardiovasculares que incidem no intraoperatório, durante a indução anestésica e mais frequentemente nas primeiras 24 horas após o ato anestésico-cirúrgico.15

No período pré-operatório imediato, a equipe multiprofissional deve atentar-se para o preparo físico e emocional do cliente, observando a ingestão dos anti-hipertensivos e possíveis sinais e sintomas de alterações físicas, informando e avaliando junto com a equipe a necessidade ou não de adiamento da cirurgia apor causa da hipertensão.3,15

Com relação aos clientes portadores de diabetes mellitus, estes apresentam maior risco cirúrgico dada a facilidade de descompensação metabólica e de complicações relativas à doença: infecção pós-operatória, dificuldade de cicatrização de ferida cirúrgica, dentre outras, pois aumentam a morbimortalidade. A avaliação pré-operatória e a elaboração de um plano de cuidados pela equipe multiprofissional, focado no controle do metabolismo da glicose e da acidose metabólica, mediante a utilização de medicamentos prescritos, dieta pobre em ingestão de açúcar, gordura, sal e álcool e realização de exercícios físicos,6 devem ser feitos, para evitar intercorrências no período de internação.

A monitorização dos níveis glicêmicos é essencial durante todos os períodos pré-operatório e pós-operatório, pois o objetivo da equipe multiprofissional é manter a glicemia do cliente em valores menores que 200 mg/dl. Já durante o intraoperatório, o controle da glicemia é realizado em cirurgias de longa duração, com intervalos a cada uma hora.6

Cuidados pré-operatórios

Percebe-se que alguns clientes apresentaram dúvidas quanto a estes cuidados:

Estou há dois dias sem fazer cocô, tem problema? (Marta)

Eu posso fazer uma trança para ir para a cirurgia ou posso ir de cabelo amarrado? (Jurema)

Amanhã pela manhã eu posso tomar o remédio da pressão? (Jurema)

No pré-operatório, a assistência de enfermagem é dividida em pré-operatório mediato e imediato. O pré-operatório mediato compreende as 24 horas antes do ato anestésico cirúrgico e consiste na avaliação clínica (anamnese e exame físico), nutricional, laboratorial, exames de imagem, preparo físico e emocional e orientações de enfermagem.3,6,16

Essas orientações objetivam a prevenção de complicações pós-operatórias e incluem3,6: exercícios respiratórios de tosse e respiração profunda - ensina-se o cliente a respirar profundamente e expirar pela boca, a fazer respiração curta e a tossir. Ao tossir, ele deve ser instruído a imobilizar a incisão abdominal, entrelaçando as mão sou usando um travesseiro, pois diminui a pressão e controla a dor; exercícios dos membros inferiores previnem a trombose venosa profunda, com movimentos de flexão e extensão das pernas no leito e movimentos circulares com cada pé (cinco séries por membro); movimentação precoce e progressiva: sentar-se no leito, levantandose e permanecendo nessa posição por 10 minutos. Posteriormente, auxiliá-lo na deambulação, até que consiga realizá-la de maneira independente; uso de meia compressiva até a alta hospitalar.

Já o pré-operatório imediato é aquele compreendido da véspera da cirurgia até a chegada do cliente no CC. Nesse momento, é competência do enfermeiro planejar, implementar e avaliar o preparo físico e orientar o cliente encaminhado ao CC a retirar-lhe as roupas, colocar a camisola hospitalar (aberta atrás e amarrada) e trançar os cabelos, caso sejam longos, remover os grampos e colocar um gorro do hospital.3,16

O jejum é exigência em grande parte das cirurgias, pois previne vômitos e aspiração do conteúdo gástrico para as vias respiratórias, variando de oito a dez horas. O esvaziamento da bexiga previne a distensão vesical. No caso de cirurgias abdominais longas, é realizada a sondagem vesical, que monitoriza o fluxo urinário e previne o trauma da bexiga. Já o esvaziamento intestinal tem por finalidade prevenir traumatismo nas alças intestinais durante a cirurgia abdominal. Para tal, podem ser usaos laxativos ou clister.3,6,16

A higiene corporal, capilar e oral (além da remoção de próteses) e a tricotomia ocasionam a diminuição da quantidade de microrganismos na superfície da pele, reduzindo o risco de infecção da ferida cirúrgica. A última será realizada somente se os pelos que estão sobre o local da incisão cirúrgica ou ao redor dele interferirem no procedimento cirúrgico. Na sua real necessidade, será realizada até duas horas antes da cirurgia e preferencialmente com aparelhos elétricos.3,10,17

A remoção de adornos está relacionada com o controle da infecção, para evitar perda e queimadura relacionada ao uso de bisturi elétrico aterrado e garroteamento do dedo por edema quando utilizados anéis. Já o esmalte e maquiagem devem ser removidos porque impedem a observação dos sinais de distúrbios na perfusão tissular.3,10,16

O acompanhamento dos sinais vitais no pré-operatório permite a detecção imediata das condições clínicas, a identificação de problemas e a avaliação do cliente diante das prescrições médicas e de enfermagem. No caso de ansiedade, o uso da medicação pré-anestésica pode ser necessário. Por isso, sua prescrição é discutida com o anestesista e geralmente é administrada 30 a 90 minutos antes do início da cirurgia.3,16

Como membro da equipe multiprofissional, o enfermeiro deve auxiliar o cliente a compreender a natureza de seu problema de saúde, estimulando-o a participar ativamente dos cuidados pré-operatórios, supervisionar sua prática, proporcionando-lhe melhores condições físicas e emocionais, minimizar a ansiedade, garantindo a integralidade e a individualidade desse cuidado.3,16

 

CONCLUSÃO

Neste estudo, foram verificadas as necessidades de informação de clientes em pré-operatório de colecistectomia, com vista a atendê-las, mediante a elaboração de protocolo para VPOE. Os sujeitos apresentaram dúvidas sobre o procedimento cirúrgico, anestésico e possíveis repercussões na vida pessoal e profissional.

O conhecimento das necessidades do cliente é fundamental para que o plano de cuidados de enfermagem seja elaborado e implementado individualmente, possibilitando uma assistência perioperatória integral.

A elaboração de estudos com foco nas necessidades do cliente em outras especialidades cirúrgicas é imprescindível, pois o conhecimento da realidade do usuário garante a integralidade e a humanização da assistência de enfermagem.

 

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