REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 13.1

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Pesquisa

Oficinas de reciclagem no CAPS Nossa Casa: a visão dos familiares

Recycling workshops at "Nossa Casa" Center of Psychosocial Care: a vision of the family

Luciane Prado KantorskiI; André Luis Alves de QuevedoII; Ariane da Cruz GuedesIII; Valquíria de Lourdes Machado BielemannIV; Rita Maria HeckV; Luana Ribeiro BorgesVI

IEnfermeira. Doutora em Enfermagem (EERP). Diretora e Professora Adjunta da Faculdade de Enfermagem e Obstetrícia da Universidade Federal de Pelotas (UFP)-RS
IIAcadêmico do 5º semestre do Curso de Enfermagem e Obstetrícia da Universidade Federal de Pelotas (UFP)-RS. Bolsista de Iniciação Científica do CNPq
IIIAcadêmica do 9º Semestre do Curso de Enfermagem e Obstetrícia da Universidade Federal de Pelotas-RS. Bolsista de Iniciação Científica do CNPq
IVEnfermeira. Mestre em Enfermagem (UFSC). Professora Adjunta da Faculdade de Enfermagem e Obstetrícia - Universidade Federal de Pelotas (UFP)-RS
VEnfermeira. Doutora em Enfermagem (UFSC). Professora Adjunta da Faculdade de Enfermagem e Obstetrícia - Universidade Federal de Pelotas (UFP)-RS
VIAcadêmica do 9º Semestre do Curso de Enfermagem e Obstetrícia Universidade Federal de Pelotas-RS

Endereço para correspondência

Rua: Victor Valpírio, 289, bairro Três Vendas
CEP: 96020-250, Pelotas-RS
E-mail: kantorski@uol.com.br

Data de submissão: 16/7/2008
Data de aprovação: 19/8/2009

Resumo

Este artigo versa sobre as oficinas como dispositivos de cuidado, nos Centros de Atenção Psicossocial, na concretização das diretrizes da reforma psiquiátrica. Analisamos a relação das oficinas de reciclagem do CAPs Nossa Casa de São Lourenço do Sul-RS como espaço terapêutico, a geração de renda, a relação com o meio ambiente e a integração dessas oficinas com a comunidade por meio da visão do familiar. A metodologia empregada para essa análise baseia-se na abordagem qualitativa, tendo como instrumento entrevistas semi-estruturadas, realizadas com 12 familiares do CAPs Nossa Casa, e a observação (150 horas) com registro em diário de campo. Com base na relação entre os objetivos das oficinas propostas e a literatura disponível sobre o tema, chegamos às seguintes conclusões: as oficinas de reciclagem, como espaço terapêutico, têm-se mostrado eficientes para acolher os usuários no serviço, contribuindo para a terapêutica. No que se refere à relação com a comunidade e o meio ambiente, percebe-se que as oficinas de reciclagem têm aprimorado as relações do usuário com o seu círculo social, por meio das relações sociais, dando ênfase à preservação do meio ambiente. Por fim, percebemos que as ações relacionadas à geração de renda, no serviço, ainda são tímidas e necessitam de apoio maior para, assim, haver uma inclusão realística do usuário por meio do trabalho, indo ao encontro da reabilitação psicossocial.

Palavras-chave: Psiquiatria; Reabilitação/psicologia; Serviços de Saúde Mental; Terapia Ocupacional; Relações Familiares

 

INTRODUÇÃO

Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) são unidades de atendimento aos portadores de sofrimento psíquico grave, constituindo-se um modelo substitutivo àquele centrado no hospital psiquiátrico, caracterizado por internações de longa permanência e regime asilar. Os CAPs, ao contrário, permitem que os usuários permaneçam com suas famílias e comunidades.1 Suas diretrizes abrangem uma diversidade de métodos e técnicas terapêuticas nos vários níveis de complexidade assistencial - em outras palavras, são serviços comunitários cujo papel é cuidar de pessoas que sofrem com transtornos mentais, em especial os transtornos severos e persistentes, no seu território de abrangência.2,3 Nesse sentido, são serviços substitutivos estratégicos no processo de consolidação da reforma psiquiátrica.4

Durante a participação no projeto de Avaliação dos CAPs da região Sul do Brasil, na transcrição das entrevistas e limpeza do banco de dados do campo qualitativo do CAPs Nossa Casa de São Lourenço do Sul, identificou-se a existência de oficinas de reciclagem, associadas com a questão da reabilitação psicossocial e a geração de renda; a proteção ao ambiente e inclusão social; e a criação de ambiência terapêutica acolhedora no serviço, visando incluir pacientes muito desestruturados e comprometer-se com a construção dos projetos de inserção social. Essas oficinas vão ao encontro das diretrizes da Reforma Psiquiátrica no Brasil, cuja meta é a desinstitucionalização e inclusão, integrando os portadores de sofrimento psíquico aos diferentes espaços da sociedade, até mesmo ao trabalho.5

Resgatando historicamente a trajetória do CAPs Nossa Casa, esse centro é um dos primeiros serviços de saúde mental reconhecido no Brasil e o primeiro no Estado do Rio Grande do Sul, reiterando-se sua importância como campo de observação desse estudo. Em agosto de 1992, quando o Rio Grande do Sul aprovava sua lei estadual de reforma psiquiátrica, a "Nossa Casa", serviço de atenção diária em saúde mental de São Lourenço do Sul, já funcionava cuidando de portadores de transtornos psíquicos graves em regime aberto desde agosto de 1988.6 As oficinas inserem-se nesse contexto em que se propõem cuidar de pessoas com transtornos psíquicos graves em liberdade.

Quanto às oficinas de reciclagem utilizadas para este estudo, temos a oficina de sabugo, onde os usuários realizam trabalhos artesanais, como suporte para mesas, e esses artefatos são vendidos para uma fábrica situada na cidade de Porto Alegre. Ressalte-se que o sabugo utilizado nessa oficina é adquirido no Caminho Pomerano. Por conseguinte, temos a segunda oficina proposta, a de papel machê, na qual os materiais fabricados, como cartolinas, agendas do serviço, são construídos e vendidos em eventos e nas visitas que o CAPs recebe das Universidades.

Para se ter uma ideia da relevância do trabalho realizado na Nossa Casa, destaca-se que os brasileiros produzem, diariamente, 125.281 mil toneladas de lixo, sendo que 30,5% são jogadas a céu aberto.7 As oficinas, como atividades grupais de socialização, expressão e inserção social, quando propõem a reutilização do papel e do sabugo, e, por meio de trabalhos artesanais, revertem-nos em renda para os usuários, constituem-se em espaços terapêuticos e de proteção do ambiente. Com base nisso, o objetivo com este trabalho apresentar uma análise das oficinas de reciclagem como terapêutico, geração de renda, relação com o meio ambiente e integração com a comunidade.

 

DESCRIÇÃO DA METODOLOGIA

A metodologia empregada para esta análise baseia-se na abordagem qualitativa, tendo como instrumento entrevistas semiestruturadas, realizadas com 12 familiares do CAPs Nossa Casa e observação (150 horas) com registro em diário de campo. A coleta de dados ocorreu nos meses de novembro e dezembro 2006, no CAPs Nossa Casa, na cidade de São Lourenço do Sul-RS. Foram utilizados 10 das 12 entrevistas de familiares, pois dois entrevistados não apresentaram falas condizentes com o foco do estudo. Os dados foram extraídos do banco de dados qualitativos da pesquisa de Avaliação dos CAPs da Região Sul do Brasil, contando com a autorização prévia da coordenação do estudo.

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas, pelo Ofício nº 074/2005. As oficinas analisadas no serviço em estudo são: oficina de papel machê e oficina de sabugo de milho. O material coletado no campo empírico foi interpretado com base em uma relação entre os objetivos da oficina proposta e a literatura disponível sobre o tema.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os dados foram analisados com base nas seguintes temáticas: oficina de reciclagem, como espaço terapêutico, de geração de renda, e a relação com o meio ambiente e a comunidade.

Trabalho e geração de renda

A reabilitação psicossocial se dá com base em um dos eixos que consiste na inserção por meio do trabalho. Considerando o fato de que as habilidades para o trabalho aumentam a contratualidade do usuário e recaem no desafio da geração de renda, as oficinas, como dispositivos para gerar renda, maximizam o grau de autonomia dos usuários, favorecendo, assim, o processo de reabilitação psicossocial.

Segundo Pitta,8 entende-se por reabilitação psicossocial, a recobrança de crédito, estima ou bom conceito perante a sociedade, o que nos dá uma dimensão ampla de cuidado, que vai muito além da desospitalização. É uma união de esforços que amplia as possibilidades de viver em liberdade ao indivíduo em sofrimento psíquico:

Olha é bom, porque eles fazem, vendem e aquela contribuição não fica no plano da casa [CAP]. (Ent 2)

É, ele trabalhou, ele ganhou. É um serviço. [...] Ah, ele gosta, seguido ele vem dizendo: 'Ai porque eu fiz isso, porque eu fiz aquilo, ah porque eu terminei meu serviço hoje. (Ent 3)

Eu acho assim importante, além de tratar, ajudam o paciente a melhorar, eles reabilitam o paciente, tem uma oficina, [...] tentam uma coisa aqui, tentam no sabugo, não deu, vai à aula de dança. Acho que isso é positivo, para o paciente e no caso a gente fica tranquilo, sabendo que eles vêm contentes de lá. (Ent 4)

Nesse sentido, podemos explicitar o conceito de resiliência, pertencente ao campo da física, enfatizado por Valentini Jr. e Vicente,9:49 o qual é traduzido como "uma propriedade pela qual a energia armazenada em um corpo deformado, é devolvida quando cessa a tensão causadora da deformação elástica", evidenciando, assim, a troca do modelo do dano para o do desafio. Essa afirmação traduz o real impacto que a reabilitação psicossocial deve ter na vida do usuário, pela proposta da reforma psiquiátrica, contemplando a volta do indivíduo em sofrimento psíquico ao seio social, livre de estigmas e preconceitos, construindo relações de igualdade.

Para que haja reestruturação no viver do ser em sofrimento psíquico, é necessário o restabelecimento do seu poder contratual, levando em conta sua rede social. De acordo com Dalmolin,10 compreender o processo saúde-doença significa entender que o sofrimento envolve uma experiência que ocorre na vida, está relacionado com os sistemas simbólicos e tem um significado para o sujeito que o vive, bem como para o contexto em que está inserido.

Então, surgem como estratégia de ampliação do poder contratual do indivíduo, no âmbito dos serviços substitutivos ao modelo hospitalocêntrico, as oficinas terapêuticas, evidenciadas anteriormente. A seguir há exposição de verbalizações feitas pelos familiares em relação a essa temática:

O local lá é bom, bem grande, bem espaçoso, tem muitos lugares assim, para eles fazer atividades, que eles fazem. Tem atividades manuais. Também fazem tapetes, eu acho superlegal. (Familiar 3)

Eles incentivam bastante eles a fazer, continuar fazendo o serviço. (Ent 6)

Não, as oficinas não têm só finalidade financeira, não, têm a finalidade para reabilitar eles. (Ent 7)

Trabalho muito importante aquilo ali. (Ent 11)

Eu acho. Se eles aprendem direitinho, eles ensinam, eles fazem cada trabalho mais bonito! (Familiar 12)

Rotelli e Amarante11 afirmam que, nas atividades desenvolvidas pelos serviços substitutivos, as oficinas e as cooperativas de trabalho aparecem como uma modalidade de cuidado/criação, gerando possibilidades de produção artística, intelectual e geração de renda.

Nesse sentido, Saraceno12 afirma que a reabilitação psicossocial deve convergir para o poder de contratualização do usuário, envolvendo hábitat, rede social e trabalho. Assim, as oficinas, como instrumentos de reabilitação, devem ir ao encontro desses três eixos:

Dão uns 'troquinhos' para eles lá. Eles vendem os trabalhos deles, então, dão um 'dinheirinho'. Ele vem sempre faceiro com o dinheiro, tão faceiro. [...] Assim, para incentivar também, porque eles achando que estão ganhando o 'dinheirinho' deles, eles trabalham, têm força de vontade para fazer o trabalho deles. [...] Não, ele ganha assim, conforme ele termina o trabalho, eles vendem e dão metade para eles. [...] Acho que são 100 reais. (Familiar 3)

Ah é, sempre ajuda um pouquinho, os legumes da feira sempre, sempre ajuda. (Familiar 4)

No que se refere ao trabalho, Saraceno13 ressalta que este, ao ser entendido como "inserção laborativa", pode promover um processo de articulação do campo dos interesses, das necessidades e dos desejos. Afirma que o trabalho é um meio de sustento e representa um meio de autorrealização, sendo essa relação associada com o sentido e o valor que a sociedade lhe atribui; da mesma forma que é artefato de um projeto para um indivíduo.

Por mais que gere bem-estar no usuário, constatamos, todavia, nas entrevistas analisadas, que as oficinas de geração de renda ainda não evoluíram suficientemente de maneira que contemple o suprimento das necessidades dos usuários. O rendimento financeiro por meio delas é limitado e não gera um ganho fixo mensal, uma vez que, em média, o valor individual não passa de 1/7 do salário mínimo ao mês para cada usuário participante:

A renda não é muita, e a produção deles também é pequena. As condições deles são mínimas, então quer dizer que não é grande coisa, até porque é uma coisinha, para o cigarro, para alguma coisinha, para alimentação, mas é mínima [...]. Teria que ter muito mais, produção muito maior, uma condição de trabalho melhor [...]. A venda que eles têm é mínima. Não dá para quase nada, não dá para eles sobreviverem com isso. Então não é um trabalho onde eles podem se sustentar e manter uma família. (Familiar 7)

O rendimento é lá de vez em quando, como vou lhe explicar. Sei lá, ela tem uma percentagem do trabalho dela. [...] Ajuda alguma coisa que ela tem vontade de conseguir. [...] É cada pessoa recebe um 'trocadinho', cada caso é um caso. Às vezes é uma quantia bem irrisória. (Familiar 9)

Uma vez ele veio muito contente com dois reais que ele tinha vendido, não sei o que ele tinha feito. [...] Ah é, contente sim. Ele disse assim, que vendeu não sei o que, que alguém tinha comprado uma coisa. (Familiar 10)

Ela sempre compra alguma coisinha pra ela. Até daqui da Nossa Casa mesmo, ela compra também, aquelas bolsinhas. Aquelas coisas assim que ela acha que está utilizando, que vai utilizar. (Familiar 12)

Entretanto, um dos familiares expôs uma ideia de aprimoramento das oficinas, afirmando a importância de capacitar o usuário de tal maneira que este esteja preparado para trabalhar quando obtiver alta do serviço:

Condição de trabalhar melhor, coisas que eles possam trabalhar, manusear, material para eles revenderem [...]. Teria que ter recurso financeiro, para poder adquirir o recurso material, porque não adianta ter recurso material mínimo de coisas [...] é uma coisa pequena, eles teriam que ter muito mais. [...] Têm muitas pessoas que têm condições de fazer isso aqui dentro. E é uma forma deles próprios ganharem um dinheiro. É a hora de poder sair, trabalhar diretamente com o público e abrir os seus horizontes, vendo que têm capacidade de seguir em frente. [...] Uma atividade onde eles se capacitam para futuramente gerenciarem e construírem fora dali uma coisa para eles. (Familiar 7)

Para finalizar este tópico, ressalte-se a colocação de Lappann-Botti14 de que as oficinas terapêuticas promovem o exercício da cidadania, a expressão de liberdade e a convivência dos diferentes.

Espaço terapêutico

Torna-se relevante para esse estudo a abordagem da temática "espaço terapêutico" ancorado na reabilitação psicossocial. O verdadeiro sentido desse espaço toma forma a partir do momento em que proporciona ao indivíduo o aumento do seu poder contratual, ou seja, a ampliação de suas redes sociais e o fortalecimento de sua autonomia, tornando-o um cidadão realmente inserido nos cenários de relações sociais.

De acordo com Kinoshita,15 a contratualidade do usuário vai estar determinada pela relação estabelecida pelos profissionais que o atendem, os quais podem usar o poder que têm para aumentar o poder do usuário ou não;

depois, pela capacidade de elaborar projetos, isto é, ações práticas que modifiquem as condições concretas da vida, de modo a que a subjetividade do usuário possa enriquecer-se, assim como para que as abordagens terapêuticas específicas possam contextualizar-se.15:57

Porém, ainda que o serviço se esforce em fazer com que as oficinas não sejam espaços de entretenimento, os familiares mantêm uma percepção manicomial sobre esses dispositivos. De acordo com Saraceno,13:16 entreter significa "ter dentro, passar prazerosamente o tempo". O usuário pode ser entretido com atividades recreativas e criativas, em diversos âmbitos da sociedade, inclusive nos CAPs. Podemos evidenciar isso nas observações dos familiares a seguir:

Eu acho bom porque ajudam eles lá dentro. Eles aprendem alguma coisa, aí eles têm alguma coisa para se ocupar lá dentro. (Familiar 8)

Eu acho que é uma ocupação, que eles têm que ter uma ocupação, para ocupar o tempo, porque senão vão ficar o tempo todo parados. (Familiar 10)

Eu acho bom, porque ela se distrai fazendo. [...] Eu acho, até para estimular, para eles não ficar assim sem fazer nada, pode até fazer em casa. (Familiar 12)

Ainda de acordo com Saraceno,13 a quebra do entretenimento constitui a fonte que deve ser conhecida e governada. Essa quebra necessita vir agregada de ações dotadas de maior eficácia transformadora da vida do indivíduo. Com base nisso, há falas em que os familiares ressaltam a importância dessas oficinas como espaços de valorização das subjetividades, do trabalho e de outras implicações que facilitam a formação de um espaço terapêutico acolhedor no serviço.

É trabalho, eu acho que é trabalho e assim como é que eu vou dizer, ajuda muito para não estar assim preocupado com outras coisas, então tem o serviço para fazer, tem aquilo para fazer, é uma atividade, para mim é uma atividade muito boa. (Familiar 2)

Eu digo que cada trabalho tem o seu valor, às vezes podem achar pouco. (Familiar 9)

Tudo isso é muito bom para mente dele, é bom. (Familiar 11)

Relação com o meio ambiente e integração com a comunidade

No município de São Lourenço do Sul-RS, existe uma rede de atenção em Saúde Mental estruturada e integrada, composta por: CAPsi, CAPsad, Unidade Psiquiátrica em Hospital Geral, com dez leitos e ambulatório de saúde mental integrado ao CAP, o que corrobora para a formação de vínculos em uma comunidade de "42.339 habitantes".16

Observando as oficinas de reciclagem sob o ponto de vista de relação com o ambiente, é relevante ressaltar a integração do serviço de saúde mental de São Lourenço do Sul com os diferentes espaços daquela sociedade.

A pesquisadora 3 pergunta como eles (partícepes das oficinas) conseguem as ferramentas de trabalho, a profissional apodera-se do momento, explicitando sobre a oficina de sabugos: 'Tem o caminho Pomerano. Já fizemos com uma parte dos usuários. No caminho, ganhamos os sabugos, vamos recolhendo e assim, temos material. A oficina de papel machê, tem o papel daqui, das gráficas, dos bancos, tudo é doação.' (Diário de Campo).

Situando o contexto da fala anterior, há necessidade de explicitar que esta atividade desenvolvida pelo serviço o Caminho Pomerano trata-se de uma visita pelos limites do município, ou seja, um contato com as famílias que residem nas colônias alemãs, as quais são agregadas à área física do município de São Lourenço do Sul. Quando falamos em inserção social, devemos ter em mente a significação de participação ativa. Desse ponto de vista, temos na comunidade lourenciana um forte predomínio da cultura alemã e pomerana. Nessa perspectiva, os usuários vão ao interior do município para se aproximarem dessa cultura e recebem doações de sabugo de milho dos agricultores. Essas ações mostram, linearmente, a inserção e o aceite do usuário nesses ambientes.

Nesse contexto ainda, ao analisarmos a relação do usuário com a comunidade no que tange à coleta da matéria-prima para a oficina de sabugo, evidenciamos na fala do Familiar 2 que seu parente recebe de vizinhos que têm sítios na zona rural alguns sabugos para a utilização na oficina. Isso evidencia a articulação dos usuários que transcende os limites do CAP.

Cooperam, porque ele tem muito conhecido, ele fala com um e com outro, e eles dizem: 'Lá em casa tem, e eu vou trazer'. Uma senhora, parece que de Pinheiros, foi na nossa 'tenda' e falou: 'Eu vou te trazer sabugos.' (Familiar 2).

Com base nessa explanação e no discurso antecedente, percebe-se que as oficinas, como dispositivos terapêuticos, cumprem seu papel, naquela comunidade, de ampliação do espaço social aos indivíduos em sofrimento psíquico. Percebe-se que há trocas comunitárias, culturais e sociológicas, o que vai ao encontro do princípio da reabilitação psicossocial, integrando as pessoas em sofrimento psíquico nos diferentes espaços da sociedade.5

Nesse sentido, Lappann-Botti14 enfatiza que a concepção de terapêutico advinda do fator convivência está diretamente relacionada à ideia de reinserção, voltada para recuperação de vivência cotidiana em seus aspectos socioafetivos e geográficos, constituindo, assim, novas relações sociais, bem como com o espaço da cidade. A autora afirma que as atividades conjuntas com a comunidade próxima da pessoa em sofrimento mental podem ser um meio eficaz para a maximização da produção e da inserção social do indivíduo.

Olha, ao meu ver, assim, que ajuda a inserção social é mais o artesanato, a oficina de artesanato. (Familiar 6)

Acho que a inclusão social [...] seria, no caso, eles conviverem mais com a sociedade, oportunidade de ter um emprego, de trabalhar. [...] Inclusão social seria tirar eles dali e arranjar uma oficina fora dali para aquelas pessoas que têm condições de trabalhar [...]. Deveriam procurar fazer um acordo com a comunidade, onde eles pudessem incluir essas pessoas com capacidade para o trabalho. [...] Eles têm contato uns com os outros, criam laços de amizade e afetividade. Eles mesmos se relacionam, discutem os seus problemas, se apoiam ali. (Familiar 7)

A apresentação dos trabalhos manuais que eles fazem [...]. Quando tem feira, eles mostram os trabalhos: os tapetes. (Familiar 12)

Demonstraram no Mental Tchê o trabalho deles. Começou a ter pedidos. (Familiar 4)

A última fala explicitada mostra o quanto as atividades realizadas pelo CAP Nossa Casa estão articuladas com aquela comunidade. Um exemplo dessa articulação é o Mental Tchê, evento regional realizado na cidade de São Lourenço do Sul-RS, em comemoração ao Dia da Luta Antimanicomial (18 de maio), que reúne anualmente trabalhadores de saúde mental, usuários, familiares e estudantes de todo o Estado do Rio Grande do Sul e de outros Estados. Nesse evento, discutem-se perspectivas e rumos da reforma psiquiátrica. Reafirma-se, na prática, como um espaço de horizontalização das relações, questionamentos e rupturas com preconceitos, gerando movimentos para a integração do usuário com a comunidade.

Podemos refletir, diante do exposto, que a Reforma Psiquiátrica, como movimento social, ensina que, a partir do momento em que se conseguir mudar mentalidades, mudar atitudes e mudar as relações sociais, se obterá êxito nas relações do campo social e no constructo da emancipação da real cidadania ao indivíduo em sofrimento psíquico. Na edificação da cidadania, não basta somente aprovar leis, uma vez que não se determina uma pessoa como cidadã por decreto. Nesse momento da caminhada, devem-se concretizar, no plano subjetivo, as ações realizadas por Basaglia, ou seja, "destruir muros" constituindo espaços e formas de lidar com a loucura e a doença mental, extinguindo com o manicômio do plano mental. 11,17

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do exposto, percebe-se que as oficinas de reciclagem do CAP Nossa Casa encontram-se bem estruturadas, visto que suas ações constituem-se em terapêuticas, contribuindo para o processo de reabilitação psicossocial, para a aceitação das diferenças. Assim, torna-se pertinente mencionar que a comunidade lourenciana, além de reconhecer o serviço, atua efetivamente na viabilização das oficinas, visto que separa e doa a matéria-prima para a realização das atividades. Embora o objetivo de gerar recursos financeiros seja reconhecido pelos familiares como insuficientes para a subsistência, não se pode desconsiderar que os ganhos oriundos do artesanato produzido em oficina, de certa forma, auxiliam no montante financeiro da família. Como exposto, os ganhos do usuário, embora pequenos, são utilizados para a aquisição de bens de consumo, os quais, em outras situações, caberiam à família adquirir. Assim, as oficinas possibilitam o resgate do desejo pelo trabalho por parte de usuário, pois, por meio da produção e livre expressão unem saúde, convívio social, reabilitação psicossocial, cultura e proteção do meio ambiente, promovendo, assim, qualidade de vida e inclusão, possibilitando a transformação das ações do sujeito.

Agradecimentos

Agradecemos ao Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e ao Ministério da Saúde pelo apoio financeiro, o qual propiciou a realização da Pesquisa de Avaliação dos Centros de Atenção Psicossocial da Região Sul do Brasil (CAPSUL), da qual os dados deste artigo foram extraídos.

 

REFERÊNCIAS

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2. Brasil. Portal de Saúde Pública do Pará. [Citado em 2007 ago. 14]. Disponível em: http://www.sespa.pa.gov.br/CAPS/caps.htm

3. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria/GM n. 336, de 19 de fevereiro de 2002. Define e estabelece diretrizes para o funcionamento dos Centros de Atenção Psicossocial. Brasília: Ministério da Saúde; 2002.

4. Bielemann VLM, Kantorski LP, Borges LR, Chiavagatti FG, Willrich JQ, Souza AS, et al. Projeto de pesquisa de Avaliação dos Centros de Atenção Psicossocial da Região Sul do Brasil. Órgão Financiador CNPq, 2005. [Citado em 2007 ago. 14]. Disponível em: www.ufpel.edu.br/feo/capsul/capsul

5. Valladares ACA, Lappann-Botti NC, Mello R, Kantorski, LP, Scatena MCM. Reabilitação psicossocial através das oficinas terapêuticas e/ou cooperativas sociais. Rev Eletrônica Enferm. 2003; 5(1):04-9. [Citado em 2007 ago. 14]. Disponível em: http:/www.fen.ufg.br/Revista

6. Nunes JAB. Para além dos "muros" da Nossa Casa: a construção de uma história em movimento. PSICO-PUCRS. 2005 set-dez; 36(3):293-8.

7. Bertussi Filho LA. Saneamento básico: a realidade nua e crua. [Citado em 2008 fev. 02]. Disponível em: http://www.ecoterrabrasil.com.br/home/index.php?pg=temas&tipo= temas&cd=373

8. Pitta AMF. O que é reabilitação psicossocial no Brasil, hoje? In: Pitta AMF, organizador. Reabilitação psicossocial no Brasil. São Paulo: Hucitec; 1996. p. 19-26.

9. Valentini Jr WAH, Vicente CM. A reabilitação psicossocial em Campinas. In: Pitta AMF, organizador. Reabilitação psicossocial no Brasil. São Paulo: Hucitec; 1996. p. 48-54.

10. Dalmolin BM. Esperança equilibrista: cartografias de sujeitos em sofrimento psíquico. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2006. 243p.

11. Rotelli F, Amarante P. Reformas Psiquiátricas na Itália e no Brasil: aspectos históricos e metodológicos. In: Bezerra Jr B, Amarante P, organizadores. Psiquiatria sem hospício. Rio de Janeiro: Relume-Dumará; 1992. p.41-55.

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13. Saraceno B. Libertando identidades: da reabilitação psicossocial à cidadania possível. 2ª ed. Rio de Janeiro: Te Corá; 2001. p.176.

14. Lappan-Botti NC. Oficinas em saúde mental: história e função [tese]. Ribeirão Preto: EERB/USP; 2004.

15. Kinoshita RT. Contratualidade e reabilitação psicossocial. In: Pitta AMF, organizador. Reabilitação psicossocial no Brasil. São Paulo: Hucitec; 1996. p.55-59.

16. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. Cidades. [Citado em 2008 fev. 15]. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1

17. Amarante P. Saúde mental e atenção psicossocial. São Paulo: Fiocruz; 2007. 117p.

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