REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 13.2 DOI: http://www.dx.doi.org/S1415-27622009000200014

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Pesquisa

O significado de meio ambiente na visão dos atores sociais do município de Muzambinho-MG

The conception of environment according to the social actors of Muzambinho - Minas Gerais

Fabíola Carvalho de Almeida Lima BaroniI; Francisco Carlos Félix LanaII

IEnfermeira. Doutoranda em Enfermagem. Professora assistente do Departamento de Enfermagem Básica da Escola de Enfermagem da UFMG
IIEnfermeiro - Doutor em Enfermagem - Professor associado do Departamento de Enfermagem Materno Infantil da Escola de Enfermagem da UFMG

Endereço para correspondência

Fabíola Carvalho de Almeida Lima Baroni
Rua do Ouro, 938, apto 201 - Bairro Serra
Belo Horizonte - Minas Gerais. CEP:30220-000
E-mail: fabiolabaroni@gmail.com

Data de submissão: 9/7/2009
Data de aprovação: 28/10/2009

Resumo

A acepção de meio ambiente pode ser responsável pela forma como se lida com a problemática ambiental. Em geral, nas pequenas comunidades, os problemas ambientais não se materializam como grandes impactantes, fazendo com que não recebam adequada atenção, o que torna importante o entendimento de seu sentido. Trata-se de um estudo de caso com abordagem qualitativa, realizado em Muzambinho-MG, cujo objetivo foi compreender o significado de meio ambiente para os atores sociais pesquisados. Como o município foi considerado um espaço de diferenças, participaram do estudo todos os secretários municipais e todas as associações de bairros rurais e urbanas, bem como instituições das áreas ambiental e de saúde. A coleta de dados se deu por meio de grupos focais e análise documental. Foram realizados seis grupos focais. Participaram do estudo 43 representantes das 54 instituições convocadas. Os documentos relativos ao tema, extraídos dos discursos dos pesquisados, foram o objeto da análise documental. Todos os dados obtidos submeteram-se à análise do discurso. Os resultados mostraram que a maioria dos pesquisados ainda vê o meio ambiente de forma fragmentada, enfatizando a problemática dos recursos naturais em detrimento da social. Ficou claro, também, que esses recursos servem para auxiliar a humanidade e que a relação homem-natureza é de interação, mas há o domínio humano. Os discursos revelam uma reprodução não somente dos pensamentos e discursos da sociedade global, mas também do comportamento social desta. Consideramos urgente uma (re)significação do meio ambiente, pois somente quando compreendermos de fato a sua complexidade teremos mudanças mais significativas nesse campo.

Palavras-chave: Meio Ambiente; Natureza; População; Saúde

 

INTRODUÇÃO

No final do século XX, o mundo passou por várias transformações, e a pressão exercida pela população sobre o ambiente fez com a população mundial tratasse das questões ambientais. A forma e o ritmo com que a humanidade utilizava os recursos naturais fizeram com que o assunto fosse debatido mundialmente, pois já se sentia e previa os impactos negativos dessas ações.

As previsões para o início do século XXI eram catastróficas e, apesar de haver uma preocupação com a população menos favorecida, a ênfase estava no controle da poluição industrial, na diminuição dos desmatamentos e até na diminuição da produção industrial e agrícola, dado o alto nível de poluição, aumento da temperatura da Terra, degradação do ecossistema com extinção de muitas espécies vegetais e animais, além de muita fome e miséria.1 Desde então, conferências, encontros e fóruns têm sido constantemente criados com a finalidade de discutir e propor soluções para os problemas ambientais mundiais.2

Este século, entretanto, se desdobra, e nosso desafio com relação ao meio ambiente parece cada vez maior. Ao se fazer uma retrospectiva da problemática ambiental a partir do final do século XX, mais precisamente da década de 1970, quando, de fato, se iniciaram ações mais concretas nesse campo, observaremos que houve muitos avanços, sobretudo na aplicação de novas tecnologias para a preservação do meio ambiente. Não se pode negar também que, de lá para cá, não somente os defensores da causa se manifestaram a esse respeito, mas, da mesma forma, as "pessoas comuns" passaram a discutir e a se apoderar dos problemas ambientais existentes.

Embora, no momento, a expressão "meio ambiente" seja amplamente conhecida e compreenda, a interação entre todos os componentes da natureza e entre tudo o que se refere ao ser humano, a complexidade dessa interação costuma fazer dessa expressão algo não muito claro.

Muitas pesquisas e investigações ainda devem ser feitas para melhor entender a relação entre população e natureza, ou seja, faz-se mecessária a compreensão do meio ambiente. No que se refere ao campo da saúde, é importante que se perceba que ele está intimamente ligado ao meio ambiente e que o entendimento de muitos eventos só poderá se dar numa perspectiva sistêmica.

Assim, considerar as alterações no ambiente físico, as relações socioeconômicas, a população e suas condições de vida, bem como as modificações introduzidas pelo processo de desenvolvimento e tantos outros aspectos, é fundamental para uma efetiva intervenção no campo da saúde da população.

Saber como as pessoas das pequenas cidades/comunidades percebem e lidam com os seus problemas ambientais sempre nos trouxe interesse, sobretudo porque, de modo geral, os problemas ambientais de uma significativa parte dos pequenos municípios não se materializam como grandes impactantes ambientais e, consequentemente, da saúde. Acreditamos que, tanto no Brasil quanto no Estado de Minas Gerais, a referida situação possa ser verificada na maioria de seus municípios, pois, em regra, estes costumam ser de pequeno porte, pouco industrializados e quase sempre a base econômica deles é algo propício ao ambiente natural local.

É justamente por tal motivo que nos preocupamos com as situações cotidianas que poderão interferir no meio ambiente, cujos efeitos, muitas vezes, poderão aparecer apenas alguns anos depois. Além disso, acreditamos também que, do ponto de vista ambiental, fazemos parte de um sistema no qual tudo afeta o todo. Assim, é fundamental que compreendamos que as ações individuais e locais podem, em conjunto, impactar tanto positiva quanto negativamente as ações mais globais, o que, por sua vez, terá efeito semelhante se a pensarmos inversamente.

Se o meio ambiente é, hoje, um tema e um problema dos quatro cantos da Terra e, praticamente, não há quem não se interesse por ele, quais são as razões que nos motivam ou desmotivam para a efetivação de uma mudança tão discutida e desejada nesse campo? Após algumas discussões e estudos, inferimos que faltam elementos concretos para as ações e tomadas de decisões da população. Esses elementos concretos seriam de diversas ordens, mas ousamos dizer aqui que o primeiro deles, e talvez o mais importante, seria o da compreensão do significado de meio ambiente, ou seja, a ideia a acepção do que é o meio ambiente para a população, pois somente a partir daí todos os movimentos e ações seriam construidos.

Assim, o objetivo com esta pesquisa foi compreender o significado de meio ambiente para os atores sociais do município de Muzambinho-MG, que se localiza no sudoeste do Estado de Minas Gerais. A escolha do município se deu em razão da observação feita por nós no estudo sobre o Gerenciamento Integrado dos Resíduos dos Serviços de Saúde da Microrregião da Baixa Mogiana,2 do qual Muzambinho faz parte, que indicava a existência de problemas ambientais locais, com algumas consequências já evidenciadas na área de saúde.

 

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo de caso com abordagem qualitativa. Adotou-se esse método porque por meio dele podem ser exploradas as circunstâncias da vida real cujos limites não estão claramente definidos e, também, descrever a situação do contexto em que está sendo feita determinada investigação.3 A coleta de dados se deu por meio das técnicas de grupos focais e análise documental. Os grupos focais permitem uma aproximação com o pensar coletivo de determinado tema, que faz parte da vida das pessoas ali reunidas, o que possibilita conhecer o processo dinâmico de interação entre os participantes.4 A análise documental numa pesquisa qualitativa constitui uma técnica valiosa, pois pode complementar as informações obtidas por meio de outras técnicas.5

Na coleta de dados, procurou-se considerar Muzambinho como um espaço de diferenças. Por tal motivo, foram incluídos participantes que viviam nas áreas central, periférica e rural do município. Assim, foram convidadas a participar do estudo as 20 associações rurais e as 8 associações urbanas que tinham cadastro atualizado na prefeitura, todos os 12 secretários municipais, uma vez que, como gestores, supõe-se tenham maior conhecimento dos fatos e fenômenos locais, e, por último, 8 instituições ligadas à área ambiental e 6 órgãos de saúde, tendo em vista que esses contemplam diretamente o objeto da pesquisa.

Dos 54 órgãos/entidades e instituições convidadas, 38 mandaram representantes. Considerando que algumas dessas instituições/entidades enviaram mais de um representante e que duas instituições/entidades foram representadas por uma única pessoa, houve 43 participantes. Esses participantes foram enumerados em seus respectivos grupos, que por sua vez seguiram a ordem afabética, conforme se pode verificar no QUADRO 1, a seguir:

Foram realizados, ao todo, seis grupos focais, denominados de A a F, com um encontro para cada um deles. Durante os primeiros momentos dos encontros, o objetivo foi orientar os participantes quanto aos procedimentos relacionados à pesquisa e ao grupo focal,e posteriormente passamos à compreensão da problemática ambiental e de saúde. Para subsidiar esse momento da reunião, elaboramos um roteiro sem respostas prefixadas, que possibilitou aos entrevistados discorrer sobre condições ambientais envolvidas no processo saúde-doença da população local, objeto de nossa tese de doutorado.

Considerando que este artigo é um dos frutos de nossa pesquisa e que o entendimento da relação saúde e meio ambiente só seria possível se entendêssemos o que é o meio ambiente para os atores em questão, julgamos de extrema relevância compreender qual era, para eles, o significado de meio ambiente. A autora participou de todos os encontros, que duraram em torno de duas horas, como moderadora e foi apoiada por três voluntários, todos residentes no município estudado, que foram previamente treinados para a participação nessa etapa da pesquisa. Coube aos referidos voluntários fazer as anotações necessárias para o entendimento das falas, quando no período da transcrição dos dados, bem como ajudar na distribuição dos materiais necessários durante a coleta de dados.

As entrevistas foram gravadas, ouvidas e transcritas pela própria autora, com a finalidade de não se perderem os dados e também para melhor compreensão dos resultados. Após as transcrições das falas, extraímos dos discursos todos os documentos municipais, citados pelos participantes, que contivessem informações sobre saúde e meio ambiente e que pudessem trazer o significado de meio ambiente, constituindo-se em material para nossa análise documental. De posse dessa relação de documentos, fomos pessoalmente ao município a fim de obtê-los nas entidades e instituições pertinentes.

Para a interpretação dos resultados, tanto dos grupos focais quanto dos documentos, utilizamos a análise de discurso, pois entendemos que todo falante e todo ouvinte ocupam um lugar na sociedade, e isso faz parte da significação. O lugar que o sujeito ocupa, ou o lugar de onde este sujeito fala, é um espaço de representações sociais e este é constitutivo de significações6. Os dados obtidos foram analisados e discutidos à luz da literatura concernente. A fase de coleta de dados foi realizada somente após a aquiescência dos participantes e também após terem assinado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Todas as etapas previstas no projeto foram realizadas respeitando-se a Resolução do Conselho Nacional de Saúde de nº 196/96 e só aconteceram após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da UFMG, conforme parecer favorável do Processo nº 0255.0.203.000-07.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Todos os grupos entrevistados mostraram uma visão uniforme sobre meio ambiente. Para eles, o meio ambiente é tudo aquilo de que o homem precisa para viver. Em outras palavras, tudo aquilo que o homem necessista para sua existência faz parte do meio ambiente.

São todas as condições ambientais ligadas ao ser humano. (A3)

Inclui tudo que a gente precisa no lugar que a gente mora... (B2)

Retomando um pouco da história, podemos entender como essa visão foi se consolidando ao longo do tempo. Os filósofos naturalistas ou da Physis preocupavam-se com o cosmo ontológico e com o princípio de todas as coisas. Além disso, provinha da Physis tudo o que era, o que é e o que será - Sol, Terra, astros, árvores, homens, animais e os próprios deuses, não havendo contraposição entre natural, psíquico e social.7 De acordo ainda com esses mesmos filósofos,

os elementos que compunham a physis formariam harmonicamente todas as coisas, por meio de forças vivas de reunião e dispersão. A harmonia e o equilíbrio constituintes da natureza seriam resultados da coexistência dessas forças paradoxais que tenderiam, uma, à agregação, e outra, à desagregação, uma, à separação, e outra, à indiferenciação.7

Nessa visão, o homem é até reconhecido como distinto do restante do mundo, mas esse homem jamais conseguiria manter uma relação dissociada do mundo, pois este é uma totalidade. De tal modo, a compreensão da natureza deveria ser apreendida, ou seja, o homem poderia observá-la e contemplá-la, mas não dominá-la.8

Durante a Idade Média, os postulados cristãos de Santo Agostinho e de São Tomás de Aquino foram fundamentais para a lógica do que era a natureza, que representava a perfeição divina do universo criado por Deus para servir ao homem. De tal modo, cabia ao homem apenas obedecer aos desígnios divinos, que muitas vezes se manisfestavam pelo meio natural, no qual a natureza se confundia com a própria mente divina. Assim, trovões, pestes e inundações eram considerados desígnios de Deus e a Terra era vista como um organismo vivo ontologicamente feminino, uma força viva que nutria o homem e seus desejos.9

Após a Idade Média, vários avanços científicos e tecnológicos tiveram sustento na criatividade, no individualismo, no saber e no domínio humano. Assim, essa perspectiva de domínio inspirou e movimentou não somente as navegações, os descobrimentos científicos e as artes, mas também patrocinou um desenvolvimento, sobretudo industrial, profundamente antiecológico, caracterizando a cisão entre o homem e a natureza. Desde então, o ser humano passou a ser visto como conquistador e proprietário da natureza, e não mais seu partícipe e observador harmonioso.10

Portanto, hoje, as ideias que perpassam pela humanidade com relação ao meio ambiente estão sempre carregadas das representações mentais advindas de outros tempos, como o da Physis, em que o mundo é uma totalidade e, assim sendo, o homem não se dissocia deste. É apenas uma parte, um dos elementos da natureza, cujas forças agregadoras e desagregadoras resultam em harmonia.7

Então as condições ambientais eu acho que é a condição de equilíbrio. De equilíbrio, mas é de um equilíbrio amplo. É o equilíbrio que rege o universo. E essa relação de tudo que existe no universo, repete aqui em Muzambinho; aqui acontecem as coisas que acontecem no universo. Então as relações nossas com a natureza devem estar equilibradas. E as relações dentro daquilo que nós chamamos natureza também devem estar equilibradas. Então acaba sendo uma interação, acaba sendo uma interação das pessoas, dos seres, da parte mineral, dos vegetais. Tudo isso tem uma interação. (D1)

Com relação à Idade Média, em que a natureza representa a perfeição a ser contemplada, pois era o divino se manifestando, a Terra era uma força viva, às vezes vingativa, que sustenta o homem.

Mais cedo ou mais tarde, a sociedade vai pagar pelo óbvio. A natureza tem força. O ser humano não tem força pra tá lutando com ela. (A1)

Essas representações estão presentes em maior ou menor grau em grande parte dos grupos sociais humanos, embora, na maioria das vezes, estes não compreendam que seus pensamentos fazem parte de um constructo social. Neste estudo, pudemos notar que essa era uma realidade também da população estudada, excetuando-se apenas os participantes do grupo diretamente ligado ao meio ambiente que entendiam essa construção social e sempre se localizavam social e temporalmente.

Essas condições ambientais foram demasiado alteradas a partir da Revolução Industrial, né? [...] Nós temos ali, a proliferação da própria espécie humana entendida como 'o Câncer de Gaia', que segundo André Soares considera os seres humanos o pior agente de devastação da atualidade. Nós temos, inclusive, as indústrias, que colocam uma quantidade significativa de enxofre na atmosfera, o que provoca chuva ácida; nós temos aí o problema dos dejetos urbanos que são lançados à toneladas nos rios. Quer dizer, as condições ambientais, elas são realmente, extremamente alteradas pela própria ação humana. E hoje nós estamos vivendo aí, as consequências dessa alteração das condições ambientais. (E1)

No entanto, ressalte-se que a relação de dominação e exploração da natureza pelo homem surgida no período renascentista continua a ser o pensamento prevalente da sociedade em que vivemos, o que não foi diferente nos resultados encontrados em nossa pesquisa. Na atual sociedade, é como se tudo existisse apenas para servir ao homem, para satisfazer-lhe os desejos e necessidades, que são cada vez maiores. Essa visão de mundo que vem de anos atrás tem sido muito discutida e questionada nos mais variados movimentos sociais atuais, porém, as ações existententes ainda são pouco efetivas nesse campo. Surge aí o sofrimento do homem, pois este ser não se sente parte da natureza e, portanto, não tem consciência da sua participação nela.11 E do antagonismo em que ora é submisso a ela, ora é seu explorador e dominador surge o conceito de meio ambiente que não é sinônimo de natureza, mas abrange os campos sociais, culturais, econômicos e morais, dentre outros, decorrentes das atividades humanas na relação com essa natureza.

Neste estudo, fez-se presente esta arraigada visão de meio ambiente apenas como homem-natureza, que exalta o cuidado com a fauna, a flora e outros elementos naturais e desconsidera campos de ação humana que fazem parte e interferem nessa relação, ou seja, as práticas sociais humanas. Essa visão mais ecológica, que não necessariamente exclui o homem, mas enfatiza o ecossistema é geral de todos os grupos pesquisados e pode ser observada nos trechos dos discursos que se seguem:

A condição do meio ambiente quando veio as populações. Quer dizer no caso, a água... (A3)

As condições do ambiente, ser humano, animal, aí entra também como se fosse a ecologia. (C2)

Porque quando fala do nosso relacionamento com o meio ambiente a gente tem que pensar em nós, tem que pensar nos bichos, tem que pensar na flora, na fauna. (A6)

Até bem pouco tempo, os movimentos em prol do meio ambiente eram genericamente conhecidos pela população apenas como movimentos ecologicistas, de proteção de recursos naturais ou de militantes da causa. Mesmo porque somente nos últimos 40-50 anos os movimentos ambientalistas tornaram-se efetivos diante da crise ambiental que começava a assolar, principalmente, os países "desenvolvidos" ao explorarem grande quantidade de recursos e energia do planeta. Embora, hoje, essa ideia tenha se tornado bastante fragmentada e insuficiente, pois a degradação ambiental está diretamente ligada à degradação das condições de vida do homem contemporâneo, essa ideia ainda continua perene em boa parte da população, fazendo com que as pessoas, muitas vezes, se sintam como defensoras do "verde".

Além dos discursos obtidos por meio dos grupos focais, procuramos fazer na análise documental uma varredura do significado de meio ambiente. Embora vários dos documentos analisados apresentem uma diversificação de ações e competências da sociedade relativas à problemática ambiental, o único documento que, de fato, conceitua meio ambiente é o Código de Postura, elaborado em 1994, que nos mostra, mais uma vez, que a noção de meio ambiente é a de natureza:

Inclui-se no conceito de meio ambiente a água superficial ou de subsolo, o solo de propriedade privada ou de uso comum, a atmosfera e a vegetação. (Seção II da Proteção Ambiental, art. 8º, inciso IV § I)

Ressalte-se, entretanto, que o Plano Diretor Municipal Participativo de Muzambinho, elaborado em 2008, que contou com a participação não somente das autoridades locais, mas, também, da sociedade, em seu Capítulo II, que trata sobre meio ambiente, traz em sua Seção I - Das Diretrizes - o que compreende a gestão ambiental. O art. 206 da referida Seção não traz um conceito em si, mas aborda que a gestão ambiental engloba o sistema hidrográfico, o relevo e o solo, o ar, a vegetação e a fauna dos espaços públicos e privados.

Tendo em vista também que o Plano Diretor recentemente elaborado foi um documento produzido por pessoas da sociedade, fica claro que essa é uma posição delas. E tais discursos presentes nos documentos só vêm reforçar os resultados obtidos dos discursos dos grupos focais, em que há uma exaltação da natureza, com pouca preocupação com o aspecto social humano.

Assim, pode-se concluir que, pelo menos em termos conceituais, nenhuma evolução houve de 1994 a 2008 nos documentos elaborados no município. E como grande parte desses documentos são recentes, infere-se que esse conceito, esse significado ou, ainda, essa visão do meio ambiente é a visão de uma boa parte da sociedade local. Inferência que pode ser reafirmada com os dados obtidos por meio dos grupos focais deste estudo.

Antes das duas últimas décadas, não se discutiam ou se viam no mundo problemas relacionados ao desenvolvimento, pois toda política e governo mundial o almejava. Por sua vez, esse desenvolvimento foi e é entendido por muitos de forma reducionista, contemplando apenas o crescimento econômico e desconsiderando suas outras facetas, como a elevação dos níveis de saúde, a educação e a diminuição das desigualdades, não restrita apenas à renda.12

Assim, as transformações mundiais das últimas décadas, vinculadas à degradação ambiental e à crescente desigualdade entre regiões, assumiram um lugar de destaque, pois de um lado estavam os impactos da crise econômica da década de 1980 e de outro, o alarme dado pelos fenômenos ambientais globais, levando a sociedade a repensar os paradigmas existentes.13

É nesse contexto que surge o desenvolvimento sustentável para dar uma resposta à necessidade de harmonizar os processos ambientais com os socioeconômicos, maximizando a produção dos ecossistemas para favorecer as necessidades humanas presentes e futuras.13 Entretanto, hoje, o desenvolvimento sustentável tem sido muito criticado por diversas áreas da sociedade que o consideram utópico. Mas é preciso salientar que essas mesmas áreas da sociedade foram, em parte, responsáveis pela banalização e pela elasticidade com que esse conceito foi empregado, descaracterizando-o. Além do mais, a utopia, tida com quimera ou fantasia e, portanto, algo ideal, pode, em outro momento, transformar-se em real.

O verdadeiro desenvolvimento sustentável se ampara em cinco pilares: social, que é intrínseco e ao mesmo tempo instrumental para uma disrupção social, hoje ameaçadora, ambiental, que ao mesmo tempo provém a vida e recursos e é ao mesmo tempo recipiente desta, territorial, pois os recursos, a população e as atividades não estão homogeneamente distribuídos, e econômico, condição sine qua non para que as coisas aconteçam e político para fazer as coisas acontecerem.14

Neste estudo, há os que conseguem extrapolar a visão de meio ambiente para além dos muros da "mãe natureza", ressaltando condições construídas pelo homem ou, ainda, que vivem no ideal humano, condições estas presentes no conceito de sustentabilidade. Os entrevistados que esboçam esse pensamento são sempre aqueles que lidam com as causas ambientais ou, ainda, aqueles que, no momento do estudo, faziam parte da administração pública, ocupando cargos e funções estratégicas que, subentendemos, lhes permitiam uma visão mais geral e apurada dos fatos. Em todas as circunstâncias e em todos os grupos, porém, percebemos que o homem continua a ser visto como o centro do universo:

Lógico que tem essa visão clássica que se adotou pra falar de meio ambiente que é essa visão da natureza, né?! Meio ambiente, a flora, a fauna. Mas as condições ambientais são as condições onde a pessoa vive. Condições ambientais são todos os fatores, de todas as áreas que influenciam na qualidade de vida da pessoa. [...] saúde. [...] trânsito [...] Acessibilidade [...] Água [...] Saneamento básico [...]Trabalho [...] Educação, lazer [...] Direitos políticos [...] Liberdade de expressão [...] Cidadania... Condições ambientais são todos os fatores que circundam a pessoa ali onde ela vive, em todos os sentidos. Seria até redundante, até difícil enumerar todos os fatores que influenciam na vida da pessoa, né?! (D5)

Muito discutimos sobre a necessidade de mudança de postura das pessoas, da exigência de criar alternativas para os problemas ambientais, que não são somente os do ambiente físico e natural (que por sua vez não é estático), mas, sim, de um sistema dinâmico que abrange a totalidade da relação homem-natureza. Entretanto, pouco falamos dos estigmas que já nascem com o próprio conceito de meio ambiente, cujo sentido é amplo. Se o meio ambiente inclui a defesa do ambiente natural e do social, sobretudo diante das questões econômicas, isso implica profundas mudanças nos padrões humanos ora vigentes. De tal modo, verificamos um discurso que levanta questões bastante pertinentes no que se refere aos conflitos e desejos da atual sociedade no que tange ao meio ambiente.

Até quando? E até quando que a sociedade também, que não prioriza o financeiro, o econômico em detrimento do meio ambiente. Então, existem coisas ideais, idealizadas, mas será que a sociedade quer mesmo isso?A sustentabilidade tá ligada a uma mudança de conceitos e de atitudes e muitas vezes precisa da gente abrir mão do nosso próprio conforto. Então a mudança é muito mais profunda do que se imagina. [...] E na hora de abrir mão do conforto? E na hora de tomar o banho quente mais curto? Ou o banho frio? Então eu acho que é hora também de fazer perguntas também para a sociedade! (E2)

O mundo contemporâneo e capitalista nos convoca a usufruir um aparato jamais existente anteriormente, para a satisfação de todas as áreas do bem-estar humano. Apesar de uma grande massa da população mundial permanecer à margem dos benefícios do capitalismo globalizante que, com sua plasticidade, envolve a todos, aqueles que têm acesso às suas benécies não estão dispostos a abrir mão delas. Assim, a impressão que temos é a de que, de certo modo, a defesa do meio ambiente seria algo impositivo, visto que, mesmo em proporções incertas, os prejuízos à humanidade já seriam fato. Além de essa defesa vir como algo impositivo, outra hipótese que levantamos é a de que ela também é sentida como um retrocesso. Para muitos, é como se, ao defender o meio ambiente, em seu sentido figurado, o homem voltasse ao Jardim do Éden, ou, ainda, é como se, obrigatoriamente, fôssemos fazer parte de movimentos como os dos hippies, símbolos até os dias atuais da contracultura.

No que tange à parte social, soma-se a isso, de maneira equivocada, a noção de abnegação, pois a defesa do social, da massa dos excluídos, pode também remeter a uma certa noção da nivelação de classes, havendo para muitos a ideia de perda de status e poder.

Pensar o meio ambiente significa compreender as relações sociedade-natureza, ou seja, incorporar essa dinâmica natural e social.15 No momento, a compreensão do meio ambiente exige a noção de interação entre todos os componentes da natureza e do universo humano. Ressalte-se que há de fato uma interação do homem com o ambiente, seja ele natural ou não, e que, se interagem, são partes de um todo.

Qualquer ação que eu venha a fazer ela tá relacionada ao ambiente e, de certa forma, e vai refletir aonde eu tô vivendo. (D6)

Para que haja de fato uma mudança em relação a toda problemática ambiental, o homem precisa abandonar a noção ingênua de que nessa interação ele está em pé de igualdade com os outros componentes do meio ambiente. A própria Bíblia nos revela que o homem foi criado por Deus, e este o colocou para habitar a Terra e dominá-la e, também, os demais seres viventes. Isso, porém, não lhe dá o direito de destruí-la ou de conduzi-la como bem quiser, e, sim, lhe atribui a responsabilidade de cuidar, de zelar pelas criações divinas. Mesmo para os que não compartilham os postulados cristãos, não há como negar a relação de interação e dominação do homem em relação à natureza, pois o ser humano é um ser de intelecto. De qualquer forma, consideramos que a importância consiste em saber que nessa relação de interação e dominação o respeito é o verdadeiro valor. É ele quem determinará os caminhos dessa relação. Portanto, a interação homem-natureza é, sobretudo, uma questão moral e ética, e é essa noção que conduzirá os rumos estabelecidos.

A população tem que ter um certo respeito, um certo domínio de como usufruir dessas coisas que o meio ambiente nos oferece. (F2)

A humanidade é co-responsável pelo ambiente que ela tá usufruindo hoje na medida em que ela escolhe um determinado tipo de vida. (E5)

Porque hoje o cidadão fica preocupado com a situação que ele vive e fica um pouco a desejar pro problema do planeta. (A1)

Os discursos resultantes da pesquisa nos mostram a todo tempo a noção de interação. Mas essa interação nos remete, também, à noção de domínio. Essa revelação interação e domínio também está contida nos conceitos/significados de meio ambiente apresentados por esses sujeitos. Assim, o que se tem é uma imbricada relação de interação e poder, e é nesse ponto que reside, a nosso ver, o grande nó da problemática ambiental. Ou seja, estabelecer os limites do poder, assumir a responsabilidade humana de cuidar da natureza e da sociedade, sobretudo dos menos favorecidos, deixando fluir a ética e a espiritualidade, entendida como uma nova experiência do ser, o irromper de um novo sonho, o vislumbrar de outra ordem capaz de ordenar o caos que se instalou não por meio de um saber codificado, mas de uma experiência profunda nas última raízes da realidade.16

A realidade dos tempos atuais tem nos mostrado, frequentemente, a necessidade de um equilíbrio. Com isso, mais uma vez, temos a certeza de que a ética é fundamental para a manutenção das forças que equilibram e harmonizam o meio ambiente, forças sem as quais o homem não vive, pois, assim como os problemas ambientais locais interferem nos globais e vice-versa, os problemas ambientais também interferem no existir humano, e este, reciprocamente. Nesse sentido, a única condição imposta por essa relação homem-ambiente, aparentemente tão antagônica e tão visceral, é a condição de equilíbrio tão desejada por aqueles que acreditam na sustentabilidade.

Durante as entrevistas realizadas para este estudo, percebemos que, por diversas vezes e em momentos distintos das discussões, sempre havia um apontamento para a necessidade de equilíbrio:

Porque o ambiente ele é saudável, ele é gostoso, mas quando equilibrado! Quando desequilibrado, ele é severo contra o nosso bem-estar... (E4)

Um equilíbrio dinâmico entre as necessidades sociais e a capacidade da natureza de satisfazê-las é o que se entende por sustentabilidade.17 Esta só será possível com uma mudança de paradigma. Para tanto, torna-se necessário o desenvolvimento de novas formas de solidariedade, de combate à pobreza, à intolerância, ao desperdício, levando em conta o bem comum sem violar os direitos individuais17.

Mais uma vez ressalte-se que, neste estudo, somente as pessoas diretamente envolvidas com instituições ambientalistas é que abordavam ou discutiam sobre uma possível mudança de paradigma. As demais apenas sinalizavam para a necessidade de maior equilíbrio.

Com essa alteração de paradigma, hoje, nós caminhamos para o desenvolvimento das condições ambientais de sustentabilidade né?! Que é uma... que é também algo muito interessante que é abordado também pelo nosso amigo James Lovelock que escreveu A vingança de Gaia. (E1)

Na perspectiva da globalização, da economia de mercado, nos moldes conhecidos, será difícil uma transição para a sustentabilidade, pois há várias tendências globais em longo prazo que afetam essa transição: paz e segurança, população, migração e urbanização, afluência e pobreza, bem-estar e saúde, produção, consumo e tecnologia, globalização, governança e instituições, mudança ambiental global.18

Para o autor, que não adentra na questão de uma mudança de paradigma, mas vê nessas tendências situações favoráveis e desfavoráveis à sustentabilidade, nós estamos, no momento, bem atrás de atender às metas a serem atingidas. Para ele, o que se pode fazer é tentar acelerar algumas situações favoráveis. E, como acredita que o desenvolvimento sustentável acontece mais localmente que globalmente, seria importante que as localidades identificassem os modos pelos quais podem contribuir para alterar as tendências que as afetam, já que só assim se poderá atingir o todo.

Os obstáculos para a sustentabilidade têm relação com uma restrita consciência na sociedade a respeito do modelo de desenvolvimento econômico em curso. As causas básicas de atividades ecologicamente predatórias podem ser atribuídas às instituições sociais, aos sistemas de informação e comunicação, bem como aos valores adotados pela sociedade. Isso implica a necessidade de estimular a participação da sociedade.19

Enquanto se estudam e se debatem os problemas ambientais com a finalidade de propor soluções, de achar um caminho que seja compatível com o desejo humano e a preservação da natureza, seja apenas modificando algumas situações, seja mudando de paradigma, a evidência é de que, sem equilíbrio, ou seja sem sustentabilidade, tanto a natureza quanto a humanidade se encontram em verdadeira dificuldade. Assim, é preciso que comecemos a buscar em cada um de nós as contribuições tão necessárias a esse estado de bem viver, pois a natureza tem dado claras demonstrações ao homem de que a balança está pendente. E como os acontecimentos são locais e são globais, os continentes, países, Estados, municípios, comunidades e indivíduos também devem começar a agir no mesmo sentido:

Eles centralizaram muito a colocação como as condições adequadas para o ser humano viver melhor. Mas, na colocação ecologista, essas condições devem também, por uma questão de respeito, estender a todos os seres vivos. Daí que é mais difícil, mais difícil e mais bonito, porque começa a aparecer o respeito pelos nossos semelhantes e pelos nossos diferentes, não é verdade?! Então essa orquestragem, isso aí né, como se fosse uma coisa sinfônica, falando oh... cê vai tocar isso, cê tem um espaço seu aqui, cê tem um espaço seu aí, é essa que é a dificuldade, porque no afã de melhorar as condições para o ser humano, entra, como falou D2, o capitalismo e oferece tudo de uma vez só, então nós tamos acabando com todos os recursos, tamos ferindo as condições ambientais pra viver tudo de uma vez só, quer dizer, nós temos pouquíssimos anos de vida se continuarmos assim. Quer dizer, feriu, desrespeitou as condições básicas do meio ambiente, ou do ambiente, ou da natureza, para que o homem aproveitasse mais em conforto, não é?! Então é isso, é um momento que eu acho que precisa ser questionado, o que é esse conforto? O que é o consumismo? E também o meio ambiente, explorado como está sendo, a natureza explorada como está sendo é a mãe da miséria! (D1)

Os discursos a seguir nos mostram, de forma sintética, que o município estudado teve suas condições naturais afetadas pelo homem, assim como em outras partes do mundo. E nos mostra também que, da mesma forma que somos capazes de afetar negativamente o ambiente, também podemos atingi-lo de forma positiva. Esses impactos e ações por nós instituídos podem concorrer tanto para destruir quanto para preservar. Podem tanto ser impactos pontuais quanto gerais. De tal modo, a interação entre as pessoas tem o poder de mitigar ou solucionar os novos problemas que surgem e a eles dar novos rumos.

Há cem anos atrás Muzambinho era um lugar espetacular pra fazer uma lavoura, pra plantar; três rios irrigavam 414 Km2, água maravilhosa, altitude muito interessante, um clima ótimo, e alguém viu isso como um lugar bom pra se plantar, pra morar. E assim foi feito! [...] o café, que nós vivemos dele durante muito tempo, acabou lesando essas condições. [...] Hoje nós temos os nossos rios poluído. [...] Então nós temos coisas concretas, da mudança das condições ambientais lá no início, que era quase que um paraíso, né?! Isso aí repetiu em Muzambinho, o que aconteceu na Mesopotâmia, o que aconteceu em outros lugares, a devastação foi muito grande! Hoje nós estamos aí enfrentando as dificuldades, por termos perdido grande parte das condições ambientais favoráveis à vida. Hoje ouve uma interação das pessoas, no relacionamentocom o meio ambiente, melhorou demais, não é? Agora são novos problemas... (D1)

Com relação àquilo que eu faço em relação ao meio ambiente, se há uma destruição do meio ambiente em São Paulo, eu acho que Minas Gerais vai sentir o reflexo desta destruição, entendeu? A nossa Amazônia, se a Amazônia for destruída eu acho que não só o Brasil, o nosso planeta vai ser... e isso que tá provocando um debate na comunidade, né?! (D6)

Dessas condições ambientais que nós falamos anteriormente, em Muzambinho acho que os impactos são muito mais positivos. Só que existem hoje novas exigências a serem atendidas por nós. (D5)

Como as condições ambientais são atributos do lugar e as condições de saúde atributos das populações, estas muitas vezes são interdefiníveis. Sendo a saúde um produto de multideterminações, temos também que esta está à mercê de múltiplos riscos, que por sua vez são diferentes para as diferentes camadas da população, bem como para as diferentes sociedades que habitam o globo. Torna-se relevante dizer que esses são decorrentes das próprias condições naturais existentes no planeta ou das condições criadas pelo homem:20

Porque você sabe, a alimentação é quase que a base da família. A família que alimenta melhor, que é mais esclarecida, que tem uma água potável, tem uma água filtrada, ela é logicamente muito menos propensa à doença do que uma pessoa que mora na periferia. Nós tamos falando dos bairros. Então no centro da cidade, ce vê lixo jogado no meio da avenida? Dificilmente! Ce vê um esgoto aberto aqui na cidade? Dificilmente né! Então por isso que, as pessoas que vêm da roça pra cidade vêm pra onde? Não vêm morar no centro da avenida, na rua Tiradentes, na Capitão, não vêm não! Elas vêm pros bairros e são as pessoas que às vezes estão menos esclarecidas, com menos condições financeiras. Eles amontoam tudo em dois ou três comodozinhos. Se um tiver uma gripe, um espirro, todos vão ter! Se um tiver uma diarreia todos vão ter! Não é isso? Então por isso no meu entender estão mais propensas por esse motivo! (C2)

É nesse sentido que entender o significado de meio ambiente, assim como outros aspectos dessa relação complexa do homem com a natureza, nos ajudará a intervir, como profissionais de saúde, no campo da saúde ambiental e das populações. Além disso, é importante que percebamos que a nossa atuação não se restringe somente ao aspecto profissional, mas ela deve também fazer parte de um movimento coletivo da sociedade em prol da problemática ambiental, que envolve as infinitas relações estabelecidas entre o homem e a natureza.

 

CONCLUSÃO

Conclui-se que a maioria da população ainda vê o meio ambiente de forma fragmentada, enfatizando a problemática dos recursos naturais em detrimento da social. Essa visão, somada à de que os recursos naturais estão aí apenas para servir ao homem, nos impede de caminhar para uma vida mais harmônica, mais sustentável, além de nos deixar longe de soluções efetivas. É evidente, também, que a relação do homem com a natureza é de interação e de domínio humano, numa busca constante de equilíbrio de forças.

Os discursos dos atores sociais deste estudo reproduzem o pensamento da sociedade global e ao mesmo tempo mostram que não são somente os discursos e os pensamentos que se repetem, mas, também, o comportamento da sociedade.

Assim, devemos trabalhar no sentido de (re)significar o meio ambiente, pois somente quando começarmos de fato a entender a complexidade do que ele é teremos mudanças mais significativas nesse campo.

A educação, seja ela formal, não formal ou informal, não é redentora de todos os problemas que envolvem o meio ambiente, mas ela é a chave para abrir um novo caminho na busca de soluções para a problemática atual. E ela deve acontecer por meio das famílias, das escolas, da sociedade civil organizada, dos setores privados e públicos, bem como da mídia.

Essa educação deve enfatizar um novo jeito de enxergar o meio ambiente, (re)significando-o. Isso quer dizer que é preciso que nos vejamos como parte dele e responsáveis por ele e não apenas observadores ou dominadores. Para isso, valores como a ética, a solidariedade e a espiritualidade devem ser resgatados.

O que aqui se colocou é algo difícil de ser praticado, pois o conflito intertemporal que há na sustentabilidade, ou seja, as dificuldades que temos de pensar nas gerações futuras, de sermos solidários no tempo, nos impede essa prática. Isso, somado ao fato de que há nas previsões futuras muitas incertezas, constitui o fator que mantém o statu quo.

Mas como acreditamos na possibilidade de mudanças, cremos que nossas ações individuais podem ser responsáveis por uma grande mudança ambiental.

 

REFERÊNCIAS

1. Porto MFMM. Educação ambiental: conceitos básicos e instrumentos de ação. Belo Horizonte: DESA/UFMG; 1996. 160 p.

2. Lima FCA. Gerenciamento integrado dos resíduos dos serviços de saúde: microrregião da Baixa Mogiana - Minas. [dissertação]. Belo Horizonte; Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. 2002. 169 p.

3. Gil AC. Métodos e técnicas de pesquisa social. 5ª. ed. São Paulo: Atlas; 2006. 206 p.

4. Pereira MJB. Grupo Focal experiência na coleta de dados no projeto - CIPES - Brasil. In: A classificação Internacional das práticas de Enfermagem em Saúde Coletiva - CIPESC. Brasília: Associação Brasileira de Enfermagem; 1999. p. 25-55.

5. Menga L, Marli EDA. Pesquisa em Educação: abordagens qualitativas. 2ª. ed. São Paulo: EPU; 1990. p

6. Orlandi EP. Discurso e leitura. 6. ed. São Paulo: Cortez; 2008.

7. Czeresnia D. Constituição epidêmica: velho e novo nas teorias e práticas da epidemiologia. História, Ciências, Saúde - Manguinhos. 2001;VIII(2):341-56.

8. Bohadana E. Ver a vida, ver a morte: da filosofia e da linguagem. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; 1988.

9. Merchant C. Radical Ecology. Routledge: Cahapman & Hall Inc.; 1992.

10. Sevalho G. Uma abordagem histórica das representações sociais de saúde e doença. Cad Saúde Pública. 1993;9(3):349-63.

11. Cavalcanti C. Desenvolvimento e natureza: Estudos para uma sociedade sustentável. Recife: INPSO/FUNDAJ; 1994. p. 262.

12. Veiga JE. Desenvolvimento sustentável: desafio do século XXI. 2. ed. Rio de Janeiro: Garamond; 2006. 226 p.

13. Jacobi P. Educação ambiental, cidadania e sustentabilidade. São Paulo; 2003. Cadernos de Pesquisa, nº 118.

14. Sachs I. Desenvolvimento: includente, sustentável, sustentado. Rio de Janeirro: Garamond; 2004. 151 p.

15. Giuliani GM. Sociologia e Ecologia: um diálogo reconstruido.Trabalho apresentado no XVIII Encontro Nacional da Associação de Projetos interdisciplinares de Pesquisas Sociais em Agricultura, UFPB, Campina Grande; 1996.

16. Boff L. Espiritualidade. In: Trigueiro A. Meio Ambiente no século 21: 21 especialistas falam da questão ambiental nas suas áreas de conhecimento. Rio de Janeiro: Sextante; 2003.

17. Crespo S. Educação e sustentabilidade na agenda 21: o papel da educação ambiental no programa da globalização. In: Fórum de Educação ambiental, 4; Encontro da Rede Brasileira de Educação Ambiental, 1. Rio de Janeiro, 1997. Cadernos do IV Fórum de Educação Ambiental; I Encontro da Rede Brasileira de Educação Ambiental. Rio de Janeiro: INESC; 1997. p 65-72.

18. Nicoll MCG. Population and sustainability. Policy research division working paper. New York: Population Council; 2005.

19. Jacobi P. Meio Ambiente e sustentabilidade. 2006. [Citado em 2009 jun 25]. Disponível em:<http://www.unifap.br/editais/2006/PMDAPP/sustentabilidade%B1%5D.pdf>

20. Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional sobre determinantes sociais em saúde no Brasil (CNDSS). Iniqüidades em saúde no Brasil. Brasília: Ministério da Saúde; 2006.

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