REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

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Enfermagem UFMG

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Volume: 11.1

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Revisão Teórica

Hepatite C e enfermagem: revisão de literatura

Hepatitis C and nursing: literature review

Rosely Moralez de FigueiredoI; Thaís Helena PiaiII

IEnfermeira. Professora Adjunto do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos. Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Organização Hospitalar e o Cuidado (GEPOHC).E-mail: rosely@power.ufscar.br
IIAluna de Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos

Endereço para correspondência

Rod. Washington Luís (SP-310), Km 235
São Carlos - SP. CEP.: 13565-905
Tel. (16) 3351-8335. FAX: (16) 3351-8334

Recebido em: 30/08/2005
Aprovado em: 30/08/2006

Resumo

Trata-se de um estudo de revisão bibliográfica sobre o tema hepatite C e a enfermagem, com o objetivo de analisar a produção de conhecimento no período de 1994-2004. Fizeram parte do estudo 52 artigos; a média de produção foi 4,72 artigos/ano e 55% dos mesmos foram estudos exploratórios. Os temas estão concentrados em duas grandes áreas: 36,4% impacto da hepatite C nas populações e 36,2% risco ocupacional. A área avaliação de conhecimento/atitude apresentou apenas 3,5% da produção. Acredita-se ser esta uma área com grande potencial de desenvolvimento de conhecimento para a enfermagem, na qual trabalhos futuros devem ser incentivados.

Palavras-chave: Hepatite C, Enfermagem, Publicações de Divulgação Científica

 

INTRODUÇÃO

Estima-se que a Hepatite C, doença hepática provocada pelo vírus da hepatite C (VHC), acomete 3% da população mundial, sendo ainda relevante o número de pessoas que desconhece o fato de albergar o vírus.1

Os indivíduos considerados de risco são aqueles que receberam transfusões de sangue e/ou hemoderivados antes de 1992, usuários de drogas intravenosas, pessoas com tatuagens e piercings, alcoólatras, portadores de HIV, transplantados, hemodialisados, hemofílicos, presidiários, indivíduos sexualmente promíscuos e ainda os que compartilham escovas de dente, alicates de cutícula, navalhas e barbeadores.2

Em face das dificuldades nos sistemas de notificação, ainda são imprecisos os dados sobre a incidência da infecção no Brasil. O Ministério da Saúde estima que existam 3 milhões de pessoas infectadas pelo vírus VHC no país. Só na capital paulista são 140 mil infectados.3

O fato de ainda não existir vacina contra a hepatite C contribui para que ela se torne um dos maiores problemas, atuais, de saúde pública em nosso país. Torna-se, também, um problema para os profissionais de saúde que se expõem ao risco de infecção diariamente na sua prática profissional.4,5

Dentre os fluidos corporais, tem-se reconhecido o sangue como o mais importante veículo de transmissão do VHC. O risco médio de se adquirir o vírus da hepatite C após exposição percutânea pode variar de 1 a 10%. É importante ressaltar que não existe intervenção específica para prevenir a transmissão do VHC após exposição.6

Um aspecto que merece atenção é a proximidade entre a hepatite C e o HIV/aids. Em estudo realizado pelo Projeto Vigivírus, em que foram analisados cerca de 5 mil prontuários de pacientes com hepatite C no Brasil, encontrou-se que 7% deles eram co-infectados com HIV.2 Uma vez co-infectado, o paciente sofre com a progressão acentuada da doença hepática. Em geral ocorre a evolução clínica da doença muito mais agressiva e a manifestação dos efeitos hepatotóxicos da medicação anti-retroviral.7

Atualmente, o tratamento da hepatite C e HIV/aids são realizados em nível ambulatorial, padronizados e custeados pelo Ministério da Saúde.8 Somente são encaminhados aos hospitais os casos mais graves que necessitam de cuidados especiais, em decorrência de questões sociais ou complicações relacionadas às co-infecções. Muitas vezes o motivo da internação é a aids, mas o paciente leva consigo a hepatite C.

Percebe-se, portanto, que grande parte das estruturas de atendimento para pacientes com HIV/aids acaba sendo utilizada por pacientes com VHC, indiretamente. Segundo Brennan,9 conhecer as demandas da população co-infectada e estar disposto a ampliar o próprio conhecimento para apoiar, educar, capacitar a equipe e atender melhor os indivíduos co-infectados é uma das metas do enfermeiro que atua na área.

Estudos bibliográficos são amplamente utilizados com o objetivo de conhecer e analisar a produção de conhecimento de determinado tema e, assim, poder identificar consensos ou discordâncias, apontar lacunas do conhecimento e direcionar trabalhos futuros10,11,12

Com esse objetivo e, também, buscando subsídios para melhor preparar o aluno de graduação sobre o tema, tendo em vista tratar-se de uma doença identificada há pouco mais de uma década, foi questionado: como estaria a produção de trabalhos que discutem aspectos da hepatite C e da enfermagem? Nesse grupo, quais aspectos mereceriam novos estudos?

 

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo bibliográfico, do período de 1994 a 2004, em que primeiramente foi realizado um levantamento nas bases de dados Medline e Lilacs, utilizando as palavras-chave nursing e hepatitis C e “enfermagem” e “hepatite C”, respectivamente.

Os achados foram armazenados em banco de dados informatizado e analisados segundo os critérios: data, título do periódico, tipo de pesquisa (descritivo/exploratório, comparativo/correlacional, relato de caso, revisão de literatura, informativo e quase experimental), idioma e enfoque /conteúdo (normalização, risco ocupacional, caracterização do conhecimento/atitude da equipe, adesão à terapêutica, impacto do VHC nas populações e miscelânia).

Foram selecionados e lidos os resumos de todos os trabalhos escritos nos idiomas inglês, espanhol e português. Em seguida excluíram-se os trabalhos que não apresentaram relação com o tema em questão, ou seja, não abordavam aspectos ligados diretamente à enfermagem. Dentre os excluídos, a maioria abordava aspectos da terapêutica medicamentosa, transmissão vertical ou de biologia molecular do vírus.

Análise dos dados obtidos na literatura

Foram levantados, no total, 94 artigos (89 no Medline e 5 no LILACS ) dos quais 42 foram excluídos após a leitura dos títulos e resumos dos mesmos, por não apresentarem relação com o tema. Dos 52 artigos que fizeram parte do estudo (incluindo 4 teses), apenas 5 possuíam o texto completo disponibilizado eletronicamente.

A média de distribuição da produção no período foi de 4,72 artigos/ano. Entretanto, houve um aumento significativo em 2003 e 2004, tendo sido publicados 13 e 11 artigos respectivamente. Isso pode ser explicado tendo em vista o fato de o VHC somente ter sido identificado em 1989, e as pesquisas envolvendo a enfermagem terem começado a tomar corpo apenas mais recentemente.

As publicações do período estão distribuídas em dois bancos de teses e 36 periódicos, dos quais 17 são de enfermagem. O periódico Journal Association Nurses AIDS Care contemplou 11,5% da produção, seguido de Gastroenteroly Nurse com 7,7%.

Na avaliação da produção quanto aos tipos de estudo, observa-se que 55,8% tratam de estudo exploratório/descritivo, seguidos por 25% considerados informativos (FIG. 1).

 

 

Estudos exploratórios e descritivos são amplamente utilizados para a abordagem inicial de novos objetos de pesquisa e também para estudos que procuram avaliar aspectos de comportamento, conhecimento e atitudes de populações sobre um determinado assunto.13 Nesses estudos, em que os fenômenos estudados são pouco conhecidos, o uso de metodologia qualitativa é extremamente útil, entretanto em apenas dois (3,8%) estudos dessa categoria foi mencionada sua utilização.

Os estudos classificados como informativos, por sua vez, cumprem importante papel de divulgação e informação de um novo conhecimento para os profissionais envolvidos. Nessa categoria encontram-se protocolos de conduta, informações básicas sobre a doença e modo de transmissão.

Quanto ao idioma do trabalho, constatou-se que 78% da produção está escrita na língua inglesa. Esse fato é esperado, tendo em vista ser o inglês o idioma predominante nos periódicos disponibilizados pela base de dados Medline, onde foram encontrados 94,6% dos artigos. O português apareceu em segundo lugar, com 19,2% dos trabalhos (FIG. 2).

 

 

Quanto à distribuição da produção por tema (FIG. 3), observa-se que 36,4%, classificados como impacto VHC nas populações, englobam assuntos como o número crescente de pessoas infectadas, a evolução clínica da doença, formas de infecção, a co-infecção HIV/VHC e medidas de controle.

 

O tema risco ocupacional é abordado em 36,2% das publicações. Essa é uma preocupação plenamente justificada, tendo em vista a equipe de saúde estar freqüentemente exposta ao VHC durante sua atividade profissional. A hepatite C é um grande problema para os PAS, quer seja pela resistência do VHC no ambiente, quer seja pela ausência de profilaxia pós-exposição. 14

A adesão à terapêutica aparece em terceiro lugar (11,3%) da produção. A adesão à terapêutica em doenças crônicas é uma preocupação mundial e tem sido objeto de estudo por diferentes profissionais.15 Merecem atenção especial os casos de co-infecção HIV/VHC nos quais a adesão a dois esquemas terapêuticos se torna ainda mais complexa.

Apenas 3,5% da produção selecionada enfoca aspectos relativos à avaliação do conhecimento da equipe de saúde sobre o tema e atitudes da enfermagem para com o paciente com VHC. Esse dado aponta uma área de conhecimento que carece de novas pesquisas visando à melhor compreensão da enfermagem nesse contexto.

A ampliação desse conhecimento contribui tanto para a melhor formação dos alunos de graduação como para o desempenho profissional daqueles que atuam com pacientes com hepatite C.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo analisou a produção científica sobre o tema hepatite C e enfermagem, no período de 1994-2004.

Foram selecionados 52 artigos, distribuídos em 2 bancos de teses e 36 periódicos (17 deles específicos de enfermagem). A média de produção foi 4,72 artigos/ano com aumento significativo em 2003 e 2004, com 13 e 11 artigos respectivamente.

Observa-se uma concentração dos temas em duas grande áreas, sendo 36,4% impacto VHC nas populações e 36,2% risco ocupacional. A área avaliação de conhecimento/atitude apresentou apenas 3,5% da produção.

Considera-se que os aspectos relativos à avaliação do conhecimento da equipe de saúde sobre o tema e às atitudes da enfermagem para com o paciente com VHC merecem maior atenção dos pesquisadores enfermeiros. Acredita-se ser esta uma área com grande potencial de desenvolvimento de conhecimento para a enfermagem, na qual trabalhos futuros devem ser incentivados.

 

REFERÊNCIAS

1. Strauss E. Hepatite C. Rev Soc Bras Med Trop 2001 jan./fev.;34(1):69-82.

2. Ferreira CT, Silveira T. Reverbel da. Hepatites virais: aspectos da epidemiologia e da prevenção. Rev Bras Epidemiol 2004 dez.;7(4):473-7.

3. São Paulo. Secretaria de Estado da Saúde. Coordenação dos Institutos de Pesquisa. Centro de Vigilância Epidemiológica "Prof. Alexandre Vranjac". Divisão de Doenças Crônicas Transmissíveis. [Acesso 2005 mar 29] Disponível em: http://www.cve.saude.sp.gov.br /htm/tb_historia.html.

4. Canini SRMS. Acidentes Pérfurocortantes entre trabalhadores de enfermagem de um hospital universitário do interior paulista. Rev Latino-Am Enf 2002;10(2):172-8.

5. Marziale MHP, Nishimura KYN, Ferreira MM. Riscos de contaminação ocasionados por acidentes de trabalho com material pérfuro-cortante entre trabalhadores de enfermagem. Rev Latino-Am Enf 2004;12(1):36-42.

6. Resende MR, Fortaleza CMCB. Risco ocupacional entre profissionais da área de saúde e medidas de proteção. In: Colombrini MRC, Figueiredo RM, Paiva MC. Leito-dia em aids: uma experiência multiprofissional. São Paulo: Atheneu; 2001.

7. Focaccia R. Hepatite C (VHC). [Acesso em 2005 abr 05]. Disponível em: http://www.portalbrasil.net/medicina_hepatite_c.htm.

8. São Paulo. Secretaria de Estado da Saúde. Coordenação dos Institutos de Pesquisa. Centro de Vigilância Epidemiológica "Prof. Alexandre Vranjac". Guia de Orientações Técnicas Hepatite B e C. São Paulo: Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo; 2002.

9. Brennan C. Treatment of hepatitis C virus in the coinfected patient. J Assoc Nurses AIDS Care 2003;14(5 Suppl):52S-79S.

10. Reis RK, Gir E. Caracterização da produção científica sobre doenças sexualmente transmissíveis e HIV/AIDS publicados em periódicos de enfermagem do Brasil. Rev Esc Enf USP 2002;36(4):376-85.

11. Marziali MHP, Rodrigues CM. A produção científica sobre os acidentes de trabalho com material pérfurocortante entre trabalhadores de enfermagem. Rev Latino-Am Enf 2002;10(4):571-7.

12. Zem-Mascarenhas SH, Carvalho EC de. Toque Terapêutico: análise da produção do conhecimento utilizando uma base de dados informatizadas. REME - Rev Min Enf 1998;2(2):98-103.

13. Polit DF, Cheryl TB, Hungler BP. Fundamentos de Pesquisa em Enfermagem. 5ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2004.

14. Nichiata LYI, Gir E, Takahashi RF, Ciosak SI. Evolução dos isolamentos em doenças transmissíveis: os saberes na prática contemporânea. Rev Esc Enf USP 2004;38(1):61-70.

15. Colombrini MRC. Fatores preditivos para não-adesão ao tratamento com terapia anti-retroviral altamente eficaz nos casos de HIV/aids [dissertção]. Campinas: Universidade Estadual de Campinas; 2003.

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