REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume Atual: 23:e-1232 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20190080

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Pesquisa

Prevalência do estresse e síndrome de burnout em enfermeiros no trabalho hospitalar em turnos

Prevalence of stress and burnout syndrome in hospital nurses working in shifts

Clarissa Maria Bandeira Bezerra; Kézia Katiane Medeiros da Silva; Jéssika Wanessa Soares da Costa; Joberto de Carvalho Farias; Milva Maria Figueiredo de Martino; Soraya Maria de Medeiros

Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, Departamento de Enfermagem. Natal, Rio Grande do Norte – Brasil

Endereço para correspondência

Clarissa Maria Bandeira Bezerra
E-mail: clarissambbezerra@hotmail.com

Contribuições dos autores: Coleta de Dados: Joberto C. Farias; Gerenciamento do Projeto: Milva M. F. Martino, Soraya M. Medeiros; Redação - Preparação do Original: Clarissa M. B. Bezerra, Kézia K. M. Silva, Jéssika W. S. Costa; Redação - Revisão e Edição: Milva M. F. Martino, Soraya M. Medeiros.

Fomento: Não houve financiamento

Submetido em: 24/08/2018 Aprovado em: 24/09/ 2019

Resumo

INTRODUÇÃO: por muitas vezes o serviço da Enfermagem está atrelado a más condições, ambiente insalubre, excesso de horas trabalhadas, exposição a riscos, unidos à suscetibilidade e às condições de saúde do trabalhador. Esses fatores podem levar a transtornos psicológicos como estresse e síndrome de burnout.
OBJETIVO: verificar o nível de estresse e a existência da síndrome de burnout em enfermeiros nos turnos diurno e noturno na área hospitalar.
MÉTODO: estudo de enfoque, descritivo e analítico, ocorrido em um hospital universitário. A amostra foi composta de 108 enfermeiros. Para a coleta utilizaram-se questionários, um deles verificador de dados sociodemográficos, a Escala de Bianchi modificada, para quantificar o nível de estresse; e o Maslach Burnout InventoryHumanServices Survey, para identificar burnout.
RESULTADOS: os dados mostraram que as dimensões do burnout para os grupos do diurno e noturno foram consideradas medianas a baixas. Foram encontrados correlação e valores de p estaticamente significativos quando comparados o estresse e as dimensões da síndrome p= < 0,0001; p=0,0001; e p=0,0003. O escore para o nível de estresse do turno diurno foi de 2,35 e do noturno, 2,31, sendo classificados como médios.
CONCLUSÃO: o nível de estresse entre os enfermeiros e as três dimensões da síndrome foram avaliados como nível médio nos turnos diurno e noturno. Houve correlação estatisticamente significativa entre estresse e burnout.

Palavras-chave: Enfermagem; Estresse Ocupacional; Esgotamento Profissional; Jornada de Trabalho em Turnos.

 

INTRODUÇÃO

O estresse tem sido tema bastante debatido, principalmente nas últimas décadas, entretanto, sua definição vem sendo discutida desde os anos 50 por Hans Selye, que afirmou ser uma manifestação inerente a uma doença específica, formada por sinais e sintomas mensuráveis, inespecíficos a essa doença, que alteram estrutural e quimicamente o organismo do indivíduo. Selye conceituou o estresse na visão fisiológica e desenvolveu um estudo voltado para a síndrome geral da adaptação, que divide o fenômeno do estresse em três fases: reação de alarme, resistência e exaustão.1

A reação de alarme ocorre após a exposição do indivíduo à situação geradora de estresse, e pode ser inconscientemente ou não. A fase de resistência caracteriza-se por uma reação corporal comum a fim de realizar a defesa corporal às ameaças externas, para tentar sobreviver e manter o equilíbrio. Todavia, a etapa de exaustão surge quando permanece a exposição crônica ao agente estressor, os meios de adaptação falham, há déficit de energia, modificações biológicas, acometimentos como problemas cardíacos, gastrointestinais, depressão e até mesmo morte.1

No cotidiano, diversas são as situações e vivências que influenciam negativamente a qualidade de vida da população, colaborando para o desenvolvimento dos transtornos fisiológicos e psicológicos, como o estresse, trazendo consigo, além dos prejuízos à saúde, impactos na economia.2

Realmente, sabe-se que o trabalho atrelado às suas más condições, ambiente insalubre, excesso de horas trabalhadas, exposição a riscos ou ao fato de a própria atividade exercida ser perigosa, unidos à suscetibilidade e às condições de saúde do trabalhador, é fator gerador de agravos, e entre outros podem-se citar o estresse ocupacional e a síndrome de burnout.3

O estresse consiste de sintomas que representam as interações e ajustamentos contínuos do sujeito e são influenciados pelo ambiente de modo geral. No mundo do trabalho, o estresse ocupacional é empregado para descrever transtornos no organismo do trabalhador, em virtude da dificuldade deste em desenvolver suas atividades, somada às exigências do serviço, o que acarreta prejuízos à qualidade de vida e o acometimento por doenças, gerando problemas para o capitalismo.4

Em meio à desordem ocasionada pelo estresse, algumas doenças instalam-se. Uma delas é a síndrome de burnout, com conceito multidimensional que a divide em três fases: exaustão emocional, despersonalização e falta de envolvimento pessoal no trabalho. Tida como um tipo especial de estresse ocupacional crônico com evolução gradual, pode afetar todas as esferas da vida pessoal.5

Evidencia-se como uma exteriorização de estresse do indivíduo, com sentimentos de extrapolação de seus limites e degeneração de seus recursos físicos. O distúrbio foi delimitado pelo médico psicanalista americano Freudenberger, em 1974, e em 1976 surgiram as pesquisas de caráter acadêmico e modelos teóricos em relação ao burnout. Também chamada de síndrome do esgotamento profissional (SEP), é reconhecida como psicopatologia de cunho ocupacional (grupo V da CID-10).6

No decorrer dos anos, pesquisas estão sendo realizadas com a intenção de mapear, diagnosticar e compreender os impactos do estresse ocupacional e do burnout para as instituições empreendedoras e seus trabalhadores. Na área da saúde, em particular na Enfermagem, vários são os fatores preditores do estresse, entre eles, formação inadequada, baixa remuneração, excesso de trabalho pela quantidade insuficiente de recursos humanos para desempenho da função, desgaste e sofrimento físico e/ou mental.7

Os profissionais de Enfermagem são mais suscetíveis à síndrome na área assistencial, devido ao contato constante e direto com sua clientela na prestação de serviço e, também, como profissionais da educação.8,9

Para a maioria dos enfermeiros, a remuneração não é suficiente para se manterem e às suas famílias, assim, é necessária a obtenção de outro vínculo de trabalho, o que pode gerar desgaste físico e psicológico. Muitas vezes não têm tempo para desfrutar de momentos de lazer, convívio social e familiar e, durante suas atividades, lidam com situações de desgaste emocional, morte e o sofrimento de seus pacientes e familiares. Desse modo, os enfermeiros podem apresentar redução da qualidade de vida, mantendo-se em constante tensão profissional, o que os torna suscetíveis a elementos causadores do estresse.9

Os trabalhadores de Enfermagem prestam serviços nas 24 horas, principalmente em hospitais, em todos os dias da semana, ininterruptamente. A divisão do serviço por turnos ocorre para organizar a continuidade da prestação de cuidados, assim, submete o profissional ao trabalho de dia ou à noite, e esses turnos podem afetar o sono, o humor e provocar o estresse ocupacional.7

Mediante o exposto, faz-se necessário o desenvolvimento de estudos centrados na saúde do trabalhador, pois estão propensos ao acometimento por doenças como o burnout. Espera-se que os resultados obtidos com esta investigação tenham impacto positivo na comunidade científica, despertando para a importância da boa qualidade de vida do enfermeiro, o responsável pela equipe de Enfermagem, bem como no desenvolvimento de seu trabalho, na promoção de sua saúde, satisfação e motivação, o que implicará benefícios para os pacientes que estão sob seus cuidados.

Por se tratar de uma pesquisa de cunho ocupacional, representa conhecimentos sociais, políticos, humanos e institucionais direcionados para apreciar e inserir nas relações de trabalho que ocasionam doenças ou agravos. E, em vista disso, contribuir diretamente com os enfermeiros no conhecimento da realidade de saúde, planejamento das ações de promoção, prevenção, vigilância e de políticas públicas.

Ademais, o conhecimento do nível de estresse e do burnout em enfermeiros implica a criação de estratégias de enfrentamento e, consequentemente, a possibilidade de um trabalho menos árduo. Nesse cenário, este estudo objetivou verificar o nível de estresse e a existência da síndrome de burnout em enfermeiros da área hospitalar que atuavam nos turnos diurno e noturno.

 

MÉTODO

Trata-se de pesquisa de campo descritiva e analítica, realizada no período de janeiro a março de 2016, em um hospital universitário com 242 leitos de internação. No ano de 2013, foi firmada parceria entre o hospital e a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), a qual passou a administrá-lo.10

O regime de trabalho da equipe de Enfermagem dessa unidade de saúde ocorria de duas formas. Os enfermeiros vinculados à Universidade, de regime estatutário, exerciam carga horária de 30 horas semanais, por meio de plantões diários de seis horas, nos turnos da manhã ou tarde, ou plantões diurnos ou noturnos de 12 horas, correspondendo a 10 plantões mensais. Para os enfermeiros contratados pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), a jornada acontecia em 36 horas semanais, que eram distribuídas em plantões diurnos, que poderiam ser manhã ou tarde, e noturnos, de 12 horas, com 36 horas de folga, correspondendo, assim, em média, a 13 plantões mensais.

A escolha dos participantes se deu por meio de convite, desde que se enquadrassem nos critérios de inclusão: ser enfermeiro na instituição selecionada e ter mais de seis meses de vínculo empregatício. Aqueles que estivessem com afastamento por licença médica, gestacional e/ou férias no período da coleta não fizeram parte da amostra.

Dessa forma, da população de 118 trabalhadores foram excluídos 10 enfermeiros: sete estavam de férias; dois, em licença médica; e um se recusou a participar da pesquisa. Integraram este estudo 108 enfermeiros distribuídos nos turnos: diurno, manhã, tarde ou dia (66) e noite (42).

Os trabalhadores eram abordados em seu local de serviço pela própria pesquisadora, buscavam-se os profissionais por setor do hospital, sendo um por dia. Realizava-se a explanação do objetivo e relevância da pesquisa e da imprescindibilidade da assinatura no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Caso houvesse interesse em participar do estudo, eram entregues os questionários e, ao fim do horário do plantão, estes eram recolhidos, mesmo que ainda não estivessem preenchidos totalmente, retornando no dia seguinte. Objetivando mais adesão dos sujeitos, quando os enfermeiros estavam desempenhando atividades que não deviam ser interrompidas, os questionários não eram entregues, aguardava-se uma nova oportunidade.

A investigação foi iniciada após a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética local, sob o Parecer 1.313.575 e CAAE 50194515.4.0000.5537. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme a Resolução nº 466/12.11

O  formulário  de  coleta  de  dados  sociodemográficos é composto de perguntas de múltipla escolha e abertas, abrangendo: nome, sexo, idade, setor, estado civil, número de filhos, turno, renda, carga horária. O Maslach Burnout InventoryHuman Services Survey (MBI-HSS), voltado para os profissionais da saúde, foi utilizado com a finalidade de identificar o porcentual de sujeitos com a síndrome de burnout.12

O questionário MBI-HSS, com 22 perguntas autoaplicáveis, foi empregado para identificar as dimensões sintomáticas de burnout. O modo de pontuar associa-se à frequência dos acontecimentos, numa escala do tipo Likert que vai de zero a seis: 0 = nunca; 1 = uma vez ao ano ou menos; 2 = uma vez ao mês ou menos; 3 = algumas vezes no mês; 4 = uma vez por semana; 5 = algumas vezes por semana; e 6 = todos os dias.12

A Escala de Bianchi também foi utilizada e permite identificar e classificar os fatores estressores das funções diárias do enfermeiro hospitalar, com 63 exemplares de atividades. Nessa escala o nível de estresse foi classificado da seguinte maneira: abaixo de 2,0 – baixo nível; 2,0 a 2,9 – médio nível; 3,0 a 3,9 – alerta para alto nível; e igual ou maior que 4,0 – alto nível.13 Foram  analisadas  descritivamente,  por  frequências absolutas (n) e relativas (%), as variáveis categóricas e as contínuas, evidenciadas  segundo  a  média,  desvio-padrão,  mediana, primeiro e terceiro quartis, valores máximos e mínimos. O teste qui-quadrado foi utilizado para comparar características das dimensões do burnout, o sexo e o turno de trabalho.

Para as comparações entre os turnos em relação aos escores dos instrumentos, foi aplicado o teste t de Student não pareado nos casos em que foi observada distribuição normal nos dados. O teste não paramétrico de Mann-Whitney foi utilizado nos casos nos quais os pressupostos em relação à distribuição não foram atendidos.

As correlações entre os escores dos instrumentos foram avaliadas por meio do coeficiente de correlação de Pearson para os eventos em que foi observada distribuição normal nos dados. Em todas as análises considerou-se nível de significância igual a 5% para o resultado estatisticamente significativo (p<0,05).

 

RESULTADOS

A Tabela 1 mostra as características sociodemográficas, trabalhistas e de lazer dos enfermeiros, tanto em valores numéricos de frequência, quanto em porcentagem.

 

 

O tempo na profissão estava entre um e 12 anos para 87,96% da amostra e 12,04% mostraram tempo de 13 a 45 anos. Trabalhavam na área hospitalar 68,52%; e 55,56% afirmaram ter outro vínculo empregatício. Atuavam no turno diurno 61,11% e no noturno 38,89%.

Em relação aos hábitos de lazer, 50,00% dos enfermeiros realizavam atividades.

Na Tabela 2 observam-se dados estatisticamente significativos, quando se correlacionaram as dimensões do burnout e o estresse. Verificou-se que todos os níveis de burnout demonstraram correlação significativa.

 

 

Os escores de pontuação do instrumento MBI-HSS por níveis e distribuição nas dimensões de burnout, de acordo com o turno de serviço, estão descritos na Tabela 3.

 

 

Para quantificar e identificar o nível de estresse dos enfermeiros segundo o turno de trabalho, foi elaborada a Tabela 4. A caracterização mostrou que a média de estresse no diurno era de 2,35 e a do noturno era de 2,31. Os valores são próximos e indicam nível médio de estresse. O p-valor obtido a partir do teste de Mann-Whitney não foi estatisticamente significativo: 0,7431.

 

 

DISCUSSÃO

Em face da análise das características dos dados sociodemográficos dos enfermeiros pesquisados, notou-se que houve predominância do sexo feminino. Essa é uma particularidade da profissão de Enfermagem e confirma-se o fato de a prestação da assistência requerer dotes cuidadosos e peculiares femininos quanto aos conceitos de cuidar do ser humano, como pontua estudo internacional.14

Mulheres estão mais propensas a terem mais alto nível de estresse e pior qualidade de vida, como evidenciado em estudo prévio nacional no qual o maior número de casos foi verificado nos profissionais do sexo feminino. Entretanto, as mulheres conseguem expor seus sentimentos com mais facilidade, quando comparadas aos homens, e isso é ratificado por autorrelatos.15

Na presente pesquisa, a maioria dos participantes se encontrava casada, corroborando achado de estudo anterior realizado com enfermeiros.16 Contrariamente ao observado na presente pesquisa, outro estudo evidenciou a maioria de enfermeiros solteiros, e isso talvez se deva ao fato de o trabalho em turnos e horários rotativos dificultar a disponibilidade para o lazer e a constituição de família.16

Há possibilidade de que a presença de um(a) companheiro(a) possa atuar como fator de proteção, pois há o suprimento de uma necessidade de apoio, estímulo ao enfrentamento do estresse e, consequentemente, a prevenção do burnout.9

A dupla jornada de serviço predominou na investigação. Fatores como baixa remuneração, a conciliação dos afazeres domésticos e a necessidade de qualificação profissional ressaltam inúmeras atividades desenvolvidas por esses profissionais, o que acarreta menos momentos de descanso. Destarte, pesquisadores afirmam que isso pode interferir na saúde física e mental, bem como refletir na manifestação da síndrome de burnout.17,18

Quanto aos hábitos de lazer, verificaram-se nos entrevistados porcentagens iguais para os que praticavam e os que não praticavam atividades físicas. Estudo revela que, entre a prática da atividade física e a capacidade de trabalho, encontrou-se correlação estatisticamente significativa. E propõe que a prática do exercício seja realizada de modo regular para melhoria nas situações de saúde dos trabalhadores da Enfermagem. Enfatiza-se que os mais idosos precisam ser estimulados a entrar em projetos de atividades corporais.19

Notabiliza-se a associação entre o estresse ocupacional e o burnout em suas três dimensões. Ratifica-se com propriedade a relação de causa nesta investigação. Ressalta-se que o indivíduo deve gerenciar o estresse para não manifestar o burnout.

Isso insinua que as características intrínsecas do trabalho exercido e do trabalhador com sobrecargas psíquicas são motivadoras do burnout.20 Acredita-se que trabalho estressante, ausência de possibilidade de mudança, obrigações, cobranças, conflitos permanentes, particularmente na área da saúde, pela especificidade do cuidado em situações de sofrimento e exigências de mais competências interpessoais, por conseguinte, podem causar danos psicológicos e acarretar o burnout.21

A correlação entre a realização profissional e o estresse foi negativa, demonstrando uma correlação inversa entre o estresse ocupacional e a satisfação com o trabalho. Semelhantemente, um estudo evidenciou a mesma correlação. Aventa-se que isso possa ter ocorrido devido à segurança no trabalho, por não haver possibilidade de perda do emprego, e pelo reconhecimento de seu serviço, melhora no processo de comunicação e incentivo à qualificação.22

Na síndrome de burnout obtiveram-se valores médios a baixos para as três dimensões desse distúrbio. Esses achados estão de acordo com os pontos de corte encontrados em um estudo nacional.23

Os maiores escores de exaustão e despersonalização foram observados para o grupo do diurno, e de realização profissional mediana, em ambos os turnos. A conformação do trabalho da Enfermagem é diferenciada nos turnos no hospital. No noturno a equipe é reduzida e as atividades também, ou seja, não deve ser realizado à noite o que se pode fazer de dia, buscando o bem-estar e o descanso do paciente.24

Ao encontrar valores que indicam a ausência da síndrome em relação ao ponto de corte das dimensões do burnout, levanta-se a probabilidade de características positivas, por isso, acredita-se que os sujeitos entrevistados estivessem lidando bem com a sobrecarga de trabalho. Assim como foi explicitado por recente pesquisa, para atingir níveis baixos das dimensões do burnout ou ausência da síndrome o enfermeiro deve gerenciar os fatores estressores, a fim de minimizar os seus efeitos negativos em nível individual, profissional e social.22

Entretanto, o valor classificado como médio também pode denotar atenção e precaução, pois pode ser a manifestação da fragilidade emocional do enfermeiro em relação ao desgaste psicológico e profissional. O nível considerado intermediário requer ponderação para poupar a exacerbação das ameaças.24

Em relação ao nível de estresse dos participantes da amostra, obteve-se o escore mediano tanto para os trabalhadores do diurno, quanto para os do noturno. Nesse âmbito, compreende-se que os indivíduos que apresentam níveis medianos de estresse podem regredir a níveis baixos, se conseguirem lidar com experiências negativas, ter o próprio estresse sob controle, ou seja, utilizar o aprendizado de situações estressantes anteriores e tornar o enfrentamento efetivo, elevando os ganhos desejados. 21

Há possibilidade de que profissionais que possuem nível médio a elevado de estresse, com o passar do tempo, possam sofrer um colapso de esgotamento emocional e, consequentemente, o desenvolvimento do burnout. Nota-se que a média e o valor máximo do estresse foram maiores para os sujeitos do diurno. Dessa maneira, destaca-se que quem atua no diurno também pode ter qualidade do sono ruim, principalmente pela manhã, quando normalmente nos hospitais há mais atividades, como admissões, transferências, encaminhamentos ao centro cirúrgico, coleta de exames, visita médica e alta hospitalar. Isso ocorre com menos frequência no noturno, assim, sobrecarregando menos a equipe.9

Aventa-se que estratégias para enfrentamento do nível mediano de estresse e do burnout consistem em criar táticas de combate ao estresse e focar na resolução efetiva de problemas com planos de ação apropriados. Nas ações atreladas ao local de trabalho, gestores e profissionais devem buscar planejar o trabalho, distribuir o serviço igualitariamente, realizar dimensionamento de pessoal e verificar a qualidade da assistência e construção de programas participativos que promovam meditação, música, pintura, entre outros. Isso posto, a finalidade é atingir a redução dos níveis de estresse ou prevenir que esses se exacerbem.23

Em relação às limitações do estudo, reconhece-se o reduzido número de sujeitos da amostra, principalmente no turno noturno, pois foram em menor número que os do diurno. Talvez se tivesse sido estendida para outros hospitais, possivelmente ocorreriam mais significâncias estatísticas entre os dados obtidos. Esses fatores comprometem a generalização e propagação dos dados para os profissionais de Enfermagem. Salienta-se também que o estudo foi realizado em um hospital universitário voltado para ensino, que apresenta melhores condições de trabalho e valorização do profissional, quando comparado a outros hospitais públicos e privados, o que pode tornar o ambiente menos desgastante.

Como avanço para a ciência da Enfermagem, pode-se citar o reconhecimento da realidade de saúde dos enfermeiros, dos principais fatores desencadeadores, dos níveis de estresse e de haver ou não burnout, que podem gerar falhas no cuidado, na atenção à saúde dos pacientes. Em consequência, ocorre a contribuição para os gestores das instituições de saúde na evolução do planejamento das ações de promoção, prevenção, vigilância, tal como para os gestores públicos atentarem para os resultados e formularem novas políticas públicas voltadas para o benefício da Enfermagem e do trabalhador em saúde.

 

CONCLUSÃO

Constatou-se que, de forma geral, os enfermeiros pesquisados possuíam nível médio de estresse e, nas três dimensões referentes à síndrome de burnout, em ambos os turnos, nessa condição, não se verificou a afecção. Realçam-se as correlações estaticamente significativas ao relacionar as dimensões da síndrome com o estresse, demonstrando-se, desse modo, que o burnout é ocasionado pelo estresse.

Percebe-se que, mesmo com valores medianos de estresse e dos domínios do burnout, há necessidade, por parte do local de trabalho, de buscar medidas para a redução dos fatores desencadeantes. Diminuição de carga horária, maior número de pessoal, revisão de valores de remuneração, incentivo, valorização e reconhecimento dos empregados, além de atividades físicas, em grupo, rodas de conversa e de relaxamento, como a ginástica laboral, podem ser desenvolvidos pelo serviço para prevenção da piora dos níveis de estresse, do burnout e o desencadeamento das doenças.

O funcionário, igualmente, deve buscar algo que lhe faça sentir-se bem ao final de uma jornada de trabalho. Estar com a família, dançar, nadar, conversar consigo mesmo auxiliam como estratégias de enfrentamento para os conflitos diários, nas tomadas de decisões e na melhoria das relações interpessoais. Deve-se pretender a reversão ou minimização desses resultados para que não se tornem graves ou crônicos.

 

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