REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 13.1

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Pesquisa

Adolescência: uma análise da decisão pela gravidez

Adolescence: an analisis of the pregnancy decision

Octavio Muniz da Costa VargensI; Celeste Ferreira AdãoII; Jane Márcia ProgiantiIII

IEnfermeiro obstetra. Doutor em Enfermagem e professor titular do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas Enfermagem, Mulher, Saúde e Sociedade (Nepen-Musas). E-mail: omcvargens@uol.com.br
IIEnfermeira. Mestre pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) na área de Saúde da Mulher. Especialista em Docência Superior. Tecnologista do Instituto Fernandes Figueira (Fiocruz). Professora Assistente da Universidade Severino Sombra
IIIEnfermeira obstetra. Doutora em Enfermagem e professora adjunta do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Vice-coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas Enfermagem, Mulher, Saúde e Sociedade (Nepen-Musas)

Data de submissão: 22/8/2007
Data de aprovação: 29/5/2009

Resumo

Neste estudo, o objetivo foi analisar a decisão da adolescente pela gravidez, com base no significado que ela atribuiu ao fenômeno. Trata-se de pesquisa descritiva com abordagem qualitativa baseada nos pressupostos teórico-metodológicos do Interacionismo Simbólico e da Grounded Theory. Os dados foram obtidos por meio de entrevistas semiestruturadas, realizadas com 16 adolescentes dos 12 aos 16 anos, atendidas no ambulatório de pré-natal de uma instituição pública federal na cidade do Rio de Janeiro. O estudo ocorreu no período de janeiro a outubro de 2005. Os resultados evidenciaram duas categorias que descrevem os significados para as adolescentes dessa sua decisão: 1. Descobrindo-se grávida, cujas subcategorias expressaram o querer e o não querer engravidar, o planejamento ou não da gravidez; 2. Optando pela gravidez, cujas subcategorias expressaram a descoberta do poder e a experiência de autonomia, advindos com a gravidez. Da integração dessas categorias emergiu a categoria central representativa do processo social básico: Buscando autonomia e poder. Concluiu-se que respeitar essa decisão, reconhecendo-a como um direito das adolescentes, representa o ponto de partida para um cuidado de enfermagem sensível, pautado nos princípios da bioética e da humanização. Isso implica a necessidade de profissionais treinados e cientes do que representam os direitos reprodutivos e de que as adolescentes têm o direito de exercer sua sexualidade com segurança e liberdade de escolha, com direito à informação sobre meios, possibilidades, estratégias, riscos e vantagens, para que possa decidir sobre a sua prole.

Palavras-chave: Bioética; Direitos Humanos; Enfermagem Obstétrica; Gravidez na Adolescência; Saúde da Mulher

 

INTRODUÇÃO

A gravidez na adolescência vem se tornando um problema de saúde pública em todo o mundo em decorrência não somente da alta incidência, como também da idade cada vez menor com que as meninas engravidam.1 Fato é que seu aumento relativo constitui motivo de preocupação, principalmente dadas as características desse grupo. A série analisada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)1 , referente ao período entre 1991 e 2002, mostra o crescimento desse fenômeno com destaque para as regiões Norte, com 25%, e Nordeste e Centro-Oeste, que evoluíram para proporções em torno de 23%. No Estado do Rio de Janeiro, verificou-se que, em 2002, 19,1% dos nascimentos eram de mães menores de 20 anos.1

A análise desse problema pelos profissionais de saúde é, mormente, feita sob a ótica da obstetrícia clínica, segundo a qual os riscos biológicos são os mais importantes e a preocupação predominante é com a vida biológica das mulheres.2 Nesse sentido, os aspectos relacionados com a ética, os direitos reprodutivos e os direitos de cidadania, geralmente, não são levados em conta. Isso se dá, principalmente, por se considerar as adolescentes, em geral, destituídas da capacidade de optar ou de decidir,3,4 um comportamento típico do paradigma tecnocrático.5

A prática de enfermeiras, quando norteada pelo paradigma biomédico, não pondera a possibilidade de que cada adolescente poderia ter escolhido e decidido engravidar para atender aos próprios anseios, sem pensar a gravidez como uma situação de risco biológico ou social.6 Assim, com este estudo, buscou-se trazer esta discussão com base no discurso da adolescente e, com isso, oferecer às enfermeiras diferentes significados atribuídos ao fenômeno para que possam reorientar a prática, bem como analisar a decisão da adolescente pela gravidez com base no significado que ela atribuiu ao fenômeno.

Na discussão sobre o significado da decisão da adolescente pela gravidez, alvo deste estudo, os conceitos fundamentais dos direitos reprodutivos e da bioética foram tomados como base.

 

METODOLOGIA

Trata-se de estudo qualitativo, com base nos princípios da Grounded Theory. Por meio desse método, é necessário que o pesquisador compreenda, pela perspectiva do sujeito, o que ele entende e diz de si e de outros, respeitando seu mundo e as interpretações que ele faz nessas interações compartilhando suas definições.7,8

Os dados foram obtidos e analisados no período de janeiro a dezembro de 2005. Os sujeitos pesquisados foram adolescentes grávidas com idade entre 12 e 16 anos, independentemente da idade gestacional em que se encontravam à época da entrevista, inscritos para atendimento no serviço de pré-natal de uma instituição governamental de referência para atendimento a esse grupo populacional, no município de Rio de Janeiro, Brasil. A escolha dessa faixa etária deveu-se ao fato de que essa instituição prioriza o atendimento de adolescentes nessa faixa etária.

Inicialmente, duas adolescentes foram entrevistadas com o propósito de dar início ao processo de análise comparativa constante. De acordo com a análise desses dados, foram incluídos mais três grupos amostrais, totalizando 16 adolescentes, constituídos:

1. por quatro adolescentes que haviam desejado e planejado a gravidez;

2. por seis adolescentes que desejavam engravidar, mas não tinham planejado engravidar no momento;

3. por quatro adolescentes que não desejavam e nem haviam planejado uma gravidez.

O número total de entrevistas (16), cujo teor foi alvo da análise comparativa constante, foi determinado pela saturação dos dados. Concomitantemente, foram feitas entrevistas informais cujos dados foram utilizados tão-somente para a validação das categorias emergentes da análise.

A primeira etapa do processo constou da transcrição das entrevistas com a subsequente distribuição vertical e sequencial dos discursos, o que permitiu o procedimento da codificação aberta ou substantiva; a segunda consistiu do agrupamento de códigos afins, dando origem à categorização provisória. A terceira consistiu na codificação nível II ou codificação teórica, da qual emergiram as categorias que, analisadas comparativamente, permitiram a identificação da categoria central e a descrição do processo social básico.

Em atendimento ao disposto na Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, que dispõe sobre normas e procedimentos éticos em pesquisas envolvendo seres humanos, o estudo foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do HUPE/ UERJ, sendo que todas as participantes foram devidamente esclarecidas sobre a pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

 

RESULTADOS

A análise dos dados levou à construção de duas categorias principais: Descobrindo-se grávida e Optando pela gravidez.

Descobrindo-se grávida

O descobrir-se grávida apareceu nos discursos em três diferentes dimensões que se constituíram em subcategorias, as quais foram identificadas como querendo e planejando a gravidez; querendo, mas não planejando engravidar neste momento; e nem querendo nem planejando, mas vivendo a gravidez. Essas três dimensões são marcadas pela surpresa. Na situação em que a gravidez foi desejada e planejada, essa surpresa foi percebida como algo de que as adolescentes gostaram:

É, não sei, eu fiquei surpreendida, mas aí fazer o quê? Depois eu gostei da ideia.

Quando a gravidez não foi planejada, mesmo que desejada, a surpresa foi marcadamente um susto para as adolescentes, mas não as impediu a decisão de levar a gravidez adiante:

Eu fiquei muito assustada no começo... Agora que eu estou me acostumando [...].

Agora estou curtindo muito. No começo eu não tinha me acostumado, fiquei muito assustada.

Ao mesmo tempo em que a adolescente se surpreendeu com a gravidez, ela percebeu a reação desfavorável de seus familiares e de seu grupo social mais próximo, que a condenaram pelo fato de estar grávida:

Ih, minha mãe deu princípio de enfarte e tudo... deu. Ela me olhou assim assustada.

É... no começo ficaram muito assustados, dizendo: Nossa! Mas você é muito nova.

Querendo engravidar e planejando a gravidez

Essa subcategoria aponta que as adolescentes engravidaram por escolha própria, optando por não usar métodos contraceptivos. Para algumas entrevistadas, o fato de já estarem morando com o namorado constituiu fator preponderante para que desejassem a gravidez. Assim, quando se decidiram pela gravidez, abandonaram o uso de contraceptivos, de comum acordo com o companheiro:

Eu resolvi ficar grávida porque eu já morava com o rapaz. Antes eu já usava pílula, entendeu? Antes de conhecer ele, eu usava, mas usava camisinha também. Aí, depois eu conheci ele, teve um dia que nós não usamos e resolvemos não usar mais.

Outras entrevistadas quiseram e escolheram engravidar, apesar de se acharem jovens. Consideraram que o momento era ideal, pois já haviam passado por diversas experiências na vida, faltando apenas a concretização de terem um filho:

Eu resolvi ter um filho agora. Era só o que faltava porque, para mim, eu já fiz tudo o que eu tinha que fazer... já vi tudo o que eu tinha que ver... Eu sei que eu sou nova, mas eu quero assim. Aí achei que estava na hora!

Essa escolha veio com a convicção efetiva, mesmo diante dos comentários ouvidos por parte de pessoas do convívio social próximo, incitando-as a não tomar a decisão pela manutenção da gravidez. Sendo uma escolha pensada, não admitiram sequer a possibilidade do aborto:

Foi uma escolha minha, né? Muita gente disse, não faz isso, mas eu pensei... e eu penso: 'Eu quero'! Escolha minha porque eu fiquei grávida. Vou tirar uma criança? Pensei nisso. Foi escolha minha mesmo.

Querendo engravidar, mas não planejando esta gravidez

As entrevistadas disseram que gostariam de vivenciar algo novo e diferente, o que lhes seria proporcionado pela gravidez. Ao começarem a namorar, solicitaram à mãe que as deixassem à vontade nessa procura pelo "novo". Por terem desejado, não se arrependiam.

Então quando eu comecei a namorar, engravidei. Eu falei: 'Ah mãe, me deixa à vontade'. Nunca que eu me arrependi. Eu queria fazer uma coisa nova.

Não querendo engravidar nem planejando esta gravidez

Na situação em que não queriam nem planejaram a gravidez, mesmo tendo sido surpreendidas, as adolescentes relataram que passaram a querer, apesar da negação inicial:

Bom, quando eu recebi o meu primeiro, deu negativo: maravilha! Não estava grávida e foi maravilhoso! Mas no segundo exame deu positivo... Horrível... Eu olhei assim... para o nome, para ver se era meu exame mesmo... eu falei: 'Grávida! Não acredito!' Chorei...

Eu não me conformei, mas hoje eu já estou até conformada. Estou até querendo, né? Peguei até o resultado, é menino!

Optando pela gravidez

A opção pela gravidez apareceu nos discursos, fundamentalmente, a partir de duas experiências aqui descritas como A descoberta do poder adquirido com a gravidez e Experiência de autonomia advinda com a gravidez.

Na categoria Optando pela gravidez observa-se que as adolescentes descobrem o poder adquirido com a gravidez e que percebem a aceitação do pai do bebê, corroborando, assim, a decisão delas. Ao optarem pela gravidez, as entrevistadas passaram a valorizar a família e a mãe.

Relataram o sentido da responsabilidade, ao procurarem aprender a cuidar do bebê que estava a caminho; reconheceram a repercussão do fato no seu cotidiano, advindo da gravidez e viam a si mesmas acompanhando melhor o crescimento do filho por serem jovens. Assim, essa experiência é relatada por elas como uma experiência de autonomia.

Descobrindo o poder adquirido com a gravidez

As adolescentes referem-se ao poder quando passam a ter a própria casa e, por considerarem-se donas de casa, têm o poder de decidir sobre as próprias coisas. Com a gravidez, as adolescentes tomam para si o poder sobre a própria vida. Sentem-se, finalmente, mulheres capazes de tomadas de decisão efetivas e não querem mais ser vistas como crianças na comunidade em que vivem, mas como mulheres e mães:

Aí, a mãe dele fica em cima, né?, no apartamento de cima, e a gente embaixo. Aí fica lá, eu dona de casa...

Ah, porque eu pensei dessa forma: a partir de agora eu vou ser mãe, entendeu, então eu tenho que mudar a forma de pensar, não pode pensar como uma garotinha como era antes, entendeu? Pensar agora como mulher, mãe de filho, entendeu?

Experimentando a autonomia advinda com a gravidez

Os relatos das adolescentes apontaram para o fato de que com a gravidez experimentaram a ideia de autonomia, marcada ou sentida quando elas apreenderam o sentido da responsabilidade, quando reconheceram a repercussão no cotidiano e mesmo assim decidiram pela gravidez, e também quando, por consequência, buscaram aprender a cuidar do bebê.

Aprendendo o sentido da responsabilidade

As adolescentes referem que com a gravidez estão aprendendo a encarar a realidade e que na vida delas, agora, vai existir o filho que está a caminho. Dessa forma, as atividades que antes eram praticadas apenas para si mesmas, como os afazeres domésticos, estarão sendo realizadas em prol dos seus filhos e, assim, a responsabilidade agora será dobrada:

Ah, está sendo legal, né? Assim, eu estou aprendendo muito, assim... A realidade da vida, que não é uma brincadeira, que é dois... que tudo... assim, o que eu tenho que fazer pra mim eu tenho que fazer pra ele [...] tudo assim, uma responsabilidade em dobro...

Ah, agora para mim é tudo na minha vida, né? Tudo o que eu fizer agora, eu tenho que pensar nela (filha)... Não posso mais pensar só em mim, tenho que pensar nela.

Com a gravidez, a mudança na vida das adolescentes acontece quando se veem prestes a ser mães e que, portanto, devem deixar de ser crianças e passar a pensar com mais responsabilidade. Agora, existe uma criança em jogo, por isso entendem que devem começar a se comportar como mulheres e como mães:

Ah, eu acho que sim, porque a partir de agora eu vou ter que ter mais responsabilidade, entendeu? Tem uma criança em jogo, e... pra mim mudou. Antes eu já não tinha, era mais brincalhona e agora eu já tenho que me comportar como mãe, entendeu? Eu acho que mudou nesse sentido.

Ah, porque eu pensei dessa forma, a partir de agora eu vou ser mãe, entendeu, então eu tenho que mudar a forma de pensar, não pode pensar como uma garotinha como era antes, entendeu? Pensar agora como mulher, mãe de filho, entendeu?

A responsabilidade perpassa pela recusa em realizarem um aborto, assumindo a gravidez. Ao engravidarem, alcançam um grau de amadurecimento que não tinham antes, o que as fazem entender as pessoas mais velhas. Reforçam para si a ideia de que o filho é delas, reconhecendo o aumento das responsabilidades na vida delas:

Se aconteceu é porque Deus quer. Eu não posso tirar uma coisa que Deus quer. Então eu vou ter esse neném, nem que eu tenha que passar por cima de todo mundo ou que minha mãe não aceite. Mas eu vou ter porque é meu, né? Eu já estou gostando desde já, imagine depois!

Estou conquistando um pouquinho de juízo, que eu não tinha. Eu estou ficando uma pessoa mais responsável, que eu era muito assim desligada, sabe? Mas também... é, bastante coisa, sabe? Eu estou começando a entender a cabeça das pessoas mais velhas...

Reconhecendo a repercussão no cotidiano

Quanto à escola, as adolescentes dizem que pararam de estudar pelo incômodo que sentiam quando as pessoas as olhavam muito por estarem grávidas, apesar do apelo de suas mães para que não parassem. Apesar da interrupção dos estudos, elas relatam que é momentânea e que retornarão, pois vão se virar para que haja essa continuidade, fazendo planos para essa volta de acordo com a data do nascimento do filho:

Eu só parei de estudar, porque o pessoal fica olhando assim... e incomoda... Sei lá, eu sou muito tímida, aí as pessoas ficavam assim me olhando... Eu falei assim: 'Ah não, mãe, eu vou parar de estudar'. Não sei o que... eu falei assim, mãe, ano que vem eu continuo a estudar.

Estudo. Estudo sim, mais ou menos, assim, resolvi sair porque eu tava me sentindo muito mal nessa escola, não tava aguentando estudar ali, minha mãe ficou insistindo pra mim não parar, pra mim não parar, mas eu parei.

Aí depois eu vou me virar, né? Vou me virar sozinha e eu vou continuar estudando...

Eu vou ter em dezembro, as aulas só começam por volta de fevereiro, março, aí já dá pra mim ir pra escola.

Ao comentarem sobre as críticas que ouviram, disseram que era muito chato ficar escutando sempre a mesma opinião: a de que são muito novas, muito jovens, de serem crianças tendo outras crianças:

É a mesma coisa, todo mundo fala a mesma coisa: 'Ah tá novinha', que não sei o quê' 'É muito jovem, criança, vai ter outra criança'.,,

Ah, é chato, né?, ficar ouvindo a mesma coisa toda hora da maioria das pessoas.

Aí uns falaram, algumas pessoas criticou, né?, porque sempre tem aqueles pessoas que criticam, falam mal...

As principais mudanças relatadas pelas adolescentes referem-se à vida social que tinham antes de engravidar, como sair de casa para se divertirem, ir a baile, viajar. Veem-se agora sem ânimo, com preguiça, pelo fato de estarem perto de ganhar o bebê. Admitem que a vida está diferente com a gravidez e, embora tenham desejado, agora percebem que não poderão sair por terem de ficar com o bebê por algum tempo, que terão de crescer, adiando o sonho de terminar os estudos:

Eu saía bastante, agora eu não saio mais, me divertia muito com as minhas amigas, viajava bastante também, porque o meu irmão mora na região dos lagos, e eu saía bastante. Hoje em dia, não. Ah, porque eu não tenho mais pique pra sair, não consigo, a preguiça não deixa, e também porque com o sétimo não dá mais pra mim sair agora. Não tenho mais a mesma vida que eu tinha antes porque já está perto de eu ganhar, entendeu? Aí eu vou ficar saindo? Eu ia muito pra baile, como é que eu vou pra baile?

Eu quis, mas agora tá diferente, né? Eu fico pensando que eu não vou poder mais sair, que minha mãe não vai poder ficar! Quem vai ficar? Quem vai ficar? Vai ter que ser eu mesma. Estudar, nem pensar, então eu vou crescer. Porque eu tava querendo estudar, sabe? Fiquei arrependida porque eu já tava na oitava série... Meu sonho era terminar pelo menos o primeiro grau, mas aí resolvi parar e agora eu tô arrependida, eu queria estudar, né? E não posso...

Aprendendo a cuidar do bebê

As entrevistadas apresentaram a forma como procuravam se apropriar de um saber, que é o cuidar de um filho que ainda não fazia parte do cotidiano delas. Para que isso acontecesse, buscavam esse conhecimento com pessoas de idade próxima às delas, trazendo a reflexão de que em pouco tempo estariam com uma criança no colo.

Recordaram o que as mães lhes diziam que cuidar de um bebê requer muita responsabilidade:

Bom, tem um colega meu lá, que ele também foi pai, aí de vez em quando eu vou lá na casa dele, fico olhando, pego... assim... mas... é muito mole, muito, sei lá... é muito estranho.

Eu... eu não sei nem pegar numa criança... e eu vou ser mãe!

A minha mãe fala: "C., você vai ter muita responsabilidade, você que vai ter que cuidar".

Integrando categorias

Após a descrição e a integração das categorias identificadas e suas dimensões, foi possível a descoberta da categoria central, aqui designada como a busca pela autonomia e poder.

Assim, as adolescentes podem querer engravidar ou engravidam fortuitamente. Essa gravidez pode resultar da vontade delas, estando ou não associada ao que planejaram. Nessas circunstâncias, descobrir-se grávida causa impactos que se desdobram no cotidiano, ressaltando a surpresa das próprias adolescentes e das pessoas com quem elas convivem. Isso implica uma decisão que deve ser tomada imediatamente. E a decisão é pela gravidez.

Optar pela gravidez, portanto, envolve influências e consequências para as adolescentes. A primeira consequência referida foi a descoberta do poder que obtêm com a gravidez. Poder sobre a vida, sobre as coisas delas e sobre o filho.

A opção pela gravidez fez com que as adolescentes apreendessem o sentido da responsabilidade, reconhecessem a repercussão no cotidiano e procurassem aprender a cuidar do bebê, o que denota busca pela autonomia.

Esta síntese integrativa está representada na FIG. 1:

 

DISCUSSÃO

Como preâmbulo, reforçamos a ideia de que a gravidez, quando na adolescência, é entendida como um evento que acontece em um período de transição e de transformações físicas e biológicas inerentes à idade. Por período de transição entende-se, aqui, o deixar de ser criança sem ainda ser visto como um adulto. A adolescente está no meio desse caminho e à procura da identidade dela.4

A gravidez na adolescência é referida como um fenômeno que não surge isoladamente, mas está, sim, relacionada a componentes sociais, familiares e pessoais pela vivência de relações com os pais e companheiros.3 Existe, nesse processo, a transição desenvolvimental e a situacional. Na transição desenvolvimental, a adolescente grávida ainda não compreende nitidamente as modificações e alterações acarretadas com a gravidez, mas adquire, de forma não previsível ou determinada, mudanças em seu modo de ser e estar-no-mundo, em seus relacionamentos com-os-outros e nos novos papéis. Ainda segundo a autora, há uma simultaneidade entre as transições desenvolvimental e a situacional, pois ao mesmo tempo em que a gravidez, nessa fase adolescente, impõe sentimentos e comportamentos ambivalentes, como o associado ao abandono dos estudos, há por parte da adolescente a sensibilização e o prazer por estar gerando outro ser.

Assim, podemos perceber que os dois papéis, antes distintos, se fundem num só: a dependência infantil é substituída pela autonomia, o que, sem a gravidez, só seria possível na fase adulta. Ao mesmo tempo, pela responsabilidade advinda com a gravidez, essa mulher deixa de se sentir uma adolescente, embora continue sendo adolescente. Do ponto de vista da Interação Simbólica, é nesse momento que a adolescente redefine para si os objetos sociais presentes na situação e o próprio papel nessa situação.9-10 Com isso, permite-se adotar uma nova estratégia e ação social: a busca pela autonomia e pelo poder.

No campo da bioética, a defesa e o respeito à autonomia constituem ponto-chave. O princípio da autonomia nas relações humanas é passível de ocorrer, se houver liberdade de opção diante de um conflito.11 Desse modo, quando optam pela gravidez, as adolescentes estão autodeterminando-se na questão bioética da autonomia. Essa autodeterminação11 pode ser analisada, também, relacionada à questão reprodutiva. A livre escolha pela maternidade configura-se entre os direitos humanos concernentes aos interesses da saúde reprodutiva e sexual.12

Por outro lado, tomando por princípio que a bioética tem a autonomia como um de seus princípios fundamentais, a decisão pela gravidez e pela maternidade, embora represente autonomia de comportamento para as adolescentes, ainda as mantém dependentes em relação à família.13-14 Há que se considerar, ainda, a possibilidade de que, além do choque pela notícia, impotência quanto à prevenção da gravidez, conformismo, alegria e melhora no relacionamento familiar pela chegada do bebê, haja frustração, dada a interrupção/mudança no projeto de vida familiar em relação à adolescente sem um relacionamento estável com o pai da criança. Assim, ao experimentarem a autonomia pela própria opção que tiveram, iniciam um processo de tomada de decisões como alternativa à repercussão que reconhecem no cotidiano delas. Aprendem, também, o sentido da responsabilidade, já que agora querem ser reconhecidas como mães e mulheres, e não como crianças.

Passando à percepção de que algumas situações lhes conferem poder, fica evidente que, na fase da adolescência, a gravidez reforça a definição da identidade feminina e da divisão de papéis sexuais.15 A identidade feminina reforça, assim, o "ser" mulher na comunidade, e adolescente passa a ser vista como esposa ou mãe. E é nessas condições - esposa e mãe - que se percebe detentora de poderes.

Da mesma forma, ao experienciar a autonomia, as adolescentes se dão conta do poder adquirido com a gravidez. A gravidez faz com que se sintam poderosas.6

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com as discussões e interpretações do estudo teve-se como objetivo analisar a decisão das adolescentes pela gravidez com base no significado que elas atribuíram ao fenômeno da vida delas à luz dos direitos reprodutivos e da bioética.

Levando em conta a percepção das adolescentes quando da não valorização do que pensam a respeito delas as pessoas que fazem ou não parte da família e do grupo de amigos, quando engravidam, observou-se, no estudo, que elas querem ser reconhecidas, com a gravidez, como seres humanos responsáveis por seus atos e decisões. O impacto causado pela gravidez, que pode ser considerado pela sociedade como negativo quando ocorre na adolescência, deve ser revisto em sua essência pelos profissionais da saúde em relação ao atendimento e entendimento dessas nuanças por que passam. Os profissionais devem reconsiderar o pré-julgamento de que a gravidez na adolescência é, sempre, um problema para quem a vivencia.

O aumento da taxa de adolescentes grávidas identificado nas pesquisas nacionais pode denotar a procura dessas pela autonomia e poder. Cabe, dessa forma, um aprofundamento desse aumento em pesquisas mais abrangentes, com a abordagem dos direitos reprodutivos e da bioética como referenciais.

O processo decisório da adolescente pela gravidez tem o significado de uma busca por autonomia e poder, no qual elas procuram o fortalecimento delas e o reconhecimento social da decisão que tomaram. Mas, para que isso aconteça, há que se ter profissionais treinados e cientes do que representam os direitos reprodutivos e a bioética nas relações, quando em atendimento a esse segmento, e que sejam sensíveis no cuidado que lhes será dispensado.

A gravidez na adolescência, com o olhar voltado para os direitos reprodutivos e para a bioética, mostrou que as adolescentes não se tornaram adultas pelo fato de serem mães ou de terem optado pela gravidez, mas que, mesmo continuando adolescentes, adquiriram poder e autonomia, condições só pensadas anteriormente para as pessoas adultas. Elas são adolescentes, continuam adolescentes, mas conquistaram autonomia e poder.

 

REFERÊNCIAS

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