REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 11.3

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Pesquisa

Caracterização das pesquisas publicadas na Revista Mineira de Enfermagem, 1997-2005

Characterization of researches published in the Revista Mineira de Enfermagem, 1997-2005

Marcelo KluI; Diego SchaurichII; Maria da Graça Corso da MottaIII

IAluno da Escola de Enfermagem da UFRGS
IIEnfermeiro. Doutorando do Programa de Pós-Graduação da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
IIIEnfermeira. Docente Adjunta do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil da Escola de Enfermagem da UFRGS; Doutora em Filosofia em Enfermagem

Endereço para correspondência

Rua Amadeu Fagundes de Oliveira Freitas, 215, apto. 304
Bairro: Protásio Alves
CEP: 91260010, Porto Alegre-RS
Fone: (51) 84065157
E-mail: mck@pop.com.br

Data de submissão: 05/09/07
Data de aprovação: 13/11/2007

Resumo

Neste estudo, teve-se por objetivo caracterizar a produção do conhecimento das pesquisas publicadas na Revista Mineira de Enfermagem (REME) entre 1997 e 2005. Realizou-se uma pesquisa bibliográfica exploratório-descritiva com abordagem quantitativa. Oram analisados 213 resumos de artigos publicados em 18 exemplares, dos quais foram localizados 131 artigos oriundos de pesquisas, o que representa 61,5% do total. Constatou-se que há um crescimento na publicação de investigações por parte do periódico nos últimos três anos (2002-2005). Predominaram trabalhos que envolveram temáticas relacionadas à saúde da mulher (16,1%), com abordagem qualitativa (62,6%), e que utilizaram os pacientes/clientes/usuários dos serviços de saúde para a obtenção dos dados (25,2%). A entrevista configura-se como a principal técnica de coleta (42,2%) e o ambiente extra-hospitalar, como principal local para a coleta (56,5%), com 38,6% de autores com doutorado, em artigos com dupla parceria (42,8%) e oriundos da Região Sudeste brasileira (91,6%). Os resultados apontam as principais características das pesquisas publicadas na REME e contribuição delas para a construção do estado da arte do conhecimento em Enfermagem.

Palavras-chave: Enfermagem, Produção Científica, Pesquisa em Enfermagem

 

1 INTRODUÇÃO

A Revista Mineira de Enfermagem (REME) foi criada em março de 1996 e teve seu primeiro exemplar lançado no ano seguinte. É uma publicação em parceria com a Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e outras escolas de Enfermagem localizadas nesse Estado. Foi criada por iniciativa do Programa de Desenvolvimento da Enfermagem (PRODEN) apoiado pela W. K. Kellong Foudantion, tendo como objetivo auxiliar na disseminação da produção científica em âmbitos local, nacional e internacional, servindo como mais um veículo para a divulgação do conhecimento na área.1,2

Inicialmente, a REME teve periodicidade semestral até 2003; a partir de 2004, passou a ser editada trimestral e regularmente. Esse processo, que resultou na reestruturação e regularização da revista, inclusive com a mudança de sede para a Escola de Enfermagem da UFMG2, tem possibilitado melhores avaliações pelo sistema "Qualis CAPES - Periódicos de Enfermagem", da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES). Ou seja, em 2002 a revista foi classificada como C Nacional, em 2004 e 2005 teve classificação B Nacional e em 2006 observou-se que sua avaliação melhorou consideravelmente, obtendo, então, classificação C Internacional.3

Considera-se que esta melhor avaliação por parte da CAPES pode ser resultado, dentre outros investimentos, dos esforços da equipe responsável por este periódico em torná-lo um reconhecido veículo de divulgação do conhecimento produzido pela Enfermagem. Dentre esses investimentos, destaca-se a maior publicação de pesquisas classificadas como artigos originais e que representam parte dos critérios e requisitos analisados pela CAPES em sua avaliação. De acordo com um estudo1 que analisou a produção científica dos treze primeiros exemplares da REME, os artigos oriundos de pesquisas representam 67% da publicação total.

A importância delegada ao ato de publicar investigações se deve ao fato de que a pesquisa configura elemento central do progresso científico e tecnológico de uma sociedade, sendo estratégia importante à construção e ampliação dos fundamentos que constituem o conhecimento. Ainda, pode-se considerar a pesquisa como um "momento parcial do processo mais geral de conhecer, descrever e explicar a realidade em seus fragmentos ou no seu todo" 4-562

Em relação à Enfermagem, pode-se considerar que as três últimas décadas do século XX foram fundamentais para impulsionar o desenvolvimento de pesquisas na área. Pode-se citar a reforma universitária, a criação de programas de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado em Enfermagem) e a obrigatoriedade, com base nas diretrizes curriculares, de oferecer conteúdos referentes à metodologia científica nos cursos de graduação, como os principais fatores que incentivaram o aumento das investigações em enfermagem no Brasil.5

Nesse sentido, faz-se cada vez mais premente a necessidade de conhecer os rumos da produção de determinada área do conhecimento, a fim de entender as tendências dos trabalhos publicados, os temas de pesquisas mais explorados e aqueles ainda pouco estudados, bem como as principais características dessas publicações. Esses processos de descrever e analisar para vir a conhecer a produção científica publicada possibilitam uma aproximação do estado da arte do conhecimento de dada área do saber.

Consoante a compreensão de Rodrigues e Bagnato6, o processo que tem permitido delinear e caracterizar o estado da arte configura-se como "uma pesquisa sobre a produção de conhecimentos em enfermagem que dá uma visibilidade a esta produção possibilitando reflexões sobre as mesmas". Assim, optou-se por analisar, em termos quantitativos, o estado da arte das pesquisas publicadas pela REME no período de 1997 a 2005.

Portanto, o objetivo foi caracterizar a produção do conhecimento das pesquisas publicadas na REME, entre 1997 e 2005. Essa caracterização objetivou analisar os seguintes aspectos: período de publicação dos estudos, temáticas pesquisadas, abordagem metodológica, informantes/meios para obtenção dos dados, procedimento de coleta empregado, técnica de análise utilizada, local em que se desenvolveu a coleta de dados, grau de titulação postulado pelo autor, número de autores por artigo e região geográfica em que a pesquisa ocorreu.

 

2 METODOLOGIA

Trata-se de uma investigação bibliográfica exploratório-descritiva em que se optou por uma abordagem quantitativa. A pesquisa exploratório-descritiva tem por finalidade permitir o aprofundamento do conhecimento em relação a determinado problema com vista a possibilitar a correlação dos fatos. A opção pela abordagem quantitativa justifica-se pelo fato de propiciar a caracterização e a quantificação dos objetivos propostos por meio de medidas apresentadas com base em análises estatísticas (simples e/ou complexas).7

Para proceder à coleta dos dados, ocorreu a consulta à REME referente ao período de 1997 a 2005. Como justificativa à escolha deste periódico, podem ser citados três principais motivos: por ter se tornado, nos últimos anos, um importante veículo para a divulgação das investigações da enfermagem; por estar classificado com Qualis C Internacional pela CAPES - ano base de 2005; e por ser uma publicação que apresenta vinculação com um programa de pós-graduação stricto sensu.

Com o intuito de alcançar os objetivos propostos, iniciou-se a pesquisa acessando os arquivos dos exemplares diretamente no site da revista.4 Essa busca foi realizada pelos pesquisadores durante os meses de outubro e novembro de 2006, período considerado suficiente por possibilitar uma investigação criteriosa nos exemplares. Assim, após a identificação dos artigos oriundos de pesquisas, iniciou-se a fase de análise dos trabalhos incluídos neste estudo, por meio de uma leitura cuidadosa e atenta das investigações. Essa fase de análise ocorreu nos meses de dezembro de 2006 e janeiro de 2007.

Com a finalidade de organizar e sistematizar a análise dos artigos, elaborou-se um instrumento de registro, organizado da seguinte maneira: local para identificação do trabalho (título, ano, volume e número de publicação) e espaço para a descrição do objetivo do estudo, da abordagem metodológica, dos informantes/meios para obtenção dos dados, da técnica de coleta, do procedimento de análise empregado, do local em que se desenvolveu a coleta de dados, do grau de titulação postulado pelo autor, do número de autores por artigo e da região geográfica em que a pesquisa ocorreu.

Após a transcrição das informações dos originais para o instrumento de registro, optou-se por trabalhar apenas com esse documento, uma vez que ele continha todas as informações necessárias para a caracterização proposta. Os dados foram tabulados e a análise quantitativa ocorreu por meio de freqüência absoluta e relativa. Para alcançar as categorias relativas às temáticas pesquisadas nos artigos publicados pela REME, utilizou-se a técnica de análise de conteúdo.8

 

APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS

Considerando o período dos primeiros nove anos (1997-2005) delimitado para este estudo bibliográfico, ocorreu a leitura de um total de 213 resumos de artigos publicados na REME e distribuídos nos 18 exemplares analisados. Desse conjunto, foram localizados e incluídos 131 artigos oriundos de pesquisas, o que representa 61,5% do total de trabalhos publicados. Observa-se na Tabela 1 a distribuição anual dos artigos de classificações gerais e aqueles referentes aos artigos oriundos de pesquisas publicados no referido periódico.

 

 

Esses 131 artigos tiveram seus resumos e objetivos submetidos a repetidas leituras e à análise de conteúdo8 a fim de que as temáticas mais recorrentes nas pesquisas publicadas no periódico analisado pudessem ser extraídas. Em alguns casos, procedeu-se à leitura do estudo na sua íntegra, com vista a melhor compreender seus objetivos e resultados para, então, categorizá-lo. Os resultados obtidos desse processo podem ser observados na Tabela 2.

 

 

Para o que tange à abordagem metodológica utilizada nas investigações, os estudos qualitativos representaram 62,6% dos artigos publicados na Revista Mineira de Enfermagem, no período de 1997-2005. Os estudos quantitativos corresponderam a um total de 32,8%, seguido pelas pesquisas que contemplam as duas abordagens (quantiqualitativas) que responderam por 4,6% dos casos.

No que se refere aos informantes/meios para a obtenção dos dados das investigações, observa-se que os pacientes/clientes/usuários de serviços de saúde correspondem a 25,2% do total, seguido por enfermeiros/as (13,3%), prontuários/documentos/afins (12,6%), equipe multidisciplinar de saúde (9,8%) e familiares/cuidadores (9,1%). A relação completa desses resultados pode ser vislumbrada na Tabela 3.

 

 

Em relação aos aspectos metodológicos das pesquisas analisadas, a entrevista representa a principal técnica de coleta de dados utilizada, estando presente em 42,2% dos artigos, seguida pela aplicação de questionários/formulários (35,1%), análise documental (12,9%), observação (11%) e outros meios de coleta (10,4%). Ressalte-se, também, que a grande maioria (75,6%) das investigações científicas utilizou apenas uma técnica para coletar os dados, estando a combinação entre elas (duas, três e quatro técnicas) presente em 24,4% dos estudos.

Ainda em relação aos aspectos metodológicos e, mais especificamente à técnica de análise dos dados, encontrou-se, entre os estudos com abordagem qualitativa que mencionaram o procedimento, o seguinte: análise de conteúdo de Bardin (23%), análise fenomenológica (20%), análise temática de Minayo (20%), análise de discurso de Fiorin (18,5%) e outras (18,5%). Dos estudos de cunho quantitativo que especificaram a técnica, destaca-se a utilização da análise estatística com 87,8% e a análise epidemiológica com 12,2%. Faz-se relevante salientar, também, que 20,3% do total das pesquisas publicadas na REME não mencionaram o procedimento de análise.

Quando a análise recaiu sobre o local em que a coleta de dados foi realizada, encontrou-se que 56,5% das pesquisas foram desenvolvidas em ambiente extra-hospitalar enquanto 38,2% ocorreram em ambiente hospitalar. Houve, também, casos considerados mistos (5,3%), ou seja, que parte das investigações realizou-se em ambiente hospitalar e a outra parte em ambiente extra-hospitalar, com as seguintes combinações: instituição hospitalar e unidade básica de saúde e instituição hospitalar e domicílio.

Dos resultados, encontrou-se, referente ao grau de titulação postulado pelo autor, a predominância de doutores (38,6%), conforme pode ser observado na Tabela 4. Em relação à quantidade de autores por artigo, foram obtidos os seguintes dados: 42,8% dos artigos com dupla autoria; 21,4% com tripla autoria; 16,8% com a presença de quatro autores; 12,2% com a participação de cinco autores ou mais; e 6,9% publicadas sem parceria.

 

 

As regiões geográficas em que as pesquisas se desenvolveram podem ser observadas na Tabela 5. Desses achados, destacam-se os dados estatisticamente mais significativos: a concentração (91,6%) de artigos oriundos de investigações publicados por autores da Região Sudeste brasileira e a inexistência de publicações da Região Norte do País nesse período. Da Região Sudeste, observa-se a predominância de estudos publicados por autores dos Estados de Minas Gerais (63,4%), São Paulo (23,2%), Rio de Janeiro (3,7%), Rio Grande do Sul (3,7%) e outros (6%).

 

 

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

A REME, entre 1997 e 2005, publicou 213 artigos científicos, classificados como pesquisas, relatos de experiência, revisões teóricas e artigos de reflexão; faz-se relevante destacar que não foram contabilizadas as publicações referentes ao editorial e resumos de dissertações/teses. Desse total, os artigos oriundos de pesquisa contabilizaram 131, o que representa 61,5%. A média obtida na distribuição dos 131 artigos de pesquisa selecionados no período é de 14,6% publicações/ano.

Percebe-se, ainda, que há um crescimento considerável tanto no número de artigos publicados quanto no número de pesquisas. No primeiro triênio (1997 a 1999), a REME registrou 41 artigos publicados, sendo 23 oriundos de pesquisa, o que representa 56,1%; no segundo triênio (2000 a 2002), foram publicados 44 artigos, dos quais 27 eram investigações, representando 61,4%; no terceiro triênio (2003 a 2005), a revista registrou a publicação de 128 estudos, sendo 81 oriundos de pesquisas, o que representa 63,3%. Pode-se considerar, então, que a maior parte dos trabalhos publicados refere-se a investigações científicas, o que vem ao encontro de outros estudos que têm analisado as publicações de enfermagem em diferentes áreas do conhecimento.6,9-10

Em relação às temáticas mais exploradas nas pesquisas publicadas na REME, destacam-se as áreas da saúde da mulher (16,1%), da educação/ensino em enfermagem e saúde (13%) e do cuidado/assistência em enfermagem (12,2%). A temática relacionada à saúde da mulher desponta como principal campo de investigação dos trabalhos publicados, em razão, dentre outros fatores, da necessidade em ampliar e aprimorar as políticas públicas e o cuidado em enfermagem nesse campo específico. Saliente-se, ainda, que parcela significativa das produções científicas origina-se dos programas de pós-graduação e grande parte destes apresentam linhas de pesquisa ou áreas de concentração que enfocam tal temática.11

No que tange à temática da educação/ensino em enfermagem e saúde, compreende-se que essa tem sido uma área de interesse da enfermagem brasileira ao longo dos tempos, visando descrevê-la e compreendê-la a fim de possibilitar maior qualificação dos profissionais assistenciais e pesquisadores. Outros estudos também observaram essa tendência, como Rodrigues e Bagnato6, que encontraram 12% de artigos referentes a esse tema e Matheus et al.9 que encontraram um percentual de 17,6% entre a produção publicada em um periódico de enfermagem.

A temática que se refere ao cuidado/assistência em enfermagem esteve presente em 12,2% das pesquisas publicadas e pode-se considerar que a enfermagem vem assumindo "efetivamente a temática do cuidado como foco privilegiado de sua atuação."6-648 Além disso,percebe-se que existe um direcionamento desses estudos voltado para a prática profissional. Saliente-se que as demais temáticas não apresentaram significância estatística e, portanto, não serão consideradas para discussão neste momento.

A abordagem metodológica mais utilizada nas pesquisas publicadas na REME é a qualitativa, que representa 62,6% do total. Ressalte-se que essa abordagem, que começou a ser difundida no Brasil na década de 198012, tem sido privilegiada pela enfermagem, principalmente a partir da década de 1990, por possibilitar a compreensão das vivências e experiências do ser humano em dado tempo e espaço, além de vislumbrar a dinamicidade e a complexidade relacional existente no processo de estar saudável e estar doente.

Essa tendência de utilização da abordagem qualitativa também foi encontrada em outros estudos.10,13,15 Assim, acredita-se que a enfermagem vem buscando, por meio da pesquisa qualitativa e da parceria com as ciências sociais e humanas, possíveis compreensões e contribuições a fim de qualificar o cuidado à saúde desenvolvido pela Enfermagem. De acordo com Prado e Gelbcke16-39, "a aproximação com as ciências sociais e metodologias qualitativas tem possibilitado à enfermagem uma melhoria" no processo de cuidar e na construção de novos referenciais.

Com relação à discussão referente aos informantes/meios para obtenção dos dados, chama atenção a opção por dar voz aos pacientes/clientes/usuários dos serviços de saúde (25,2%) como possibilidade de compreender os processos de estar saudável e estar doente, bem como as dificuldades, facilidades e alternativas viáveis às questões da área. Destaca-se também, a investigação entre enfermeiros/as (13,3%) que poderia ser explicada pelo interesse em conhecer aspectos peculiares da profissão; esse achado vem ao encontro de outro estudo da área de enfermagem e saúde coletiva.14

Em relação à técnica de coleta de dados, a entrevista configura-se como o principal instrumento utilizado nas pesquisas publicadas na REME, aparecendo em 42,2% dos estudos, o que converge com os achados de outro estudo.14 Acredita-se que o emprego da entrevista decorre da maior experiência e conhecimento da enfermagem ao desenvolver investigações com esse instrumento. No entanto, outras técnicas também são utilizadas, como a aplicação de questionários/formulários (35,1%), a análise documental (12,9%), a observação (11%) e outros meios (grupo focal, história oral, modelagem, dentre outros), os quais representam 10,4%, e demonstram a diversidade de recursos utilizados pelos pesquisadores da área.

Outro dado interessante refere-se à quantidade de instrumentos de coleta de dados empregada nas pesquisas, uma vez que o uso de apenas uma técnica esteve presente em 75,6% dos estudos e a utilização combinada de técnicas apareceu em 24,4% das investigações. Dessa forma, ao se cruzarem os achados estatisticamente significativos referentes à abordagem qualitativa e à utilização de uma única técnica de coleta de dados, depreende-se que isso ocorre em virtude da quantidade de informações obtidas, principalmente por meio das entrevistas.

Ainda com referência aos aspectos metodológicos, saliente-se que, dos estudos qualitativos que mencionam a técnica de análise dos dados, a utilização de Bardin em 23% dos artigos, da fenomenologia em 20% e a de Minayo em 20% representam os principais referenciais para tratamento das informações coletadas. Dos estudos quantitativos, constata-se o uso de análise estatística (seja por meio de medidas simples e/ou complexas) na maioria (87,8%). Contudo, o número significativo de trabalhos publicados que não mencionam a técnica empregada na análise (20,3%) vem, também, ao encontro dos resultados de outra investigação.14

Das 131 pesquisas publicadas pela revista no período considerado, 56,5% dos estudos utilizaram o cenário extra-hospitalar como local para a coleta dos dados. Desses estudos, os locais mais utilizados são as instituições educacionais (de todos os níveis) que representaram 40,5%, a rede básica de saúde (33,8%), o domicílio dos informantes (9,5%) e outros cenários (16,2%). O espaço hospitalar foi local de coleta de dados de 38,2% das investigações, dos quais as proporções são as seguintes: em diferentes cenários do hospital (20%), maternidade/alojamento conjunto (16%), ambulatório (14%), clínica médica e cirúrgica (12%), centro de tratamento intensivo (12%) e outros locais (21%).

Quando a discussão recai sobre o grau de titulação postulado pelo autor, os achados apontam para maior participação de doutores (38,6%), o que vem sendo uma das orientações da CAPES e uma tendência das publicações da enfermagem brasileira, também encontrada em outros estudos.6,9 Saliente-se, também, a autoria de artigos por mestres (17,9%), estudantes de graduação (15,9%) e estudantes de pós-graduação stricto sensu (9,7%), explicitando, dessa maneira, que "há uma relação direta entre titulação acadêmica e produção de conhecimentos na Enfermagem".6: 649

Outro dado que chamou a atenção relaciona-se ao número de autores que se declararam ser docentes de Instituições de Ensino Superior (IES), o qual representa 64% do total de autores dos artigos oriundos de pesquisas publicadas na REME entre 1997 e 2005. Consoante a compreensão de Matheus et al.,9-12 que encontrou significância semelhante,"a participação expressiva de docentes pode ser explicada pelo compromisso com a divulgação de conhecimentos por pertencerem a órgãos formadores de recursos humanos, como também, traduz o resultado dos processos de avaliação", quer seja das próprias instituições, da CAPES ou dos programas de pós-graduação.

Em relação ao número de autores por artigo, a maioria das pesquisas publicadas neste periódico foi escrita por dois autores (42,8%), seguida daqueles com tripla autoria (21,4%) e daqueles com a presença de quatro autores (16,8%). Esses achados convergem com os resultados de outras investigações10,14; ainda, corrobora-se com a afirmação de Rodrigues e Bagnato6: 649 de que esta tendência atual é resultado e "pode ser justificada pelo crescente incentivo para a formação de grupos de pesquisa, sendo cada vez menos recomendada a produção individual".

No que tange à região geográfica em que os artigos oriundos de pesquisas se desenvolveram, observa-se a expressiva significância estatística do Sudeste brasileiro, o qual representa 91,6% do total. Essa concentração de estudos advindos dessa região tem sido encontrada em outras investigações do estado da arte do conhecimento em Enfermagem.9,17 Ao encontro, também, dos achados dessas outras pesquisas, a Região Sudeste é seguida pelas regiões Sul (3,9%) e Nordeste (3%). A Região Norte, talvez pela inexistência de Programas de Pós-Graduação stricto sensu, não publicou nenhum artigo oriundo de pesquisa na REME no período considerado.

Saliente-se, ainda, que entre os Estados brasileiros que mais foram locais de coletas de dados, há Minas Gerais, (63,4%), São Paulo (23,2%%), Rio de Janeiro (3,7%), Rio Grande do Sul (3,7%) e outros (6%). Nesse sentido, a discussão relacionada à elevada concentração na Região Sudeste e, em especial, no Estado de Minas Gerais pode ser justificada pelos objetivos da REME, ou seja, que o periódico surgiu para promover, a priori, a divulgação de estudos desse Estado.

Além disso, é importante destacar, também, os seguintes aspectos encontrados nesta investigação bibliográfica, embora não fizessem parte dos objetivos propostos: São 16 artigos que não tiveram a participação de doutores, o que representa 12,2% do total; a presença de profissionais de outras áreas do conhecimento (medicina, psicologia,fisioterapia, terapia ocupacional, dentre outras) representa 7,6% do total de autores que publicaram na REME nesse período; e, 8,4% das pesquisas indicaram ter algum tipo de financiamento (Capes, CNPq, Fapemig, Fapesp e outros).

 

CONCLUSÃO

A análise da produção do conhecimento das pesquisas publicadas na Revista Mineira de Enfermagem, no período de 1997 a 2005, foi o foco principal deste estudo. Constatou-se que, dos 213 artigos publicados ao longo desses nove anos, as pesquisas representam 61,5% do total e os resultados indicam importantes características que contribuem para a construção e consolidação não só deste periódico como veículo de divulgação da comunidade científica1, mas também de uma enfermagem compreendida como ciência, prática social e arte na área da saúde.

Nesta investigação bibliográfica, identificaram-se algumas tendências da produção do conhecimento publicada pela REME e que revelam os rumos atualmente adotados pelos pesquisadores em seus estudos científicos. Destaca-se dos achados, o resultado expressivo de trabalhos relacionados às temáticas que versam sobre a saúde da mulher, da educação/ensino em enfermagem e saúde e do cuidado/assistência em enfermagem. Esses estudos têm, na sua maioria, abordagem qualitativa e utilizam os pacientes/clientes/usuários dos serviços de saúde como os principais informantes para a obtenção dos dados.

Identificou-se que essa produção do conhecimento utiliza, predominantemente, um único instrumento para coletar os dados, configurando-se a entrevista como principal técnica empregada para esse fim. A análise de conteúdo de Bardin (nas pesquisas qualitativas) e a análise estatística (nas pesquisas quantitativas) despontaram como mais importantes mecanismos para tratamento dos dados. Na maioria desses estudos os dados foram coletados em ambientes extra-hospitalares. A titulação predominante postulada pelo autor no artigo foi o doutorado, em artigos com dupla autoria e procedentes da Região Sudeste brasileira, em especial do Estado de Minas Gerais.

Assim, há que se considerar que esta investigação apresenta como principal contribuição o fato de ter analisado um dos mais novos e importantes veículos brasileiros de disseminação das produções da enfermagem e demais áreas da saúde. Portanto, ao delinear o estado da arte do conhecimento produzido e publicado neste periódico, foi possível observar os movimentos e dinamicidades desse período que conduziram aos avanços da enfermagem nos contextos do ensino, da pesquisa e da assistência. Destaca-se, ainda a possibilidade de visualizar em que direção está apontando a produção do conhecimento, bem como as contribuições que têm oferecido para o saber e o fazer da enfermagem em seus múltiplos contextos.

 

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