REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume Atual: 23:e-1168 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20190016

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Pesquisa

Coordenação do cuidado ao recém-nascido prematuro: desafios para a atenção primária à saúde

Corrdination of care for premature newborns: challenges for primary health care

Lorrainy da Cruz Solano1; Viviane de Sousa Lacerda1; Francisco Arnoldo Nunes de Miranda2; Janeuma Kelli de Araújo Ferreira3; Kalyane Kelly Duarte de Oliveira4; Amélia Resende Leite5

1. Faculdade Nova Esperança de Mossoró, Curso Enfermagem. Mossoró, RN - Brasil
2. Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, Departamento de Enfermagem. Natal, RN - Brasil
3. Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - UERN, Residência Multiprofissional em Atenção Básica/ Saúde da Família e Comunidade. Mossoró, RN - Brasil
4. UERN, Faculdade de Enfermagem. Pau dos Ferros, RN - Brasil
5. Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares - EBSERH. Santa Cruz, RN - Brasil

Endereço para correspondência

Lorrainy da Cruz Solano
E-mail: lorrainycsolano@yahoo.com.br

Submetido em: 01/09/2017
Aprovado em: 13/02/2019

Contribuições dos autores: Coleta de Dados: Lorrainy C. Solano, Viviane S. Lacerda, Janeuma K. A. Ferreira; Conceitualização: Francisco A. N. Miranda; Gerenciamento do Projeto: Lorrainy C. Solano; Investigação: Viviane S. Lacerda; Metodologia: Lorrainy C. Solano, Viviane S. Lacerda, Janeuma K. A. Ferreira, Amélia R. Leite; Redação - Preparação do original: Lorrainy C. Solano, Francisco A. N. Miranda, Kalyane K. D. Oliveira, Amélia R. Leite; Redação - Revisão e Edição: Lorrainy C. Solano, Francisco A. N. Miranda, Kalyane K. D. Oliveira; Supervisão: Francisco A. N. Miranda, Janeuma K. A. Ferreira, Kalyane K. D. Oliveira; Validação: Francisco A. N. Miranda, Janeuma K. A. Ferreira, Kalyane K. D. Oliveira, Amélia R. Leite.

Fomento: Não houve financiamento.

Resumo

OBJETIVO: analisar como é compreendida a coordenação do cuidado ao recém-nascido prematuro na segunda região de saúde do estado do Rio Grande do Norte (RN).
MÉTODO: a abordagem da pesquisa é qualitativa e foi realizada com os coordenadores da atenção primária à saúde dos municípios que compreendem a segunda região do estado do RN. Os dados foram coletados a partir de um evento que ocorreu na 2ª Unidade Regional de Saúde Pública em outubro de 2016. O roteiro foi submetido a pré-teste para validá-lo e a coleta de dados realizada posteriormente ao evento. A amostragem por conveniência obteve sete partícipes, oriundos de quatro municípios da região. O instrumento de pesquisa utilizado para a coleta de dados foi a entrevista, e para a técnica de análise de dados a análise temática de conteúdo.
RESULTADOS: evidenciaram três categorias empíricas, quais sejam: o retorno ao território da Estratégia de Saúde da Família; o processo de trabalho na Estratégia de Saúde da Família; e a gestão municipal de saúde.
DISCUSSÃO: a primeira categoria expressa a condição da equipe frente ao retorno do recém-nascido prematuro ao território a partir da descrição de ações, da necessidade de apoio matricial e da fragilidade na articulação nos diferentes níveis e locais de prestação de serviços; a segunda categoria descreve o processo de trabalho na estratégia de saúde da família e o recém-nascido com as dificuldades no manejo continuado, a invasão dos territórios, a cultura do encaminhamento, a responsabilidade sanitária centrada no enfermeiro e os significados do trabalho para a população; e, finalmente, a terceira categoria demonstra as implicações para a gestão municipal de saúde.

Palavras-chave: Atenção Primária à Saúde; Acesso aos Serviços de Saúde; Recém-Nascido Prematuro; Enfermagem em Saúde Pública.

 

INTRODUÇÃO

O envolvimento da equipe de Estratégia da Saúde da Família (ESF) na atenção primária à saúde (APS) tem sido cada vez mais imprescindível no acompanhamento ao recém-nascido prematuro, de modo a garantir a assistência integral após a alta hospitalar.

Considera-se recém-nascido prematuro (RNPT) aquele que nasce com menos de 37 semanas de gestação e de baixo peso cujas características têm mais riscos de não se desenvolver adequadamente, necessitando de uma atenção diferenciada tanto por parte do cuidador (pais) como da equipe de saúde da APS.1,2

O índice de sobrevivência do RNPT tem chamado a atenção em estudos meticulosos ocorrentes em países desenvolvidos e em desenvolvimento, trazendo como base a vulnerabilidade desse recém-nascido (RN). O risco de morte e sequelas pode se desenvolver em decorrência das condições de nascimento, a exemplo do refluxo gastroesofágico, déficits visuais e auditivos, atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor e paralisia cerebral, além de retinopatia e cegueira prevenível na infância, despertando a necessidade de avaliação do prognóstico e de acompanhamento mais preciso a longo prazo.2,3

Nessa descrição, ressaltam-se, de um lado, os indicadores de mortalidade e internações hospitalares por condição sensível à atenção primária (ICSAP) em crianças menores de cinco anos, grupo prioritário para os programas de saúde do SUS4. De outro, cabem à Política Nacional de Atenção Básica algumas funções para contribuir com o funcionamento das redes de atenção à saúde.

O presente estudo busca analisar a coordenação do cuidado e do ordenamento das redes a partir da responsabilização dos profissionais e sua relação de cuidados aos usuários de forma contínua, integral, resolutiva e equitativa.5 Essa coordenação tem como essência a disponibilidade de informações dos problemas e serviços anteriores, com o devido reconhecimento da notícia relacionada às necessidades para o presente atendimento. A ação compreende um dos quatro atributos essenciais da APS. Caso não exista a longitudinalidade, perde seu potencial, a integralidade seria dificultada e a função do primeiro contato tornar-se-ia meramente administrativa.6

A família que convive com a prematuridade na coordenação de cuidados e em redes requer apoio da equipe da ESF para dirimir dúvidas, facilitar a adaptação pós-alta hospitalar e dar continuidade a terapêuticas que dependam de avaliações permanentes das demandas, tanto do RN como da família, de acordo com a necessidade da criança e das habilidades dos pais.7

Nesse sentido, questiona-se: como acontece a coordenação do cuidado ao RNPT na ESF na segunda região de saúde do estado do Rio Grande do Norte? A partir desse problema, objetiva-se analisar como é compreendida a coordenação do cuidado ao RNPT na segunda região de saúde do estado do Rio Grande do Norte.

 

MÉTODO

A abordagem do estudo é qualitativa e foi realizada com os coordenadores das APS dos municípios que compreendem a segunda região de saúde do estado do Rio Grande do Norte, em outubro de 2016. A região é composta de 14 municípios, com população estimada em 448.939 habitantes, a qual abrange os municípios de Mossoró, Upanema, Grossos, Tibau, Serra do Mel, Baraúna, Campo Grande, Janduís, Messias Targino, Felipe Guerra, Apodi, Governador Dix-Sept Rosado, Caraúbas e Areia Branca.8

A coleta de dados ocorreu em um evento realizado na 2ª Unidade Regional de Saúde Pública, em outubro de 2016, com o propósito de fazer uma oferta conceitual sobre coordenação do cuidado para apreender em relação ao RNPT na região de saúde. Foi convidado um representante de cada secretaria municipal, conforme critérios de elegibilidade para a coleta dos dados: a) atuação no município de origem; b) tempo de coordenação de no mínimo seis meses; c) período considerado oportuno para contato com a rede assistencial da região.

O roteiro foi submetido a pré-teste para ser validado. A coleta de dados ocorreu posterior ao evento e aprovação pelo Comitê de Ética das Faculdades de Enfermagem e Medicina Nova Esperança, protocolo CEP: 101/2016 e CAAE: 58741516.4.0000.5179.

A amostragem por conveniência contou com sete partícipes de quatro municípios (Mossoró, Felipe Guerra, Messias Targino e Governador Dix-Sept Rosado), com população estimada em 315.642 habitantes. O instrumento de pesquisa utilizado foi a entrevista. Ressalta-se que o período de recrutamento, ou seja, o convite para o evento, foi considerado posteriormente inadequado, com prejuízo para os coordenadores da APS, fato decorrente dos insucessos das eleições municipais, afetando diretamente a comunicação com os partícipes, haja vista a forma contratual das funções do coordenador na gestão municipal se sob a forma de cargo comissionado. Para manter o nome dos entrevistados em sigilo, estes foram identificados numericamente.

Como técnica de análise de dados, utilizou-se a análise temática de conteúdo, respeitadas suas etapas metodológicas: pré-análise, com a organização; leitura e escolha dos documentos; exploração do material escolhido; recorte, enumeração e classificação; e, finalmente, tratamento dos dados, ou seja, a tradução e a interpretação para tornar os dados válidos.9

 

RESULTADOS

Os resultados evidenciaram que dos sete participantes 70% eram enfermeiros, do sexo feminino, com faixa etária entre 26 e 75 anos, predominando os com idade de 20 a 31 anos. No que diz respeito à formação de nível e graduação, situaram-se no período compreendido de 1966 a 2013, prevalecendo 80% diplomados com menos de cinco anos e 80% dos sujeitos com certificação em nível de pós-graduação, mas somente um deles na área de saúde da família.

Os resultados revelaram que 80% dos profissionais atuam na APS há menos de quatro anos, que todos têm como agente contratante a administração direta e apenas um (15%) é estatutário. Nesse aspecto, é notória a fragilidade dos vínculos trabalhistas, já que os demais são contratos temporários ou cargo comissionado. Logo, infere-se que há um plano de carreira. Quanto à remuneração, esta ocorre por desempenho, nos quais 60% dos sujeitos questionados afirmaram receber por critérios relacionados à certificação do Programa de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (PMAQ), formalizado por lei ou decreto.10 A Tabela 1 apresenta as categorias e suas respectivas subcategorias.

 

 

DISCUSSÃO

Retorno ao território da ESF

Os resultados descritos no presente estudo, que dizem respeito à oferta conceitual sobre a coordenação do cuidado para o RNPT na 2ª região de saúde, evidenciaram três categorias: o retorno ao território da ESF, o processo de trabalho na ESF e a gestão municipal de saúde.

A primeira categoria empírica, que envolve o retorno do RNPT ao território da ESF, destaca: a descrição das ações da equipe no retorno do RN prematuro, a necessidade de apoio matricial e a fragilidade na articulação nos diferentes níveis e locais de prestação de serviços. Todos mencionam como ocorre o regresso ao domicílio.

A assistência à criança circunscreve: a promoção da saúde, prevenção, diagnóstico precoce e acompanhamento do crescimento e desenvolvimento com a intenção de orientar a prevenção de acidentes, a avaliação do desenvolvimento neuropsicomotor, no esclarecimento de dúvidas à família, na imunização, no incentivo e no aleitamento materno e no acompanhamento no primeiro ano de vida.

As ações da equipe da ESF precisam estar organizadas para o controle das doenças prevalentes na infância, colaborando para a promoção da qualidade de vida e do empenho da família e da equipe.11

Os partícipes do estudo expressaram limitação no manejo do RNPT, ao identificarem abordagens fragmentadas e de atuação isolada dos profissionais, a exemplo da visita domiciliar sem avaliação do risco familiar e consulta C e D sem relacionar o risco de vulnerabilidades inerente à condição singular do recém-nascido. Nesse sentido, depreende-se a necessidade de aprofundamento teórico e conceitual quanto à produção de cuidado na APS.

O núcleo necessidade de apoio matricial expressa que, frente ao RNPT, precisa haver suporte específico para algumas demandas advindas do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF), entendida como principal estratégia de atuação na equipe na coordenação do cuidado. O NASF, como apoio matricial, faculta o compartilhar de uma assistência multidisciplinar, ampliando a resolutividade e partilhando práticas e saberes na área como forma de pensar e interagir, e o assistir na busca do cuidado continuado.12,13

Nesse âmbito, percebe-se desconhecimento quanto ao real papel do NASF, restringindo a atuação ao atendimento ambulatorial e ao suporte pedagógico na condução do processo de trabalho e buscando qualificar atenção integral à criança e aos possíveis encaminhamentos para a rede de atenção à saúde.

O último núcleo trata a fragilidade na articulação entre os diferentes níveis e locais de prestação de serviços, impactando diretamente no retorno da criança ao território e na qualidade da assistência que será prestada a ela e à família, assim como da referência e contrarreferência nos variados graus de complexidade, o que não ocorre articuladamente nos serviços, por vezes ineficaz e pouco empregada. Nesse sentido, ocorre ruptura do serviço na atenção que é responsável pelo cuidado para ser acompanhado, visando garantir outros níveis de assistência.14

Os entrevistados afirmaram que não há comunicação entre APS e os demais pontos da rede que atendem a criança. O resultado apresentado no estudo apurou que as experiências dos usuários no uso dos serviços de APS são irregulares, que desconhecem a função central na promoção, prevenção e manutenção da saúde, o que induz à baixa procura de serviço e à desvalorização por parte dos usuários e dos serviços da rede.15

O impacto desse retorno ao território, na compreensão dos participantes, expõe uma APS com produção morosa, fragmentada, centrada nas doenças e com pouco espaço para a produção de vínculo e coordenação do cuidado, afetando a resolução dos serviços.

Processo de trabalho na ESF

A segunda categoria debate o processo de trabalho da equipe da ESF. Como núcleos de sentido destacam-se as dificuldades da ESF no manejo continuado, a invasão dos territórios da ESF, a persistente cultura do encaminhamento e a responsabilidade sanitária centrada no enfermeiro, indicadas como dificuldades da ESF no manejo continuado.

A APS não consegue exercer seu papel de ordenadora do cuidado sem um sólido arranjo regional e uma articulação virtuosa entre os três entes federados (municipal, estadual e federal). Uma coordenação do cuidado frágil é um grande obstáculo para a garantia da integralidade, do acesso e da oferta de serviços de saúde de qualidade15; requer a criação de novos modos de conduzir o processo de cuidado, alinhados ao atributo da coordenação do cuidado que os profissionais participantes do estudo reforçam ainda serem ambulatoriais.

Relatos de experiências com fortalecimento do APS apoiados na expansão e consolidação da ESF contribuíram para a redução de hospitalizações e mortalidade em menores de cinco anos, demonstrando que o departamento possui não somente a garantia do direito à saúde, mas também a capacidade em desafogar os serviços hospitalares.4

Outro empecilho no processo de trabalho é a realidade da invasão dos territórios da ESF. Os sujeitos entrevistados afirmaram ser comum a rede local de saúde ser invadida por outros municípios, inclusive de outros estados, como o Ceará (CE) e a Paraíba (PB). Observa-se que a adscrição territorial de usuários à equipe da ESF é uma regra administrativa que induz ou facilita o acesso à APS, exterioriza as fragilidades da coordenação do cuidado nas redes locais de saúde e a peregrinação dos usuários na busca por consultas e/ou exames16, sobretudo quando não há cobertura de 100% na maioria dos municípios da região que compreende o estudo, e gera dificuldades no acesso ao cuidado. Desse modo, faz-se necessário ampliar o debate para criar mecanismos que garantam o acesso de RNPT ao cuidado de forma resolutiva.

A cultura do encaminhamento ainda prevalece no processo de trabalho da ESF. Na visão dos participantes, isso pode ser entendido como a liberação sem os devidos critérios clínicos de referências para as mais variadas especialidades e exames/procedimentos, gerando a peregrinação do usuário na rede e a alocação indevida de recurso financeiro. Os encaminhamentos são instrumentos de gestão e do cuidado. Assim, para que o usuário seja encaminhado para o cuidado especializado é importante a dialogicidade com as equipes nos pontos de atenção, para incluir a resolutividade e a competência de coordenação do cuidado.17

A responsabilidade sanitária centrada no enfermeiro também é um núcleo de sentido que emerge do processo de trabalho da ESF. Esse é um fato já identificado em outros estudos, que ressaltam a centralidade no trabalho do enfermeiro das ações educativas, da promoção à saúde e planejamento das ações individuais e coletivas da equipe, confluindo para uma carga de trabalho exaustiva.18 Essa responsabilidade deve ser da equipe, ao somar saberes no caminho da concretização do cuidado direcionado para os usuários, a família e a comunidade dos territórios da APS/ESF.

A potência em produzir cuidado centrado na criança, na família e na comunidade requer atuação interprofissional da equipe, gerando vínculos, estimulando a autonomia e o protagonismo dos sujeitos envolvidos no processo de trabalho e superação dos obstáculos existentes no cotidiano colaborativo e coletivo.14

Significados do trabalho da ESF fecha o quadro de núcleos da categoria processo de trabalho da ESF. Os resultados de uma pesquisa demonstram que o serviço ou profissional da APS não coordenam o cuidado, com destaques para a visita do agente comunitário de saúde como algo burocrático. Além disso, a UBS não se configurava como ponto regular de cuidado, mas como local de renovação de receitas médicas, obtenção de medicamentos; e não identificado como fluxo assistencial a partir da APS, o que leva à utilização de várias portas de entrada na atenção especializada.15

Na fala dos partícipes, foram expressivas as limitações práticas do atual repertório das equipes de APS quanto à organização do processo de trabalho e das ligações com a rede. Compor outros conjuntos de obras da equipe requer valorização das experiências exitosas da região que podem ter sido negligenciadas pelos sujeitos com o predomínio de discursos negativos que envolvam alguma problemática, como é o caso do RNPT. É preciso, pois, buscar outras referências empíricas, teóricas e conceituais que fortaleçam a APS em regiões semelhantes ao cenário pesquisado.

Gestão municipal de saúde

A terceira e última categoria empírica, a gestão municipal de saúde, expressa implicações a partir da condição do RNPT na rede, com destaque para a judicialização da saúde, pactuações na segunda região de saúde, construção da Rede Cegonha, confecção de fluxos na rede, necessidade da educação permanente em saúde, atuação inadequada da unidade administrativa da região, repasses financeiros entre as esferas municipais, estaduais e federais e críticas à atuação inacessível da gestão municipal de saúde e aspectos da regulação em saúde.

Inaugura-se nos sistemas de saúde de cobertura universal, particularmente na região da pesquisa, a judicialização. No Brasil, ocorre nas esferas pública e privada da saúde, como direito de todos e dever do Estado, a garantia aos preceitos do Sistema Único de Saúde (SUS), expressos na análise “categoria temática”, que revela questões de equidade, integralidade e universalidade. Esse arranjo teórico-conceitual remete à procura da efetividade do acolhimento às necessidades de saúde por meio de decisões judiciais para garantir o direito adquirido ao acesso a tratamentos, cirurgias e até mesmo medicamentos, quando negada ao usuário nas unidades de saúde.19

As pactuações na segunda região de saúde se apresentam como fracionadas e isoladas sem visão global, o que reflete a falta de planejamento regional, priorizando o caráter apenas administrativo-burocrático e normativo sob a ótica sanitária. Essa articulação fragiliza a organização da rede assistencial e os fluxos, com desdobramentos imediatos no acesso ao serviço, prevalecendo arranjos organizativos pontuais de acesso à rede pública ou, na maioria das vezes, rede privada.

Reforça-se que as pactuações pela saúde envolvem a consolidação de metas pactuadas pelo município nas atividades desenvolvidas no cotidiano do trabalho, nem sempre fazendo sentido para a realidade local de atenção à saúde. Esse comprometimento depende da articulação dos intérpretes sociais e das várias formas de ver o habitual e os problemas percebidos.20

A construção da Rede Cegonha está presa ao papel, afirmaram os participantes, sendo preciso ampliar o acesso e melhorar a qualidade do pré-natal e transpor as fragilidades nas unidades de atendimento hospitalares. A rede, como política nacional de atenção integral à saúde, preconiza a proteção completa ao processo de gestação (parto, nascimento, puerpério e início da vida) em termos da gestão do cuidado e do sistema, organizando os serviços e as equipes de saúde, de forma que respeitem os direitos reprodutivos na possibilidade de melhorar a atenção à saúde da mulher e da criança.21

A confecção de fluxos e itinerários na rede urge frente à dificuldade no diálogo entre os diferentes pontos das unidades de atendimento e à falta de comunicação. A interação entre os profissionais limita a atenção ao usuário, prejudicando as ações intersetoriais no território e, consequentemente, o cuidado ofertado ao RNPT.

De um lado, a APS é fundamental para o sistema de saúde e para a estruturação das redes, com responsabilidade de fazer intercambiar os diferentes níveis de assistência, atuando como ordenadora e coordenadora dos fluxos do cuidado. Sua localização propicia a ligação entre os usuários e os demais pontos de atenção, garantindo a integralidade e a continuidade da atenção à saúde dos usuários.22 De outro, ainda há a relação vertical entre os profissionais de saúde e os usuários, com a escassez da escuta, orientações sobre o fluxo de acesso e construção de espaços acolhedores.

A educação permanente em saúde (EPS) é um núcleo estruturante da rede de atenção integral que reforça os desafios da região no que diz respeito à saúde. Concorda-se que deveria ser a principal estratégia de gestão para mudar o modelo assistencial vigente, na medida em que ativa o processo de transformação de saberes e fazeres. Todavia, destoado de sua concepção originária, é visto como partidário e não como política pública de saúde, com trocas sucessivas de gestão, ações educativas pontuais e descontinuadas e profissionais e gestores com diferentes concepções sobre a EPS cujas ações prevalecem como treinamentos e atualizações técnicas.23

O argumento de que o orçamento não permite a execução plena da política não é real, haja vista o significativo número de capacitações existentes na região. O fundamental seria afinar a concepção de EPS para trabalhadores e, principalmente, para gestores da saúde, redirecionando o planejamento municipal de saúde para a execução plena da política e a garantia ao acesso de qualidade do SUS.23

Estudo com gestores discutiu o tema coordenação do cuidado, o qual revelou que a ausência de mecanismos formais que permitem a integração equipe-serviços, a falta de organização dos fluxos com a completa ausência de monitoramento e avaliação de filas e a inexistência de mecanismos de continuidade informacional afetam a capacidade de coordenar o cuidado na rede de atenção à saúde.15

Os repasses financeiros entre as esferas municipal, estadual e federal constituem um percalço crítico. Os municípios vivenciam a escassez de recursos financeiros e repasses em tempo hábil frente às grandes demandas de serviços em saúde. Os valores transferidos pelo Ministério da Saúde para a ESF não cobrem os custos dos serviços, induzindo os municípios a financiarem com recursos próprios as políticas federais, mesmo quando estas não fazem parte de suas prioridades, e comprometendo as ações voltadas para as necessidades de suas populações, perceptível nesse momento de claro desmonte das políticas públicas de saúde.24

No que diz respeito às críticas à atuação da gestão municipal de saúde, os participantes revelaram a imobilidade de alguns gestores em tempos de carência de recursos financeiros, principalmente no atual cenário político e econômico que o Brasil vivencia. Faltam materiais e insumos essenciais na APS, desmotivando profissionais e desamparando a população, e ausência da construção organizada do acesso ao cuidado, necessitando de pauta permanente na agenda da saúde local e nos planos municipais de saúde.16

A regulação da assistência à saúde, como último núcleo de sentido da categoria, tem a função de coordenar as ações aos serviços de saúde, como: consultas de profissionais de saúde, procedimentos diagnósticos e terapêuticos aos pacientes com alto risco e precisão e indicação clínica em tempo adequado, selecionando procedimentos e consultas apenas com indicação clínica para realizá-los e evitando consultas e/ou procedimentos desnecessários.17 Nesse sentido, evidenciaram-se as dificuldades em garantir o atendimento ao RNPT, seja para consultas, cirurgias ou procedimentos, o que prejudica o seguimento à criança.

O acesso equânime remete à regulação em saúde, adequando a oferta à demanda a partir da avaliação clínica e priorizando os casos que têm a APS como responsável pela ordenação do acesso dos usuários aos demais níveis de atenção à saúde cujos trabalhadores se apropriam das ferramentas ofertadas pela gestão para orientar o itinerário na rede.25

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os dados apresentados neste estudo revelam o desconhecimento do atributo coordenação do cuidado como essencial no processo de produção de cuidado na APS. Os coordenadores, partícipes da pesquisa, expressaram repertório limitado na produção de serviços em rede, tendo a APS não como ordenadora do cuidado, mas como ponto da rede que atua de forma reativa, ambulatorial, fragmentada, centrada nas doenças da criança e com frágil apoio das esferas estadual e federal no suporte administrativo da região de saúde.

Enfatizaram-se a peregrinação do RNPT na rede e a falta de responsabilidade sanitária da ESF/APS no acompanhamento dos itinerários terapêuticos da criança e da família, o que distancia a melhor prática da APS. Faz-se necessário, portanto, transpor o modelo de uma APS programática para uma acessível, abrangente e fortalecida.

Os resultados da pesquisa podem ser disparadores para a organização de um plano de ação que vise ao fortalecimento da APS e da rede de atenção à saúde, impactando nos índices de mortalidade e de hospitalizações por condições sensíveis à APS para inaugurar outro processo dialógico entre os componentes da rede na região.

Deve-se selecionar um período oportuno para abordar os coordenadores da rede, uma vez que a participação, considerada pela equipe de pesquisadores, foi limitada em razão de a coleta dos dados ter acontecido após o resultado das eleições municipais. Outro fator abalizado foi a abordagem restrita aos problemas frente ao cuidado do RNPT na região, quando também poderiam ter sido abordadas as potências locais que podem ser compartilhadas com a região para gerar outro enredo no acompanhamento da criança.

Nesse sentido, faz-se necessária a implementação de outras pesquisas que superem as limitações deste estudo, de modo a ouvir usuários e trabalhadores da APS com a intenção de qualificar o processo de trabalho dos municípios que compõem a região de saúde.

 

AGRADECIMENTOS

À coordenação de Atenção Básica da 2ª Unidade Regional de Saúde Pública do estado do Rio Grande do Norte, pelo apoio incondicional ao estudo.

 

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