REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume Atual: 23:e-1192 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20190040

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Pesquisa

Prazer e sofrimento em trabalhadores de enfermagem da sala de recuperação pós-anestésica

Pleasure and suffering in nursing workers from post-anesthesia care unit

Pamela Borba Santos Buss1; Rosângela Marion da Silva2; Carmem Lúcia Colomé Beck2; Liliane Ribeiro Trindade3; Francine Cassol Prestes4; Alexa Pupiara Flores Coelho5

1. Hospital Santa Cruz - HSC, Serviço de Enfermagem. Santa Cruz do Sul, RS - Brasil
2. Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, Departamento de Enfermagem. Santa Maria, RS - Brasil
3. Universidade Federal do Pampa - UNIPAMPA, Programa de Residência Multiprofissional em Saúde e em Área Profissional da Saúde. Uruguaiana, RS - Brasil
4. Instituto Federal Farroupilha - IFF, Coordenação de Assistência Estudantil. São Vicente do Sul, RS - Brasil
5. UFSM, Centro de Ciências da Saúde. Palmeira das Missões, RS - Brasil

Endereço para correspondência

Rosângela Marion da Silva
E-mail: cucasma@terra.com.br

Submetido em: 19/07/2018
Aprovado em: 13/02/2019

Contribuições dos autores: Análise estatística: Rosângela M. Silva, Francine C. Prestes; Coleta de dados: Pamela B. Santos; Conceitualização: Rosângela M. Silva, Carmem L. C. Beck, Alexa P. F. Coelho, Pamela B. Santos, Liliane R. Trindade, Francine C. Prestes; Gerenciamento do projeto: Rosângela M. Silva, Pamela B. Santos, Liliane R. Trindade; Metodologia: Rosângela M. Silva, Carmem L. C. Beck, Liliane R. Trindade, Francine C. Prestes; Redação - preparação do original: Rosângela M. Silva, Carmem L. C. Beck, Alexa P. F. Coelho, Pamela B. Santos, Liliane R. Trindade, Francine C. Prestes; Redação - revisão e edição: Rosângela M. Silva, Carmem L. C. Beck, Alexa P. F. Coelho, Pamela B. Santos, Liliane R. Trindade, Francine C. Prestes; Validação: Rosângela M. Silva, Carmem L. C. Beck, Alexa P. F. Coelho, Pamela B. Santos, Liliane R. Trindade; Visualização: Alexa P. F. Coelho, Liliane R. Trindade.

Fomento: Não houve financiamento.

Resumo

OBJETIVO: analisar o prazer e sofrimento dos trabalhadores de Enfermagem que atuam na sala de recuperação pós-anestésica.
MÉTODO: estudo quantitativo, transversal, com 56 trabalhadores de Enfermagem. Utilizaram-se um questionário sociolaboral e a Escala de Indicadores de Prazer e Sofrimento no Trabalho para a coleta de dados. Os dados foram analisados pelo programa Predictive Analytics Software versão 18.0, com níveis de significância de 5%.
RESULTADOS: os fatores liberdade de expressão e realização profissional, relacionados ao prazer foram avaliados como satisfatórios. Nos fatores relacionados ao sofrimento, o esgotamento profissional foi avaliado como crítico e falta de reconhecimento, como satisfatório. Houve associação entre a variável afastamento do trabalho por motivo de doença e os fatores esgotamento profissional (p=0,022) e falta de reconhecimento (p=0,002). O cargo de auxiliar de Enfermagem associou-se à não satisfação profissional (p=0,047).
CONCLUSÕES: a avaliação crítica quanto ao esgotamento profissional indica risco de adoecimento moderado do trabalhador, o que sugere comprometimento da saúde dos trabalhadores de Enfermagem. Os auxiliares de Enfermagem não estavam satisfeitos profissionalmente. Os resultados contribuem para ampliar as reflexões sobre a saúde do trabalhador, em especial em recuperação pós-anestésica.

Palavras-chave: Saúde do Trabalhador; Condições de Trabalho; Esgotamento Profissional.

 

INTRODUÇÃO

A recuperação pós-anestésica (RPA) corresponde a um setor pertencente à unidade fechada do centro cirúrgico no qual o paciente submetido a procedimentos anestésico-cirúrgicos permanece sob observação e cuidados constantes até que haja recuperação da consciência, estabilidade dos sinais vitais e prevenção das intercorrências do período pós-anestésico. Por essas razões, este é um dos setores que mais exigem atenção da equipe de Enfermagem. O processo de trabalho de Enfermagem na RPA mobiliza carga emocional constante inerente à assistência ao paciente crítico.1,2

Esse cenário do cuidado faz parte da unidade fechada do centro cirúrgico. O convívio em ambiente fechado favorece a dualidade de sentimentos, ora prazer, ora sofrimento, uma vez que os trabalhadores passam grande parte do turno de trabalho confinados em um local pequeno, convivendo com os mesmos colegas quase que diariamente. No que se refere à estrutura física, o ambiente fechado é visto como um quesito facilitador para o desempenho do trabalho, mostrando-se importante na vigilância dos pacientes graves, já que facilita a observação e intervenções em pouco tempo.3

Essas situações somadas às jornadas de trabalho intensas, ao estresse, à convivência com a morte, às limitações quanto ao número de trabalhadores e de recursos materiais disponíveis, medo e ansiedade causam vivências de sofrimento no trabalho,4 o que pode comprometer o prazer e evoluir para o desgaste e adoecimento, afetando a saúde do trabalhador. A partir disso, ratifica-se a importância de identificar vivências que privilegiem a saúde e prazer no trabalho e que possam reduzir o desgaste profissional.5

As vivências de prazer são proporcionadas pelo vínculo com os usuários e suas famílias, pelo reconhecimento no trabalho e pela atribuição de um sentido para este, o que contribui para a construção da identidade do indivíduo que trabalha e, portanto, seu desenvolvimento humano.6 A frustração dessas experiências pode conduzir os trabalhadores a vivências de sofrimento. A partir desse entendimento, supõe-se que, no contexto dos trabalhadores de RPA, as vivências de prazer estejam comprometidas pela restrição no convívio com familiares e demais trabalhadores da instituição, o que é inerente à sua permanência em ambiente fechado.

Nesse sentido, analisar os indicadores de prazer e sofrimento pode contribuir para a identificação dos fatores que exercem influência sobre esses sentimentos, possibilitando o direcionamento de ações de promoção à saúde do trabalhador. Especificamente, investigações no campo da saúde dos trabalhadores de RPA são relevantes para dar visibilidade a essas equipes e agregar conhecimentos científicos em torno de sua experiência com o trabalho.

Estudos que avaliaram quantitativamente as ocorrências de prazer e sofrimento no trabalho foram realizados em um serviço de hemodiálise,7 em unidades de atenção psicossocial,8 em unidades de terapia intensiva (UTI),9 e em serviço móvel de urgência.10 No entanto, não foram identificados estudos sobre essa temática em RPA, o que caracteriza uma lacuna no conhecimento e justifica a importância desta investigação, bem como sua possível contribuição para a produção do conhecimento na saúde e Enfermagem.

A partir disso, delineou-se a questão de pesquisa: qual a avaliação do prazer e sofrimento da equipe de Enfermagem que atua em RPA? Para responder essa questão, o objetivo deste estudo foi analisar o prazer e sofrimento dos trabalhadores de Enfermagem que atuam na sala de RPA.

 

MÉTODO

Trata-se de estudo quantitativo transversal realizado em um setor de recuperação pós-anestésica de um hospital de ensino. A instituição possui cerca de 400 leitos e está localizada na Região Sul do Brasil. O setor de RPA vincula-se à unidade de centro cirúrgico e possui 10 leitos para a recuperação de pacientes no período de pós-operatório imediato.

A coleta de dados ocorreu no mês de agosto de 2016, quando atuavam no setor 20 enfermeiros, 39 técnicos e 10 auxiliares, totalizando população de 69 trabalhadores de Enfermagem. Para participar do estudo, o trabalhador deveria atuar na sala de RPA há, pelo menos, seis meses (delimitação temporal que confere uma experiência mínima com o trabalho, conforme estabelecido pelo instrumento utilizado neste estudo). Foram excluídos os trabalhadores em férias ou qualquer outro tipo de afastamento do trabalho no período de coleta de dados.

Após a aprovação do estudo pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição, sob Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) número 575581160.00005346, os trabalhadores foram abordados individualmente no local de trabalho e convidados a participar da pesquisa, sendo informados sobre os objetivos e a voluntariedade na participação. Posteriormente, foi entregue o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e solicitadas a leitura e posterior assinatura em caso de concordância com os termos expostos. Mediante assinatura, os participantes receberam um envelope que continha os instrumentos de coleta de dados, sendo pactuado um período de cinco dias para a devolução.

Foram utilizados como técnica de coleta de dados um questionário sociolaboral autoaplicável elaborado pelos autores da pesquisa e a Escala de Indicadores de Prazer e Sofrimento no Trabalho (EIPST). O questionário sociolaboral investigou idade, tempo de serviço na profissão, sexo, situação conjugal, turno de trabalho, categoria profissional, existência de outro(s) emprego(s), acidentes de trabalho, afastamentos, número de dias de afastamento e satisfação laboral.

A EIPST é uma das quatro escalas que compõem o Inventário sobre o Trabalho e Riscos de Adoecimento (ITRA), um instrumento validado no Brasil, autoaplicável, que avalia ocorrências de prazer/sofrimento no trabalho.11 É uma escala do tipo Likert, composta de 32 itens distribuídos em quatro fatores. Dois avaliam as vivências de prazer e os outros dois, as vivências de sofrimento. Os indicadores de prazer e sofrimento são mensurados a partir da avaliação, pelo trabalhador, da frequência com que sentimentos são vivenciados no período de seis meses (0 = nenhuma vez, 1 = uma vez, 2 = duas vezes, 3 = três vezes, 4 = quatro vezes, 5 = cinco vezes e 6 = seis ou mais vezes). O fator liberdade de expressão (oito itens) está relacionado à liberdade para pensar, organizar e falar sobre o seu trabalho; realização profissional (nove itens) avalia as vivências de gratificação profissional, orgulho e identificação com o trabalho; esgotamento profissional (sete itens) relaciona-se a insegurança, inutilidade, desgaste e estresse no trabalho; e falta de reconhecimento (oito itens) avalia vivências de injustiça, indignação e desvalorização pelo não reconhecimento do seu trabalho.

Os dados foram digitados e organizados em uma planilha Excel, sendo duplamente conferidos para evitar possíveis erros de digitação; sequencialmente, foi feita análise no programa PASW Statistic® (Predictive Analytics Software), versão 18.0 para Windows. Inicialmente agruparam-se os itens que compõem cada um dos fatores, sendo a análise da EIPST realizada com base nas médias gerais dos fatores e número absoluto de participantes.11 A seguir, foram analisados individualmente os itens de cada fator, calculando-se a frequência simples, média e desvio-padrão, conforme a Tabela 1.

 

 

As variáveis qualitativas foram descritas por meio das frequências absoluta e relativa, enquanto que as quantitativas, com distribuição normal, pela média e desvio-padrão. Para associações entre os fatores da EIPST e as variáveis sociolaborais (categóricas) utilizou-se o teste qui-quadrado, com nível de significância de 5% (p<0,05). Realizou-se o cálculo dos resíduos ajustados nos casos em que houve associação global constatada (p<0,05), para identificar a associação local significativa entre as categorias. A confiabilidade da escala foi avaliada por meio do coeficiente Alfa de Cronbach.

 

RESULTADOS

Foram excluídos sete trabalhadores (três com atuação inferior a seis meses no setor e quatro com afastamento do trabalho). A população elegível foi de 62 trabalhadores. Destes, houve seis perdas (quatro não devolveram o instrumento após 30 dias e dois instrumentos não foram considerados válidos pela incompletude no preenchimento dos itens).

A população do estudo reuniu 56 trabalhadores de Enfermagem, sendo 17 enfermeiros, 31 técnicos e oito auxiliares. Predominou o sexo feminino (76,82%; n= 43), com média de idade de 40,2 anos (DP= 8,07), sem companheiro (66,12%; n= 37). Identificaram-se, entre os participantes, tempo de serviço de 3,99 anos (DP=4,43), com predomínio de atuação no turno noturno (42,86%; n=24), sem outro emprego (94,63%; n=53), não ocorrência de acidente no trabalho (85,71%; n= 48) e que estavam satisfeitos no trabalho (98,2%; n= 55). Ainda se evidenciou que 57,1% (n=32) dos trabalhadores se afastaram do trabalho por motivo de doença, sendo 1,7 a média de dias de afastamento.

Sobre a escala EIPST, identificou-se no fator esgotamento profissional avaliação crítica (2,19±1,39). Todos os fatores da EIPST apresentaram consistência interna satisfatória, conforme a Tabela 2.

 

 

Nas vivências de prazer no trabalho, o fator liberdade de expressão apresentou como item com maior média a “liberdade com os colegas” (4,96±1,23) (avaliação satisfatória) e a menor média no item “liberdade com a chefia” (3,50±1,78) (avaliação crítica). No fator realização profissional, identificou-se maior média no item “orgulho pelo que faço” (5,72±0,76) (avaliação satisfatória) e o item com menor média foi o “reconhecimento” (3,54±1,68) (avaliação crítica).

Nas vivências de sofrimento, o fator esgotamento profissional apresentou como item com maior média o “estresse” (3,02±1,91) (avaliação crítica) e o item com menor média o “medo” (1,05±1,35) (avaliação satisfatória). O fator falta de reconhecimento apresentou como item com maior média a “falta de reconhecimento do meu esforço” (2,45±1,90) (avaliação crítica) e o item com menor média foi a “desqualificação” (0,93±1,39) (avaliação satisfatória).

Identificou-se associação estatística entre a variável afastamento do trabalho por motivo de doença e os fatores falta de reconhecimento (p=0,022) e esgotamento profissional (p=0,002), ambos relacionados às vivências de sofrimento. Os trabalhadores que estiveram afastados do trabalho associaram-se à avaliação grave no fator esgotamento profissional e à avaliação crítica no fator falta de reconhecimento.

Ainda, foi evidenciada associação significativa entre a variável satisfação no trabalho e categoria profissional (p=0,047). Os auxiliares de Enfermagem estavam associados à não satisfação.

 

DISCUSSÃO

Neste estudo foi possível identificar que a maioria dos trabalhadores era do sexo feminino, com média de idade de 40,2 anos. Esses achados convergem com outros estudos similares realizados com trabalhadores de Enfermagem.3,7,10

O tempo de serviço inferior a cinco anos indica que se trata de trabalhadores que estavam no início de sua trajetória profissional. O menor tempo de serviço sugestionou a percepção mais positiva do ambiente de trabalho de enfermeiros de UTI.12 Por outro lado, estudo realizado com enfermeiros recém-graduados identificou que a pouca experiência tem impacto na credibilidade da equipe, o que pode representar situação de estresse.13

Quanto à satisfação no trabalho, identificou-se predomínio dos trabalhadores satisfeitos. Entretanto, não estar satisfeito no trabalho associou-se ao cargo de auxiliar de Enfermagem. A Enfermagem brasileira possui uma divisão hierárquica segundo a qual os auxiliares de Enfermagem, trabalhadores sem nível superior de formação, são responsáveis pela prestação dos cuidados de menor complexidade. Isso sugere, muitas vezes, menos autonomia para essa categoria e, consequentemente, possível comprometimento da satisfação relacionada à atividade laboral. Nesse sentido, estudo com enfermeiros e técnicos de Enfermagem identificou que a autonomia foi o componente de mais importância atribuído à satisfação profissional,14 o que corrobora a relevância desse constructo na identificação com o trabalho e, portanto, no fortalecimento da saúde psíquica do trabalhador.

Convergindo esses achados, evidências científicas mostram que, nos ambientes laborais em que os profissionais de saúde encontram-se satisfeitos, as taxas de absenteísmo diminuem, a produtividade aumenta e o desempenho no trabalho melhora.15 Estudo realizado na China identificou que os hospitais que fornecem apoio organizacional aos trabalhadores possibilitam a eles mais satisfação com o trabalho, o que potencializa a segurança e a qualidade dos cuidados prestados.16 Assim, possibilitar vivências de prazer no trabalho significa contribuir para a segurança e saúde do paciente e do trabalhador.

No que se refere ao afastamento do trabalho, apurou-se que a maioria dos participantes necessitou se afastar por motivo de doença. Essa variável apresentou associação com a avaliação crítica no fator falta de reconhecimento e com a avaliação grave no fator esgotamento profissional, ambos relacionados às vivências de sofrimento no trabalho. Esse resultado indica que os trabalhadores desgastados, inseguros, que se sentiam frustrados e inúteis (itens relacionados ao esgotamento profissional) afastaram-se do trabalho para tratamento de saúde, o que favorece o risco moderado de adoecimento do trabalhador. Ainda, esses trabalhadores vivenciavam sentimentos de injustiça e desvalorização pelo não reconhecimento do trabalho realizado (itens relacionados à falta de reconhecimento), sendo essa uma avaliação que sugere risco acentuado de adoecimento do trabalhador (avaliação grave). As associações encontradas nesta pesquisa possibilitam inferir que existe uma relação entre esgotamento profissional/falta de reconhecimento e o adoecimento psíquico dos trabalhadores que os experienciam, culminando em seu afastamento.

Em relação às vivências de prazer, os fatores realização profissional e liberdade de expressão foram avaliados como satisfatórios, resultado semelhante ao encontrado em estudo com profissionais de um serviço móvel de urgência.10 Essa avaliação é positiva, pois esses fatores são produtores de prazer no trabalho, devendo ser mantidos e consolidados no ambiente organizacional.11

Pesquisa realizada na UTI identificou como itens com maiores médias no fator liberdade de expressão a “solidariedade entre os colegas” e a “cooperação entre os colegas”.9 Já na hemodiálise,7 os itens com maiores médias, avaliados de forma mais positiva, foram “liberdade com a chefia para negociar o que precisa” e “solidariedade entre colegas”. Esse fator contribui para a construção da identidade profissional, sendo algo que se constrói na relação com o outro.

Nas vivências de prazer, identificou-se que “orgulho pelo que faço” recebeu avaliação satisfatória, produtora de prazer. Para enfermeiros intensivistas, o prazer vivenciado no trabalho se relacionou à motivação que eles afirmaram ter, visto que os itens “orgulho pelo que faz”, “bom relacionamento com a equipe” e “condições de trabalho satisfatórias” são essenciais no cotidiano de trabalho e também foram positivamente avaliados neste estudo.9

Para os trabalhadores de Enfermagem de um serviço de hemodiálise, os itens com maiores médias foram “orgulho pelo que faço” e a “realização profissional”.7 A realização profissional é um dos indicadores de prazer no trabalho e pode se expressar nos sentimentos de gratidão, orgulho, identificação com o trabalho e na medida que o trabalhador vê suas necessidades atendidas.11

Em centro cirúrgico, o prazer no trabalho da Enfermagem foi representado pelas relações interpessoais positivas, o ambiente gerador de conhecimento científico e aprendizado constante.17 Estudo realizado com médicos e enfermeiros identificou que, apesar das exigências e dos danos inerentes ao processo de trabalho, foi possível vivenciar o prazer no desempenho das atividades, porque estes eram desafiados a salvar vidas, tinham de expressar suas opiniões, sentiam orgulho pela profissão e eram reconhecidos por colegas, pacientes e familiares.18

Assim, o estímulo às vivências de prazer, especialmente por meio do reconhecimento, pode repercutir positivamente na saúde dos trabalhadores e na qualidade do trabalho desenvolvido. Nessa perspectiva, fica evidente que as vivências de prazer no trabalho relacionam-se com e viabilizam outros sentimentos de bem-estar, o que pode conferir satisfação adicional aos trabalhadores e, consequentemente, proteção à sua saúde.7

Sobre as vivências de sofrimento, o fator falta de reconhecimento foi identificado com avaliação satisfatória. O reconhecimento no trabalho pelas chefias e pela equipe é considerado fator importante na manutenção da saúde do trabalhador. Nessa lógica, cita-se que o prazer é oriundo das experiências de gratificação e satisfação dos desejos e necessidades do trabalhador, partindo de uma resolução bem-sucedida dos conflitos gerados no contexto de trabalho.11

O fator esgotamento profissional foi avaliado como crítico, semelhante ao identificado em pesquisas brasileiras realizadas com trabalhadores de Enfermagem.9,10 Esse resultado é indicador de situação-limite, o que potencializa o sofrimento no trabalho.11

A classificação crítica pode estar relacionada a insatisfação profissional, baixa produtividade, absenteísmo, doenças ocupacionais, entre outros aspectos,9 Pesquisa realizada com profissionais de Enfermagem que atuavam em unidades de queimados identificou como elementos de desgaste no fator esgotamento profissional o “cansaço físico e emocional relacionado à demanda de pacientes”, “envolvimento com o sofrimento do paciente” e “sentimento de impotência”.19

No âmbito do trabalho hospitalar, há exigência pela máxima produtividade e alcance de metas, o que pressiona o trabalhador a ser polivalente, causando desgaste psíquico. Além disso, o comprometimento dos recursos financeiros e a redução dos orçamentos resultam na diminuição da força de trabalho, elevação do ritmo laboral e na multifuncionalidade dos trabalhadores.20

Os trabalhadores pensam e agem sobre o trabalho, espaço de organização da vida social, e podem ter sua saúde afetada em decorrência da complexidade e fragmentação das organizações do trabalho.9 Na sala de RPA, a carga de trabalho de Enfermagem sofre influência do tempo de permanência e do porte cirúrgico,21 que, entre outros elementos, como vivências de prazer e sofrimento, podem repercutir na saúde do trabalhador.

A falta de reconhecimento, outra vivência de sofrimento, foi avaliada como satisfatória, semelhante ao encontrado na literatura científica.7 Já estudo com trabalhadores de unidade móvel de urgência acusou avaliação crítica para o fator falta de reconhecimento, atribuído ao não reconhecimento dos trabalhadores em relação ao seu trabalho.10

Quando as ações do trabalhador não conseguem promover uma dinâmica de troca que possibilite atingir objetivos individuais e coletivos, emerge o não reconhecimento e, consequentemente, o sofrimento no trabalho.22 A manifestação do sofrimento em trabalhadores de Enfermagem atuantes em centro cirúrgico expressou-se em sintomas físicos e psicossociais,17 o que indica a implicação desses sentimentos na saúde física e psíquica dos trabalhadores.

Estudo com mulheres integrantes de equipes de Enfermagem hospitalar, que utilizou a escala EPIST com o objetivo de analisar o grau de influência da identificação organizacional nas vivências de prazer e de sofrimento, concluiu que o item identificação do indivíduo com a organização na qual trabalha teve impacto positivo sobre as vivências de prazer e negativo sobre as vivências de sofrimento.1 A falta de reconhecimento e de valorização da profissão de Enfermagem por outras categorias profissionais e/ou pela sociedade também se configura como alguns dos principais fatores de insatisfação entre os integrantes dessas equipes.23

As vivências de sofrimento relacionadas ao esgotamento profissional representam risco de adoecimento moderado na população investigada. Apesar do caráter construtor que o trabalho possui na vida humana, se realizado em condições precárias pode se tornar gerador de doenças.18

Assim, os resultados deste estudo avançam na construção do conhecimento na área da Enfermagem e da saúde, em especial em torno da realidade do trabalho desenvolvido pelos profissionais de Enfermagem na sala de RPA, dando mais visibilidade à categoria e oportunizando reflexões no ambiente laboral. Podem subsidiar o planejamento de ações de prevenção e promoção da saúde dos trabalhadores de RPA.

As intervenções em saúde do trabalhador devem incluir a criação de espaços em que estes tenham oportunidade de verbalizar seus sentimentos em relação ao trabalho, prática pouco habitual que poderia trazer repercussões positivas na prática clínica. Os movimentos de fala e escuta entre os trabalhadores e destes com a gestão podem representar um caminho possível para potencializar a realização profissional e minimizar o esgotamento.6

Quanto às limitações do estudo, indica-se o delineamento transversal, pois a causalidade reversa não pode ser descartada. Também, a amostra estudada corresponde a um setor específico, o que justifica a necessidade de novas pesquisas para que comparações possam ser realizadas. Apesar disso, os resultados podem contribuir para o planejamento de ações que melhorem o ambiente laboral e a saúde de quem trabalha, como oportunizar aos trabalhadores momentos para expor as ideias e ouvir os colegas. Sugere-se que futuras pesquisas sejam acompanhadas de análises qualitativas, capazes de revelar a dimensão individual das experiências analisadas neste estudo.

 

CONCLUSÃO

Este estudo analisou o prazer e sofrimento dos trabalhadores de Enfermagem que atuavam na sala de RPA e concluiu-se que eles avaliaram o esgotamento profissional como crítico, o que indica risco de adoecimento moderado do trabalhador. A variável afastamento do trabalho por motivo de doença foi associada aos fatores relacionados a vivências de sofrimento, esgotamento profissional e falta de reconhecimento, o que indica que o trabalhador desgastado e não reconhecido está em sofrimento e afasta-se do trabalho devido ao adoecimento. A categoria profissional de auxiliares de Enfermagem não estava satisfeita profissionalmente.

 

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