REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume Atual: 23:e-1165 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20190013

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Pesquisa

Prazer e sofrimento no trabalho de enfermagem em unidade de terapia intensiva pediátrica

Pleasure and suffering in the nursing work in a pediatric intensive therapy unit

Luisa Schirmann Vasconcelos1; Silviamar Camponogara2; Gisele Loise Dias2; Mônica Strapazzon Bonfada2; Carmem Lúcia Colomé Beck2; Isis de Lima Rodrigues1

1. Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, Centro de Ciências da Saúde-CCS, Departamento de Enfermagem. Santa Maria, RS - Brasil
2. UFSM, CCS, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Santa Maria, RS - Brasil

Endereço para correspondência

Gisele Loise Dias
E-mail: gidias18@gmail.com

Submetido em: 18/09/2018
Aprovado em: 12/12/2018

Contribuições dos autores: Coleta de Dados: Luisa S. Vasconcelos; Conceitualização: Luisa S. Vasconcelos, Gisele L. Dias, Mônica S. Bonfada; Gerenciamento de Recursos: Silviamar Camponogara; Gerenciamento do Projeto: Silviamar Camponogara, Carmem L.C. Beck; Investigação: Luisa S. Vasconcelos; Metodologia: Gisele L. Dias, Mônica S. Bonfada, Isis L. Rodrigues; Redação - Preparação do original: Gisele L. Dias, Mônica S. Bonfada; Redação - Revisão e Edição: Silviamar Camponogar, Gisele L. Dias, Mônica S. Bonfada, Carmem L.C. Beck; Supervisão: Silviamar Camponogara, Carmem L.C. Beck;Validação: Gisele L. Dias, Mônica S. Bonfada, Isis L. Rodrigues; Visualização: Silviamar Camponogara, Gisele L. Dias, Mônica S. Bonfada, Isis L. Rodrigues.

Fomento: Não houve financiamento.

Resumo

OBJETIVO: conhecer as situações geradoras de prazer e sofrimento no cotidiano laboral de trabalhadores de Enfermagem em uma unidade de terapia intensiva pediátrica.
MATERIAIS E MÉTODOS: estudo descritivo com abordagem qualitativa. Os dados foram coletados por meio de entrevista semiestruturada, com 15 trabalhadores de Enfermagem atuantes em unidade de terapia intensiva pediátrica entre setembro e outubro de 2016. Os dados foram analisados com base em análise de conteúdo temática, sob a ótica do referencial da psicodinâmica do trabalho.
RESULTADOS: os participantes mencionaram que o trabalho no setor investigado é permeado tanto por situações geradoras de prazer como de sofrimento. A satisfação em desenvolver o cuidado, especialmente quando há êxito na recuperação da criança, torna o trabalho gratificante e prazeroso. No entanto, o trabalho também traz sofrimento associado à falta de recursos materiais e à vivência do óbito da criança, o qual é intensificado quando acompanham os familiares nesse processo, gerando sentimento de impotência e frustração.
CONCLUSÃO: o trabalho em unidade de terapia intensiva pediátrica pode gerar prazer, quando o trabalhador se sente gratificado, e também sofrimento associado a sentimentos de impotência e frustração, ao vivenciarem o óbito da criança.

Palavras-chave: Dor; Enfermagem Pediátrica; Unidades de Terapia Intensiva Pediátrica; Satisfação no Emprego.

 

INTRODUÇÃO

O trabalho é reconhecido como uma atividade antiga e central na história da humanidade, tornando-se fundamental para a construção do sujeito, pois ocupa parte considerável da vida dos indivíduos.1,2 Na contemporaneidade, para o desenvolvimento do trabalho, o trabalhador necessita de alta qualificação e da capacidade de desenvolver atividades múltiplas, além do confronto com diferentes situações que geram sentimentos variados. Nesse contexto, o trabalho pode gerar sentimentos de prazer relacionados, por exemplo, à satisfação financeira e à busca pela sua realização pessoal, como pode trazer situações de sofrimento.3

Entre os diversos ambientes de trabalho, destaca-se o hospitalar, no qual os trabalhadores atuam em prol da prestação de cuidados a pacientes com diferentes necessidades de atenção à saúde. Nesse cenário, as unidades de terapia intensiva (UTI) são ambientes de cuidado diferenciado, pela concentração de tecnologia e rotina minuciosa de assistência ao paciente, diante das condições de urgência e da necessidade de manutenção da vida.4

A prática de Enfermagem em UTI abarca o cuidado a pacientes graves, com alto grau de dependência do profissional de Enfermagem. Trata-se de um segmento especializado da assistência de Enfermagem, em virtude das peculiaridades da estrutura física do setor e da dinâmica do processo de cuidar, altamente instrumentalizado, racionalizado e tecnológico.5 Colaboram para esse cenário, o trabalho intenso, as situações imprevistas e conflitantes, necessidade de agilidade na tomada de decisão e um cuidado livre de danos.5

Entre os setores de terapia intensiva, destaca-se a Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIPed). Trata-te de uma unidade de internação destinada à assistência a pacientes graves, com idade de 29 dias a 14 ou 18 anos, sendo este limite definido de acordo com as rotinas da instituição.6

Nestes setores, o trabalho desenvolvido pela equipe de Enfermagem pode trazer importantes repercussões para os profissionais, dadas as peculiaridades do setor. Além disso, tem como foco central o cuidado ao ser humano e à sua família7, exigindo habilidades especiais dos trabalhadores e colocando-os constantemente em contato com situações de sofrimento e morte, o que pode lhes remeter às suas próprias angústias, gerando desgaste físico, psíquico e social.

Considerando-se que o trabalho pode ser gerador de prazer e de sofrimento, entende-se que trabalhadores de Enfermagem atuantes em UTIPed também podem estar expostos a esses sentimentos.3 Nas situações geradoras de prazer os profissionais deparam-se com o reconhecimento profissional na recuperação de uma criança e no contentamento em poder ajudá-la. Em contrapartida, podem ter sofrimento pelo desgaste mental e físico que esse trabalho inclui, pelo contato com a dor, com sentimentos de tristeza, angústia, especialmente perante as situações de terminalidade.8,9

A partir dessa problemática delineou-se a seguinte questão de pesquisa: quais as situações geradoras de prazer e sofrimento no cotidiano laboral de trabalhadores de Enfermagem em uma unidade de terapia intensiva pediátrica? Busca-se conhecer as situações geradoras de prazer e sofrimento no cotidiano laboral de trabalhadores de Enfermagem em uma unidade de terapia intensiva pediátrica.

 

METODOLOGIA

Trata-se de estudo descritivo com abordagem qualitativa, realizado em uma unidade de terapia intensiva pediátrica de um hospital de ensino localizado na região Sul do Brasil. A unidade estudada possui sete leitos, sendo dois deles de isolamento, e conta com uma equipe de 28 trabalhadores de Enfermagem. Participaram deste estudo enfermeiros, técnicos de Enfermagem e auxiliares de Enfermagem atuantes na unidade de terapia intensiva pediátrica.

Os participantes foram selecionados por meio da técnica de sorteio aleatório, obedecendo-se proporcionalidade entre enfermeiros, técnicos e auxiliares de Enfermagem e entre seus turnos de trabalho. Para o encerramento da coleta de dados foi adotado o critério de saturação teórica dos dados.10 Foram entrevistados 15 trabalhadores de Enfermagem, sendo nove enfermeiros, cinco técnicos de Enfermagem e um auxiliar de Enfermagem. Os critérios de inclusão considerados para este estudo foram os seguintes: profissionais da equipe de Enfermagem que trabalhavam na unidade há mais de um ano. Foram excluídos os profissionais em afastamento da unidade no período de coleta de dados ou em período de férias.

A coleta de dados foi realizada durante os meses de setembro e outubro de 2016, por meio de entrevista semiestruturada, após agendamento prévio com os participantes e leitura e assinatura no Termo de Consentimento Livre e esclarecido (TCLE). A entrevista foi realizada em local que garantiu a privacidade dos participantes, baseada em um roteiro que versava sobre o trabalho de Enfermagem em uma UTIPed, os cuidados de Enfermagem prestados à criança, situações geradoras de prazer e sofrimento, especialmente diante do processo de morte em UTIPed. As entrevistas foram audiogravadas e transcritas na íntegra.

A análise dos dados foi realizada por meio da análise de conteúdo temática, sob a ótica da psicodinâmica do trabalho. Esta análise foi realizada em três etapas, a saber: pré-análise, exploração do material e, por fim, tratamento dos resultados obtidos e interpretação, quando são interpretados os resultados.3,11

Os preceitos da Resolução nº 466 de dezembro de 201212 foram respeitados e a pesquisa aprovada por Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), sob o número 1.635.216. Os participantes foram identificados por números cardinais sequenciais conforme a ordem de realização da entrevista e códigos relativos à categoria profissional de cada participante (E1, E2, T1, T2, A1, A2).

 

RESULTADOS

A partir da análise dos dados, depreendeu-se que o trabalho em UTIPed se revela para os trabalhadores ora como gerador de prazer, ora de sofrimento, o que se configurou como tema central. Historicamente, sabe-se que o processo de internação em UTIs, no passado, estava atrelado ao significado de risco iminente de morte. Contudo, na atualidade, tem havido transformação desse significado, haja vista que muitos pacientes, com alto índice de gravidade, recuperam-se, gerando sentimentos de satisfação na equipe.

O trabalho realizado pela equipe de Enfermagem em uma unidade de terapia intensiva é de alta complexidade, pois as demandas de cuidado são diferentes nos demais setores. Quando se faz referência à unidade de UTIPed, a complexidade pode ser considerada maior, uma vez que, nesse local, estão internadas crianças em estado grave.

Ao relatarem sobre seu trabalho nesse local, os trabalhadores referem sentir prazer, sendo essa a principal motivação para seguirem em atividade no setor, conforme se observa nos depoimentos a seguir.

[...] eu sempre encarei como a possibilidade de tu se doar naquele momento, de tu estar ali, do lado da mãe, oferecer aquela força, ou pelo menos que ela não se sinta só naquele momento [...] (E4).

[...] também tem os momentos de satisfação, de ver que a criança sair [dar alta], que saiu bem, principalmente tu ver anos depois que melhorou [...] (E7).

[...] é aquela coisa do prazer e sofrimento dentro de um trabalho onde deveria causar mais sofrimento do que prazer. Mas, se a gente não tiver prazer nenhum aqui dentro, a gente não ia nem conseguir trabalhar [...] eu acho que é isso que faz a gente continuar trabalhando aqui dentro. Então, de certa forma, isso tem que ser maior do que o ruim. Então, eu acho que no fim da história são implicações boas, são coisas boas que trazem, porque se a gente tivesse só sofrimento aqui dentro não dava para trabalhar [...] (E8).

O prazer no trabalho ocorre quando é permitido, ao trabalhador, desenvolver suas potencialidades, o que lhe confere liberdade de criação e de expressão. Assim, ao mencionarem sobre o trabalho de Enfermagem, os participantes também fazem alusão, principalmente, ao gosto pelo trabalho, entendendo-se, assim, que estar inserido em um local em que gostam de desenvolver seu trabalho também gera prazer.

[...] eu me sinto muito bem trabalhando, bem à vontade, é bem prazeroso, sem contar que é um serviço que é prazeroso. Eu amo o que eu faço, então, a questão de trabalhar na Enfermagem e trabalhar com criança [...] (E9).

[...] é bem bom assim de trabalhar, se é o que tu gosta, a gente teve gente que entrou e saiu em seguida. Mas eu acho que é questão de perfil, eu acho que tem, que a gente já escolhe na graduação se tu tem perfil para uma coisa ou outra. [...] (E7).

O trabalho de Enfermagem em UTIPed também gera implicações positivas na vida pessoal e profissional dos trabalhadores, conforme descrito a seguir:

[...] Dar mais valor à vida mesmo, mostrar, às vezes, que uma criança que esta lá fora, uma criança ou um adulto, que esteja passando por qualquer situação, pode dar a volta por cima, não é nada como estar aqui [refere-se à UTI pediátrica] [...] (T2).

[...] Para a vida, tu se torna uma pessoa mais compreensiva, pensa um pouco mais antes de ter algumas atitudes, em casa, com o filho [...]. Com a medida do tempo, hoje eu sinto que eu pondero mais, sabe, vejo o que vale a pena e o que não vale [...] (T4).

Por outro lado, situações que levam ao sofrimento também foram mencionadas pelos participantes.

[...] Ah eu acho que o óbito é a principal do sofrimento, a falta de recursos, por exemplo, tu saber que tu precisa verificar uma PA [pressão arterial], que tu gostaria que fosse instalado uma PAM [pressão arterial média] ou uma PVC [pressão venosa central] que não fosse em centímetros de água, fossem coisas mais modernas. Então, me dá um pouco de sofrimento a falta de equipamentos assim [...] (E2).

[...] eu acho que é muito difícil para a gente, ainda mais quando é uma criança que fica muito tempo internada aqui, que daí tu já cria mais vínculo, mais interação, acho que já é mais complicado [...] (E3).

Sob a ótica dos trabalhadores, essas situações citadas, como a ausência de recursos tecnológicos e o tempo de internação, juntamente com o momento do óbito da criança, são geradoras de sofrimento no trabalho. Além disso, em seus depoimentos, enfatizam alguns aspectos associados à vivência da morte da criança, tais como o acompanhamento da família da criança que está em processo de morte e o prolongamento dessa etapa, especialmente associado ao uso de recursos terapêuticos.

A terminalidade também foi mencionada como um indicativo de impotência da equipe, quando nenhum recurso pode ser empregado para salvar a vida da criança. Os depoimentos a seguir exemplificam essas percepções:

[...] quando a gente vê que os pais estão caídos em cima da criança, que a gente vê que a frequência cardíaca está caindo, que eles pegam no colo, isso daí me choca muito. A criança sem vida e os pais pegarem no colo e ficarem embalando a criança, nanando a criança já sem vida. Então, isso ai me abala bastante[...] (E1).

[...] criança entra em várias paradas cardíacas, é reanimada, entra em hipóxia, crise convulsiva, enfim, isso se vai por várias semanas, fica edemaciada, vai para hemodiálise, faz de tudo, e no final desenvolve para um óbito, esse processo é doloroso [...], e eu fiquei assim muito triste, de ter que ver o paciente passar por isso. Por isso que tem que é o paciente morrer com dignidade [...] (E9).

[...] sofrimento tem quando tem uma criança em estado grave assim, eu sofro também pela criança, porque tu fica com pena do que está acontecendo. Quando também é uma situação que tu vê que provavelmente a criança vai morrer, não tem muito o que tu possa fazer [...] (E3).

A partir desses depoimentos, depreende-se que o evento do óbito dos pacientes para esses profissionais gera sofrimento no cotidiano laboral, trazendo à tona uma série de sentimentos, os quais podem trazem implicações para o seu trabalho. Além disso, a vivência dessas situações geradoras de sofrimento pode resultar em prejuízos à saúde desse trabalhador.

 

DISCUSSÃO

Na perspectiva deste estudo, pode-se perceber que os trabalhadores de Enfermagem vivenciam situações geradoras de prazer e o sofrimento no seu cotidiano laboral. Nesse sentido, o trabalho desenvolvido pela equipe de Enfermagem passa a ser entendido como uma forma de relação social e exige a construção de acordos normativos entre os trabalhadores sobre sua atividade de trabalho.13

A compreensão da influência da organização do trabalho na qualidade de vida dos trabalhadores é de suma importância para o entendimento do trabalho como um processo dinâmico e que envolve a subjetividade dos indivíduos.3 Dessa forma, é fundamental entender as inter-relações do ambiente de trabalho, considerando que, além do desgaste físico, há os impactos na saúde mental do trabalhador.14 Assim, a psicodinâmica do trabalho comporta o estudo das repercussões do trabalho nos indivíduos, podendo este ser desencadeador de situações que geram prazer e sofrimento nos trabalhadores.3

Nesta pesquisa, o prazer pelo trabalho foi mencionado a partir da possibilidade de desenvolvê-lo, exercendo-o de forma satisfatória. Além disso, foram destacados o envolvimento com a família e o paciente, assim como a possibilidade de obter bons resultados a partir do cuidado realizado, o que torna o trabalho gratificante. Assim, as experiências vivenciadas pelos trabalhadores produzem repercussões positivas tanto na vida profissional, preparando-os para lidar tanto como em situações rotineiras do trabalho, como na vida pessoal, possibilitando a reflexão sobre o cotidiano ao seu redor.

A literatura destaca que no ambiente de trabalho os sentimentos de prazer dos trabalhadores de Enfermagem surgem no momento em que as suas atividades são reconhecidas pelos pacientes e familiares e quando se tem solidariedade entre a equipe. O reconhecimento torna-se, então, um estímulo para os trabalhadores na busca da prestação do cuidado com qualidade.1,5 Além disso, os sentimentos de prazer são vivenciados, quando há um relacionamento interpessoal, no qual a equipe desenvolve um trabalho coletivo, pautado na ajuda, no dialogo e na união, ou seja, quando existe a solidariedade e a cooperação entre a equipe. Diante dessa solidariedade, os profissionais sentem-se mais confiantes para desempenhar suas funções de cuidado prestado a cada paciente.5

Já as situações que ocasionam sofrimento aos trabalhadores acontecem quando há falha na intermediação entre as expectativas do trabalhador e a realidade imposta pela organização e gerência do trabalho.3 Entre outros, neste estudo, a frustração e o sentimento de impotência perante o óbito do paciente predominaram, nos depoimentos, como uma situação geradora de sofrimento. Esse contexto de sofrimento também foi relatado em estudo desenvolvido em uma unidade de pronto-socorro onde os profissionais realçaram esse sentimento ao lidar diariamente com a dor do paciente e a convivência com a morte ou, ainda, o mau prognóstico de pacientes jovens.1

Esses sentimentos podem ser vistos como sinônimo de limitação profissional no ambiente de trabalho. Os profissionais sentem-se frustrados e, além de lidarem com a experiência de perda da família, lidam também com a falta de diálogo entre o inesperado e o trágico, tanto para a família quanto para si próprios.15

Nesse entendimento, destaca-se que a reflexão sobre o trabalho pode propiciar, aos trabalhadores, um momento de análise sobre sua realidade. Nesses momentos, esses trabalhadores podem mobilizar mudanças capazes de tornar a realização desse trabalho menos árdua e mais prazerosa.3

Diante do exposto, entendendo que o trabalho permite que ocorra o conflito entre o mundo externo e interno de cada trabalhador, a subjetividade transforma-se em campo para esse confronto.3 Dessa forma, de um lado está o que é interno e subjetivo e de outro o que é externo e faz parte das organizações, gerando sofrimento psíquico aos trabalhadores.3 Nesse sentido, a iminência ou a ocorrência da morte gera muitos sentimentos desconfortáveis para os profissionais, como: dor, tristeza, impotência e comoção. Esses sentimentos são mais fortes e dolorosos quando o paciente é uma criança ou quando o convívio encontra-se mais próximo dos trabalhadores.16

Os trabalhadores manifestaram que o acompanhamento dos familiares da criança que vivencia o processo de morte também é gerador de sofrimento. A dificuldade no cuidar vai além da criança, intensificando-se frente à família, que vive seu período de luto, justificado pelo fato de a criança, geralmente, não estar consciente do que está acontecendo e, nesse momento, a família necessitar de mais apoio para compreender e vivenciar melhor o luto.4

Entende-se que a busca pela superação das situações geradoras de prazer e sofrimento faz com esses profissionais valorizem suas relações pessoais, tornando-os capazes de valorizar ainda mais as suas vidas.17 Por fim, percebe-se que o prazer no trabalho e a realização e valorização profissional, juntamente com a construção da identidade dos trabalhadores, se sobrepõem às situações geradoras de sofrimento. Esse fato torna complexos todos os aspectos relacionados às situações do trabalho.3

Este estudo apresentou como principal limitação a exclusividade do cenário de pesquisa e, ainda, o número de participantes. Destaca-se a necessidade de realizar novos estudos, com diferentes abordagens sobre essa temática.

CONCLUSÕES

Esta investigação possibilitou conhecer as percepções de trabalhadores de Enfermagem sobre as situações geradoras de prazer e sofrimento no cotidiano laboral. Destaca-se que as situações geradoras de prazer perpassam a satisfação com o trabalho que esses profissionais realizam. O prazer gerado pelo trabalho motiva esses profissionais a retornarem ao ambiente de trabalho e faz com que eles se mantenham motivados para desempenhar suas atividades.

Já as situações geradoras de sofrimento nesse ambiente intensificam-se perante algumas situações, como a falta de recursos materiais e tecnológicos, o sofrimento do familiar e o processo de morte da criança. Frente a essas situações, os profissionais sentem-se frustrados e impotentes ao cotidiano laboral.

Mediante o exposto, fazem-se necessários o acompanhamento e o desenvolvimento de espaços de troca e escuta, com o intuito de fortalecer e potencializar as situações geradoras de prazer e, ainda, minimizar o sofrimento e as frustrações advindas do cotidiano laboral.

 

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