REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 10.1

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Relato de experiência

Conhecimento de anatomia aplicada ao trauma: estudo realizado com alunos da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Juiz de Fora

Anatomic knowledge applied to trauma: study done with the students of the Nursing College of the Federal University of Juiz de Fora

Kelli Borges dos SantosI; Maria Cristina Vasconcellos FurtadoII; José Otávio Guedes JunqueiraIII; Fernando Mendonça VidigalIV; Marcus da Matta AbreuV; Jane Azevedo da SilvaVI

IResidente em Enfermagem Saúde do Adulto do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora
IIMestre em Biologia. Professora Assistente de Anatomia do Departamento de Morfologia da Universidade Federal de Juiz de Fora. Cirurgiã Geral. Especialista em Trauma
IIIProfessor Auxiliar de Anatomia do Departamento de Morfologia da Universidade Federal de Juiz de Fora. Cirurgião Geral. Especialista em Trauma
IVMestre em cirurgia. Professor Assistente de Cirurgia Gastroenterológica do Departamento de Cirurgia do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora. Cirurgião Geral
VCirurgião Geral. Residente em Cirurgia do Tórax do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora
VIMestre em Engenharia de Sistema. Professora Adjunto do Departamento de Estatística

Recebido em 21/07/2005
Aprovado em 07/11/2005

Resumo

Objetivou-se identificar o conhecimento dos alunos da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF sobre anatomia aplicada ao trauma, a importância que dão ao tema e o grau de satisfação com o conteúdo ministrado no curso de graduação. Utilizou-se um questionário sobre a opinião dos alunos a respeito de trauma, conhecimento de protocolos de atendimento ao traumatizado e legislação específica, seguido de outro questionário objetivo sobre anatomia aplicada ao trauma, com exposição teórico-prática interposta. Os alunos demonstraram insatisfação com seus conhecimentos e desconhecimento de protocolos de atendimento e da legislação. O número de acertos no primeiro questionário foi inferior ao do segundo, denotando a adequação da metodologia aplicada.

Palavras-chave: Traumatologia, Centros de Traumatologia, Educação em Enfermagem, Anatomia/Educação, Protocolos

 

INTRODUÇÃO

O desenvolvimento tecnológico e a urbanização trouxeram aumento dos acidentes de trânsito e de trabalho, bem como da violência interpessoal. O trauma é considerado uma doença, por possuir agentes etiológicos, procedimentos terapêuticos e profilaxia conhecida.

De acordo com os princípios preconizados pelo Colégio Americano de Cirurgiões(1) e o Comitê do Pré-Hospital Trauma Life Support (PHTLS) da National Association of Emergency Medical Technicians – NAEMT(2), o atendimento inicial ao traumatizado constitui-se de uma abordagem sistematizada. A avaliação e a intervenção de sucesso requerem uma forte base de conhecimentos de anatomia e fisiologia. Conhecer tais elementos é fundamental em procedimentos salvadores, como no suporte ventilatório e na imobilização da coluna vertebral, situações em que o atendimento correto pode evitar a morte ou a seqüela.(1)

O Conselho Nacional de Educação(3) determina como uma das características do egresso do curso de graduação em Enfermagem, a capacidade de intervir sobre os problemas e situações de saúde e doença mais prevalentes no perfil epidemiológico do país. Considerando que, no Brasil, o trauma é a terceira causa de morte depois das doenças cardiovasculares e do câncer, e a primeira causa quando considerados indivíduos entre um a 40 anos(2), torna-se evidente a importância do ensino deste tema durante a graduação.

O trabalho objetivou identificar o conhecimento de anatomia aplicada ao trauma entre os alunos do curso de graduação da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Juiz de Fora. Objetivou ainda, avaliar a importância que dão ao tema e o grau de satisfação com o currículo da faculdade, além da satisfação quanto aos próprios conhecimentos sobre o assunto abordado.

 

MATERIAL E MÉTODO

De um total de 90 alunos cursando entre o sétimo e o nono períodos da Faculdade de Enfermagem da UFJF, 70 foram sorteados e convidados, por meio de contato telefônico, a participar da pesquisa. Foram obtidas 38 confirmações de participação, entretanto apenas 24 compareceram. Um aluno abandonou as atividades antes do preenchimento do último questionário. A participação voluntária foi confirmada em termo de consentimento livre e esclarecido, obtido por documento escrito, de acordo com a Resolução 196/96, do Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde.

Foram aplicados três questionários. O primeiro referia-se à opinião pessoal quanto à importância do tema: conhecimento de protocolos de atendimento inicial ao traumatizado e portarias recentes relativas ao papel do enfermeiro no atendimento pré-hospitalar. A seguir, foram aplicados dois questionários específicos sobre o conhecimento de anatomia aplicada ao trauma, sendo um antes e outro após aula teórico-prática, ministrada no laboratório de Anatomia do Instituto de Ciências Biológicas da UFJF. Cada questionário constou de 10 questões de múltipla escolha, com quatro assertivas.

O delineamento estatístico foi de um estudo descritivo, de caráter exploratório, com abordagem quantitativa, amostragem aleatória e design antes e depois. Os dados obtidos foram analisados estatisticamente por meio do programa Statistical Package for Social Sciences, versão 8.0, da Universidade de Stanford.

 

RESULTADOS

Compareceram à coleta de dados 24 acadêmicos de enfermagem: 10 alunos do sétimo período e 14 do nono. Um dos sujeitos não concluiu a coleta dos dados, sendo excluído da pesquisa. A amostra considerada foi, portanto, de 23 alunos - cinco do sexo masculino e 18 do sexo feminino.

Ao serem questionados se já tiveram algum contato com os assuntos trauma e/ou atendimento pré-hospitalar, 19 (82,6%) responderam afirmativamente. Desses, cinco (21,7%) responderam não ter sido em disciplinas obrigatórias da graduação. A seguir, foram questionados quanto à importância do aprendizado do atendimento pré-hospitalar para o enfermeiro e quanto ao grau de seus conhecimentos sobre o assunto. A maioria considerou o aprendizado do tema muito importante ou importante (78,3% e 17,4% respectivamente), e apenas um aluno julgou ser importante somente para quem trabalhará na área. A insatisfação com o próprio conhecimento sobre trauma foi unânime, sendo este, considerado pouco satisfatório para 16 alunos (69,6%) e insatisfatório para sete (30,4%).

Quando interrogados sobre como o tema deveria ser ministrado, a maioria (60,9%) respondeu que o conteúdo deveria ser exposto exclusivamente em uma disciplina específica e obrigatória da grade curricular. A inclusão do conteúdo em disciplina curricular já existente foi a opção apontada por 17,4% dos alunos e 8,7% consideraram que deveria ser ministrado em disciplina opcional. Um aluno considerou que esse assunto deveria ser abordado apenas em curso de especialização e outro como disciplina curricular específica e em curso de especialização. Um aluno assinalou todas as opções.

Duas questões referiam-se a protocolos internacionalmente conhecidos sobre atendimento a pacientes traumatizados, e outras duas ao conhecimento de portarias que instituíram a Política Nacional de Atenção às Urgências, ao componente pré-hospitalar móvel da Política Nacional de Atenção às Urgências e ao SAMU/192. Os resultados são apresentados a seguir.

Cada um dos dois questionários específicos sobre os conhecimentos de anatomia aplicada ao trauma constou de 10 questões. O número de acertos dos questionários específicos foi separado em até cinco (inclusive) e acima de cinco. Observa-se, a seguir, na TAB. 1, que houve um aumento no número de acertos no segundo questionário, o qual foi precedido de exposição teórico-prática.

 

 

Quatro alunos apresentaram diminuição da pontuação e seis obtiveram sua pontuação inalterada. Desses 10 alunos, 70% obtiveram pontuação igual ou inferior a cinco no primeiro questionário.

Os quatro alunos que relataram não ter tido contato prévio com o tema obtiveram pontuação inferior a cinco no primeiro teste. No segundo, dois deles pontuaram acima de cinco pontos. Dos 19 alunos que relataram contato prévio com o assunto, cinco (26,7%) obtiveram acima de cinco acertos no primeiro questionário. Esse número aumentou para 12 (63,2%) no segundo. Houve um aumento de 140% no número de alunos que obtiveram pontuação acima de cinco acertos no segundo questionário.

 

DISCUSSÃO

Esse é o primeiro trabalho que busca avaliar os conhecimentos de anatomia aplicada ao trauma entre alunos de enfermagem da UFJF. Com o intuito de evitar a tendenciosidade, ou seja, a participação apenas de pessoas que tivessem interesse no tema trauma, foi realizado o sorteio. Obter uma amostra significativa para a realização da pesquisa foi um grande problema. Isso prejudicou a análise estatística dos dados, uma vez que a amostra tornou-se pequena, permitindo apenas uma análise descritiva.

Embora a grade curricular seja a mesma para todos os alunos que participaram da pesquisa, alguns responderam não ter tido contato com o assunto trauma em disciplinas obrigatórias do currículo da Faculdade de Enfermagem da UFJF. Todos os alunos passaram pela disciplina Anatomia e a maioria das questões propostas nos questionários específicos exigia apenas conhecimentos anatômicos. Porém, dada a dificuldade em fazer uma correlação com conhecimentos específicos, supõe-se haver dificuldades em assimilar os conteúdos do ciclo básico e correlacioná-los com as disciplinas do ciclo profissionalizante.

Foram freqüentes as opiniões de que, para a formação do enfermeiro, são importantes o aprendizado de atendimento pré-hospitalar e a criação de uma disciplina específica e obrigatória, na graduação, para abordar o trauma. Nenhum aluno considerou seu conhecimento satisfatório, o que mostra que durante o curso a abordagem sobre atendimento ao traumatizado foi superficial.

A ausência de uma instrução formal para conduta no trauma é sabidamente a maior limitação para prover cuidado adequado às vítimas.(4) Benner apud Baird et al.(5), afirma que o conhecimento é um dos fatores que influenciam na ação durante o atendimento. A morbimortalidade pode ser significativamente reduzida por meio da formação de profissionais capazes de prestar, com competência, cuidado de enfermagem no trauma.(6)

O Ministério da Saúde(7), ao enumerar os diferentes profissionais que trabalham com o atendimento ao traumatizado, reforça a quantidade insuficiente de profissionais de saúde qualificados para trabalhar no setor. A identificação dessa carência faz com que a graduação seja importante na mudança desse perfil, criando disciplinas que qualifiquem e capacitem os alunos que futuramente poderão ingressar na área.

Os protocolos referidos no questionário específico são cursos conhecidos internacionalmente e que foram criados a partir da necessidade de implantar uma nova abordagem sistematizada no atendimento de vítimas de trauma.(1) Os resultados apresentados sugerem pouco conhecimento do conteúdo dos mesmos.

A partir do momento em que se conhecem as leis que regulamentam uma atividade, são identificadas as possibilidades de atuação no mercado de trabalho. Com a instituição da regulamentação da Política Nacional de Urgências é possível identificar a inserção do enfermeiro na área de atendimento ao traumatizado. Os alunos parecem possuir pouco conhecimento sobre as leis que regulamentam e identificam o papel dos profissionais que atuam no atendimento ao trauma. Disso pode resultar que um menor número de pessoas tenha interesse em trabalhar na área por ignorar o seu papel como profissional, deixando esse setor cada vez mais carente de profissionais qualificados.

Corroborando a afirmação do Ministério da Saúde(7), a presente amostra sinaliza a insuficiente atenção ao trauma, nos cursos de graduação. O número de acertos no primeiro questionário foi baixo. Mesmo entre os alunos que relataram contato prévio com o assunto, poucos obtiveram pontuação superior a cinco, o que pode sinalizar o pequeno conhecimento obtido durante a graduação. No segundo questionário houve uma melhora de resultados. Isso pode significar que, apesar de a aula ter sido ministrada em um curto período de tempo, houve um acréscimo de informações e aprendizado, representado por um bom aproveitamento, pois mais da metade dos alunos melhorou sua pontuação.

A graduação em enfermagem deve conter um currículo que dê ao futuro profissional noções de perfil, habilidades, competências e conteúdos, considerando a demanda e expectativa de desenvolvimento do setor saúde na região.(3) Segundo o Conselho Regional de Enfermagem de Santa Catarina(8), fica proibido ao enfermeiro negar assistência em caso de urgência e emergência. As possibilidades de erro ou negligência seriam possíveis no grupo estudado, uma vez que os mesmos sentem-se desqualificados para realizarem um atendimento adequado. É relevante a inserção do tema, de forma ampliada durante a graduação, para garantir uma formação generalista, de qualidade ao enfermeiro.(9)

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados sinalizam que o conhecimento dos alunos da Faculdade de Enfermagem da UFJF sobre trauma, especificamente avaliado no presente estudo por meio da anatomia aplicada, é insuficiente. A população estudada mostrou insatisfação com o grau de seu conhecimento sobre o assunto e considera que o aprendizado do tema é importante para a formação do enfermeiro, devendo ser seu ensino parte obrigatória da graduação. Apesar de ministrado em um período curto, a metodologia de ensino aplicada melhorou o desempenho dos alunos no segundo questionário, em relação ao primeiro.

 

REFERÊNCIAS

1. Colégio Americano de Cirurgiões. Suporte avançado de vida no trauma (SAVT/ATLS): manual do curso para alunos. Chicago: EUA; 1997.

2. National Association of Emergency Medical Technicians. Comitê do Prehospital Trauma Life Support; Colégio Americano de Cirurgiões. Comitê de Trauma. Atendimento pré-hospitalar ao traumatizado: básico e avançado. 5ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2004.

3. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CES nº 3, de 07 de novembro de 2001. Diretrizes curriculares nacionais do Curso de Graduação em Enfermagem. [Citado em: 29 maio 2004]. Disponível em: http: www.mec.gov.br.

4. Gautam V, Heyworth J. The value of the abbreviated ATLS course for Accident and Emergency nurses. Accid. Emerg. Nurs. 1994;2:100-2.

5. Baird C, Kernohan G, Coates V. Outcomes of advanced trauma life support training: questioning the role of observer. Accid. Emerg. Nurs. 2004;10:1-5.

6. Associação Portuguesa de Enfermeiros de Urgência. TNCC - Trauma Nursing Care Course. [Citado em:13 set. 2004]. Disponível em: http://congressosenologia 2003. lusomed.pt .

7. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria n.º 2048/GM, de 5 de novembro de 2002. Dispõe sobre regulamento do funcionamento do atendimento de urgência e emergência [Citado em: 03 maio 2004]. Disponível em: http://portalweb02.saude.gov.br/saude

8. Conselho Regional de Enfermagem-Santa Catarina. Orientações e legislações sobre o exercício da Enfermagem. Florianópolis: COREn-SC; 2001.

9. Freitas GB. A participação do enfermeiro no atendimento pré-hospitalar [Trabalho de Conclusão de Curso]. Juiz de Fora: Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Juiz de Fora; 2003. 34 f.

10. Oliveira BFM, Parolin MKF, Teixeira Jr REV. Trauma: atendimento pré-hospitalar. São Paulo: Atheneu; 2004.

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