REME - Revista Mineira de Enfermagem

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Enfermagem UFMG

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Volume: 12.4

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Revisão Teórica

Desenvolvimento do método indireto de aferição da pressão arterial e dos critérios de diagnóstico da hipertensão

Development of the indirect method of recording blood pressure and hypertension diagnosis criteria

Adriano Marçal PimentaI; Marília AlvesII; Roseni Rosângela de SenaIII

IProfessor Adjunto I. Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. E-mail: marilix@enf.ufmg.br
IIProfessora Titular. Departamento de Enfermagem Aplicada da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. E-mail: rosenisena@uol.com.br
IIIProfessora Emérita. Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem da Univesidade Federal de Minas de Gerais. E-mail: adrianompimenta@yahoo.com.br

Endereço para correspondência

Adriano Marçal Pimenta
Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Enfermagem
Avenida Alfredo Balena, 190, Belo Horizonte-MG, CEP 30130-100
Fone: 31 3409.9868

Data de submissão: 1/9/2006
Data de aprovação: 2/10/2008

Resumo

INTRODUÇÃO: A hipertensão arterial é um grave problema de saúde pública, estando fortemente associada às doenças cardiovasculares, que são as principais causas de morte no mundo.
OBJETIVO: Realizar revisão de literatura sobre o desenvolvimento do método indireto de aferição da pressão arterial, o diagnóstico e a classificação da hipertensão.
METODOLOGIA: Levantamento bibliográfico nas bases de dados Lilacs, Scielo e Medline, usando os seguintes descritores: história e determinação da pressão arterial, de acordo com o MeSH e DECs. Foram selecionados 22 artigos científicos. Com relação aos critérios de diagnóstico da hipertensão, foram analisados relatórios sobre a doença, produzidos por organizações nacionais e internacionais de saúde.
RESULTADOS: A aferição da pressão arterial iniciou-se com a utilização de aparelhos e técnicas invasivas e rudimentares, evoluindo ao longo dos anos para o desenvolvimento dos modernos esfigmomanômetros de coluna de mercúrio e digitais. Até o final da década de 1950, não havia critérios padronizados para o diagnóstico da hipertensão, os quais vieram a ser estabelecidos em decorrência do aumento do número de casos de morbimortalidade por doenças cardiovasculares. Atualmente, a hipertensão é definida como pressão arterial > 140/90 mmHg.
CONCLUSÃO: O desenvolvimento do método indireto de aferição da pressão arterial e dos critérios de diagnóstico da hipertensão foi e permanece sendo um processo contínuo extremamente importante para os estudos sobre a fisiopatologia e os fatores de risco das doenças cardiovasculares.

Palavras-chave: Hipertensão/história; Hipertensão/diagnóstico; Pressão Arterial; Determinação da Pressão Arterial; Saúde Pública

 

INTRODUÇÃO

Uma discussão inicial sobre as transições demográfica e epidemiológica se faz necessária para entender o importante destaque que hoje a hipertensão arterial (HA) assume no contexto da saúde pública mundial.

Iniciando-se de maneira mais consistente no século passado e em continuidade nos tempos atuais, a população mundial vem passando por transformações marcantes na sua composição etária com o aumento na expectativa de vida e na proporção de idosos. Esse fenômeno, denominado "transição demográfica", vem acontecendo com diferentes graus de intensidade nas diversas sociedades, atingindo primeiramente os países desenvolvidos e posteriormente os menos desenvolvidos, e apresenta como determinantes principais a diminuição das taxas de fecundidade, natalidade e mortalidade.1-2

O envelhecimento da população brasileira e mundial tem influenciado as modificações nos padrões de morbimortalidade das sociedades, fato conhecido como "transição epidemiológica", que vem acontecendo de forma consistente a partir meados do século XX, na maioria das populações do mundo. Essas mudanças têm sido atribuídas, também, ao processo de urbanização, ampliação da cobertura de imunizações, universalização da prestação dos serviços de saúde, assim como às mudanças no processo produtivo e econômico.1

As principais características da transição epidemiológica são o aumento da morbimortalidade por doenças crônico-degenerativas, com destaque para as doenças do aparelho circulatório, dentre elas a hipertensão arterial e a queda das taxas por doenças infectoparasitárias (DIPs).

A hipertensão arterial (HA) é um grave problema de saúde pública, afetando, aproximadamente, 1 bilhão de pessoas3 e causando 7,6 milhões de mortes prematuras em todo o mundo.4

No Brasil, pode-se dizer que a prevalência da HA é relativamente desconhecida, pois os estudos sobre essa doença se concentram nas regiões Sul e Sudeste. Em estudos realizados com populações urbanas adultas e que utilizaram os atuais critérios da Joint National Committee (JNC) para a definição da HA (pressão arterial > 140/90 mmHg) foram observadas prevalências variando entre 22,3% a 43,9%, o que leva a estimar que, aproximadamente, 20% dos brasileiros são afetados por essa afecção.5

Um fator extremamente relevante no estudo da hipertensão arterial é sua forte relação com outras doenças cardiovasculares (DCVs), tais como as doenças arteriais coronarianas (DACs) e o acidente vascular encefálico (AVE), que são as duas principais causas de morte em todo o mundo. A HA explica 47% e 54% das mortes por DACs e AVE, respectivamente.4

No Brasil, as DCVs foram responsáveis por 32,5% do total de mortes em 2005.6 Além disso, essas enfermidades acarretam um grande número de internações hospitalares, gerando grande ônus social e econômico. Informações do Ministério da Saúde (MS) mostram que foram gastos R$ 5.401.359.717,36 para custear as internações realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em 2002. Desse total, R$1.012.457.705,60, ou seja, quase 20% foram consumidos no pagamento das internações por DCVs.7 Nos países subdesenvolvidos e em fase de desenvolvimento, metade das mortes por DCVs acontece em pessoas na faixa etária economicamente ativa.4

Entretanto, esse panorama da hipertensão arterial só pode ser desvelado mediante a construção de métodos e definição de critérios para detecção da doença. Portanto, o objetivo com este artigo foi fazer uma revisão teórica sobre o desenvolvimento do método indireto da aferição da pressão arterial, o diagnóstico e a classificação da hipertensão.

 

METODOLOGIA

Trata-se de um artigo de revisão bibliográfica cujas bases de busca foram a Lilacs, a Scielo e a Medline. Para o desenvolvimento dos métodos de aferição da pressão arterial, foram utilizados os descritores história/history/historia e determinação da pressão arterial/blood pressure determination/determinación de la presión sanguinea, de acordo com MeSH e DeCS. Foram selecionados artigos entre janeiro de 1990 e julho de 2008, escritos nos idiomas português, inglês ou espanhol.

Foram encontrados 10 artigos na Lilacs, 2 na Scielo, e 530 na Medline. Os títulos de todos os artigos foram lidos e, após esse procedimento, foram selecionados 28 resumos, dentre os quais foram excluídos 2, por estarem duplicados, e 6, por não serem pertinentes ao objetivo deste estudo, restando 21 artigos que foram lidos na íntegra.

Com relação ao diagnóstico e à classificação da hipertensão, foram pesquisados os relatórios sobre a doença produzidos pela Joint National Committee (JNC), pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelas Sociedades Brasileiras de Cardiologia, Hipertensão e Nefrologia.

 

DESENVOLVIMENTO DO MÉTODO INDIRETO DE AFERIÇÃO DA PRESSÃO ARTERIAL

O diagnóstico da hipertensão arterial é realizado com a medida da pressão arterial (PA) em milímetros de mercúrio, utilizando técnicas e aparelhos adequados. Para se chegar aos meios atuais de aferição da PA, porém, uma série de descobertas foi realizada ao longo do tempo.

A identificação do pulso de artérias em várias partes do corpo data de 1500 a.C. Bastante tempo depois, Herófilo (300 a.C.) descreveu as pulsações e definiu o pulso como um fenômeno que acontece de maneira intravascular. Santorio (1561-1636) fez a primeira tentativa de registrar o pulso utilizando um aparelho chamado pulsilogium, que media a freqüência e a variação do pulso. Em 1680, Willian Harvey descreveu a circulação.8-14

Nas primeiras tentativas de medição da PA usavam-se técnicas invasivas como o manômetro de William Hales, que data de 1733, no qual um tubo de cobre de 0,4 cm de calibre era introduzido em uma fístula na região inguinal de uma égua. Esse tubo estava firmemente preso a um segundo tubo de cobre no qual foi fixado um terceiro tubo de vidro de mesmo calibre e 2,7 m de comprimento. Ao soltar a ligadura da artéria, a variação da altura do sangue dentro da coluna de vidro era observada. Em 1828, Poiseuille realizou a inovação dessa técnica substituindo o tubo de vidro por um tubo em U de 20 cm, parcialmente cheio de mercúrio (Hg). Esse aparelho, chamado hemodinamômetro (FIG. 1), era conectado a uma cânula cheia de carbonato de potássio, que era introduzida na artéria de um animal. A leitura da PA se dava pela diferença em milímetros observada no nível de Hg no tubo em U.8-14

 

 

Em 1834, o primeiro protótipo de esfigmomanômetro foi idealizado por J. Hérrison e P. Gernier. Esse aparelho era composto por uma coluna de mercúrio posicionada sobre o pulso de uma artéria, que era comprimida e os movimentos da coluna de mercúrio variavam com a pulsação. O valor da pressão arterial era avaliado no nível em que os movimentos paravam na coluna de mercúrio. Contudo, apenas em 1856 foi aferida a primeira medida de pressão arterial em um ser humano, durante uma cirurgia de amputação de membro inferior realizada por Faivre.8-14

No final do século XIX, Scipione Riva-Rocci construiu um esfigmomanômetro de coluna de mercúrio muito próximo dos modelos contemporâneos (FIG. 2). O manguito tinha de 4 a 5 cm de largura e cobria o braço em toda a sua circunferência. A técnica então empregada para aferição da pressão arterial contemplava somente a pressão sistólica, porque avaliava o desaparecimento e o ressurgimento do pulso radial conforme o manguito era inflado e desinflado. Em 1901, H. von Recklinghausen aumentou a largura do manguito para 12 cm.8-21

 

 

Com o intuito de determinar a pressão diastólica, em 1897, Leonard Hill e Harold Bernard adaptaram uma agulha inscritora no esfigmomanômetro de RivaRocci.8,9,22 Assim, a mudança na amplitude das ondas de pulso era identificada pelo método oscilatório. Em 1904, porém, Nicolai Sergeivich Korotkoff detectou, definitivamente a pressão diastólica e descreveu pela primeira vez o método auscultatório da medida indireta da pressão arterial, observando a variação dos sons dentro da artéria entre a sua total oclusão pelo esfigmomanômetro e o restabelecimento da circulação normal.8,9,23-29

A partir das descobertas de Scipione Riva-Rocci e Korotkoff, modernos esfigmomanômetro foram construídos, com destaque para os atuais aparelhos digitais.

Até meados do século XX, pouca atenção foi dada ao estudo da hipertensão arterial. Todavia, essa doença e suas complicações em nível populacional tornaramse importantes focos de estudos a partir dessa época, dado o aumento da morbimortalidade por DCVs, particularmente nos países industrializados e em desenvolvimento.30

 

A EVOLUÇÃO DOS CRITÉRIOS DE DIAGNÓSTICO DA HIPERTENSÃO ARTERIAL

Até o final da década de 1950, não havia critérios padronizados, nacional ou internacionalmente, para o diagnóstico da hipertensão e, até então, eram comuns os pontos de corte da pressão arterial diastólica em 100 ou 110 mmHg para classificar um indivíduo como hipertenso, quer para a prática clínica quanto para as investigações epidemiológicas.30 Atualmente, o valor de PAD > 110 mmHg é considerado hipertensão severa.

Não era possível precisar a prevalência da hipertensão arterial em nenhum país do mundo, e a taxa de mortalidade por essa doença figurava em estatísticas demográficas sujeitas a muitos erros. Os dados de morbidade eram mais fragmentados ainda e se baseavam quase sempre em impressões subjetivas.31

Portanto, no período de 13 a 18 de outubro de 1958, peritos da OMS se reuniram em Genebra, Suíça, para estudar os problemas sanitários representados pelas enfermidades cardiovasculares e examinar a classificação e os critérios diagnósticos aplicáveis à hipertensão arterial e à cardiopatia coronariana, especialmente com fins epidemiológicos. Esses peritos definiram, para adultos, critérios para normotensão e hipertensão que passaram a ser usados na prática clínica e na maioria das investigações epidemiológicas. O indivíduo era considerado normotenso se a pressão arterial sistólica (PAS) e a pressão arterial diastólica (PAD) estivessem, respectivamente, abaixo de 140 mmHg e 90 mmHg. A hipertensão arterial era determinada se a PAS fosse superior ou igual a 160 mmHg e/ou a PAD estivesse cima ou igual a 95 mmHg.31 Esses critérios criaram um vazio entre os valores da PAS de 140 a 160 mmHg e entre os valores da PAD de 90 a 95 mmHg.

No período de 16 a 23 de outubro de 1962, os peritos da OMS novamente se reuniram com o intuito de esclarecer os aspectos da hipertensão arterial e da cardiopatia isquêmica que pudessem servir de base para a adoção de medidas preventivas contra essas afecções. Nessa oportunidade, eles confirmaram os critérios de diagnóstico da hipertensão arterial firmados na reunião de 1958, contudo fizeram algumas considerações: a cifra de 160/95 mmHg era aceitável para pessoas com menos de 60 anos, mas nem sempre para sujeitos de mais idade, nos quais a elevação da pressão sistólica poderia dever-se à perda de elasticidade das grandes artérias; em sujeitos mais jovens, por exemplo, de 30 a 40 anos, os valores compreendidos entre 140/90 mmHg e 160/95 mmHg deviam, em muitos casos, ser considerados como limítrofes, justificando-se um acompanhamento mais rigoroso dessas pessoas.32

Esses pontos de corte para classificação da hipertensão arterial propostos pela OMS se mantiveram inalterados até o final da década de 1990.33 Melhor explicação sobre as modificações desses critérios será realizada após o detalhamento da evolução ao longo dos tempos da detecção da há, proposta por outra organização denominada Joint National Commitee (JNC) do National Institute of Health (NIH) dos Estados Unidos.

A JNC tem publicado, em média, a cada quatro anos, um informativo intitulado: Report of the Joint National Committee on Detection, Evaluation, and Treatment of High Blood Pressure. Segundo Lessa,30 desde a década de 1970 a JNC define a HA quando a PAS > 140 mmHg e/ou a PAD > 90 mmHg. Contudo, no primeiro relatório,34 publicado em 1977, esse ponto de corte não estava muito claro.

No segundo relatório feito pela JNC35 em 1980, baseado em novos inquéritos populacionais, foi pela primeira vez apresentada uma classificação para a hipertensão usando como referência apenas a PAD (TAB. 1): nível I (leve) - PAD: 90 a 104 mmHg; nível II (moderada) - PAD: 105 a 114 mmHg; nível III (severa) - PAD: > 115 mmHg.

 

 

Em 1984, a JNC lançou seu terceiro relatório.36 Desde a publicação de 1980, importantes eventos ocorreram afetando o sucesso do controle da hipertensão: publicação de importantes resultados de experimentos clínicos, introdução de novos agentes anti-hipertensivos, evidência de resultados efetivos do tratamento não farmacológico, além de novas análises de estudos epidemiológicos que associaram a pressão arterial ao risco prematuro de morbidade e mortalidade. Pela primeira vez a hipertensão arterial foi definida claramente quando o indivíduo adulto apresentava a PAS > 140 mmHg e/ou a PAD > 90 mmHg. Também, de maneira inédita, foi proposta uma tabela para categorização tanto da PAS quanto da PAD para pessoas com mais de 18 anos (TAB. 2): normal (PAD < 85 mmHg); normal alta (PAD: 85 - 89 mmHg); hipertensão leve (PAD: 90 - 104 mmHg); hipertensão moderada (PAD: 105 - 114 mmHg); hipertensão grave (PAD > 115 mmHg); normal (PAS < 140 mmHg); hipertensão sistólica isolada limítrofe (PAS: 140 - 159 mmHg); hipertensão sistólica isolada (PAS > 160 mmHg). As classificações de hipertensão sistólica isolada limítrofe (PAS: 140 - 159 mmHg) ou de hipertensão sistólica isolada (PAS > 160 mmHg) predominavam sobre a classificação de pressão arterial diastólica normal alta (PAD: 85 - 89 mmHg) quando ambas ocorriam na mesma pessoa. A classificação de pressão arterial diastólica normal alta (PAD: 85 - 89 mmHg) predominava sobre a classificação de pressão arterial sistólica normal (PAS < 140 mmHg) quando ambas ocorriam na mesma pessoa.

 

 

A reunião da JNC em 1988 não apresentou novidades sobre o diagnóstico da hipertensão arterial e a classificação dos níveis tensionais, mantendo-se o que já havia sido proposto no terceiro relatório.37 Contudo, o quinto relatório da JNC de 1993 mostrou uma nova classificação da pressão arterial de pessoas com 18 e mais anos, levando-se em consideração simultaneamente os níveis tensionais sistólicos e diastólicos38 (TAB. 3): normal (PAS < 130 mmHg e PAD < 85 mmHg); normal alta (PAS: 130 - 139 mmHg e/ou PAD: 85 - 89 mmHg); hipertensão estágio I (PAS: 140 - 159 mmHg e/ou PAD: 90 - 99 mmHg); hipertensão estágio II (PAS: 160 - 179 mmHg e/ou PAD: 100 - 109 mmHg); hipertensão estágio III (PAS: 180 - 209 mmHg e/ou PAD: 110 - 119 mmHg); hipertensão estágio IV (PAS > 210 mmHg e/ou PAD > 120 mmHg). Quando a PAS e a PAD se estabeleciam em categorias diferentes, a categoria mais alta deveria ser selecionada para classificar a pressão arterial do indivíduo.

 

 

Quando as pressões sistólicas e diastólicas caem em categorias diferentes, a categoria mais alta deve ser selecionada para classificar o status da pressão arterial do indivíduo.

O relatório de 1997 trouxe poucas novidades em relação à publicação de 1993. Interessante ressaltar que a tabela de classificação da pressão arterial de indivíduos com 18 e mais anos teve algumas alterações como a inclusão da categoria de pressão arterial ótima (PAS < 120 mmHg e PAD < 80 mmHg).39 No entanto, leituras extremamente baixas deveriam ter sua significância clínica avaliada. Além disso, houve uma combinação entre o estágio 3 e o estágio 4 da hipertensão arterial dada a relativa baixa freqüência da hipertensão de estágio 4 (TAB. 4).

 

 

Como citado, os critérios de classificação para a hipertensão propostos pela OMS mantiveram-se inalterados até 1999, ocasião em que os membros do comitê de peritos dessa instituição passaram a corroborar o que já vinha sendo difundido pela JNC, ou seja, a doença era detectada quando o indivíduo com 18 ou mais anos tinha a PAS > 140 mmHg e/ou a PAD > 90 mmHg,33 valores que foram mantidos no guia de controle da HA publicado pela OMS em 2003.40

Essa congruência foi extremamente benéfica, pois anteriormenteaissoeramuitodifícilfazercomparaçõesentre os estudos clínicos e epidemiológicos sobre a hipertensão arterial, visto que os autores ora optavam pelos antigos critérios da OMS (PAS > 160 mmHg e/ou PAD > 95 mmHg) ora os da JNC (PAS > 140 mmHg e/ou PAD > 90 mmHg).

O mais recente relatório da JNC é o sétimo, publicado em 2003.3 A elaboração dele se deveu, principalmente, a quatro fatores: publicações de muitos novos estudos observacionais e ensaios clínicos sobre hipertensão; necessidade de um novo, claro e conciso guia que poderia ser útil aos clínicos; necessidade de simplificar a classificação da pressão arterial; e o claro reconhecimento de que o relatório da JNC não estava sendo usado com o seu máximo benefício.

No sétimo relatório houve profundas modificações na classificação da pressão arterial de pessoas com mais de 18 anos de idade: fim da categoria de pressão arterial ótima, criação do nível de pré-hipertensão e unificação dos níveis II e III da hipertensão arterial. Portanto, a nova classificação foi a seguinte (TAB. 5): normal (PAS < 120 mmHg e PAD < 80 mmHg); pré-hipertensão (PAS: 120 - 139 mmHg e/ou PAD: 80 - 89 mmHg); hipertensão estágio I (PAS: 140 - 159 mmHg e/ou PAD: 90 - 99 mmHg); hipertensão estágio II (PAS > 160 mmHg e/ou PAD > 100 mmHg). Contudo, essa nova classificação tem sido alvo de inúmeras discussões a respeito da sua adoção na prática clínica e epidemiológica sem a adesão ainda efetiva pelos profissionais que na sua maioria continuam a usar a classificação do sexto relatório.

 

 

Atualmente, já está sendo preparado o VIII relatório da JNC com data de publicação prevista para 2009.

No contexto nacional, uma discussão mais profunda sobre os critérios de diagnóstico da hipertensão arterial e classificação dos níveis tensionais vem sendo realizada desde 1991, ocasião da publicação do I Consenso Brasileiro de Hipertensão Arterial (CBH).41 Esse documento foi um produto da reunião de membros das Sociedades Brasileiras de Hipertensão, Cardiologia e Nefrologia com representantes de outras sociedades e de órgãos públicos. De maneira proposital, as reuniões para a elaboração dos consensos brasileiros sobre hipertensão têm acontecido logo após as publicações dos relatórios da JNC.

No I Consenso Brasileiro de Hipertensão Arterial, aceitavase como limite da normalidade para adultos (pessoas com 18 e mais anos de idade) cifras inferiores a 90 mmHg para a PA diastólica. Reconhecia-se o imprescindível valor das cifras sistólicas como preditivas de risco cardiovascular. Contudo, dado o uso corrente dos critérios diastólicos e por serem suficientes para a definição diagnóstica, decidiu-se considerar apenas as cifras diastólicas para o diagnóstico da HA. Também nesse relatório foi proposta uma classificação da pressão arterial para pessoas adultas (TAB. 6): normal (PAD < 90 mmHg); cifras baixas não complicadas (PAD: 90 - 110 mmHg); cifras baixas complicas (PAD: 90 - 110 mmHg, com lesão em órgãosalvo); cifras altas não complicadas (PAD > 110 mmHg); cifras altas complicadas (PAD > 110 mmHg, com lesão em órgãos-alvo); hipertensão sistólica isolada (PAS > 160 mmHg, quando PAD < 90 mmHg).

 

 

O II Consenso Brasileiro de Hipertensão Arterial42 não apresentou novidades em termos de diagnóstico da hipertensão e classificação dos níveis tensionais. Já o III Consenso43 mostrou claramente que o diagnóstico da hipertensão arterial se dava quando a PAS era maior ou igual a 140 mmHg e/ou a PAD era maior ou igual a 90 mmHg. Além disso, nesse relatório foi proposta uma tabela de classificação da pressão arterial de indivíduos com mais de 18 anos (TAB. 6) muito semelhante àquela do documento de 1993 da JNC (TAB. 3). As diferenças eram que nessa tabela do CBH não havia estágio IV para a hipertensão arterial e foi definida a hipertensão sistólica isolada quando a PAS era maior ou igual a 140 mmHg e a PAD era inferior a 90 mmHg.

Em 2002, foram publicadas as IV Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial,44 na qual não houve alterações em relação aos critérios de diagnóstico da hipertensão e a classificação da pressão arterial de adultos com 18 e mais anos de idade. Apesar de o VII Relatório da JNC3 fazer novas considerações sobre a classificação dos níveis tensionais, a Sociedade Brasileira de Hipertensão Arterial, a Sociedade Brasileira de Cardiologia e a Sociedade Brasileira de Nefrologia continuaram adeptas à classificação da PA padronizada pelo VI Relatório da JNC.39

Por fim, a última das recomendações brasileiras são as V Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial de 2007.45 Nelas foram discutidas mudanças na conduta terapêutica e no diagnóstico da hipertensão, considerando-se o progresso verificado nas medidas da PA fora do consultório, como a monitorização ambulatorial da pressão arterial (MAPA) e a monitorização residencial da pressão arterial (MRPA). Entretanto, nenhuma novidade foi apresentada para a classificação da pressão arterial em relação às IV Diretrizes.

A MAPA consiste em colocar no braço do paciente um esfigmomanômetro digital acoplado a um aparelho, que irá registrar as medidas da PA durante 24 horas. A MRPA é o registro da pressão arterial por método indireto, com três medidas pela manhã e três à noite, durante cinco dias, realizado pelo paciente ou por outra pessoa treinada, durante a vigília, no domicílio ou no trabalho, com aparelhos validados.

Os pesquisadores que produziram as V Diretrizes chamam a atenção para as diferenças no diagnóstico da hipertensão arterial feito no consultório por um profissional de saúde ou no ambiente domiciliar, usando a MAPA ou MRPA, e para as situações clínicas da hipertensão do avental branco e hipertensão mascarada, conforme apresentado na TAB. 7.45

Importante ressaltar que todos os critérios de classificação da PA para adultos descritos até aqui são para pessoas que não fazem uso de medicação anti-hipertensiva. Além disso, se o indivíduo já faz uso de terapia farmacológica, mesmo que seus níveis tensionais estejam nos parâmetros normais, ele é considerado hipertenso.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Não há dúvida da magnitude da hipertensão arterial nos contextos nacional e mundial, tampouco da sua forte associação com outras doenças cardiovasculares mais letais, como o infarto agudo do miocárdio e o acidente vascular encefálico. Contudo, somente foi possível conhecer a relevância epidemiológica e as conseqüências clínicas da hipertensão arterial por meio do desenvolvimento de técnicas para aferição da pressão arterial e o estabelecimento de critérios de diagnóstico da doença. Portanto, o estudo do desenvolvimento dos métodos indireto de aferição da pressão arterial e dos critérios de diagnóstico da hipertensão arterial se torna extremamente importante para entender o contexto que as afecções cardiovasculares assumiram na sociedade contemporânea. Além disso, os esforços desprendidos por todos os pesquisadores que trabalharam com esses temas produziram importantes ferramentas científicas e tecnológicas para a melhoria da qualidade de vida da população mundial.

 

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