REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 12.4

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Pesquisa

Avaliação dos laudos citopatológicos de mulheres atendidas em um serviço de enfermagem ginecológica

Evaluation of cytopathology findings in women attended at a gynecology nursing service

Nilza Maria de Abreu LeitãoI; Ana Karina Bezerra PinheiroII; Saiwori de Jesus Silva Bezerra dos AnjosIII; Camila Teixeira Moreira VasconcelosIV; Rianna Nárgilla Silva NobreV

IEnfermeira. Presta assistência em emergência no Hospital São Carlos e em oncologia (quimioterapia) no Oncocentro. Fortaleza-CE
IIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta III do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará (UFC)
IIIEnfermeira. Doutoranda em Enfermagem pela UFC. Enfermeira do Programa Saúde da Família (PSF), Fortaleza-CE. E-mail: saiwori@yahoo.com.br
IVEnfermeira. Mestranda em Enfermagem pela UFC. Bolsista da Capes
VEnfermeira. Enfermeira do Programa Saúde da Família (PSF), Quixeramobim-CE

Endereço para correspondência

Saiwori de Jesus Silva Bezerra dos Anjos
Rua Miguel Gonçalves, casa 139, bairro Montese
CEP 60 420-480. Fortaleza-CE

Data de submissão: 27/5/2008
Data de aprovação: 5/12/2008

Resumo

O exame citopatológico é usado como método de rastreamento para detectar lesões precursoras do câncer de colo uterino. O profissional enfermeiro, por meio da consulta de enfermagem, realiza a coleta do material citológico, o que o torna responsável pela qualidade do material coletado e por fatores que influenciam no seu laudo. Objetivou-se, com esta pesquisa, avaliar os laudos citopatológicos das mulheres atendidas no serviço de ginecologia do Centro de Parto Natural. Realizou-se pesquisa descritiva, documental retrospectiva, com abordagem quantitativa. A amostra foi composta de 194 prontuários, à qual se aplicou formulário estruturado contendo questões fechadas. Os dados foram organizados em tabelas e gráficos. A maioria das mulheres (44,4%) tinha idade superior a 30 anos; 51,6% realizavam o exame preventivo freqüentemente; 44,9% iniciaram a vida sexual entre 16-19 anos; 20,1% não usavam método contraceptivo; e a porcentagem equivalente usava como método o contraceptivo oral. A queixa ginecológica mais referida foi o corrimento branco. A maioria dos exames realizados foi considerada satisfatória (72,2%), o diagnóstico metaplasia escamosa com inflamação se sobrepôs e Gardnerella vaginalis (28,3%) foi o agente etiológico mais prevalente. As alterações celulares de significado indeterminado representaram 3,0% dos exames. Concluiu-se que o perfil sexual traçado foi considerado preocupante dada a presença dos fatores de risco para o surgimento de lesões precursoras para o câncer. A adequabilidade da amostra do material colhido, considerada satisfatória neste estudo, é de suma importância para o êxito do diagnóstico e tratamento adequado e tem valor como estratégia de diminuir as estatísticas de morbimortalidade do câncer cervical.

Palavras-chave: Prevenção de Câncer de Colo Uterino; Esfregaço Vaginal; Enfermagem; Ginecologia

 

INTRODUÇÃO

O exame colpocitológico ou teste de Papanicolaou, entre os métodos de detecção, é considerado o mais efetivo e eficiente a ser aplicado coletivamente em programas de rastreamento do câncer de colo de útero (CCU), sendo uma técnica amplamente investigada e difundida há mais de 40 anos.1

No Brasil, o exame citopatológico é a estratégia de rastreamento recomendada pelo Ministério da Saúde (MS), prioritariamente para mulheres entre 25 e 59 anos. É estimado que uma redução de cerca de 80% da mortalidade por esse tipo de câncer pode ser alcançada mediante o rastreamento de mulheres na faixa etária de 25 a 65 anos com o teste de Papanicolaou e tratamento das lesões precursoras com alto potencial de malignidade ou carcinoma in situ. Para tanto, é necessário garantir a organização, a integralidade e a qualidade do programa de rastreamento, bem como o acompanhamento das pacientes.2

Os laudos colpocitopatológicos dos serviços públicos trazem uma terminologia uniforme baseada no Sistema Bethesda do Instituto Nacional da Saúde dos Estados Unidos, conforme os seguintes aspectos: adequabilidade do material coletado; diagnóstico descritivo das alterações celulares e análise da microbiologia existente. Esses laudos são armazenados no Sistema de Informação do Câncer de Colo do Útero (Siscolo), desenvolvido pelo Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus) e pelo Instituto Nacional de Combate ao Câncer (INCA), o que possibilita identificar as mulheres com exames positivos para lesões precursoras e câncer de colo do útero, bem como seu seguimento até o efetivo tratamento. Portanto, os resultados dos laudos citopatológicos e histopatológicos é que definem se a cliente será acompanhada no nível primário, secundário ou terciário da atenção.3

A maioria dos casos de câncer do colo uterino pode ser evitada ou reduzida por meio de rastreamento, desde que a qualidade, a cobertura e o seguimento sejam eficazes. Contudo, poucos são os países em desenvolvimento capazes de sustentar programas de rastreamento citológico efetivos,4 sendo estes esporádicos e de baixa qualidade em sua maioria.5

O exame citopatológico, ou colpocitologia oncótica (CO), está suscetível a vários fatores que podem interferir no seu aproveitamento. Os principais se devem à amostra celular insuficiente, à preparação inadequada dos esfregaços, à leitura inadequada das lâminas, à ausência de controle de qualidade dos laboratórios de citopatologia, à interpretação inadequada dos achados citológicos e ao seguimento inadequado das mulheres com esfregaços alterados.6

Dentre os fatores citados como limitadores do efetivo potencial de rastreamento da colpocitologia oncótica, observa-se que a amostra celular insuficiente, a preparação inadequada dos esfregaços e o seguimento inadequado das mulheres com esfregaços alterados estão intimamente relacionados com os profissionais que realizam a coleta do material e entregam o resultado à paciente.

Considerando que o profissional enfermeiro faz parte da equipe de profissionais que realizam a coleta do exame citopatológico, faz-se necessário avaliar o trabalho executado por ele, a fim de identificar possíveis fatores que possam interferir no resultado dos laudos. A consulta de enfermagem é regulamentada pela Lei nº 7.498/86 do exercício profissional da enfermagem e a coleta do material para exame citológico é permitida por meio do Parecer Técnico nº 040/1995, do MS.7

Várias medidas adotadas diminuem o risco do resultado do exame ser falso-negativo - por exemplo, a atuação de profissionais de saúde capacitados e a existência de serviços eficientes, bem como a correta colheita da citologia oncótica. O resultado do exame falso-negativo é preocupante, pois a não-detecção das lesões precursoras para o câncer de colo uterino poderá aumentar o índice de morbimortalidade desta doença.

Diante de tal problemática, justifica-se a importância da avaliação dos laudos citopatológicos como fator relevante, uma vez que uma colheita citológica correta leva a resultados mais fidedignos, e esses, por sua vez, irão nortear a adoção de uma conduta terapêutica adequada. Com isso, objetivou-se avaliar os laudos citopatológicos das mulheres atendidas no serviço de enfermagem em ginecologia do Centro de Parto Natural Lígia Barros Costa, vinculado à Universidade Federal do Ceará (UFC).

 

MATERIAL E MÉTODO

Trata-se de um estudo descritivo, retrospectivo, realizado por meio de pesquisa documental. A amostragem foi do tipo não probabilística intencional. Esse método permite ao pesquisador decidir selecionar, propositadamente, a maior variedade possível de respondentes ou escolher sujeitos que sejam considerados típicos da população em questão ou particularmente conhecedores do assunto em estudo.8

O universo do estudo foi composto pelo total de prontuários de mulheres atendidas de janeiro a junho de 2006, da qual fizeram parte da amostra 194 prontuários, havendo perda de uma pequena parcela desses, dada a falta de descrição da consulta de enfermagem.

A coleta de dados foi realizada no Centro de Parto Natural Lígia Barros Costa (CPNLBC), órgão pertencente à Faculdade de Farmácia, Odontologia e Enfermagem da Universidade Federal do Ceará, localizado no município de Fortaleza-CE. Essa instituição funciona em nível de atenção primária, onde são realizados serviços de assistência pré-natal e o exame de Papanicolaou por acadêmicos de enfermagem, sob a supervisão de enfermeiros docentes. O estudo citopatológico dos exames coletados é realizado no serviço de patologia cervical da Maternidade Escola Assis Chateaubriand (MEAC). Em seguida, retornam à casa de parto e são entregues às pacientes.

Utilizou-se como técnica para a coleta dos dados a aplicação de um formulário estruturado, contendo questões fechadas sobre dados de identificação, antecedentes gineco-obstétricos, queixa principal, sexualidade, prática da coleta citológica e resultado do exame citopatológico (adequabilidade do material, diagnóstico, microbiologia e alterações celulares), que possibilitou a coleta dos dados com base nos prontuários.

Os dados foram coletados durante o mês de novembro de 2006 e, em seguida, organizados e armazenados em banco de dados, sendo avaliadas as freqüências e os percentuais estatísticos. As variáveis dependentes e independentes passaram por análise estratificada à luz da literatura.

Esta pesquisa foi encaminhada ao Comitê de Ética e Pesquisa do Complexo Hospitalar Walter Cantídio da Universidade Federal do Ceará, tendo recebido aprovação sob o Parecer de nº. 315/05.

Solicitou-se autorização formal à diretoria da instituição de saúde onde foi desenvolvida a pesquisa, informando os objetivos e relevância dela para a população e para a instituição.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Caracterização do perfil

Com base no prontuário de 194 mulheres que compuseram a amostra deste estudo, observou-se que 86 (44,4%) tinham idade superior a 30 anos; 52 (26,8%) estavam entre 20 e 25 anos; 28 (14,4%) entre 16 e 19 anos; 24 (12,4%) entre 26 e 30 anos e 4 (2,0%) tinham entre 10 e 15 anos. Mais da metade das mulheres (51,6%) realizou o exame de prevenção anteriormente, sendo que 53 (53%) o realizaram com intervalo menor que dois anos.

Em 1998, o Ministério da Saúde do Brasil estabeleceu que a faixa etária das mulheres que teriam de se submeter à realização do exame para detecção precoce do câncer de colo deveria ser entre 25 e 60 anos ou antes dessa faixa etária, caso já tivessem iniciado atividade sexual.9 Inicialmente, esse exame deve ser feito todo ano, porém, se dois exames anuais seguidos apresentarem resultado negativo para neoplasia, o exame pode passar a ser feito a cada três anos.10

A justificativa para a priorização dessa faixa etária nos programas de rastreamento do câncer cervical é baseada em estudos que mostram que rastrear mulheres muito jovens não teria impacto na redução da incidência desse tipo de câncer, visto que, nesse grupo populacional, as lesões predominantes são de baixo grau e mais da metade regridem espontaneamente entre seis e dezoito meses.11

A cobertura de realização do exame citopatológico do colo uterino na instituição pesquisada teve maior percentual entre mulheres acima de 30 anos, que constituem a população-alvo do programa de combate ao câncer cervical. O intervalo de realização dos exames aconteceu, na maioria dos casos, no período preconizado pelo MS.

No Brasil, observa-se que a maior parte dos exames preventivos para o câncer de colo é realizada em mulheres com menos de 35 anos, provavelmente naquelas que comparecem aos serviços de saúde para cuidados relativos à natalidade. Isso leva a subaproveitar a rede, uma vez que não estão sendo atingidas as mulheres na faixa etária de maior risco.12

O câncer cervical raramente afeta as mulheres com menos de 30 anos de idade, sendo mais freqüente nas mulheres com mais de 40 anos. O número mais elevado de falecimentos é registrado nas quinquagenárias e sexagenárias.13 Isso se deve ao longo período de evolução da doença, com infecção inicial pelo HPV nas primeiras atividades sexuais, na adolescência ou até por volta dos 20 anos, levando ao aparecimento do câncer. Esse quadro, porém, vem se modificando aos poucos e o aparecimento das lesões precursoras está ocorrendo cada vez mais precoce, dada a iniciação cada vez mais antecipada das atividades sexuais associada aos demais fatores de risco.14

O início da atividade sexual ocorreu mais comumente entre o intervalo de 16 a 19 anos de idade (44,9%), seguido pelos de 10 a 15 anos (30,4%) e 20 a 25 anos (15,7%). Somente 3 (1,5%) mulheres iniciaram atividade sexual após os 25 anos. Cinco (2,5%) mulheres eram virgens e em 10 (5%) prontuários não constava a idade da primeira relação sexual.

Em geral, as mulheres iniciam a atividade sexual entre 15 e 19 anos, contudo há uma ligeira tendência de mulheres que apresentam lesões por HPV terem iniciado atividades sexuais antes dos 14 anos.15

A precocidade das relações sexuais e da gravidez são fatores de risco para o câncer cervical, talvez porque, na adolescência, a metaplasia se intensifica, e o coito aumenta a probabilidade de transformação atípica.16 Neste estudo, o fator de risco precocidade das relações sexuais esteve presente em 75,3% das mulheres e um número irrisório de mulheres (1,5%) iniciou atividade sexual na idade adulta, a partir de 25 anos, o que revela uma tendência da sociedade atual de iniciação precoce da atividade sexual, favorecendo o surgimento desse tipo de câncer.

Entre os métodos contraceptivos mais citados estavam: anticoncepcional oral (20,1%), preservativo masculino (16,2%), laqueadura tubária (13,7%), dispositivo intrauterino (6,4%), anticoncepcional injetável (5,9%), coito interrompido e tabela (0,5%). Em relação ao tipo de parceiro sexual, 72 (37%), relataram ter parceiro fixo, 34 (17,6%) parceiro ocasional e em 95 (49%) prontuários não constavam o tipo de parceiro. História de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) foi relatada por 39 (20,1%) mulheres.

O uso de preservativos, masculinos e femininos, por pessoas sexualmente ativas é o método mais eficaz para a redução do risco de transmissão do HIV e de outros agentes sexualmente transmissíveis, mesmo que se tenha parceiro único.12 Já o uso de anticoncepcionais orais por período prolongado é considerado um fator de risco para o câncer de colo, como revelou estudo realizado com 422 mulheres portadoras de carcinoma in situ, o qual verificou que o uso de contraceptivos orais aumentou em quatro vezes o risco para o referido câncer.17

Diferente de outras neoplasias malignas ginecológicas de alta prevalência, como o carcinoma ductal mamário e adenocarcinoma do endométrio, o câncer escamoso cervical tradicionalmente não tem sido considerado como hormônio-dependente. Entretanto, hormônios esteróides na forma de contraceptivos orais comumente administrados durante a fase reprodutiva parecem aumentar a atividade transformadora dos oncogenes do HPV e interferir na resolução eficiente de lesões causadas pelo vírus na cérvix de mulheres jovens.18,19

Embora 20,1% das mulheres fossem usuárias de anticoncepcionais orais e apenas 16,2% tenham referido que usavam preservativo, somente cinco mulheres apresentaram citologia alterada neste estudo; todavia, 39 relataram história de DST. Com isso, pôde-se inferir que tais fatores de risco estão repercutindo vagamente na alteração da citologia atual, no entanto, são fortes fatores que, persistindo, podem contribuir de forma mais intensa nas prováveis alterações futuras.

No que se refere aos fatores de risco clínicos ou epidemiológicos, pode-se afirmar que, em geral, o câncer cervical mostra incidência mais alta em populações urbanas, em classes sociais mais baixas, em países em desenvolvimento, em mulheres negras americanas, em não virgens, em viúvas e divorciadas, em multíparas, em mulheres cuja primeira gravidez ocorreu em idade jovem, naquelas que tiveram relação sexual precoce, nas mulheres promíscuas e nas que tiveram ou têm alguma DST.14

O número de mulheres que referiram parceiro fixo foi de 37%, o que não quer dizer que elas não estão expostas a contrair infecções de seus parceiros. Um estudo realizado sobre os fatores de risco para o câncer de colo em mulheres com lesões cervicais por HPV mostrou que 60,0% eram casadas ou viviam em união consensual, tinham um parceiro fixo, porém eram portadoras de lesões cervicais. Esse fato indica que tal união conjugal pode conduzir as esposas à maior exposição, principalmente às doenças infecciosas do trato genital transmitidas por relação sexual, pois muitas vezes confiam na fidelidade de seus companheiros e não utilizam nenhum método de prevenção.15

O perfil sociodemográfico e ginecológico das pacientes apreendido nos seus respectivos prontuários tem se mostrado de grande valor para a realização de associação entre as alterações cervicais, o conhecimento dos fatores de risco mais presentes na clientela, a elaboração de estratégias educativas e as reformulações na dinâmica do serviço e atendimento.

Em relação aos motivos apresentados pelas mulheres para a realização do exame de prevenção do câncer de colo uterino nesta pesquisa, apenas 78 (28,4%) informaram que era um exame de rotina para prevenir o câncer e que não tinhamo queixas. As 196 (71,6%) mulheres restantes referiram outros motivos que não prevenir o câncer de colo uterino. A distribuição das quatro principais queixas se deu, em ordem decrescente, da seguinte forma: leucorréia (35,2%), dor pélvica (22,4%), prurido (15,8%) e dispareunia (10,2%) (GRAF. 1).

 

 

Pesquisa realizada no interior do Ceará em um serviço de prevenção do câncer cervical com 141 mulheres mostrou que o motivo que mais sobressaiu, com 80 citações, para a busca da consulta a fim de realizar o exame de Papanicolaou, foi o da apresentação de alguma queixa ginecológica (corrimento vaginal, prurido, nódulo mamário, dentre outros), seguida da busca de anticoncepcionais (n=36) e prevenção do câncer de colo (n=20).20

As queixas citadas neste estudo são indicativas de vulvovaginite, definida como uma manifestação inflamatória e/ou infecciosa do trato genital feminino inferior, ou seja, vulva, vagina e epitélio escamoso do colo uterino (ectocérvice). Como exemplos temos a candidíase, a vaginose bacteriana por Gardnerella vaginalis e a tricomoníase.12

A vulvovaginite é um dos problemas ginecológicos mais comuns e incomodativos que afetam a saúde da mulher e representa cerca de 70% das queixas em consultas ginecológicas. Nem sempre a queixa "corrimento" corresponderá ao diagnóstico comprovado de infecção do trato genital inferior. Porém, a anamnese dirigida e específica para os casos com queixa de corrimento, associada ou não ao resultado do exame preventivo, fornece informações suficientes para seleção de pacientes com real necessidade de tratamento.11

Atualmente, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o MS, por meio da Secretaria de Políticas de Saúde, têm preconizado o manejo sindrômico do fluxo genital em nível primário de atendimento. Tal situação decorre da importância de identificar e tratar as cervicites como forma de prevenção da doença inflamatória pélvica (DIP) e de outras complicações como endometrites e celulites.21

A etiologia das endocervicites está relacionada à Neisseria gonorrhoeae e à Chlamydia trachomatis. Embora a infecção seja assintomática em 70%-80% dos casos, a mulher portadora de cervicite poderá vir a ter sérias complicações se não for tratada. Uma cervicite prolongada, sem o tratamento adequado, pode-se estender ao endométrio e às trompas, causando a DIP, sendo a esterilidade, a gravidez ectópica e a dor pélvica crônica as principais seqüelas. Por isso, é importante, como rotina, a verificação da presença de fatores de risco - escore de risco -, mediante a realização da anamnese e do exame ginecológico atento em todas as mulheres que procurarem o serviço ginecológico por qualquer motivo. Alguns sintomas genitais leves, como corrimento vaginal, dispareunia - dor/desconforto na relação sexual ou disúria -, dor/dificuldade ao urinar podem ocorrer na presença de cervicite mucopurulenta.12

Análise dos laudos citopatológicos

Observa-se que na maioria (72,2%) dos laudos citopatológicos que a adequabilidade do material coletado foi classicada como satisfatória, ou seja, o material continha células em quantidade representativa, bem distribuídas, fixadas e coradas, permitindo uma conclusão diagnóstica. Nenhuma amostra de material foi considerada insatisfatória.

Entretanto, 25,8% dos laudos citopatológicos foram considerados satisfatórios, mas limitados pela ausência de células endocervicais. A presença dessas células, representativas da JEC, tem sido considerada como indicador de qualidade do exame, pelo fato de se originarem do local onde se situa a quase totalidade dos cânceres do colo do útero.12

No formulário de coleta para a pesquisa, considerou-se a nomenclatura até então utilizada pelo laboratório que realiza a análise dos laudos da instituição pesquisada, classificando a adequabilidade da amostra como: satisfatória; satisfatória, mas limitada e insatisfatória.

Em contrapartida, a nova Nomenclatura Brasileira do Exame Preventivo Ginecológico, lançada em 2006 pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA), estabelece que a adequabilidade da amostra deve ser classificada num sistema binário, satisfatório ou insatisfatório, sendo a expressão "satisfatório, mas limitado" abolida. Se a amostra for prejudicada, deve ser considerada insatisfatória.

No que se refere aos achados descritos nos laudos dos exames citopatológicos (TAB. 1), não houve amostra insatisfatória, no entanto, 50 (25,8%) lâminas foram colhidas sem a presença das células endocervicais e apenas 4 (2%) tiveram sua análise limitada pela presença de sangue no esfregaço. Quanto às afecções registradas nos resultados dos exames, destaca-se que em 181 (93,3%) constatou-se a presença de processo inflamatório.

 

 

A questão da adequabilidade da amostra vem, ao longo do tempo, suscitando inúmeros questionamentos e modificações, dado seu caráter de matéria conflitante e de difícil conceituação plenamente aceitável. A disposição em um sistema binário (satisfatória vs. insatisfatória) melhor caracteriza a definição da visão microscópica da colheita. No atual Sistema Bethesda, a adequabilidade da amostra também está colocada nesses dois parâmetros, sendo que a caracterização da junção escamocolunar (JEC) faz parte dessa definição.12

A presença de células metaplásicas ou células endocervicais, representativas da junção, tem sido considerada como indicador de qualidade do exame, pelo fato de se originarem do local onde se situa a quase totalidade dos cânceres de colo uterino. É muito importante que os profissionais de saúde atentem para a representatividade da junção escamocolunar nos esfregaços cérvico-vaginais, sob pena de não propiciar à mulher todos os benefícios da prevenção do câncer de colo.12

Na pesquisa, verificou-se que aproximadamente 25% da amostra foi limitada pela ausência de células endocervicais, o que leva a refletir sobre a adequada coleta da amostra por parte dos alunos. Percebe-se no cotidiano que, algumas vezes, os alunos têm dificuldade em encontrar o colo do útero e, por isso, acabam não coletando o material da junção escamocolunar. Propõe-se maior supervisão por parte dos docentes do curso em questão no momento da coleta, com vista a garantir o aprendizado adequado do aluno na coleta do exame e a realização de uma coleta de qualidade.

Antes do início da coleta para o exame citopatológico, deve-se sempre perguntar à mulher se está grávida ou se há suspeita de gravidez. Caso afirmativo, não se deve colher o material da endocérvice. Para a realização do exame preventivo do colo do útero a fim de garantir a qualidade dos resultados, recomenda-se que esse exame não deve ser feito no período menstrual, pois a presença de sangue pode prejudicar o diagnóstico citológico. Deve-se aguardar o quinto dia após o término da menstruação. Somente em algumas situações particulares, como em um sangramento anormal, a coleta pode ser realizada.22

Por vezes, em decorrência do déficit de estrogênio, ocorre que a visibilização da junção e da endocérvice pode encontrar-se prejudicada, assim como pode haver dificuldades no diagnóstico citopatológico por causa da atrofia do epitélio.22

Os Lactobacillus sp. estiveram presentes na maioria dos laudos microbiológicos(38,2%), seguidos pela Gardnerella vaginalis (28,3%), cocos e bacilos (24,8%), Cândida sp. (7,7%) e Trichomonas vaginalis (0,5%) (GRAF. 2).

 

 

Os resultados como Lactobacillus sp, cocos e bacilos são considerados achados normais, fazem parte da flora vaginal e não caracterizam infecção. Considerando-se os microorganismos que causam infecção, a presença de Gardnerella vaginalis e da Candida sp., ambas são classificadas como vulvovaginites. A Gardnerella vaginalis é uma bactéria encontrada em baixa concentração na microbiota vaginal, sem causar-lhe danos. Entretanto, alguns fatores podem desencadear o processo inflamatório, alterando o equilíbrio biológico.

Alterações da flora vaginal sugestiva de vaginose bacteriana ocorrem com freqüência significativamente maior entre as mulheres com anormalidades citológicas cervicais em comparação com aquelas cuja citologia cervical é normal. Há, também, associação significativa entre DNA de HPV e flora indicativa de vaginose bacteriana. Assim, vem sendo sugerido que a vaginose bacteriana também poderia ter papel importante no desenvolvimento da neoplasia intra-epitelial (NIC) em decorrência de nitrosaminas oncogênicas produzidas pelas bactérias anaeróbicas e, ainda, do estímulo para a produção de citocinas, como a interleucina 1 beta.23

A candidíase é uma infecção fúngica que habita a mucosa vaginal e cresce quando o meio se torna favorável para o desenvolvimento dela. A relação sexual não é considerada a principal forma de transmissão, visto que o microorganismo faz parte da flora endógena em até 50% das mulheres assintomáticas. Os fatores predisponentes estão relacionados com a imunossupressão, gestação, uso de antibióticos, dosagem de anticoncepcional oral e os hábitos de higiene e vestuário inadequados.12

A candidíase, de acordo com a abordagem sindrômica das queixas ginecológicas do MS, está inserida na síndrome corrimento vaginal. O Manual de controle das doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), criado pelo MS contém os fluxogramas com protocolos para o tratamento das diversas manifestações clínicas.

Somente 5 (3%) laudos apresentaram alterações celulares, as quais foram diagnosticadas: atipias escamosas de significado indeterminado (ASCUS) (n=2), papilomavírus humano (HPV) com NIC I (n=2) e ASCUS com NIC III (n=1) (GRAF. 3).

 

 

Atipias de significado indeterminado em células escamosas (Ascus) ou Atipias de significado indeterminado em células glandulares (Agus) correspondem a diagnósticos com alterações epiteliais de significado incerto e que precisam de melhor investigação. Entretanto, com a nova nomenclatura, essas células atípicas de significado indeterminado são consideradas, possivelmente, não neoplásicas, porém, não afastando a possibilidade de lesão intra-epitelial (LIE) de alto grau.

Vale salientar que um dos diagnósticos de atipias de significado indeterminado em células escamosas sugeriu provável lesão de alto grau, e esse diagnóstico confere um risco de neoplasia intra-epitelial cervical - NIC II e NIC III alto (24% a 94%). As pacientes com atipias em seus resultados citológicos podem apresentar de 9% a 54% dos casos NIC II ou III, 0% a 8% adenocarcinoma in situ e 1% a 9% adenocarcinoma invasor no exame histopatológico, considerado padrão ouro no diagnóstico dessa patologia.23

Todos os profissionais que atuam na atenção básica realizando a coleta do material para o exame citopatológico devem ser conscientes de sua responsabilidade na execução dessa atividade, uma vez que a técnica correta é imprescindível para um diagnóstico correto, preciso e para nortear a terapêutica a ser adotada.

Em estudo realizado sobre o uso do ácido acético no diagnóstico precoce do câncer de colo uterino, comparou-se o desempenho dos profissionais enfermeiro e médico, considerando ambos aptos para a realização do teste com inspeção visual com ácido acético a 5%, bem como para a colheita do material cervical. Nesse estudo, concluiu-se que o enfermeiro é tão capaz quanto o médico de identificar lesões precursoras do câncer cervical por meio da inspeção visual com ácido acético a 5%, enfatizando que a eficiência do exame depende da experiência e do treinamento de quem o faz, e não de sua categoria profissional.24

 

CONCLUSÃO

A amostra deste estudo se encontrava na faixa etária (25-60 anos) preconizada pelo MS para a realização do exame citopatológico, como também estava com intervalo de realização do exame adequado, em torno de três anos. A maioria, porém, informou queixas ginecológicas referentes à vulvovaginites nas consultas, assim como apresentou perfil sexual preocupante, com predominante início sexual precoce e sem o devido uso do preservativo, evidenciando um risco aumentado para o surgimento de lesões precursoras e para o câncer propriamente dito.

Considera-se importante a ampla abordagem sobre o câncer do colo do útero, destacando-se a promoção, a detecção precoce, os procedimentos de coleta do exame preventivo do câncer do colo do útero, o diagnóstico, o tratamento e a responsabilidade de todos os profissionais envolvidos no atendimento. Cabe ao enfermeiro, em especial, a realização da promoção da saúde em todos os níveis e o incentivo à mulher para a adoção de hábitos saudáveis de vida, reduzindo a exposição aos fatores de risco conhecidos.

Sabe-se que fatores relacionados às ações de prevenção do câncer cérvico-uterino são passíveis de interferências, podendo comprometer, assim, a saúde da mulher.

A adequabilidade da amostra do material coletado foi considerada largamente satisfatória, comprovando que a técnica da colheita e seu envio para o laboratório de patologia estavam sendo realizados de forma correta e efetiva pelos profissionais da instituição. A adequabilidade da coleta de material é de suma importância para o êxito do diagnóstico.

Apesar de nenhuma amostra ter sido considerada insatisfatória, algumas lâminas foram consideradas com ausência de células endocervicais, portanto, insatisfatórias de acordo com a nova nomenclatura. É preciso avaliar de forma mais precisa a realização da técnica de coleta citológica, inserida na consulta de enfermagem, a fim de identificar os motivos que estariam causando tal adequabilidade.

Conclui-se, portanto, que os laudos citopatológicos avaliados no serviço de ginecologia do Centro de Parto Natural apresentaram características satisfatórias, com resultados de acordo com as estatísticas observadas na literatura; entretanto, com a mudança para a nova nomenclatura, é preciso um estudo mais detalhado sobre a técnica da coleta do material citológico, visto que as amostras podem ser consideradas insatisfatórias.

Acredita-se que o estudo tenha atingindo seu objetivo proposto e espera-se que essa avaliação possa contribuir para a melhoria do serviço executado naquela instituição, proporcionando fundamentos para maior empenho por parte dos docentes e discentes na realização de uma consulta de enfermagem de qualidade.

 

REFERÊNCIAS

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