REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume Atual: 23:e-1171 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20190019

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Pesquisa

Validação de material educativo para homens em uso de cateter urinário de demora no domicílio

Validation of an educational material for men using indwelling urinary catheters at home

Adriane Pinto de Medeiros; Bianca Bolzan Cieto; Danielle Cristina Garbuio; Anamaria Alves Napoleão

Universidade Federal de São Carlos - UFSCar, Departamento de Enfermagem, Programa de Pós Graduação em Enfermagem. São Carlos, SP - Brasil

Endereço para correspondência

Adriane Pinto de Medeiros
E-mail: adriane_med@hotmail.com

Submetido em: 27/02/2018
Aprovado em: 13/02/2019

Contribuições dos autores: Análise estatística: Adriane P. Medeiros; Aquisição de financiamento: Adriane P. Medeiros, Anamaria A. Napoleão; Coleta de Dados: Adriane P. Medeiros; Conceitualização: Adriane P. Medeiros, Anamaria A. Napoleão; Gerenciamento de Recursos: Anamaria A. Napoleão; Gerenciamento do Projeto: Anamaria A. Napoleão; Investigação: Adriane P. Medeiros; Metodologia: Adriane P. Medeiros, Anamaria A. Napoleão; Redação - Preparação do original: Adriane P. Medeiros; Redação - Revisão e Edição: Adriane P. Medeiros, Bianca B. Cieto, Danielle C. Garbuio, Anamaria A. Napoleão; Supervisão: Anamaria A. Napoleão; Validação: Anamaria A. Napoleão; Visualização: Adriane P. Medeiros, Anamaria A. Napoleão.

Fomento: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Bolsa Mestrado.

Resumo

OBJETIVO: elaborar e validar material educativo escrito e ilustrativo para homens em uso de cateter urinário de demora no ambiente domiciliar.
MATERIAL E MÉTODO: letramento em saúde, educação em saúde, modelos de validação de conteúdo diagnóstico de Enfermagem e Suitability Assessment of Educational Materials (SAM) foram referenciais teóricos e metodológicos utilizados.
RESULTADOS E DISCUSSÃO: realizaram-se a validação de conteúdo e aparência do material com base na avaliação de 30 peritos. Quanto ao conteúdo, todas as orientações foram validadas com escore final igual ou superior a 0,80. A aparência foi avaliada positivamente em todos os itens por 89,7% dos peritos. As sugestões contribuíram sobremaneira para melhor qualidade do material.
CONCLUSÃO: considera-se que a validação de conteúdo e aparência com base nos referenciais utilizados pode contribuir como método de validação de materiais educativos em saúde

Palavras-chave: Cateterismo Urinário; Educação em Saúde; Autocuidado.

 

INTRODUÇÃO

A utilização de materiais escritos em programas educacionais para a alta hospitalar é uma ação desenvolvida pela comunidade científica de Enfermagem que se preocupa em adquirir instrumentos mais eficazes de ensino em saúde para pacientes e seus familiares.1

Para isso, torna-se necessária a elaboração de materiais escritos a partir de estratégias que os tornem compreensíveis2 e que sejam embasados nos preceitos do letramento em saúde,3 com os objetivos de favorecer a legibilidade e compreensibilidade do público-alvo, fornecer associações entre as informações novas e o que já é conhecido, proporcionar aprendizagem ativa com recursos visuais que enfatizam a mensagem principal e reduzir a quantidade de leitura no texto e ser motivador.2

A cateterização urinária é uma das intervenções de Enfermagem mais comuns no cuidado à saúde de indivíduos com disfunção urinária, no entanto, apesar de não ser um procedimento totalmente livre de riscos,4 seu uso está associado a complicações como lesões uretrais traumáticas, falso trajeto, formação de fístulas, cálculos vesicais, dor5 e infecções urinárias.6

Exemplos de indicações apropriadas para uso do cateter urinário de demora incluem o uso em pacientes com impossibilidade de micção espontânea,7 retenção urinária aguda ou obstrução vesical,8 pacientes instáveis hemodinamicamente com necessidade de monitorizar o débito urinário,7,8 pacientes submetidos à cirurgia urológica ou outra cirurgia que envolva estruturas contíguas ao trato geniturinário, cirurgias de longa duração ou cirurgias que necessitam de controle do débito urinário (por exemplo, durante infusão de grandes volumes ou uso de diuréticos),8 pacientes incontinentes com lesões por pressão sacrais ou perineais grau IV,7 pacientes com imobilização prolongada no leito devido a lesões traumáticas toracolombar ou pélvicas e pacientes em terminalidade, para propiciar conforto, se necessário.8 Em ambiente domiciliar e instituições de longa permanência, seu uso é mais comum na população masculina.9-11

O uso desse tipo de cateter urinário está associado a elevadas taxas de infecções e complicações das vias urinárias baixas quando comparado com cateterismo intermitente limpo12, pelo fato de o tempo de permanência do cateter urinário constituir fator crucial para colonização e infecção (bacteriana e fúngica). O crescimento bacteriano inicia-se após a instalação do cateter, numa proporção de 5% a 10% ao dia e estará presente em todos os pacientes ao final de quatro semanas,7 tornando sua indicação restrita, como em pacientes submetidos à prostatectomia, população-alvo deste estudo.

Nesse sentido, faz-se necessária a elaboração de um material educativo escrito e ilustrativo, destinado ao autocuidado de homens em uso de cateter urinário de demora no domicílio. Tal ação contribuirá para a prevenção de complicações e fortalecerá o comportamento de autocuidado de homens submetidos à prostatectomia. O presente estudo objetivou validar com peritos o conteúdo e aparência do referido material.

 

MATERIAL E MÉTODO

Estudo de caráter metodológico13 envolvendo as seguintes fases: a) elaboração de material educativo a partir da revisão da literatura científica; b) elaboração das ilustrações; c) composição do conteúdo; d) validação de conteúdo e aparência por peritos.

A primeira fase do estudo constituiu-se na revisão da literatura por meio da questão norteadora: “quais são as orientações disponíveis na literatura científica sobre os cuidados adequados com o cateter urinário de demora em ambiente domiciliar?”.

Foi realizada busca nas bases de dados PubMed, serviço oferecido pela US National Library of Medicine, Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) da Biblioteca Virtual em Saúde do Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (BIREME) e The Cochrane Library, considerando-se o período de janeiro de 2005 a dezembro de 2010. Guias e manuais de órgãos governamentais brasileiros, americanos e europeus encontrados em buscas online14-18 e material de acervo pessoal foram utilizados.2,19-25

Considerando a necessidade de adequação metodológica, foi realizada nova busca às bases de dados compreendendo o período de janeiro de 2011 a dezembro de 2017, utilizando a mesma estratégia da busca anterior. Foram incluídos estudos publicados na íntegra nos idiomas inglês, português e espanhol, que responderam à questão norteadora. Foram excluídos estudos que não tinham relação com a temática ou não abordaram aspectos relacionados ao cuidado com o cateter urinário de demora, aqueles não encontrados na íntegra ou em idioma que não os citados nos critérios de inclusão. E aqueles encontrados em mais de uma base de dados (repetidos) foram contabilizados uma única vez.

Após levantamento da busca nas bases de dados científicas, a amostra inicial foi composta de 226 estudos e, ao final, 39 estudos foram selecionados.

O material educativo foi elaborado com base na estratégia que recomenda o uso de recursos como a escrita em linguagem coloquial, fonte minúscula, de tamanho 12 ou maior quando possível e não utilização de letras estilizadas,2 uma vez que geralmente a comunicação de informações de saúde não é desenvolvida em linguagem acessível aos usuários, independentemente do seu nível de instrução educacional.26

Na segunda fase do estudo, as ilustrações foram elaboradas com base no conteúdo teórico levantado de acordo com a busca na literatura científica e confeccionadas por um desenhista profissional, mediante modelos de ilustrações selecionados da internet, livros e fotografias. Na terceira fase, a composição do conteúdo foi realizada a partir das informações tidas como essenciais para o autocuidado ao cateter urinário no domicílio, construídas por ilustrações e informações legíveis e compreensíveis ao público-alvo, submetido à arte final e diagramação. A quarta e última fase caracterizou-se pela validação, por 30 peritos, do conteúdo e aparência do material. A etapa de legitimação pelo público-alvo não foi concretizada neste estudo devido à falta de tempo hábil.

A maioria das orientações escritas era acompanhada por ilustrações e após cada orientação foi introduzida uma justificativa em forma de “por quê?”, a fim de tornar o material mais interativo17 e de explicar ao leitor, em linguagem acessível, o objetivo da orientação.

Como critério para análise da seleção, foram selecionados peritos enfermeiros com titulação mínima de especialização em Enfermagem Médico-Cirúrgica ou áreas afins, com experiência profissional de pelo menos dois anos no ensino ou na assistência a usuários que realizaram cirurgia urológica ou cirurgias em geral, e médicos com titulação mínima de residência em Urologia. Os peritos foram convidados a participar mediante contato por meio de carta-convite e, ao aceitarem, procediam ao preenchimento do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e recebiam pessoalmente ou via correios e/ou correio eletrônico o material educativo juntamente com os instrumentos de coleta de dados.

A análise de conteúdo se deu a partir da utilização de uma adaptação do modelo de validação de conteúdo diagnóstico de Enfermagem.25 Dessa forma, optou-se por um questionário com escala tipo Likert, no qual os peritos atribuíram valores para indicar a adequação de cada orientação. Os valores atribuídos à escala tiveram variação de cinco pontos, sendo 1 = não adequada à situação; 2 = muito pouco adequada à situação; 3 = pouco adequada à situação; 4 = consideravelmente adequada à situação e 5 = muito adequada à situação. Para cada valor foi atribuído peso que variou de zero a um.

Os pesos foram dados de forma que a contagem total pudesse alcançar apenas 1,0 ao dividir a soma dos escores atribuídos a uma orientação pelo número de respostas obtidas. Foram consideradas válidas as orientações que obtiveram relação de peso de 0,8 ou mais.

No processo de validação da aparência foi utilizado o modelo de avaliação da dificuldade e conveniência de materiais educativos, denominado Suitability Assessment of Materials (SAM),com o propósito de analisar os aspectos relacionados à organização, estilo da escrita, aparência e motivação do material educativo. Esse questionário apresenta uma lista de atributos no qual para cada item a ser avaliado há subitens com perguntas objetivas respondidas com “sim” ou “não”.2 Foram considerados válidos os atributos que obtiveram avaliação positiva pela maioria dos peritos.

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos da UFSCar, sob protocolo nº 220/2011 e todos os procedimentos éticos para pesquisa com seres humanos foram seguidos.

 

RESULTADOS

A maioria dos peritos que participou da validação do material educativo era enfermeiro do sexo feminino (25; 83%) e os demais eram médicos do sexo masculino (5; 17%).

A área de atuação dos peritos enfermeiros apresentou-se diversificada, entre elas, doenças infecciosas, controle de infecção hospitalar, saúde do adulto e idoso, centro cirúrgico; administração hospitalar/gerenciamento, entre outras. Segue-se a Tabela 1 com a caracterização da titulação acadêmica e experiência profissional dos peritos.

 

 

A primeira versão do material educativo constava de uma breve introdução, 32 orientações distribuídas em 10 categorias e 19 ilustrações.

Sobre a validação de conteúdo, os peritos avaliaram 10 categorias e todas receberam escore final igual ou superior a 0,86, o que confirmou a avaliação positiva pelos mesmos. Na Tabela 2 são apresentados os escores de validação final de cada categoria.

 

 

Durante o processo de avaliação do material, os peritos propuseram sugestões relacionadas ainformação, ilustrações, termos mais comumente utilizados pelos pacientes e adequação do texto. As principais sugestões para cada categoria estão indicadas na Tabela 3.

 

 

Optou-se por utilizar a palavra “sonda” em vez de “cateter”, pelo fato de esse termo ser mais frequentemente utilizado pelos profissionais de saúde e conhecido pelos leigos, tornando mais fácil a leitura e entendimento do material educativo.

No processo de validação da aparência utilizou-se o instrumento Suitability Assessment of Materials (SAM), o qual consta de 16 questões distribuídas em quatro atributos maiores (organização, estilo da escrita, aparência e motivação). As questões objetivas foram respondidas com “sim” ou “não”.2 Todos os atributos receberam escore final igual ou superior a 88%, o que confirmou a avaliação positiva pelos peritos. Na Tabela 4 é apresentada a avaliação da aparência do material educativo.

 

 

Os peritos também contribuíram com sugestões gerais sobre o material, no qual sugeriram incluir ilustrações e orientações para o público feminino, justificando que mulheres também fazem uso de cateterismo urinário de demora no domicílio, principalmente idosas, por problemas neurológicos e por necessitarem de orientações pós-operatórias de cirurgias corretivas de incontinência urinária de esforço (cirurgias de slings), apesar de constituírem população menor. Foram ainda sugeridas a abordagem da questão da dor uretral e a necessidade de breve conclusão ao final do material educativo, como encerramento positivo para o leitor.

O material educativo validado em sua versão final constituiu-se de uma breve introdução, 27 orientações e 20 ilustrações.

 

DISCUSSÃO

Algumas estratégias são imprescindíveis na elaboração de materiais educativos relacionados à saúde. É ideal que se use linguagem cotidiana e de fácil entendimento, livre de jargões técnicos, que priorize o que o público-alvo deve fazer, destacando as ações de forma positiva2,17 e que, se possível, sejam utilizadas ilustrações culturalmente adequadas, a fim de aprimorar a comunicação em saúde.2

Na categoria dois, a retenção urinária foi incluída na orientação relacionada à manipulação da extensão da bolsa coletora, como consequência da obstrução do fluxo urinário no cateter ou na extensão da bolsa coletora, causada por dobras, torção ou pressão na extensão por qualquer parte do corpo ou objeto. Tal sugestão é abordada no Guia do Cuidador, uma publicação do Ministério da Saúde que discorre sobre os principais cuidados ao cateter urinário.14

Em estudo que objetivou medir a prevalência e configuração de alças dependentes em sistemas de drenagem urinária em adultos portadores de cateter urinário de demora, os autores relataram ser extremamente comum a formação de alças em tais sistemas, apesar das recomendações do fabricante e das políticas hospitalares e de Enfermagem. Tal estudo também faz menção à indicação do uso da ultrassonografia à beira do leito quando a formação de alças for inevitável, assim como na avaliação do volume de urina retido indesejavelmente em pacientes cateterizados.27

Na categoria quatro, em relação à sugestão feita quanto à periodicidade na troca da fixação do cateter urinário, não foram encontrados relatos em publicações sobre tal orientação. Entretanto, publicação baseada em evidências traz a necessidade da fixação do cateter no homem, a fim de evitar pressão na uretra e na junção pênis-escroto, além de evitar a formação de fístulas uretrocutâneas.23

Em estudo de revisão sistemática que objetivou revisar estratégias para reduzir infecções do trato urinário em residentes de instituições de longa permanência, autores trazem a recomendação baseada em evidência da correta fixação dos cateteres de demora após sua inserção para diminuir a movimentação e trauma uretral.28

Entende-se que a troca da fixação deve ocorrer sempre que esta deixar de ser eficiente e também, considerando-se que os dispositivos para fixação comumente utilizados são adesivos, deve-se atentar para os cuidados com a pele e com a troca realizada diariamente. Contudo, estudos que evidenciem tal conduta são escassos na literatura.

Quanto ao local de fixação, apesar da sugestão feita por peritos de fixação apenas na face anterior da coxa e da contraindicação da fixação na região hipogástrica, publicação baseada em evidências que reúne práticas de Enfermagem orienta que a fixação do cateter urinário em homens deve ser realizada na região hipogástrica ou na face anterior da coxa, já que a fixação nesse local evita a tração da bexiga e alterações na direção normal do fluxo urinário nos homens. Publicações, porém, que indiquem com clareza a região mais adequada para a fixação do cateter urinário de demora em homens ainda são escassas. Dessa forma, o material educativo orienta a confirmação com o médico ou enfermeiro sobre o melhor local para fixação do cateter de demora.23

Em relação à sugestão sobre o uso de luvas na categoria cinco, para manuseio do sistema urinário na presença de lesão, piúria ou infecção, não foram encontradas publicações que abordassem tal questão. Há, no entanto, estudos que relatam ser desnecessário o uso de luvas se o próprio usuário manusear o sistema urinário e que a lavagem das mãos deve ocorrer antes e depois de qualquer contato imediato com o sistema urinário.28,29

Entende-se que seja desnecessário o uso de luvas em ambiente domiciliar, mesmo nos casos em que o homem apresente esses problemas, desde que lave adequadamente as mãos antes e após manusear imediatamente o sistema. Tal entendimento se dá com base no fato de que se estiver sem cateter, um indivíduo pode também apresentar lesão, piúria ou infecção e não há recomendações de uso de luvas nesses casos. Todavia, evidências na literatura sobre tal orientação são escassas.

Quanto à troca da frase “[...] é aconselhável beber no mínimo oito copos de água por dia” por “bastante água durante o dia” na categoria seis, entende-se que o termo “bastante” é subjetivo e o que pode ser bastante para um indivíduo pode não ser para outro, dependendo do volume de líquidos que geralmente costuma ingerir, ocasionando insatisfatória ingestão hídrica diária, além de tornar o usuário suscetível a complicações relacionadas a incrustação, formação de cálculos e infecções urinárias relacionadas ao cateter.30 Dessa forma, o material orienta a ingestão de no mínimo oito copos de água por dia, salvo contraindicações médicas.

Em estudo sobre validação de intervenções de Enfermagem para alta de pacientes submetidos à prostatectomia, autores trazem em uma das intervenções que o usuário mantenha ingestão hídrica mínima de oito copos de água por dia.21-23

Outro estudo sobre a prevenção de infecção do trato urinário em lesados medulares afirma ser imprescindível aos que fazem uso de cateter urinário a ingestão hídrica de dois a três litros de água, salvo contraindicações médicas. Autores indicam que a água deve ser o líquido de hidratação de primeira escolha, pois não somente ajuda a remover as bactérias, mas também diminui o risco de formação de cálculos urinários.31 Pesquisa recente concluiu notavelmente que o aumento na ingestão de líquidos pode ter potencial para diminuir o bloqueio do cateter em usuários de cateter urinário de demora32, porém, sem benefícios significativos demonstrados em relação à prevenção de infecção do trato urinário.28

Autores ainda recomendam evitar ingestão de bebidas alcoólicas e com cafeína, uma vez que são irritantes vesicais.22,33 Foi sugerido que não houvesse restrição em relação à ingestão de chás e sucos de frutas ácidas, pois essa ação pode diminuir significativamente a ingestão de líquidos por parte daqueles que não conseguem ingerir água pura e recorrem a outros tipos de líquidos para atingir o volume adequado a ser ingerido, quando em uso do dispositivo urinário. As evidências na literatura sobre tal orientação são escassas, no entanto, por ter sido considerada altamente pertinente, as pesquisadoras decidiram orientar no material a diminuição ou restrição da ingestão apenas de bebidas alcoólicas.

Na categoria sete, peritos apontaram uma contradição em função do uso do cateter urinário não se restringir a pacientes cirúrgicos. Sendo assim, o texto que orienta caminhada leve em terreno plano foi mantido e o texto que orienta não realização de esforços ou exercícios físicos por até seis semanas após a alta foi desconsiderado, uma vez que se considera que aquele é mais geral e este está mais relacionado aos pacientes cirúrgicos.

Em relação à categoria oito, optou-se por trocar o termo “evite ter [...]” por “procure não ter ereções enquanto estiver com sonda”, pois ereções espontâneas são fisiológicas e não são prejudiciais, entretanto, a estimulação sexual diretamente no pênis (masturbação) foi contraindicada por perito urologista.

Nesse sentido, autores versam sobre a importância de o enfermeiro informar quanto à possibilidade de ereções dolorosas quando do uso do cateter urinário, e consequentemente, à ocorrência de lesão uretral,15 apesar de estudos que abordam as questões relacionadas à sexualidade do homem portador deste dispositivo no domicílio ainda constituírem minoria nas publicações. Dessa forma, o material orienta a evitar a masturbação e alerta sobre a impossibilidade de relações sexuais com penetração enquanto se verificar ouso do dispositivo urinário. O material recomenda a conversar com o médico sobre quando o homem poderá voltar a ter relações sexuais e estimula o diálogo sobre o assunto com o cônjuge.

Quanto à categoria nove, sugestões foram feitas para incluir exemplos de alimentos ricos em fibras para prevenção de constipação intestinal. Foram incluídos alguns exemplos de alimentos ricos em fibras, como o pão integral e mamão, com base no guia de nutrição publicado pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA), além da ingestão hídrica em torno de oito copos por dia, se possível, a fim de manter a consistência das fezes.34

Em relação às orientações gerais sugeridas pelos peritos a serem alocadas ao final do material educativo, sabe-se que indivíduos submetidos a procedimentos cirúrgicos podem manifestar sentimentos como medo, ansiedade, agitação e estresse 24 dadas às expectativas em relação ao que poderá ocorrer durante e após os procedimentos, além de dúvidas em relação ao autocuidado no pós-operatório.30

Assim, a equipe de Enfermagem pode atenuar tais sentimentos a partir de ações voltadas para o provimento de orientações, ensino sobre o autocuidado, acompanhamento no pós-operatório e sugestão de encaminhamento à equipe multiprofissional quando oportuno.30 Essas ações objetivam trabalhar o aspecto emocional, enfatizando a importância da retomada, aos poucos, das atividades de vida diária e convivência social, além da importância do apoio familiar, principalmente do cônjuge, nessa fase em que a sexualidade masculina e o bem-estar social estão afetados, principalmente para os prostatectomizados.35,36

No tocante às sugestões feitas pelos peritos sobre considerar a população feminina no material, optou-se por trabalhar apenas com orientações voltadas para homens, devido aos problemas enfrentados por eles em função das intervenções relacionadas à próstata, e ao uso do cateterismo urinário de demora em número maior em homens do que em mulheres em ambiente domiciliar e instituições de longa permanência, conforme exposto em estudos europeu10 e sueco.11 É reconhecida a necessidade de mais atenção à saúde dos homens, haja vista a criação recente de leis e programas de saúde pelo Ministério da Saúde envolvendo a população masculina nas suas ações.

Autores afirmam que o fornecimento de informações completas sobre o cateter urinário para os pacientes, como, por exemplo, o uso do tamanho adequado do balão e a quantidade de água a ser insuflada nele, além da consideração dos critérios para o ensino de sinais de alerta aos pacientes e cuidadores, constituem implicações para a prática clinica.37

Além disso, como os níveis de incapacidade podem mudar com o tempo, como, por exemplo, em pacientes com esclerose múltipla, o monitoramento da capacidade de autocuidado do cateter ao longo do tempo poderia identificar proativamente os cuidadores que precisam aprimorar seu conhecimento sobre o manejo do cateter.37

 

CONCLUSÃO

O presente estudo pode oferecer subsídios para profissionais de saúde na prática clínica, especialmente no que diz respeito à educação para o autocuidado e preparo para a alta hospitalar de pacientes com cateter urinário de demora pós-prostatectomia, além de contribuir com novos estudos de validação de materiais educativos. Como limitações, identifica-se a dificuldade de recrutamento de maior número de peritos, principalmente médicos, além do uso de um instrumento publicado originalmente na língua inglesa, cuja validação cultural brasileira ainda não foi realizada.

 

AGRADECIMENTOS

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pela concessão de bolsa de mestrado.

 

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