REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 12.2

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Pesquisa

O grupo de adolescentes na escola: a percepção dos participantes1

A teenage health group in school: the perception of the participants

Alisson AraújoI; Regina Lunardi RochaII; Lindalva Carvalho ArmondIII

IEnfermeiro. Mestre em Ciências da Saúde: Saúde da Criança e do Adolescente. Professor Assistente I do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Minas Gerais, Brasil
IIMédica pediatra. Doutora em Medicina Tropical. Professora Associada do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Minas Gerais, Brasil
IIIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Aposentada da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Membro do Setor de Saúde do Adolescente do Hospital das Clínicas da UFMG. Minas Gerais, Brasil

Endereço para correspondência

Rua Tuiti 93, Bairro São José
Divinópolis-MG. CEP 35501-215
E-mail: alissonenf@hotmail.com

Data de submissão: 24/10/2007
Data de aprovação: 12/8/2008

Resumo

Neste estudo, nossa proposta foi conhecer a percepção dos adolescentes sobre a participação deles em um grupo operativo realizado em uma escola estadual da cidade de Diamantina-MG. Para a coleta e a análise das informações, foi realizada uma pesquisa qualitativa com abordagem fenomenológica. Os depoimentos dos adolescentes permitiram construir três grandes categorias, que desvelaram a essência dessa participação no grupo operativo: "Aprendendo e ensinando ser-adolescente-com-os-outros", "Um caminho certo, rumo à idade adulta" e "Reconhecendo riscos à saúde na adolescência". Compreender como os participantes percebem o grupo operativo permitiu a aproximação com os adolescentes, bem como conhecê-los, descobrindo-os como um ser-no-mundo-com-os-outros, desvelando suas necessidades e valorizando-lhes a vivência. O estudo permitiu-nos perceber que as orientações adquiridas no presente podem contribuir para a implementação de ações futuras voltadas para os adolescentes e que, a sua abordagem por meio de grupos operativos pode ser um caminho para a construção de um futuro melhor.

Palavras-chave: Pesquisa em Enfermagem; Pesquisa Qualitativa; Filosofia em Enfermagem; Adolescente.

 

INTRODUÇÃO

A adolescência, rito de passagem da infância ao mundo adulto, é a etapa de vida compreendida entre 10 e 19 anos, marcada por um complexo processo de crescimento e desenvolvimento biopsicossocial.1

Surgem, nessa fase, diversas peculiaridades, como o desempenho de novos papéis sociais, a mudança na relação de dependência da família para o grupo de pares, além da escolha de um projeto de vida e dúvidas sobre as transformações biológicas ocorridas neles próprios em decorrência da puberdade. Diante de tais peculiaridades, que acarretam tantas mudanças de comportamentos esperados na adolescência, percebe-se quão particularmente valorizada essa fase deve ser, por caracterizar um período de maior vulnerabilidade dos adolescentes à exposição de riscos.2

Dentre esses riscos que constituem os principais agravos à saúde do adolescente podemos citar: as diversas formas de violência; uso de álcool, fumo e outras drogas; gravidez na adolescência; aborto e as doenças sexualmente transmissíveis/Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (DST/aids).3

Para o Ministério da Saúde (MS) do Brasil,

trabalhar essas questões na atenção à saúde dos adolescentes e jovens difere da assistência clínica individual e da simples informação ou repressão. O modelo a ser desenvolvido deve permitir uma discussão sobre as razões da adoção de um comportamento preventivo e o desenvolvimento de habilidades que permitam a resistência às pressões externas, a expressão de sentimentos, opiniões, dúvidas, inseguranças, medos e preconceitos, de forma a dar condições para o enfrentamento e a resolução de problemas e dificuldades do dia-a-dia.4

Imbuídos dessas premissas, em setembro de 2004, iniciou-se em uma escola estadual na cidade de Diamantina-MG o desenvolvimento de parte do ensino clínico da Disciplina Enfermagem na Saúde da Criança e do Adolescente do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Tal atividade baseou-se na observação, ao longo do tempo, do atual perfil de morbimortalidade dos adolescentes, na necessidade de conhecer e vislumbrar o adolescente no cenário escolar e na dificuldade de encontrarmos espaços nas instituições de saúde que tivessem abordagem específica para essa clientela.

Inserido nesse campo de prática como docente responsável pela disciplina em questão, pude, junto com os acadêmicos, por meio da estratégia de grupos operativos, programar ações de educação em saúde para esse importante grupo etário, enfatizando a promoção da saúde e a prevenção de agravos.

O grupo operativo, segundo seu precursor, Enrique Pichon-Revière, consiste em uma técnica de trabalho com grupos de pessoas reunidas por objetivos comuns, o que ele denomina vínculo. Visa a um processo de aprendizagem centrado na tarefa, que constitui a trajetória que o grupo percorre para atingir suas metas, que para Pichon-Revière é sinônimo de mudança.5,6

A mudança é exigida diante de uma problemática que é influenciada especialmente por fatos sociais, culturais e psíquicos, transformando não apenas a mente, como também as práticas e as relações que os participantes desenvolvem no cotidiano deles.7

Com relação à importância do grupo operativo para os adolescentes, vários autores explicam que a adolescência, como processo de desconstrução e reconstrução da identidade, traz consigo muitas tarefas que o jovem terá de cumprir no seu caminho rumo à conquista da personalidade adulta. As intensas transformações físicas, psíquicas e sociais desse momento tornam os adolescentes mais vulneráveis a diversas situações do seu dia-a-dia que possam pôr em risco a integridade deles. Por outro lado, o desconhecimento do processo de adolescência e a falta de espaços aos quais possam recorrer os tornam mais inseguros.8

Para tanto, os autores ressaltam a importância de criar espaços plurais onde os adolescentes possam se expressar de modo mais amplo, e não só receber informações, mas também falar de si mesmos, discutir melhor as suas questões e expor seus sentimentos, ou seja, onde possam ser vistos na sua singularidade. Embora seja importante focalizar o sujeito, é com outros que os adolescentes terão mais facilidade de se expressar. Nos grupos de adolescentes, todos estão vivenciando o mesmo processo, têm dúvidas e conflitos muito semelhantes, embora possam se apresentar distintos em alguns momentos, bem como podem compartilhar seus medos e anseios, suas alegrias e conquistas.8

Aos poucos, com o desenrolar das atividades, o vínculo entre professores, adolescentes e funcionários da escola foi crescendo. O término do estágio foi se aproximando, gerando questionamentos necessários e importantes, centrados nos principais atores deste cenário - os adolescentes. Dessa experiência ficaram as seguintes questões: O que é, para eles, o grupo de adolescentes na escola? O que significa, para eles, participar desse grupo?

Diante desses questionamentos e do que foi exposto, aprofundar esse campo de assistência ao adolescente, mediante a compreensão do que é vivenciado pelos participantes do grupo, só poderia ser possível a partir da óptica dos sujeitos que vivenciaram essa experiência concreta em seu mundo-vida (aquilo que o sujeito percebe com base na sua experiência de vida).

Assim, com este estudo teve-se como objetivo conhecer a percepção dos adolescentes sobre a participação deles em um grupo operativo na escola.

 

TRAJETÓRIA METODOLÓGICA

Para compreender o que significava para os adolescentes participar do grupo na escola, foi possível perceber, principalmente ao ouvi-los, que se estava diante de um emaranhado de questões subjetivas. A subjetividade ganhava força a cada reunião, facilmente observada pelo singular discurso e opinião de cada integrante naquele espaço plural. Era possível identificar diferentes expressões faciais, mãos tão frias quanto afáveis ao cumprimentar, perfumes e odores bem distintos, denotando, assim, a grande diversidade subjetiva do grupo composto, exclusivamente, por adolescentes.

Com base nessas percepções, foi possível entender que o objetivo não era buscar explicações causais desses comportamentos, tampouco a quantificação do número de adolescentes satisfeitos e insatisfeitos, amedrontados e participativos, mas ouvi-los, dar-lhes voz e espaço para as discussões de diversas questões.

As atividades em grupo foram realizadas pelos acadêmicos, sob minha supervisão, e aconteceram na própria escola. Todos os adolescentes foram convidados a participar, podendo optar ou não, segundo a vontade de cada um deles. Os grupos foram constituídos, no máximo, por 15 adolescentes e tinham duração de 50 a 60 minutos, ocorrendo semanalmente durante o período de realização do estágio nos meses de outubro, novembro e dezembro de 2004 e 2005. Os temas abordados incluíram: projeto de vida, auto-estima, sexualidade, afetividade, puberdade, DST/aids e outros assuntos demandados pelos adolescentes.

Para o desenvolvimento desses temas nas reuniões dos grupos operativos, utilizamos a metodologia participativa que parte da atuação efetiva dos participantes no processo educativo sem considerá-los meros receptores. Por meio de técnicas de dinâmica de grupo, jogos dramáticos e outros, os participantes conseguem, por meio da fantasia, trabalhar situações concretas.9

Nessa circunstância, para a realização do trabalho, a pesquisa qualitativa foi eleita como método de estudo, por valorizar as questões subjetivas na intenção de compreendê-las, e não simplesmente explicá-las. Concebeu-se a abordagem fenomenológica, por buscar compreender a essência da experiência dos sujeitos. Assim, a metodologia escolhida seria adequada ao que nos propusemos pesquisar: a vivência genuína e singular de cada adolescente participante do grupo operativo.

Para Capalbo,10 a fenomenologia é uma filosofia que "mostra, explicita, aclara, desvela as estruturas cotidianas do mundo-vida onde a experiência se verifica, deixando transparecer na descrição desta experiência vivida as suas estruturas universais".

De acordo com a metodologia em questão, não é possível precisar inicialmente o número de entrevistados, pois o critério para o término da coleta de dados será quando os discursos se tornarem repetitivos, mostrando o desvelamento do fenômeno. Assim, a coleta de dados encerrou-se quando percebemos a reincidência das falas, o que ocorreu com a realização de nove entrevistas.

O estudo contou, então, com a participação de nove adolescentes intregantes dos grupos operativos realizados na escola, localizada no bairro Bom Jesus, em Diamantina/MG. Todos eram solteiros e residentes nessa mesma localidade, estudantes matriculados na quinta série do Ensino Fundamental, sendo seis do sexo feminino e três do sexo masculino, com idades entre 10 e 15 anos.

O projeto de pesquisa foi executado após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pela direção da escola. Antes da coleta de dados, os adolescentes e seus responsáveis legais assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), obedecendo às normas de pesquisas envolvendo seres humanos - Resolução nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde.11

Neste trabalho, o objetivo foi compreender cada adolescente, buscando um caminho para a vida adulta como um pássaro necessitando voar para chegar a um lugar seguro. Dessa forma, para respeitar o anonimato dos entrevistados, estes foram identificados com nomes de pássaros por concordarmos com Dom Helder Câmara quando disse: "Ótimo que tua mão ajude o vôo, mas que jamais se atreva a tomar o lugar das asas".12

Os dados foram colhidos mediante entrevista aberta, utilizando a questão norteadora: Conta para mim o que significa para você participar do grupo de adolescente aqui na escola?

Após cada entrevista, o conteúdo foi transcrito e a gravação conferida com a transcrição obtida. Observou-se, também, o comportamento, os gestos, as expressões faciais, os momentos de silêncio e entonação de voz, assim como outras formas de comunicação não verbal que poderiam auxiliar na elucidação do fenômeno.

Para compreender os significados contidos nos discursos dos adolescentes, buscou-se respaldo nos três momentos da análise compreensiva sugerida por Martins e Bicudo13 -descrição, redução e compreensão fenomenológica. A trajetória por esses momentos permitiu construir três grandes categorias analíticas, que configuraram a essência da experiência dos adolescentes no grupo operativo: Categoria I - Aprendendo e ensinando ser-adolescente-com-os-outros; Categoria II - Um caminho certo rumo à idade adulta; Categoria III - Reconhecendo riscos à saúde na adolescência.

 

A CONSTRUÇÃO DOS RESULTADOS

Categoria I - Aprendendo e ensinando ser-adolescente-com-os-outros

Os discursos que permitiram construir essa categoria mostram que, para os adolescentes, o grupo operativo configura-se como um espaço tanto para aprender com os colegas, como também para ensinar-lhes "ser adolescente". As mudanças biopsicossociais da adolescência geram nos participantes dúvidas e questionamentos que necessitam ser esclarecidos mediante a aquisição de outros conhecimentos, assim como das explicações sobre os mitos e tabus dessa fase.

Para os participantes, o grupo de adolescentes é um momento de satisfação, pois aprendem o que não sabem e ensinam o que já sabem sobre a adolescência em conjunto. Dessa forma, extrapolam o próprio "eu" para, juntamente aos colegas, se transformarem em "nós", "a gente"; a partir da vivência grupal são "pré-senças" por meio do ensinar e do aprender durante as atividades propostas:

[...] eu acho até legal. É divertido, nós temos várias idéias legais, significa tudo de bom. A gente aprende muito com um, um com os outros. Eu tento ensinar o que meus colegas não sabem e tento também aprender com eles o que eu não sei. Significa tudo de bom pra mim. (Andorinha)

[...] um ensina o outro e aprende com o outro também [...]. (Gaivota)

Ah, importante por que a gente aprende o que a gente não sabe, ah muito legal, né? (Rouxinol)

Dessa forma, aprendendo e ensinando com os outros, os participantes se fazem presentes pelo encontro. Para Heidegger,14 esse encontro com o outro é adquirido com a pré-sença. Pré-sença aqui, considerada espacialidade, permitindo que o ser humano possa sentir-se distante ou próximo de outros ou das coisas, denotado, assim, pela sua maneira de ser, o que possibilita a cada um a construção de seu próprio espaço.

Estar com outros que vivenciam o mesmo processo de adolescer, em que alegrias, angústias, conquistas e conflitos são experienciados por todos, faz surgir um senso de "pertencer" que fortalece a confiança nas relações entre os participantes. Essa convivência promove segurança, oportunizando esclarecer dúvidas geradas pela vergonha de se perguntar a outros sobre algo íntimo.

A gente aprende muita coisa que a gente gostaria de aprender, queria aprender, mas... tinha vergonha de perguntar alguém. (Rouxinol)

Dentre as situações que demandam do adolescente um novo aprendizado, temos a convivência com outras pessoas, como família, amigos e professores, como uma das principais tarefas que o adolescente deverá cumprir nessa fase. Este relacionar-se com os outros se torna tarefa complexa, pois o processo de luto vivenciado na adolescência - perda do corpo infantil, perda dos pais da infância e perda da identidade e papel infantil - gera em si um repensar tanto do seu próprio papel quanto do papel dos outros em sua vida.15

As discussões em grupo, a respeito do próprio desenvolvimento deles, da dinâmica familiar e das relações afetivas com colegas e professores, possibilitam aos adolescentes aprender a lidar com as dificuldades na convivência com os outros:

Aprendi a conviver melhor com os pais. É, melhor, sem briga né?, com os irmãos, com os amigos. (Gaivota)

Aprender conviver com as pessoas, os colegas. Dar exemplos aos colegas, conviver com os professores, todo mundo da escola. (Cotovia)

Os discursos revelam que a forma, o caminho e o método utilizado nos grupos para discutir questões da adolescência são importantes para facilitar o aprendizado dos participantes. Com a metodologia participativa valorizam-se os conhecimentos e experiências dos integrantes, envolvendo-os na discussão, na identificação e na busca de soluções para problemas que emergem da vida cotidiana.9

Tanto a condição de que os adolescentes e os acadêmicos coordenadores do grupo são aprendizes quanto o uso de dinâmicas grupais e de teatro fazem com que os assuntos se tornem mais interessantes e prazerosos em uma esfera de aprendizado mútuo:

[...] eles (acadêmicos) ensinam muita coisa a gente, a gente aprende muita coisa, também aprendem eles. Ensina a gente o caminho sempre certo que nem aquela vez no teatro lá quê que aconteceu lá, com aquela menina. Aquele teatro sobre a menina que tinha amiga dela oferecendo a ela drogas. Ela foi, usou e aí ficou gostando [...]. (Bem-te-vi)

[...] dá mais força, aulinha e tudo. Faz umas brincadeirinhas importantes pra ajudar a gente na adolescência, da família em casa, da mãe não deixar sair a noite, da roupa que a gente veste... pra estudar! Muita coisa; achei muito legal. (Arara)

Categoria II - Um caminho certo, rumo à idade adulta

A vivência da dúvida, da desilusão e da solidão experimentadas na adolescência em decorrência das intensas transformações dessa fase pode tornar o adolescente sem direção nessa travessia da infância para o mundo adulto.

Assim, na compreensão dos adolescentes participantes, o grupo é considerado fator de proteção da integridade física e moral deles, por trazer à baila assuntos que podem desviá-los de um caminho que consideram ser "bom" para a vida deles, mas não é. Acreditam que, conhecendo o processo de adolescer e suas vulnerabilidades, terão outras possibilidades diferentes das que identificam como um caminho "ruim", no envolver-se futuramente com a violência, marginalidade, o uso de álcool e outras drogas:

Eu acho muito bom por causa que ensina muitas coisas. Ensina ficar longe das drogas, da violência, a pessoa ser mais calma e ser mais... mais respeitada, respeitar as pessoas, ser de bom (bem). Faz a pessoa ficar longe dos bares, bebendo, faz arrumar algum trabalho bom e a pessoa não fica roubando nem matando. (Sabiá)

Ser participante do grupo com outros adolescentes oportuniza um comportamento diferente do que é vivenciado fora dele, constituindo outra opção. A escolha do adolescente ao assumir os comportamentos que coloquem sua própria vida em risco está pautada pelo "currículo oculto" que ele traz consigo. Essa denominação é explicada como algo apreendido em termos de valores familiares, mesmo antes de seu nascimento até a adolescência.16

Dessa forma, os adolescentes tendem a se vincular a amigos e ao grupo de pares que espelham seus próprios valores e semelhanças, sendo que a família tem uma influência sobre essa escolha de modo mais expressivo do que se pensava. Uma relação muito conflituosa com as figuras parentais tende a levar os adolescentes a se orientarem predominantemente pelo grupo. Se o grupo molda inúmeros comportamentos, assim como atitudes e linguagem transitórias, os pais acabam tendo maior ascendência em questões de ordem moral ou nas escolhas em longo prazo.17 No mundo-vida do adolescente participante do grupo, o caminho "ruim" é distinguível e a escola é vista como uma ocupação que também conduz ao "bom" caminho:

[...] tem vez que tem uns avacalhando os grupos oferecendo a gente as coisas, cigarro, chamando a gente pra sair assim. Têm uns amigos assim que chama a gente pra sair, assim pra beber! Tipo assim aqui na sala (escola) tem o grupo da gente. A gente não faz nada não... só os amigos mesmo. (Bem-te-vi)

Para os adolescentes, o grupo possibilita uma projeção do futuro com base no presente, em que o "querer ser" torna-se exeqüível pelo "como ser". Cria-se um futuro, em grande parte, baseado nas nossas ações, as quais dependem da percepção que se tem ou se deixa de ter da realidade presente e das decisões e ações por meio das quais se responde às percepções.18

Nesse contexto, a discussão em grupo sobre a prevenção do uso de álcool e de drogas, o uso de métodos contraceptivos, prevenção das DSTs/aids, dentre outros, trouxeram aos adolescentes a responsabilidade de construir seus projetos de vida, nos quais a escolha profissional também depende de um passado que um dia foi presente:

Significa que eu estou mudando a minha vida quando eu crescer... Eu posso ser médico, dentista, alguma profissão boa... Ah, muita coisa! Ele (o grupo) vem pra mostrar a gente um bom caminho! (Sabiá)

Nessa busca por um caminho rumo à vida adulta, no relacionar-se com os outros integrantes do grupo é que se constrói a relação ser-com-o-outro. No grupo, esse modo de ouvir e falar atenta e pacientemente, de maneira envolvente e significativa, é, segundo Heidegger, denominado de solicitude. Portanto, para esse autor, existem duas formas de solicitude. Uma possibilidade é a de dominar o outro, transferindo/retirando dele o cuidado próprio e subtraindo-lhe o seu posto nas ocupações pelas quais deveria ser responsável. A segunda possibilita ao outro fazer e construir os seus próprios caminhos, crescer, avançar e amadurecer, encontrar-se consigo mesmo.14

O grupo de adolescentes constituído na escola tem como prerrogativa esta última, o cuidar autêntico, por meio do qual acreditamos que o sujeito imbuído de informações sobre a adolescência e suas nuances torna-se ainda mais capaz de trilhar seus próprios caminhos com segurança e saúde.

Categoria III - Reconhecendo riscos à saúde na adolescência

Os adolescentes participantes do grupo operativo discorrem sobre a importância das atividades desenvolvidas para abordarem os riscos à saúde na adolescência. Eles reconhecem que dentre esses riscos, o uso do fumo, do álcool e de outras drogas traz conseqüências negativas não somente sobre a saúde como também sobre família deles.

Muito bom, a gente aprende mais! Aprende não mexer com drogas, não ficar assim com um grupinho assim que mexe com esses trem... para gente afastar... (Tesourinha).

Pra gente saber o que a gente deve fazer e o que a gente não deve. Coisas certas: não fumar... não beber... ah um tanto de coisa... Se fumar vai estar prejudicando a saúde e a si mesmo; se beber pode causar várias brigas em casa... Igual a meu tio mesmo, ele era muito agressivo, mas agora ele está pro Alcoólicos Anônimos (AA). (Rolinha)

Os adolescentes compreendem que, apesar de possuírem características, comportamentos e atitudes semelhantes às de seus pares, não necessariamente precisam seguir os hábitos prejudiciais à saúde, conferindo, assim, autonomia sobre os atos deles:

Participar do grupo é ser adolescente com os outros amigos da gente! Fazer quase sempre as mesmas coisas que eles fazem, mas não seguir as coisas ruins que eles fazem. Os meninos que bebem assim chamam a gente pra beber, mas a gente não vai, a gente fica na nossa e fala com eles, pra eles irem, que a gente não vai, que a gente não pode ir porque depois vicia aí fica aí sem solução, num dá certo! (Bem-te-vi)

Outro risco à saúde discutido nas atividades grupais e relatado pelos adolescentes é o de contrair uma DST/aids. A desinformação e a falta de suportes psicológico e social têm acarretado a atividade sexual dos adolescentes cada vez mais cedo, tornando-os, assim, mais expostos a riscos de saúde. Além disso, a influência dos pares faz com que os adolescentes adotem comportamentos sem estarem preparados, como é o caso do uso indevido de drogas.19

Os adolescentes participantes sentem-se satisfeitos e seguros por estarem aprendendo com os acadêmicos, que detêm certo grau de conhecimento do tema, e também lisonjeados por perceberem que alguém de um nível de escolaridade maior preocupa-se com eles:

Ah... pra mim participar é um prazer por causa que eles vêm lá de longe pra ensinar a gente essas coisas assim... ensina sobre as doenças que podem ser causadas, igual à aids. (Sabiá)

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao término desta investigação, foi possível constatar a relevância do grupo operativo para o jovem participante: espaço de aprender e ensinar questões da adolescência com outros coetâneos e também com outros mais velhos, procurando um "bom" caminho que os leve a uma vida melhor e mais saudável no futuro.

Compreender como o adolescente percebe o grupo operativo possibilitou um aprofundamento no campo de assistência que valoriza as vivências dos participantes. A troca de experiências entre os integrantes no grupo faz com que se percebam ora como iguais, ora como duvidosos e incapazes, ora como diferentes e sábios e capazes. Essa ambivalência aumenta o senso de pertencimento ao grupo e a necessidade de atentar-se ainda mais para o cuidado com a própria vida. Dessa forma, o grupo ganha certa referência de orientação no caminho para a idade adulta, o que é pessoal e intransferível.

Cabe ressaltar a importância da metodologia participativa utilizada nas reuniões. Os adolescentes percebem que esse método facilita o aprendizado de forma interessante e criativa, pois podem posicionar-se, ouvir e falar do intramundo juvenil deles.

O desocultamento do fenômeno indica uma revisão indispensável quanto ao sentido das atividades educativas destinadas aos adolescentes. Muito mais que apenas informar, essas atividades precisam ser construídas, elaboradas com a participação ativa daqueles a quem se destina: os adolescentes. Assim, é na concretude da experiência que os adolescentes poderão vislumbrar a manutenção e a aquisição de hábitos que os preservem, bem como possíveis mudanças de atitudes e comportamentos que coloquem em risco o projeto de vida deles.

 

REFERÊNCIAS

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1 Texto extraído da dissertação de mestrado defendida na Faculdade de Medicina da UFMG.

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