REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume Atual: 23:e-1245 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20190093

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Pesquisa

Qualidade de vida em adolescentes relacionada a sexo, renda familiar e prática de atividade física

Quality of life in adolescents related to sex, family income and physical activity

Adélia Dayane Guimarães Fonseca1; Franciele Ornelas Cunha1; Isabelle Arruda Barbosa1; Júlia Oliveira Silva2; Diego Dias de Araújo3; Carla Silvana de Oliveira e Silva4

1. Universidade Estadual de Montes Claros - Unimontes, Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Departamento de Enfermagem. Montes Claros, MG - Brasil
2. Faculdade Governador Ozanam Coelho, Curso de Medicina. Montes Claros, MG - Brasil
3. Unimontes, Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Departamento de Enfermagem. Montes Claros, MG -Brasil; Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Escola de Enfermagem. Belo Horizonte, MG - Brasil
4. Unimontes, Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Departamento de Enfermagem. Montes Claros, MG -Brasil; Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP, Escola Paulista de Enfermagem. São Paulo, SP - Brasil

Endereço para correspondência

Franciele Ornelas Cunha
E-mail: francielecunha91@gmail.com

Submetido em: 30/12/2018
Aprovado em: 08/07/2019

Contribuições dos autores: Análise Estatística: Adélia D. G. Fonseca, Franciele O. Cunha, Isabelle A. Barbosa, Carla S. O. Silva; Coleta de Dados: Adélia D. G. Fonseca, Isabelle A. Barbosa, Júlia O. Silva, Carla S. O. Silva; Conceitualização: Adélia D. G. Fonseca, Franciele O. Cunha, Carla S. O. Silva; Gerenciamento do Projeto: Adélia D. G. Fonseca, Carla S. O. Silva; Investigação: Adélia D. G. Fonseca, Carla S. O. Silva; Metodologia: Adélia D. G. Fonseca, Franciele O. Cunha, Júlia O. Silva, Diego D. Araújo, Carla S. O. Silva; Redação -Preparação do Original: Adélia D. G. Fonseca, Franciele O. Cunha, Carla S. O. Silva; Redação - Revisão e Edição: Adélia D. G. Fonseca, Franciele O. Cunha, Júlia O. Silva, Diego D. Araújo; Software: Adélia D. G. Fonseca, Isabelle A. Barbosa, Carla S. O. Silva; Supervisão: Adélia D. G. Fonseca, Carla S. O. Silva; Validação: Adélia D. G. Fonseca, Isabelle A. Barbosa, Carla S. O. Silva; Visualização: Adélia D. G. Fonseca, Isabelle A. Barbosa, Diego D. Araújo, Carla S. O. Silva.

Fomento: Não houve financiamento.

Resumo

OBJETIVO: avaliar a autopercepção de adolescentes sobre a sua qualidade de vida e a relação entre a qualidade de vida e sexo, renda familiar e prática de atividades físicas.
MÉTODOS: estudo epidemiológico, transversal e analítico. Pesquisaram-se 633 adolescentes de 10 a 16 anos, do ensino público fundamental e médio. A coleta dos dados foi realizada no mês de agosto de 2016. O instrumento KIDSCREEN27 foi usado para determinar a qualidade de vida. Foram coletados dados sociodemográficos e sobre prática de atividades físicas. A análise foi feita por estatística descritiva, análise bivariada e usadas tabelas com valores absolutos e relativos. Aplicaram-se os testes ANOVA um fator, teste T de Student e H de Kruskal-Walis.
RESULTADOS: os adolescentes tinham, em média, 13,82 anos, maioria do sexo feminino, cor/raça parda, cursando o primeiro ano do ensino médio e com renda familiar de até três salários mínimos. Aproximadamente 60% eram sedentários e, entre os que realizavam alguma atividade física, faziam-na em dois ou três dias na semana. Houve associação estatisticamente comprovada (p<0,001) para maiores médias de escore de qualidade de vida entre os participantes que realizavam atividade física. As médias dos escores KIDSCREEN27 foram maiores no sexo masculino, com associação estatisticamente comprovada, com exceção dos domínios suporte social e grupo de pares e ambiente escolar.
CONCLUSÕES: constastou-se que os adolescentes do sexo feminino apresentaram percepção inferior quanto à sua qualidade de vida e que a realização de atividades físicas é um fator importante para o incremento dessa percepção.

Palavras-chave: Qualidade de Vida; Exercício; Adolescente; Sexo; Renda.

 

INTRODUÇÃO

O processo de transformação física, psicológica e fisiológica que acontece durante a adolescência em associação com o contexto social e as experiências inerentes a essa fase da vida destaca-a como um período crucial para a avaliação do estado de saúde de um indivíduo, uma vez que envolve questões como a construção de identidade e amadurecimento para a vida adulta. Adicionalmente, apresenta situações que podem representar riscos para a saúde física e psicológica. A compreensão mais profunda de como os adolescentes percebem algumas questões em sua vida é essencial para analisar a saúde desse estrato etário.1 Ponto-chave da saúde do adolescente e que tem sido tema de muitas pesquisas nas últimas décadas é a qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS).2

A Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu, em 1947, que a saúde deve ser não apenas a ausência de doenças, mas também deve compreender uma dimensão subjetiva de bem-estar físico, mental e social. Dessa forma, o conceito se constrói por indicadores clínicos e epidemiológicos, mas sem deixar desconsiderar a percepção do indivíduo sobre os diferentes domínios da sua vida.3 A mensuração da QVRS é um indicador de saúde tão relevante quanto dados clínicos e tem sido usado em muitos estudos para determinar medidas de intervenção, prevenção e promoção em saúde de adolescentes. A elaboração de estudos que validam e avaliam a aplicação de instrumentos para a avaliação da qualidade de vida nesse grupo tem sido o objetivo de alguns pesquisadores nos últimos anos.4,5

Os instrumentos de avaliação da qualidade de vida geralmente são divididos em domínios de abordagem às dimensões física, psicológica, ambientais e sociais.6 Um desses instrumentos que têm sido amplamente usados e com relevância é o KIDSCREEN, que foi desenvolvido no projeto Screening and Promotion for Health-Related Quality of Life in Children and Adolescents - A European Public Health Perspective, que aconteceu entre 2001 e 2004 em vários países europeus. O KIDSCREEN apresenta três versões, sendo a primeira com 52 questões distribuídas em 10 domínios. Para facilitar a aplicação do instrumento, a versão original foi sintetizada em outras duas versões menores, com 27 e 10 questões. A validade desse instrumento já foi amplamente testada em crianças e adolescentes de diferentes nacionalidades e culturas.4,7

Revisão sistemática com 14 artigos mostrou que a prática de atividade física esteve consistentemente associada à melhora da QV. A prática de atividade física também apresentou forte associação ao bem-estar psicológico.8 Já estudo de metanálise constituído por 49 ensaios clínicos controlados identificou decréscimo de 48% nos níveis de ansiedade no grupo de estudo, quando comparado ao grupo.9 Em adição, ensaio clínico randomizado analisou, de maneira específica, sintomas psicológicos e concluiu que a prática de atividade física pode minimizar sintomas de depressão e estresse, melhorando, por conseguinte, a QV.10A atividade física constitui, portanto, uma variável importante para a população adolescente, por representar um fator de promoção à saúde pela prevenção de doenças cardiovasculares, ansiedade, depressão, entre outras.11

A QVRS em adolescentes é um indicador importante para essa população, pelo impacto que isso representa na fase adulta e está passível de interação com características sociodemográficas como sexo e renda, além da atividade física, que é contemplada em um dos domínios do KIDSCREEN27. Dessa forma, o objetivo deste trabalho foi avaliar a autopercepção de adolescentes escolares sobre a sua qualidade de vida e a relação estabelecida entre sua qualidade de vida e sexo, renda familiar e prática de atividades físicas.

 

MÉTODOS

Trata-se de estudo epidemiológico, transversal e analítico. A população desta pesquisa foi composta de adolescentes de 10 a 16 anos, matriculados no ensino público fundamental e médio na cidade de Montes Claros, Minas Gerais.

A população deste estudo foi constituída por adolescentes de ambos os sexos, com idades entre 10 e 16 anos, matriculados no ano de 2016 no ensino fundamental e médio do município. A estratificação da idade foi empregada para seleção dos escolares, a fim de cumprir os objetivos da pesquisa.

O tamanho da amostra foi estabelecido visando-se à estimativa de parâmetros populacionais com prevalência de 0,50 - o que garantiu maior tamanho amostral - nível de confiança de 95% e erro amostral de 5%. Realizou-se correção para população finita e correção para o efeito do desenho, adotando-se deff igual a 1,5. Estabeleceu-se também um acréscimo de 10% para compensar as possíveis não respostas e perdas. Os cálculos evidenciaram a necessidade de se examinar e entrevistar, no mínimo, 634 indivíduos.

O processo de seleção da amostra ocorreu por conglomerado probabilístico, em dois estágios. Para o primeiro estágio, a população envolvida foi alocada em quatro regiões da cidade de Montes Claros: norte, sul, leste e oeste. Posteriormente listou-se o número de escolas públicas estaduais, quantificando-se o número de alunos matriculados por região. No total, 63 escolas e 77.833 escolares foram incluídos e utilizou-se a probabilidade proporcional ao tamanho (PPT), para o sorteio das escolas que representaram as regiões geográficas da cidade.

No segundo estágio, foram calculados os pesos amostrais pelo produto dos inversos das probabilidades de inclusão para cada região e calibrados considerando-se a projeção do número de adolescentes matriculados em escolas localizadas nos estratos geográficos no ano de 2016. O peso amostral da região norte foi de 140 unidades da população, representada pela unidade Uk da amostra, da região sul 109, da leste 145 e da região oeste 97.

Posteriormente, ocorreu a seleção dos adolescentes, adotando-se a amostragem aleatória sistematizada. Na recusa à participação, foi realizada a substituição pelo anterior na lista de matrícula. Dessa forma, o estudo proporcionou a mesma chance de participação aos adolescentes. Cada escolar recebeu um manual de instruções e procedimentos para a coleta de dados. A amostra final totalizou em 635 escolares e obedeceu à representatividade da população.

Finalmente, foi realizada a seleção dos escolares com base na amostragem aleatória sistematizada. Nos casos de recusa em participar da pesquisa, o selecionado foi substituído pelo anterior na lista de matrícula. Dessa forma, o estudo proporcionou a mesma chance de participação aos adolescentes. Cada participante recebeu um manual de instruções e procedimentos para a coleta de dados. Dos 635 escolares, apenas dois se recusaram a participar do presente estudo. Excluíram-se os adolescentes que declararam alguma doença renal, inflamatória, infecciosa, hepáticas e hematológicas; em gestação; e em uso de medicação que afetasse o perfil metabólico e hemodinâmico.

A coleta dos dados foi realizada no mês de agosto de 2016. A equipe passou por treinamentos e capacitação. O instrumento foi composto de um questionário sociodemográfico para avaliação das variáveis sexo, idade, renda, número de moradores na casa e ano letivo. Os participantes também responderam sobre a prática de atividades físicas por meio do Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ) validado para adolescentes brasileiros, versão curta, que classifica os indivíduos em ativos, muito ativos, irregularmente ativos e sedentários,12 além das 27 questões do instrumento KIDSCREEN27 traduzido e adaptado.4

A análise do KIDSCEEN27 foi feita pela avaliação dos escores das questões de forma geral e pelos cinco domínios que compõem o instrumento: bem-estar físico, bem-estar psicológico, autonomia e relação com os pais, suporte social e grupo de pares e ambiente escolar. As respostas aos itens são numeradas de um a cinco e quantificam o nível de percepção do entrevistado quanto ao abordado em cada questão. As opções de resposta vão de "muito ruim" a "excelente", de "nada" a "totalmente" ou de "nunca" a "sempre".13 A obtenção dos escores foi calculada usando-se o modelo proposto por Alves, Pedroso e Pinto, que segue as determinações do Manual do KIDSCREEN.14 A análise de dados foi feita no programa Statistical Package for Social Science (SPSS) versão 20.0. As variáveis sociodemográficas e referentes à atividade física foram apresentadas em valores absolutos e porcentagem, média e desvio-padrão (DP). Os escores de KIDSCEEN27 foram apresentados em médias e DP. Procedeu-se à análise bivariada para determinar se existe relação entre as médias dos escores do KIDSCREEN27 e as variáveis sexo, atividade física e renda. Foram aplicados os testes ANOVA um fator, teste T de Student e H de Kruskal-Walis, este último apenas para os escores de bem-estar psicológico e geral na associação com a renda, pois apresentaram variância não homogenia. Foi adotado o nível de significância de 5% em todos os testes e o intervalo de confiança (IC) de 95%.

O projeto deste estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES) com parecer número 186.375. Após a concordância, foi assinado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) pelo participante e pesquisador em duas vias, conforme regulamentam os dispositivos da Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde.

 

RESULTADOS

Entre os 633 adolescentes participantes desta pesquisa, 60,2% eram do sexo feminino (Tabela 1), a cor/raça mais prevalente era a parda (57,5%), a média de idade era de 13,82 (± 1,72) anos e a maioria dos estudantes estava cursando o primeiro ano do ensino médio. A renda de grande parte das famílias desses adolescentes era de até três salários mínimos (83,9%) e o número de moradores por casa de quatro ou mais para 79,7% das residências.

 

 

A investigação revelou que a maioria dos jovens é sedentária e respondeu não praticar atividade física (59,9%). Entre os que praticam, o mais comum é em um (41,2%) e três (19,9%)

É importante salientar que algumas variáveis não tiveram índice de resposta de 100% da amostra, em função única e exclusivamente das não respostas aos itens.

O escore geral de KIDSCREEN27 para ambos os sexos foi de 66,18 (± 14,69), o maior escore entre os domínios foi suporte social, com 75,11 (± 22,24), e o menor foi bem-estar físico, com 54,32 (± 18,72) (Tabela 2).

 

 

A partir da análise bivariada determinou-se uma relação entres os valores do escore KIDSCEEN27 em seus cinco domínios e o geral entre as variáveis sexo e prática de atividade física, bem como a renda familiar. As meninas apresentaram menores médias do escore quando comparadas aos meninos e essa associação foi estatisticamente comprovada na maioria dos domínios, com exceção de "suporte social e grupo de pares" e "ambiente escolar". A prática de atividade física provou ser determinante para maiores médias do escore em todos os domínios, com significância estatística (Tabela 3).

 

 

Ao avaliar os escores de KIDSCEEN27 em relação à renda familiar, não se obtiveram associações estatisticamente comprovadas, entretanto, no domínio "bem-estar físico" houve tendência das médias de escore a aumentar com o aumento de salários (Tabela 4).

 

 

DISCUSSÃO

Os escores de KIDSCREEN27 foram influenciados por sexo e atividade física, porém não por renda familiar. Comparados com as meninas, os meninos apresentaram melhor percepção da sua qualidade de vida e os que realizam atividade física exibiram melhor percepção quando comparados aos sedentários.

A maioria dos adolescentes respondeu que não pratica algum tipo de atividade física. A inatividade física é um fator determinante para o sobrepeso e obesidade entre crianças e adultos e tem sido um reflexo direto do estilo e qualidade de vida dos jovens nas últimas décadas.15 É importante ressaltar que a atividade física está relacionada à melhora da qualidade de vida de crianças e adolescentes,16 o que é reforçado pelas análises desta pesquisa em que os adolescentes que responderam positivamente quanto à prática de atividades físicas apresentaram maiores médias de escore KIDSCREEN27 em todos os domínios.

O hábito de fazer exercícios físicos na infância e adolescência é importante para sua perpetuação na vida adulta. Isso, por sua vez, é uma estratégia eficiente de promoção da saúde, pois atividade física é um fator protetor contra doenças cardiovasculares e crônicas não transmissíveis.17 O adolescente também adquire aptidão física, que irá refletir em seu desempenho na vida adulta, assim como maximização do nível de massa mineral óssea.18-20

A prática de atividades físicas constitui uma forma de lazer que objetiva reduzir a rotina diária estressante dos indivíduos, apresentando-se como uma atividade agradável e viciante, que reduz sensações desconfortáveis como a ansiedade, irritabilidade e depressão, além de manter boa forma física e melhora da qualidade de vida. Do ponto de vista psicológico, a prática de atividades físicas implica benefícios acerca da autoimagem e autoestima do praticante. E fisicamente está relacionada à diminuição de doenças cardiovasculares, de mortes prematuras, redução dos casos de acidente vascular cerebral, câncer de mama, câncer de cólon e de diabetes mellitus tipo II.21-23

Pesquisas realizadas têm demonstrado que mais da metade dos adolescentes não atende às recomendações de realização de atividade física.24,25 Atualmente, a recomendação para crianças e adolescentes é de 60 minutos ou mais diários de atividades físicas moderadas em cinco ou mais dias da semana, de forma que somem pelo menos 300 minutos semanais de exercícios.26 Neste estudo foi verificado que entre os jovens que responderam realizar algum tipo de atividade geralmente o fazem por dois ou três dias na semana, sendo, dessa forma, abaixo do recomendado.

Atualmente, a inatividade física constitui um grande risco à saúde. Um indivíduo considerado inativo fisicamente é aquele que realiza em sua rotina diária um mínimo de atividade física, apresentando gasto energético semanal de 500 kcal provenientes da locomoção, trabalho, lazer e atividades domésticas. Essa inatividade física é consequência do crescente avanço tecnológico que gerou mais conforto à vida das pessoas, diminuindo o incentivo à movimentação em função das diversas opções de lazer presente em seus domicílios, como a televisão, computador, videogames, entre outros.21-23

Para ambos os sexos o domínio com maior média de escore foi suporte social, com 75,11 (DP 22,24), a média de escore geral para ambos os sexos foi de 66,18 (14,69). O maior escore em suporte social também foi verificado por Alves et al.5, com escore de 80,71 entre os participantes de sua pesquisa. Suporte social também se destacou como um ponto forte entre adolescentes diabéticos e obesos investigados em outras pesquisas pelo uso do instrumento PedsQL.27,28

O domínio de suporte social apresenta-se fortalecido nos adolescentes, por estes estarem inseridos em grupos sociais com quem se identificam e buscam aprovação. O ambiente escolar é bem propício às interações sociais, pois facilita a comunicação dos adolescentes com outras pessoas que não os seus familiares e com as quais eles podem se identificar, por estarem compartilhando a mesma fase da vida. Existe a necessidade do adolescente em interagir e fazer novas amizades com outros que estão vivendo experiências semelhantes à sua, e a escola é o lugar onde esses encontros vão acontecer.29

As médias de escore KIDSCREEN27 foram superiores para o sexo masculino em todos os domínios. Para o domínio bem-estar psicológico, uma possível justificativa é que a maturação sexual mais precoce para as meninas levam a alterações hormonais que refletem no estado psicológico, por causarem incertezas quanto a autoimagem, inseguranças e incertezas em relação à personalidade e ao futuro. Além disso, a puberdade mais precoce no sexo feminino tende a levar as meninas a abandonarem mais cedo aspectos inocentes da infância e adquirirem um nível de crítica perante elas mesmas e as suas experiências. Essa maturidade gera um senso crítico que pode diminuir a percepção sobre a qualidade de vida nos domínios avaliados por KIDSCREEN27.29

O domínio bem-estar físico foi o que apresentou o menor escore no sexo feminino - 49 (DP 17,6). Esse aspecto pode ser explicado pela cultura referente aos papéis de gênero na sociedade brasileira. Enquanto entre os meninos a participação em esportes e atividades de esforço físico é mais comum e valorizada, as meninas têm menos incentivo social para realizarem essas atividades com mais direcionamento a cuidados com a beleza e tarefas domésticas.30 É evidenciado também um padrão diferente do tipo de atividade física praticado por homens e mulheres. Eles tendem a realizar mais esportes coletivos, enquanto elas fazem atividades individuais como ginástica, dança ou caminhada. Assim, o resultado obtido no domínio bem-estar físico pode se relacionar ao tipo de atividade desenvolvida nas aulas de Educação Física, que em geral são práticas coletivas que agradam mais aos adolescentes do sexo masculino.31

Quanto ao domínio autonomia e relação com os pais, que também apresentou uma diferença entre o sexo masculino e feminino (67,4 e 62), pode-se destacar que culturalmente as meninas são mais superprotegidas pelos pais, sendo mais restrita a possibilidade de exercerem sua autonomia fora do ambiente doméstico.32 A adolescência, por si só, é um período de conflito da relação entre pais e filhos.

A renda familiar não demonstrou associação com os valores médios de escore do KIDSCREEN27 em domínio algum. Apenas no domínio bem-estar físico houve tendência ao aumento do escore conforme o aumento da renda. Nesse caso, observa-se que a renda não possui grande impacto na qualidade de vida, porém, em relação ao domínio que diz respeito à saúde, há uma leve associação, que é também presente em outros estudos que estipulam que a escolaridade e os cuidados com a saúde estão associados à classe social.33

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A avaliação da qualidade de vida relacionada à saúde é um indicador importante, por representar considerável impacto à saúde, por interferir em vários domínios na vida do adolescente. O impacto do nível de qualidade de vida pode refletir na vida adulta e a sua preservação deve ser considerada como estratégia de promoção em saúde. Fatores externos e inerentes ao adolescente podem influenciar na sua percepção da qualidade de vida. Neste estudo constatou-se que os adolescentes do sexo feminino apresentam uma percepção inferior quanto à sua qualidade de vida e que a realização de atividades físicas é um fator importante para o incremento dessa percepção. A renda familiar, por sua vez, não apresenta associação com esse indicador. Um conhecimento mais profundo sobre a QV dos adolescentes permite mais compreensão sobre a sua saúde. Esse aprofundamento pode ser um instrumento de gestão, com vias a orientar a organização de recursos e processos de tomada de decisão para a melhoria dessa qualidade de vida dos adolescentes escolares, em especial do sexo feminino, que apresentaram pior percepção de QV. Os resultados deste estudo devem ser vistos à luz de seus pontos fortes e limitações. Entre os fortes destaca-se o rigor metodológico utilizado no processamento e análise das variáveis de interesse central. Já no tocante às limitações, pode-se ressaltar o fato de que algumas características descritoras potencialmente de interesse no que concerne à qualidade de vida não puderam ser estudadas, por não serem de interesse do estudo.

 

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