REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 11.3

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Pesquisa

Docentes de enfermagem: prazer e sofrimento no trabalho

Nursing faculty: pleasure and suffering at work

Fábio da Costa CarbogimI; Angela Maria Correa GonçalvesII

Endereço para correspondência

Rua dos Artistas, 70/302 - Morro da Glória
Juiz de Fora - MG - CEP: 36035-130
E-mail: lotre@bol.com.br

Data de submissão: 29/06/06
Data de aprovação: 27/08/07

Resumo

Este estudo teve abordagem qualitativa e foi realizado com docentes de enfermagem em uma faculdade no interior de Minas Gerais. O objetivo foi identificar o significado do trabalho para os docentes e os fatores relacionados ao desgaste psíquico no trabalho, bem como verificar como convivem com o sofrimento/prazer na docência. Constatou-se que o significado de ser docente envolve reconhecimento pessoal, missão e troca de experiências e que o sofrimento psíquico no trabalho dos docentes está relacionado, principalmente, com a falta de recursos materiais e humanos, a sobrecarga de trabalho, os baixos salários, o desconforto do ambiente físico, as relações interpessoais e a falta de privacidade.

Palavras-chave: Docentes de Enfermagem, Saúde do Trabalhador, Condições de Trabalho, Satisfação no Emprego, Pesquisa Qualitativa

 

INTRODUÇÃO

O trabalho pode ser contemplado sobre várias vertentes. Pode ser potencializador, criador, motivador e permitir a inserção do homem no mundo das relações. Em contrapartida, pode ser fator de insatisfação, desajustes físicos e psíquicos.

No contexto da sociedade contemporânea, temos percebido a necessidade e a importância de estudos não só relacionados a processos de patologias físicas desencadeadas pelo trabalho, mas também de morbidades psíquicas relacionadas a ele.

Os indivíduos na idade produtiva passam a maior parte do tempo dedicados à atividade laboral. De acordo com Moura1, a vida das pessoas só adquire um sentido se houver um trabalho que lhes permita consumir, ter bens, dentre outras coisas, como um "passaporte" para poder viver e conviver num mundo capitalista. Dessa forma, o pensamento capitalista faz com que o trabalho também represente para o homem sinônimo de inserção, de identidade. Ou seja, o indivíduo e sua profissão se fundem a ponto de o trabalho tornar-se um instrumento, um símbolo para a representação dessa pessoa à sociedade. Assim, o significado da inserção do indivíduo no mundo do trabalho transcende a justificativa de conquistas de bens materiais para suprir as necessidades básicas, sendo também a busca de identidade, de satisfação, de prazer, de realização pessoal e de reconhecimento.

A articulação de estratégias que possibilitam um ambiente de trabalho mais saudável é imprescindível, por isso instituições que valorizam uma comunicação aberta entre empregados e empregadores, que favoreça uma adaptação natural e não imposta dos indivíduos ao trabalho, estão prezando pelo bem-estar e pela saúde de seus trabalhadores. Também se torna importante destacar a viabilidade de poder externar, nos locais de trabalho, a parte subjetiva de cada trabalhador, como sonhos, alegrias, tristezas. Dessa forma, tais instituições irão, em larga escala, colaborar para diminuir o risco de agravos à saúde mental de seus funcionários.

Como explicam Santos e Trivizan2, se a organização na qual o indivíduo está inserido tem caráter flexível, favorecendo as conquistas e a criatividade individual de resoluções de problemas, o trabalho torna-se um instrumento que permite o desenvolvimento das potencialidades humanas, contribuindo para que o indivíduo se conscientize de seu papel não só para a organização, mas também para sociedade, levando-o à satisfação, à realização e ao prazer. Por outro lado, quando o trabalho está organizado de forma a atender apenas aos interesses da empresa e do mercado, reprimindo as potencialidades humanas, os valores individuais acabam gerando insatisfação, podendo desencadear, portanto, o sofrimento psíquico.

Dejours et al.3 explicam que o trabalho que tolhe a criatividade individual, não permitindo o pleno emprego das aptidões psicomotoras e psicosensoriais, gera uma carga psíquica que pode ser nociva, uma vez que gera frustrações e doenças. Tal processo degradante é denominado de sofrimento patogênico. Porém, quando a carga psíquica do trabalho é extravasada, seja por uma organização de trabalho flexível, seja por estratégias pessoais de diminuição do estresse e busca do prazer no trabalho, tal processo é chamado de sofrimento criativo.

Sabemos que o trabalho docente permite aos seus executores flexibilidade de atuação no sentido, por exemplo, de como ministrar uma aula, o que abordar, dando ao docente a oportunidade de usar sua criatividade, ter controle, portanto, sobre o processo e o produto.

Nas universidades, os docentes são exauridos em suas capacidades intelectuais para atender às exigências da instituição, não muito diferentes do sistema capitalista de produção. Assim, como destaca Lima4, podemos caracterizar o comportamento de muitos docentes como workaholics, ou os "viciados" em trabalho. Essas pessoas levam trabalho para casa, viram noites para conseguir melhor desempenho, fazem comentários sobre o serviço em casa e, quando saem de férias, se saem, acabam sofrendo da "síndrome de abstinência", ou seja, ficam ansiosas e não sabem o que fazer fora do trabalho.

De acordo com Batista e Codo5, no modelo vigente de gestão adotado pelas universidades, segundo o qual quanto mais dedicação, fidelidade, compromisso, melhor, percebe-se que os docentes acabam por negligenciar o próprio bem-estar, não buscando hábitos saudáveis de vida, ficando fadados ao sistema, e podem, portanto, adoecer.

 

OBJETIVO

Esta pesquisa visa identificar o significado do trabalho para os docentes na instituição pesquisada, os fatores relacionados ao sofrimento psíquico desses trabalhadores e verificar como reagem e convivem em relação ao desgaste/prazer na docência.

 

MATERIAL E MÉTODO

Trata-se de um estudo qualitativo que teve como campo de pesquisa a Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). No momento das entrevistas, havia 43 docentes, sendo 38 efetivos e 5 substitutos, isto é, com contrato temporário, distribuídos nos departamentos de Enfermagem Básica, Enfermagem Materno-Infantil, Saúde Pública e Enfermagem Aplicada. Quanto ao gênero, 3 eram do gênero masculino e 40 do gênero feminino

A carga horária de trabalho dos docentes é de 40 horas semanais. Em sua maioria, os docentes efetivos dedicam-se à graduação e à pós-graduação, com atividades voltadas para o ensino, pesquisa e projetos de extensão em enfermagem. Os sujeitos desta pesquisa foram nove docentes, todos do gênero feminino, trabalhando há mais de sete anos na instituição. Entre os entrevistados, a maioria possuía título de mestre e apenas um possuía de doutorado.

A coleta de dados foi realizada por meio de entrevista semi-estruturada e gravada. O critério de escolha dos profissionais foi aleatório, ou seja, abordávamos os docentes que encontrávamos no campo de pesquisa, explicando-lhes os objetivos do estudo em questão. Os que se dispuseram a participar receberam o Termo de Consentimento Livre e Informado, como determina a Resolução nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde, e ainda lhes foram garantidos o sigilo e o anonimato. A coleta de dados foi interrompida à medida que os dados começaram a se repetir. A transcrição foi feita na integra, e após tal procedimento passamos à fase da leitura atenta dos discursos, tentando agregá-los por temas que se constituíram, então, nas categorias de análise. As perguntas norteadoras do trabalho foram:

1) Qual o significado de ser docente na Faculdade de Enfermagem para você?
2) Como você se sente neste trabalho?
3) Como você percebe suas condições de trabalho e a relação delas com sua qualidade de vida?
4) Você gostaria de acrescentar alguma outra questão que acha importante?

Visando à compreensão mais acurada dos conteúdos coletados com os docentes sobre o trabalho que exercem, após leitura atenta, dividimos os dados em núcleos de pensamentos que se constituem nas seguintes categorias de análise: 1. Significado do trabalho; 2. Prazer no trabalho; 3. Sofrimento no trabalho do docente.

 

RESULTADOS

Significado do trabalho para os docentes de enfermagem

Tomando como referência o trabalho docente, constatamos que quase todos os entrevistados têm percebido esse ofício como possibilidade de construção de uma carreira que implicará o reconhecimento, a realização pessoal, e que contribuirá para inserção de outros indivíduos no mundo do trabalho, sendo, portanto, gratificante. Os docentes de enfermagem entrevistados dão ao trabalho os seguintes significados:

[...] é algo que traz uma... um reconhecimento pessoal, profissional e na questão de tá trabalhando com o aluno na formação do enfermeiro... Existe uma troca grande entre o professor agente formador e o aluno [...] (E2)

[...] eu acho que eu me sinto num processo de crescimento, porque a docência é um trabalho de troca, então eu vejo a docência como um... caminho de duas mãos, de duas mãos que se cruzam. (E3)

[...] representa pra mim o ato de compartilhar, de dividir, de passar, mas não como algo pronto, tá, algo estático, mas algo que gere um movimento, que leve o aluno também repensar, né? (E8)

Pode-se perceber que alguns docentes consideram a docência como uma possibilidade de compartilhamento, de troca. Logo, têm a visão de que neste trabalho o aprendizado é mútuo e por isso depende da disponibilidade de ambas as partes para se concretizar.

Para Freire6, "a prática educativa demanda a existência de sujeitos, um que, ensinando, aprende, outro que, aprendendo, ensina..."

Atualmente, o perfil desejável do educador é a de um profissional que atue como facilitador do aprendizado, não passando o conhecimento pronto, mas criando um ambiente que possibilitará a construção e a produção do conhecimento. O docente, não desmerecendo conhecimentos prévios dos alunos, agirá de forma a respeitar a dignidade, a autonomia e os limites do educando. Constatamos esse novo significado do trabalho docente presente nas fala abaixo:

[...] nossa missão maior é fazer com o outro, né que são os alunos, que são as pessoas que estão ao nosso redor, consigam aprender e isso não significa ensinar, mas significa criar condições ao redor dos alunos, ao redor das pessoas que estão com a gente pra que elas possam buscar o seu processo de ensino e aprendizado, né?. (E7)

Um aspecto que merece destaque é a concepção da educação com significado de missão, uma incumbência que deve ser levada adiante. Mesmo tendo ocorrido mudanças no ensino, na forma de ensinar, o instinto maternal da missão do cuidar, do zelo, ainda se faz presente nessa profissão que é composta majoritariamente por mulheres. E prosseguem:

[...] tem que ser um grande cuidador, no sentido de ser um educador. É... e aí eu faço uma grande distinção: professor é um cargo, educador é a forma como ele desempenha o cargo. Porque ele poderia ser instrutor. Então, o que significa pra mim é a questão do dar, instaurar valor, porque o instrutor pode ser... até o manual de instrução é capaz. Pode dar conta disso. Eu penso que é por aí. (E4)

O trabalho assume relevância no dia-a-dia dos professores, visto que passam a maior parte de seu dia dedicando-se ao ensino. Por isso acreditamos que o prazer no trabalho tem um significado essencial para o indivíduo e merece ser analisado criteriosamente.

O prazer no trabalho dos docentes de enfermagem

O trabalho em si consiste na transformação da matéria bruta em um instrumento útil e com significados tanto para quem o construiu como para quem dele se beneficia. No trabalho do professor, a transformação é mútua: ambos são "lapidados", dada a troca constante de experiências e informações entre as duas partes, criando, assim, um ambiente propício para o desenvolvimento intelectual e de convívio social. Dessa forma, o educador assume papel importantíssimo diante de si mesmo, do aluno e da sociedade.

Acreditamos que o sentimento de prazer expresso pelos docentes em relação ao seu trabalho, dentre outros aspectos, está intimamente ligado ao papel que essa profissão tem diante da integração do homem e do desenvolvimento de vínculos afetivos. Isso porque o professor percebe-se importante para o outro e a lida diária acaba propiciando uma amizade entre educador e educando, o que também é gratificante, como é possível perceber na fala abaixo:

[...] Ele me trouxe, é... muita alegria, muita realização... E o mais importante pra mim é a convivência que eu tenho com os alunos. (E5)

Pode-se perceber que o resultado da convivência com os alunos gerou alegria, satisfação, realização; o aprendizado não é unilateral, traz possibilidades de sentimentos gratificantes e crescimento para duas partes.

[...] O fato de eu estudar pra preparar uma aula, seja pra um campo teórico ou um campo prático, isso me dá um prazer muito grande, eu me sinto bem comigo mesma, né? eu me sinto feliz porque é... eu acho que as coisas não podem serem feitas de maneira... simplesmente técnicas pra cumprir papel... É algo que me dá um prazer muito grande, porque eu sempre gostei de dividir, de compartilhar o meu conhecimento, então isso é um fio condutor pra me da bem-estar, né? Então eu me sinto bem quando estou preparando uma aula, principalmente quando a gente tá diante de grupo, né? de alunos, uma turma que se mostra interessados. (E8)

[...] acho bastante gratificante quando a gente começa com o aluno que ainda é inexperiente e quando você vê ele já tá no campo de trabalho... E a gente tem essa oportunidade de crescimento, de estar aprimorando... essa questão da oportunidade de você tá buscando novos conhecimentos, de você está sempre atualizado. (E6 )

[...] Me sinto plenamente realizada! Hoje eu vejo que isso é uma felicidade... acho bonito tá podendo conhecer os alunos que chegam, tá acompanhando os que tão formando e acho que isso é uma coisa que me ajuda muito. (E9)

Nas falas acima percebe-se o prazer do docente ao verificar a importância do seu trabalho, o resultado: o aluno que chega como "matéria bruta" é estimulado a desenvolver habilidades técnicas e filosóficas, tornando-se um profissional, e o professor sai mais experiente e realizado dessa interação, portanto também transformado.

Quanto ao trabalho do educador, Olivier-Heckler e Soratto7 afirmam:

[...] um trabalho com essas características desafia o trabalhador e estimula seu desenvolvimento, explora suas potencialidades e leva-o a descobrir novas. Num trabalho assim, um trabalhador consegue ter prazer naquilo que realiza, não só porque pode ver claramente o benefício que está fazendo para o outro, o que é extremamente gratificante, mas principalmente porque consegue ver os benefícios que o trabalho faz para si mesmo. Consegue ver mudanças na sua pessoa. Após anos de trabalho percebe que mudou, que ficou mais experiente, que as dificuldades de um tempo atrás, as quais pareciam intransponíveis, puderam ser superadas, passa a ver outras que não via antes e que tornaram agora desafiadoras.Tudo isso faz com que as pessoas se sintam ativas, vivas, participantes efetivas do mundo em que vivem.

Dados os inúmeros fatores que agem sobre os indivíduos, falar de satisfação no trabalho se faz tão complexo quanto falar sobre o próprio homem. No trabalho, tanto os fatores extrínsecos (higiênicos) quanto os intrínsecos (motivacionais) têm influência direta sobre a satisfação e prazer no que se realiza. Segundo Antunes e Sant Anna8, os fatores extrínsecos estão relacionados com as condições sobre as quais o trabalhador não tem controle: salário, condições físicas e ambientais, políticas administrativas, dentre outras. Quanto aos fatores motivacionais, dizem que estão ligados àquilo que o trabalhador realiza, ao conteúdo do seu trabalho: a responsabilidade, o crescimento e o progresso profissional, a percepção da auto-realização, o caráter desafiador da profissão.

Pode-se perceber que, mesmo diante de algumas dificuldades (fatores extrínsecos), os docentes mantêm-se motivados, tentando retirar do trabalho alguma forma de prazer, como se vê a seguir:

[...] tive certos episódios de doenças e esta vinda ao trabalho esse vai e vem me ajudou muito. (E1)

[...] no começo... Eu me senti um pouco, pouco é... Pouco valorizada, agora não mais. Agora já me sinto bem aceita, bem valorizada e eu acho isso uma coisa importante no trabalho. Você se sentir que é valorizada, que é útil, que é produtiva, né. (E7)

[...] eu penso que quando a gente é entusiasmada. Não é otimista não. Entusiasmada. Pode chover lá fora, pode tá com vento, pode ter sol, né? A gente consegue não é se isolar, não é se resguardar, mas conservar ainda alguma coisa que... Pra que a gente dê conta de continuar caminhando, mesmo que essas condições de trabalho não sejam favoráveis. (E4).

Os docentes dizem que têm prazer no trabalho proveniente do desafio, da oportunidade de crescimento, da possibilidade de demonstrar suas capacidades (fatores motivacionais). Mesmo com percalços (fatores extrínsecos), ainda encontram disposição para trabalhar e se sentirem satisfeitos com o que fazem. Acreditamos, porém, que a satisfação proporcionada apenas pelos fatores motivacionais é limitada, dependendo dos fatores extrínsecos para gerar um grau de motivação elevado. Para Dejours9, a satisfação no trabalho pode ser concreta e/ou simbólica. A satisfação simbólica diz respeito ao significado do trabalho, desejos e motivação; já a satisfação concreta tem relação com condições de trabalho que possibilitem a saúde física e a mental. O entusiasmo, exposto na fala acima, vem sendo utilizado de forma superlativa como um mecanismo para encobrir o desgaste no trabalho e "anestesiar" o sofrimento, já que nas universidades públicas o sucateamento é cada vez maior, sem possibilidade de oferecer condições adequadas de trabalho. A nosso ver, são poucas as chances de apenas o entusiasmo, a satisfação simbólica, gerar prazer real.

Sofrimento no trabalho

Para Dejours,3 "o sofrimento é a energia pulsional que não acha descarga no exercício do trabalho, se acumulando no aparelho psíquico, ocasionando um sentimento de desprazer e tensão".

No dia-a-dia do trabalho, especificamente o trabalho docente, muitos são os fatores que geram uma carga psíquica que, quando não extravasada com estratégias pessoais eficazes e mesmo da própria instituição de trabalho, acabam levando ao desgaste, que é uma das formas do sofrimento psíquico. Um dos fatores desencadeante desse desgaste relaciona-se com a uma carga horária de trabalho que não se limita apenas à faculdade. Os docentes acabam levando trabalho para casa, prejudicando, assim, momentos de lazer, relacionamento familiar, etc. Os entrevistados, a esse respeito, relatam:

[...] a gente chega em casa supercansada ou às vezes superirritada, né, e aí você tem que fazer o papel de filha, papel de esposa, né, de marido, enfim. E às vezes você tenta controlar o máximo, pra que aquilo que gerou aquela angustia, ansiedade. É... é, estresse, é... é... insônia, né? (E8)

Corroborando, Codo et al.10 dizem que o trabalho docente gera desgaste e conflitos, já que em meio a tantas tarefas levadas para ser concluídas em casa, o professor sente que seu tempo é "roubado" por provas para corrigir, preparação de aulas, necessidade de atualização, problemas que não foram resolvidos no trabalho.

Considerando que a maioria dos entrevistados é do gênero feminino, não podemos deixar de mencionar que a jornada no lar é uma realidade. A trabalhadora, muitas vezes, chega em casa e ainda tem de fazer o papel de dona de casa, mãe, esposa, e a impossibilidade de dar maior atenção aos filhos e/ou cônjuges causa-lhe um sentimento de culpa em razão do tempo ocupado pelo trabalho.

[...] Não é aquilo que você diz que você chegou em casa e seu trabalho terminou e ficou lá. Não dá pra ser dessa forma e não tem jeito, então... é esse jeito de desafio mesmos, né? De algo que não tem... que não é conclusivo, de algo que tá exigindo que você se apronte. (E4)

O exercício do magistério é um trabalho que, se não lhe forem impostos limites, absorve qualquer tempo vago, dando sempre uma sensação de inconclusividade. Isso, somado ao sentimento de culpa por não se poder dedicar maior tempo à família e lazer, causa desgaste.

[...] quando a gente tem algumas condições que não são muito favoráveis, então, até de distribuição de tempo... a gente acaba pra dá, pra suprir isso, se dedicando muito mais ao trabalho às vezes do que deveria... eu faço ainda muita coisa em casa, muito trabalho em casa. [...] Então eu saio cinco horas aqui da Faculdade, não significa que meu trabalho acabou... quando eu saio daqui eu acabo indo trabalhar também, né?. (E7)

O desgaste acaba gerando mal-estar psicológico, que engloba desde sensações de frustração, ansiedade, irritabilidade, intolerância, depressão até manifestações físicas, como fadiga, distúrbios gastrintestinais, hipertensão arterial etc., visto que a saúde mental não está díspar da saúde física e vice-versa. No dia-a-dia do trabalho, vários são os momentos de desgaste pelos quais passam os professores, e quando este não é eliminado pode se tornar um mal crônico que desestrutura, limita e faz adoecer.

De acordo com Bernik11, o desgaste e o conseqüente estresse acabam se somatizando: no trato gastrintestinal podem manifestar-se desde gastrites a úlcera. Problemas circulatórios, às vezes somados a hábitos de vida não saudáveis, podem gerar elevação da pressão arterial, isquemia do miocárdio, em razão da vasoconstrição provocada pela adrenalina. Também podem ocorrer manifestações de sintomas psíquicos, como medo, nervosismo, exacerbação de atos falhos e obsessivos, alterações do apetite e do sono, diminuição do interesse sexual, apatia, torpor afetivo, Síndrome de Bournot, dentre outros distúrbios. De modo geral, ainda pode provocar cefaléias, tensão muscular, fadiga, sudorese intensa, palpitações, aumento da freqüência de micção, colopatias, aumento da glicemia e colesterol (LDL), além de outros distúrbios.

Então vejamos o que um professor sente e relata a esse respeito em sua fala:

[...] Eu vejo que o trabalho, ele tem uma capacidade de tá fazendo com que a gente se reproduza, se reproduza, né, e... e infelizmente ele acaba gerando um desgaste na gente... eu tenho uma dificuldade muito grande de tá, de tá lembrando das coisas, né, assim... eu acho que isso é desgaste. É uma irritabilidade, né que eu acho que é por conta do desgaste, desgaste no trabalho, tá?. (E7)

Como exposto nesta fala do entrevistado, o trabalho com essas características acaba provocando um desgaste psíquico. Sintomas como irritabilidade, esquecimentos, estresse, depressão são alguns dos sinais:

[...] nós estamos tendo colegas adoecendo... com licença médica a quase um ano e mesmo quem tá presente trabalhando, que não chega a se afastar, mas estão tendo sérios problemas de saúde, decorrente do estresse, da falta de satisfação no trabalho, né... Com quadro freqüente de estresse, depressão, crise hipertensiva, então eu julgo como condições desfavoráveis de trabalho que estão interferindo na qualidade de vida nossa, dos professores. (E2)

É fato que nossa faculdade, cenário de nosso estudo, encontra-se carente de recursos humanos; do corpo de professores, alguns estão afastados, outros, mesmo com problemas de saúde, continuam trabalhando; logo, não é difícil concluir que os professores que se sentem doentes e persistem trabalhando têm grande chance de afastamento e os "saudáveis" estão sobrecarregados e com grande potencial para adoecimento.

[...] A gente, os professores na verdade têm outras atividades, não é só graduação, tá? ... é orientação na pós-graduação, orientação na graduação, no TCC, né, são outras atividades que você tem... que acaba que interfere na minha qualidade de vida... E isso vai consumindo a energia da gente de tal forma... Então em que momento eu vou cuidar de mim, da minha pessoa, né, se tou nesse estresse constante dentro da Faculdade?! (E8)

Esta fala nos leva a questionar a falta de estratégias da universidade para diminuir o estresse, a carga psíquica de seus trabalhadores e propiciar uma qualidade de vida com exercícios, relaxamentos, informações e programas de prevenção e promoção da saúde do trabalhador. Segundo Dejours9, para se ter uma qualidade de vida no trabalho é necessário:"[...] subtrair o corpo à nocividade do trabalho e permitir ao corpo entregar-se à atividade capaz de oferecer as vias melhor adaptadas à descarga da energia".

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Vivemos num momento em que o modelo neoliberal tenta imperar e fazer valer o Estado mínimo, no qual o capital privado substitui o público, que abre mão de seu compromisso com a sociedade. Por causa disso, as universidades públicas recebem cada vez menos investimentos, determinando o seu "sucateamento", o que leva, assim, dentre outras coisas, a condições precárias de trabalho. A falta de material, de professores e a não-contratação de novos efetivos, tudo isso funciona como agravante para o desenvolvimento de desgastes e sofrimento psíquico no ambiente de trabalho.

Constatamos no estudo em questão que o significado da profissão docente está relacionado, principalmente, com a oportunidade de construir uma carreira que possibilitará um reconhecimento profissional; com uma missão,muitas vezes semelhante ao cuidado maternal, visto que a maioria dos docentes são mulheres e há possibilidade de trocas entre aluno e professor, representando um convívio que oportuniza ricas experiências e satisfação para ambas as partes.

O sofrimento psíquico no trabalho dos docentes de enfermagem está relacionado, principalmente, com a falta de recursos materiais e humanos determinado pela política de racionalização do setor público, fazendo com que os docentes fiquem submetidos a uma sobrecarga de trabalho muito grande, pois lhes é exigido um desdobramento para suprir a escassez de recursos e não deixar a qualidade do ensino cair. Isso interfere no contato dos docentes com hábitos saudáveis de vida e no relacionamento familiar. Essa realidade acaba deixando os docentes suscetíveis ao sofrimento patogênico, responsável por desequilíbrios físicos e mentais, já que a carga psíquica do trabalho não é eliminada de forma eficaz.

O salário não condiz com a dedicação exclusiva, o que acaba gerando nos professores um sentimento de insatisfação e muitas vezes privando-os de melhores condições de vida e realização de sonhos e projetos.

As relações interpessoais conflituosas e desgastantes no ambiente de trabalho são determinadas pelas próprias condições precárias de recursos e, principalmente, pela falta de projetos e objetivos coletivos a atingir.

Os docentes reconhecem os fatores desencadeantes de sofrimento psíquico e utilizam recursos compensatórios para reduzi-los, como a realização pessoal construída no cotidiano do trabalho ou até mesmo a ironia perante as condições precárias de trabalho como forma de apaziguar esse sofrimento. Falam do prazer e satisfação como uma forma de encobrir o desgaste emocional.

Acreditamos que o desenvolvimento de estratégias sólidas direcionadas à promoção e à proteção da saúde dos professores da universidade, bem como a de todos os outros funcionários, faz-se imprescindível para reduzir as nocividades do trabalho e influir de forma significativa no processo de qualidade de vida.

 

REFERÊNCIAS

1. Moura GMSS. O Estudo da satisfação no trabalho e do clima organizacional como fatores contributivos para o ser saudável no trabalho da Enfermagem. Texto Contexto Enferm. 1992 jul./dez.;1(2):167-79.

2. Santos MS, Trevizan MA. Sofrimento psíquico no trabalho do enfermeiro. Nursing, Rio de Janeiro, 2002 set.;4(52):23-8.

3. Dejours C et al. Psicodinâmica do trabalho. São Paulo: Atlas; 1994.

4. Lima Júnior JHV. Trabalho e saúde: uma abordagem psicodinâmica. Trabalhador de Enfermagem: de anjo de branco a profissional [tese]. São Paulo: Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas; 1998.

5. Batista AS, Codo W. Crise de identidade e sofrimento. In: Codo W, Coordenador. Educação carinho e trabalho: Burnout, a síndrome da desistência do educador, que pode levar à falência da educação. 3ª ed. Petrópolis: Vozes; 2002. p.75.

6. Freire P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 23ª ed. São Paulo: Paz e Terra; 2002. p.77.

7. Olivier-Heckler C, Soratto L. Trabalho: atividade humana por excelência. In: Codo W, Coordenador. Educação carinho e trabalho: Burnout, a síndrome da desistência do educador, que pode levar à falência da educação. 3ª ed. Petrópolis:Vozes; 2002. p.111-5

8. Antunes AV, Sant Anna LR. Satisfação e motivação no trabalho do enfermeiro. Rev Bras Enferm. 1996 jul./set.;49(3):425-34.

9. Dejours C. A Loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. 5ª ed. São Paulo: Cortez/Oboré; 1997. 87p.

10. Codo W, Medeorps L, Vasques-Menezes I. O conflito entre ao trabalho e a família e o sofrimento Psíquico. 3ª ed. Petrópolis: Vozes; 2002.

11. Bernik V. Estresse: o assassino silencioso. [Citado em: 11 Jul. 2003]. Disponível em: http://www.epub.org.br/cm/n03/doencas/stress.htm.

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