REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume Atual: 23:e-1215 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20190063

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Pesquisa

Significados da dengue para enfermeiros da atenção primária à saúde

Meanings assigned to dengue by primary health care nurses

Murilo César do Nascimento1; José Vitor da Silva2; Fábio de Souza Terra3; Antonio Luiz Rodrigues Júnior4

1. Universidade Federal de Alfenas - UNIFAL, Escola de Enfermagem, Curso de Enfermagem, Área de Saúde Coletiva. Alfenas, MG - Brasil; Universidade de São Paulo - USP, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - FMRP, Programa de Pós-Graduação em Saúde na Comunidade, Departamento de Medicina Social. Ribeirão Preto, SP - Brasil
2. Faculdade Wenceslau Braz - FWB. Itajubá, MG - Brasil; Universidade do Vale do Sapucaí - UNIVAS, Curso de Enfermagem. Pouso Alegre, MG - Brasil
3. UNIFAL, Escola de Enfermagem, Curso de Enfermagem, Área de Saúde Coletiva. Alfenas, MG - Brasil
4. USP FMRP Programa de Pós-Graduação em Saúde na Comunidade, Departamento de Medicina Social. Ribeirão Preto, SP - Brasil.

Endereço para correspondência

Murilo César do Nascimento
E-mail: murilo@unifal-mg.edu.br

Submetido em: 14/05/2018
Aprovado em: 15/04/2019

Contribuições dos autores: Coleta de Dados: Murilo C. Nascimento; Conceitualização: Murilo C. Nascimento, José V. Silva, Antonio L. Rodrigues Júnior; Gerenciamento de Recursos: Murilo C. Nascimento; Gerenciamento do Projeto: Murilo C. Nascimento, Antonio L. Rodrigues Júnior; Investigação: Murilo C. Nascimento, Antonio L. Rodrigues Júnior; Metodologia: Murilo C. Nascimento, José V. Silva, Fábio S. Terra; Redação-Preparação do Original: Murilo C. Nascimento, Antonio L. Rodrigues Júnior; Redação-Revisão e Edição: Murilo C. Nascimento, José V. Silva, Fábio S. Terra; Supervisão: Antonio L. Rodrigues Júnior; Visualização: Murilo C. Nascimento.

Fomento: Não houve financiamento.

Resumo

INTRODUÇÃO: a dengue permanece como um importante problema de saúde pública e segue impactando o contexto econômico, social e de saúde da população.
OBJETIVO: o objetivo desta pesquisa foi de conhecer os significados da dengue para enfermeiros da Atenção Primária à Saúde de um município sul mineiro.
MÉTODO: trata-se de um estudo qualitativo fundamentado na Teoria das Representações Sociais. O trabalho de campo contemplou entrevistas individuais aos 17 Enfermeiros das Equipes de Saúde da Família e Unidades Básicas de Saúde de um município de Minas Gerais, entre junho e julho de 2015. Os depoimentos foram gravados, transcritos e, posteriormente, analisados e apresentados por meio do método do Discurso do Sujeito Coletivo.
RESULTADOS: os sign ificados da dengue emersos foram: desconforto enorme, problema de saúde pública, descuido das pessoas, consequência da falta de educação, doença viral, preocupação e medo, doença grave, doença causada pela picada do mosquito, epidemia, e outros significados. O significado que apresentou maior grau de compartilhamento das ideias foi o da dengue como um problema de saúde pública.
DISCUSSÃO: os achados simbólicos e figurativos emersos evidenciam o quão polissêmico e multifacetado é o tema dengue. Foi uma oportunidade importante para o eu coletivo, constituído pelos enfermeiros da Atenção Primária à Saúde do referido Município se manifestar e representar o que a dengue significa para ele.
CONCLUSÃO: conhecer os significados desta doença para os profissionais ora abordados é importante para a compreensão da sua causalidade e para o seu enfrentamento como problema de saúde pública/saúde coletiva na atualidade.

Palavras-chave: Dengue; Saúde Pública; Pesquisa Qualitativa; Enfermeiras e Enfermeiros; Psicologia Social.

 

INTRODUÇÃO

Não é de hoje que a dengue reemerge ignorando as tentativas de controle e exercendo impacto negativo no contexto econômico, social e de saúde da população. Epidemias, outrora recorrentes nas regiões tropicais de países em desenvolvimento da Ásia, da África e das Américas já têm sido observadas também em espaços extratropicais desenvolvidos como a França, Croácia, Portugal, Espanha, Japão e Estados Unidos.1-7 Estima-se que o risco de infecção pelos vírus da dengue envolva cerca de 2,5 a 2,9 bilhões de pessoas pelo mundo.8,9

Este cenário epidemiológico no qual a dengue permanece como um importante problema de saúde pública, atrelado ao interesse sobre os determinantes/condicionantes não biológicos na manutenção da saúde e na produção desta doença,10 motivaram a realização do presente trabalho. As doenças transmitidas por vetores apresentam sim, uma interação rica e dinâmica entre o vetor, o hospedeiro, e o agente patogênico, mas não se pode esquecer que tal interação ocorre tanto dentro de um contexto físico e biológico quanto num contexto histórico, social e cultural. Assim, as ciências sociais e humanas têm um papel importante para a compreensão de doenças como a dengue, seja auxiliando na gestão da patogênese geral e/ou no controle de artrópodes.11

Pensando na dinamicidade do processo-saúde-doença, acredita-se que a pesquisa social,12 ao tratar do ser humano em sociedade, de suas relações e instituições, de sua história e de sua produção simbólica, oferece um arcabouço importante para a compreensão de fenômenos complexos, como o da dengue no mundo altamente urbanizado em que as pessoas vivem. Nesse sentido, entendem-se como bem-vindas as pesquisas sociais em saúde12 e, por isso, a escolha pela pesquisa de representação social.13

A Teoria das Representações Sociais (TRS), referencial importante que foi resgatado do século XIX pelo psicólogo Serge Moscovici na década de 60,14 tem tido crescente utilização no desenvolvimento de pesquisas que consideram os aspectos psicossociais do processo saúde/doença na vida dos diversos grupos sociais.15 No Brasil as Representações Sociais (RS) foram introduzidas na década de 1970, juntamente com o desenvolvimento da psicologia social, abordagem esta doravante adotada neste trabalho.16

No caso da dengue, conhecer como a doença é simbolizada ou figurada coletivamente pode contribuir para a compreensão do que e de como a sociedade pensa sobre o fenômeno. Considerando que, fundamentado na TRS, é possível procurar entender o porquê de as pessoas fazerem o que fazem, tal perspectiva desponta como arsenal interessante para discutir os significados da dengue. Sob este prisma comportamental, as RS desempenham uma contribuição valiosa para a formação de condutas, uma vez que orientam as relações e as comunicações na sociedade.17

A literatura indica que a utilização do método do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC) nas pesquisas de RS da dengue tem sido orientada tanto por objetivos acadêmicos quanto para fins operacionais e de planejamento da práxis em saúde coletiva. Entretanto, também é notório que o número de contribuições com essa abordagem é reduzido, motivo pelo qual se reitera a importância de que as RS sobre a dengue sejam investigadas por meio do DSC em diversos segmentos da comunidade.18

Já a escolha de profissionais enfermeiros da Atenção Primária à Saúde (APS) como atores sociais deste processo de conhecimento sobre a dengue teve a ver com o interesse do autor pelo tema e também com o seu compromisso para com o segmento populacional de maior identificação profissional, social e acadêmica. Para além da curiosidade de natureza pessoal, a justificativa científica para a escolha dos participantes e campos sociais desta pesquisa diz respeito à proficuidade de se aproximar de uma categoria profissional, cujos relatos e experiência nos serviços de saúde podem contribuir para a compreensão de questões organizacionais da assistência aos indivíduos e à coletividade durante as epidemias de dengue.

Além disso, a TRS ajuda na compreensão de que as RS dos diversos indivíduos que atuam nos serviços de saúde nem sempre são elaboradas somente com as ideias compartilhadas entre cada categoria profissional isoladamente. No processo histórico, cognitivo e social de interpretação da realidade as representações de enfermeiros podem ser influenciadas pelo seu conhecimento científico; pelo seu embasamento pessoal e empírico; e pelos contatos, interações e comunicações cotidianas que intercambiam diversas informações do senso-comum no campo social de sua pertença (faceta social).

Neste sentido, apresentou-se como problema de pesquisa o fato de a dengue continuar resistindo às tentativas de controle e persistir impactando no contexto social e de saúde da população. Considerando que o enfrentamento da dengue está intimamente relacionado ao comportamento individual e às ações coletivas, de forma dialética, é que se perguntou: Quais são os significados da dengue para os enfermeiros da APS? O objetivo deste estudo foi, portanto, conhecer os significados da dengue para os enfermeiros da APS de um município de Minas Gerais, Brasil.

Assim, o presente estudo apresentou valores e símbolos do sujeito coletivo de enfermeiros da APS sobre a dengue, que permeiam a inteligência dos serviços de saúde, por se tratar de profissionais que atuam na linha de frente, evidenciando o conhecimento e o enfrentamento da doença.

 

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa social em saúde,12 do tipo pesquisa de representação social,13 de abordagem qualitativa. Os atores/agentes sociais deste trabalho foram constituídos por todos os 17 enfermeiros, que atuavam nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Equipes da Estratégia Saúde na Família (ESF) - campo social do estudo, e que integram a Rede de APS de um município sul mineiro - lugar da pesquisa. Segundo o censo demográfico realizado em 2010, o município de estudo contava com: população residente de 73.774 pessoas, unidade territorial com área de 850,446Km2, e densidade demográfica de 86,75 hab./Km2.19

Em relação à seleção e à composição dos participantes, não foi necessário cálculo para a determinação do número de enfermeiros a serem entrevistados, nem houve perda amostral, uma vez que, neste estudo de abordagem qualitativa, a quantidade de profissionais abordados correspondeu à totalidade de enfermeiros da APS, população de estudo. Assim, foram adotados os seguintes critérios de inclusão: ser enfermeiro (a); e trabalhar na APS do referido município. Já o critério de exclusão, foi: responder à pergunta gravada, abarcando outros aspectos do tema em tela, que não foram os seus significados. Neste trabalho não foi empregado critério de saturação, uma vez que, tal procedimento não é recomendado para o método do DSC.13

Para a coleta de dados, foram realizadas entrevistas semiestruturadas e individuais, contendo a pergunta sobre os significados da dengue, devido à compreensão das mesmas como técnica privilegiada de comunicação que gera excelente oportunidade de exteriorização de opiniões.12,13 A abordagem dos profissionais foi feita participante a participante, no próprio local de trabalho, em sala específica e em horário previamente agendado, como estratégia de minimização de interferências no processo de trabalho dos participantes.

Como instrumento de coleta, foi elaborado um formulário de pesquisa contendo duas partes, a primeira, para preenchimento de dados cadastrais do entrevistado, e a segunda, com uma pergunta aberta para os enfermeiros. No campo de cadastro foram preenchidas as seguintes variáveis: código do áudio, data da entrevista, sigla de referência, idade, sexo, tempo de serviço, e se o entrevistado já teve dengue. Já a pergunta norteadora foi formulada segundo o objetivo de conhecer o que a dengue significa para os enfermeiros da APS e contou com a seguinte apresentação: - Se uma amiga lhe perguntasse: o que a dengue significa para você, qual seria a sua resposta?

Houve um estudo piloto antes da coleta de dados, para o qual foram convidados dois enfermeiros da população de estudo, escolhidos por conveniência. Esta etapa foi importante, uma vez que registrou apropriada compreensão das perguntas pelos participantes pesquisados e possibilitou certificar que a pergunta apresentada atenderia, de fato, ao objetivo que a norteou. Como não houve necessidade de alteração do instrumento elaborado, os dois participantes do estudo piloto foram mantidos na população final de estudo. Os depoimentos individuais foram registrados com gravador de áudio (digital) e, posteriormente, transcritos na íntegra, sem correção ortográfica.

Para a organização, exploração e a análise do material foi utilizado o DSC. O DSC é uma técnica de tabulação e organização de dados qualitativos fundamentada na TRS13,14 que permite, por meio de procedimentos sistemáticos e padronizados, agregar a apresentar depoimentos sem reduzi-los a quantidades.13

Após análise dos dados textuais - por meio de leituras repetidas e exaustivas dos depoimentos individuais, de forma vertical e horizontal, deu-se sequência com: agrupamento das ideias centrais iguais, semelhantes e complementares; identificação cronológica e quantificação dos participantes que contribuíram com cada representação; apresentação de figura síntese dos achados; e construção dos respectivos DSC. Por ocasião do registro dos DSC procedeu-se à correção ortográfica para adequação ao uso apropriado da língua portuguesa.

O trabalho teve início após a autorização da coleta de dados pela Secretaria Municipal de Saúde, mediante a aprovação do projeto por comitê de ética em pesquisa, conforme CAAE 20189313.4.0000.5440, parecer número 444.929 e resultou numa tese de doutorado.20 Antes de assinarem o termo de consentimento livre e esclarecido, os participantes foram orientados sobre os objetivos e informados sobre os direitos e condições a eles assegurados durante todas as etapas do estudo.

 

RESULTADOS

Os atores sociais que compuseram a população de estudo referem-se a 17 profissionais de nível superior em Enfermagem, todos do sexo feminino, cuja média das idades foi de 40 anos. Em relação ao tempo de experiência profissional observou-se mediana de cinco anos de atuação na APS, sendo que 14 destes enfermeiros (82,35%) integravam ESF urbanas, um profissional (5,88%) atendia na ESF da zona rural, e as duas outras participantes (11,76%) trabalhavam em UBS urbanas tradicionais. Destas, três entrevistadas (17,64%) já tinham sido acometidas por dengue e as 14 demais (82,35%) não tinha apresentado a doença até aquele momento.

Como resultado principal, referente ao objetivo de conhecer os significados da dengue para os enfermeiros da APS, emergiram as seguintes ideias centrais-síntese: desconforto enorme; problema de saúde pública; descuido das pessoas; consequência da falta de educação; doença viral; preocupação e medo; doença grave; doença causada pela picada do mosquito; epidemia; outros significados, conforme ilustração síntese da figura 1.

 


Figura 1 - Significados da dengue, segundo os enfermeiros da APS do município sul mineiro pesquisado, 2015.
Fonte: 21 (Houve alteração na ilustração com acréscimo de texto, para fins de representação como imagem-síntese).

 

A seguir foi destacado o DSC, referente ao significado emerso que apresentou o maior grau de compartilhamento das ideias na população estudada, o da dengue como um problema de saúde pública. É o espaço para o eu coletivo, constituído pelos enfermeiros da APS do município, se manifestar e representar um exemplo do que a dengue significa para ele.

DSC da Ideia Central - problema de saúde pública

Eu acho que a dengue é um problema de saúde pública; uma doença que requer atenção especial. O maior problema é o meio ambiente, é a falta de estrutura, é sanitário. A gente está voltando à estaca zero; por mais que a gente está atualizada com os resíduos, com a coleta de lixo, ainda ficaram coisas. Pensar, como que um mosquito, por causa de água, faz esse estrago todo?

Então, é uma doença de saúde pública por causa da falta de saneamento básico; por conta da falta de cuidado das pessoas, que não cuidam do seu próprio quintal; que não deixam os agentes de endemia entrar nas casas; uma falta de cuidado que causa transtorno na vida de muita gente. Se alguém tiver dengue, não pode deixar passar batido, tem que procurar assistência médica e fazer a parte da família. Não é só a pessoa que pega dengue que tem que se preocupar; todos ao redor, cada um correr atrás. Porque o mosquito vai para todo lado; às vezes, você vai viajar e traz para a cidade. Ou seja, todo mundo é responsável pela dengue; se não existir participação popular, da comunidade, a gente não vai conseguir o controle. É um problema que tem que ser olhado! Trata-se de uma questão de saúde pública que envolve os profissionais e a comunidade (Sujeito Coletivo dos enfermeiros da APS de um município sul mineiro).

 

DISCUSSÃO

No DSC apresentado referente ao significado Problema de saúde pública, o sujeito coletivo aborda a dengue como uma doença que requer atenção especial e descreve vários de seus microdeterminantes. Ele sinaliza também para a importância da procura pelo serviço de saúde em face da infecção, e reforça a necessidade de todos, seja a nível individual ou coletivo, tornarem-se corresponsáveis pelo enfrentamento da doença: [...] É um problema que tem que ser olhado! Trata-se de uma questão de saúde pública que envolve os profissionais e a comunidade [...].

Segundo o Ministério da Saúde (MS), até a Semana Epidemiológica (SE) de número 36 em 2015 haviam sido notificados 1.438.497 casos de dengue no Brasil. Destes, foram confirmados 1.318 casos graves e 17.183 casos com sinais de alarme. Isso equivale a um aumento de 194,68% e 214,92%, respectivamente, em relação ao mesmo período de 2014. Também foi observado um aumento do número de óbitos da ordem de 415 indivíduos em 2014 para 709 pessoas, até 12 de setembro de 2015.21,22 Estes dados mostram que o controle da dengue permanece como um desafio para a saúde pública brasileira.

Desta forma, a dengue significar um problema de saúde pública para os profissionais de saúde é uma representação positiva, uma vez que essa ideia condiz com a realidade epidemiológica do local. Além disso, tal significado possui potencial de suscitar atenção e preocupação dos atores sociais pesquisados para com o presente objeto de estudo: a dengue. Entretanto, interessante seria que a dengue fosse compreendida, para além de um problema de saúde pública, como uma questão de saúde coletiva.

Pensando em processo de trabalho, a saúde pública utiliza como instrumentos a epidemiologia tradicional, o planejamento normativo e a administração taylorista, que se referem a abordagens e concepções biologicistas de saúde. Por outro lado, a saúde coletiva procura utilizar a epidemiologia social ou crítica e as ciências sociais para estudar a determinação social, as desigualdades em saúde, o planejamento estratégico/comunicativo e a gestão democrática.23

Assim, uma mudança paradigmática importante em relação à compreensão e ao enfrentamento da dengue diz respeito à transição das ações isoladas da vigilância epidemiológica, da vigilância sanitária ou dos programas especiais desarticulados das demais ações - característicos da saúde pública - para o acolhimento de todos os saberes, científicos e populares - sobre o qual se debruça a saúde coletiva. O mix entre o conhecimento científico e o conhecimento empírico pode contribuir para elevar a consciência sanitária e a realização de intervenções intersetoriais sobre os determinantes estruturais da saúde.23

Não há intenção de discutir os aspectos epistemológicos da dialética entre a saúde pública e a saúde coletiva. Entretanto, cabe chamar a atenção para o discurso elaborado sobre a dengue como problema coletivo: [...] envolve os profissionais e a comunidade [...]. O enfrentamento da dengue no contexto da reforma sanitária brasileira deve ser coerente com este movimento. Segundo o DSC discutido, deve [...] existir participação popular [...]. Assim, diante da dengue como um problema essencialmente coletivo, um significado mais abrangente para a doença seria então: um problema de saúde pública e uma questão de saúde coletiva.

Cabe destacar que o município em estudo tem passado de um cenário epidemiológico marcado por epidemias de dengue pouco expressivas para uma realidade de incidência progressiva e hiperepidemia, como a observada no ano de 2015. Neste sentido, além da preocupação com os efeitos do vírus da dengue (DENV) no hospedeiro, entende-se oportuna uma discussão mais aprofundada também sobre as questões social, comportamental e organizacional que envolvem as epidemias de dengue em todo o país.

Acredita-se que a possível justificativa para as representações tímidas dos enfermeiros da APS registradas sobre a dengue e seu controle tenha relação com o fato destes profissionais não estarem até então habituados com epidemias tão expressivas de dengue no município. Além disso, foi registrado nos depoimentos individuais a especificidade e a complexidade que a saúde coletiva impõe de se trabalhar concomitantemente com um número tão elevado de programas ministeriais voltados a diferentes agravos e grupos populacionais alvo.

A questão do pouco contato com a dengue nas Unidades de APS, primeiramente justificada pela vasta abrangência das práticas de saúde desenvolvidas pelos enfermeiros no cotidiano da APS, parece ser dificultada ainda mais pela falta de um plano estratégico municipal de atendimento aos usuários. Este planejamento seria de extrema importância também para organizar o fluxo da população pelos pontos de atenção do sistema de saúde e facilitar seu acesso precoce aos serviços, principalmente em períodos epidêmicos.

Durante as entrevistas, a assistência dos casos de dengue nas Unidades de APS foi representada como trama de um cenário de guerra. As principais dificuldades observadas nos relatos foram relacionadas à inadequação da área física e à insuficiência de equipamentos e recursos materiais para atender de forma satisfatória a grande clientela com dengue acolhida naqueles serviços em 2015.

No entanto, esta realidade não difere do constatado nos municípios de médio e de grande porte populacionais brasileiros. O desafio atual para os sistemas de saúde municipais é, de fato, aperfeiçoar o modelo assistencial de modo a priorizar as ações preventivas e ordená-las pela APS.24 Em grande parte dos municípios, os profissionais fazem malabarismo para tentar equilibrar a atenção programada e a demanda espontânea por meio da instituição de uma agenda semanal e mensal de atendimento.

O cenário de descompasso entre demanda e capacidade de atendimento é agravado nos períodos de maior transmissão de dengue, nos quais a rotina das unidades é completamente alterada.24 A literatura aponta que dependendo do número de casos, quase todas as outras atividades da demanda programada são reduzidas.24 No município de estudo, a definição das Unidades de APS como porta de entrada preferencial para os usuários com suspeita de dengue25 procurou equalizar os atendimentos e prover um melhor direcionamento dos fluxos pela rede, cujo impacto para a APS ainda não foi avaliado.

Já no que se refere às estratégias de prevenção dos casos de dengue, a secretaria municipal de saúde anunciou em janeiro de 2016 um plano de intensificação das ações no combate aos focos do Aedes aegypti. A proposta foi de visitar todos os imóveis do município em uma força-tarefa que reuniu 32 Agentes de Controle de Endemias (ACE) e 110 Agentes Comunitários de Saúde (ACS). Pensando na contenção da proliferação do mosquito vetor a iniciativa contemplou um trabalho de orientação aos moradores a fim de prevenir e identificar possíveis focos.25

Por fim, convém relembrar que, para além da discussão epidemiológica do fenômeno de interesse, este estudo buscou ressaltar a importância de se interpretar os significados da dengue à luz da TRS. Desta forma, compreende-se que os discursos dos enfermeiros da APS também comportaram traços das RS dos demais profissionais que compõem o campo socialmente estruturado APS; e não apenas o conjunto de significações coletivas dos colegas do campo socialmente estruturado categoria profissional enfermeiro.

 

CONCLUSÃO

Considerando o grau de compartilhamento das ideias pelo campo social estudado é possível concluir que a dengue e seu enfrentamento foram socialmente representados pelos enfermeiros da APS principalmente como um problema de saúde pública, cujo controle é dificultado pela falta de conscientização da população e facilitado pelo trabalho de orientação/conscientização e pelas parcerias.

Os significados da dengue, obtidos por meio do método do DSC, foram: Desconforto enorme; Problema de saúde pública; Descuido das pessoas; Consequência da falta de educação; Doença viral; Preocupação e medo; Doença grave; Doença causada pela picada do mosquito; Epidemia; e Outros significados.

Conhecer os significados da dengue é importante para a compreensão da sua causalidade e para o seu enfrentamento como problema de saúde pública/saúde coletiva na atualidade. Neste sentido, o referencial teórico-metodológico utilizado, o da TRS, permitiu alcançar o objetivo do estudo.

Estes achados simbólicos e figurativos presentes no cotidiano da APS evidenciam o quão polissêmico e multifacetado é o tema dengue. Isto, por sua vez, implica em novas reflexões e intervenções a respeito desse fenômeno, a partir dos significados obtidos dos enfermeiros que integram a rede pública da realidade estudada. O trabalho possibilitou acessar os valores e símbolos do sujeito coletivo de enfermeiros da APS sobre a dengue, que permeiam a inteligência dos serviços de saúde, por se tratar de profissionais que atuam na linha de frente, promovendo o enfrentamento da doença.

Contudo, acredita-se que o recorte comunitário e a abordagem municipal contemplados neste trabalho constituam uma limitação de estudo, ao passo que não possibilitam generalizar que as RS emersas a nível local são, de fato, socialmente compartilhadas de forma similar em outros contextos e cenários mais amplos em relação à área geográfica. Neste sentido, sugere-se que novas pesquisas sejam conduzidas a fim de elucidar a abrangência e extensão das representações sociais dos enfermeiros sobre a dengue em escala nacional e internacional.

 

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24. Pimenta NF. Determinação Social, Determinantes Sociais da Saúde e a dengue: caminhos possíveis? In: Valle D, Pimenta DN, Cunha RVD. Dengue: teorias e práticas. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2015. Cap. 19, p. 407-47.

25. Emergente A. Situação de alerta preocupa Secretaria de Saúde que intensifica combate à dengue. Alfenas Hoje. 2016[citado em 2019 fev. 14]. Disponível em: http://www.alfenashoje.com.br/noticia.asp?id_noticia=110920020

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