REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 12.4

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Pesquisa

Preconceito na enfermagem percebido por enfermeiros: uma abordagem quantitativa*

Nurses' perception of prejudice in the ward: a quantitative approach

Elaine dos Santos JesusI; Leoana Reis MarquesII; Luana Conceição Fortes AssisIII; Taisy Bezerra AlvesIV; Genival Fernandes de FreitasV; Taka OguissoVI

IEnfermeira pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. E-mail: elainesj3@usp.br
IIEnfermeira pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. E-mail: xlerex@gmail.com
IIIEnfermeira pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. E-mail: luanaasis@usp.br
IVEnfermeira pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. E-mail: taisy@usp.br
VProfessor Doutor do Departamento de Orientação Profissional da EEUSP. E-mail: genivalf@usp.br
VIProfessora titular do Departamento de Orientação Profissional da EEUSP. E-mail: takaoguisso@usp.br

Endereço para correspondência

Elaine dos Santos Jesus
Rua Dirce, 323, Vila Guilherme
São Paulo/SP, CEP 02077-080
Tel: 69015458

Data de submissão: 25/6/2008
Data de aprovação: 30/12/2008

Resumo

OBJETIVOS: Identificar a existência de preconceitos relacionados com a profissão de enfermagem; levantar os tipos de preconceitos percebidos pelos enfermeiros; descrever quem eram as pessoas que os manifestavam; e pontuar as formas de enfrentamento.
MÉTODOS: Trata-se de um estudo quantitativo, histórico-social e exploratório para o qual foram realizadas 23 entrevistas.
RESULTADOS: As manifestações de preconceito foram apontadas em diversos ambientes, até mesmo no familiar. A população-alvo do estudo é composta por enfermeiros formados em diferentes décadas (de 1940 a 2000).
CONCLUSÃO: A investigação poderá despertar o interesse por novas pesquisas, aprofundando questões e problematizações que envolvam as percepções sobre a temática.

Palavras-chave: História da Enfermagem; Preconceito; Percepção; Enfermeiros; Enfermeiras; Pesquisa Qualitativa; Pesquisa em Enfermagem

 

INTRODUÇÃO

Muitos alunos demonstram interesse em aprofundar estudos sobre a história da enfermagem por meio de um trabalho prático de pesquisa. Em todos os anos, há um grupo de alunos disposto a participar da elaboração de um projeto de pesquisa. Esse foi o caso das quatro alunas que compõem o grupo de co-autoras que desenvolveu este estudo com muito entusiasmo, dedicação, interesse e seriedade, motivadas pela curiosidade de aprender e percorrer os meandros de um trabalho investigativo, sob a orientação dos docentes responsáveis pelo módulo de História da Enfermagem.

A trajetória da enfermagem traz consigo diversos estereótipos e preconceitos que foram historicamente determinados e reforçados pelo fato de ser vista como uma profissão de desempenho basicamente manual, além de ter sido e continuar sendo exercida, predominantemente, por mulheres, o que leva essa prática profissional a ser socialmente desvalorizada.

O estereótipo não se confunde com o preconceito, mas é um dos seus elementos. Este último é uma reação individual, enquanto o primeiro, predominantemente um produto cultural,1 é uma forma rígida e anônima reprodutora de imagens e comportamentos que categoriza e separa os indivíduos.

Estudando a História da Enfermagem, observa-se que a percepção distorcida e errônea da profissão, logo preconceituosa, não é um fenômeno incomum, tampouco recente, tendo sua gênese, possivelmente, a partir da secularização do processo de cuidar, iniciado com a reforma protestante.2

Criou-se, em conseqüência disso, uma imagem negativa da enfermagem que persistiu pelos séculos posteriores, em muitos países europeus. Essa situação gerou o interesse de pessoas como o do pastor Theodor Fliedner que, após três séculos da Reforma, fundou um curso de enfermagem no qual as formadas eram chamadas diaconisas, a fim de evitar a errônea interpretação que se dava à palavra enfermeira, profissão subestimada na época.3

Não poderia aqui faltar o nome de Florence Nightingale que, por pertencer a uma família rica e aristocrática, encontrou dificuldades quanto à aceitação de sua família em relação à escolha de cuidar e prestar serviços em hospitais. Sua família ficava chocada e tentava dissuadi-la cada vez que ela mencionava o desejo de servir em algum hospital, porque era sabido que o ambiente exibia os mais baixos níveis de degradação, com falta de saneamento, ordem e limpeza. Uma das formas de dissuasão era proporcionar-lhe viagens e uma vida social ativa a ponto de distraí-la e desviá-la de seus propósitos. Não era, pois, comum que uma mulher aristocrática, rica e intelectual como Florence se interessasse em trabalhar ao lado de pessoas socialmente desqualificadas como Sarey Gamp, tal como descrita pelo contemporâneo escritor Charles Dickens, menos ainda com a idéia de substituí-las nos hospitais.4

Quanto à questão da não-visibilidade de certas atividades humanas na sociedade contemporânea, percebemos que a enfermagem é uma atividade com certo atributo, ou seja, o da não-visibilidade, e a enfermeira, uma das mais estereotipadas dentre os profissionais da área da saúde. Nessa ótica, estereótipos negativos causam problemas para o grupo estereotipado, pois distorcem percepções e crenças desse grupo, podendo influenciar seus comportamentos, afetando a maneira como os membros de um grupo percebem e valorizam a si mesmos.5

A enfermagem é vista como subalternamente indispensável, pois a sociedade, que necessita ver os papéis de homem e mulher firmemente delimitados, resgata para essa profissão a mesma responsabilidade que sempre foi atribuída à mulher; qual seja, zelar pelo bom relacionamento na equipe, assim como a responsabilidade para permitir ao médico assistir o paciente sem preocupar-se com detalhes menos gloriosos, como manter o paciente limpo e confortável. Conseqüentemente, os profissionais repetem quase que à exaustão a ideologia de que o médico estudou mais, ou o fato de ele ser homem, sugerindo uma atitude de intimidação por falta de argumentos para dizer, por exemplo, "Dr., esta é a sua especialidade, mas este é o procedimento para o qual estou qualificada", a fim de marcar nossos espaços, derrubar barreiras e contribuir para o auto-respeito.6

Nas literaturas americana e inglesa, os textos relacionados ao preconceito foram mais direcionados à questão racial e também ao gênero masculino na enfermagem. Assim, Florence Nightingale, de fato, tornou a enfermagem uma profissão respeitável, recrutando jovens e senhoras da alta sociedade para formar um grupo de líderes que formavam as categorias matron e sister; ou seja, gerentes e supervisoras, mas também selecionou jovens de outras classes para fazer o trabalho mais pesado (nurses), que correspondiam às enfermeiras assistenciais. Ademais, em texto posterior, afirma-se que a enfermagem precisava de determinação e intelectualidade, e não mais submissividade e auto-sacrifício.7

Embora autores concordem que o estereótipo esteja mudando e que a enfermagem não é mais vista apenas como profissão essencialmente feminina, a verdade é que as mulheres na profissão continuam sendo a maioria absoluta de 90% ou mais.8

Ao discutirem a questão do gênero na enfermagem, mencionam que o próprio enfermeiro tem a responsabilidade de modificar a situação de que a profissão é pouco reconhecida e valorizada, constituindo-se em mais um obstáculo para ingresso do elemento masculino na carreira. O envolvimento dele com a profissão, o empenho em valorizá-la e torná-la respeitada são fundamentais para que ele enfrente o preconceito. É por meio de sua atuação que se forjará a imagem desejada para a enfermagem. Desse modo, se o enfermeiro deixar o "enclausuramento", os muros das instituições, para se mostrar e se fazer conhecer pela comunidade, envolver-se com os movimentos sociais, assumir como suas as entidades de classe, a enfermagem também será assim reconhecida socialmente.9

Com a explanação sobre a justificativa para a realização do estudo e a retrospectiva histórico-social sobre a temática, pontuamos os objetivos e a trajetória metodológica na consecução desta investigação.

 

OBJETIVOS

• Identificar a existência de possíveis preconceitos relacionados com a profissão de enfermagem e com os enfermeiros formados entre as décadas de 1940 a 2000.

• Levantar os tipos de preconceitos mais comuns percebidos pelos enfermeiros durante o curso de enfermagem e durante o exercício profissional.

• Reconhecer as pessoas que manifestavam esses preconceitos em relação à enfermagem ou aos enfermeiros.

• Caracterizar as formas de enfrentamento das situações consideradas preconceituosas pelos sujeitos do estudo.

 

ASPECTOS ÉTICOS E METODOLÓGICOS

Trata-se de um estudo de natureza quantitativa, histórico-social e exploratória. Para tanto, foram realizadas entrevistas com enfermeiros formados em diferentes décadas, de acordo com os seguintes critérios: terem os sujeitos participantes se destacado em atividades de liderança na profissão no âmbito nacional e/ou internacional, bem como residirem atualmente no Estado de São Paulo, a fim de facilitar o acesso dos pesquisadores.

A coleta dos dados foi realizada após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP), seguindo um questionário previamente elaborado para identificar o perfil dos colaboradores, contendo as seguintes variáveis: estado civil, ano de nascimento, sexo, faixa etária, escola em que estudou, cursos anteriores e posteriores à graduação em enfermagem, apoio da família na opção pela profissão, década da formatura e cidade/Estado de origem. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Os dados coletados no questionário possibilitaram a construção dos resultados quantitativos deste estudo, os quais assumiram valores absolutos e percentuais pertinentes ao objeto e aos objetivos delineados previamente.

 

RESULTADOS

O total de colaboradores foi de 23, sendo 91% deles do sexo feminino e apenas 9% do sexo masculino; 43% deles são casados; 39%, solteiros; 13%, viúvos e 4%, divorciados. A maioria deles estudou na Escola de Enfermagem da USP, perfazendo 61% do total de participantes; os demais (39%) estudaram em outras instituições de ensino superior de enfermagem. A maior parte dos sujeitos formou-se na década de 1970 (35%); seguidos pelas décadas de 1940 (17%); 1950 e 1960 (13% cada). Desse total, 18% referem-se às décadas de 1980/1990 e 4% formaram-se em 2000.

Quanto ao apoio da família à opção pela enfermagem, 16 dos colaboradores receberam-no ao escolher a profissão (70%). Uma parte significativa dos respondentes, entretanto, mencionou que não foi apoiado pelas suas famílias (26%) e apenas um colaborador (4%) não respondeu a essa questão. Em relação a cursos posteriores à graduação em enfermagem a maioria dos colaboradores os realizou, seja em especialização (34%), seja stricto sensu, isto é, mestrado (32%), doutorado (26%), pós-doutorado (4%). Destaque-se, ademais, que um colaborador (2%) realizou curso diverso da enfermagem, após a graduação, isto é, de licenciatura.

Em relação aos cursos anteriores à graduação em enfermagem, constatou-se que o primeiro curso universitário, para a maioria dos sujeitos participantes deste estudo, foi o de enfermagem, com 74% das respostas. Do total de colaboradores, cinco deles realizaram cursos anterioresà graduação em enfermagem, sendo eles: Pedagogia, Técnico em Laboratório, Biologia, Biblioteconomia e Química. Apenas um sujeito não respondeu à indagação.

A FIG. 1 aponta que a maioria dos colaboradores percebeu o preconceito durante a graduação em enfermagem (61%). Uma parte importante dos respondentes (35%), entretanto, não percebeu situações consideradas por eles como preconceituosas durante a formação profissional e 4% não especificaram a respeito da percepção de preconceito.

 

 

Dos enfermeiros que perceberam situações consideradas como atitudes preconceituosas, 55% mencionaram que elas despontaram entre membros da própria família, como pais, mães, irmãos e cunhados; 20% referiram-se aos amigos e colegas; 20% apontaram outras pessoas (médico de infância, membro da colônia árabe e namorado) e apenas 5% não souberam referir.

Dentre as atitudes preconceituosas, 48% dirigiram-se aos próprios colaboradores; 39% referiram-se a outros profissionais enfermeiros e 13% não observaram nenhum preconceito.

Em relação aos locais de percepção dos preconceitos pelos sujeitos da pesquisa, 54,2% referiram que as manifestações consideradas preconceituosas ocorreram dentro de instituições de saúde (hospitais, clínicas, unidades básicas de saúde, etc.); 12,5% mencionaram que tal percepção se deu nas próprias entidades formadoras (instituições de ensino em enfermagem). Não houve percepção de preconceitos por parte de 29,2% dos respondentes e apenas 4,1% deles mencionaram que o preconceito percebido ocorreu tanto nas instituições de saúde quanto nas de ensino de enfermagem.

Do total de respondentes, 59,1% revelaram que houve mudanças de atitudes das pessoas em relação ao fenômeno estudado e 18,2% relataram que persistem as situações de preconceito. Por outro lado, 22,7% não perceberam tais mudanças, alegando o afastamento da prática profissional por motivos de aposentadoria ou outros fatores pessoais.

 

DISCUSSÃO

É bastante comum o enfermeiro atuar em áreas emergentes, fazendo-se necessária uma especialização nas diversas áreas que o mercado de trabalho exige. Assim, há enfermeiros atuando em áreas administrativas, tais como auditorias de custo e contas hospitalares, até mesmo em relação à revisão de prontuários do cliente e contas médicas. Há, também, enfermeiros que atuam no ensino de enfermagem nos níveis profissionalizante e universitário, em pesquisas acadêmicas, na assistência e no gerenciamento dos serviços de enfermagem nas instituições de saúde. Desse modo, há necessidade de o profissional investir na sua capacitação permanente. Nessa perspectiva, ainda, percebe-se que vários enfermeiros atuam em áreas não tradicionais, pois vêm tentando adquirir um número maior de habilidades e conhecimentos para fazer frente a todos esses avanços, pois, quanto mais a tecnologia é desenvolvida, mais habilidade a enfermagem necessita.10

Esta investigação corroborou os achados da autora mencionada e nos possibilitou identificar que alguns colaboradores optaram realizar cursos posteriores à graduação de enfermagem, embora não tenhamos definido como objetivo a compreensão das razões que motivaram esses enfermeiros à opção por esses cursos.

Conforme a TAB. 1, um percentual relevante (35%) dos entrevistados considerou como atitude preconceituosa a comparação do profissional enfermeiro com o médico, em relação à crença, pelo usuário, de que o médico é mais bem capacitado que o enfermeiro e, pelos médicos, de que a titulação de doutor cabe-lhes apenas como categoria profissional. Também foi mencionado o descrédito como parte do preconceito percebido pelos sujeitos participantes, em relação ao enfermeiro. Outras formas de preconceito seriam o fato de se considerar o médico mais bem capacitado para gerenciar os serviços de saúde e a "supervalorização" da categoria médica (no caso, o professor de medicina) em detrimento dos profissionais de enfermagem.

 

 

Percebe-se, ainda, o sentimento de inferiorização do enfermeiro (27%), mediante a constatação de que a enfermagem era uma profissão que executava atividades consideradas subalternas. Esse sentimento se manifestou em atitudes percebidas pelos colaboradores em relação à recusa dos clientes de se submeterem à consulta de enfermagem; à realização de treinamentos dos médicos separado dos enfermeiros; à falta de preparo do enfermeiro para área da educação profissional; e à pouca valorização das atividades do enfermeiro. Em 8% dos achados, constatou-se o preconceito relacionado à imagem da enfermeira como "amante do médico". Em 4% das respostas, ressaltou-se a existência de sentimento de ciúmes por parte dos médicos em relação ao enfermeiro. Não houve resposta de 27% dos colaboradores.

Dados semelhantes foram encontrados em uma tese de mestrado, referente às atividades do enfermeiro, na qual foi identificada a concepção da enfermagem como profissão feminina, auxiliar da medicina, trabalho manual e trabalho subordinado às ordens médicas. De forma mais discreta, houve a percepção do estereótipo da enfermeira como símbolo sexual.11

Em relação aos dados mencionados na TAB. 2, percebe-se que os colaboradores esboçaram várias formas de enfrentamento das situações por eles percebidas como preconceituosas. A maioria deles (44%) considerou que a aquisição de conhecimentos, competências e titulação acadêmica pode constituir-se elemento imprescindível para o posicionamento do profissional diante do preconceito.

 

 

A competência consiste em habilidades, talentos e entendimentos que vão sendo adquiridos por meio de conhecimentos específicos, englobando a capacitação para a vivência da prática de enfermagem, pautada nos princípios éticos e legais.12

Assim, na formação geral do enfermeiro, faz-se necessária a construção das seguintes competências: previsão e provisão de recursos humanos e materiais, habilidades técnicas, comunicação, relações interpessoais e gerenciamento da assistência à clientela, a fim de assegurar a prestação de serviço de forma integral, atendendo às necessidades da coletividade social.13

Os colaboradores manifestaram a importância do relacionamento ético na abordagem com os usuários e a equipe multiprofissional (35%), além da capacidade para dialogar e assumir compromissos éticos em face dos desafios da profissão, fundamentada nas trocas de experiências, articulando as ações profissionais no âmbito do trabalho em equipe. Nessa ótica, respeito, profissionalismo, colaboração, confiança e honestidade constituem valores que norteiam essas ações. Por outro lado, uma parcela dos entrevistados (6%) considera que outra atitude de enfrentamento consiste em ignorar os comportamentos considerados preconceituosos.

Em relação à TAB. 3, 46% dos depoentes alegam que os valores éticos atribuídos ao enfermeiro - tais como: boa formação associada com conhecimento, disciplina, responsabilidade, honestidade e diálogo - são elementos que contribuem para minimizar ou reduzir as atitudes preconceituosas.

 

 

A ascensão profissional e o poder, que agregam as competências, titulação acadêmica, oportunidades, foram referidos por 43% dos depoentes. Uma depoente, relatou que os preconceitos manifestados devem ser ignorados. Nessa ótica, o poder pode ser entendido como uma força que permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, devendo ser considerado uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social.14 Pode-se classificar o poder conforme o meio empregado para sua manifestação. Assim, existe o poder "econômico", cujo meio é a riqueza; o poder "ideológico", cuja moeda é o saber; e o poder "político", que se vale da força como ultimo recurso para sua manifestação.15 No caso em questão, referimo-nos ao poder cuja moeda é o saber.

Na ótica dos depoentes, foram identificados como possíveis causas do preconceito em relação à enfermagem (TAB. 4): qualidade deficiente do ensino, mormente de alguns cursos noturnos, e o número excessivo de escolas de enfermagem no nível superior. Em suma, 47% dos depoentes apontaram que essa precariedade na formação profissional tem repercutido na representação social da profissão. Nesse sentido, 18% dos entrevistados perceberam que o preconceito tem raízes culturais determinadas historicamente, manifestadas em discurso, como este: "Moça de família não faria enfermagem". Além disso, 12% deles mencionaram que a presença de enfermeiros não comprometidos com o exercício ético da profissão pode prejudicar a imagem da categoria. A excedente mão-de-obra foi apontada como causa de desvalorização profissional por 12% dos entrevistados, o que é compreensível, se for relacionada à questão da má formação e ao grande número de escolas. Foi mencionado o fato de que alguns médicos questionam o embasamento técnico e científico dos enfermeiros (6%), e percentual igual referiu que a falta de experiência de alguns profissionais pode contribuir para a visão preconceituosa em relação à enfermagem.

 

 

CONCLUSÃO

Este estudo possibilitou a identificação de situações consideradas preconceituosas, relacionadas com a profissão de enfermagem em geral e com enfermeiros em particular, em diferentes décadas passadas, sob a ótica dos sujeitos participantes na investigação. Assim, as manifestações de preconceito foram apontadas em diversos ambientes, por diferentes grupos sociais, até mesmo no âmbito familiar, e foram percebidas antes do ingresso no curso de enfermagem, durante a formação no bacharelado e no exercício profissional. Ademais, ressalte-se que os sujeitos da pesquisa, em sua maioria, possuem pós-graduação (lato sensu e stricto sensu) em enfermagem e alguns com cursos superiores anteriores e/ou posteriores à graduação nessa área. Constituem-se, portanto, em uma parcela da população de enfermeiros bastante diferenciada, quanto à formação e à participação em entidades de classe, podendo, inclusive, as suas percepções terem influenciado no modus de identificar possíveis causas, articular formas de enfrentamento e minimizar o preconceito em relação aos profissionais enfermeiros.

Este estudo contribuirá para o desvelamento das formas de enfrentamento das situações consideradas preconceituosas pelos enfermeiros, possibilitando, desse modo, buscar estratégias de reconhecimento social e a valorização dos enfermeiros, seja por meio da aquisição de conhecimentos e de competências, tanto na formação, quanto na atuação desses profissionais. Sendo assim, essa investigação pode despertar interesse por novas pesquisas, a fim de aprofundar questões e problematizações que envolvam o fenômeno estudado.

 

REFERÊNCIAS

1. Crochik JL. Preconceito: indivíduo e cultura. São Paulo: Robe; 1995.

2. Oguisso T. Trajetória histórica e legal da enfermagem. São Paulo: Manole; 2005.

3. Molina TM. Historia de la enfermería. Buenos Aires: Inter-Médica; 1973.

4. Miranda CML. O risco e o bordado. Rio de Janeiro: Escola de Enfermagem Anna Nery; 1996.

5. Pereira WR, Bellato RO. Trabalho da enfermeira: uma abordagem sob a perspectiva da teoria feminista. Texto Contexto Enferm. 1995;4(1):66-82.

6. Souza JG. Autonomia e cidadania na enfermagem. Texto Contexto Enferm. 2000; 9(3):86-99.

7. Salvage J. Image changes. Nurs Times. 2001;97(30):18.

8. Brasil. Conselho Federal de Enfermagem. O exercício da enfermagem nas instituições de saúde do Brasil: 1982-1983. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Enfermagem/Associação Brasileira de Enfermagem; 1985.

9. Vargens OMC. O homem enfermeiro e sua opção pela enfermagem [dissertação]. São Paulo: Escola de Enfermagem da USP; 1989.

10. Gerolin FSF. Caracterização das atividades emergentes do enfermeiro na área hospitalar - O cuidar continua [dissertação]. São Paulo: Escola de Enfermagem da USP; 1998.

11. Luchesi LB. Imagem do enfermeiro sob a ótica de alunos do ensino médio: elaboração de instrumento [dissertação]. Ribeirão Preto: Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto-USP; 2005.

12. Koener J. Differentiated pratice: the evolution of professional nursing. J Prof Nurs. 1992;8(6):335-41.

13. Primn PL. Differentiated pratice for ADN-BSN repared nurse. J Prof Nurs. 1987;3(4):218-25.

14. Foucault M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

15. Escola Superior de Guerra. Subsídios para estudos dos fundamentos doutrinários. Rio de Janeiro: ESG; 1996.

 

 

* Estudo realizado com Enfermeiras no Estado de São Paulo.

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