REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume Atual: 23:e-1216 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20190064

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Pesquisa

Perfil epidemiológico do atendimento antirrábico humano em uma área de planejamento do município do Rio de Janeiro

Epidemiological profile of human antirabic care in a planning area of the city of Rio de Janeiro

Adriana Oliveira do Nascimento1; Rodrigo Aguilar Constantino Matos2; Simone Mendes Carvalho3; Vanessa de Almeida Ferreira Corrêa3; Mary Ann Menezes Freire3

1. Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO, Escola de Enfermagem Alfredo Pinto. Rio de Janeiro, RJ – Brasil
2. Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro – SMS/RJ, Divisão de Vigilância em Saúde. Rio de Janeiro, RJ – Brasil
3. UNIRIO, Departamento de Enfermagem de Saúde Pública. Rio de Janeiro, RJ – Brasil

Endereço para correspondência

Mary Ann Menezes Freire
E-mail: mary.freire@unirio.br

Contribuições dos autores: Análise Estatística: Adriana O. Nascimento, Rodrigo A. C. Matos, Mary A. M. Freire; Coleta de Dados: Adriana O. Nascimento, Rodrigo A. C. Matos; Conceitualização: Adriana O. Nascimento, Rodrigo A. C. Matos, Mary A. M. Freire; Gerenciamento do Projeto: Mary A. M. Freire; Investigação: Rodrigo A. C. Matos; Metodologia: Adriana O. Nascimento, Rodrigo A. C. Matos, Mary A. M. Freire; Redação - Preparação do Original: Adriana O. Nascimento, Rodrigo A. C. Matos; Redação - Revisão e Edição: Simone M. Carvalho, Vanessa A. F. Corrêa, Mary A. M. Freire; Supervisão: Mary A. M. Freire.

Fomento: Não houve financiamento.

Submetido em: 11/09/2017 Aprovado em: 19/08/2019

Resumo

A raiva é considerada um problema de saúde pública no Brasil e no mundo. O atendimento antirrábico está entre os três agravos de maior notificação no país.
OBJETIVOS: descrever e caracterizar o perfil epidemiológico do atendimento antirrábico no município do Rio de Janeiro, na área programática 2.1, no período de 2010 a 2015.
METODOLOGIA: estudo descritivo retrospectivo dos registros referentes aos atendimentos antirrábicos humanos inseridos no Sistema de Informação de Agravos de Notificação do município do Rio de Janeiro. Para a seleção dos dados utilizou-se o programa TabWin 32; a organização e análise foram desenvolvidas no Excel©.
RESULTADOS: foram encontrados 8.681 registros. Destes, 8.235 (94,9%) foram atendimentos por provável pós-exposição ao vírus rábico. Das 8.235 notificações, 70% eram brancas, 56% do sexo feminino, com destaque para a faixa etária de 20 a 59 anos (54,7%). A principal forma de agressão foi a mordedura (83,1%) em mãos/ pés (41%), e o principal agressor os cães (74,4%), sendo indicadas em 72,3% dos casos observação e vacina.
CONCLUSÃO: constatou-se que o perfil epidemiológico do atendimento antirrábico na área programática 2.1 ocorreu em pessoas brancas do sexo feminino com o tipo de exposição mordedura em mãos e pés, tendo como animal agressor o cão. Esses dados ajudam a pensar estratégias de prevenção. Torna-se importante a ampliação dos serviços que realizam o atendimento antirrábico, sobretudo vinculado à Estratégia de Saúde da Família. A capilarização desse atendimento é, no mínimo, um redutor de risco para a ocorrência da doença, por permitir os cuidados básicos imediatos.

Palavras-chave: Raiva; Vacinas Antirrábicas; Monitoramento Epidemiológico; Atenção Primária à Saúde; Saúde Pública.

 

INTRODUÇÃO

A raiva humana é uma zoonose de etiologia viral, que compromete o sistema nervoso central (SNC), caracterizando-se por encefalite de progressão rápida e letal. A sintomatologia é bastante diversa, podendo o paciente apresentar as fobias clássicas da raiva (hidrofobia e aerofobia), a tríade parestesia, paresia e paralisia, a síndrome de Guillain-Barré e outros sinais e sintomas. É considerada um problema de saúde pública há muito tempo no Brasil e em várias partes do mundo.1

A doença tem como hospedeiro, reservatório e transmissor o animal, cuja transmissão aos humanos acontece através de mordedura, arranhadura ou lambedura. A transmissão ocorre quando o vírus da raiva, do gênero Lyssavirus, presente na saliva do animal infectado penetra no organismo, multiplicando-se no local de inoculação e alcançando a inervação periférica, disseminando-se para o sistema nervoso central, chegando ao cérebro e posteriormente a vários órgãos e glândulas salivares, replicando-se e sendo eliminado na saliva das pessoas e animais infectados.2

Como forma de controle da raiva, foi criado em 1973 o Programa Nacional da Profilaxia da Raiva, mediante convênio do Ministério da Saúde (MS), Ministério da Agricultura, Central de Medicamentos e a Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS). O objetivo era promover ações sistemáticas de combate à raiva humana, por meio da vacinação em animais domésticos, tratamento profilático de pessoas expostas, ações da vigilância epidemiológica, diagnóstico laboratorial, controle da população animal e educação em saúde.3,4

A estruturação de um programa nacional de profilaxia da raiva, sua ampliação e aperfeiçoamento territorial ao longo dos anos representou importante avanço na redução do número de casos de raiva animal, sobretudo em cães, além dos casos de raiva humana. No período que compreende os anos de 1986 e 1993 (intervalo de oito anos) o Brasil registrou 443 casos de raiva humana, média de 55,4 casos por ano. Em contrapartida, entre 1994 e 2008 (intervalo de 15 anos), quase o dobro do tempo, o país registrou 317 casos, média de 21,3 casos por ano.5

Entre as estratégias da vigilância epidemiológica comumente empregadas em todo o território nacional para prevenção e controle da raiva, estão: a investigação de todos os casos suspeitos de raiva humana e animal, assim como a determinação de sua fonte de infecção e a busca ativa de pessoas sob exposição; determinação de áreas de risco; monitoramento da raiva animal; realização de bloqueios vacinais em áreas com casos confirmados; campanhas de vacinação antirrábica de caninos e felinos; e, por fim, a realização de ações educativas de forma continuada.2

No entanto, apesar dos importantes avanços, como demonstrado, o Brasil ainda não conseguiu controlar a circulação viral animal em todo o país, existindo áreas endêmicas para os ciclos urbano e rural. Entre 2011 e 2016 foram notificados 5.448 casos de raiva animal no Brasil, a grande maioria em herbívoros rurais (4112/75,5%). Todavia, 5,9% (321) foram animais do ciclo urbano, o que demonstra a ainda presente vulnerabilidade à raiva animal.6

Historicamente, os principais fatores de risco para a disseminação da raiva no Brasil são: aumento da oferta de alimento (quantitativo dos rebanhos); ocupação desordenada e modificações ambientais, que levam os morcegos a migrarem para outras áreas em busca de alimento; oferta de abrigos artificiais (túneis, cisternas); e atuação insatisfatória na execução dos programas estaduais de controle da raiva nos herbívoros em alguns estados brasileiros.7

Nos últimos anos, aquela que seria uma das principais estratégias para garantia do controle da raiva humana e animal pelos estados e municípios, a vacinação, encontra-se fragilizada. Em 2010 mais de 200 animais morreram em todo o Brasil após a aplicação da vacina antirrábica animal, causando forte impacto na credibilidade das campanhas nacionais de vacinação animal e a suspensão das campanhas pelo MS.8,9 Problemas com a produção da vacina antirrábica humana (VARH) e o soro para humanos também têm sido comuns desde 2015, conforme a Nota Informativa da Coordenação Geral do Programa Nacional de Imunização (CGPNI), cujo conteúdo endereçado aos estados alertava para a redução na distribuição da vacina contra raiva e as dificuldades na produção do soro antirrábico humano (SARH).10

Particularmente, o estado do Rio de Janeiro (ERJ) passa por uma situação delicada, uma vez que sua cota de SARH foi reduzida continuamente ao longo do ano de 2016, situação que se agravou com a redução, também, da VARH. Desde agosto de 2016 a cota de vacina do estado foi reduzida em quase 83%, saindo de 17 mil doses/mês para 2,2 mil.11 Esse é mais um fato que reforça a fragilidade detectada no programa de vigilância da raiva do ERJ, como demonstram algumas publicações.4

A situação do ERJ torna-se ainda mais preocupante, em particular, por conta da queda da cobertura vacinal animal após 2010 e pelo aumento importante no número de casos de raiva em morcegos.11 O impacto desse cenário percorre todos os municípios do estado, sobretudo sua capital, cuja população animal é relevante e as ocorrências de morcegos com diagnóstico de raiva são comuns.12,13

Em momentos como esse é fundamental avaliar a qualidade dos programas de profilaxia da raiva, compreender o perfil das pessoas envolvidas nos acidentes com animais potencialmente transmissores do vírus, bem como quais são os animais envolvidos e, sobretudo, se a terapêutica profilática tem sido aplicada corretamente. Em tempos de crise na produção de imunobiológicos, garantir níveis elevados de eficiência na prescrição de vacina e soro é fundamental para mitigar os efeitos do baixo fornecimento desse componente.

No município do Rio de Janeiro, até novembro de 2016 o atendimento antirrábico humano era realizado em polos de primeiro atendimento, unidades específicas que centralizavam o atendimento nas áreas programáticas (APs). Tanto o atendimento quanto a vacinação eram realizados nessas unidades e aqueles usuários que tinham indicação de soro eram encaminhados para os hospitais de referência. A partir de novembro houve a descentralização do atendimento para as unidades de atenção primária, no entanto, a vacinação continua centralizada em poucas unidades.

Nesse contexto, o presente estudo tem por objetivo descrever o perfil epidemiológico do atendimento antirrábico na área programática 2.1 (AP 2.1) do município do Rio de Janeiro, no período de 2010 a 2015. O atendimento antirrábico está entre os três agravos de maior número de notificações do país, com mais de 500 mil notificações no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) por ano.14

Esse tipo de estudo permite a compreensão do perfil do paciente vítima de acidentes com animais potencialmente transmissores da raiva residentes na zona sul da cidade do Rio de Janeiro, as características dos acidentes, das condutas e desfechos dos casos atendidos. Dessa forma, é possível desenvolver ações de intervenção que possam qualificar o atendimento, aumentar a assertividade das condutas, bem como desenvolver atividades preventivas, sobretudo numa conjuntura desfavorável quanto à produção de imunobiológicos.

 

METODOLOGIA

Consiste em um estudo descritivo retrospectivo dos registros referentes aos atendimentos antirrábicos humanos pós-exposição a acidentes com animais potencialmente transmissores do vírus rábico, inseridos no SINAN do município do Rio de Janeiro.

Foram consideradas para atendimento de profilaxia pós-exposição as notificações de indivíduos possivelmente expostos ao vírus da doença em decorrência de mordedura, lambedura de mucosa ou arranhadura provocada por animais transmissores, cujas possibilidades de tratamento obrigatoriamente são: esquema de reexposição, dispensação de tratamento, observação do animal, observação + vacina, vacina e soro + vacina.

A população objeto, em específico, são os residentes da AP 2.1, área que engloba os bairros da zona sul da cidade: Flamengo, Glória, Laranjeiras, Catete, Cosme Velho, Botafogo, Humaitá, Urca, Leme, Copacabana, Ipanema, Leblon, Lagoa, Jardim Botânico, Gávea, Vidigal, São Conrado e Rocinha. A população do território, segundo dados do IBGE 2010, é de 638.059 pessoas. O recorte temporal compreende o período entre 2010 e 2015.

A seleção dos dados na base de dados municipal desenvolveu-se pelo programa TabWin 32, e para organização e análise dos dados utilizou-se o Excel©. Na análise estatística empregaram-se as frequências absolutas e relativas.15 Para a análise do perfil não foram considerados os dados ignorados ou em branco. A seleção dos dados pelo TabWin utilizou os seguintes filtros de seleção: 1 – ano de notificação (2010 a 2015); 2 – município de residência (Rio de Janeiro), 3 – AP de residência (2.1) e 4 – tratamento indicado (esquema de reexposição, dispensação de tratamento, observação do animal, observação + vacina, vacina e soro + vacina).

Foram relacionadas para a caracterização do perfil epidemiológico dos atendimentos as seguintes variáveis: sociais (raça/cor, sexo, escolaridade e faixa etária); agressão (forma de exposição ao vírus, local do ferimento, extensão do ferimento e tipo do ferimento); animal agressor (espécie do animal, condição do animal no momento da agressão, observação do animal e condição final do animal); tratamento (tipo de profilaxia indicada, histórico de tratamento anterior, interrupção da profilaxia, motivo da interrupção e busca ativa do paciente com abandono). De forma coadjuvante, foi realizada análise da completude dessas variáveis.

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro em 2016, pareceres 1.672.490 e 1.754.782, respectivamente.

 

RESULTADOS

Foram encontrados 8.681 registros do SINAN referentes a residentes da AP 2.1 dentro do recorte temporal proposto. Desses registros, 8.235 (94,9%) foram atendimentos por provável pós-exposição ao vírus rábico, 361 (4,2%) atendimentos para esquema de pré-exposição e 85 (1%) ignorados ou em branco. Fizeram parte do estudo, portanto, os 8.235 atendimentos antirrábicos humanos por pós-exposição ao vírus rábico.

A distribuição cronológica dos casos ocorreu no seguinte sentido: 2010 – 986 casos; 2011 – 1.029 casos; 2012 – 1.336 casos; 2013 – 1.432 casos; 2014 – 1.651 casos e 2015 – 1.801 casos (Figura 1). Entre os anos de 2010 e 2015 houve incremento de 82,2% no número de registros. Aproximadamente 70% (5.677) dos atendimentos ao longo desse período foram realizados em unidades de atenção primária da própria AP 2.1 e os demais (2.558) em unidades fora do território de residência.

 


Figura 1. Número de atendimentos antirrábicos humanos em residentes da AP 2.1 do município do Rio de Janeiro, entre 2010 e 2015.

 

Em relação à raça/cor dos indivíduos agredidos, em 2.283 (27,7%) notificações esse dado foi ignorado. Excluindo-se esses registros, 70% (4.166) dos atendimentos foram em indivíduos da cor branca, 20,9% (1.244) parda, 8,4% (502) preta, 0,4% (25) amarela e 0,3% (15) indígena (Tabela 1). No que se refere ao sexo, apenas um registro apresentava o preenchimento do campo como ignorado. A maior parte dos indivíduos agredidos era do sexo feminino (56,7%/4.668).

 

 

A forma mais frequente de exposição ao vírus foi a mordedura, presente em 83,1% (7.439) dos registros; seguida pela arranhadura, com registro em 15,2% (1.363) dos casos; lambedura em 0,8% (69); contato indireto em 0,4% (37); e outras formas em 0,5% (49) (Tabela 2). O local de maior prevalência dos ferimentos foram mãos/pés, com registro em 41% (3.765) das notificações, seguidos pelos membros inferiores (25,9%/2.381), membros superiores (16,9%/1.557), cabeça/pescoço (10%/917), tronco (3,8%/350) e mucosa (2,4%/221). No tocante ao número de ferimentos provocados pela agressão, 1,3% (104) dos registros foi preenchido como ignorado e 0,4% (30) estava em branco. Nas notificações com registros de ferimentos, 51,7% (4.190) foram ferimentos únicos e 48,3 (3.911) ferimentos múltiplos. Quanto ao tipo de ferimento, 80,2% (6.619) foram profundos, 17,6% (1.454) superficiais e 2,2% (182) dilacerantes.

 

 

Entre as espécies de animais agressores, 74,4% (6.123) eram caninas, 21,7% (1.787) felinas, 1,4% (113) quirópteras, 1,1% (87) primatas, 0,2% (14) herbívoras e 1,3% (111) outros animais (Tabela 3). Nos atendimentos com condição do animal avaliada, 76% (6.136) encontravam-se sadios, 7,9% (634) suspeitos, 16,1% (1.296) mortos/desaparecidos e em 0,04% (3) raivosos. Nos três atendimentos com avaliação do animal como raivosos, um era da espécie canina, um morcego e um de outra espécie.

 

 

Nos atendimentos provocados por cães e gatos – que devem ser avaliados quanto à possibilidade de acompanhamento –, 15,5% (1.230) não apresentavam resposta quanto à possibilidade de observação por 10 dias, conforme orienta o Guia de Vigilância em Saúde2. Entre os atendimentos com resposta, 91,5%/6.113 registraram que os animais envolvidos na agressão eram passíveis de observação. Em relação aos animais observados, não havia resposta sobre a condição final, após o período de vigilância, em 1.031 (16,9%) dos casos. Naqueles casos em que havia registros, 99,7% (5.063) foram negativos para raiva (critério clínico e laboratorial) e 0,4% (19) morto ou desaparecido.

No que diz respeito à indicação de conduta terapêutica, 72,3% (5.957) dos atendimentos tinham indicação de “observação + vacina”, 16,1% (1.323) “soro + vacina”, 7,7% (632) apenas “vacina”, 2,2% (180) “observação do animal”, 1,2% (99) “esquema de reexposição” e 0,5% (44) teve dispensa de tratamento (Tabela 4). Aproximadamente 12% (998) dos usuários atendidos já haviam realizado esquema terapêutico anterior de VARH, dos quais 151 em esquemas de pré-exposição e em 847 em esquemas de pós-exposição. Entre os 847 casos de exposição anterior à VARH para tratamento de pós-exposição ao vírus rábico, apenas 687 tinham registro do período em que ocorreu o tratamento anterior: 91,6% (629) haviam ocorrido há mais de 90 dias (Tabela 4).

 

 

Em relação à conclusão do tratamento (se houve interrupção do tratamento), 6,5% (536) dos casos não tinham essa resposta registrada. Entre os casos com registro, houve interrupção do tratamento em 24,2% (1.861) dos casos e 75,8% (5.838) continuaram com o tratamento até o final. Quanto aos motivos de interrupção, 89,3% (1.662) foram por abandono do tratamento, em 10,5% (195) houve indicação da unidade de saúde e 0,2% (4) por transferência de unidade. Entre aqueles que abandonaram, 89,5% (1.373) foram procurados pela unidade de saúde para continuidade do tratamento.

 

DISCUSSÃO

Os resultados revelaram que o perfil de atendimento antirrábico humano na área de planejamento 2.1 do município do Rio de Janeiro refere-se ao aumento progressivo do número de atendimentos a mulheres de cor branca. A principal forma de exposição foi mordedura, em mãos e pés, com ferimentos únicos e profundos. O cão foi o principal agressor e a maioria constatada sadia. A conduta terapêutica mais observada foi observação + vacina e quanto à conclusão do tratamento e a maioria continuou com o tratamento até o final.

Até o ano de 2010 a AP 2.1 contava com duas unidades que realizavam atendimento antirrábico. Em 2013 duas novas unidades passaram a oferecer esse tipo de serviço e em 2014 a área ganhou mais uma. Essa expansão dos locais de atendimento, ampliando o acolhimento no território, pode ter colaborado para o aumento no número de atendimentos. No entanto, não é possível descartar a interferência de fatores ambientais para esse incremento de demanda, como, por exemplo, o aumento da população animal em situação de abandono na rua. De todo modo, quanto maior o acesso, maior a possibilidade de acolhimento de cidadãos vítimas de acidentes com animais potencialmente transmissores do vírus da raiva, bem como se torna mais acessível a realização dos tratamentos de pós-exposição.16

Sobre a qualidade dos dados, um dos indicadores utilizados para avaliar a performance dos bancos de dados é o nível de incompletude dos campos, isto é, a frequência com que determinada informação deixa de ser preenchida no instrumento de captação da informação.17 Nesse sentido, os dois campos ou variáveis com maiores índices de incompletude foram a raça/cor e escolaridade dos indivíduos notificados. Essas são variáveis tradicionalmente reconhecidas pelo alto índice de não preenchimento ou preenchimento como ignorado nos sistemas de informação em saúde, em especial no SINAN, como é possível observar em diversos estudos.18,19

Embora em frequências menores, outras variáveis também apresentaram nível de incompletude elevada (entre 15 e 20% das notificações), estas diretamente relacionadas à tipificação das agressões: antecedente de tratamento de pré-exposição, antecedente de tratamento de pós-exposição, possibilidade de observação do animal e condição final do animal. Essas informações são fundamentais para o manejo do tratamento, definindo não só o número de doses de vacina a serem administradas, mas, também, a utilização ou não do SARH.

Os achados sobre raça/cor dos usuários atendidos são semelhantes ao de estudo aplicado em Porto Alegre no ano de 2006 e Pernambuco em 2007, onde a maioria absoluta dos usuários era da cor branca, seguido em menores proporções por indivíduos da cor parda e preta.16,20

No tocante ao sexo dos usuários atendidos, diferentemente de diversos outros estudos14,20,21, o sexo feminino foi o que apresentou o maior número de registros. Como esses estudos se referiam a populações municipais de diversos estados, o que inclui áreas rurais, diferentemente da amostra de residentes da AP 2.1, exclusivamente formada por moradores de áreas urbanas, pode estar nesse aspecto a justificativa para tal diferença, uma vez que a maior parte dos trabalhadores/ moradores das zonas rurais é de cidadãos do sexo masculino.

O fato de a maioria dos ferimentos ser registrada em mãos/ pés e cabeça/pescoço, além de serem profundos e dilacerantes, já define a maioria dos acidentes como graves, exigindo, no mínimo, duas doses da vacina, além do acompanhamento dos animais passíveis de observação. Diversos estudos relatam a mordedura como o tipo de exposição ao vírus rábico mais comum, por ser um mecanismo de defesa animal. Quanto à região de ataque, embora a classificação de mãos e pés como categoria única dificulte a definição da região do eixo longitudinal anatômico mais atingida, alguns estudos mostram que os membros inferiores são os mais acometidos, por estarem na mesma altura da linha de ataque animal.14 A recategorização de mãos e pés separadamente promoveria melhor conhecimento dessa informação, embora do ponto de vista fisiopatológico ambos os locais apresentem o mesmo risco de neurotropismo do vírus.

Historicamente, tanto a transmissão da raiva, quanto os atendimentos profiláticos para raiva são provocados, majoritariamente, por acidentes com caninos, tendência esta também apresentada nos residentes da AP 2.1.10 Os registros dos três atendimentos cujos animais agressores eram raivosos ocorreram em 2012 (01 quiróptero) e 2014 (um canino e um de outra espécie não identificada), no entanto, os registros de raiva animal no município do Rio de Janeiro em 2012 não referem casos em morcegos22 e em 2014 só há registros de raiva em herbívoros no estado do Rio de Janeiro.23

Em áreas com baixo risco para transmissão da raiva, como no Rio de Janeiro, a observação do animal é estratégia fundamental para a definição da conduta profilática, permitindo a racionalização do uso dos imunobiológicos, já que não há precedentes de transmissão de raiva em animais que tenham sobrevivido a 10 dias de observação.24 Nesse sentido, o alto percentual de animais observáveis nos acidentes envolvendo residentes da AP 2.1 permite essa melhor definição de conduta, sobretudo porque quase a totalidade de animais observados sobreviveu após o 10º dia de vigilância. Esse é o principal motivo para que mais de 72% dos casos tenham como conduta de tratamento “observação + vacina”, desempenho bastante superior aos 50,4% encontrados em todo o país.14 Embora 847 casos apresentassem tratamento de pós-exposição anterior, apenas 99 casos foram tratados como “esquema de reexposição”, evidenciando a necessidade de esclarecimento técnico nas unidades de atendimento.

Aproximadamente um quarto da amostra do presente estudo interrompeu o tratamento, quase que em sua totalidade por abandono, desempenho extremamente alto se comparado à frequência nacional.14 Todavia, é fundamental a avaliação técnica do perfil desses abandonos. Estudo realizado em Porto Alegre com amostra de 280 indivíduos que, no SINAN, constavam como se tivessem abandonado o tratamento evidenciou que apenas 33,6% dessa amostra haviam, de fato, abandonado a conduta terapêutica prescrita. A maioria dos participantes do estudo havia completado o esquema em unidade de saúde diferente daquela na qual realizou o primeiro atendimento, no entanto, essa informação não foi utilizada para encerramento do caso, sendo considerados como abandono de tratamento.16

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir do perfil traçado, constatou-se que, apesar de a raiva estar sob controle e não haver casos em humanos no estado do Rio de Janeiro durante o período do estudo, a doença é uma preocupação latente para o sistema de saúde pública local, por: ser transmitida por animais de convívio social e com alta densidade populacional; pela queda na cobertura vacinal animal, que acaba deixando essa população mais vulnerável; pela identificação de morcegos infectados por vírus rábico na cidade.

Sendo assim, podem-se destacar alguns pontos importantes para a manutenção do controle da raiva, quais sejam: a educação em saúde, a qualificação técnica dos profissionais que prestam o atendimento, intensificação das ações de vigilância sanitária e a atuação sobre os fatores de risco para a disseminação do vírus.

Por fim, sugere-se atuar sobre os fatores de risco para disseminação da raiva, para o controle da população de animais de rua, atuando sobre os abrigos artificiais que favorecem a ocupação de morcegos e na manutenção das florestas urbanas que são seu habitat e, além disso, espera-se que a execução do programa estadual de controle da raiva seja efetivo.

Destaca-se que uma das limitações no estudo relaciona-se à falta de preenchimento de todos os campos da notificação, assim como a análise em apenas uma AP do município do RJ, o que pode também ser uma potencialidade para novos estudos.

 

REFERÊNCIAS

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