REME - Revista Mineira de Enfermagem

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Enfermagem UFMG

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Volume: 11.3

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Pesquisa

Perfil vacinal referido pelos graduandos de cursos da área de saúde no Estado de Goiás*

Vaccination profile of students graduating from healthcare courses in the State of Goiás, Brazil

Silvana de Lima Vieira dos SantosI; Adenícia Custódia Silva e SouzaII; Anaclara Ferreira Veiga TippleIII; Sheila de Araújo TelesIII

IEnfermeira. Mestre em Enfermagem. Professora do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Salgado de Oliveira - Campus Goiânia-GO
II
Enfermeira. Doutora. Professora adjunta da Faculdade de Enfermagem da UFG

Endereço para correspondência

Rua Rui Barbosa nº 1111, Centro
Inhumas-GO - CEP: 75400-00
E-mail: silvanalvs@hotmail.com

Data de submissão: 13/06/07
Data de aprovação: 21/12/2007

Resumo

Neste estudo, realizado com alunos do último ano dos cursos de graduação da área de saúde no Estado de Goiás, nosso objetivo foi identificar o perfil vacinal em relação às vacinas preconizadas para os profissionais da área da saúde desse Estado. Os dados foram obtidos por meio de questionário, observando os aspectos ético-legais e analisados por meio de estatística descritiva. Embora a vacinação seja a medida mais eficaz na prevenção de doenças infecto-contagiosas, é baixa a adesão dos graduandos, pois, para as vacinas pesquisadas, os percentis alcançados não foram satisfatórios. Dos acadêmicos não imunizados, a maioria aderiu à vacina anti-hepatite B, oferecida durante a coleta. Consideramos necessário e urgente um trabalho nas instituições de ensino superior, no sentido de construir um novo perfil dos futuros profissionais, no que se refere à imunização, para prevenção e controle de doenças.

Palavras-chave: Exposição Ocupacional, Saúde do trabalhador, Imunização

 

INTRODUÇÃO

As medidas de prevenção para evitar e/ou minimizar os riscos da transmissão de patógenos aos seres humanos foram criadas e reformuladas ao longo dos anos. As mudanças realizadas durante o período de 1970 a 1996 basearam-se no pressuposto de que não é possível obter todos os dados clínicos necessários para o diagnóstico de doenças em uma única abordagem, somado à ocorrência de portadores assintomáticos. Assim, em 1996, os Centers for Disease Control and Prevention (CDCs) revisaram as normas existentes e instituíram novas medidas de prevenção e controle de infecção, denominadas precauções padrão, utilizadas na atualidade.1

As precauções-padrão constituem um conjunto de medidas indicadas para o atendimento a todo e qualquer paciente, independentemente do seu diagnóstico e/ou no manuseio de equipamentos ou artigos contaminados ou sob suspeita de contaminação. Devem ser adotadas no manuseio de sangue, fluidos corporais, secreções, excreções (exceto o suor), pele não íntegra e mucosas. Compreendem: higienização das mãos, o uso de equipamentos de proteção individual, processamento de artigos e superfícies, gerenciamento de resíduos de serviços de saúde e descarte de perfurocortantes.1-2

Todas essas medidas são de suma importância para os profissionais da área de saúde (PASs) e a adesão dos profissionais é necessária para reduzir e/ou minimizar a aquisição de doenças no ambiente de trabalho.

A imunização dos PASs, embora de extrema relevância para a proteção profissional, não está inserida na publicação oficial das precauções-padrão1, entretanto é consenso a sua importância e, por a considerarmos imprescindível para a saúde ocupacional, foi objeto de estudo.

Assegurar que os profissionais da área de saúde estejam imunes a doenças imunopreveníveis é fundamental para o sucesso de programas de saúde ocupacional.3

Neste estudo, demos enfoque especial à imunização, por ser à medida que confere maior segurança ao PAS na prevenção de doenças e por percebermos a falta de informação relacionada ao perfil vacinal de estudantes de graduação em cursos da área de saúde no Estado. Pouca atenção tem sido dispensada ao educando no que se refere à imunoprevenção, considerando que estão expostos ao risco ocupacional com material biológico durante a formação dele.

A imunização proporciona ao indivíduo proteção contra doenças imunopreveníveis. Os benefícios da imunização incluem a proteção individual, a interrupção da disseminação de doenças infecciosas e de alguns surtos intra-hospitalares, além da proteção indireta de pessoas não vacinadas da comunidade para algumas doenças. Adicionalmente, há redução de perdas com dias parados e vários outros custos relacionados ao diagnóstico tratamento e controle de infecção.4

Os CDCs preconizam para os trabalhadores da área de saúde as vacinas: anti-hepatite B, anti-sarampo, anticaxumba, anti-rubéola, antivaricela, antitetânica, antidiftérica, anti-Influenza e a BCG.5

No Brasil, o Programa Nacional de Imunização (PNI) foi instituído em 1973. Em 1975 foi instituída a Lei nº 6 259, de 30/10/1975, regulamentada pelo Decreto nº 78 231, de 12/8/1976, que institucionalizou o PNI e definiu competências válidas até o momento.6-7

Os objetivos do PNI, atualmente, são de contribuir para a manutenção do estado de eliminação da poliomielite e para o controle ou erradicação do sarampo, da difteria, do tétano neonatal, da coqueluche, das formas graves da tuberculose, da rubéola, caxumba, da hepatite B, da febre amarela, da raiva e das doenças invasivas causadas pelo Haemophilus influenzae tipo B.8

Em relação à imunização do PAS, no Brasil, existem várias recomendações. Segundo o Ministério da Saúde, existe indicação para imunização de profissionais da área de saúde, em situações especiais, que devem buscar os Centros de Referência em Imunobiológicos especiais, os quais disponibilizam as vacinas anti-hepatite B, antivaricela e anti-Influenza.9

Já a Norma Regulamentadora (NR) nº 32, de 16/11/05, que trata da segurança e da saúde no trabalhador em serviços de saúde, pontua que deve ser fornecido, gratuitamente, a todos os trabalhadores dos serviços de saúde o programa de imunização ativo contra tétano, difteria, hepatite B e os estabelecidos no Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional.10

No entanto, o calendário de vacinação de adultos do Ministério da Saúde não destina um calendário específico para o PAS, dando a idéia de que estão incluídos entre os adultos de modo geral, sendo oferecidas as vacinas contra febre amarela, tétano, difteria, sarampo, caxumba e rubéola, não estando incluída a de hepatite B.11

Entretanto, a Sociedade Brasileira de Imunizações recomenda para o PAS as vacinas dupla adulto, anti-hepatite A e B; antivaricela, anti-Influenza e antimeningoccócica C conjugada.12

No Estado de Goiás, a Comissão Estadual de Controle de Infecção Hospitalar (CECIH-GO), considerando as recomendações dos CDCs e a epidemiologia local, preconiza para o PAS as seguintes vacinas: anti-hepatite A e B; a BCG, para tuberculose, anti-diftérica e tétano (dupla adulto), anticaxumba, anti-Influenza (gripe), antiamarílica (por estarmos em área endêmica); anti-sarampo e anti-rubéola.10 Dentre estas estão disponíveis, gratuitamente, as vacinas anti-hepatite B, tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), dupla adulto, antiamarílica e BCG, em caso de trabalhadores que tenham contato com pacientes portadores de tuberculose e aids, e que apresentem PPD negativo ou reator fraco.

O Ministério da Saúde recomenda a imunização contra a tuberculose (TB) a todos os profissionais da área de saúde que sejam negativos à prova tuberculínica (PT) 14, uma reação celular desenvolvida após inoculação intradérmica de um derivado protéico de Mycobacterium tuberculosis15, por estarem expostos a pacientes infectados por tuberculose. São utilizados como parâmetros resultados de purified protein derivative (PPD) não reatores (PPD com nódulo menor que 5 mm) e os reatores fracos (PPD entre 5 e 9 mm). A proteção conferida pela vacina se mantém por cerca de 10 a 15 anos.14

Entretanto, de acordo com o Segundo Consenso Brasileiro de Tuberculose de 2004, não existe justificativa científica para a recomendação da vacina BCG para adultos, profissionais da área de saúde16, o que gera controvérsias se levarmos em consideração a situação epidemiológica do Brasil.

Diante do exposto, o objetivo deste trabalho foi identificar o perfil vacinal referido pelos graduandos dos cursos da área de saúde que prestam assistência a seres humanos, no Estado de Goiás, em relação às vacinas preconizadas para os profissionais da área da saúde desse Estado.

 

METODOLOGIA

Estudo descritivo,realizado no período de abril a junho de 2005, sobre a situação vacinal referida pelos graduandos dos cursos da área de saúde, os quais atendem seres humanos no Estado de Goiás.

A população e a amostra foram constituídas por graduandos do último ano/semestre. Foram eleitos alunos da última fase da graduação por considerar que já cursaram a maior parte das disciplinas, fizeram ou estão fazendo atividades práticas em estabelecimentos da área de saúde e, portanto, têm maior conhecimento sobre medidas de proteção profissional referentes aos riscos com material biológico e de exposição ocupacional a material biológico humano.

Os cursos elegíveis foram aqueles cujas atividades práticas dos alunos estavam relacionadas ao atendimento ao ser humano em estabelecimentos hospitalares públicos e privados, clínicas escola e unidades de atenção básica.

Na identificação dos cursos da área de saúde, credenciados/autorizados pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) no Estado de Goiás, obtivemos 31 cursos em funcionamento, compostos pelas seguintes graduações: Biomedicina, Enfermagem, Farmácia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Medicina, Odontologia e Terapia Ocupacional. Foram sujeitos do estudo alunos desses cursos e que consentiram livremente em participar da pesquisa. Excluímos os cursos que receberam autorização de funcionamento recentemente e não tinham alunos no último ano e aqueles cujos diretores não consentiram que participassem. Foram excluídos, também, os alunos afastados de suas atividades acadêmicas por qualquer motivo no momento da coleta dos dados e os que não consentiram em participar. Foram elegíveis e participaram do estudo 19 cursos, que tinham alunos no último ano/semestre, o que correspondeu a 1 134 estudantes do último ano dos cursos da área de saúde, no Estado, matriculados em 2005. Destacamos que todas as IESs concordaram em participar da pesquisa.

Realizamos o teste piloto e, com auxílio do software Epi-Info, versão 2004, calculamos um n=651, o que corresponde a 54,0% da população, com intervalo de confiabilidade de 95%.

O projeto foi submetido à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Goiás, Protocolo nº 017/2005, tendo sido aprovado em abril de 2005. Os dados foram coletados mediante aquiescência das instituições de Ensino Superior e dos sujeitos, aos quais foram garantidos o sigilo e o anonimato, por meio do termo de consentimento livre e esclarecido.

Os dados foram obtidos por meio de questionário (anexo), que foi validado por três juízes. A aplicação do instrumento foi em sala de aula, mediante agendamento prévio com os professores e após a leitura e a assinatura do termo de consentimento livre esclarecido. A vacina anti-hepatite B foi oferecida aos acadêmicos não vacinados no momento da coleta dos dados. O banco de dados foi estruturado e processado no programa Epi-Info, versão 200417 e os dados foram apresentados em tabelas e analisados por meio de estatística descritiva.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Características dos graduandos

Participaram do estudo 777 acadêmicos de cursos da área de saúde, o que corresponde a 68,5% dos graduandos matriculados no último ano/período dos cursos em 2005, superando, assim, o quantitativo inicialmente esperado, que era de 651(54,0%) estudantes.

Quanto à distribuição de graduandos participantes do estudo de acordo com o curso, observa-se que a categoria com maior representatividade é a de Enfermagem com 182 (23,4%) dos sujeitos, seguida pela de Farmácia com 172 (22,1%) e a de Odontologia, com 107 (13,8%). Esse fato se deve ao maior número de cursos de Enfermagem, em relação aos demais, pois no Estado de Goiás existem dez cursos de Enfermagem e, dentre eles, cinco foram eleitos e participaram do estudo, permanecendo com maior freqüência em relação aos outros cursos.

A idade dos acadêmicos variou de 20 a 55 anos de idade, com média de 34,7 anos, e a moda de 23 anos. A faixa etária com maior predominância é de 20 a 30 anos com 650 (83,6%) dos sujeitos, o que demonstra uma população jovem, em sua maioria, freqüentando os cursos superiores na área de saúde.

Ao estratificarmos a idade por sexo, verificamos que o sexo feminino predomina entre 20 e 30 anos e permanece em maior evidência em relação ao total de graduandos com 573 (73,8%) dos sujeitos.

Ao distribuirmos os graduandos por sexo de acordo com o curso, evidenciamos que o sexo feminino predominou em todos os cursos, sendo mais relevante nos de Enfermagem -145 (79,6%) - e Farmácia - 113 (65,6%).

Situação vacinal dos graduandos

A vacinação é a medida mais eficaz e duradoura na prevenção de doenças como hepatite A, hepatite B, tuberculose, sarampo, caxumba, rubéola, difteria, tétano, gripe, dentre outras.

A imunidade significa proteção; todos os seres humanos normais são dotados de mecanismos antiinfecciosos inespecíficos, que os protegem parcialmente contra as infecções e doenças. A imunidade específica adquirida ativamente exige estímulo prévio para se desenvolver, podendo resultar de infecção subclínica ou de doença de que o indivíduo se curou, ou de estímulos provocados por antígenos específicos (substâncias próprias dos agentes infecciosos), que o organismo acometido reconhece como substâncias estranhas. A resposta imune-específica provocada por antígenos tem geralmente como resultado a proteção duradoura contra o agente ou a substância em que estão presentes os antígenos pelos quais o organismo foi estimulado anteriormente.8

O processo imunológico pelo qual se desenvolve a proteção conferida pelas vacinas compreende o conjunto de mecanismos por meio dos quais o organismo humano reconhece uma substância como estranha para, em seguida, metabolizá-la, neutralizá-la e/ou eliminá-la.8 Portanto, é de suma importância para os profissionais da área da saúde a adesão a tal medida preventiva, uma vez que lidam diária e diretamente com indivíduos portadores de diversas doenças infecto-contagiosas.

Em 2004, o Ministério da Saúde, dando continuidade às ações do PNI, tornou obrigatória a vacinação contra essas doenças para todos os ingressos em escolas, desde creches a universidades.18

Em 2006, a Portaria Ministerial nº 1 602, de 17 de julho, revogou a Portaria nº 597, de 8 de abril de 2004, e retirou a obrigatoriedade da imunização como requisito para os escolares, crianças em creches e universitários ao se matricularem nas respectivas instituições.11 Acreditamos não ter sido uma mudança benéfica, já que o PNI busca o controle, a eliminação e a erradicação de doenças e o período de vigência da Portaria nº 597/2004 foi curto para a avaliação do seu impacto.

Ao questionarmos os graduandos sobre as vacinas recebidas após o início do curso (Tabela 1), identificamos que, para as vacinas preconizadas pela Comissão Estadual de Controle de Infecção Hospitalar (CECIH/GO)13, para os profissionais da saúde, a anti-hepatite B foi referida por 660 (84,9%); a difteria e tétano, por 364 (46,8%); a antiamarílica, por 201 (25,8%) dos graduandos; a anti-rubéola, por 153 (19,6%); a anti-sarampo, por 50 (6,4%); a anti-caxumba, por 47 (6,0%); anti-Influenza, por 40 (5,1%), a BCG, por 36 (4,6%); e a anti-hepatite A, incluída entre as outras vacinas, por 19 (2,4%).

 

 

Embora a vacinação contra a hepatite B tenha apresentado uma porcentagem alta entre os graduandos, ainda não representa o ideal esperado, se considerarmos que os riscos para o PAS em adquirir a hepatite B é grande, em decorrência de suas atividades cotidianas, que o expõe freqüentemente a sangue e outros fluidos corpóreos, e por ter sido ampliada a oferta da vacina contra hepatite B aos estudantes de Medicina, Odontologia e Enfermagem desde 1994.19

Estudo mostra que o risco de adquirir o vírus da hepatite B após exposição a sangue é de 6%a 30%.20 Considerando que a vacina contra a hepatite B apresenta alta eficácia (95%), a imunização desses profissionais conferirá segurança e eliminará a possibilidade de alto risco.8

Dos graduandos que referiram ter se vacinado contra a hepatite B, 465 (59,8%) afirmaram ter recebido as três doses (Tabela 2), o que caracteriza ter realizado o esquema completo.Verificamos, ainda, que 92 (12,2%) dos estudantes não haviam recebido nenhuma dose, estando, portanto, em situação de risco, já que estão em contato com sangue humano e/ou fluidos corpóreos no seu dia-a-dia. Dentre os 92 estudantes que não haviam recebido nenhuma dose, 64 (69,5%) aderiram à vacina contra hepatite B, oferecida no momento da coleta dos dados.Vale ressaltar que a vacina contra a hepatite B encontra-se instituída pelo PNI, para menores de 20 anos, desde 2002.19 Isso demonstra que, apesar de estar disponibilizada há alguns anos, não tem tido adesão de maneira satisfatória.

 

 

Estudiosos verificaram que 280 (32,4%) dos estudantes de Medicina, Enfermagem e Odontologia da UFPE não haviam sido vacinados contra a hepatite B e apenas 238 (27,6%) receberam as três doses21, confirmando a baixa adesão dos acadêmicos da área de saúde à imunização contra uma das doenças de maior importância, por ser veiculada pelo sangue.

Quanto às vacinas recebidas durante a graduação de acordo com os cursos, apreendemos que, em relação à anti-hepatite B, o curso de Enfermagem com 90 (23,3%) e Medicina 69 (18,0%) sobressaíram. Percebe-se, ainda, que os graduandos dos cursos de Enfermagem apresentam melhores coberturas vacinais em detrimento dos demais, o que nos leva a acreditar que estes tenham gerenciado e trabalhado melhor as questões do controle de doenças infecciosas, especificamente a imunização.

Em um estudo sobre o perfil vacinal de trabalhadores da área de saúde, realizado em hospitais públicos e privados na Austrália, verificou-se que, para as vacinas contra-hepatite B, 28,0% não haviam recebido as três doses, menos de 30,0% receberam a tríplice viral e dois terços dos hospitais pesquisados ofereciam a vacina contra Influenza, anualmente.22

Em pesquisa realizada em unidades de hemoterapia na cidade de Goiânia-GO, evidenciou-se que 79,3% dos trabalhadores tinham esquema de vacinas completo para a hepatite B e 2,3% não haviam recebido nenhuma dose.23

Eleutério et al.,24 em estudo para identificar a prevalência e os fatores associados à vacinação contra hepatite B entre dentistas, verificaram que houve maior prevalência de vacinação entre as coortes profissionais mais jovens, com menos tempo de formadas, denotando o impacto da incorporação das questões referentes à biossegurança no currículo dos cursos de graduação, a partir da década de 1990.

Em relação às vacinas contra sarampo, caxumba, rubéola (Tabela 1), a baixa adesão para a vacina tríplice viral (SRC) traz surpresa, pois em Goiás a implantação das vacinas tríplice/dupla viral ocorreu a partir de 1999 e 2001, respectivamente.19

Destacamos que a baixa adesão dos graduandos à vacina contra rubéola (Tabela 1) - apenas 19,6% deles foram vacinados - é preocupante, se levarmos em consideração que grande parte dos estudantes é do sexo feminino (73,8%) e o número de graduandos é maior em idade reprodutiva - 20 a 30 anos (83,6%). É também contraditório se considerarmos que em 2001 houve intensa campanha pública em Goiás para vacinação de mulheres na faixa etária entre 12 e 29 anos, a qual alcançou uma cobertura vacinal de 97,26%.25

Pesquisa realizada para identificar o nível sérico de anticorpos da classe IgG anti-rubéola, entre estudantes universitários, em São Paulo, demonstrou que 24,0% dos pesquisados não estavam protegidos, e destes 38,5% pertenciam ao sexo feminino. Isso demonstra que não somente em Goiás, mas também em outra região do País, especificamente São Paulo, é baixa a adesão à vacina contra rubéola26, o que faz com que repensemos nossa prática em relação à divulgação e à orientação dos graduandos quanto à imunização, pois, mesmo após campanha vacinal e disponibilização desta vacina na rede básica, a adesão é baixa.

Vale destacar os benefícios da vacina anti-rubéola para as mulheres quanto à proteção ao feto, numa possível gravidez dessas profissionais e também o risco comunitário, pois se adquirirem a doença, tornam-se veículo de contaminação para seus clientes.

Quanto à Influenza (Tabela 1), destacamos que somente 5,1% dos graduandos receberam a vacina, sinalizando para a importância da fundamentação do ensino quanto ao controle de infecção e, principalmente, a imunização do PAS.

Pesquisadores verificaram que 28,0% dos trabalhadores do serviço nacional de saúde do Reino Unido haviam aceitado a vacina contra Influenza, após divulgação na instituição onde trabalhavam por meio de cartazes, e os fatores que influenciaram a não-adesão foram a baixa percepção do risco e o desenvolvimento da doença após a imunização.27

Apenas 4,6% dos graduandos (Tabela 1) receberam a vacina BCG. Por se tratar de imunização recebida durante a infância, pode ter ocorrido um viés de memória, pois acreditamos que esses graduandos foram vacinados, embora não tenhamos observado a presença da cicatriz vacinal. Ressaltamos que, mesmo que existam controvérsias quanto à imunização contra a tuberculose para o PAS, acreditamos ser necessária a vacinação ao considerarmos o perfil epidemiológico de nosso país, além de ser uma recomendação da Comissão Estadual de Controle de Infecção Hospitalar de Goiás.13

A cobertura vacinal contra a febre amarela (Tabela 1) foi de 25,8% entre os graduandos, não sendo diferente das demais vacinas, nas quais também houve baixa adesão. Os graduandos dos cursos de Enfermagem com 55(27,3%) e Farmácia com 47(23,3%) foram os que mais se imunizaram contra a febre amarela. O Estado de Goiás apresenta uma cobertura vacinal por doses acumuladas nos últimos dez anos, para a faixa etária entre 15 e 59 anos, de 104,6%28, demonstrando que, de modo geral, a cobertura é satisfatória, não repercutindo da mesma maneira no perfil referido pelos graduandos.

Destacamos que, especialmente por estarmos em uma área endêmica e, principalmente, por se tratar de futuros profissionais de saúde, deveríamos encontrar maior adesão.

Oliveira et al.30 identificaram, em estudo sobre casos confirmados de febre amarela silvestre no Brasil em 2004, que a taxa de letalidade foi de 60,0%.29 Tratando-se do Brasil, a letalidade é muito alta, e se voltarmos para Goiás, que até 2000 apresentava uma letalidade de 44,4%, os goianos se encontram em situação de risco. Isso, por si, independentemente de serem da área de saúde, já deveria contribuir para aumentar a adesão dos profissionais a essa vacina.

A vacina contra a hepatite A é útil para trabalhadores que atuam em áreas onde o vírus tem alta endemicidade, que tenha grande parte da população de baixo nível socioeconômico e precárias condições sanitárias.31

Lieber et al.32 em estudo realizado em São Paulo para estimar a prevalência de anticorpos contra o vírus da hepatite A entre universitários, revelaram que 20,0% da população estudada não apresentava imunidade contra esse vírus, concluindo ser necessário campanhas de esclarecimentos sobre os modos de transmissão e prevenção da doença.

A vacina contra a hepatite A também é recomendada pela CECIH-GO ao PAS em condições em que não se conhece o status imunológico. Entretanto, essa vacina não está disponibilizada gratuitamente na rede de imunobiológicos em Goiás13, o que, talvez, justifique o baixo número de estudantes que se vacinaram, não sendo representativo neste estudo, pois está incluída entre as outras vacinas (Tabela 1).

 

CONCLUSÃO

Embora a vacinação seja a medida mais eficaz e duradoura na prevenção de doenças infecto-contagiosas, percebe-se que há baixa adesão dos graduandos à imunização, pois para as vacinas pesquisadas os percentis alcançados não foram satisfatórios.

A maioria dos graduandos afirmou ter recebido o esquema completo (três doses de vacina anti-hepatite B). Entre os que não haviam recebido nenhuma dose, a maioria aderiu à vacina oferecida no momento da coleta dos dados.

Os graduandos dos cursos de Enfermagem e Medicina apresentaram maiores coberturas vacinais em relação à vacina anti-hepatite B.

Os graduandos dos cursos de Fonoaudiologia e Farmácia apresentaram menores coberturas para vacina anti-hepatite B.

Para as demais vacinas - antitetânica, antiamarílica, antisarampo, anti-rubeóla, anti-Influenza, anti-hepatite A e BCG -, pequena parte dos graduandos havia se vacinado.

Considerando o momento em que o Estado de Goiás se encontra, de planejamento de políticas voltadas para a prevenção e o controle de doenças infecto-contagiosas adquiridas ocupacionalmente, cremos ser a oportunidade ideal para se firmar o protocolo estabelecido pela Comissão Estadual de Controle de Infecção Hospitalar (CECIH/GO) nas instituições de ensino superior, o que, conseqüentemente, levará a um novo perfil dos futuros profissionais no que se refere ao controle de doenças infecto-contagiosas, mais especificamente a imunização. É necessário, também, que as IESs observem o exposto na NR 32 do Ministério do Trabalho, que trata da segurança e saúde no trabalho em serviços de saúde.10

 

REFERÊNCIAS

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* Trabalho extraído da dissertação de mestrado - Apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

 

 

ANEXO

 

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