REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume Atual: 23:e-1214 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20190062

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Pesquisa

Violência escolar entre adolescentes: prevalência e fatores associados a vítimas e agressores

School violence between adolescents: prevalence and factors associated to victims and aggressors

Emanuella de Castro Marcolino1; Cícera Renata Diniz Vieira Silva2; Joseana de Almeida Dias3; Suzana Pereira Cardoso de Medeiros3; Alessandro Leite Cavalcanti4; Francisco de Sales Clementino3; Francisco Arnoldo Nunes de Miranda5

1. Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN, Programa de Pós-graduação em Enfermagem. Natal, RN - Brasil; Universidade Estadual da Paraíba - UEPB, Programa de Pós-graduação em Saúde Pública. Campina Grande, PB - Brasil
2. UEPB, Programa de Pós-graduação em Saúde Pública. Campina Grande, PB - Brasil; Universidade Federal de Campina Grande - UFCG, Departamento de Enfermagem. Campina Grande, PB - Brasil
3. UFCG, Departamento de Enfermagem. Campina Grande, PB - Brasil
4. UFPB, Programa de Pós-graduação em Saúde Pública. Campina Grande, PB - Brasil
5. UFRN, Programa de Pós-graduação em Enfermagem. Natal, RN - Brasil

Endereço para correspondência

Emanuella de Castro Marcolino
E-mail: emanuella.de.castro@gmail.com

Submetido em: 12/05/2018
Aprovado em: 06/07/2019

Contribuições dos autores: Análise Estatística: Alessandro L. Cavalcanti; Coleta de Dados: Emanuella C. Marcolino, Cícera R. D. Vieira, Joseana A. Dias, Suzana P. C. Medeiros; Conceitualização: Emanuella C. M., Alessandro L. Cavalcanti, Francisco A. N. Miranda; Gerenciamento do Projeto: Emanuella C. Marcolino, Alessandro L. Cavalcanti; Redação - Preparação do Original: Emanuella C. Marcolino, Cícera R. D. Vieira, Joseana A. Dias, Suzana P. C. Medeiros, Alessandro L. Cavalcanti, Francisco A. N. Miranda; Redação - Revisão e Edição: Emanuella C. Marcolino, Alessandro L. Cavalcanti, Francisco S. Clementino, Francisco A. N. Miranda.

Fomento: Não houve financiamento.

Resumo

OBJETIVO: analisar a prevalência de violência escolar entre adolescentes brasileiros com foco nos fatores associados aos comportamentos de vitimização e agressão entre os atores escolares.
MÉTODOS: estudo transversal com 678 estudantes de 10 e 19 anos, de escolas públicas municipais de Campina Grande, Brasil. Analisaram-se as variáveis: sexo, idade, violência escolar, violência escolar física, psicológica, material, virtual e simbólica; uso de álcool, arma branca e arma de fogo na escola. Utilizou-se a Escala de Violência Escolar (EVE). Os dados foram organizados com o programa estatístico SPSS, considerando-se o nível de significância de 5% e intervalo de confiança de 95%.
RESULTADOS: a violência escolar foi reportada por 86,3% dos escolares. Adolescentes femininos foram vítimas de violência psicológica (79,7%), enquanto os masculinos sofreram mais vitimização por violência física (65,4%). Observou-se associação entre a variável “ser agressor” com o “uso de álcool” (p<0,001; RP=3,92 [2,01-7,65]), “portar arma branca na escola” (p=0,03; RP=2,17 [1,08-4,34]) e “portar arma de fogo” (RP=17,73; [2,32-135,02]).
CONCLUSÃO: a ocorrência de violência escolar é elevada e envolve, predominantemente, estudantes do sexo masculino, que demonstram comportamento de risco tanto como vítimas quanto como agressores.

Palavras-chave: Violência; Instituições Acadêmicas; Adolescente; Vítimas de Crime; Agressão.

 

INTRODUÇÃO

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define violência como o ato intencional de uso da força física ou do poder, de forma direta ou indireta, por meio de ameaça contra si próprio, outro indivíduo ou a coletividade, produzindo a possibilidade ou provocando lesão, morte, dano, deficiência e privação.1

Dito de outra forma, é a tentativa de retomar o poder de forma ilegítima, pela força em atos ou equivalentes simbólicos contra o outro.2 A violência atinge todas as faixas etárias, etnias, credos, religiões, grupos humanos, familiares, profissionais, independentemente de regiões geográficas no país e no mundo. Assim, o presente estudo optou por focar na violência juvenil, um seguimento desse amplo fenômeno.

Uma das formas mais evidentes de violência na sociedade é a juvenil, acometendo, especialmente, indivíduos com idade entre 10 e 21 anos, embora a World Health Organization considere como adolescentes indivíduos com idade entre 10 e 19 anos.3 Tal tipologia da violência inicia-se, frequentemente, na puberdade, com tendência a progredir em termos de gravidade ao longo da adolescência, e ainda com grande potencial de persistência na vida adulta. Entre os adolescentes, a violência surge, primordialmente, nos comportamentos manifestos no interior das escolas, tornando a violência escolar um problema social grave e complexo, possivelmente o mais frequente no que concerne à violência juvenil na atualidade.4

Denominam-se violência escolar aqueles atos ou ações de violência que envolvem comportamentos agressivos, antissociais, conflitos interpessoais, danos ao patrimônio, crimes, marginalização e discriminações, praticados pelos membros da comunidade escolar que incluem alunos, funcionários, professores e familiares, decorrentes de situações “corriqueiras” do cotidiano escolar a circunstâncias graves de agressão explícita.5

A violência escolar pode se manifestar por diversas naturezas, a saber: física, psicológica, material e virtual. Compreendem-se violência física todos os atos que afetam a integridade física, como tapas, empurrões, chutes, beliscões, socos, etc.; a violência psicológica remete a ações de cunho danoso ao psicológico e/ou emocional exemplificada por ameaças, provocação de medo, degradação verbal por meio de inferiorização ou ridicularização; a violência contra o patrimônio ou violência material envolve atos de degradação de materiais de instituições ou de pessoas e a ação de roubar; e a violência virtual refere-se ao dano provocado por meio eletrônico ou digital que ultrapassa a noção de espaço e tempo, pois o meio virtual se torna o ambiente de produção da violência.5,6

A violência nas escolas brasileiras, nas últimas décadas, tornou-se visível e soma-se à dimensão global, constituindo-se em um dos grandes desafios do setor educacional em nível mundial, tornando-se um complexo e severo problema de saúde pública, pela íntima relação entre violência e saúde, as quais se retroalimentam. A primeira afeta fortemente a segunda à medida que provoca traumas, lesões, morte, diminui a qualidade de vida e exige reconfiguração dos serviços de saúde para a assistência por meio de atuação multiprofissional e interdisciplinar.7

Em todo o mundo, perto de 130 milhões de alunos (média de um a cada três) sofrem intimidação/violência psicológica na escola; e aproximadamente três em 10 adolescentes (17 milhões) em 39 países da Europa e da Norte-América admitiram intimidar os outros na escola.8 No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PENSE) revelou que 7,4% dos escolares brasileiros se sentiram na maior parte do tempo magoados, incomodados, aborrecidos, ofendidos ou humilhados por colegas da escola terem “esculachado, zoado, mangado”, intimidado ou caçoado deles; 19,8% praticaram atos de humilhação; 23,3% se envolveram em alguma briga e/ou luta física nos 12 meses anteriores à pesquisa.9

A multidimensionalidade do cenário de ratificação das dimensões globais do fenômeno e os estudos realizados sobre as estimativas encontradas de prevalência da violência escolar dependem da população estudada e dos critérios conceituais sobre a violência escolar, o que exibe, ainda, lacunas no conhecimento científico. Entretanto, destaca-se a modalidade que mais afeta o cotidiano escolar: trata-se, especialmente, da violência entre pares protagonizada pelos próprios alunos e que se encontra naturalizada entre eles.10

Conforme o exposto, destaca-se a relevância de compreender como ocorre a dinâmica do processo de produção da violência escolar e os fatores que alimentam esse fenômeno segundo os contextos regionais, socioeconômicos e culturais. Nesse sentido, doravante, para efeito didático e compreensão, utilizar-se-ão como sinônimos os termos escolares, estudantes e alunos.

Sobre a problemática, o presente artigo objetiva analisar a prevalência de violência escolar entre adolescentes com foco nos fatores associados aos comportamentos de vitimização e agressão entre os atores escolares.

 

MÉTODOS

Estudo transversal conduzido no município de Campina Grande, Paraíba, Brasil, considerada de média concentração populacional, com aproximadamente 385.213 habitantes, com 12 escolas municipais localizadas na zona urbana, com 2.565 alunos na faixa etária de 10 a 19 anos, regularmente matriculados no ano de 2014.11

Elegeu-se como critérios de inclusão para os sujeitos da pesquisa a conceituação da World Health Organization, que define adolescente: idade entre 10 e 19 anos;3 ser adolescente; regularmente matriculado no 6° ao 9° ano; e encontrar-se presente na sala de aula no momento da coleta de dados.

A amostragem do tipo probabilística por conglomerado em um estrato (turmas) e o cálculo amostral realizado consideraram a prevalência de 50% de violência escolar. Estabeleceu-se nível de confiança de 95% e margem de erro de 5%, efeito do desenho (Deff) de 1,7 e acréscimo de 20% para perdas. Estimou-se a amostra final em 678 adolescentes, para assegurar a representatividade da amostra e a proporcionalidade pelo número de alunos por escola, sendo alcançada na totalidade, não havendo perdas.

A coleta de dados ocorreu no período de março a julho de 2014 em duas etapas; a primeira referiu-se à ida às turmas de 6° ao 9° ano de cada escola a fim de expor a pesquisa e entregar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) a ser assinado pelos pais dos adolescentes. Nesse mesmo momento marcou-se uma data para devolução dos TCLEs e aplicação dos questionários.

A segunda etapa se constituiu no recolhimento do TCLE assinado, bem como na assinatura do Termo de Assentimento pelos adolescentes e posterior aplicação do instrumento, o questionário de Escala de Violência Escolar (EVE), previamente validado, contendo informações referentes a sexo, idade, ocorrência de violência escolar e seus tipos (violência física, psicológica, material e virtual), porte de arma de fogo e arma branca, uso de álcool e drogas lícitas (tabaco) e ilícitas (maconha, cocaína, craque e cola).4

A Escala de Violência Escolar (EVE) é fundamentada em escala tipo Likert, objetivando investigar a frequência e a gravidade da violência escolar, assim como identificar vítimas e agressores. Para tanto, nos itens para verificar a frequência da violência escolar, a escala constitui-se na ordem de nenhuma, uma ou duas vezes, três ou quatro vezes, cinco ou seis vezes, sete vezes ou mais.12 A escala compõe-se de quatro subescalas que abordam quatro dimensões: vitimização de violência escolar de aluno praticada por aluno, vitimização de violência escolar de aluno praticada por funcionário, agressão de violência escolar praticada por aluno contra outro aluno e comportamento de risco, ocorridos nos seis últimos meses antes da aplicação do instrumento.4

Realizou-se a digitação dos dados no Statistical Package for the Social Sciences (SPSS®), versão 18.0, que foram submetidos à estatística descritiva (distribuições absolutas, percentuais, média e desvio-padrão) e analítica (qui-quadrado e exato de Fisher), adotando-se nível de 5% de significância.

A pesquisa, aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade Estadual da Paraíba – UEPB sob o número do CAAE 27623214.3.0000.5187, seguiu os parâmetros éticos da Resolução n° 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde brasileiro. Todos os escolares participantes da pesquisa. Os menores de 18 anos foram autorizados pelos pais e/ou responsáveis por meio da assinatura no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), resguardando-se o direito de livre escolha dos adolescentes, sendo necessária também a assinatura por parte dos escolares no Termo de Assentimento para participação na pesquisa.

 

RESULTADOS

A maioria dos adolescentes era do sexo feminino (61,2%), com idade entre 10 e 14 anos (86,7%), média de 12,67 anos e mediana de 12,0 (DP± 1,61).

Conforme dados apresentados, 86,3% dos estudantes reportaram ter sofrido violência escolar. Destes estudantes que sofreram violência escolar, 86,2% foram vítimas de mais de um tipo de violência escolar nesse mesmo período, sendo que 13,3% sofreram, concomitantemente, cinco diferentes tipos de violência escolar. Quanto ao tipo de violência, 78,5% dos estudantes foram vítimas de violência psicológica, 63,3% de violência física e 41,4% de violência material (Tabela 1).

 

 

Constata-se que 86,9% dos escolares do sexo feminino e 85,1% dos escolares do sexo masculino sofreram violência escolar. Maior percentual de adolescentes (87,9%) representou vitimização por múltiplos tipos de violência, enquanto que o percentual de sofrer um único tipo de violência mostrou-se maior entre as adolescentes (15%) (Tabela 2).

 

 

No que se refere às formas de violência escolar sofridas, verifica-se que escolares do sexo feminino foram, predominantemente, vítimas de violência psicológica (79,7%). Os escolares do sexo masculino sofreram mais vitimização de violência física (65,4%) e material (47,9%); as violências virtual e simbólica foram identificadas com percentual semelhante entre os sexos. A associação entre as variáveis “violência material” e “sexo” mostrou-se estatisticamente significativa (p=0,007). Todavia, não foram verificadas associações entre “sexo” e “violência física” (p=0,361), “violência psicológica” (p=0,304), “virtual” (p=0,998) e “simbólica” (p=0,816).

Os estudantes com idade entre 10 e 14 anos declararam vitimização por violência escolar de 86,4%, enquanto o grupo de estudantes com maior idade (15 a 19 anos) atingiu o percentual de 87,5% de vítimas de violência escolar. No mesmo sentido, os estudantes mais jovens (10 a 14 anos) relataram serem mais vítimas de um único tipo de violência escolar, enquanto os escolares mais velhos (15 a 19 anos) demonstraram maior percentual de vitimização por múltiplos tipos de violência escolar.

Constata-se também que a faixa etária de 15 a 19 anos, independentemente da variável sexo, concentrou os maiores percentuais de vitimização de todos os tipos de violência: física (64,8%), material (44,3%), psicológica (82,0%), virtual (34,0%) e simbólica (59,0%).

Verifica-se significativa associação entre violência simbólica e a idade dos estudantes (p=0,003). Não foram encontradas associações entre idade dos escolares dicotomizada e violência física (p=0,748), material (p=0,496), psicológica (p=0,418) e virtual (p=0,547). Em relação à violência entre os pares, 86,3% relataram ter sofrido violência escolar praticada por outro aluno, enquanto 51,1% afirmaram terem sido vítimas de violência escolar provocada por funcionário, demonstrando maior percentual de vitimização por violência escolar entre pares (Tabela 2).

Quanto ao perfil do agressor, 46,8% dos escolares afirmaram terem praticado algum tipo de violência escolar contra outro aluno da mesma escola. Destes agressores, 62,4% declararam praticar múltiplas formas de violência para com os pares.

Em contrapartida, grande parcela dos estudantes do sexo masculino são agressores e também são vítimas, visto que 95% dos estudantes que reconheceram praticar agressão contra outro aluno, igualmente, referiram-se como vítimas de algum tipo de violência escolar. Assim, a associação entre as variáveis ser agressor e sofrer violência escolar mostrou-se significativa (p<0,001), compreendendo-se que há risco 10,57 vezes mais alto de um escolar agressor sofrer violência escolar (RP IC 95% = 10,57; 5,22–21,43).

No comportamento de risco na escola, em ambos os sexos os aspectos avaliados quanto ao uso de drogas lícitas e ilícitas e portar armas na escola apresentaram baixos percentuais; uso de cigarro 5%; uso de álcool 7,4%; uso de drogas (maconha, cocaína, craque, cola) 1,8%; uso de arma branca, 5,5%; e uso de arma de fogo, 2,4%. As associações dessas variáveis relacionadas ao comportamento de risco na escola e a variável ser agressor exibiram-se significativas, conforme demonstrado na Tabela 3, para ambos os sexos. Nesse sentido, houve associação positiva entre as variáveis uso de álcool e ser agressor (p<0,001), sendo que os escolares que consumiram álcool na escola apresentaram 3,92 mais chances de terem sido agressores de outro aluno (RP = 3,92; 2,01–7,65).

 

 

Do mesmo modo, a associação entre portar arma branca na escola e ser agressor apresentou-se significativa (p=0,03). Portanto, os estudantes que portaram arma branca na escola apresentaram 2,17 mais chances de terem praticado atos de agressão contra outro aluno (RP = 2,17; 1,08–4,34). Destaca-se a associação entre o uso de arma de fogo e ser agressor, estando os escolares que levaram arma de fogo para a escola com 17,73 mais chances de tornarem-se agressores de seus pares (RP = 17,73; 2,32–135,02) (Tabela 3).

 

DISCUSSÃO

No mundo, a prevalência de violência escolar mostra-se variável. Com base em dados de 96 países e territórios, a prevalência variou de 10,1% a 82,9%, o que demonstra como o Brasil apresenta altos níveis de prevalência de violência escolar, ratificado pelo presente estudo.13 Pesquisas desenvolvidas em Samoa e na China demonstraram percentuais diferenciados de escolares vítimas de violência, 63,3%14 e 26,1%,15 respectivamente; em Porto Rico, América Latina, obteve-se percentual de 53% dos escolares que referiram sofrer violência por outro estudante.16 Para confirmar esses dados, estudo desenvolvido em 79 países de diferentes níveis socioeconômicos revelou média de 30% de adolescentes envolvidos em situações de violência na escola.17 Inquérito internacional17 sinaliza e chama a atenção para a observância do fenômeno como disseminado no mundo, estando a violência escolar diretamente relacionada ao padrão econômico do país. Logo, as diferenças de prevalência de violência escolar entre países associam-se às peculiaridades dos cenários específicos, tendo em vista a diversidade cultural e de sistemas educacionais que abarcam as múltiplas nações.

O presente estudo demonstrou discrepância de manifestação da violência escolar considerando-se o sexo dos envolvidos. Pode-se observar que as meninas foram vítimas potenciais da violência psicológica, enquanto os meninos sofreram mais vitimização de violência física e material. Corroborando esses achados, pesquisas18,19 exibem diferenças estatisticamente significativas acerca das situações de violência entre os sexos, seja no papel de vítima ou de agressor. Assim, os meninos tendem a ser mais vítimas e mais agressores em situações de agressões físicas diretas a outros escolares, apresentando maiores prevalências de envolvimento nas violências e brigas, bem como o uso de arma branca e de fogo. E as adolescentes estão mais envolvidas com as agressões psicológicas e verbais.

Dessa forma, discutir a violência de gênero no âmbito da escola se constitui em uma proposta absolutamente necessária e oportuna, na medida em que se busca, com isso, desenvolver uma postura crítica nos(as) alunos(as) em relação aos processos de naturalização e banalização da violência, em todas as suas formas. Isso pode fazer a diferença quando se trata de problematizar um conjunto de comportamentos, atitudes, expectativas, valores e estereótipos associados aos meninos, pautados na concepção de virilidade e força culturalmente arraigados à masculinidade, impulsionando atitudes violentas e agressivas.20

Outro aspecto a ser destacado refere-se à faixa etária; na presente pesquisa, a prevalência de violência escolar entre as faixas etárias, praticamente, equiparou-se, não havendo disparidade acentuada, o que torna a faixa etária de 10-14 anos de estudantes tão violenta quanto a de 15-19 anos.

Todavia, a literatura científica mostra que a frequência dos episódios de violência escolar atinge o pico no início da adolescência, sobretudo, entre 11 e 14 anos.14 Nos estudantes com menor idade, manifestam-se, principalmente, as situações de violência física direta; à medida que a idade aumenta, esse tipo de circunstância reduz, prevalecendo formas de agressão de caráter relacional e indireto, que envolvem a violência psicológica.21

Destaca-se nesta pesquisa a maior ocorrência de violência escolar entre os pares, ou seja, entre estudantes, superando os percentuais da violência praticada por funcionários nas escolas estudadas. Entre as violências praticadas por funcionários no meio escolar, evidenciou-se a violência simbólica como a mais praticada, sendo esta perpetrada pelo professor. Compreende-se por violência simbólica o tipo de coerção que se estabelece na relação entre dominador (professor) e dominado (aluno), na qual o dominado torna-se refém do poder do dominador, naturalizando-se a ideia de superioridade e decisão de um para o outro.22

A violência simbólica potencializa a manutenção de um ambiente escolar hostil, no qual os laços entre professores e alunos encontram-se permeados pela opressão e agressividade e muitas vezes o diálogo acontece por meio de gritos e advertências verbais, o que reflete no comportamento dos estudantes, potencializando a reprodução de atos de agressão e conflitos que se tornam comuns no espaço escolar.23

A violência no espaço escolar tornou-se ainda mais complexa ao passo que as respostas a esse fenômeno se demostraram proporcionalmente frágeis e dispersas por parte das escolas. Apesar das influências dos fatores macrossociais, não se pode abster da responsabilização da dinâmica das instituições escolares na produção da violência escolar. Enfatiza-se, ainda, que a escola como espaço de relações específicas possui características próprias que têm papel fundamental no desenvolvimento das violências10. Estudo desenvolvido em 11 países reforça que a composição do ambiente da sala de aula influencia os níveis de violência entre pares.24

Nesse sentido, salienta-se a necessidade de estratégias didático-pedagógicas que ampliem a abordagem da violência no meio escolar, pela própria escola. É sabido que desenvolver ações de debate sobre os comportamentos agressivos de adolescentes e jovens, no interior das escolas, pode influenciar positivamente suas atitudes pró-sociais. A escola, no mesmo passo, mostra-se como ambiente de maior predisposição a comportamentos violentos dos jovens e também pode e deve, preferencialmente, ser espaço principal da prática do respeito e da tolerância, bem como da minimização de interações interpessoais agressivas.20

O ato de agredir refere-se às diversas formas de comportamento agressivo contra o outro, com o intuito de infligir danos intencionalmente. Compreende-se que o comportamento agressivo do escolar inicia-se na agressão verbal, gestual, sofrimento psicológico, intimidação, ameaças e perseguição psicológica. Apesar de serem consideradas com menor nível de gravidade, geralmente essas formas de violência alimentam situações de agressão que podem atingir o patamar extremo de gravidade, sendo estas expressas por lutas físicas acompanhadas ou não pelo uso de armas branca e/ou de fogo.5

O comportamento de risco (uso de álcool, drogas e porte de armas branca e de fogo) evidencia-se como forte fator de risco para o desencadeamento dos atos agressivos entre os adolescentes na escola. Apesar da existência de baixos percentuais de porte de arma de fogo, arma branca e consumo de álcool por parte dos alunos nas escolas pesquisadas, essas atitudes indicaram intensa associação com a violência na escola.

Outros pesquisadores desenvolveram estudos que apresentaram semelhante associação, na qual os estudantes que usam álcool no ambiente escolar mostram-se mais propensos a praticar agressão física, especialmente os estudantes do sexo masculino, estando os meninos mais envolvidos em todos os tipos de comportamentos de risco, inclusive o uso de arma branca e de fogo.4

Por outro lado, vale salientar que o papel de agressor não se mostra estático, ao contrário, há íntima relação entre ser agressor e sofrer violência escolar, como demonstrou a presente pesquisa, na qual 95% dos escolares que se autodeclararam agressores também se definiram como vítimas de violência escolar, comprovando a flexibilidade de alternância de papéis do estudante na produção do fenômeno, o que reafirma a dinamicidade da violência com base no princípio da ação-reação, sendo característica de fomento a um ciclo permanente de propagação da violência no meio escolar.

Para o enfrentamento desse fenômeno cíclico e transversal, o setor saúde e os profissionais da área da saúde, inclusive o enfermeiro, carregam um potencial de intervir na fonte de produção da violência, ou seja, nos adolescentes com menor idade por meio de ações de promoção da saúde e da cultura de paz, estimulando ambientes saudáveis e escolas saudáveis nos âmbitos sociais, psicológicos e físicos.

 

CONCLUSÃO

Portanto, as associações encontradas neste estudo salientam como os principais fatores associados à violência desenvolvida no ambiente escolar: ser do sexo masculino, ter menor idade e possuir comportamento de risco; delineando-se, assim, evidências das características dos escolares mais propensos ao envolvimento com a violência escolar.

Ademais, é possível afirmar que a violência escolar pode ser considerada um fenômeno cotidiano, com altos níveis de prevalência em todas as idades entre o grupo de adolescentes; e com associação a fatores de comportamentos de risco, a saber: uso de álcool, porte da arma branca e porte de arma de fogo, sendo estes considerados aspectos de risco a situações de violência no ambiente da escola.

Tal fenômeno necessita da compreensão do contexto escolar no qual este se processa, identificando-se os fatores com potencial de preveni-la com base nos fatores com capacidade de agravá-la, identificados neste estudo, com vistas às ações de enfretamento e superação, as quais dependem do posicionamento de todos os atores atuantes no espaço escolar, assim como a inserção do setor saúde nas ações de promoção da saúde e de fomento à cultura de paz.

O estudo incita à reflexão da responsabilidade da escola no compartilhamento, pertencimento, mediação, participação e envolvimento no enfrentamento das situações de violência, bem como a atuação dos profissionais de saúde, destacando-se o enfermeiro como elemento-chave da promoção da saúde em grupos vulneráveis por meio de ações intersetoriais.

Ressaltam-se como limitações do estudo: a escolha pelo delineamento transversal, não possibilitando estabelecer relações de causa e efeito entre as variáveis estudadas, especialmente entre vitimização e agressão de violência escolar com comportamentos de riscos dos escolares; e o fato de os dados coletados basearem-se em respostas autorrelatadas pelos escolares, as quais podem ser influenciadas pelas compreensões e memórias particulares de cada escolar. Em contrapartida, expõe-se como pontos fortes deste estudo o uso de instrumento validado, aplicado com base em rigor metodológico, e o pioneirismo da pesquisa nessa perspectiva de análise da violência na escola.

 

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