REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

Busca Avançada

Volume Atual: 23:e-1188 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20190036

Voltar ao Sumário

Pesquisa

Enfermagem em cuidados paliativos nas dissertações e teses no Brasil: um estudo bibliométrico

Nursing in palliative care in dissertations and theses in Brazil: a bibliometric study

Ana Raquel Lima Peralva de Almeida; Francieli Aparecida de Oliveira; Christielle Lidianne Alencar Marinho; Alana Mirelle Coelho Leite; Rudval Souza da Silva

Universidade do Estado da Bahia - UNEB, Colegiado de Enfermagem. Senhor do Bonfim, BA - Brasil

Endereço para correspondência

Rudval Souza da Silva
E-mail: rudvalsouza@yahoo.com.br

Submetido em: 24/04/2018
Aprovado em: 03/04/2019

Contribuições dos autores: Análise Estatística: Ana R. L. P. Almeida, Francieli A. Oliveira, Christielle L. A. Marinho, Rudval S. Silva; Coleta de dados: Ana R. L. P. Almeida, Francieli A. Oliveira, Rudval S. Silva; Conceitualização: Ana R. L. P. Almeida, Francieli A. Oliveira, Rudval S. Silva; Gerenciamento de Recursos: Ana R. L. P. Almeida, Francieli A. Oliveira; Gerenciamento do Projeto: Ana R. L. P. Almeida, Rudval S. Silva; Investigação: Ana R. L. P. Almeida, Francieli A. Oliveira, Christielle L. A. Marinho, Rudval S. Silva; Metodologia: Ana R. L. P. Almeida, Francieli A. Oliveira, Christielle L. A. Marinho, Rudval S. Silva; Redação - Preparação do Original: Ana R. L. P. Almeida, Francieli A. Oliveira, Christielle L. A. Marinho, Alana M. C. Leite, Rudval S. Silva; Redação - Revisão e Edição: Ana R. L. P. Almeida, Francieli A. Oliveira, Christielle L. A. Marinho, Alana M. C. Leite, Rudval S. Silva; Supervisão: Rudval S. Silva; Visualização: Ana R. L. P. Almeida, Francieli A. Oliveira, Christielle L. A. Marinho, Alana M. C. Leite, Rudval S. Silva.

Fomento: Não houve financiamento.

Resumo

OBJETIVO: analisar a produção científica da Enfermagem brasileira, realizada nos cursos de mestrados e doutorados, sobre os cuidados paliativos.
MÉTODO: trata-se de estudo bibliométrico realizado a partir dos bancos de teses e dissertações dos programas de Pós-graduação em Enfermagem no Brasil.
RESULTADOS: foram identificadas 148 publicações, das quais após análise foi possível selecionar 119 estudos publicados entre os anos de 2000 e 2016, sendo 22 (18,00%) teses e 97 (82,00%) dissertações. A abordagem qualitativa foi a mais representativa, com 86 (72,27%) estudos. Identificada a predominância de estudos nas regiões Sudeste e Nordeste.
CONCLUSÃO: o número de teses e dissertações tem aumentando no decorrer dos anos. Ainda existe a necessidade de vislumbrar outras possibilidades para utilização de abordagens e métodos de pesquisa mais robustos e com maior grau de inovação nas investigações realizadas no contexto da Pós-graduação stricto senso no Brasil.

Palavras-chave: Enfermagem; Brasil; Cuidados Paliativos; Educação de Pós-Graduação em Enfermagem; Bibliometria.

 

INTRODUÇÃO

Durante toda a formação acadêmica dos profissionais de saúde, eles são educados a lutar contra a morte e salvar vidas, como se a morte fosse uma condição antagônica à vida e uma batalha a ser vencida a partir de tecnologias que possibilitam prolongar os dias de vida de maneira a não considerar as consequências de como o paciente irá sobreviver, ignorando questões relacionadas à qualidade e, acima de tudo, à dignidade humana. A morte se torna um exemplo claro do infortúnio das tecnologias, numa busca incansada pela manutenção da vida, um paradigma sobre o qual cabe reflexão e pouco discutido no meio acadêmico.1

A partir dos anos de 1960 surgiu na Europa o Movimento Hospice Moderno, o qual chegou à América do Norte por volta de 1974, expresso como Movimento pelos Cuidados Paliativos, e no Brasil a partir de 1980. O movimento constitui uma busca por cuidados no processo de morrer e no momento da morte, como são os cuidados prestados quando do nascimento, com respeito e dignidade em busca por minimizar o sofrimento daquele que está morrendo e dos seus familiares.2

Enfim, uma abordagem pautada em práticas e ações integradas e direcionadas para pacientes com doenças crônicas e progressivas, sem prognóstico de cura, e a seus familiares, baseando-se no controle da dor e outros sintomas que envolvem as dimensões biopsicossocioespiritual em prol da prevenção e alívio do sofrimento.3

Assim, surge a inquietação de como têm sido desenvolvidas as pesquisas sobre essa temática nos programas de pós-graduação stricto senso (mestrados e doutorados) na área da Enfermagem no Brasil. Estudo semelhante foi desenvolvido em Portugal e revelou que é crescente o número de publicações no âmbito dos cuidados paliativos por enfermeiros naquele país. E ressalta que o crescimento da produtividade sobre o tema acompanha o envelhecimento da população, seguindo o perfil de aumento das necessidades relativas à longevidade.4

Considerando tal cenário e que o movimento pelos cuidados paliativos no Brasil é mais recente do que nos países da Europa, entende-se como relevante empreender esforços para conhecer o que vem sendo produzido no nosso país, no qual a Pós-graduação em Enfermagem se encontra em processo de expansão, claramente comprovada pelo aumento no número de cursos e programas, da formação de egressos e da produtividade científica.5

Depreende-se como acentuada contribuição o conhecimento acerca da produção científica da Enfermagem brasileira sobre os cuidados paliativos, motivado pelo real avanço nos espaços ou ambientes que efetivam os mestrados acadêmico, profissional e doutorado.

Assim, questiona-se: qual e onde tem sido desenvolvida a produção científica acadêmica sobre cuidados paliativos por enfermeiros brasileiros quando da finalização dos seus cursos de doutorado e mestrado? Quais tipos de estudos, abordagens metodológicas e participantes ou objeto de investigação têm sido utilizados por esses pesquisadores? Logo, o estudo tem como objetivo analisar a produção científica da Enfermagem brasileira, realizada nos cursos de mestrado e doutorado sobre os cuidados paliativos.

 

MÉTODO

Trata-se de estudo exploratório, descritivo e retrospectivo, do tipo bibliométrico, que utilizou como base a pesquisa documental. A bibliometria propõe uma investigação dinâmica de abordagem quantitativa e visa analisar tanto o quanto se produziu sobre determinado assunto, quanto o que está sendo produzido.6 É um meio de situar a produção do conhecimento de um país em relação ao mundo, de uma instituição em relação a seu país ou de cientistas em relação a seus pares.7

A pesquisa bibliométrica se propõe a demonstrar características de determinado fenômeno e se compromete a explicitá-los de maneira clara e objetiva, visando à classificação do objeto a ser estudado8 neste estudo, representado pelas teses e dissertações.

A busca foi realizada no banco de teses e dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)9 e a coleta de dados ocorreu nos meses de agosto e setembro de 2017. Teve como fonte de dados a literatura digital para o levantamento das informações, não se constituindo, portanto, em estudo envolvendo seres humanos, o que dispensa a submissão e apreciação por parte do Comitê de Ética em Pesquisa.

A amostra se limitou às teses e dissertações na área de Enfermagem, considerando os seguintes critérios de inclusão: estudos que abordassem os cuidados paliativos, produzidos e vinculados às universidades brasileiras (públicas e privadas) com programas reconhecidos pela CAPES; sem delimitação de recorte temporal. E como critérios de exclusão, os estudos que fugiam da temática dos cuidados paliativos ou não fossem da área da Enfermagem.

A pesquisa foi realizada em duas etapas. No primeiro momento ocorreu uma busca na Plataforma Digital Sucupira usando a ferramenta de dados georreferencial – GEOCAPES10 ano base 2015, para identificação dos programas e respectivas regiões geográficas, com a finalidade de mapear o panorama quantitativo da pós-graduação em Enfermagem.

A segunda etapa compreendeu a busca no banco de teses e dissertações da CAPES, quando foi utilizada como palavra-chave “cuidado paliativo” no singular e plural, considerando que durante a coleta apuraram-se resultados distintos quando se levou em conta a flexão de número do substantivo. Na literatura nacional é notória essa variação, apesar de existir um descritor, “cuidados paliativos”, cadastrado e definido no vocabulário estruturado do Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde, também conhecido pelo seu nome original Biblioteca Regional de Medicina (BIREME) – DeCS – Descritores em Ciências da Saúde. Dessa busca resultou amostra inicial de 80 publicações quando se utilizou o descritor “cuidados paliativos” e 68 quando do uso da palavra-chave “cuidado paliativo”. Os limites/filtros considerados nas buscas foram: pertencerem a grande área – Ciências da Saúde; área de conhecimento; área de avaliação; e área de concentração – Enfermagem.

Para organização dos dados, foi utilizado o Software Microsoft Excel® versão 2010 para sistematizar a lista dos 70 Programas de pós-graduação, caracterizando-os por região, nome da instituição, tipo de programa (mestrado profissional, acadêmico e doutorado) e o conceito CAPES, além de organizar as variáveis a serem analisadas com base nas produções.

Com a amostra das 148 publicações (teses e dissertações) identificadas, passou-se a realizar uma pré-análise quanto aos títulos e resumos. Com base nos critérios de inclusão, resultou a amostra final de 120 publicações, a partir da exclusão daqueles estudos que destoavam da temática ou não se adequavam à área da Enfermagem, além de uma dissertação em duplicidade. Desse modo, este último número foi reduzido para 119 publicações analisadas.

Quando da seleção da amostra final, foi realizado o download das dissertações e teses e em seguida estas passaram por um processo de análise com base nas seguintes variáveis de interesse: instituição de ensino, ano da produção, nível do curso (doutorado ou mestrado), tipo de abordagem, referencial metodológico e objetos ou participantes dos estudos. Os downloads foram realizados nos repositórios institucionais das universidades.

Também com o uso do software mencionado, foi construído um instrumento bibliométrico baseado nas referidas variáveis, descritas na forma de planilha eletrônica, de modo a permitir melhor visualização e elaboração das tabelas para disposição dos dados e a extração de informações, sendo por fim analisadas por estatística descritiva simples.

 

RESULTADOS

Com base nas informações constantes na ferramenta GEOCAPES, foram identificadas 54 universidades brasileiras (públicas e privadas) que contam com 70 programas de pós-graduação stricto sensu na área da Enfermagem e integram os cursos de mestrados acadêmico, profissional e doutorado em Enfermagem, a saber: 16 mestrados acadêmicos, 18 mestrados profissionais, dois doutorados e 34 programas de mestrado/doutorado.

Das 54 instituições com programas na área da Enfermagem, em apenas 31 delas foi possível identificar publicações abordando os cuidados paliativos, sendo 22 teses defendidas entre os anos de 2009 e 2016 e 97 dissertações concluídas no período de 2000 a 2016.

Em relação às instituições de ensino onde os estudos foram realizados, verificou-se que a Universidade de São Paulo (USP) é a que mais tem desenvolvido pesquisas sobre a temática, apresentando o total de seis (5,04%) teses e 23 (19,33%) dissertações concluídas no período de 2000–2016. Na sequência vem a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), que apesar de ter realizado a primeira pesquisa apenas no ano de 2011, já desenvolveu 13 estudos envolvendo a temática, sendo quatro (3,36%) teses e nove (7,56%) dissertações.

Na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foram desenvolvidas nove pesquisas, a saber: duas (5,89%) teses e sete (1,68%) dissertações, como apresentado na Tabela 1.

 

 

Do total das 119 publicações que compuseram o corpus da pesquisa, 97 (81,53%) são dissertações e 22 (18,48%) teses. A pesquisa mais antiga trata-se de uma dissertação defendida no programa de pós-graduação da Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia no ano de 2000. Esse programa à época contava apenas com o curso de mestrado e atualmente é um programa de doutorado/mestrado.

Nos 10 anos seguintes, o número de publicações ainda era bastante incipiente, valendo destacar que nos anos de 2001 e 2003 não foi identificada publicação alguma. As duas primeiras teses versando sobre cuidados paliativos foram defendidas em 2009, sendo uma com data de defesa em 14 de dezembro de 2009 no Programa de Pós-graduação da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP)/Ribeirão Preto e a outra no dia seguinte no Programa da Escola de Enfermagem da Universidade de Santa Catarina (UFSC).

A partir de 2011 foi possível observar considerável aumento de pesquisas sobre cuidados paliativos, sendo o ano de 2015 aquele que teve o maior número de teses e dissertações concluídas, conforme pode ser observado na Tabela 2 apresentada a seguir.

 

 

Quanto ao tipo de abordagem metodológica, foi possível identificar que os trabalhos qualitativos foram os mais representativos, com o total de 86 (72,27%), seguidos de 28 (23,53%) estudos que utilizaram a abordagem quantitativa. Cinco pesquisas empregaram abordagem mista (Tabela 3).

 

 

Se se comparar os tipos de abordagens entre as dissertações e teses, os resultados demonstram que durante o mestrado os pesquisadores realizaram mais estudos de abordagem qualitativa (74 – 76,29%) do que quantitativos (21 – 21,65%) e bem menos foram os de abordagem mista, apenas dois (2,06%).

Nos estudos de doutorado houve predomínio da abordagem quantitativa em termos relativos, no total de sete (31,82%), em comparação aos que utilizaram a abordagem qualitativa (12 – 54,54%). Em relação ao uso da abordagem mista, percebeu-se discreto aumento, com três teses (13,64%).

Quanto aos tipos de estudos e técnicas utilizadas para análise dos dados, foi possível evidenciar que a técnica de análise de conteúdo foi a mais empregada para a organização e análise dos dados, com o total de 27 (22,69%) trabalhos que a utilizaram. Em seguida, vêm os estudos epidemiológicos do tipo transversal, no total de 14 (11,78%), utilizando-se análises estatísticas. Os estudos fenomenológicos ocupam o terceiro lugar, com 13 (10,93%) pesquisas, conforme descrito na Tabela 4.

 

 

No que concerne ao participante – ou objeto de investigação –, houve predominância de 31 (26,06%) estudos realizados com enfermeiros. Outros tiveram como participantes apenas os pacientes (28 – 23,53%); familiares em 18 (15,13%); equipe de Enfermagem (enfermeiro, técnico e auxiliar de Enfermagem) em 11 (9,24%) estudos e outros, 10 (8,40%) tiveram como população a equipe interdisciplinar (enfermeiros, médicos, psicólogos, fisioterapeutas, assistentes sociais e outros), como se pode observar na Tabela 5. Apenas seis (5,04%) estudos utilizaram exclusivamente dados secundários.

 

 

DISCUSSÃO

O crescimento da pesquisa no cenário brasileiro está relacionado ao pioneirismo do Brasil, no contexto da América Latina, no que se relaciona às pesquisas na área de Enfermagem, não somente com o início da pós-graduação em Enfermagem, mas também considerando o crescimento da produção científica na área11, o que tem aumentado em termos quantitativos e qualitativos nos últimos anos.

Nas pesquisas concernentes aos cuidados paliativos, é possível ousar afirmar que o Brasil segue uma tendência internacional, com o desenvolvimento de pesquisas sobre esta temática no cenário da pós-graduação brasileira, na área da Enfermagem, o que vem crescendo ao longo dos anos. Esse fato pode estar relacionado ao envelhecimento populacional e ao surgimento das doenças crônicas, bem como ao aumento da expectativa de vida da população12, o que, por consequência, conduz a uma demanda por outras possibilidades de cuidados que não visem somente à cura, mas reconheçam a necessidade de cuidar para além da cura e em prol do alívio do sofrimento e preservação da dignidade da pessoa.

Estudos13 revelam uma abordagem pautada nos cuidados paliativos, desde que a prestação destes seja individualizada às diferentes condições de vida de cada indivíduo. Vale ressaltar que muitas pessoas, inclusive profissionais de saúde, ainda associam os cuidados paliativos àqueles cuidados prestados na fase final de vida, especialmente com os doentes com câncer, até pelo perfil desses pacientes, mais propensos a receber os cuidados paliativos do que aqueles com outras doenças.

Isso induz a uma má prática dos cuidados paliativos, de modo que muitas vezes a sua oferta é postergada para as últimas semanas ou dias de vida, momento no qual a doença está

avançada e os tratamentos direcionados para a doença não são mais efetivos. A prestação tardia dos cuidados paliativos torna-se um desperdício de oportunidade em prestar melhor cuidado a pacientes e famílias. Nos países desenvolvidos, cerca de 80% das pessoas que morrem poderiam ter se beneficiado dos cuidados paliativos na fase inicial da sua doença.13

Investigação14 que visou caracterizar os grupos de pesquisa, com linhas voltadas para os cuidados paliativos, cadastrados no Diretório de Grupos de Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) entre 1994 e 2014, constatou aumento no número destes. Mesmo assim, ainda existe disparidade entre as regiões do país, com maior concentração dos citados grupos nas regiões Sudeste e Nordeste, o que corrobora os achados deste estudo em relação aos programas de pós-graduação com maior número de publicações na Universidade de São Paulo e na Universidade Federal da Paraíba. Isso se deve, possivelmente, a se tratar de investigações realizadas por pesquisadores vinculados a esses grupos de pesquisas pioneiros nas investigações sobre os cuidados paliativos.

Quanto à primeira defesa de dissertação cuja temática de investigação é sobre os cuidados paliativos, os resultados apresentam a dissertação defendida no ano 2000, a qual teve por objetivo “identificar as representações sociais da família no desenvolvimento de cuidados paliativos ao doente oncológico terminal em domicílio”, uma investigação realizada com foco nos doentes oncológicos em cuidados de fim de vida em acompanhamento domiciliar, um estudo de Representação Social.15

Apesar de este estudo ter se centrado nos pacientes com diagnóstico oncológico, vale ressaltar que, nos dias atuais, a abordagem dos cuidados paliativos deve se expandir para além do câncer, haja vista a alta incidência de doenças crônicas não transmissíveis, inclusive com pessoas que vivem com comorbidades, o que tende a contribuir para uma sobrecarga de sintomas que exige controle eficaz por parte da equipe de cuidados paliativos.16

Após essa primeira dissertação defendida, observa-se que, por quase uma década, o número de pesquisas ainda foi muito tímido nesse cenário, talvez em virtude da carência de serviços direcionados para os cuidados paliativos e os parcos conhecimentos dos pesquisadores, a ponto de se sentirem estimulados a pesquisar sobre.

No Brasil, os registros dos primeiros serviços de cuidados paliativos datam da década de 80 no século XX, inicialmente em Porto Alegre (RS), em 1979, e posteriormente, em 1983, com a criação de um serviço na cidade de São Paulo (SP) da Santa Casa de Misericórdia.2

Todavia, somente em 1997 foi criada a primeira instituição a discutir e representar os anseios dos profissionais com interesses em trabalhar os cuidados paliativos, a Associação Brasileira de Cuidados Paliativos (ABCP), a qual veio a fortalecer e incentivar o desenvolvimento de pesquisas no âmbito da temática e com caráter multiprofissional.2,14

O fato de os primeiros serviços terem surgido em São Paulo e da criação da ABCP também naquele estado da federação pode justificar a realização do maior número de pesquisas acerca da temática na Universidade de São Paulo, aliado à criação, em 1994, do primeiro Grupo de Pesquisa em Cuidados Paliativos, também vinculado a essa universidade e denominado “Dor, controle de sintomas e cuidados paliativos.”14

Vale ressaltar que, apesar das primeiras iniciativas isoladas ocorridas nos anos de 1980 e da criação da ABCP em 1997, a qual não tem demonstrado estar ativa, observa-se que de fato somente a partir de 2005, com a criação da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), foi possível observar aumento do interesse por parte dos profissionais em estudar a temática. Com essa nova organização, passaram a acontecer congressos a cada dois anos, o que tem contribuído para discussões e interações entre pesquisadores do Brasil e do mundo. Em 2016 aconteceu o VI Congresso Internacional de Cuidados Paliativos em Bento Gonçalves (RS), em parceria com a Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP), que promoveu o III Congresso Lusófono de Cuidados Paliativos.

Associado a esse fato histórico, é possível observar que a partir do ano de 2006 houve aumento nas publicações sobre a temática, o que pode ter relação com o movimento de disseminação promovido pela academia, a qual, apesar de ser uma organização fundada por médicos e ter na sua diretoria apenas este profissional, aceita outros como associados.

É importante frisar que os cuidados paliativos no Brasil ainda são relativamente recentes e, tratando-se de um país continental, torna-se um desafio sua expansão em nível nacional. Todavia, é perceptível que as discussões e a formação de equipes de cuidados paliativos têm aumentado e, em paralelo, o interesse dos profissionais em se especializarem, tornando-se multiplicadores17, ainda que exista uma lacuna na formação especializada.

Na abordagem metodológica dos estudos analisados, há predomínio do tipo qualitativo. Ainda são muito incipientes as publicações com abordagem quantitativa, talvez até pelo tempo em que a prática passou a ser mais difundida no Brasil. Espera-se contar com novos estudos de coortes e investigações que busquem comprovar as evidências científicas das práticas dos cuidados paliativos.

Essa situação se confirma em outro estudo que caracterizou a produção da pós-graduação brasileira na área da Enfermagem e reconhece que há predomínio no uso da abordagem qualitativa em detrimento da quantitativa.18

Estudo19 que buscou analisar a formação dos doutores em Enfermagem no Brasil traz como resultado a predominância no uso da abordagem qualitativa nas teses e, com menos frequência, a utilização da abordagem quali-quantitativa. E possivelmente esses achados mostram paralelo com a pequena oferta de componentes curriculares que discutam em profundidade a ciência de Enfermagem e o uso da abordagem quantitativa para o desenvolvimento de pesquisa do tipo experimental, sobretudo os ensaios clínicos, considerados capazes de produzir evidências robustas.

A respeito do tipo de estudo, houve prevalência na utilização da técnica de análise de conteúdo como recurso metodológico para sistematização dos dados. Trata-se de método definido como um conjunto de técnicas utilizadas para análise das comunicações, com o objetivo de permitir inferências. Utiliza as condições em que os dados foram produzidos, levando em consideração as variáveis investigadas. Entre as diversas nuanças da análise de conteúdo apresentadas nas investigações qualitativas, é importante destacar sua relação entre a questão de pesquisa e a seleção da técnica como método proposto para o alcance dos resultados. Apesar das suas limitações, como em qualquer outro método, este possibilita o estudo de fenômenos sociais assim como suas interações.20

Percebe-se que existe urgente necessidade em direcionar esforços para pesquisas que vão além da análise das comunicações a partir de percepções e conhecimentos, mas que possibilitem evidências que sustentem a prática no contexto dos cuidados paliativos. Há, ainda, premência de estudos tendo como cenário a atenção primária à saúde, haja vista que foi possível evidenciar um número ainda muito incipiente de dissertações que deram ênfase a esse cenário, três estudos na Universidade de São Paulo, dois na Universidade Federal de São João del-Rey e um na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Como a experiência do processo de morrer, da morte e do luto é uma vivência muito rica, tanto para os pacientes, quanto para os familiares, observa-se que muitos estudos utilizaram a fenomenologia, sendo que, daqueles analisados e que usaram tal método, quatro foram direcionados para vivências de pacientes; três dos familiares e, na sua maioria, com os profissionais da Enfermagem e equipe de cuidados paliativos quanto à sua vivência na prestação dos cuidados.

A partir do método de análise de conceito, segundo Rodgers, foi analisado o conceito de “cuidados paliativos” na literatura das áreas da Enfermagem, Medicina, Psicologia e Bioética, o que trouxe contribuição relevante no cenário dos cuidados paliativos no Brasil.21

Os estudos transversais foram marcantes e vale destacar aqueles de tradução, adaptação cultural e validação inicial da Escala de Resultados para o Brasil (POS-Br);22 validação semântica das palavras dos Cartões de Qualidade da Dor em crianças hospitalizadas;23 estudo sobre a qualidade de vida e a fadiga de pessoas em cuidados paliativos;24 e, por último, um que avaliou as propriedades psicométricas do European Organization for Research and Treatment of Cancer Quality of Life Questionnarie Core 15 PAL (EORTC-QLQ-C15-PAL) sobre a qualidade de vida de pacientes oncológicos.25

Tais estudos visam subsidiar a prática assistencial do enfermeiro no processo de avaliação do paciente quando do planejamento do cuidado, ainda que sejam pouco explorados e tímidos os estudos transversais nesse cenário de pesquisas realizadas por enfermeiros.19

Considerando os cuidados direcionados para a família, foi possível observar a utilização do modelo Calgary de Avaliação Familiar no desenvolvimento de estudo de caso, com o propósito de analisar as famílias nos aspectos: estrutural, de desenvolvimento e funcional.26

Fica clara a escassez de pesquisas de revisões sistemáticas que evidenciem a prática, considerando a centralidade na produção de conhecimentos relacionados às questões subjetivas e não propriamente na geração de fortes evidências que possibilitem análise e explicação sobre o processo de cuidar. Estudo que analisou a formação de doutores em Enfermagem no Brasil revela a necessidade de pesquisas com abordagens de investigações sistemáticas fundamentadas em explicações, metodologias compatíveis e suportes de teorias próprias que deem sustentação aos modelos e aos processos de cuidar.19

No que diz respeito às populações dos estudos, percebeu-se a prevalência de enfermeiros (26,05%), seguido de pacientes (23,53%) e familiares (15,13%). Estudo semelhante realizado em Portugal demonstra evidências similares, indicando a prevalência de profissionais de saúde, pacientes e familiares como população-alvo dos estudos naquele país, justificado por mais acessibilidade aos participantes e até mesmo pela dificuldade em pesquisar pacientes em cuidados de fim de vida, devido à vulnerabilidade diante da morte.4 É possível que, na realidade brasileira, ter os enfermeiros como o maior número de participantes seja também pela proximidade dos pesquisadores na realização da coleta de dados. Ainda assim, insistimos na importância de se pensar na ampliação do cenário de participantes e aliar novas pesquisas ao campo das práticas de cuidar e dos resultados que o cuidado profissional imprime na qualidade de vida e dignidade da pessoa em cuidados paliativos e sua família, inclusive no processo do luto.

 

CONCLUSÃO

Foi possível observar que o número de publicações acerca da temática estudada tem aumentado no decorrer dos anos, o que tem favorecido a disseminação do conhecimento e das práticas do cuidar em Enfermagem no cenário interdisciplinar dos cuidados paliativos.

Nas teses e dissertações analisadas é marcante a predominância de estudos qualitativos e pouco tem sido a ênfase em estudos que possibilitem gerar fortes evidências, a exemplo dos estudos de revisões sistemáticas que visam fortalecer a Enfermagem baseada em evidências. Importante chamar a atenção para o número incipiente de estudos que pesquisam e discutem a atuação do enfermeiro nos cuidados paliativos no âmbito da atenção primária à saúde.

Durante a pesquisa, também se pôde constatar que algumas publicações possuem deficiência quanto à descrição do método e desenho do estudo, o que por vezes dificultou sua classificação. Como fator limitante do estudo, cita-se a desatualização por parte de alguns repositórios institucionais de dissertações e teses.

Por fim, esta investigação permitiu caracterizar a produção da pós-graduação stricto senso na área da Enfermagem, e os achados auxiliaram na obtenção de um panorama acerca da pesquisa sobre os cuidados paliativos por enfermeiros. Ademais, a contribuição deste estudo é a indicação da necessidade de que sejam desenvolvidas mais pesquisas a partir da utilização de abordagens e métodos de investigação mais robustos e com maior grau de inovação, dadas a importância e a atualidade do assunto e a necessidade de aprimorar as práticas de cuidados a pessoa em processo de terminalidade em busca de uma boa morte.

 

REFERÊNCIAS

1. Academia Nacional de Cuidados Paliativos. Manual de cuidados paliativos. 2ª ed. Rio de Janeiro(RJ): Diagraphic; 2012.

2. Silva RS, Amaral JB. Trajetória histórica do Movimento Hospice Moderno e as contribuições de uma enfermeira. In: Silva RS, Amaral JB, Malagutti W. Enfermagem em cuidados paliativos: cuidando para uma boa morte. São Paulo(SP): Martinari; 2013.

3. World Health Organization. WHO definition of palliative care. Genebra: WHO; 2018[citado em 2018 jan. 02]. Disponível em: http://www.who.int/cancer/palliative/definition/en/

4. Ferreira MAL, Pereira AMNA, Martins JCA, Barbieri-Figueiredo MC. Palliative care and nursing in dissertations and theses in Portugal: a bibliometric study. Rev Esc Enferm USP. 2016[citado em 2018 jan. 02];50(2):313-9. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S0080-623420160000200019

5. Schochi CGS, Munari DB, Gelbke FL, Erdmann AL, Gutiérrez MGR, Rodrigues RAP. Pós-Graduação Stricto Sensu em Enfermagem no Brasil: avanços e perspectivas. Rev Bras Enferm. 2013[citado em 2018 jan. 02];66(Spe):80-9. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672013000700011

6. Santiago LC, Carlantonio LFM. The production of knowledge in nursing in the BRIC countries: a bibliometric study. Texto Contexto Enferm. 2015[citado em 2018 jan. 02];24(2): 486-93. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/0104-07072015001362014

7. Leao ER, Aquarone RL, Rother ET. Pain research: bibliometric analysis of scientific publications of a Brazilian Research Institution. Rev Dor. 2013[citado em 2018 jan. 02];14(2):94-9. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S1806-00132013000200004

8. Vanti NAP. Da bibliometria à webometria: uma exploração conceitual dos mecanismos utilizados para medir o registro da informação e a difusão do conhecimento. Ci Inf. 2002[citado em 2018 jan. 02];31(2):152-62. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ci/v31n2/12918.pdf

9. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Serviço: Banco de teses e dissertações. Brasília (DF): CAPES; 2017[citado em 2017 out. 24]. Disponível em: http://bancodeteses.capes.gov.br/banco-teses/

10. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Serviço: Estatística GeoCapes. 2015. Brasília (DF): CAPES; 2016[citado em 2017 out. 02]. Disponível em: http://geocapes.capes.gov.br/geocapes2/

11. Silva RS. Pós-graduação e a pesquisa em Enfermagem na América Latina: avanços e desafios. Rev Cuid. 2015[citado em 2018 jan. 02];6(2):1019-21. Disponível em: http://dx.doi.org/10.15649/cuidarte.v6i2.307

12. Silva RS, Santos RD, Evangelista CLS, Marinho CLA, Lira GG, Andrade MS. Nursing team actions from the perspective of relatives of patients under palliative care. REME - Rev Min Enferm. 2016[citado em 2018 jan. 02];20:e983. Disponível em: http://www.reme.org.br/artigo/detalhes/1119

13. Murray SA, Kendall M, Mitchell G, Moine S, Amblas-Novellas J, Boyd K. Palliative care from diagnosis to death. BMJ. 2017[citado em 2018 jan. 02];27(356):j878. Disponível em: https://doi.org/10.1136/bmj.j878

14. Nickel L, Oliari LP, Vesco SNPD, Padilha MI. Research groups in palliative care: the brazilian reality from 1994 to 2014. Esc Anna Nery Rev Enferm. 2016[citado em 2018 jan. 02];20(1):70-6. Disponível em: http://dx.doi.org/10.5935/1414-8145.20160010

15. Santana ADA. Cuidados paliativos ao doente oncológico terminal em domicílio: representações sociais da família [dissertação]. Salvador (BA): Universidade Federal da Bahia, Programa de Pós-graduação em Enfermagem; 2000.

16. Bhatnagar S, Gupta M. Future of palliative medicine. Indian J Palliat Care. 2015[citado em 2018 jan. 02];21:95-104. Disponível em: http://www.jpalliativecare.com/text.asp?2015/21/1/95/150201

17. Gomes ALZ, Othero MB. Cuidados paliativos. Estud Av. 2016[citado em 2018 jan. 02];30(88):155-66. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ea/v30n88/0103-4014-ea-30-88-0155.pdf

18. Munari DB, Chaves LDP, Peduzzi M, Laus AM, Fugulin FMT, Ribeiro LCM, et al. The setting of research production by nursing and management graduate programs in Brazil. Rev Esc Enferm USP. 2011[citado em 2018 jan. 02];45(spe):1543-50. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/reeusp/v45nspe/en_v45nspea02.pdf

19. Scochi CaGS, Gelbcke FFL, Ferreira MA, Lima MADS, Padilha KG, Padovani NA, et al. Nursing Doctorates in Brazil: research formation and theses production. Rev Latino-Am Enferm. 2015[citado em 2018 jan. 02];23(3):387-94. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rlae/v23n3/0104-1169-rlae-23-03-00387.pdf

20. Cavalcante RB, Calixto P, Pinheiro MMK. Análise de Conteúdo: considerações gerais, relações com a pergunta de pesquisa, possibilidades e limitações do método. Inf & Soc Est. 2014[citado em 2018 jan. 02];24(1):13-8. Disponível em: http://www.ies.ufpb.br/ojs/index.php/ies/article/view/10000/10871

21. Rodrigues IG. Cuidados paliativo; análise de conceito [dissertação]. Ribeirão Preto (SP): Universidade de São Paulo, Programa de Pós-graduação em Enfermagem Fundamental; 2004.

22. Correia FR. Tradução, adaptação cultural e validação inicial no Brasil da Palliative Outcome Scale (POS) [dissertação]. São Paulo (SP): Universidade de São Paulo, Programa de Pós-graduação em Enfermagem em Saúde Pública; 2012.

23. Guedes DMB. Avaliação da dor de crianças: validação semântica dos Cartões de Qualidade da Dor [dissertação]. São Paulo (SP): Universidade de São Paulo, Programa de Pós-graduação em Enfermagem; 2016.

24. Cardoso RC. Qualidade de vida relacionada à saúde e fadiga de pessoas com câncer de pulmão em cuidados paliativos [dissertação]. Ribeirão Preto (SP): Universidade de São Paulo, Programa de Pós-graduação em Enfermagem em Saúde Pública; 2015.

25. Nunes NA. The quality of life of Brazilian patients in palliative care: validation of the European Organization for Research and Treatment of Cancer Quality of Life Questionnaire Core 15 PAL (EORTC QLQ-C15-PAL). Support Care Cancer. 2014[citado em 2018 jan. 02];22(6):1595-600. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs00520-014-2119-1

26. Cavalcante AES, Rodrigues ARM, Paiva GM, Netto JJM, Goyanna NF. Aplicação do modelo Calgary para avaliação familiar na estratégia de saúde da família. Rev Espaço Ciênc Saúde. 2016[citado em 2018 jan. 02];4(1):16-28. Disponível em: http://revistaeletronica.unicruz.edu.br/index.php/enfermagem/article/view/5247

Logo REME

Logo CC BY
Todo o conteúdo da revista
está licenciado pela Creative
Commons Licence CC BY 4.0

GN1 - Sistemas e Publicações