REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume Atual: 23:e-1195 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20190043

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Pesquisa

Inserção da mulher enfermeira no corpo auxiliar feminino da reserva na marinha do Brasil

Inclusion of female nurses in the auxiliary body of Brazil’s navy reserve

Camilla Telemberg Sell; Maria Itayra Padilha; Mariana Vieira Villarinho; Isabel Cristina Alves Maliska; Silvana Alves Benedet; Maria Ligia dos Reis Bellaguarda

Universidade Federal de Santa Catariana - UFSC, Departamento de Enfermagem. Florianópolis, SC - Brasil

Endereço para correspondência

Mariana Vieira Villarinho
E-mail: nanyufsc2004@gmail.com

Submetido em: 11/09/2018
Aprovado em: 22/02/2019

Contribuições dos autores: Coleta de Dados: Camilla T. Sell; Conceitualização: Camilla T. Sell, Mariana V. Villarinho; Gerenciamento do Projeto: Maria I. Padilha; Investigação: Maria I. Padilha; Metodologia: Mariana V. Villarinho, Isabel C. A. Maliska, Silvana A. Benedet, Maria L. R. Bellaguarda; Redação-Preparação do Original: Maria I. Padilha, Mariana V. Villarinho, Isabel C. A. Maliska, Silvana A. Benedet, Maria L. R. Bellaguarda; Redação-Revisão e Edição: Camilla T. Sell, Maria I. Padilha, Mariana V. Villarinho, Isabel C. A. Maliska, Silvana A. Benedet, Maria L. R. Bellaguarda; Supervisão: Maria I. Padilha; Visualização: Camilla T. Sell, Maria I. Padilha, Mariana V. Villarinho, Silvana A. Benedet, Isabel C. A. Maliska, Maria L. R. Bellaguarda.

Fomento: Não houve financiamento.

Resumo

OBJETIVO: historicizar a inserção da mulher enfermeira na Marinha do Brasil, por meio do Corpo Auxiliar Feminino da Reserva da Marinha, destacando suas conquistas e contribuições no período de 1980 a 1997.
MÉTODO: estudo qualitativo de abordagem histórico-social, no qual foram realizadas oito entrevistas utilizando a técnica de história oral e fontes documentais. Foi realizada análise de dados temática.
RESULTADOS: foram apresentados três aspectos: a inserção da mulher enfermeira na Marinha do Brasil e suas conquistas ao longo dos anos; a contribuição das mulheres ao ambiente nas Forças Armadas e a formação profissional; e o significado de ser mulher, enfermeira e militar.
CONCLUSÃO: as enfermeiras militares contribuíram com a feminização da profissão no ambiente militar e também para a profissionalização da Enfermagem.

Palavras-chave: Enfermagem Militar; Militares; Mulheres; Enfermagem.

 

INTRODUÇÃO

A imagem da mulher na sociedade brasileira tem se caracterizado por constantes mudanças em relação a valores, práticas e papéis. Na primeira metade do século XX, desenvolveram-se muitas profissões femininas no Brasil, entre estas a Enfermagem, que constituiu ponto importante no processo de emancipação da mulher no mercado de trabalho.1 Nos últimos anos, avanços se traduziram em mudanças demográficas, culturais e sociais que tiveram grande influência para o reconhecimento das mulheres em todos os âmbitos. Como exemplo, observam-se no Brasil as adequações da legislação sobre as mulheres, a produção crescente de estudos sobre gênero, a criação de delegacias especializadas e de serviços de atendimento às vítimas, bem como a adoção de políticas públicas específicas para combater o problema de desigualdade de gênero.2

Foi nesse contexto de expansão do mercado de trabalho que a Marinha do Brasil (MB) proporcionou às mulheres, entre elas as enfermeiras, o ingresso pioneiro nas Forças Armadas (FA). No ano de 1980, a Lei n° 6.807, de 7 de julho de 1980, criou o Corpo Auxiliar Feminino da Reserva da Marinha (CAFRM), composto pelo Quadro de Auxiliar Feminino de Oficiais (QAFO) e pelo Quadro Auxiliar Feminino de Praças (QAFP).3,4 A criação desses quadros teve como objetivo principal a inserção de mulheres para atuar em diversas áreas: técnica, administrativa, de saúde e outras5

Três principais motivos justificaram a criação da primeira turma de mulheres: o primeiro foi a substituição dos especialistas, homens oficiais e praças, os quais vinham exercendo funções em Organizações Militares (OM) de terra, e que com a chegada dessas mulheres seriam movimentados para o setor operativo nos navios. Outra justificativa era a “grande conveniência” do ato, devido à “abrangência social” e à repercussão que traria tal iniciativa, contribuindo para a tão invocada igualdade assegurada pela Constituição Federal de 1967 (art. 150, § 1°), o que politicamente daria à MB mais engajamento às propostas governamentais e prestígio social resultante do seu pioneirismo entre as demais FAs.6 Um terceiro motivo para a criação da primeira turma de mulheres foi a necessidade de suprir as áreas de saúde, como a Enfermagem, Medicina e Odontologia, com mão de obra especializada, para atuação no recém-inaugurado Hospital Naval Marcílio Dias (HNMD), no Rio de Janeiro.7,8

O CARFM foi extinto em 1997, após 17 anos de existência, conforme Lei n° 9.519 de 26 de novembro de 1997. A partir daí um novo período de conquistas e igualdades se iniciou, com a integração das mulheres aos Corpos e Quadros da Marinha, asseguradas pela estabilidade e por um plano de carreira. Hoje desenvolvem suas atividades paralelamente aos militares do sexo masculino, porém as mulheres atuantes na Marinha encontram ainda um reduto de resistência, presentes em apenas alguns corpos e quadros.9

Frente a esse contexto, elegeu-se como objetivo deste estudo historicizar a inserção da mulher enfermeira na MB, por meio do CAFRM, destacando suas conquistas e contribuições ao longo dos anos. O marco inicial deste estudo é o ano de 1980, ocasião da criação do CAFRM, e o marco final o ano de 1997, quando ocorreram a extinção do CAFRM e a integração das mulheres aos corpos e quadros da MB, configurando-se em um período de novas conquistas e igualdade com os militares do sexo masculino.

 

METODOLOGIA

Trata-se de estudo qualitativo de abordagem histórico-social. Utilizaram-se a história oral como uma das fontes de pesquisa e como fontes documentais os registros internos da MB disponíveis na Diretoria de Patrimônio Histórico da Marinha.10

Os dados foram coletados na cidade do Rio de Janeiro, por ser o local onde se concentram mais OMs de saúde pertencentes à MB, como o HNMD, Unidade Integrada de Saúde Mental (UISM), Centro Médico-Assistencial da Marinha (CMAM), Diretoria de Saúde da Marinha (DSM), entre outras, e, consequentemente, o maior número de profissionais de saúde, entre os quais enfermeiras militares que pertenceram ao CAFRM. A MB se divide em nove distritos navais (DN) que constituem núcleos subdivididos em todo o território brasileiro, por regiões de unidades navais, aéreas e de fuzileiros navais. O local escolhido para o estudo faz parte do primeiro DN, cujo propósito é contribuir para o cumprimento das tarefas de responsabilidade da MB na área fluvial, lacustre e terrestre, abrangendo os estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro e alguns municípios do estado de Minas Gerais, além das ilhas Trindade e Martins Vaz.11

Participaram oito enfermeiras militares que atuaram no CAFRM entre 1980 e1997. Como critérios de inclusão para a escolha dos entrevistados foram considerados os seguintes: ser enfermeira militar e ter ingressado na MB entre 1980 e 1997, ser militar da ativa ou da reserva e residir na cidade do Rio de Janeiro. Em relação ao perfil das participantes, essas enfermeiras têm idade entre 44 e 56 anos, sendo uma graduada, cinco pós-graduadas latu sensu e duas pós-graduadas stricto sensu. Quanto à origem, cinco são naturais da cidade do Rio de Janeiro, uma de Minas Gerais, uma de São Paulo e uma de Pernambuco. A patente militar de duas entrevistadas é Capitã-de-Corveta (CC), três são Capitãs-de-Fragata (CF) e três são Capitãs-de-Mar-e-Guerra da reserva, das quais duas retornaram à MB para prestar serviço como Tarefa por Tempo Certo (TTC), ou seja, os militares já na reserva são recontratados pela MB e passam a exercer atividades voluntárias por tempo determinado, recebendo um valor adicional por essa função.

Em observância à Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde (CNS/MS), o presente estudo foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEPSH) da UFSC e aprovado conforme protocolo n° 2406/2011. Com o propósito de garantir o anonimato das entrevistadas, seus nomes foram substituídos pela letra E, a qual significa enfermeira, seguida do ano de ingresso na MB.

Utilizou-se a análise de dados temática, que permitiu encontrar um núcleo de sentido na comunicação do sujeito pesquisado, cuja presença significa algo para o objetivo.12 Desse modo, após atenta leitura do material coletado, agruparam-se os dados de forma organizada e as entrevistas foram ordenadas por temáticas afins; os dados brutos foram interpretados e se transformaram em três categorias: a inserção da enfermeira militar na Marinha do Brasil e suas conquistas ao longo dos anos; a contribuição das enfermeiras militares à Marinha do Brasil e a formação profissional; e o significado de ser mulher, enfermeira e militar.

 

RESULTADOS

A inserção da enfermeira militar na Marinha do Brasil e suas conquistas ao longo dos anos

A inserção das mulheres na Marinha Brasileira em 1980, mediante a criação do Corpo Auxiliar Feminino da Reserva da Marinha (CAFRM), provocou muitas mudanças em uma instituição historicamente dominada pelos homens. Em meio às mudanças ocorridas, conquistas foram alcançadas, as quais contribuíram para minimizar as desigualdades entre os gêneros.

Os resultados deste estudo acusam que, entre as conquistas alcançadas, o conhecimento científico, por meio da viabilização de cursos de formação e aperfeiçoamento profissional como os cursos de mestrado e doutorado, contribuiu para o alcance de outras conquistas importantes relacionadas ao saber/poder das mulheres na MB. As falas a seguir demonstram essa conquista:

Quando eu deixei o Hospital Naval Marcílio Dias para ir para o mestrado, pela primeira vez na história da Enfermagem militar, teve uma formatura de passagem de comando de uma mulher. Então você vê que quando existe uma formatura, que é algo importante para o meio militar. Isso já demonstra que tinha havido um avanço, um reconhecimento (E1-1981).

Esse cenário possibilitou a conquista de direitos sociais e a ocupação de cargos de comando mais elevados pelo contingente feminino da MB, historicamente ocupado por homens.

Ainda está sendo uma conquista, a gente é muito nova ainda, mas eu acho que a gente já ganhou muito espaço, desde que a gente entrou, tem mulheres dirigindo OM, muitas mulheres da minha turma foram diretoras, mulheres embarcadas, não efetivamente, mas esporadicamente. Tenho uma colega médica que foi para a Antártica, então, assim, as mulheres estão galgando espaço e está sendo uma conquista (E4-1981).

Esses e outros percalços foram enfrentados pelas pioneiras da MB, as quais se aventuraram em trabalhos predominantemente ocupados por homens. Apesar da resistência à equidade de gênero, essas mulheres enfrentaram os obstáculos e buscaram a superação constante. O fato de as mulheres poderem exercer as mesmas atividades que os homens se configurou como uma grande conquista, como denota a fala:

O quadro feminino tinha algumas restrições, a gente não podia portar arma, então a gente não podia dar serviço na sala de estado, e isso no mínimo incomodou os homens porque para eles a gente era privilegiada, e você sabe que o ser humano sempre se o outro está melhor cria problemas! E acabou acontecendo isso, a gente passou a dar serviço na sala de estado, aí trocou o uniforme, porque a gente tinha um uniforme diferente, a cor era diferente para destacar (E6-1981).

A identificação da Enfermagem historicamente vem sendo atrelada a estereótipos sexistas, como anjos e flores, que imprimem uma fragilidade às mulheres militares, sendo uma forma de reafirmar uma identidade distante do profissionalismo e de uma postura de engajamento político.

O nosso símbolo era uma flor com uma âncora dentro, que no início, para dar uma cara para as mulheres que estavam chegando, era legal, era interessante, no começo, mas depois aquilo já não tinha sentido de ser, era até meio que desmoralizante, para aquilo que a gente tinha que conquistar, para o espaço que a gente queria ter, uma flor não dizia mais o que a gente era, não simbolizava o que a gente era. Acho que ter substituído o CAFRM pelo corpo de apoio à saúde, ter englobado junto com todos os outros quadros, de Nutrição, Fisioterapia, Psicologia, Fonoaudiologia, Farmácia fortaleceu e ficou todo mundo junto, homens e mulheres. Então eu acho que a gente ganhou, mesmo que naquele momento a gente tenha perdido, e perdemos muito (E5-1993).

Os relatos mostram que, no primeiro momento, as enfermeiras suportaram certas manifestações depreciativas da posição da mulher militar, para que ocorresse a crescente ocupação de espaço. As enfermeiras da MB a partir de um trabalho pautado em conhecimento científico e articulação política conquistaram, ao longo dos anos, o reconhecimento de seu saber, como tratado na próxima categoria.

A contribuição das enfermeiras militares à Marinha do Brasil e a formação profissional

A criação do CAFRM, em 1980, cujo objetivo foi empregar a mão de obra feminina em atividades de saúde, administrativas e técnicas, procurando suprir as necessidades de recursos humanos, no caso das enfermeiras, demonstra a utilidade dessa mão de obra, alçada ao meio militar principalmente para o exercício de atividades sociais e culturalmente femininas, situação retratada pelas seguintes falas:

As coisas eram muito duras, muito quadradas, muito bitoladas e nós, mulheres, trouxemos um ambiente mais clean, ampliamos o horizonte. Fomos humanizando o espaço por onde passávamos (E5-1993).

As mulheres trouxeram profissionalismo, acho que houve um aumento significativo do nível profissional, principalmente entre as praças, porque nós tínhamos uma formação na marinha dos praças que eram as Escolas de Aprendizes-Marinheiros. Eles vinham todos dali e se dividiam em cabos e depois quem não tinha nota boa para fazer os outros cursos optava pela Enfermagem. Hoje, praticamente você não encontra mais praça sem uma universidade, ou está cursando ou está terminando, porque o nível profissional aumentou bastante (E7-1988).

Além do desenvolvimento intelectual no quadro dos profissionais da Marinha, não há dúvida do quão importantes foram as contribuições à profissionalização e ao conhecimento científico da Enfermagem na MB. Para tanto, sabe-se que as mulheres enfermeiras militares tiveram que estudar, compartilhar conhecimentos, visto que o “poder” até então assumido pelas mesmas encontrava-se diretamente relacionado ao “saber”, questões estas intimamente relacionadas, sobretudo, ao ambiente militar.

De acordo com as falas é possível desvelar o quanto as enfermeiras militares com o seu saber/poder contribuíram para a profissionalização da Enfermagem na MB. Ainda nesse âmbito, no que concerne às contribuições à Marinha, com a entrada das mulheres militares destaca-se a melhoria da assistência, a partir da contratação de mais profissionais e da estruturação do HNMD.

As mulheres da primeira turma foram muito importantes, porque a gente carregou o piano, a deficiência de enfermeiras era muito grande, para se ter uma ideia era uma enfermeira em cada ala e quando a gente chegou, passou a ser sete, sendo cinco militares e duas civis. Ah! As médicas também enriqueceram o HNMD, melhorou a estrutura, vários setores e clínicas foram abertos com a chegada da mulher (E4-1981).

Verifica-se que, além das mulheres enfermeiras, outras profissionais também do sexo feminino foram incluídas no ambiente militar. Dessa forma, as enfermeiras relataram que, apesar de jovens, recém-formadas, já entraram no meio militar com um olhar distinto, valorizando a importância do trabalho em equipe e se superando nas atividades de gerenciamento da assistência da Enfermagem.

O significado de ser mulher, enfermeira e militar

Neste estudo, o universo feminino é ainda retratado com foco na sexualidade, fragilidade e sensibilidade. Mesmo com as concorridas discussões e mudanças no âmbito da vida feminina, no entendimento social permanecem enraizados os preconceitos. Assim, as mulheres mostram-se nos espaços do trabalho, como se constata a seguir:

A sociedade já cobra muito da mulher, porque ela tem que dar conta da casa, se ela trabalha fora ela obviamente vai dar conta como profissional, ser militar, quer dizer, já fica mais puxado na questão do horário, você já fica mais escasso com relação à família, em relação ao lazer, e enfermeiro também, porque é aquela questão de estar tudo sempre em ordem, de estar de olho, tomando conta de tudo e de todos que são subordinados a você (E2-1981).

A sociedade marcada, significativamente, pelo modelo masculino apresenta as dificuldades para a inserção da mulher no ambiente militar, como pode ser constatado no depoimento que se segue:

A outra discriminação que nós tínhamos e que só ocorreu uma melhora com a Constituição de 1988, foi que os, militares, os homens casados ganhavam 30% a mais de auxílio moradia e nós, mulheres, mesmo casadas não ganhávamos os 30%. Tinha uma discriminação salarial, porque era considerado que o cabeça do casal era o homem, então nós militares éramos mulheres, eles não nos olhavam como militares, como oficial, e sim como mulheres (E6-1981).

Percebe-se, nos depoimentos, que mesmo frente às dificuldades e discriminações estabelecidas, sentem-se gratificadas pela escolha e opção profissional.

Se eu consegui alguma coisa foi através da marinha e através da minha profissão, eu amo a minha profissão, eu acho que é uma das profissões mais bonitas e menos valorizadas, por culpa nossa também porque a gente ainda tem aquela coisa da abnegação e na verdade nós somos profissionais [...] (E7-1988).

Atuar como enfermeira da Marinha oportuniza a condição essencial para a realização do ser profissional. As questões políticas e econômicas do país fortalecem a ideia de ter feito a opção certa ao desenvolvimento profissional. Essas mulheres se reconhecem fortes, capazes, vitoriosas, justamente por serem mulheres, enfermeiras e militares.

 

DISCUSSÃO

A criação do Sistema de Saúde da Marinha (SSM) teve como principal motivo apoiar prioritariamente as operações militares. Entretanto, no contexto histórico atual de momento pacífico, tanto no âmbito geográfico do continente quanto no das relações internacionais, tal sistema volta-se para sua tarefa subsidiária de assistência à saúde ordinária, definida como Assistência Médica Hospitalar (AMH), prestada a todos os usuários do SSM, organizada de forma regional, hierarquizada e integrada, independentemente do posto ou da graduação do assistido.13

As identidades de grupo são um aspecto inevitável da vida social e da vida política, e as duas são interconectadas porque as diferenças de grupo se tornam visíveis, salientes e problemáticas em cenários políticos específicos. É nesses momentos – quando exclusões são legitimadas por diferenças de grupo, quando hierarquias econômicas e sociais favorecem certos grupos em detrimento de outros, quando um conjunto de características biológicas ou religiosas ou étnicas ou culturais é valorizado em relação a outros – que a tensão entre indivíduos e grupos emerge. Indivíduos para os quais as identidades de grupo eram simplesmente dimensões de uma individualidade multifacetada descobrem-se totalmente determinados por um único elemento: a identidade religiosa, étnica, racial ou de gênero.14

A extinção do CAFRM e a reestruturação dos Corpos e Quadros de Oficiais e Praças da MB, em 1997, possibilitou o reconhecimento da paridade das Oficiais e Praças mulheres com os Oficiais e Praças homens, resultando em melhores perspectivas na carreira militar feminina e a conquista de direitos equivalentes aos dos militares do sexo masculino.15

Embora o mundo ocidental permita o acesso de mulheres a quase todas as profissões e ocupações, ainda persistem as desigualdades, estereótipos e preconceitos. A distinção salarial entre homens e mulheres é presente ainda hoje na sociedade em diferentes setores do mercado de trabalho, uma luta que se perpetua e da qual as depoentes do estudo fizeram parte.16

A identificação da Enfermagem historicamente vem sendo atrelada a estereótipos sexistas, como anjos, e no caso relatado na MB, como flor, sendo uma forma de reafirmar uma identidade distante do profissionalismo e de uma postura de engajamento político. Essa situação a mantém como ser que exerce uma ocupação sagrada e serve para afastá-la do aspecto profissional, justificando os baixos salários e o status social inferior que tem marcado a Enfermagem ao longo da história.17

Desse modo, percebeu-se que, apesar da Enfermagem na MB nascer como um trabalho auxiliar, sem base científica, tornou-se uma profissão essencial ao serviço de saúde, conformando um corpo de conhecimento complexo e próprio e aglutinando saberes de diversas áreas, o que impactou na qualidade da assistência em saúde prestada.18 Antes do CAFARM eram as enfermeiras civis que atuavam na MB, subordinadas aos homens militares. A trajetória de valorização do trabalho das mulheres só começou a acontecer a partir da permanência e de mudanças de fatores inter-relacionados, como contexto econômico, demográfico e familiar.19 Historicamente, a busca das mulheres por posições de comando em geral ainda é muito pequena, e não é diferente nas instituições militares. Entretanto, com a inserção das mulheres nas FAs, elas começaram a assumir uma posição de liderança, fruto de seu conhecimento, saber e do poder, da posição hierárquica galgada durante a carreira.20 Para se pensar a relação mulher enfermeira e militar, precisamos vislumbrar o percurso de lutas para a autonomia e reconhecimento da mulher como sujeito construtor e partícipe dos delineamentos sociais, políticos e econômicos do país.

O HNMD foi o berço de aprendizado das enfermeiras militares e hoje é um hospital de referência das FAs, por seus recursos humanos, tecnológicos e a excelência do atendimento prestado aos usuários do SSM.21 A assistência de Enfermagem prestada em ambiente militar segue os mesmos preceitos ético-legais da profissão: em qualquer local onde seja executada, busca-se ter um olhar crítico e científico, visando um cuidado diferenciado aos militares, em tempos de guerra ou de paz.22

As discussões referentes à Constituição brasileira, a Lei Maria da Penha, entre outras ações na mídia, foram espaços em que o movimento feminista brasileiro se fez presente para fazer emergir novas perspectivas de respeito e reconhecimento feminino na sociedade. Entretanto, o entendimento social da mulher como produtora de bens e serviços, de parceira no atendimento à família não se estabeleceu tão facilmente. Há de mudar paradigmas e, inclusive, na formação e educação de meninas e meninos.

Observa-se a cobrança pontual das responsabilidades femininas com o trabalho, e integrar essas identidades mulher, enfermeira e militar é algo intrínseco ao universo feminino. Isso pelo fato de as participantes deste estudo serem mulheres, que adentraram dois espaços profissionais: um fortemente feminino e outro masculino. Atenção nesse caso em refletir no aspecto dos significados culturais das diferenças sexistas, pontuando as relações hierárquicas.20 De um lado, a Enfermagem, uma profissão historicamente construída e desenvolvida por mulheres, centralizando o cuidado em aspectos emocionais, psicológicos e humanitários; de outro, ser militar, o que traz em seu escopo a força, o poder, a masculinidade. Em meio a esse panorama tumultuado de idealismos e racionalização social, as mulheres e enfermeiras estão inseridas e adentram espaços profissionais até então predominantemente masculinos. Nessa perspectiva, a mulher enfermeira no corpo militar, aqui especificamente na MB, ocupa esse espaço na década de 1980, quando a legislação mostrava-se pertinente à igualdade de gênero, no entanto, existiam as diferenciações de patente, tempo determinado para galgá-las e de atividades conferidas às mulheres.4

A feminização do corpo militar da Marinha mostra-se em um contexto preconceituoso, quando as participantes indicam a discriminação nos aspectos administrativos e de distribuição de atividades, no tocante ao uso de armamento e realização de vigilância como tarefa de homens, por exemplo. Os discursos evidenciaram a falta de organização e de uma política estruturada de recepção desses novos membros militares. Há clareza de que os sinais discriminatórios devem-se à história sociocultural dos homens e não da instituição. Alguns estudos trazem à tona o processo de adaptação ou não pelos homens militares à presença de mulheres no quadro da Marinha, caracterizado pela dificuldade de alguns em suportar a participação feminina.8

Recentemente, após longo período de limitações do desenvolvimento de atividades e da ascensão a cargos de patentes elevadas, em novembro de 2012 a Presidente Dilma Rousseff assinou a promoção da Contra-Almirante (Md) Dalva Maria Carvalho Mendes, a primeira mulher a ocupar um cargo de Oficial General das FAs Brasileiras. Dessa forma, a MB reafirma seu ineditismo e pioneirismo na inserção da mulher no âmbito militar.9

Observa-se também que muitas dificuldades do passado foram superadas e que a mulher militar tem sido cada vez mais aceita nesse território tradicionalmente regido pelos homens. É necessário, porém, destacar que o espaço ocupado atualmente pela mulher na MB foi marcado por conquistas ao longo dos anos, tendo em vista as dificuldades de inserção em um universo tipicamente masculino, permeado por relações de hierarquia bem delimitadas entre superiores e subordinados.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste estudo, a análise se fez ampliando a realidade sócio-histórica de mulheres no mundo do trabalho e em seus contextos científico e disciplinar. Diante dessa perspectiva, pode-se dizer que o conhecimento histórico sobre as mulheres militares do CAFRM não é o documento fiel da realidade vivenciada, nem é amplo o suficiente para documentar a real e única condição vivida pelas enfermeiras durante o período estudado. Esse conhecimento auxilia a compreender o processo histórico a partir do qual o gênero é produzido e embasa para a busca de melhores formas de documentar fielmente a realidade vivida.

Concluiu-se que, além da contribuição a um ambiente mais feminino à Marinha do Brasil oportunizado pelas enfermeiras militares, estas, com suas conquistas, contribuíram também para o conhecimento dos profissionais do quadro da Marinha, principalmente para a profissionalização da Enfermagem.

 

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