REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 11.3

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Pesquisa

Comunicação verbal prejudicada: atividades empregadas vs. atividades propostas na literatura

Impaired verbal communication: activities in practice vs. activities proposed in literature

Débora Oliveira FavrettoI; Emília Campos de CarvalhoII; Silvia Rita Marin da Silva CaniniIII; Lívia Maria GarbinIV

IAluna de graduação EERP-USP e bolsista de Iniciação Científica - PIBIC-CNPq
IIEnfermeira, Professora titular, orientadora e pesquisadora do CNPq. Coordenadora do Grupo de Pesquisa Enfermagem e Comunicação da EERP-USP
IIIEnfermeira. Professora Doutora da EERP-USP. Membro do Grupo de Pesquisa Enfermagem e Comunicação
IVEnfermeira do HCFMRP-USP. Membro do Grupo de Pesquisa Enfermagem e Comunicação

Endereço para correspondência

Emilia Campos de Carvalho
Av. Bandeirantes, 3900
14040-902 - Ribeirão Preto - SP
Tel. (16) 3602.3475
E-mail: ecdcava@usp.br

Data de submissão: 07/03/07
Data de aprovação: 13/12/07

Resumo

A comunicação enfermeiro/paciente é essencial para identificação do estado de saúde e o sucesso do plano de cuidado. Os objetivos do estudo são identificar, na literatura, intervenções e atividades para o diagnóstico de enfermagem Comunicação Verbal Prejudicada e compará-las com aquelas propostas pela NIC, bem como identificar as atividades que enfermeiros clínicos relatam empregar. Houve correspondência parcial entre as intervenções identificadas na literatura com aquelas propostas pela NIC; os enfermeiros clínicos realizam 69,34% das atividades mencionadas, porém relataram que 7,09% delas não são empregadas por desconhecimento ou falta de recursos. Sugere-se que os programas educativos contemplem as intervenções de enfermagem propostas pela NIC e as demais identificadas na literatura.

Palavras-chave: Cuidados de Enfermagem; Diagnóstico de Enfermagem; Comunicação; Comunicação em Saúde

 

INTRODUÇÃO

A comunicação envolve atividades que consistem em receber, processar e transmitir informações ou símbolos quer pela fala, quer pela escrita, quer por notas musicais ou outros sinais de linguagem.1,2

O processo comunicacional, compreendendo a troca de informação e significados entre uma ou mais pessoas, tem sido valorizado na enfermagem em seus diversos contextos.3 No âmbito do relacionamento enfermeiro/paciente, é considerado fundamental para a prestação da assistência individualizada, competente e humanitária.3-4

Para ser eficiente, esse processo deve ser funcional, ou seja, os aspectos fisiológicos, psicológicos e ambientais devem estar favoráveis.1 Entretanto, há situações em que a comunicação pode ser prejudicada em decorrência de um distúrbio permanente ou temporário.

Estudo realizado em um hospital de grande porte do interior paulista identificou que 39,5% dos pacientes internados nas clínicas médica, dermatológica, neurológica e cirúrgica apresentaram, pelo menos, um distúrbio de comunicação acometendo linguagem, fala ou audição, durante a internação.5

Em relação ao período perioperatório, outro estudo6 revelou que 25% dos pacientes apresentaram esse diagnóstico; já após a cirurgia de laringectomia, todos os pacientes submetidos a esse procedimento apresentaram prejuízo na comunicação.7

As mudanças ou redução das habilidades comunicacionais decorrentes do processo evolutivo, sobretudo no idoso, têm sido destacadas na literatura,8 bem como as alterações que ocorrem em pacientes portadores de transtornos psiquiátricos, com demência ou com comprometimento neurológico2,9-10 que impedem ou prejudicam a capacidade de usar a linguagem.

São considerados distúrbios de comunicação qualquer desvio no padrão normal da fala, da linguagem ou da audição de uma pessoa que venha interferir na comunicação e que poderá levá-la a situações embaraçosas, de frustrações e/ou outras emoções negativas.5,11-13 Os distúrbios da fala são caracterizados por alterações na voz, relacionados ao timbre e à intensidade da voz (disfonia); alterações na articulação e na formação das palavras (dislalia e disartria); e na fluência ou ritmo denominada de disfemia, como a gagueira.13

Já os relacionados à linguagem são caracterizados por alterações que dificultam o uso e a compreensão da fala, da escrita ou de outro sistema simbólico (afasia, apraxia, disfasia e dislexia); são também classificados quanto às alterações na forma (dificuldade para construir palavras ou frases), alterações do conteúdo (verbalização inapropriada), alterações na função da linguagem (ex.: afasia receptiva e de transmissão, disfasia, apraxia, dislexia). E os da audição são caracterizados pela surdez (também chamada de audição difícil),13 que pode ser total ou parcial.

Do ponto de vista dos diagnósticos de enfermagem, as alterações da comunicação estão citadas nas taxonomias existentes e estão relacionadas a defeito anatômico (fenda palatina, alteração do sistema visual-neuromuscular, sistema auditivo ou aparelho fonador), barreiras físicas (traqueostomia, entubação endotraqueal), barreiras ambientais, alteração do sistema nervoso central e ao enfraquecimento músculo esquelético. Embora a taxonomia da North American Nursing Diagnosis Association (NANDA) empregue o título (ou rótulo) Comunicação Verbal Prejudicada, desde a inclusão desse diagnóstico na taxonomia, em 1973, diversas definições14,17 foram adotadas, sendo que a atual o considera como "habilidade diminuída, retardada ou ausente para receber, processar, transmitir/ou usar um sistema de símbolos".16,17

Carpenito-Moyet18 também propõe o diagnóstico Comunicação Verbal Prejudicada, mas o define "como estado em que o individuo apresenta ou corre o risco de apresentar diminuição da capacidade de falar, mas pode entender os outros".

Outros autores12,18-19 também apresentam diagnósticos retratando tais alterações. Para Alfaro-LeFevre, o diagnóstico que trata desse tipo de resposta é denominado Comunicação Prejudicada, e, embora não conste na taxonomia da NANDA,17 é acolhido por outros autores18-90 dada sua clareza e utilidade; é considerado como "o estado em que o indivíduo apresenta ou está em risco de apresentar dificuldades para enviar ou receber mensagem (pensamentos, idéias, desejos ou necessidades aos outros)".

A definição proposta pela NANDA é mais ampla e retrata um fenômeno bem mais abrangente que apenas a comunicação verbal, contemplando os outros dois diagnósticos encontrados na literatura e, portanto, será a adotada neste estudo. Essas divergências conceituais retratam a complexidade do fenômeno em estudo e as diferentes manifestações que os indivíduos podem apresentar, relacionadas à comunicação em diferentes cenários.

Quando esse diagnóstico é identificado, o enfermeiro deve iniciar o planejamento da assistência visando minimizar ou reparar esta situação, podendo lançar mão de um conjunto de atividades ou ações que compõem diferentes intervenções de enfermagem.

A Classificação das Intervenções de Enfermagem (NIC)20 propõe intervenções prioritárias (mais prováveis para a solução do diagnóstico), sugeridas (menos prováveis para solucionar o diagnóstico) e intervenções adicionais optativas (aquelas aplicadas a alguns pacientes com o diagnóstico). As intervenções propostas para o diagnóstico Comunicação Verbal Prejudicada buscam facilitar o recebimento e o envio de mensagens verbais e não verbais. Contudo, na prática, outras intervenções, não contidas nessa classificação, têm sido utilizadas para minimizar ou solucionar o diagnóstico do paciente, sendo este o objeto desta investigação.

Os estudos utilizando a classificação das intervenções de enfermagem vêm sendo realizados desde a segunda metade da década de 1980,21 enfocando, principalmente, as ações de enfermagem para que se alcancem os resultados esperados. Essas ações favorecem uma assistência com qualidade, porém é necessário que as intervenções propostas por enfermeiros sejam identificadas, aplicadas e testadas por meio de pesquisas.

Estudos têm evidenciado o benefício de estratégias específicas para minimizar as conseqüências dos distúrbios de comunicação verbal,13,22,23-33 em diferentes situações clínicas. Contudo, não foram identificados estudos específicos sobre as intervenções propostas pela NIC para o diagnóstico de enfermagem Comunicação Verbal Prejudicada, o que justifica a realização deste estudo, cujos objetivos foram: identificar na literatura as atividades que compõem as intervenções para o diagnóstico de enfermagem Comunicação Verbal Prejudicada, realizar mapeamento comparativo das intervenções e atividades identificadas na literatura e as propostas pela NIC, bem como identificar as atividades que os enfermeiros de uma clínica médica desenvolvem com pacientes portadores do diagnóstico de enfermagem Comunicação Verbal Prejudicada.

 

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo descritivo, realizado em três etapas, sendo que na primeira foi realizada a revisão da literatura sobre os temas: "diagnósticos de enfermagem", "intervenções de enfermagem", "comunicação e enfermagem" e "comunicação prejudicada", com o intuito de identificar as intervenções e atividades para o diagnóstico em estudo. Procedeu-se, também à busca, manual, em livros textos disponíveis nos acervos da Sala de Leitura Glete Alcântara da EERP, da Biblioteca Central do Campus de Ribeirão Preto e da Biblioteca da Escola de Enfermagem, todos da Universidade de São Paulo, no período de agosto a setembro de 2005. Foram identificadas 15 referências além da NIC.18Após leitura do material, foram excluídas 4: 2 por não atenderem ao objetivo do estudo e 2 por serem edições anteriores ou posteriores das obras citadas, mas com semelhantes conteúdos.

Na segunda etapa, realizou-se o mapeamento das intervenções e das atividades propostas pela NIC20 com as demais identificadas na literatura.

Foram identificadas 9 intervenções propostas pela NIC20, sendo 3 prioritárias ou essenciais para esse diagnóstico (ouvir atentamente; melhora da comunicação: déficit auditivo; e melhora da comunicação: déficit da fala) e 6 intervenções sugeridas, isto é, que podem contribuir para a assistência a portadores desse diagnóstico (melhora da comunicação: déficit visual; redução da ansiedade; presença; toque; controle do ambiente; e supervisão: segurança). Foram consideradas, no âmbito deste estudo,apenas as 3 intervenções prioritárias. Suas respectivas atividades, identificadas na literatura, foram relacionadas com as propostas pela NIC20, quando havia correspondência, e listadas separadamente, quando não havia nenhuma relação.

Na segunda fase, o mapeamento das intervenções foi submetido à apreciação de 5 enfermeiros, com experiência de pelo menos um ano na área de comunicação e com conhecimento sobre as taxonomias NIC20 e NANDA16, e que consentiram participar da pesquisa. Após análise, permaneceram no mapeamento as atividades e as intervenções, que obtiveram índice de concordância e > 80% entre os enfermeiros. Esses procedimentos possibilitaram identificar as atividades de cada intervenção empregada para o diagnóstico proposto.

Participaram da terceira etapa 25 enfermeiros, de um total de 34 da Clínica Médica do HCFMRP-USP, uma vez que 2 se recusaram a participar, 2 estavam em período de férias, 4 não responderam em tempo hábil e 1 devolveu o formulário em branco. Os enfermeiros receberam um formulário com as atividades propostas para cada uma das três intervenções selecionadas para o diagnóstico de enfermagem Comunicação Verbal Prejudicada. Solicitouse aos enfermeiros que apontassem quais atividades realizavam em sua prática clínica e, no caso de não realizarem, que informassem o motivo, podendo ainda apontar outras atividades que realizavam além das listadas.

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da referida instituição, e os sujeitos expressaram seu consentimento, formalmente, por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

 

RESULTADOS

Na primeira etapa foram identificadas 155 atividades citadas pela NIC, que compõem as 9 intervenções prioritárias e sugeridas, para o diagnóstico Comunicação Verbal Prejudicada. Na revisão de literatura, 49 novas atividades foram incluídas23-33, sendo 37 para as três intervenções prioritárias e 12 atividades para as três intervenções sugeridas pela NIC, a saber: melhora da comunicação, déficit visual, redução da ansiedade e presença. Não foram identificadas, na literatura, atividades diferentes daquelas propostas pela NIC20 para as outras três intervenções sugeridas.

Foram observadas também várias atividades que não apresentaram correspondência com nenhuma das intervenções ou atividades propostas pela NIC20, mas se caracterizavam como parte do processo de enfermagem, como a coleta de dados (Ex. 1: Verificar se a afasia é motora..., sensorial..., de condução... ou global;24 Ex. 2: Avaliar se há acumulo de cerume27 ou ainda como instruções sobre a prática profissional do enfermeiro (Ex. Aprenda sinais básicos de linguagem para usar com pacientes surdos.20

Por outro lado, a maioria das atividades identificadas apresentava correspondência com as contidas na NIC.20 Pôde-se observar, contudo, que algumas delas eram mais amplas, enquanto as da NIC20 eram mais concisas; várias atividades citadas por diferentes autores apresentaram similaridades quanto ao conteúdo, diferenciando-se apenas em algumas palavras ou tempos verbais.

Foram identificadas, também, atividades da literatura que apresentavam similaridade com mais de uma atividade NIC, além das que se relacionavam a mais de uma intervenção, o que levou à sua repetição ao longo do mapeamento. Ainda foi possível observar a pertinência das intervenções e atividades propostas pela literatura.

Para a segunda fase, as atividades encontradas na literatura, que não estavam citadas na NIC, mas se relacionavam às intervenções selecionadas (intervenções prioritárias), constituíram uma nova lista e foram submetidas à validação pelos enfermeiros juízes: o número de atividades inicialmente proposto pela NIC20 e as que foram acrescentadas, após a validação, no mapeamento feito pelos enfermeiros (Tabela 1).

 

 

Apreende-se que foi incorporado um número significativo de novas atividades (n=21), em especial para os distúrbios envolvendo a fala (n=12) e a audição (n=7).

Na terceira etapa deste estudo, observou-se que os enfermeiros da amostra referiram realizar em sua prática a maioria ( = 69,34%) das atividades arroladas nas três intervenções prioritárias para Comunicação Verbal Prejudicada (Tabela 2).

Foram citadas pelos enfermeiros como as mais empregadas em sua prática as atividades relacionadas às intervenções Ouvir Ativamente e Melhora da comunicação: déficit de fala.

Em relação às atividades não realizadas ( = 30,63%), destacam-se aquelas que têm condições de virem a ser desenvolvidas ( = 16,52%), seguidas daquelas que não são realizadas por falta de conhecimento e/ou recursos ( = 7,09%), por serem esses os focos de atenção na formação continuada desses profissionais.

Para a intervenção "Ouvir ativamente", a maioria das atividades (76,66%) é realizada. Em média, cada enfermeiro, refere executar 13 das 18 atividades propostas para essa intervenção. Embora parte das atividades não seja executada, 16,22% delas poderiam ser empregadas, segundo os enfermeiros, pois eles as conhecem. Poucas (3,11%) são as que necessitam ser aprendidas.

Das realizadas, 11 atividades (61%) são executadas por 75% ou mais dos enfermeiros, sendo que, dentre elas três foram citadas por 100% dos profissionais: Estabelecer o propósito da interação, Mostrar interesse pelo paciente e Estar atento ao tom, ao tempo, ao volume, à altura e à inflexão da voz. As demais atividades (8), segundo os enfermeiros que afirmam não as empregar, são passíveis de ser implementadas: Encorajar a expressão dos sentimentos; Escutar mensagens e sentimentos não expressos, bem como o conteúdo da conversa; Evidenciar percepção e sensibilidades às emoções; Estar atento à postura física que transmite mensagens não verbais; Verificar a compreensão da mensagem; Esclarecer a mensagem por meio de perguntas e reavaliar a compreensão; Estar atento às palavras evitadas, bem como à mensagem não verbal que acompanham as palavras ditas e Dar respostas em tempo certo de modo a refletir compreensão da mensagem recebida.

Com menores índices de realização, mas ainda pela maioria dos enfermeiros (>50 a <75%), estão 6 atividades, sendo 4 citadas pela NIC20 (Identificar temas predominantes; Evitar barreiras ao ouvir atentamente; Determinar o sentido da mensagem, refletindo sobre as atitudes, as experiências passadas e a situação atual; Focalizar totalmente a interação, suprimindo preconceitos, tendenciosidade, pressupostos, preocupações pessoais e outras distrações) e duas propostas pela literatura (permitir tempo suficiente para comunicação; eliminar barulhos competitivos).

A atividade Usar uma série de interações para descobrir o sentido do comportamento, realizada pelo menor número de enfermeiros (44%), apresenta, para a maioria dos enfermeiros, possibilidade de vir a ser implementada, assim como as outras atividades.

Quanto à intervenção "Melhora da Comunicação: déficit da fala", das 31 atividades arroladas, os enfermeiros referem executar, em média, 22 delas. Contudo, 8% das atividades propostas para essa intervenção não são desenvolvidas pela maioria dos sujeitos, por falta de conhecimento.

Das atividades propostas, 21 são realizadas por 75% dos enfermeiros ou mais, sendo que 4 delas são executadas por 100% dos enfermeiros (Ficar de pé diante do paciente ao conversar. Realizar diálogos, quando apropriado. Ouvir com atenção. Dar uma instrução a cada vez, conforme apropriado).

Destacam-se, também, 9 outras atividades desenvolvidas pelos sujeitos, entre as mencionadas pela NIC20: Oferecer reforço positivo e elogios, quando apropriado; Usar palavras simples e frases curtas, conforme apropriado. Evitar baixar o tom da voz no final da fala. Evitar gritar com o paciente que tem disfunção na fala. Usar gestos manuais, quando apropriado. Solicitar a assistência da família na compreensão da fala do paciente, conforme apropriado. Encorajar o paciente a repetir a palavra. Oferecer lembretes/sugestões verbais. Permitir que o paciente ouça freqüentemente a linguagem falada.

Das 8 atividades obtidas no mapeamento, são frequentemente executadas: Encarar o paciente e falar devagar. Usar sempre as mesmas palavras chaves e evitar usar gestos não relacionados. Suplementar com comunicação escrita quando possível/ necessário. Reformular a sentença se não foi entendida. Permitir tempo suficiente para comunicação. Ler os lábios do paciente se possível. Responder a todas as tentativas para falar mesmo quando forem ininteligíveis. Encorajar o cliente a tomar fôlego entre as sentenças.

Entre as atividades dessa intervenção, 3 foram referidas como realizadas por >50 a <75% dos enfermeiros participantes, sendo que a atividade proposta pela NIC Usar quadro de desenhos quando apropriado é citada como possível de ser realizada pela maior parte dos enfermeiros que não a realizam. As outras duas atividades, obtidas na literatura, são: Manter ambiente calmo e quieto para que o cliente possa concentrar-se no esforço de comunicação, não tenha que falar alto, e seja capaz de ouvir os outros claramente e Alertar o paciente para não usar a voz até que o médico dê permissão.

Ainda, 7 atividades são realizadas por menos de 50% dos enfermeiros. Cinco delas constam na NIC20: Reforçar a necessidade de acompanhamento com fonoaudiólogo após alta. Orientar o paciente e a família sobre o uso de aparelho da fala. Fazer terapias prescritivas de linguagem especial durante as interações informais com o paciente. Ensinar a fala utilizando o esôfago, conforme apropriado. Usar intérprete quando necessário. Nesse grupo encontram-se duas atividades propostas pela literatura, sendo que uma não é realizada por falta de conhecimento e/ou recursos (Rever instruções/ discussões pré-operatórias de por que a fala e a respiração estão alterados, usando desenhos anatômicos para ajudar na explanação); a outra é mencionada como possível de ser realizada (Encorajar o pacientes a expressar os pontos mais importantes no começo das sentenças, quando a energia e concentração estão melhores).

Das 24 atividades mencionadas para a intervenção "Melhora da Comunicação: déficit auditivo", 57,83% são realizadas, sendo que, em média, cada enfermeiro executa 13 delas. Nessa intervenção, observou-se o maior índice de ausência de realização por desconhecimento (10,16%).

Entre as atividades propostas, 12 são realizadas por 75% ou mais enfermeiros, sendo que as 3 últimas foram identificadas no mapeamento: Ouvir com atenção; Encarar diretamente o paciente e falar devagar, com clareza e concisão; Usar palavras simples e frases curtas, conforme apropriado; Não cobrir a boca, não fumar ou falar de boca cheia ou mascar chicletes enquanto conversar. Obter a atenção do paciente por meio do toque. Validar a compreensão das mensagens solicitando ao paciente a repetir o que foi dito. Usar papel, lápis, ou computador, quando necessário. Dar ao paciente tempo amplo para resposta. Movimentar-se próximo à área menos afetada. Evitar gritar com o paciente que tem disfunções de comunicação. Conversar sem urgência de uma resposta. Manter o ambiente quieto quando comunicar conteúdo de difícil compreensão, mantendo a atenção do paciente por meio de toque no ombro ou chamando-o pelo nome e Refrasear a sentença, quando o paciente apresentar dificuldade em entender.

Duas atividades foram mencionadas por >50 a <75 % dos enfermeiros como realizadas: Dar uma ordem simples de cada vez e Usar as mesmas palavras para a mesma tarefa

Outras 10 atividades foram mencionadas como realizadas por menos de 50% dos enfermeiros e com possibilidade de virem a ser desenvolvidas pelos demais enfermeiros. Dentre elas, destacaram-se as referentes ao Uso do aparelho auditivo, que apresentaram realização por 20% ou menos dos enfermeiros, fato também atribuído à falta de conhecimento e/ou recursos. O mesmo foi justificado para "Providenciar intérprete se a pessoa pode entender a linguagem dos sinais", proposta pela literatura. Além dessas atividades Manter ambiente calmo e quieto para ampliar a concentração do cliente e Posicionar o paciente, quando em grupo, na parte próxima ao emissor ou expositor também são atividades propostas pela literatura e pouco executadas.

É importante observar que dentre as intervenções mencionadas,"Melhora da Comunicação: déficit auditivo" foi a que apresentou menor porcentagem de realização.

Pelo exposto nota-se que atividades similares são recomendadas diferentes estratégias, e que há possibilidade de se ampliar o conjunto de atividades executadas pelos sujeitos.

 

DISCUSSÃO

Intervir em uma situação em que o diagnóstico de enfermagem Comunicação Verbal Prejudicada está presente é fundamental não só para uma assistência de enfermagem mais eficiente, mas também para promover maior bem-estar ao paciente.

Na relação diária enfermeiro-paciente, em cujo contexto transcorre predominantemente a coleta de informações sobre o paciente, devem ser considerados os elementos inerentes ao paciente, em especial os fatores que afetam tal interação.3,34

Para tanto, é preciso que o enfermeiro tenha conhecimento e capacidade de observação para identificar a presença desse diagnóstico. A partir daí, o enfermeiro deve ter habilidade para planejar e executar a assistência de enfermagem, isto é, propor e realizar as intervenções de enfermagem necessárias. Nesse propósito, pode-se empregar a Taxonomia da NIC20 que, de acordo com o estudo apresentado, contém a maioria das atividades propostas para o diagnóstico em estudo, demonstrando ser indicada para auxiliar a assistência de enfermagem nessa situação.

Entretanto, ao se observar a pertinência das atividades propostas, devem ser consideradas as características da situação. Cabe lembrar que algumas das atividades arroladas na literatura23-33 ou na NIC20 foram consideradas não apropriadas às situações com as quais os sujeitos desta pesquisa usualmente se defrontam na sua assistência.

Foi também possível observar que não apenas na Taxonomia da NIC20, mas também em outras referências na literatura23-33 são apresentadas sugestões para intervir em pacientes que apresentam Comunicação Verbal Prejudicada. Pelo mapeamento realizado, notou-se que a maioria (71,2%) das atividades que são propostas pela NIC também está listada na literatura; entretanto, existem atividades NIC que não são encontradas na literatura, assim como atividades propostas por outras referências que não são citadas pela NIC, isto é, 28,7% das atividades estudadas na terceira etapa. Dessa forma, para cada intervenção podem ser acrescentadas atividades da literatura diferentes daquelas propostas pela NIC, complementando-a.

Durante a investigação sobre a realização ou não das intervenções propostas na literatura e pela NIC por enfermeiros da Clínica estudada, observou-se que a maioria (69,34%) dessas atividades é realizada. Entretanto, de acordo com grupo de enfermeiros, parcela significativa de atividades não executadas tem condições de ser realizada (16,52%) e algumas não são desenvolvidas por falta de conhecimento e/ou recursos (7,09%).Também é importante notar que as atividades não encontradas na NIC, mas acrescentadas após o mapeamento, de forma geral, foram realizadas pela maioria dos enfermeiros, o que demonstra a importância delas.

Considera-se que, apesar de as intervenções para o diagnóstico Comunicação Verbal Prejudicada estarem sendo realizadas em sua maior parte, se o serviço dispusesse de mais recursos tanto para a execução da assistência de enfermagem, como para proporcionar capacitação de seus enfermeiros, além de estimular o interesse dos enfermeiros sobre esse problema, maior número de intervenções poderia ser incorporado na prática clínica do enfermeiro.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O diagnóstico de Comunicação Verbal Prejudicada é comum no cenário da prática profissional e exige conhecimento e habilidades apropriadas para o desenvolvimento das atividades diante da sua presença, bem como permanente busca de novas alternativas terapêuticas.

Diante dos resultados, propõe-se a inclusão de novas atividades, encontradas na literatura, no conjunto das intervenções sugeridas pela NIC, para as principais intervenções que devem ser aplicadas para solucionar ou minimizar tal diagnóstico. Embora elas tenham demonstrado validade por serem realizadas, em sua maioria, pelos enfermeiros da amostra estudada, ou de apresentarem condições de ser realizadas, recomenda-se que novos estudos sobre seu efeito sejam realizados.

Outro passo fundamental é oferecer instruções e informações aos enfermeiros sobre aquelas atividades não realizadas por falta de conhecimento e/ou recursos. Ressalte-se que ainda é necessário considerar outras intervenções de enfermagem que possam interferir no processo comunicacional.

 

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