REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 12.3

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Pesquisa

Adolescência, sexualidade e gênero: possibilidades das oficinas de trabalho crítico-emancipatórias

Adolescence, sexuality and gender: possibilities of critical emancipatory workshops

Verônica de Pádua MelloI; Larissa Resplandes Lopes GandraII; Marta Araújo do AmaralIII; Rosa Maria Godoy Serpa da FonsecaIV

IAluna do Curso de Graduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Bolsista de Iniciação Científica do CNPq. Processo nº 803070/1987-0
IIAluna do Curso de Graduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. Bolsista de Projeto de Extensão
IIIProfessora adjunta da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais
IVProfessora titular do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo

Endereço para correspondência

Escola de Enfermagem da UFMG
Av. Alfredo Balena, 190, sala 410
CEP: 30130-100, Belo Horizonte/MG
E-mail: marta@enf.ufmg.br

Data de submissão: 27/8/2007
Data de aprovação: 27/11/2008

Resumo

As Oficinas de Trabalho Crítico-Emancipatórias mostram-se como possibilidade de intervenção na saúde coletiva e visam à formação de indivíduos críticos, autônomos e responsáveis. Com a proposta de atingir o público adolescente, foram realizadas Oficinas de Sexualidade na Associação Querubins, em Belo Horizonte-MG, inicialmente, com resistência dos adolescentes do sexo masculino. Com este estudo, de caráter qualitativo, teve-se como objetivo conhecer a percepção desse grupo em relação às Oficinas de Sexualidade e o significado atribuído por eles em relação aos papéis assumidos por homens e mulheres na vivência da sexualidade. Os dados foram colhidos por meio de questionário semi-estruturado e fez-se a análise de conteúdo deles. As Oficinas de Trabalho favoreceram aos participantes uma reflexão sobre a adolescência, sexualidade e relações de gênero, constituindo um espaço para a liberdade de expressão e criatividade. A resistência apresentada pelos adolescentes do sexo masculino de participarem deste trabalho foi gradativamente diminuída, e eles se tornaram divulgadores e incentivadores da proposta para colegas e familiares.

Palavras-chave: Adolescente; Sexualidade; Identidade de Gênero; Educação em Saúde

 

INTRODUÇÃO

A Oficina de Trabalho Crítico-Emancipatória, no âmbito da saúde coletiva na perspectiva de gênero, atua como ferramenta para transformar e intervir no contexto psicossocial, ampliando aspectos cognitivos, emocionais e sociais dos participantes. Articula subjetividade, racionalidade, experiência pessoal e conhecimento dos indivíduos, e a relação entre eles e a coordenação ocorre de maneira horizontal, sem hierarquia de poder, resultando num ambiente propício para reflexão. Isso garante o resgate dos conhecimentos existentes, permitindo a manifestação de sentimentos relativos às vivências, o que facilita a expressão e a comunicação interpessoal, além de motivar a discussão de conteúdos. Vale ressaltar que para que as oficinas ocorram de forma efetiva, ou seja, para que haja exposição clara dos conteúdos que os participantes carregam consigo, é de grande importância que seja estabelecido vínculo entre os participantes e que o coordenador facilite as relações interpessoais.

A adoção da Oficina de Trabalho Crítico-Emancipatória como instrumento de intervenção na saúde coletiva visa à formação dos indivíduos com competência crítica em relação às atitudes deles. Trata-se de um espaço privilegiado de ampliação de consciência crítica dos sujeitos. Entre os seus pressupostos norteadores derivados da educação crítico-emancipatória encontra-se o empoderamento concebido como ampliação na tomada de decisões responsáveis e conseqüentes. Nesse processo, os indivíduos ampliam o controle sobre a vida deles no contexto da participação no grupo, visando à transformação da realidade, tida como espaço social e político.1

Neste estudo, o empoderamento se manifestou como um processo em que adolescentes reforçaram o poder interior deles para expressar idéias e opiniões, ampliaram a autoconfiança e direcionaram suas ações visando à melhor qualidade de vida. Diante disso, as oficinas favoreceram que eles se tornassem conscientes de suas atitudes, da qualidade das suas relações sociais, além de lhes permitir refletir sobre os valores e as expectativas deles em relação ao futuro. Dessa forma, as oficinas puderam auxiliar a transformação contextual da vida dos adolescentes, atuando na forma de pensar e agir, pois os auxiliaram a se posicionar criticamente diante dos próprios atos.

Utilizando a estratégia metodológica da Oficina de Trabalho Crítico-Emancipatória, a Escola de Enfermagem da UFMG, em parceria com a Associação Querubins, vem desenvolvendo, desde 2002, Oficinas de Sexualidade com adolescentes do sexo feminino, respeitando a resistência dos adolescentes do sexo masculino de participarem das atividades propostas.2

Em 2005, houve uma procura espontânea de adolescentes do sexo masculino para ingressarem nas oficinas. As adolescentes que compunham o grupo foram consultadas e, após a aprovação delas, as atividades foram reorganizadas e culminaram com a participação de adolescentes de ambos os sexos.

Este estudo originou-se da necessidade de avaliar a inserção, a percepção e a participação dos adolescentes do sexo masculino nas Oficinas de Sexualidade. Buscouse, também, analisar questões relativas à sexualidade, ao gênero e suas implicações na construção da identidade feminina e masculina.

 

OBJETIVOS

• Compreender a percepção dos adolescentes em relação às Oficinas de Trabalho, assim como a participação deles no desenvolvimento dessas atividades.

• Construir um perfil sociofamiliar dos adolescentes visando aumentar a compreensão da própria vida e da representação dela em relação à sexualidade.

• Analisar o significado atribuído pelos adolescentes do sexo masculino aos papéis assumidos por homens e mulheres na vivência da sexualidade, à luz de gênero.

 

CAMINHO METODOLÓGICO

O cenário do estudo

O estudo foi realizado na Associação Querubins, uma organização não governamental que atende mais de 200 crianças e adolescentes, a maioria proveniente da Vila Acaba-Mundo, localizada na região sul da cidade de Belo Horizonte-MG.

Criado em 1995, o Projeto Querubins vem se ampliando a cada ano, sem perder o propósito inicial de promover oportunidades educativas de desenvolvimento por meio da arte-educação. A proposta pedagógica adotada visa à transformação das potencialidades dos educandos em competências pessoais, sociais, cognitivas e produtivas para a formação de jovens multiplicadores na comunidade em que vivem.

A sede da Associação Querubins está situada próxima à Vila Acaba-Mundo, em um espaço cedido em comodato pela Mineradora Lagoa Seca, e foi construída, gradativamente, com muito esforço dos coordenadores do projeto e da comunidade.

Atualmente, o projeto oferece oficinas de dança, percussão, artes plásticas, construção de instrumentos musicais, capoeira, manutenção de horta orgânica, computação, esportes, sexualidade, apoio escolar/psicológico, dentre outros.

De segunda a sexta-feira, por um período de quatro horas, as crianças e adolescentes permanecem ali, onde recebem alimentação e participam, diariamente, de três oficinas distintas.

O projeto conta com 20 instrutores contratados ou voluntários, dentre eles dançarinos, músicos, psicólogos, enfermeiras, pedagogas, agrônomo, artistas plásticos e ex-educandos que se tornaram instrutores ou monitores. Pela sua abrangência e importância na transformação da qualidade de vida dos educandos, tem recebido inúmeros prêmios de reconhecimento público, em especial pelo trabalho desenvolvido no campo das artes e da educação.

A Escola de Enfermagem da UFMG, por meio de projeto de extensão desenvolve Oficinas de Sexualidade na modalidade crítico-emancipatória, desde 2002, com adolescentes, pais e educadores.

Na Vila Acaba-Mundo moram aproximadamente 600 famílias. As moradias são feitas, predominantemente, de alvenaria, dispostas de forma desordenada, dada a invasão dos terrenos, e apresenta condições precárias de saneamento. A Vila não dispõe de serviço de saúde próprio, por isso os moradores recebem atendimento nos bairros vizinhos. Possui uma creche para crianças até 6 anos e uma instituição de formação infantil específica para meninas. As crianças e adolescentes freqüentam escolas municipais e estaduais localizadas nas proximidades.

A coleta dos dados

A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas semi-estruturadas com um questionário norteador, auxiliadas por instrumentos como ecomapa e genograma, para melhor entendimento de como ocorrem as relações interpessoais e dos adolescentes com os equipamentos sociais.

No genograma, o diagrama mostra os componentes que residem no mesmo domicílio e as características deles, assim como o local de trabalho, a relação com o entrevistado, a escolaridade, a idade e outros. O ecomapa mostra como esses indivíduos se relacionam entre si (e com outras pessoas significativas) e com o meio (escola, igreja, trabalho, instituições de saúde, instituições não governamentais, etc.). São utilizados diferentes símbolos para mostrar a natureza das relações, o que possibilita grande número de informações e o teor das relações interpessoais e com o meio.

Os depoimentos foram gravados e transcritos na íntegra, após consentimento do coordenador da instituição, dos pais e dos adolescentes entrevistados. Foram adotados os procedimentos éticos indicados Resolução nº 196, de outubro de 1996, do Conselho Nacional de Saúde (CNS).3 O projeto foi aprovado pelo Conselho de Ética da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo e cada responsável pelos adolescentes assinou um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, referente à participação dele na pesquisa. Nesse termo foram apresentados o tema, os objetivos e a técnica de coleta de dados, assegurando que as informações seriam tratadas no anonimato e serviriam exclusivamente para fins científicos.

Para o alcance dos objetivos, optou-se pela abordagem qualitativa. Para tanto, foi realizada a análise de conteúdo das entrevistas em três fases4: a pré-análise, que é a fase de organização e que corresponde a um período de intuições, tendo como objetivo a sistematização das idéias iniciais, que conduz a um esquema preciso de desenvolvimento das operações sucessivas; a exploração do material, que consiste na categorização, por meio dos dados brutos das entrevistas, que é definido na fase da pré-analise; e, por fim, a interpretação dos resultados, que permeia as categorias e a correlação dos temas com o referencial teórico, no caso a categoria gênero.

 

RESULTADOS

A população de estudo: características e condições socioeconômicas.

Participaram do estudo seis adolescentes do sexo masculino, que freqüentaram as Oficinas de Sexualidade durante o ano de 2005. A idade variou entre 14 e 17 anos, sendo um com 14 anos, dois com 15 anos, dois com 16 anos e dois com 17 anos. A escolaridade de quatro deles era de 7ª série do 1º grau. Os demais tinham cursado a 5ª e a 6ª série e um possuía o 2º grau completo.

Com relação à composição familiar, quatro adolescentes moravam com a mãe, três moravam com a mãe e o pai, constituindo uma família nuclear. A dinâmica familiar foi caracterizada como boa pela maioria dos adolescentes. Em dois depoimentos foram destacadas dificuldades de relacionamento entre irmãos.

Quanto à ocupação dos domicílios, constatou-se uma média de seis moradores por residência. As condições de moradia eram muito semelhantes para todos: o número de cômodos variou entre cinco e quatro. A infraestrutura, como água encanada, luz elétrica e esgoto, para cinco adolescentes, foi considerada positiva; um relatou que não havia luz elétrica oficial (era tomada da casa do vizinho) e na casa de outro não havia água encanada nem luz elétrica.

Quatro famílias eram chefiadas por mulheres, sendo a mãe mantedora e responsável pela organização familiar. As outras duas eram mantidas por pai e mãe com atividades relativas à reciclagem de materiais.

Em relação ao lazer, além das atividades desenvolvidas no Projeto Querubins, referidas como tal (capoeira, artes plásticas, dança, etc.), os adolescentes disseram que freqüentam roda de samba, futebol e passeios na praça como outras formas de lazer.

A inserção e a relação dos participantes com o Projeto Querubins

A permanência dos adolescentes no Projeto Querubins variou entre 6 e 11 anos. Posicionando-se em relação ao projeto, manifestaram interesse em participar das oficinas e destacaram como positivo o oferecimento de atividades variadas, como dança, esporte, percussão, poesia, artes plásticas e sexualidade. Ressaltaram, ainda, como positiva a liberdade de optar pela oficina de que queriam participar e reconheceram a importância do trabalho desenvolvido na Associação Querubins na formação pessoal e para a realização dos planos futuros.

Os adolescentes foram unânimes em atribuir nota máxima ao Projeto Querubins. Um dos adolescentes, não satisfeito com o valor máximo de cinco pontos, insistiu que no seu questionário fosse registrada a nota 100.

O significado da participação nas Oficinas de Sexualidade

Quanto ao significado da participação nas Oficinas de Sexualidade desenvolvidas em 2005, ressaltaram que as questões abordadas referentes aos temas DST, gravidez, sentimentos, relacionamentos familiares, planos futuros foram importantes para a vida atual e futura deles.

Os adolescentes reconheceram que as oficinas ofereceram um espaço para discutir questões de sexualidade que nem sempre podem ser discutidas no ambiente familiar ou no escolar. Além disso, ressaltaram que o conhecimento adquirido poderia ser repassado para colegas e amigos, o que consideravam da maior importância.

Dois participantes destacaram a mudança de comportamento durante as oficinas, dizendo que, inicialmente, sentiam-se tímidos diante das discussões sobre questões referentes à sexualidade e gradativamente foram se sentindo mais autoconfiantes ao expressarem as próprias opiniões. Três adolescentes reforçaram que na oficina se sentiam livres para abordar temas referentes à sexualidade, o que não acontecia na escola e na família. Outro enfatizou como positiva a aquisição de conhecimentos sobre o corpo feminino e o masculino, o aprendizado sobre relacionamento homem-mulher e o aumento de respeito em relação às opiniões dos colegas.

O significado da inserção dos meninos nas Oficinas de Sexualidade e o relacionamento grupal

Seis adolescentes mencionaram que sentiram boa receptividade e aceitabilidade das meninas em relação à inserção dos meninos nas Oficinas de Sexualidade. Outro achava que as mulheres sentem mais vergonha de falar sobre sexualidade e que nas oficinas as meninas ficaram também inibidas ao discutirem alguns assuntos, principalmente nos primeiros encontros. Destacou, porém, que o grupo misto o ajudou entender melhor o corpo feminino e o masculino.

Outro participante reconheceu que a dificuldade de discutir temas de sexualidade é também masculina, quando no grupo há a presença de meninas. Enfatizou, porém, que essa dificuldade foi diminuindo gradativamente à medida que ocorriam as Oficinas de Sexualidade.

Quatro adolescentes avaliaram a receptividade das meninas como boa, o que contribuiu para um crescimento conjunto do grupo.

A responsabilidade diante da iniciação sexual

Outro item pesquisado foi o compromisso masculino em relação à iniciação sexual e à prevenção da gravidez. Os adolescentes reforçaram que, como homens, sentiamse responsáveis ao iniciarem a vida sexual e em relação à escolha dos métodos contraceptivos. Reconheciam que essa responsabilidade deve ser assumida de forma conjunta por meninos e meninas, porém reforçavam que a maior pressão recai sobre os meninos. Pode-se supor que tal afirmativa esteja relacionada à provisão de subsistência econômico-financeira da família, como papel cobrado dos homens pela sociedade.

Três dos adolescentes referiram como problemática a experiência da paternidade prematura e a repercussão dela na vida do jovem. Mencionaram casos vivenciados na Vila por amigos e familiares e as dificuldades enfrentadas por pais adolescentes para conciliar estudo, lazer e trabalho.

A avaliação geral das Oficinas de Sexualidade

Os comentários dos adolescentes reforçaram o desejo de participar novamente da experiência de Oficinas de Sexualidade. Mencionaram como positivo o fato de os temas terem sido selecionados conforme o interesse do grupo e a utilização de jogos e brincadeiras para discutir os diferentes assuntos. Atribuíram nota máxima às oficinas e disseram que as recomendariam a um amigo, principalmente por motivos relacionados à possibilidade de aprendizagem sobre temas variados e de interesse, além da possibilidade de descobrir coisas novas.

 

ANÁLISE DOS RESULTADOS

A análise dos dados possibilitou traçar o perfil socioeconômico dos adolescentes e conhecer a organização familiar e social do grupo. Auxiliado pelo diagrama proposto, o ecomapa e o genograma informaram de maneira prática como ocorre e qual é o teor do vínculo entre o grupo social e os equipamentos sociais.

Constatou-se que os adolescentes freqüentavam o Projeto Querubins por um tempo, que variou de 6 a 11 anos, o que pode acarretar forte influência do projeto na formação deles, nas áreas de educação, esporte e artes. Tal fato foi ressaltado como muito positivo pelos adolescentes, pois alegaram que se sentiam mais aptos para enfrentar as dificuldades da vida adulta.

Os adolescentes destacaram comportamentos femininos e masculinos diferenciados na vida familiar e no exercício da sexualidade que refletem a construção social dos papéis sexuais. Alegaram que o papel masculino envolve prover recursos financeiros, aspecto este carregado de significados morais para os homens, pois, em última instância, a possibilidade de prover os filhos compõe, em grande medida, a identidade masculina.5

No entanto, esse fato contrasta com os dados relativos ao arranjo familiar, no qual a mãe é a principal provedora de recursos financeiros, o que ocorria com quatro das seis famílias. Os dados do Censo de 2001 revelam que as famílias comandadas pelas mulheres passaram de 18% em 1990 para 25% em 2001, sendo maior na Região Nordeste (25,9%) e entre as famílias mais pobres.6

Com relação à iniciação sexual, assim como com a prevenção da gravidez, apontaram que a responsabilidade incide mais sobre os homens ou sobre ambos, sem predominância de respostas para o sexo feminino, dado que contrasta com a maior parte dos estudos.7,8,9

Sabe-se que a carga de responsabilidade incide mais sobre a figura feminina, tanto em relação à prevenção da gravidez como em relação à criação de filhos. Confirma isso a conclusão do estudo Gravidez na Adolescência: estudo multicêntrico sobre jovens, sexualidade e reprodução no Brasil de que, a despeito da construção recente de perspectivas analíticas que contemplam as novas configurações familiares e os novos posicionamentos dos indivíduos que sugerem mudanças de comportamentos nos relacionamentos entre seus membros, a maternidade como fenômeno social continua sendo marcada por desigualdades sociais, raciais e de gênero. É ainda sobre a mulher que recaem as principais atribuições e responsabilidades com os filhos.10

Na construção do papel social, afirma-se11 que se trata de uma luta difícil para o adolescente encontrar uma identidade, sendo um processo de longa duração, além de lento, pois trata-se de um período em que os jovens vão construindo a base final da personalidade, do seu perfil adulto. Esse processo, em sua maior parte, acontece por meio de tentativa e erro, e acaba acarretando ansiedade e dúvidas, pois o que almejam é serem diferentes do que foram na infância, na busca de uma identificação própria. Assim, a decisão de iniciar as relações sexuais acontece paralelamente a inúmeras modificações que ocorrem no corpo e na vida, podendo repercutir em situações indesejadas, como gravidez, doenças sexualmente transmissíveis, aborto, dentre outros. Afirma-se que a primeira relação sexual masculina é pensada pelos jovens, simultaneamente, como um momento de aquisição de conhecimento, domínio de uma técnica corporal, passagem à vida adulta e um momento crucial de instauração do ser homem.12,13 Nesse ponto, a concepção de educação crítico-emancipatória na qual se baseiam as oficinas auxilia os participantes a gerenciar seus conflitos e os habilita a tomar decisões de maneira livre e responsável. Tal posicionamento pôde ser constatado durante a avaliação da oficina.

Dentre os temas considerados importantes nas discussões foram destacados: o conhecimento do corpo feminino e do masculino, o uso da camisinha, a prevenção das doenças sexualmente transmissíveis e os relacionamentos afetivos.

O tema das doenças sexualmente transmissíveis foi enfaticamente ressaltado pelos adolescentes, dada a falta de informação prévia do assunto. Alegaram que foi o primeiro espaço educativo que possibilitou o entendimento do que realmente se tratava o assunto, aprofundando o conhecimento que tinham anteriormente, considerado bastante limitado. Durante as oficinas, as coordenadoras perceberam que esse tema sempre surgia nas discussões cercado de muitas dúvidas e preconceitos, o que serviu de subsídio para a continuidade do trabalho. Vale frisar que, como resultado da pesquisa e do surgimento do tema das DSTs, apontado como o mais interessante, no segundo semestre de 2006, foi proposta a criação da cartilha Conhecer para se proteger, elaborada pelos próprios adolescentes. Iniciou-se o trabalho pelo sorteio das DSTs mais freqüentes. A partir daí, cada dupla pesquisou um tema, realizou entrevistas e propôs uma apresentação teatral. Em seguida, elaboraram textos e desenhos para ilustrar a cartilha que, depois de publicada, deverá ser divulgada para os adolescentes moradores da Vila e freqüentadores das escolas às quais pertencem os próprios autores, também adolescentes.

Para os participantes da pesquisa, ainda, as oficinas foram definidas como espaços de diálogo e de crescimento pessoal. Mencionaram que esse era o único local onde falavam com liberdade sobre sexualidade, negando que tais questões são comumente abordadas no contexto escolar e familiar. Esse elemento confirma que o ambiente proporcionado nas oficinas favorece a discussão aberta, onde cada um pode se posicionar abertamente sobre o tema em tela, ou seja, com liberdade de expressão. Nesse contexto, outro fato ressaltado foi o estabelecimento da relação horizontal entre a coordenadora e os participantes, que também atua como agente facilitador.14

Demonstraram, também, interesse em continuar participando das Oficinas de Sexualidade e pretendiam recomendá-las a amigos e colegas, pois reconheciam a importância dos assuntos tratados e valorizavam a dinâmica utilizada. Reforçaram que os conhecimentos adquiridos podem ser repassados para os colegas, ocorrendo a propagação, a discussão e até mesmo o aconselhamento a respeito deles. Por terem participado de sessões que propiciaram o conhecimento tido como correto sobre os temas, poderiam ser referência para os demais colegas. Esse fato é de suma importância, pois demonstra que as discussões realizadas assumem papel importante fora do projeto, passando do domínio privado para o público.

 

CONCLUSÃO

O estudo demonstrou que as Oficinas de Trabalho Crítico-Emancipatórias como estratégia educativa voltada para adolescentes contribuem para a formação deles nos âmbitos cognitivo, emocional e social. A grande diferença observada entre a proposta de tais oficinas e de outras práticas educativas foi o aprofundamento de questões ligadas à realidade, a construção do conhecimento pelos próprios adolescentes, o convite a conhecer a si mesmos, os outros e o mundo, contribuindo para a formação de indivíduos com uma visão mais crítica da própria realidade e capacitando-os, dessa forma, para transformá-la positivamente.

Nessa experiência com adolescentes de ambos os sexos, constatamos que o grupo formado necessitou de um tempo de adaptação para o fortalecimento de vínculos. As questões referentes a gênero permearam muitas discussões e foi possível perceber, depois de repetidas reflexões, uma postura mais consciente dos participantes em relação aos papéis feminino e masculino ditados por nossa sociedade e as possibilidades de mudança em relação a eles. Outro fato constatado foi que o aprendizado do grupo foi progressivo, fortalecendo laços de companheirismo, respeito e união entre os participantes.

O estudo possibilitou, também, o desencadeamento de novos trabalhos visando ao crescimento individual e coletivo, pois a demanda agora identificada é das mães dos participantes do estudo que reivindicam para si espaços onde possam falar livremente da sua sexualidade e de seus filhos. É claro que, nesse caso, haverá necessidade de uma abordagem mais contextualizadora e permeada pela visão da inserção social como determinante dos fenômenos relacionados à saúde, até porque as mulheres adultas compreendem mais que os adolescentes essa vinculação e porque suas expectativas vão além de mudanças pontuais ou apenas relacionadas à vida futura, como ocorre, em geral, com os adolescentes.15,16

O que se pode afirmar é que a opção metodológica das Oficinas de Trabalho, com certeza, será a mesma, pois também com elas a prática educativa emancipatória - de gênero - só irá se mostrar dessa forma se estiver vinculada aos mesmos princípios utilizados no trabalho relatado neste estudo.18

 

REFERÊNCIAS

1. Amaral MA, Fonseca RMGS. A oficina de trabalho como estratégia educativa com adolescentes na área de sexualidade. REME - Rev Min Enferm. 2005 abr/jun;9(2):168-73.

2. Amaral MA, Pontes HA, Lopes LR, Massa TCS, Fonseca RMGS. Oficinas de sexualidade: uma abordagem ampliada para se trabalhar com adolescentes. In: Anais do 8º Encontro de Extensão da UFMG. Belo Horizonte: UFMG; 2005.

3. Brasil. Conselho Nacional de Saúde. Resolução n.196/96 sobre pesquisa envolvendo seres humanos. Brasília: Ministério da Saúde; 1996. 24p.

4. Bardin L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977

5. Cabral CS. Contracepção e gravidez na adolescência na perspectiva de jovens pais de uma. comunidade favelada do Rio de Janeiro. Cad Saúde Pública 2003;19(sup.2). [Citado em 2007 Jul. 10]. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/csp/v19s2/a10v19s2.pdf]

6. Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - FIBGE. Censo 2001. [Citado em 2007 jul. 10]. Disponível em: http://www.direitoshumanos.usp.br/dhbrasil/plano munic_dh_sp_2.htm.

7. Amaral MA. Entre o desejo e o medo: oficinas de trabalho como espaço de reflexão e empoderamento de adolescentes [tese]. São Paulo: Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo; 2005.

8. Dias AB, Aquino E. Maternidade e paternidade na adolescência: algumas constatações em três cidades do Brasil. Cad Saúde Pública. 2006 jul;22(7):1447-58.

9. Medrado B, Lyra J. A adolescência "desprevenida" e a paternidade na adolescência: uma abordagem geracional e de gênero. Cadernos Juventude, Saúde e Desenvolvimento 1999;1:230-48. [Citado em 2007 jul. 10]. Disponível em: http://www.bireme.br/bvs/adolec/P/cadernos/capitulo/cap23/cap23.htm.

10. Aquino EML, Heilborn ML, Knauth D. Adolescence and reproduction in Brazil: the heterogeneity of social profiles. Cad Saúde Pública. 2003;19(supl.2):S377-88.

11. Aberastury A. Adolescência. Porto Alegre: Artes Médicas; 1983.

12. Leal AF, Knauth DR. A relação sexual como técnica corporal: representações masculinas dos relacionamentos afetivo-sexuais. Cad Saúde Pública. 2006 jul;22(7):1375-84.

13. Teixeira AM, Knauth D, Fachel J, Leal A. Adolescentes e uso de preservativos: as escolhas dos jovens de três capitais brasileiras na iniciação e na última relação sexual. Cad Saúde Publica. 2006 jul;22(7):1385-96.

14. Chiesa AM, Westphal MF. A sistematização das Oficinas Educativas problematizadoras no contexto dos serviços de saúde. Saúde Déb. 1995;(46):19-21.

15. Fonseca RMGS. Gênero e saúde-doença: releitura do processo saúde-doença das mulheres. In: Fernandes RAQ, Narchi NZ. Enfermagem e saúde da mulher. São Paulo: Manole; 2007. p.30-61.

16. Fonseca RMGS. Gênero como categoria para a compreensão e a intervenção no processo saúde-doença no âmbito da Saúde do Adulto. In: Kalinowski CE, organizadora. Proenf-Programa de atualização em enfermagem: Saúde do Adulto. Porto Alegre: Artmed, Panamericana; 2008. Ciclo 3, Módulo 2. (No prelo).

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