REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

Busca Avançada

Volume: 12.3

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Pesquisa

Validação de instrumentos de coleta de dados de enfermagem em unidade de tratamento intensivo de adultos*

Validation of nursing data collection tools in adult intensive care units

Meire Chucre TannureI; Tânia Couto Machado ChiancaII; Tatiana BedranIII; Andreza WerliIV; Caroline Rodrigues de AndradeV

IEnfermeira Especialista em Terapia Intensiva PUC Minas. Mestre em Enfermagem pela EEUFMG. Doutoranda em Enfermagem pela EEUFMG. Docente da Evaluation of Research Programs and Tools da PUC Minas e da Pós-Graduação da Faculdade Pitágoras
IIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Associada da EEUFMG
IIIEnfermeira Especialista em Enfermagem em Terapia Intensiva e Nefrologia. Mestranda em Enfermagem pela EEUFMG
IVEnfermeira do Centro de Terapia Intensiva adulto do Hospital Risoleta Neves. Especialista em Infecção Hospitalar pelo Hospital das Clínicas da UFMG. Mestranda em Enfermagem pela EEUFMG
VDiscente do Curso de Enfermagem da Escola de Enfermagem da UFMG. Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/CNPQ do NUPESC-UFMG

Endereço para correspondência

Avenida Balsamar, 235, Jaraguá
CEP: 31270-520. Belo Horizonte-MG
E-mail: meirechucre@terra.com.br

Data de submissão: 20/8/2008
Data de aprovação: 27/11/2008

Resumo

Trata-se de um trabalho que consistiu na elaboração e validação de instrumentos de coleta de dados (anamnese e exame físico) estruturados em três etapas distintas: confecção dos instrumentos fundamentados da teoria das necessidades humanas básicas (NHB), de Wanda de Aguiar Horta, validação desses instrumentos por um grupo de 27 enfermeiros de UTIs de Belo Horizonte e da Região Metropolitana e refinamento dos itens do instrumento de coleta de dados utilizando o programa Statistical Package for Social Science (SPSS), versão 11.5. Os dados foram analisados por meio da estatística descritiva (freqüência, média, mediana e desvio-padrão) e pelo cálculo do Alpha Cronbach. Foi considerado aceitável um índice total de concordância de 80%. Na análise individual, itens que na matriz do Alpha Cronbach obtiveram um valor maior que 0,9 foram analisados pelo grupo de pesquisadoras a fim de avaliar a correlação deles com itens já descritos nos impressos. A validação foi realizada por enfermeiros que possuíam pós-graduação em UTI, mestrado e/ou doutorado na área de enfermagem ou correlatas, ou experiência profissional de, no mínimo, dois anos de prática em UTI. Embora não tenham descrito que tinham conhecimento sobre a teoria, os enfermeiros julgaram os itens dos impressos pertinentes à realidade em UTI adulto, o que evidencia que fundamentos da teoria das NHB são incorporados à prática profissional, e isso pode facilitar a sistematização da assistência de enfermagem fundamentada nesse referencial teórico.

Palavras-chave: Teoria de Enfermagem; Cuidados de Enfermagem; Avaliação de Programas e Instrumentos de Pesquisa; Coleta de Dados; Unidade de Terapia Intensiva; Adulto

 

INTRODUÇÃO

As atuais políticas públicas de saúde têm gerado a necessidade da reorganização da assistência de enfermagem prestada aos pacientes, fundamentada em conhecimentos científicos e direcionada por um marco conceitual que favoreça uma abordagem holística e individualizada a fim de possibilitar uma assistência voltada para a integralidade do ser.

O Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) preconizou que a assistência de enfermagem deve ser sistematizada.1 A nosso ver, um marco conceitual deve ser empregado para direcionar as ações na Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), o qual pode ser uma teoria de enfermagem, uma vez que as teorias servem como um guia para a prática, por terem nascido do exercício prático da profissão.2

A SAE é um instrumento que o profissional enfermeiro dispõe para aplicar seus conhecimentos técnicocientíficos e humanos na assistência aos pacientes.3,4 A SAE contribui para a caracterização do corpo de conhecimentos da enfermagem, beneficiando o cliente e a família pela promoção de maior interação e estímulo à participação no cuidado, além de favorecer o desenvolvimento do ensino e da pesquisa.5

Para sistematizar a assistência de enfermagem utilizando uma teoria, porém, é importante o emprego de instrumentos que auxiliem na aplicabilidade de seus conceitos e princípios, e o processo de enfermagem (PE) pode ser utilizado para essa finalidade. 6

O PE é composto por etapas que são interligadas entre si: investigação, diagnóstico, planejamento, implementação e avaliação de enfermagem, podendo favorecer o direcionamento, a organização e o registro do cuidado prestado aos pacientes.7

Cabe ressaltar que a partir da utilização do PE os enfermeiros passaram a buscar a individualização da assistência focando o cuidado nas esferas biopsicossocial e espiritual.8 Essa realidade assume maior impacto, sobretudo, quando nos remetemos às unidades de terapia intensiva (UTIs). O número reduzido de vagas e a elevada procura por esses serviços, além do número de procedimentos realizados, levam a repensar sobre a necessidade de reorganização das ações executadas, além do acompanhamento delas. Além disso, considerase necessário um redirecionamento dos cuidados nessas unidades, a fim de que sejam voltados para os seres humanos e não apenas para a doença, a tecnologia ou trauma aos quais os pacientes estão submetidos.

A internação em UTI é precedida de comprometimentos orgânicos, presentes e potenciais, que colocam em risco a vida do ser doente. Esse fato acaba favorecendo a manutenção de uma assistência norteada pelo modelo biomédico, que fragmenta o sujeito e dificulta a interação entre os atores do cuidar.9

Os enfermeiros desejam aplicar a SAE na prática de forma que produza resultados que possam ser mensurados, permitindo aprofundar os conhecimentos e melhorar a qualidade da assistência e do registro das informações de enfermagem.10 Além disso, a sistematização das ações pode permitir maior contato entre enfermeiros e pacientes, favorecendo a criação de vínculos e a melhoria do atendimento.

No entanto, existe, na prática, a necessidade de instrumentalizar os enfermeiros de modo que esse contato e as ações sejam mais efetivos. A utilização de instrumentos de registros fundamentados em uma teoria de enfermagem pode atender a essa necessidade, além de favorecer a melhor administração do tempo entre atividades assistenciais e gerenciais.11 Assim, esse estudo foi proposto com o objetivo de elaborar e validar instrumentos de coleta de dados para pacientes internados em UTI, fundamentado-se na teoria das Necessidades Humanas Básicas (NHBs), de Wanda de Aguiar Horta.12

A justificativa pela escolha dessa teoria se deu em virtude de ser ela prescritiva,13 ser aplicada à UTI, compreender o ser humano e sua família como alvo do cuidado, além de avaliar e prestar uma assistência voltada para as necessidades psicobiológicas, psicoespirituais e psicossociais. Essas particularidades da teoria atendem ao que vem sendo preconizado pelas atuais políticas públicas de saúde e são fundamentais para a efetiva humanização da assistência e implantação da SAE nessas unidades. Cabe ressaltar, ainda, que os pacientes internados em UTI, dada a complexidade do quadro clínico deles, apresentam suas NHBs afetadas, requerendo intervenções por parte dos profissionais enfermeiros.1

 

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo que consistiu na elaboração e na validação de instrumentos de coleta de dados, estruturados em três distintas etapas: na primeira etapa foram confeccionados os instrumentos de coleta de dados - um para anamnese do paciente e outro para exame físico. Na segunda etapa, foi realizada a validação do instrumento por peritos e na terceira foi feito o refinamento deste.14

Primeira etapa: confecção do instrumento de coleta de dados

Inicialmente, realizou-se um levantamento bibliográfico em bases de dados da Biblioteca Virtual de Saúde (BVS) utilizando os descritores "coleta de dados", "anamnese" e "exame físico", bem como em livros-textos que abordam temas relacionados a conteúdos de semiologia, a fim de obter informações relativas a dados, objetivos e subjetivos, essenciais sobre os pacientes. A busca bibliográfica subsidiou a construção dos instrumentos de coleta de dados.

O referencial teórico selecionado para a elaboração do instrumento foi a teoria das NHBs.12 Tanto os itens relativos à anamnese quanto ao exame físico foram dispostos respeitando o modelo e, portanto, utilizando as categorias de NHB psicobiológicas, psicoespirituais e psicossociais.

Segunda etapa: validação do instrumento de coleta de dados

Oconceito de validade está sempre associado ao conceito de fidedignidade de um item ou de um grupo de itens. A fidedignidade de um conceito deve ser entendida como a medida de concordância dos profissionais sobre os itens que compõem um instrumento. Validar um instrumento implica identificar se os itens que o compõem medem aquilo a que se propõe medir.15

O instrumento foi entregue a 58 peritos para ser avaliado em relação ao conteúdo e à aparência. Cabe ressaltar que foram contempladas 29 UTIs de Belo Horizonte e da Região Metropolitana, sendo entregues dois impressos em cada uma dessas unidades. Os critérios utilizados para a escolha dos peritos foram: ser enfermeiros com pósgraduação em UTI, mestrado e/ou doutorado na área de enfermagem ou correlatas, ou experiência profissional de no mínimo dois anos de prática assistencial em UTI de adultos.

Os enfermeiros avaliaram as NHBs contempladas no instrumento e os itens que as compunham, julgandolhes a pertinência e a adequação. Nesse sentido, testaram sua aplicabilidade na avaliação do paciente crítico internado em UTI. Utilizou-se uma escala de avaliação na qual os profissionais deveriam assinalar se concordavam com a pertinência e a adequação de cada item no instrumento, ou discordavam delas, e, ainda, um espaço foi destinado a sugestões para acréscimos, retiradas ou modificações nos itens dele.

Terceira etapa: refinamento dos itens do instrumento de coleta de dados

O processamento e a análise dos dados foram realizados no programa Statistical Package for Social Science (SPSS), versão 11.5. Os dados foram analisados por meio da estatística descritiva (freqüência, média, mediana e desvio-padrão). Foram estabelecidos índices de concordância para todos os itens constantes no instrumento, individualmente, sendo verificada a consistência interna pelo cálculo do Alpha Cronbach.

Inicialmente, foi avaliado o índice total de consistência interna dos itens constantes no instrumento, sendo considerado aceitável um índice total de concordância de 80%. A seguir, foi avaliada a matriz do Alpha Cronbach, gerada pelo programa, onde os índices de correlação entre cada um dos itens do instrumento foram apresentados. Cada item do instrumento foi avaliado individualmente em relação aos demais. Itens cuja análise na matriz do Alpha Cronbach obteve valor maior que 0,9 foram reanalisados pelas pesquisadoras, a fim de detectar similaridades entre os itens do instrumento. Nos casos em que a similaridade dos conteúdos dos itens era constatada, aceitava-se a correlação (Alpha Cronbach>0,9) e excluía-se um dos itens. Entendia-se que, na opinião dos peritos, o item estava repetitivo no instrumento. Nas situações em que a similaridade não existia, optou-se pela manutenção dos itens.

A coleta de dados foi realizada após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa (COEP) da Universidade Federal de Minas Gerais (Parecer COEP nº 565/06) e seguindo as recomendações da Resolução nº 196/96 e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido por parte dos enfermeiros.16 O anonimato dos participantes foi garantido.

 

RESULTADOS

Confecção do instrumento de coleta de dados

A primeira etapa do estudo abrangeu a construção do instrumento de coleta de dados (Anexos I e II) respaldados na teoria de enfermagem das NHBs, de Wanda de Aguiar Horta.

Na parte do instrumento relativa à anamnese, foram contemplados os dados relacionados à identificação; motivos da internação, história pregressa, conhecimentos do paciente e familiares sobre a doença e o tratamento; controle da saúde, hábitos de vida, necessidades psicoespirituaisepsicossociais(segurança/estadoemocional prévio, orientação prévia no tempo e espaço/comunicação/atenção; interação social/gregária/participação/amor; recreação/lazer/criatividade, aprendizagem/auto-estima/auto-imagem/auto-realização, liberdade e aceitação). No item referente às necessidades psicobiológicas, encontram-se dados subjetivos referentes percepção de órgãos dos sentidos, cuidado corporal, hábito de sono e repouso, nutrição e hidratação, mecânica corporal/motilidade/locomoção, exercícios e atividades físicas, integridade física/cutâneo-mucosa, eliminações urinária e intestinal, terapêutica, sexualidade, ambiente e abrigo. Todos os dados foram selecionados de acordo com o referencial teórico das NHBs e as especificidades de pacientes internados em UTI de adultos.

No impresso de evolução de enfermagemforam inseridos dados referentes ao exame físico e às necessidades psicobiológicas, psicoespiriruais e psicossociais. Os itens descritos relacionam-se à regulação neurológica/escala de coma de Glasgow e escala de Ramsay; informações sobre segurança emocional, sono e repouso, regulação térmica, coloração e hidratação da pele e das mucosas, cuidado corporal, exames na cabeça, olhos, ouvidos, garganta e região cervical, alimentação, tórax, oxigenação, regulação vascular, regulação abdominal, genitálias, eliminação urinária, eliminação intestinal, membros superiores e inferiores, integridade física/cutâneo-mucosa, soluções em infusão, medicamentos em uso, dados relacionados à glicemia capilar, dispositivos de assistência, ocorrências durante o plantão e ações para o turno seguinte.

Perfil dos enfermeiros

Dos 58 instrumentos enviados, houve o retorno de 27 (46,5%). A idade média dos 27 enfermeiros que participaram do estudo foi de 30,7 anos, sendo a idade mínima de 24 e máxima de 48 anos, com um desviopadrão de 5,9 anos, o que já era esperado, uma vez que não houve grande variação na idade dos entrevistados. O tempo de experiência em UTI adulto foi, em média, de 6 a 12 anos, com mediana de 6, desvio-padrão de 3 a 3, mínimo de 2 e máximo de 13 anos. Dos 27 enfermeiros, 10 (37%) possuem menos de cinco anos de experiência em UTI, 12 (44%) apresentaram entre cinco e dez anos e cinco (19%) acima de dez anos de experiência em UTI e trabalham em 21 instituições de saúde de Belo Horizonte-MG, dezenove (70,4%) são especialistas em terapia intensiva adulto, três (11,1% ), em outras áreas, quatro (14,8%) afirmaram que eram especialistas, mas não especificaram a área, e apenas um (3,7%) não tem formação no nível Lato Sensu, mas tinha mais do que dois anos de experiência em terapia intensiva de adultos.

Dos enfermeiros, vinte e três (85,2%) referiram que tinham algum conhecimento sobre teorias de enfermagem e sobre as etapas do PE. Dentre as teorias conhecidas e apontadas para guiar o PE, dois (7,4%) citaram a teoria do déficit do autocuidado da Dorothea Orem; dois (7,4%), a teoria da conservação de energia de Myra Estrin Levine; três (11,1) a teoria das Necessidades Humanas Básicas, de Wanda de Aguiar Horta; quatro (14,8%), a teoria da adaptação de Syster Callista Roy. A maioria, dezesseis (59,3%), não citou nenhuma teoria de enfermagem apesar de terem referido algum conhecimento sobre as mesmas.

Validação do instrumento de coleta de dados

Os itens constantes nos instrumentos relativos às NHBs pesquisadas mostraram ser confiáveis para a avaliação de pacientes internados em UTI de Belo Horizonte e da Região Metropolitana na percepção dos peritos, uma vez que foi encontrado um índice total de Alpha Cronbach de 0,81 para a parte do instrumento relativa à anamnese e 0,89 para a relativa a dados de exame físico superiores a 0,80, considerado aceitável.17

Refinamento dos itens do instrumento de coleta de dados

Após a avaliação do instrumento de coleta de dados pelos peritos, foi realizado o refinamento de itens contidos no instrumento relativo à anamnese e ao exame físico. Os peritos sugeriram exclusões, reorganização e até mesmo acréscimos de itens. As sugestões dos profissionais variaram entre um (3,7%) e sete (25,9%), com uma média de quatro (14,8%) sugestões por indivíduo. O grupo de pesquisadores avaliou as sugestões. Aquelas consideradas pertinentes e que não contrariavam os conceitos estabelecidos na teoria das NHBs, representando melhoria na qualidade dos itens que compõem os impressos de coleta de dados, foram consideradas.

Além da avaliação sobre a pertinência das considerações realizadas pelos peritos, comparou-se cada item dos impressos com os resultados obtidos na matriz do Alpha Cronbach. Mantiveram-se itens do instrumento de coleta de dados cujos valores na análise na matriz foram menores que 0,9 e negativos. Itens cuja análise na matriz do Alpha Cronbach obteve valor maior que 0,9 foram reanalisados pelas pesquisadoras.

As alterações realizadas no instrumento de anamnese, após as análises, consistiram na junção de dois itens: motivos da internação no hospital e motivos da internação na UTI e exclusão do agrupamento de itens sobre a necessidade de oxigenação do instrumento de anmnese, uma vez que esses dados relacionados a essa necessidade estavam sendo contemplados também na parte referente ao exame físico.

As alterações realizadas no impresso de exame físico referiram-se à unificação da escala de coma de Glasgow e de Ramsay, juntamente com o item de regulação neurológica.

Além desses dados, os itens do instrumento de exame físico, relacionados às necessidades psicoespitituais psicossociais, também receberam valor superior a 0,9 na matriz do Alpha Cronbach. Optou-se, então, por agrupálos em um único item sem, contudo, excluí-los, pois, de acordo com a teoria das NHBs, requerem avaliação por parte dos enfermeiros.

Outros itens mantidos, apesar do valor positivo de correlação segundo a matriz do Alpha Cronbach, foram exame abdominal, regulação vascular, regulação térmica, oxigenação, nutrição, eliminação urinária, eliminação intestinal. Considera-se que dados relacionados a esses itens são relevantes para a elaboração do raciocínio clínico por parte do grupo de enfermeiros e fundamentais para a formulação de diagnósticos e prescrições de enfermagem para esse tipo de clientela.

Todos os demais itens do instrumento, na análise da matriz, foram menores que 0,9 e negativos, por esse motivo não foram alterados.

 

DISCUSSÃO

Considera-se que o instrumento elaborado contempla a necessidade de coleta de dados com os pacientes internados em UTI, bem como os fundamentos da teoria das NHB segundo a opinião dos peritos.

A validação foi realizada por enfermeiros com experiência em terapia intensiva e que, embora não tenham descrito ter conhecimento sobre a teoria em questão, julgaram itens dos impressos pertinentes à realidade em UTI, o que evidencia que alguns dos fundamentos da teoria das NHBs são incorporados à prática profissional. Isso pode facilitar a sistematização da assistência de enfermagem fundamentada nesse referencial teórico.

A teoria das NHBs preconiza que o foco do trabalho da enfermagem é que leva o ser humano ao estado de equilíbrio pelo atendimento de suas NHBs psicobiológicas, psicossociais e psicoespirituais, as quais estão intimamente relacionadas, uma vez que fazem parte de um todo indivisível.12,13 Todas essas necessidades foram contempladas no instrumento e divididas em subgrupos. Por esse motivo, mesmo recebendo, no instrumento de exame físico, um valor superior na matriz do Alpha Cronbach, optou-se por manter os itens de necessidades psicoespitituais e psicossociais.

As necessidades são inter-relacionadas e fazem parte de um todo indivisível: o ser humano. Assim, quando qualquer uma das necessidades se manifesta, observase algum grau de alteração nas demais, seja por desequilíbrio causado por falta ou excesso de qualquer uma delas.12 Desse modo, havendo acometimento de necessidades psicobiológicas, que muitas vezes é foco do enfermeiro intensivista, haverá desequilíbrio das demais necessidades e, desse modo, a avaliação de todas elas se faz necessária.

Sabe-se que a UTI é um serviço de internação para pacientes críticos, que requerem atenção médica e de enfermagem permanente, com dotação própria de pessoal técnico e profissional especializado, com equipamentos específicos próprios e outras tecnologias destinadas ao diagnóstico e tratamento.18

Os pacientes internados em UTI são submetidos a um número elevado de procedimentos que, por sua vez, demandam artefatos, técnicas, terapias medicamentosas e materiais específicos.18 Essas especificidades acabam gerando elevada demanda relacionada a necessidades psicobiológicas. Cabe, porém, uma reflexão, por parte dos enfermeiros que atuam em UTI, sobre o atendimento das necessidades da pessoa que vão além da esfera biológica. É necessário que haja conciliação entre a razão e a subjetividade no ato de cuidar em terapia intensiva.9 Além disso, o ser humano é um todo indivisível, com demandas diversas que precisam ser atendidas a fim de que o equilíbrio seja mantido e, dessa forma, haja energia para que as necessidades humanas sejam atendidas e minimizadas.12

Na análise da matriz também foram constatados outros itens com valores de correlação superiores a 0,9. Após analisá-los, porém, o grupo de pesquisadoras constatou que não eram similares e que a exclusão deles poderia comprometer a qualidade do exame físico, elaborado para a coleta de dados. Os itens referem-se a exame abdominal, regulação vascular, regulação térmica, oxigenação, nutrição, eliminação urinária, eliminação intestinal.

A coleta de dados referentes aos sistemas gastrintestinal, vascular, termorregulador, respiratório e às necessidades de alimentação e eliminação são fundamentais, e a exclusão deles poderia comprometer sobremaneira a assistência de enfermagem prestada aos pacientes.

Esses resultados podem demonstrar uma dificuldade dos enfermeiros de assimilarem a semiologia na prática profissional, sendo necessários investimentos nessa área.

 

CONCLUSÃO

Considera-se que o objetivo deste trabalho foi alcançado, uma vez que foi elaborado e validado o instrumento de coleta de dados para pacientes internados em UTI, fundamentado na teoria das NHBs, de Wanda de Aguiar Horta, sendo ele composto por itens relativos à anamnese e ao exame físico.

Foram realizadas alterações em itens cujo valor na matriz de correlação do Alpha Cronbach foi superior a 0,9. Ao se constatar similaridade entre algum item e outro, excluíase um deles, desde que não entrasse em desacordo com o estabelecido na teoria das NHBs nem comprometesse a qualidade da assistência prestada aos pacientes.

Encontrar estratégias que facilitem a realização e análise de registros de enfermagem, certamente, ajudarão na implementação da etapa de coleta de dados, preconizada no PE, e, desde que o cuidado seja documentado, a realização de pesquisas torna-se mais viável, podendo favorecer a melhoria da assistência prestada aos pacientes. Considera-se que a elaboração e a validação de instrumento para esse fim possam favorecer essas conquistas.

 

REFERÊNCIAS

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10. Nascimento ERP, Trentini, MO. O cuidado de enfermagem na unidade de terapia intensiva (UTI): teoria humanística de Paterson e Zderad. Rev Latino-am Enferm. 2004;12(2):250-7.

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* Trabalho vinculado ao Projeto de Pesquisa Sistematização da Assistência de Enfermagem em unidades de terapia intensiva com a utilização de um software, financiado pelo CNPq e aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da UFMG - Parecer nº 565/06.

 

 

ANEXO I

 

 

ANEXO II

 

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