REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 12.1

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Pesquisa

Autopercepção de estresse em equipe de enfermagem de terapia intensiva

Self-perception of stress in an intensive therapy nursing team

Isbelle Arruda BarbosaI; Maria Aparecida VieiraII; Maria de Lourdes Carvalho BonfimIII; Antônio Prates CaldeiraIV

IEnfermeira. Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES)-MG. Minas Gerais, Brasil
IIEnfermeira. Mestre em Enfermagem. Professora do Departamento de Enfermagem da UNIMONTES-MG. Minas Gerais, Brasil
IIIEnfermeira. Mestre em Enfermagem. Professora do Departamento de Odontologia da UNIMONTES-MG. Minas Gerais, Brasil
IVMédico. Professor Doutor do Departamento de Saúde da Mulher e da Criança da UNIMONTES-MG. Minas Gerais, Brasil

Endereço para correspondência

Rua Jasmim, 127, bairro Sagrada Família
Montes Claros-MG, Brasil. CEP 39.401-028
(38) 3213.2145
Email: di.vieira@ig.com.br

Data de submissão: 3/9/2007
Data de aprovação: 18/6/2008

Resumo

Trata-se de um estudo transversal, de caráter exploratório e descritivo, cujo objetivo foi identificar a autopercepção de manifestações de estresse na equipe de profissionais da enfermagem dos Centros de Terapia Intensiva de dois hospitais sediados em Montes Claros-MG, Brasil. O grupo avaliado constituiu-se de 47 trabalhadores. Utilizou-se como instrumento de coleta de dados um questionário com abordagem sociodemográfica e a escala de Likert de cinco pontos para a caracterização do nível de percepção de estresse ocupacional no ambiente de trabalho. Os resultados evidenciaram que 31,9% dos participantes foram classificados como estressados. A única variável que se mostrou associada à maior percepção de estresse foi a sobrecarga de trabalho (0R=6,17; IC95%=1,27-32,10). Espera-se que esses resultados possam oferecer subsídios para tratar o fenômeno sob novos enfoques, na tentativa de eliminar ou reduzir os efeitos nocivos do estresse à saúde, gerados pelo trabalho em Centros de Terapia Intensiva (CTIs).

Palavras-chave: Estresse; Equipe de Enfermagem; Unidades de Terapia Intensiva.

 

INTRODUÇÃO

A exposição acentuada a agentes estressores pode resultar em uma intolerância orgânica, causando sofrimento físico e psíquico ao indivíduo, cuja intensidade varia segundo a vulnerabilidade orgânica de cada um.1,2 Alguns profissionais da área da saúde convivem diariamente com situações e ambientes considerados fontes de pressão desencadeadora de estresse, tanto por questões ergonômicas quanto por questões psicológicas. Esse fato pode acarretar um desgaste excessivo do organismo, interferindo, assim, na produtividade e nas relações de trabalho.

Particularmente em relação ao ambiente hospitalar, saliente-se que, além dos riscos de ordem física, química, biológica, ergonômica, mecânica e psicológica, a peculiaridade de exposição e confronto do profissional de saúde com o sofrimento alheio, com a dor e com a morte do outro são outros fatores de sofrimento no trabalho.3 Alguns autores ponderam, ainda, que a maioria das instituições de saúde possui estrutura rígida, autoritária e imutável, dificultando a adaptação do funcionário ao ambiente de trabalho e propiciando o surgimento de ambientes estressantes. Em virtude dessas situações, os executores do trabalho acabam por buscando meios de compensar os sofrimentos gerados, tornando-se trabalhadores resistentes e pouco sensíveis ao sofrimento do outro.4

Nesse contexto, a equipe de enfermagem está quase sempre exposta a condições estressantes, principalmente em razão da grande carga emocional decorrente da relação profissional-paciente, da escassa equipe, dos turnos prolongados, das exigências físicas e da ambigüidade de papéis. Diversos estudos têm demonstrado que o trabalho da enfermagem, principalmente no âmbito hospitalar, é um dos mais estressantes para as pessoas que o desempenham.5,6

É digno de nota também o fato de que profissionais de enfermagem em ambientes fechados, como Centros de Terapia Intensiva (CTIs), estão sujeitos a um esgotamento físico e emocional muito grande. Considera-se que, além da necessidade de restringir o contato pessoal dessas unidades de trabalho, os profissionais devem ser ágeis e hábeis para trabalhar com situações de urgência e emergência, risco de vida, precariedade de recursos materiais, além de conhecer sobre tecnologias avançadas - o que exige permanente atualização.1 Ainda em relação ao CTI, o aparato tecnológico muitas vezes pode fazer com que a enfermagem se esqueça de visualizar, na essência, o ser humano que se encontra à sua frente.7

Na tentativa de compreender melhor a realidade de tais profissionais e detectar como eles reagem ao ambiente e às relações de trabalho, é importante investigar a saúde mental dessa equipe. O estudo da manifestação do estresse ocupacional na enfermagem pode ajudar a compreender e a elucidar alguns dos problemas enfrentados pela equipe, como a insatisfação profissional, a produção incipiente no trabalho, os acidentes que nele ocorrem, o absenteísmo e algumas doenças ocupacionais.8 O estresse ocupacional dos profissionais da enfermagem é um fator importante a ser mais bem compreendido, assim como outros que se interpõem na relação que a enfermagem estabelece com o trabalho, para que sejam implantadas medidas preventivas e intervenções eficazes e adequadas na promoção da saúde desses profissionais.5,9,10

Com base nos pressupostos apresentados, neste estudo teve-se como objetivo identificar a prevalência de autopercepção de estresse entre os membros de equipes de enfermagem de dois CTIs de adultos, buscando detectar possíveis variáveis associadas a essa percepção.

 

METODOLOGIA

Este estudo foi realizado em Montes Claros, norte do Estado de Minas Gerais. Embora geograficamente inserida na Região Sudeste, trata-se de uma região com indicadores mais próximos da Região Nordeste do País. A cidade possui, atualmente, cerca de 340 mil habitantes e representa o principal pólo urbano regional. No campo da assistência hospitalar, conta com três grandes hospitais para prestar assistência aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).

Nesse contexto, realizou-se esta pesquisa de cunho exploratório, descritivo, mediante um estudo transversal e abordagem quantitativa. Os campos de estudo foram dois Centros deTerapia Intensiva para adultos, existentes em dois hospitais da cidade. Ambos os hospitais são instituições filantrópicas e contam com mais de 200 leitos, cada um, destinados aos usuários do SUS. Cada CTI citado possui 10 leitos com ocupação plena na maior parte do tempo.

A população estudada foi constituída pelas duas equipes de enfermagem dos CTIs de adultos dos referidos hospitais a saber: 7 enfermeiros, 13 técnicos de enfermagem e 27 auxiliares de enfermagem.

Empregou-se como instrumento norteador para a obtenção dos dados deste estudo um questionário estruturado com dados sociodemográficos (cujas variáveis permitiram traçar o perfil dos participantes) e uma parte destinada a avaliar a percepção de manifestações de estresse pelos participantes em cada uma das funções ou situações apresentadas. Esse questionário foi elaborado por meio de instrumento5 previamente testado e os itens avaliados foram apresentados sob forma de escala de Likert, que permite medir o grau de intensidade de cada item avaliado.11

Para classificar os membros da equipe de enfermagem como estressados, tomou-se o último quartil da distribuição de pontos na escala de respostas de autopercepção. Inicialmente, calculou-se a distribuição de quartis de todo o grupo de variáveis dependentes e, em seguida, repetiu-se o cálculo para cada uma dessas variáveis. Desse modo, foi possível identificar quantos e quais eram os profissionais que mais referiam manifestações de estresse, bem como as principais atividades associadas a tais manifestações, segundo a percepção dos respondentes.

Antes da coleta de dados, um pré-teste foi realizado para verificar a adequação do instrumento de coleta de dados. Para isso, foi escolhido um grupo com as mesmas características da população incluída na pesquisa (CTI adulto de instituição privada), com o objetivo revisar e direcionar aspectos da investigação, avaliando a operacionalidade e a aplicabilidade do questionário.

A utilização do coeficiente alfa de Cronbach (α = 0,933) apontou um acréscimo de confiabilidade para α = 0,934 caso fosse retirada a variável "Atitude de seu cônjuge com respeito a sua carreira profissional". Isso significa que a variável em questão não contribui para a confiabilidade do estudo, entretanto ela foi mantida, uma vez que o valor do coeficiente já era significativamente alto para assegurar a confiabilidade do questionário.

O levantamento dos dados da pesquisa ocorreu em novembro de 2006, após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Montes Claros, por meio do Parecer Consubstanciado nº 425. Os profissionais que participaram da pesquisa assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Os dados coletados foram digitados e analisados nos softwares Epi Info e Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 12.0 para Windows.

 

RESULTADOS

A coleta de dados foi realizada com 23 profissionais da área da enfermagem em um dos Centros de Terapia Intensiva e 24, no outro. Não houve recusa para participação no estudo. Assim, os dados apresentados referem-se às análises de 47 entrevistas. As principais características do grupo estudado são apresentadas na TAB. 1.

 

 

Verifica-se que o grupo, em sua maioria, é formado por profissionais jovens e com discreto predomínio do gênero feminino. Em relação à composição familiar, a maioria é casada ou vive em união estável (57,4%). Aproximadamente metade do grupo (46,8%) possui um tempo de atuação inferior a cinco anos, todavia, cerca de um terço do grupo relatava um tempo de atuação na área de enfermagem superior a 10 anos.

Destaca-se, com base na análise da TAB. 1, que importante parcela da equipe trabalha com carga horária excessiva, assumindo, em tais condições, atividades de enfermagem em outras instituições hospitalares. A entrevista com a equipe identificou que pelo menos 16 trabalhadores (34,1%) atuavam em outras unidades de saúde.

Em relação ao questionário para avaliação de fatores estressantes, foram incluídas 49 questões, das quais 10 eram exclusivas para os profissionais de nível superior - enfermeiros. As demais questões referiam-se ao relacionamento com a chefia, à capacidade de enfrentar crises, à resistência a mudanças, à valorização pessoal, às dificuldades técnicas ou sobrecarga de trabalho, às relações pessoais no ambiente de trabalho, à remuneração, às questões familiares que podem interferir nas atividades de trabalho, à capacitação técnica pessoal, bem como dos colegas de trabalho. O QUADRO 1 apresenta, entre os itens investigados, os 10 mais destacados pelos entrevistados como fontes de estresse durante as atividades de trabalho.

 

 

Com base no ponto de corte estabelecido neste estudo (quartil superior dos escores dos questionários), foram definidos como "estressados" 15 (31,9%) trabalhadores.

 

 

A única variável que se mostrou estatisticamente associada à percepção de manifestações de estresse foi o excesso de carga horária semanal, com uma chance seis vezes maior para os membros da equipe com carga horária semanal superior a 60 horas perceberem manifestações de estresse (0R=6,17; IC95%=1,27-32,10).

 

DISCUSSÃO

Neste estudo buscou-se ampliar a compreensão do processo de trabalho das equipes de enfermagem que atuam em dois CTIs para adultos de hospitais de Montes Claros-MG, com enfoque nas fontes de estresse que freqüentemente se associam com a atividade. Apesar do mérito de representar um estudo pioneiro na região, algumas limitações devem ser consideradas no processo de análise de seus resultados. A população estudada constituiu-se de uma amostra de conveniência, mas, ainda que representasse o total de indivíduos das unidades estudadas, o contingente avaliado é pequeno e pode comprometer inferências futuras. Outro aspecto a ser considerado é que o instrumento de coleta de dados fundamentou-se em uma análise de autopercepção de estresse por parte dos membros da equipe, sem considerar manifestações explícitas do quadro clínico de estresse. Apesar dessas limitações, os resultados deste estudo são compatíveis com dados já consolidados pela literatura e possibilitam as considerações que se seguem.

O ambiente hospitalar, por si só, gera estresse nos mais diferentes níveis.3 A organização do trabalho hospitalar, as características próprias de um ambiente que lida com a dor, com o sofrimento e com a morte exigem dos profissionais da saúde permanente controle de suas emoções e sentimentos. Além dessas características, os múltiplos níveis de autoridade, a heterogeneidade de pessoal e a interdependência de atividades podem propiciar o surgimento de conflitos e desencadear manifestações de estresse.

Lunardi Filho e Leopardi12 enfatizaram que no ambiente hospitalar, dada a divisão do trabalho, ocorre também a divisão de suas condições, dos instrumentais e ferramentas e, conseqüentemente, a fragmentação no campo da sociabilidade, que se manifesta na distribuição de autoridade para o exercício hierárquico do poder diante das diferentes categorias profissionais. Nesse contexto, o profissional de enfermagem é, seguramente, a principal vítima das condições e dos agentes estressores. Destaca-se que o seu objeto de trabalho fundamenta-se em uma relação interpessoal intensa, estando a eficácia dele diretamente associada ao bom relacionamento entre as pessoas envolvidas no cuidado.13

A prevalência de autopercepção de manifestações de estresse em atividades habituais encontrada neste estudo (31,9%) é significativa e preocupante. Embora Lautert et al.6 tenham encontrado prevalência maior em seus estudos, saliente-se que o ponto de corte para os escores das respostas foi baseado na mediana, e não no quartil superior, como nesta investigação. É natural supor que, com cerca de um terço da equipe referindo situações que lhe geram ansiedade, a qualidade do trabalho de todo o grupo esteja comprometida.

Bianchi14 afirma que os trabalhadores de enfermagem estão continuamente aprisionados a uma ambigüidade de papéis que, de forma direta ou indireta, contribui para uma maior exposição às experiências de estresse no trabalho. São definidos cinco grandes grupos de fonte de pressão, percebidos no exercício profissional de funcionários, que denotam a amplitude das ações do corpo de enfermagem. Nesses grupos surgem desde os conflitos com o setor administrativo, incluindo aí a sobrecarga de trabalho, as dificuldades de relacionamento entre equipe médica e de enfermagem, a exposição a ambientes de riscos, a interação próxima com o sofrimento do paciente e os conflitos entre a vida pessoal e a organização de trabalho.

Neste estudo encontrou-se apenas uma variável associada às manifestações de estresse: a sobrecarga de trabalho (0R=6,17; IC95%=1,27-32,10). No estudo de Lautert et al.,6 que avaliou especificamente o estresse na atividade gerencial da equipe de enfermagem, a sobrecarga de trabalho também foi a variável que determinou maior estimativa de risco de estresse.

Destaca-se, nesta investigação, que a sobrecarga de trabalho apontada pelos entrevistados é, de fato, comprometedora da qualidade da assistência e das condições de estabilidade clínica do trabalhador. Não foi possível apontar, com base neste estudo, se a sobrecarga de trabalho referida pelos profissionais representa uma opção do trabalhador, tomando como parâmetro a necessidade de composição de uma renda familiar melhor, ou uma exigência das instituições, dada a carência de profissionais especializados para atuar em unidades de cuidados intensivos. A inserção em mais de uma jornada de trabalho já foi apontada pela literatura como um fator desencadeador de estresse para a equipe de enfermagem.8

No ambiente hospitalar, de acordo com Martino e Misko,15 vive-se uma realidade de trabalho cansativo e com muito desgaste em razão da convivência com a dor e com o sofrimento dos clientes. A crise existencial no trabalho de enfermagem, que faz com que seus profissionais experimentem insatisfação, ansiedade, desestímulo e acomodação por não visualizarem, no futuro, uma perspectiva de avanço, pode interferir no estado psicológico do sujeito. Pode-se afirmar que os trabalhadores do CTI com tempo de trabalho abaixo de 5 anos e acima de 10 anos parecem sofrer mais as influências do estresse no trabalho. Neste estudo não se identificou o tempo de atuação profissional como uma variável associada a manifestações de estresse, uma vez que não se investigou especificamente o tempo de atuação em terapia intensiva, e sim o tempo de atuação profissional na área da enfermagem.

Para Vila e Rossi,16 a equipe de enfermagem, provavelmente, está exposta a maior nível de estresse do que qualquer outra do hospital, uma vez que deve lidar não somente com a assistência a seus pacientes e familiares, mas também com suas próprias emoções e conflitos. O CTI representa, na estrutura hospitalar, talvez a maior unidade geradora de estresse, sendo as principais manifestações a fadiga física e emocional, a tensão e a ansiedade. Entre as fontes que produzem alto poder estressante, consideram-se o ambiente de crise, o risco contínuo para os pacientes ali internados, a sobrecarga de trabalho e a falta de reconhecimento dos profissionais. Lira17 corrobora essa afirmação ao dizer que o trabalho no CTI é estressante e gera fadiga pelo seu ritmo excessivo, por lidar com a vida e com a morte continuamente, por questões éticas nas quais cabem decisões freqüentes e difíceis pelo ambiente fechado, pelo alto grau de exigência dos demais profissionais de saúde, dos próprios pacientes e de seus familiares. Araújo7 acrescenta que o aparato tecnológico dominante nesse setor, muitas vezes, faz com que a equipe de enfermagem se esqueça de visualizar, na essência, o ser humano que se encontra diante dele.

O ambiente fechado do CTI é uma característica que merece destaque, uma vez que a equipe fica limitada ao relacionamento cotidiano, oque exige preparo psicológico e afinidade com o tipo de trabalho realizado. Dessa forma, sua equipe deve ser especializada, treinada, apta a atender os clientes e manejar os equipamentos com segurança e destreza. Entre os profissionais da equipe de enfermagem, os escolhidos para trabalhar no CTI são aqueles com maior experiência, preparo e, principalmente, que demonstram interesse pelas finalidades e objetivos do setor - que possuem iniciativa e responsabilidade, além de habilidade e agilidade no cuidado ao cliente, uma vez que o local possui equipamentos com tecnologia avançada, necessários a um bom atendimento. Tais competências foram também associadas a situações geradoras de estresse para o grupo estudado (QUADRO 1).

Segundo Pita,18 em situações de estresse, independentemente do fato gerador, os profissionais valem-se de mecanismos de defesas estruturados e socialmente categorizados, baseados em comportamentos identificados na relação profissional de saúde-paciente: fragmentação da relação técnico-paciente, redução do tempo de contato com a atividade e distribuição de tarefas com a equipe, despersonalização e negação da importância do indivíduo, distanciamento e negação de sentimentos, tentativa de eliminar decisões estabelecendo um ritual para o desempenho das funções e redução da responsabilidade, divisão das tarefas entre os vários profissionais, o que gera uma hierarquia flexível.

Destaque-se, ainda, que além de comprometer as ações do cuidado, em situações de sobrecarga, o contato constante com a doença, com o sofrimento e com a morte, bem como situações que ocorrem habitualmente de forma súbita e brutal em serviços de urgência, não permite o estabelecimento de estratégias de proteção psicológica por parte da enfermagem, o que pode repercutir na saúde mental desses trabalhadores em médio e longo prazo.19

Os resultados desta pesquisa apontam para a necessidade de que trabalhadores e instituições se ocupem mais em avaliar as condições de trabalho nos ambientes de terapia intensiva. De fato, entre as atividades referidas como desencadeadoras de manifestações de estresse para a equipe de enfermagem dos locais investigados, chamam a atenção o excesso de atividades e as longas jornadas de trabalho (QUADRO 1). Se o trabalho de enfermagem em si constitui um importante fator gerador de estresse resultante da interação de fatores ligados ao sono, à cronobiologia, à psicologia e às relações sociais,20 a sobrecarga de trabalho tende a precipitar desajustes do comportamento desses profissionais.15

Não foram identificadas, neste estudo, outras características sociodemográficas ou de condições de trabalho associadas a manifestações de estresse. Esse fato pode ser justificado pelo tamanho restrito da amostra, o que destaca a necessidade de novas pesquisas na área para melhor conhecimento das relações de trabalho e estresse na equipe de enfermagem. Discutir questões relacionadas com o estresse na equipe de enfermagem, particularmente em ambiente hospitalar, é sempre oportuno para propiciar o reencontro com as bases de sustentação do ato de cuidar. É, portanto, fundamental que se cuide da qualidade de vida e da saúde do trabalhador de enfermagem, já que ele se encontra inserido em uma organização de prestação de cuidados, sendo responsável por um atendimento de qualidade, e que precisa ser "cuidado para que possa cuidar" com excelência. A qualidade da assistência não pode se desvincular da qualidade de vida dos trabalhadores, uma vez que estes produzem algo que beneficia a vida das pessoas que irão usufruir o produto final, cabendo às instituições, proporcionar um trabalho digno para os trabalhadores da saúde.21

 

CONCLUSÃO

A pesquisa realizada com o intuito de identificar a autopercepção de estresse em equipe de enfermagem de terapia intensiva evidenciou que 31,9% dos participantes foram classificados como estressados. Embora não seja um número preocupante, o contingente de profissionais estressados é significativo, podendo refletir na qualidade dos serviços prestados por toda a equipe de modo geral, mas, principalmente, resultar em danos para a qualidade de vida dos trabalhadores.

As longas jornadas de trabalho e o excesso de atividades desenvolvidas por esses profissionais culminam em um trabalho penoso, que exige esforço físico e mental, desencadeando-lhes sofrimento, comprometimento do bem-estar, além de insatisfação. Todavia, alguns aspectos merecem ser apreciados em pesquisas futuras, como uma análise acurada sobre a manifestação de sintomas indicativos de sofrimento psíquico e de aspectos da vida pessoal dos participantes envolvidos.

Acredita-se que estudos dessa natureza possam oferecer subsídios para tratar o fenômeno sob novos enfoques, visando eliminar ou reduzir os efeitos nocivos do estresse ocupacional à saúde, bem como servir de base para o planejamento e a implementação de ações que busquem melhoria na qualidade de vida dos profissionais da enfermagem que trabalham em CTIs - ambientes fechados do hospital.

 

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