REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

Busca Avançada

Volume: 15.2

Voltar ao Sumário

Pesquisa

Acidentes prevalentes em crianças de 1 a 3 anos em um pronto - socorro de Belo Horizonte no ano de 2007

Prevailing accidents with children from one to three years of age in a hospital in the city of Belo Horizonte, Brazil, in 2007

Danielle Costa SilveiraI; Juliana Tomé PereiraII

IEnfermeira. Especialista em Saúde Coletiva pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix
IIEnfermeira. Mestranda da Escola de Enfermagem da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Especialização Lato Sensu em Educação Profissional na Área de Saúde: Enfermagem pela UFES (Universidade Federal do Espírito Santo) / Fundação Oswaldo Cruz / Ministério da Saúde (2002). Professora de Enfermagem na disciplina Pediatria no Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix

Endereço para correspondência

Rua das Mangueiras, 430 - Betânia
Belo Horizonte-MG. CEP 30580-340
Telefone (31) 9203-6336
Endereço eletrônico: danielle.costasilveira@hotmail.com

Data de submissão: 22/5/2009
Data de aprovação: 19/4/2011

Resumo

Trata-se de uma pesquisa quantitativa e descritiva, realizada em um pronto-socorro pediátrico no município de Belo Horizonte, objetivando contribuir na divulgação, para pais e profissionais de saúde, dos principais tipos de acidentes sofridos por crianças na faixa etária pesquisada. Os dados foram coletados dos boletins de atendimento, arquivados no setor de informática da instituição. Foram selecionados 499 boletins de crianças na faixa etária de um a três anos de idade, que foram atendidas no setor de emergência, vítimas de acidentes, no período de janeiro a dezembro de 2007. Os dados foram analisados tendo por fundamento a Classificação Internacional de Doenças e problemas relacionados à saúde (CID 10). Do total pesquisado, 42% são do sexo feminino e 58% do sexo masculino. Observou-se o predomínio de 64,5% de acidentes na faixa etária entre 1 e 2 anos em relação à faixa etária entre 2 e 3 anos (35,5%), sendo o trauma não especificado da cabeça o principal tipo de acidente responsável por essa diferença. Com base no diagnóstico médico e de acordo com a Classificação Internacional de Doenças (CID 10) e problemas relacionados à saúde, foram encontrados 92 tipos de acidentes que foram reagrupados, resultando em dez categorias: acidentes automobilísticos, hipotermia, corpo estranho, efeitos tóxicos, ferimentos, fraturas, intoxicações, quedas, queimaduras e traumas. A pesquisa forneceu dados importantes para orientação e educação na prevenção de acidentes na infância.

Palavras-chave: Criança; Acidentes; Prevenção de Acidentes

 

INTRODUÇÃO

A infância compreende etapas sucessivas de desenvolvimento, cada uma com suas particularidades. O desenvolvimento é um processo contínuo - cada etapa fornecendo preparo para a seguinte - e global - a criança cresce e se desenvolve intelectual, social e afetivamente. O crescimento e o desenvolvimento da criança começam desde a concepção e são especialmente rápidos nesse momento e nos primeiros anos de vida.1

A faixa etária de 1 a 3 anos varia desde o momento em que a criança começa andar de forma independente, até quando já consegue andar e correr com facilidade.2

Nessa etapa, existe grande maturação neurológica com desenvolvimento da mobilidade física, capacidade cognitiva e aumento da autonomia, que gera ampliação da exploração do ambiente e de objetos. É quando ocorre, também, a fase da sociabilidade comunitária, em que as relações da criança se estendem para além do ambiente familiar, nas creches e escolinhas.1

Os acidentes, domésticos e externos com crianças nessa faixa etária são frequentes, uma vez que a criança se torna independente para andar, aumenta sua curiosidade e sua necessidade de exploração do meio no qual está inserida.1,2

Os acidentes provocam mais mortes em crianças entre 1 e 4 anos que em qualquer outro grupo etário, com exceção dos adolescentes. Um importante fator no aumento crítico de acidentes durante a fase inicial da infância é a liberdade irrestrita conseguida por meio da locomoção, combinada a uma desatenção para os perigos no ambiente (domiciliar e externo).3,4

Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), o acidente é um acontecimento independente da vontade humana, desencadeado pela ação repentina e rápida de uma causa externa, produtora ou não de lesão corporal e/ou mental.5

O acidente é resultado da interligação de vários fatores relacionados ao agente lesivo, ao hospedeiro e ao ambiente, nos quais o agente é a forma de energia que lesa os tecidos orgânicos e, normalmente, é de fácil identificação. O hospedeiro é a criança, que deve ser considerada quanto à idade, ao sexo, à etapa de desenvolvimento e ao ambiente, incluindo os aspectos físicos (automóvel, escada, etc.) e psicossociais (condições socioeconômicas e culturais da família) nos quais ocorre o acidente.6,7

Um estudo realizado em Fortaleza-CE destaca os acidentes domésticos:

O ambiente doméstico pode ser especialmente hostil às crianças, tendo em vista que instrumentos cortantes, móveis, janelas, panelas contendo alimentos fumegantes, fósforo, garrafas de detergentes e produtos tóxicos deixados embaixo da pia da cozinha são atrativos especiais para crianças, contribuindo de modo efetivo para aumentar o número de crianças lesionadas com resultados nefastos.8

A Classificação Internacional de Doenças - 10ª Revisão (CID 10) - define os acidentes e as violências ou causas externas de morbimortalidade como: os acidentes de trânsito, homicídios, suicídios, outras violências (intoxicações, acidentes de trabalho, queimaduras, quedas e afogamentos, dentre outros) e as causas externas não especificadas, se acidentais ou intencionais.9

Nos países desenvolvidos, os acidentes estão entre as principais causas de mortalidade na infância, ao lado das malformações congênitas, câncer e pneumonias. Nos países em desenvolvimento, a participação de acidentes como causa de mortalidade infantil vem crescendo acentuadamente, embora a dimensão do problema não esteja completamente definida, em razão do sub-registro.5

Os acidentes na infância são frequentes e constituem um grave problema de saúde pública, dada a alta taxa de morbidade e mortalidade que ocasionam. Geralmente, são considerados inevitáveis e imprevisíveis, porém quase sempre ocorrem como consequência do grau de desenvolvimento da criança, comportamento da família, ocorrência de situações facilitadoras e inexistência de medidas preventivas. Por sua magnitude, os acidentes necessitam ser considerados pelos gestores de saúde pública com atenção proporcional ao impacto que causam na vítima, na família e na sociedade. Reduzir o impacto de lesões, o sofrimento que elas causam e diminuir o risco de mortes por acidentes é papel fundamental da enfermeira e de toda equipe de saúde, garantindo a vida e a saúde da população.3,7-10

Os custos diretos e indiretos relacionados ao tratamento dos acidentados são elevados e consomem recursos que poderiam ser aplicados em programas de saúde que atenderiam um grande número de pessoas. Os altos índices de morte prematura e sequelas são acompanhados de elevado custo econômico, sendo estimado que a perda em geração de produtividade seja maior do que a ocasionada pelo câncer e pelas doenças cardíacas.11-12

Acredita-se que por meio deste trabalho pode-se contribuir para o desvelamento desse problema, bem como para sua divulgação aos profissionais inseridos nos diversos setores de saúde no atendimento a crianças vítimas de acidentes e na possível ampliação das orientações aos pais e cuidadores sobre a adoção de procedimentos de prevenção de acidentes.

Para a elaboração de programas e ações que sejam eficazes na redução da quantidade e gravidade de acidentes envolvendo crianças, é necessário o levantamento dos principais riscos reais ou potencias passíveis de prevenção - uma vez que existem acidentes que não podem ser previstos (como uma lesão por projétil) - para que as estratégias sejam bem elaboradas e tenham focos dirigidos.

Assim, propõe-se um estudo que procure identificar os acidentes domésticos e externos, prevalentes em crianças de 1 a 3 anos de idade. Optou-se por essa faixa etária por ser um período da vida em que a criança se comporta de forma a explorar e conhecer o ambiente que a cerca sem a compreensão dos riscos existentes. As crianças foram atendidas em um pronto-socorro de uma instituição privada, sem fins lucrativos, com atendimento também pelo Sistema Único de Saúde (SUS), no município de Belo Horizonte, entre os meses de janeiro e dezembro de 2007.

 

METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa quantitativa e descritiva, realizada no pronto-socorro pediátrico de uma fundação hospitalar sem fins lucrativos, localizada no município de Belo Horizonte, desde 1952. A instituição, caracterizada como de alta complexidade, possui caráter privado, com atendimento também pelo SUS, e é referência em transplantes (coração, rins, pâncreas, rim-pâncreas e fígado) e no tratamento de epilepsias no Núcleo Avançado de Tratamento das Epilepsias (NATE). O pronto-socorro pediátrico possui seis leitos e atende crianças e adolescentes na faixa etária até 15 anos. A equipe do setor é composta por dois pediatras, das 7 às 23h59; um pediatra, da zero às 7 horas; um enfermeiro e dois técnicos de enfermagem por turno de doze horas.

Na pesquisa, usou-se como fonte relatórios do setor de informática da instituição baseados em boletins de atendimento de crianças, na faixa etária de 1 a 3 anos, atendidas entre janeiro e dezembro de 2007, que, de acordo com o diagnóstico médico, sofreram algum tipo de acidente.

Após a aprovação da pesquisa pelo Comitê de Ética da Instituição (CEP 227/07), em 19 de dezembro de 2007, realizou-se a coleta de dados entre os meses de janeiro a março de 2008. Os dados foram obtidos mediante a análise de relatórios do sistema de informática da instituição, baseados em boletins de atendimento.Tal relatório disponibilizava: nome, sexo, faixa etária, data do atendimento e diagnóstico médico de todas as crianças atendidas no pronto-socorro pediátrico em 2007. Os dados foram tabulados em planilhas eletrônicas, por intermédio do Microsoft Excel.

Posteriormente, passou-se à etapa da análise quantitativa dos dados tabulados, com base na definição do diagnóstico médico e sua respectiva classificação, de acordo como sistema de Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID 10).13 Foram selecionadas informações de todas as crianças na faixa etária de 1 a 3 anos de idade e, finalmente, daquelas que, de acordo com o diagnóstico médico, foram vítimas de algum tipo de acidente. A análise permitiu identificar 92 tipos de acidente, que foram agrupados (por exemplo, todos os diagnósticos de ferimentos, independentemente da localização deles, foram agrupados na categoria de acidentes por ferimento), resultando em dez categorias: automobilística, hipotermia, corpo estranho, efeito tóxico, ferimento, fratura, intoxicação, queda, queimadura e trauma (Anexo I). Tais categorias decorrem do sistema CID 10, tendo por base a descrição depreendida do sistema (Anexo I), de forma que a categoria "acidente automobilístico" corresponde à classificação CID 10 V59.8; a categoria "hipotermia" corresponde à classificação T68; a categoria "corpo estranho"corresponde às classificações T15.8, T15.9, T16, T17, T17.1, T17.9, T18, T18.0, T18.3, T18.8, T18.9; a categoria "efeito tóxico" corresponde às classificações T54, T63, T63.4, T63.9, T65, T65.0, T65.9; a categoria "ferimento" corresponde às classificações S01, S01.0, S01.1, S01.4, S01.5, S01.8, S01.9, S21.8, S61, S61.9, S81.9, T01.2, T11.1, T13.1, T14.1, Y28; a categoria "fratura" corresponde às classificações S02.9, S42, S42.0, S43.6, S53.0, S62; a categoria "intoxicação"corresponde às classificações T36, T39.3, T50, T50.9; a categoria "queda" corresponde às classificações W06, W07, W08, W10, W13, W19; a categoria "queimadura" corresponde às classificações T20, T23, T23.1, T23.2, T25.2, T30, T30.0, T31, T31.0; a categoria "trauma" corresponde às classificações S00, S00.0, S00.3, S04.9, S05.0, S06, S06.1, S06.9, S08.0, S09, S09.0, S09.1, S09.9, S10, S39.9, S45, S49.7, S50, S50.9, S60, S60.1, S69, S69.9, S80.0, S90, T07, T03.9, T11, T14, T14.0, T14.9.

Empreendeu-se tal classificação tipológica por acreditar-se que, com a melhor compreensão dos tipos de acidente prevalentes na faixa etária estudada, o profissional de saúde se encontrará mais bem capacitado para orientar os pais e cuidadores e para subsidiar programas públicos institucionais de prevenção de acidentes, com consequente redução da morbidade e mortalidade infantil, ao menos com relação ao público da instituição, com possibilidade ulterior de extensão das conclusões aqui alcançadas a grupos populacionais mais amplos.

A conduta preventiva leva em conta que a promoção da saúde, uma das diversas competências do enfermeiro, configura um processo político e social no qual se busca a adoção de hábitos e estilos de vida saudáveis (individuais e coletivos) e a criação de ambientes seguros e favoráveis à saúde.14

 

RESULTADOS

A pesquisa obteve um total de 6.854 crianças, na faixa etária de 1 a 3 anos, atendidas no pronto-socorro, de janeiro a dezembro de 2007, sendo que desse total 499 foram vítimas de acidentes domésticos, externos e automobilísticos, o que corresponde a 7,3% do total de atendimentos nessa faixa etária. Os diagnósticos médicos das crianças vítimas de acidentes domésticos e externos foram agrupados em dez categorias, de acordo com a TAB. 1:

 

 

Ocorreu o predomínio de acidentes no sexo masculino (290 vítimas) em relação ao sexo feminino (209 vítimas), gerando uma diferença de 16% (81 meninos) de acidentes no sexo masculino. Entre as 499 vítimas de acidentes, 42% eram do sexo feminino e 58%, do sexo masculino.

Em relação aos gêneros, os tipos de acidente com maior diferença no número de vítimas foram: traumas na cabeça, ferimentos na cabeça, ferimentos por corte, laceração ou mordedura de animais e os traumas em outras regiões não especificadas do corpo, como mostrado nos GRÁF. 2 e 3.

 

 

 

 

 

 

Quando separados por faixa etária, os acidentes com crianças de 1 a 2 anos representaram 65%, enquanto na faixa etária de 2 a 3 anos representaram 35% do total de acidentes.

O principal tipo de acidente responsável pela maior quantidade de vítimas na faixa etária de 1 a 2 anos foi o traumatismo não especificado da cabeça.

 

DISCUSSÃO

Considerando-se o gênero, a diferença no número de acidentes encontrada na pesquisa (GRÁF.1) é confirmada por pesquisa realizada pela organização não governamental (ONG) Criança Segura, tendo como fonte dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Ministério da Saúde. Na pesquisa, descreve-se que, no Brasil, em 2005, 7.395 crianças morreram vítimas de causas externas: acidentes 79% e violência 21%. Do total de vítimas, 3.766 eram meninos e o restante (2.041 vítimas), meninas.15 Não foi encontrada justificativa para a prevalência de acidentes no sexo masculino.

Na análise dos GRÁF. 2 e 3, no entanto, ao permitir uma comparação entre a tipologia dos acidentes de acordo com o gênero, mostrou-se que não há diferenças significativas entre meninos e meninas, revelando, ainda, grande diversidade nos tipos de acidente em ambos os sexos, com ligeiro predomínio dos traumas na cabeça.

De acordo com o GRÁF. 4, o número de acidentes com crianças de 1 a 2 anos foi superior ao de crianças de 2 a 3 anos. Uma hipótese para o predomínio de acidentes em crianças de um a dois anos encontrado na pesquisa seria o começar a ficar em pé sozinha, o que causaria quedas com consequentes traumatismos. Outra hipótese seria a ocorrência de maus tratos, o que poderia ser confirmado pela análise dos prontuários de pacientes, o que transcenderia os limites e o objeto da pesquisa.

 

 

Observa-se, no GRÁF. 5, um número elevado de vítimas de trauma não especificado da cabeça na faixa etária de um a dois anos em relação à faixa etária de dois a três anos. Pode-se inferir que, pelo fato de os acidentes por quedas serem mais comuns entre crianças de 1 a 2 anos (de acordo com a pesquisa 78,5% das quedas ocorrem nessa faixa etária), o alto índice de traumas envolvendo a cabeça possa ser resultante desse tipo de acidente (crianças que são atendidas por causa da queda e crianças que são atendidas em decorrencia ao trauma resultante da queda, omitida na hora do atendimento).

 

 

Com relação aos acidentes automobilísticos, apenas um único registro foi encontrado. Atribui-se tal resultado, possivelmente, ao direcionamento de tais vítimas a outro hospital, referência no município para tal sorte de ocorrências, e não à instituição pesquisada.

Os acidentes por corpo estranho, efeito tóxico, queda e queimaduras apresentaram na pesquisa um número elevado de vítimas, como mostra a TAB. 1. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) também aponta esses tipos de acidentes como os mais prevalentes na faixa etária de um a três anos, além de afogamentos, choque elétrico e picadas venenosas.16

Fatores tais como a natureza urbana da região atendida e a existência de outros hospitais de referência no município, possivelmente, explicam a baixa incidência de afogamentos, choques elétricos e picadas venenosas na instituição pesquisada.

Segundo o Sistema Nacional de Informações Tóxico Farmacológicas, no ano de 2001, a faixa etária mais acometida por intoxicações foi a menor de cinco anos de idade (25,4% dos casos) com destaque para medicamentos (37,4%), produtos dominissanitários (18,8%) e produtos químicos (8,4%). Em pesquisa realizada no ano de 2001, constatou-se que os acidentes por substâncias nocivas (medicamentos, pesticidas, produtos de limpeza e plantas) predominam na faixa etária de um a três anos. O contato da criança com substâncias nocivas ocorre, com facilidade, na cozinha, no banheiro ou no quintal do domicilio.10 Percebe-se, ainda, a falta de orientação aos pais e cuidadores quanto à magnitude e prevenção de tais acidentes. Moreira et al.17: 89 constatou uma diferença significativa na identificação dos fatores de risco entre as mães da pesquisa e o próprio pesquisador, uma vez que o pesquisador identificou um número bem maior de fatores de risco do que a mãe, revelando um déficit na opinião das participantes em relação aos riscos presentes no seu ambiente.17

Os relatórios fornecidos pelo setor de informática da instituição na qual a pesquisa foi realizada impossibilitaram a coleta de dados tais como: local e horário do acidente, quem cuidava da criança (ou se ela estava sozinha) e a evolução do caso (criança recebeu atendimento e foi liberada em seguida, permaneceu no hospital em observação, foi internada para cirurgia, óbito, notificação ao Conselho Tutelar em caso de suspeita de maus-tratos, entre outros). Embora os maus-tratos e a violência doméstica não possam ser descartados como causa de parte considerável dos "acidentes", os limites do objeto da pesquisa e insuficiências no registro de dados impossibilitaram conclusões a esse respeito, reforçando a necessidade premente de aprimoramento do registro de dados nas instituições de saúde. Necessidade esta ainda mais premente diante da publicação da Portaria nº 104, de 25 de janeiro de 2011, do Ministério da Saúde, considerando de notificação compulsória os casos envolvendo suspeita de violência doméstica.18 Segundo a Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência (ABRAPIA),19:79

grande parte dos casos de violência contra a criança ocorre em ambiente familiar, o que constitui um importante agravante nessa questão, uma vez que a sociedade espera que os familiares sejam o porto seguro da criança. Os maus tratos praticados pelos próprios pais ou responsáveis são extremamente comuns, assumindo índices assustadores nos países que já se organizaram para o recebimento de denúncias e que realizam pesquisas regulares.19

Esses tipos de dado forneceriam informações que auxiliariam na criação de programas de prevenção dos acidentes e nas orientações aos pais e cuidadores da criança, reforçando a importância de se qualificar a coleta de dados das instituições de saúde, públicas e particulares, sem a qual os programas de educação e prevenção perdem caráter científico, assumindo elevado teor de empirismo, diminuindo-lhes a eficácia e elevando seus custos.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com base no estudo realizado, pode-se concluir que o tipo de acidente prevalente na amostra pesquisada foi o trauma, ocorrido, principalmente, na região da cabeça. Conclui-se, também, pela maior incidência de acidentes na faixa etária de 1 a 2 anos, no sexo masculino.

Por possuir caráter quantitativo, não foi possível concluir a respeito da etiologia dos acidentes pesquisados. No entanto as quedas, provavelmente relacionadas à etapa da vida infantil de descoberta do ambiente e ao desenvolvimento ainda incipiente das habilidades motoras, surgem como hipótese causal da maior parte dos acidentes pesquisados.

A existência de hospitais de referência, no município, especializados em determinados acidentes, tais como acidentes automobilísticos, afogamentos, queimaduras e picadas venenosas, certamente influiu na natureza da amostra, o que não impossibilita as conclusões parciais aqui alcançadas, bem como a possibilidade de que estas fomentem pesquisas ulteriores, de cunho etiológico, que possam complementar este estudo e lançar luz a tais questões.

Dada sua significativa ocorrência, os acidentes na infância devem ser estabelecidos pelos gestores de saúde epela sociedade como foco de programas de prevenção mediante a elaboração de estratégias de educação em saúde que contemplem os tipos de acidentes com crianças, suas causas e medidas para evitá-los.

A prevenção dos acidentes na infância resultará na redução da demanda aos serviços de saúde, custos hospitalares e, sobretudo, do sofrimento dos pais, cuidadores e da própria criança.

 

REFERÊNCIAS

1. Stefane JMJ. A enfermagem, o crescimento e o desenvolvimento infantil. In: Schimtz EM. A enfermagem em pediatria e puericultura. São Paulo: Atheneu; 2005. p.10-1.

2. Baylor JK. Da concepção à adolescência. In: Potter PA, Perry AG. Fundamentos de enfermagem. 5ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2004. p.162.

3. Wilson D. Promoção da saúde do lactente e da família. In: Hockenberry MJ, Winkelstein W. Wong Fundamentos de enfermagem pediátrica. 7a ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2006. p.346;354-356.

4. Chordas C. Promoção da saúde de crianças de 1 a 3 anos e de sua família. In: Hockenberry MJ, Winkelstein W. Wong Fundamentos de enfermagem pediátrica. 7ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2006. p.405-6.

5. Back HEH, Lentz RA, Schmitz EMR. Acidentes na infância. In: Schmitz EM. A enfermagem em pediatria e puericultura. São Paulo: Atheneu; 2005. p.379.

6. Alderete JMS. Aspectos peculiares da atenção ao pré-escolar e ao escolar: acidentes no pré-escolar. In: Marcondes E, Costa Vaz FA, Ramos JLA, Okay Y. Pediatria básica. 9a ed. São Paulo: Sarvier; 2003. p.608.

7. Filócomo FRF, Harada MJCS, Silva CV, Pedreira MLG. Estudo dos acidentes na infância em um pronto socorro pediátrico. Rev Latinoam Enferm. 2002;;10(1):41-7. [Citado 2008 Mar 15]. Disponível em: http://www.scielo.br

8. Guimarães SB, Silva Filho AC, Correia AA, Ribeiro JPA, Walnickson A, Lima DBC. Acidentes domésticos em crianças: uma análise epidemiológica. In: Moreira Corrêa BF, Almeida PC, Oriá MOB, Vieira LJES, Ximenes LB. Fatores de risco para queimaduras e choque elétrico em crianças no ambiente domiciliar. REME - Rev Min Enferm. 2008;12(1):86-91.

9. Pordeus AMJ, Fraga MNO, Facó TPP. Ações de prevenção dos acidentes e violências em crianças e adolescentes, desenvolvidas pelo setor público de saúde de Fortaleza, Ceará, Brasil. Cad Saúde Pública. 2003;19(4):1201-4. [Citado 2008 Mar 15]. Disponível em: http://www.scielo.br

10. Martins CBG, Andrade SM, Paiva PAB. Envenenamentos acidentais entre menores de 15 anos em município da região sul do Brasil. Cad Saúde Pública. 2006;22(2):407-414. [Cited 2008 Jun 04]. Disponível em : http://www.scielo.br

11. Del Ciampo LA, Ricco RG, Almeida CAN, Bonilha LRCM, Santos TCC. Acidentes de mordeduras de cães na infância. Rev Saúde Pública. 2000;34(4):411-2. [Citado 2008 Jun 04]. Disponível em: http://www.scielo.br

12. Harada MJCS, Pedreira MLG, Andreotti JT. Segurança com brinquedos de parques infantis: uma introdução ao problema. Rev Latinoam Enferm. 2003;11(3):383-6. [Citado 2008 Mar 15]. Disponível em: http://www.scielo.br

13. Organização Mundial de Saúde. CID 10 - Classificação estatística internacional de doenças e problemas relacionados à saúde. 10a ed. São Paulo: EDUSP; 1997.

14. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Política Nacional da Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violência. In: Correa I, Silva FM. Prevenção de acidentes domésticos à criança menor de 5 anos: percepção materna. REME - Rev Min Enferm. 2006;10(4):397-401.

15. Criança segura: estudo conscientiza sobre prevenção de acidentes. Rev Sentidos. 2007. [Citado 02 nov. 2007. Disponível em: <http://sentidos.uol.com.br>

16. Acidentes no lar: crescimento x acidente. Sociedade Brasileira de Pediatria. 2008. [Citado maio 2008]. Disponível em: http://www.sbp.com.br

17. Moreira Corrêa BF, Almeida PC, Oriá MOB, Vieira LJES, Ximenes LB. Fatores de risco para queimaduras e choque elétrico em crianças no ambiente domiciliar. REME - Rev Min Enferm. 2008;12(1):86-91.

18. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria nº 104, de 25 de janeiro de 2011: define as terminologias adotadas em legislação nacional, conforme o disposto no Regulamento Sanitário Internacional 2005 (RSI 2005), a relação de doenças, agravos e eventos em saúde pública de notificação compulsória em todo o território nacional e estabelece fluxo, critérios, responsabilidades e atribuições aos profissionais e serviços de saúde. Diário Oficial da União 26 jan de 2011; Seção 1.

19. Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência (ABRAPIA). Maus tratos contra crianças e adolescentes: proteção e prevenção; guia de orientação para cuidadores. In: Cordeiro EVC, Santos JG, Ricas J, Donoso MTV. Motivações da violência física contra a criança sob a ótica do cuidador agressor. Rev. Min. de Enferm.;12(1):79-85, jan./mar; 2008.

Logo REME

Logo CC BY
Todo o conteúdo da revista
está licenciado pela Creative
Commons Licence CC BY 4.0

GN1 - Sistemas e Publicações