REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

Busca Avançada

Volume Atual: 23:e-1259 DOI: http://www.dx.doi.org/10.5935/1415-2762.20190107

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Pesquisa

Charges da imagem da enfermeira na imprensa ilustrada entre 1920 a 1931

Cartoons of the nurse image in the illustrated press from 1920 to 1931

Renata Mossa1; Hugo Alberto Neves de Souza2; Mercedes de Oliveira Neto3; Fernando Porto4

1. Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP, Programa de Residência Multiprofissional em Saúde. São Paulo, SP - Brasil
2. Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem e Biociências. Rio de Janeiro, RJ - Brasil
3. Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, Faculdade de Enfermagem, Departamento de Enfermagem de Saúde Pública - DESP. Rio de Janeiro, RJ - Brasil
4. UNIRIO, Escola de Enfermagem Alfredo Pinto, Departamento de Enfermagem Materno-Infantil. Rio de Janeiro, RJ - Brasil

Endereço para correspondência

Renata Mossa
E-mail: renatamossa@uol.com.br

Submetido em: 16/02/2019
Aprovado em: 16/10/2019

Contribuições dos autores: Coleta de Dados: Renata Mossa; Gerenciamento do Projeto: Fernando Porto; Investigação: Renata Mossa; Redação - Preparação do Original: Renata Mossa; Redação - Revisão e Edição: Hugo A. N. Souza, Mercedes Oliveira Neto, Fernando Porto; Supervisão: Fernando Porto.

Fomento: Não houve financiamento.

Resumo

O estudo tem como objeto a representação da imagem da enfermeira com seus atributos, por meio de charges em cenas do cuidado veiculadas na Revista Fon-Fon (1920-1931).
OBJETIVO: identificar as charges pelo conteúdo de representações de enfermeiras veiculadas na imprensa ilustrada; analisar as circunstâncias de sua veiculação sobre as enfermeiras nas charges; comentar as representações como elementos simbólicos para a construção da imagem pública da enfermeira.
MÉTODO: domínio da história da cultura visual a partir da busca de charges de enfermeira na revista Fon-Fon. Essas charges foram analisadas mediante matriz de análise.
RESULTADO: a busca resultou em três imagens datadas de 1921, 1929 e 1931, que após analise se identificou a circunscrição do contexto da Reforma Sanitária liderada por Carlos Chagas.
CONCLUSÃO: as representações das enfermeiras nas charges foram elementos protagonizantes para os aspectos ocorridos no âmbito sociopolítico e sanitário.

Palavras-chave: Enfermagem; História da Enfermagem; Simbolismo; Comunicação e Divulgação Científica; Escolas de Enfermagem; Papel do Profissional de Enfermagem.

 

INTRODUÇÃO

A pesquisa tem por objeto de estudo a representação imagética da imagem da enfermeira com seus atributos, por meio de charges em cenas do cuidado, veiculadas na Revista Fon-Fon. Tem por delimitação temporal o período de 1920 a 1931. Este estudo se justifica pelo Decreto nº 3.987, de 2 de janeiro de 1920, que instituiu o Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), tendo por marco final o Decreto nº 20.109, de 15 de junho de 1931, que regulou o exercício da Enfermagem no Brasil e fixou as condições para a equiparação das escolas de Enfermagem, tornando a Escola de Enfermeiras Donna Ana Nery um padrão.

Nesse contexto, o Rio de Janeiro, capital do Brasil na década de 1920, foi a maior cidade do país na época dos tempos da Belle Époque, período na história da capital brasileira que teve seu início no fim do século XIX e caracterizou-se pela modernização a partir da europeização, mais especificamente seguindo o modelo da cidade de Paris.

Por esse motivo, a cultura e a urbanização da cidade do Rio de Janeiro sofreram fortes influências da francesa nesse período. Na capital, os intelectuais se dividiam entre católicos, imortais da Academia Brasileira de Letras (ABL) e boêmios – humoristas, poetas e romancistas.1

O humor era a linguagem usada por eles, principalmente com a multiplicação das revistas ilustradas. Por outro lado, houve certa ruptura dessa unidade após a Primeira Guerra Mundial, devido a outros grupos considerados não boêmios, católicos e imortais da ABL, que decidiram engajar-se na busca da unidade nacional, identidade própria e criação de uma nação brasileira. Para tanto, eles abriram mão do humor no cenário nacionalista. O humor passou a ser visto como algo negativo, pois trazia à tona ideia de irresponsabilidade por parte dos intelectuais.1

Os grupos de intelectuais mudaram o foco de atenção, mas os boêmios, como: Raul Pederneiras, Kalixto, Emílio de Menezes, Bastos Tigre, entre outros, mantiveram-se fiéis à ironia como resposta às pressões circunstanciais.2

Com a iminência do Centenário da Independência, o Rio de Janeiro, sob presidência de Epitácio Pessoa e tendo como prefeito Carlos Sampaio, promoveu mudanças estruturais, como: demolição do Morro do Castelo; construções de palácios, onde abrigariam representantes de países; reformas de calçamento; e mudanças em geral. O ideário da época era de que fosse realizada uma festa de monta para a inserção do país no mundo moderno das grandes potências.

As revistas da época acreditavam que, apesar da situação econômica do Brasil se encontrar em déficit e os gastos governamentais em obras serem excessivos, as mudanças estruturais eram necessárias pela importância do evento e a recepção de visitantes que a cidade receberia, em 1922. Os chargistas, porém, não concordavam e, com isso, produziam críticas às obras para a realização do Centenário, como um velho sentado em uma tartaruga tentando se aproximar da cidade, para relatar que havia atrasos nas obras.1

Os artistas brindaram à sociedade da época com um boom de retratações artísticas caricaturais e chargísticas do momento.1 O cômico, instrumento utilizado por eles para se comunicar com os leitores das revistas ilustradas, busca alegrar o leitor, na posposta de retirar o sofrimento da realidade vivida.2 Pode-se, a partir desta assertiva, inferir que isso implicava o entendimento de que o humor trata-se de arte emergente das sociedades democráticas, sendo considerada ferramenta crítica para os poderes estabelecidos.3

 

DESENVOLVIMENTO

O riso é algo estritamente característico do ser humano. Sua utilização é considerada objeto externo ao indivíduo, pois pode ser entendido como o ato de rir de si próprio.4 Ademais, o vocábulo cômico, desde sua origem na Grécia, era para ser destinado ao teatro na modalidade satírica, mas no decorrer dos tempos ele passou a representar o que tinha intenção de fazer rir e não mais as cenas apresentadas nos espetáculos teatrais.

O termo jocoso provém do latim jocus, que significa divertimento. Na língua portuguesa tem a significância de “gracejo, o que se diz para divertir, despertar o riso”.5 A Real Academia Espanhola trata-o como algo gracioso, sutil, perspicaz e animador. Exemplo disso são as histórias em quadrinhos (HQ), que apresentam várias vertentes de representações de imagens, entre elas, caricaturas, charges, desenho humorístico e as histórias em quadrinhos.2

No que se refere à charge, ela é a forma crítica, na modalidade humorística, de fato/acontecimento por meio da reprodução gráfica veiculada como notícia conhecida do público, mas na interpretação da ótica do chargista, articulando imagem e texto.6 Sua ocorrência opera com base nos fatos e o conhecimento prévio do tema abordado na charge, por parte do leitor. Assim, ele é um dos fatores para compreendê-la, mas não necessariamente tenha articulação com a imagem e a palavra, ao se tratar de estratégia para provocar o efeito de antítese, como foco na atenção do leitor.7

Mediante o exposto, tem-se por objetivos: identificar as charges, tendo por conteúdo representações de enfermeiras veiculadas na imprensa ilustrada; analisar as circunstâncias de veiculação das charges sobre as enfermeiras; e discutir as representações como elementos simbólicos para a construção da imagem pública da enfermeira.

A justificativa adotada refere-se à aderência do papel dos profissionais do desenho na formação da opinião pública e à construção da imagem pública da enfermeira. Nesse momento, não se pode deixar de citar o ocorrido em 07 de janeiro de 2015 sobre o caso do Charlie Abdo, quando quatro cartunistas foram assassinados por indivíduos ligados à rede de terrorismo Al-Qaeda, como resposta à publicação de charges em que o profeta Maomé era retratado em forma de caricatura, pela revista, em Paris, França. Isso impulsionou o debate acerca do limite da representação visual na imprensa mundial.

Esse acontecimento nos tempos atuais se imbrica na justificativa e relevância de entendimento para a leitura da imagem profissional especificamente da enfermeira e na relevância da releitura que outros profissionais puderam fazer sobre essa profissional à época.

A partir disso, esta pesquisadora foi conduzida ao projeto de pesquisa matriz intitulada “A imagem pública da enfermeira”, que investiga a construção da imagem pública da enfermeira e seus mecanismos na perspectiva da história semiótica que, ao longo dos tempos, nos domínios da história atual, se intitula história da cultura visual.

 

METODOLOGIA

Estudo de pesquisa exploratória que tem como perspectiva a história no domínio da cultura visual, sendo escolhida a Revista Fon-Fon para as buscas das imagens em charges de enfermeiras.

A análise semiótica tem, como uma das atribuições, o sinonismo com a lógica. Ou seja, pode ser definida como “uma doutrina formal dos signos, resultante da observação e posterior generalização por abstração das características deste signo”. A produção da significação dos signos recebe o conceito de semiose por Pierce, que o trata como um processo entrelaçado de três sujeitos – um signo, o objeto e seu interpretante.8

A Revista Fon-Fon foi uma das quatro mais lidas entre as revistas ilustradas à época e tinha como finalidade trazer aos leitores publicações sob forma de notícias, publicidades, desenhos, charges, além de matérias diversas.8

A busca das charges ocorreu no sítio eletrônico da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, usando-se o termo “enfermeira”. Obtiveram-se 142 ocorrências no período estudado. A maior parte dos achados era do termo buscado sem associação de imagem. Os achados do termo, em associação às charges de enfermeiras apresentadas nesta pesquisa, tiveram, por critério, representações de mulheres ostentando atributos pessoais que remetessem à indumentária da enfermeira, em especial: gorro, véu, touca e símbolo da cruz. Após a coleta das imagens, foi aplicada uma matriz de análise para a decodificação dos elementos imagéticos, que é composta de quatro partes: dados de identificação, dados do plano de expressão, plano de conteúdo e dados complementares obtidos de outra imagem.9

A pesquisa, por se remeter do período de 1920 a 1931, respeitou a Lei número 9.610/1998, que se refere à autorização, atualização e consolidação da legislação sobre direitos autorais, assim como outras providências.

 

RESULTADO

A busca resultou em três imagens que são identificadas pela expressão fac-símile, por terem sido previamente impressas em meios de comunicação datadas de 1921, 1929 e 1931 nas páginas das Revistas Fon-Fon.

Antes da apresentação dos fac-símiles encontrados na revista, cabe destacar que a Revista Fon-Fon foi criada em 1907 e circulou até 1958 e trazia conteúdo de flagrantes da sociedade da capital brasileira, com muitas fotografias, ilustrações, literatura e charges políticas e críticas. Sua característica de conteúdo era o cômico e crítico, além da veiculação de propagandas, quando a tornou de profusa circulação.8

As charges identificadas na Revista Fon-Fon correspondem ao período da Reforma Sanitária, liderada por Carlos Chagas. Elas de forma pontual revelam características de três momentos desse contexto, a saber: a primeira se entendeu como reação do processo inicial, a segunda como intermediária e a terceira final do período da Reforma. Nelas, em síntese, é possível identificar mensagens truncadas ou não, por meio dos atributos pessoais marcantes de cada instituição de ensino, Escola Profissional de Enfermeiras e Enfermeiros, Escola Prática da Cruz Vermelha Brasileira e Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública, em virtude do cenário sociopolítico no olhar daqueles que produziam as charges.

 

ANÁLISE E DISCUSSÃO

O primeiro fac-símile encontrado foi publicado em 17 de setembro de 1921. Naquela época, havia a Lei nº 3.987, de 2 de janeiro de 1920, sancionada por Epitácio Pessôa. Essa lei reorganizava os serviços de saúde pública, quando foi criado o Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), em que o médico Carlos Chagas, como diretor, promoveu mudanças no projeto sanitarista brasileiro, permanecendo até 1926, sendo substituído por Clementino Fraga. Este último teve como destaque em sua gestão o combate ao surto de febre amarela na capital brasileira, entre 1927 e 1928. Sua saída da direção do DNSP foi motivada pela Revolução de 1930, sendo substituído por Belisário Penna.10

A partir da criação desse departamento, o Estado aglutinou questões que antes eram tratadas de maneira isolada ou, então, como uma questão de foro policial, pois a visão de assistência pública era de realizações de cuidados materno-infantis, geriátricos e psiquiátricos, mais especificamente direcionado para a loucura, aliando instituições públicas e privadas, hospícios, policlínicas, dispensários, orfanatos, asilos e postos médicos.11,12

O pensamento médico-sanitário foi o transformador da sociedade e política da época. Ele apoiou as transformações operadas pelo departamento, que reorganizou os serviços de saúde e teve, como principais fatores, os serviços de profilaxia rural no Distrito Federal, demais estados e território do Acre, a vigilância das condições laborais femininas e infantis, o controle de qualidade alimentar e a implantação de convênio com a Fundação Rockfeller.11

Arthur Bernardes, eleito como Presidente da República, em 1922, destinou o foco para os serviços de saúde. Exemplo disso foi o Decreto nº 16.300, de 31 de dezembro de 1923, que aprovava o regulamento do Departamento Nacional de Saúde Pública, tratando como uma das atividades do DNSP o aspecto do saneamento rural no Distrito Federal, estados e território federal do Acre, como promoção de campanhas federais de higiene infantil e antituberculose.11

Em 1923 foi criada a Sociedade Brasileira de Higiene (SBH) por intermédio do movimento de articulação da extinta Liga Pró-Saneamento do Brasil. A partir desse marco iniciava-se a prática de saúde pública, inclusive no campo intelectual, como nos congressos nacionais de sanitaristas. Isso implicou o rompimento da SBH com a geração nacionalista da liga.

Os compromissos do Estado com a Fundação Rockfeller foram questionados pelo movimento básico. Os pontos questionados foram o objetivo de profilaxia da febre amarela e outras doenças em algumas regiões da República.

No mesmo momento, as enfermeiras americanas, vindas de acordo do governo brasileiro com a fundação Rockfeller, intencionavam construir uma imagem de uma Enfermagem moderna. Isso posto, parte dos médicos do DNSP se sentiu contrariada, pois eles desejavam ser os agentes das soluções dos problemas das práticas do cotidiano.13

 


Figura 1 - Charge: enfermeira e DNSP (1921).

 

Fac-símile nº 1 remete à imagem de uma mulher em trajes de enfermeira. Ela se encontra composta de véu, símbolo da cruz e as iniciais do DNSP, que remete à decodificação do Departamento Nacional de Saúde Pública. A cena se refere à aplicação de medicação no músculo hipertrofiado do braço de um senhor, por meio de uma seringa em tamanho grande com a inscrição “emergência”. O senhor que recebe a medicação ostenta na cabeça um par de asas, demonstrando olhar de insatisfação e/ou desconfiança. A charge é acompanhada da seguinte legenda “Ranzinzismo Sanitario. Injecções à bessa...”

Ao se articular a imagem ao contexto, podem-se inferir alguns aspectos de interesse para a construção da imagem pública da enfermeira, a saber: a mulher nos trajes de enfermeira associada à sigla DNSP conduzia ao leitor desavisado tratar-se do recém-criado Departamento Nacional de Saúde Pública, pela sigla no uniforme. Mas à época pode-se afirmar ser um equívoco, pois fossem as visitadoras ou enfermeiras, o atributo pessoal do véu não carreava nexus com aquele departamento.

Cabe destacar que as visitadoras de higiene emergiram a partir do curso de Emergência, por meio do Decreto no. 14.354, de 15 de setembro de 1920, e que as primeiras profissionais pela Escola de Enfermeiras do DNSP formaram-se em 1925.14

Os elementos simbólicos – véu e o símbolo da cruz – eram um atributo de relevo da Instituição da Cruz Vermelha Brasileira (CVB). Nesse sentido, o véu remete às filhas de Maria, às noivas, Irmãs da Caridade, além de algumas imagens religiosas. Com base na interpretação na perspectiva da moda, esse atributo pessoal conduz à leitura de ocultação de identidade e destaca a moralidade de quem o traja. Associado ao símbolo da cruz oriunda da Cruz Vermelha, isso se fortalece, mesmo sem a instituição ser laica, à significação de caridade e bondade atribuída às enfermeiras formadas por aquela instituição de ensino.15

Ressalta-se que a CVB, à época, tinha a Escola Prática de Enfermeiras, com os cursos de: Enfermeira Voluntária, Enfermeira Profissional e Enfermeiras Visitadoras. Os dois primeiros tinham por coordenação o médico Getúlio dos Santos e o terceiro foi idealizado e ministrado por Amaury de Medeiros, que teve seu curso entre 1920 e 1922.16

Como se pode identificar, o foco se encontrava na Reforma Sanitária, liderada por Carlos Chagas, tendo em vista às condições sanitárias do Rio de Janeiro. Nesse sentido, aposta-se na assertiva de que a charge, sem autoria identificada, se destinava à crença estabelecida pela Cruz Vermelha Brasileira, em sua atuação, pelos atributos simbólicos, como crítica ao vivenciado pela população do Rio de Janeiro ao desvalido – representado pela imagem de um senhor com um par de asas, que se atribui significação aproximada de esclerosado. Isso implicava que ele deveria ser tratado/cuidado, mas que as políticas públicas destinadas à saúde não davam conta do atendimento.

Depreende-se do exposto que o autor do desenho, ao elaborar a charge, intencionava fazer crítica às políticas públicas do DNSP e associou os atributos da Cruz Vermelha Brasileira para tal, inclusive reforçando com a sigla utilizada. Mas, de forma equivocada nos atributos pessoais da representação da enfermeira ou até mesmo por se encontrar imbuído da crença simbólica da CVB, tentou articular alguns elementos simbólicos, resultando possivelmente em mensagem truncada à época para o leitor.

 


Figura 2 - Charge: enfermeira e o doente (1929).

 

Fac-símile nº 2 mostra uma mulher em trajes de enfermeira. Ela se encontra composta de gorro, que pelo atributo remete à decodificação da Escola Profissional de Enfermeiras Alfredo Pinto, desdobramento da Escola Profissional de Enfermeiras e Enfermeiros. A cena conduz ao ambiente de um quarto, podendo-se identificar um senhor deitado com bandagem em torno da cabeça. Ele parece se encontrar confortável, com travesseiros e com o corpo coberto até a altura do pescoço, em estado melancólico e com hematomas na face, pelas marcas escuras nas áreas nasal e periorbital. Ao fundo da cena, é possível identificar parte de um quadro decorativo e jarro com flores. A charge é acompanhada da seguinte legenda “A enfermeira (pesarosa). – E eu acho que o autor da agressão devia ter tido pelo menos a delicadeza de devolver-lhe a orelha!...”.

A imagem evoca o período intermediário da Reforma Sanitária, quando enfermeiras pelo DNSP encontravam-se formadas e com amparo da Fundação Rockefeller.17

Mas se se pensar na possibilidade de serem enfermeiras do DNSP, trata-se de equívoco, o que leva à interpretação de se tratar da Escola Profissional de Enfermeiras Alfredo Pinto (EPEAP) ou da Escola Prática de Enfermeiras da CVB. Nesse sentido, descarta-se a possibilidade de ter alguma profissional formada pela última instituição de ensino, pela ausência, em especial, do símbolo da cruz, o que direciona o pensamento para a EPEAP, particularmente pelo atributo do gorro.

Portanto, articulado à cena o atributo pessoal de cabeça da mulher associado à legenda, infere-se tratar de mensagem crítica direcionada à possível fragilidade ou ao abandono dos alienados que perambulavam pelas ruas da cidade. Essa inferência é possível, tendo-se que, em 1929, estudos, por um lado, revelam a necessidade de qualificação das enfermeiras e de se especializarem nos cuidados aos alienados18; e, por outro, a possibilidade de críticas direcionadas à saúde pública, considerando-se que as enfermeiras desse campo encontravam-se abandonando essa área para se destinarem ao espaço hospitalar.13

 


Figura 3 - Charge: enfermeira e o médico (1931).

 

O terceiro fac-símile traz a imagem de uma mulher em trajes de enfermeira. Ela se encontra de perfil, composta de uniforme com touca, que pelo atributo remete à decodificação da Escola do Departamento Nacional de Saúde Pública e com uma prancheta na mão. A cena não localiza com clareza o espaço, se quarto, corredor, enfermaria ou centro cirúrgico, em virtude da maca com uma pessoa deitada, coberta até o pescoço com um lençol. Do lado esquerdo da cena identifica-se um homem com traje de médico – jaleco até a altura das pernas e de manga comprida. Na maca, um senhor deitado, deixando transparecer encontrar-se confortável com travesseiro. A cena dos três descritos no texto imagético é acompanhada da legenda: “A enfermeira (pesarosa). – Quer que classifique este caso como apendicite, doutor?”.

A época da charge conduz ao dispositivo legal, Decreto nº 20.109/1931, que regulou o exercício da Enfermagem no Brasil, fixou as condições para a equiparação das escolas de Enfermagem e determinou que a Escola de Enfermagem Anna Nery tornasse instituição padrão oficial para o ensino na Enfermagem brasileira.

Ao se articular imagem ao contexto, direcionado à leitura imagética, pode-se abstrair que a enfermeira, como intermediária do médico e doente, faria o registro, contudo, manipulado pelo médico e tendo por argumentação o equívoco. Pensar nessa possibilidade, no âmbito do dispositivo legal, era questionar as atitudes das enfermeiras no sentido da credibilidade imposta pelo Decreto, em considerar padrão aquela instituição de ensino.18,19

Ao se comentar tais charges, desde mensagens truncadas, inferências e questionamentos do dispositivo legal, acredita-se que este tenha sido o clima daquela época, em virtude das circunstâncias sociais, políticas e sanitárias. Isso enfatiza a construção da imagem pública da enfermeira que, se por um lado era vista no senso comum como anjos ou de figuras similares, por outro as charges as utilizavam como protagonistas de cenas do cuidado de fundo político e social, considerando que, para o leitor desavisado, confusões metais não estariam longe de ocorrer sobre a imagem da enfermeira.

Assim, seja pelo lado positivo da visibilidade da enfermeira nas páginas da revista Fon-Fon, seja ela protagonista mensageira das críticas políticas, sociais e sanitárias daquele panorama, as enfermeiras eram figuras de representações de interesse dos chargistas, considerado por eles, possivelmente, como profissionais importantes no campo da saúde pública.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como se pode identificar nas análises das charges, as representações de enfermeiras foram protagonistas das mensagens sociais, políticas e sanitárias, o que não afasta, ao acaso ou não, a luta simbólica pela enunciação de sua imagem no meio público. E isso conduz à sobrevivência da tese, descrita em outros estudos, de que de fato havia concorrência para anunciação da imagem pública da enfermeira pelas instituições de ensino. Este estudo acrescenta mais um elemento para além das fotografias de ritos institucionais ou similares, ou seja, as charges.

Esse elemento, acrescido para futuras discussões sobre o processo de construção da imagem pública da enfermeira, é a possibilidade evidenciada da imagem como registro e a sua contribuição para a história da Enfermagem e dos cuidados, tendo por perspectiva o domínio da história da cultura visual.

Pensar nesta vertente é instigar novos estudos, seja para ratificar ou refutar assertivas cristalizadas, bem como a possibilidade da construção de outras versões e interpretações da trajetória da imagem da enfermeira e da profissão, seja ela nacional e/ou internacional.

 

REFERÊNCIAS

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