REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 10.2

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Pesquisa

Complicações mais freqüentes relacionadas aos pacientes em tratamento dialítico

Common complications for patients undergoing dialysis

Silvana Maria Coelho Leite Fava1; Adriana Ayres de Oliveira2; Elizabeth Miranda Vitor3; Dênis Derly Damasceno4; Solange Izabel Campos Libânio

1Enfermeira. Mestre em Educação pela Universidade de Alfenas -Unifenas. Profa Adjunto do Departamento de Enfermagem da UNIFAL-MG. Pró-reitora de Graduação da UNIFAL-MG
2Enfermeira do Hospital Sarina Rolin Caracante/Grupo de Apoio e Pesquisa ao Câncer Infantil - Sorocaba - SP
3Enfermeira da Santa Casa de Misericórdia do Perpétuo Socorro de Alfenas
4Enfermeiro. Prof. Substituto do Departamento de Enfermagem da UNIFAL-MG
5 Enfermeira Especialista em Nefrologia pela Soben e em Infectologia pela USP-EERP

Endereço para correspondência

Rua Geraldo da Silveira Barroso, 226, Jardim América
CEP: 37-130-000. Alfenas -MG.
E-mail: denisddamasceno@bol.com.br

Recebido em: 08/09/2005
Aprovado em: 24/03/2006

Resumo

Este é um estudo retrospectivo que visou analisar as complicações que ocorrem durante as sessões de hemodiálise e a assistência de enfermagem prestada a pessoas portadoras de Insuficiência Renal Crônica (IRC). A população investigada constituiu-se de 125 prontuários de portadores de IRC. Observou-se que as complicações mais comuns foram hipertensão arterial e hipotensão arterial. Quanto à assistência de enfermagem durante o processo desse tratamento, constatou-se que eram priorizadas a monitoração dos sinais vitais, administração de medicamentos e orientações quanto ao peso corporal. Contudo, observou-se durante a coleta de dados que cuidados como: mudança de posição e avaliação do nível de consciência são freqüentemente prestados, porém, não são registrados nos prontuários dos pacientes em tratamento.

Palavras-chave: Insuficiência Renal Crônica, Diálise, Cuidados de Enfermagem

 

INTRODUÇÃO

As repercussões do desenvolvimento científico e tecnológico nas condições de vida da população têm levado ao aumento da expectativa de vida, expondo a população a um maior risco de desenvolver doenças crônico degenerativas.(1) Enquadra-se nesta categoria a Insuficiência Renal Crônica (IRC) que segundo Marcondes(2) é uma síndrome provocada por uma variedade de nefropatias que devido a sua evolução progressiva, determinam de modo gradativo e quase sempre inexorável em uma redução global das múltiplas funções renais.

Segundo Riella(3) as principais causas de IRC são: glomerulonefrite crônica (24%), seguida de hipertensão arterial (22%) e diabetes mellitus (15%). Soares(4) relatam que a IRC apresenta quadro clínico complexo, envolvendo distúrbios hidroeletrolíticos, acido-básicos, endocrinológicos, nutricionais e repercussões sociais negativas. Mesmo com tantos distúrbios envolvidos, segundo Romão Junior(5) o tratamento dialítico e farmacológico destes doentes apresentaram uma melhora espetacular nas duas últimas décadas, levando a uma considerável expectativa de vida e, sobretudo a uma melhora na qualidade de vida.

O tratamento da IRC é realizado através da terapia renal substitutiva, por meio da diálise peritoneal, hemodiálise e transplante renal.(6) Mesmo com os recentes avanços tecnológicos e maior conhecimento destas terapias, Manfredi(7) refere que os pacientes ainda podem apresentar complicações durante e após o tratamento.

Durante a sessão de hemodiálise, o paciente pode apresentar intercorrências clínicas que segundo Castro(8) ocorrem devido a alterações no equilíbrio hidroeletrolítico, como por exemplo, a hipernatremia que pode fazer com que o indivíduo apresente cefaléia, náuseas, vômitos, sede intensa, convulsões e eventualmente óbito. Já a hiponatremia pode causar arritmia cardíaca, hipotensão, cansaço, fraqueza muscular e, eventualmente, paralisia e cãibras musculares.

Devido às intercorrências e complicações os pacientes em tratamento dialítico podem apresentar uma taxa de mortalidade 3,5 vezes maior do que na população geral (20% em 1 ano e 70% em 5 anos), levando em conta fatores como idade, diabetes e doenças cardiovasculares, concomitantes no início da diálise.(9)

Segundo Barros(10) cabe ao enfermeiro que trabalha em hemodiálise realizar as funções administrativas, assistenciais, educativas e de pesquisa. Dentre as funções assistenciais destaca-se: orientar pacientes renais e seus familiares quanto ao autocuidado e tratamento dialítico; assistir o paciente em tratamento dialítico mediante elaboração do processo de enfermagem; prevenir, identificar e tratar complicações intradialíticas em conjunto com a equipe médica; estabelecer normas e rotinas para prevenção e controle de infecções hospitalares na unidade de diálise, entre outras inúmeras funções.

Um paciente nefropata necessita de muitos cuidados e da observação constante de sinais e sintomas frente a possíveis complicações(11), portanto a equipe de enfermagem é de fundamental importância durante a sessão de hemodiálise, pois evita muitas complicações ao fazer o diagnóstico precoce das intercorrências.(12)

Sendo a IRC uma enfermidade terminal, mas que apresenta somente tratamentos paliativos, o profissional de enfermagem, com a identificação dos diagnósticos de enfermagem, pode aumentar a qualidade de vida do paciente, conseguindo que os cuidados sejam dirigidos para um objetivo comum.(13)

Diante da complexidade da terapia renal substitutiva, das inúmeras manifestações clínicas, de suas complicações e da competência técnica científica do enfermeiro para atuar no serviço, elaborou-se este estudo com o objetivo de levantar as principais complicações ocasionadas pela terapia renal substitutiva-hemodiálise, que servirão de subsídios para elaboração do plano assistencial de enfermagem.

 

METODOLOGIA

Este trabalho tratou de uma pesquisa documental na qual os dados foram levantados a partir de documentos cientificamente autênticos. O estudo foi do tipo transversal, que de acordo com Roquayrol e Almeida(14) produzem informações da situação de saúde de um grupo ou comunidade, num mesmo momento histórico.

Segundo Carvalho(15) além das fontes primárias que são os documentos propriamente ditos, utilizam-se as fontes chamadas secundárias, como os dados estatísticos elaborados por instituições especializadas e considerados confiáveis para a elaboração da pesquisa.

Neste estudo foi utilizado o método descritivo, que segundo Andrade(16) trata-se de um tipo de pesquisa em que os fatos são observados, analisados, classificados e pesquisados sem que o pesquisador interfira neles.

Os dados também foram obtidos por meio de um formulário com 5 perguntas estruturadas e 9 não estruturadas, relacionadas à idade, sexo, ocupação, peso, doença de base, complicações, cuidados de enfermagem, número de sessões semanais e doenças associadas.

Este trabalho foi desenvolvido no período de março a outubro de 2004, tendo como cenário um centro de hemodiálise da cidade de Alfenas/MG, após ser aceito pela Comissão de Ética da Instituição envolvida e da Efoa/Ceufe, de acordo com a Resolução 196/96 que trata de Pesquisa em Seres Humanos.(17)

A população investigada constitui-se de 125 prontuários de portadores de IRC que se submetiam à hemodiálise. Os dados foram coletados pelo período de 3 meses de tratamento, sendo após tabulados e analisados estatisticamente pelo Teste de X (qui-quadrado), sendo considerado valores significativos para p<0,05.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Foram analisados 125 prontuários, sendo 54,4%(68) do gênero masculino e 45,6%(57) do gênero feminino. Segundo Rouquayrol e Almeida(14), o envelhecimento populacional que vem ocorrendo de modo acelerado, aumenta a probabilidade da expressão de doenças crônicas, fato este observado no presente estudo onde verificou-se que: 49,12%(28) mulheres e 39,7% (27) homens estão na faixa etária acima dos 50 anos, em estudo realizado por Sabater(18) houve um predomínio de homens 98 (78%) e 28 (22%) mulheres, em idade avançada.

Em relação à causa básica da IRC (TAB. 1), a principal para ambos os gêneros é a glomerulonefrite crônica, seguido pela nefropatia diabética no gênero feminino e nefroesclerose hipertensiva no masculino. Comparando-se os grupos por gêneros, as proporções podem ser consideradas estatisticamente significativas (p<0,05) pelo teste de qui-quadrado para a doença de base nefroesclerose hipertensiva (26,47% para o sexo masculino e 15,79% para o sexo feminino) e para doenças de base nefropatia diabética (17,64% para o sexo masculino e 31,58% para o sexo feminino). Relacionando-se o grupo masculino com as doenças de base, as proporções podem ser consideradas significativas (p<0,05) pelo teste de qui-quadrado para a doença de base glomerulonefrite crônica (32,35%) e nefroesclerose hipertensiva (26,47%); e no grupo feminino, glomerulonefrite crônica (38,60%) e nefropatia diabética (31,58%).

 

 

Segundo Martins e Riella(19) a média de ganho de peso interdialítico não deve ser maior que 2 Kg, pois isto aumenta o risco de complicações durante a hemodiálise. Apesar disso, observou-se uma média de 3,42kg no gênero feminino e 3,6kg no gênero masculino de ganho de peso interdialítico, mesmo sendo orientados pela equipe de enfermagem, não se verificou o autocontrole dos clientes referentes à dieta oral prescrita, sendo esta um grande desafio.

Em relação às complicações intradialíticas (considerando sete ou mais vezes durante as 36 sessões), as mais freqüentes foram: hipertensão arterial com 18,4%, a hipotensão correspondendo a 8% , a cefaléia com 7,2% e as dores 2,4%. Sendo a hipertensão significativa para p<0,05 pelo teste do qui-quadrado.

As complicações intradialíticas mais comuns nas mulheres são as dores com 73,68%, seguidas da hipotensão arterial com 57,89%, e nos homens são a hipertensão arterial com 48,53%, seguida pela hipotensão arterial 32,35% (TAB. 2).

 

 

Independente da causa básica 91,23% (52) mulheres e 89,7% (61) homens apresentam hipertensão arterial severa (HAS), como patologia associada, e destes 80% já a apresentavam antes do inicio do tratamento dialítico, independente da etiologia da IRC. Desta população, de 40% a 50% permaneciam hipertensos mesmo após o inicio da terapia renal substitutiva, sendo que quando aconteciam durante a sessão era administrado nifedipina ou captopril, para o seu controle.

Segundo Antoniazzi(20) a cefaléia é sintoma freqüente em pacientes com IRC em regime de hemodiálise. Os fatores mais freqüentemente relacionados pelo paciente ou pela equipe médica foram a hipertensão arterial (38%), seguido por nenhum fator identificado (26,0%), hipotensão arterial (12%) e alterações no peso corporal (6%).

Para Castro(8) as cãibras são complicações freqüentes da hemodiálise, predominando nos membros inferiores e freqüentemente precedidas de hipotensão arterial. De acordo com Daugirdas(21) os três fatores predisponentes mais importantes na etiologia das cãibras são; a hipotensão, o paciente abaixo do peso seco e o uso de solução dialítica pobre em sódio.

Náuseas e vômitos ocorriam em até 10% dos tratamentos de hemodiálise. Os episódios podem estar relacionados à hipotensão, mas também podem ser uma manifestação precoce de síndrome do desequilíbrio.(12)

A dor é uma experiência subjetiva e altamente individualizada e sua interpretação e significado envolvem vários fatores psicossociais e culturais. De acordo com Barros(10) os dialisadores podem provocar dor intensa (síndrome do primeiro uso). Já a dor torácica pode estar associada à ocorrência de angina, que é comum durante a diálise.(21)

Diante das complicações mais freqüentes e mais comuns reveladas neste estudo, verificou-se através dos prontuários analisados que as intervenções realizadas priorizavam a monitorização dos sinais vitais, a administração de medicações dentre esses analgésicos, anti-hipertensivos, oxigenoterapia e orientação quanto ao peso. No entanto, apesar da equipe de enfermagem oferecer cuidados quanto à mudança de posição, avaliação do nível de consciência, monitoração da sensibilidade dolorosa e aporte emocional, vivenciados durante a coleta de dados, não se encontrou registros da assistência oferecida.

A Deliberação 135/00 (2004) do Conselho Federal de Enfermagem (COFEn) considera a documentação de enfermagem fundamentada nas fases do processo de sistematização de assistência de enfermagem, com a finalidade clínica e administrativa, sendo o prontuário respaldo legal do profissional, mediante o registro documentado das atividades de enfermagem prestadas ao cliente.

A assistência prestada ao cliente e sistematizada pelo processo de enfermagem deve ser documentada para garantir a legalidade e legitimidade do trabalho da enfermagem. Nesta perspectiva, a prática de registro de enfermagem garante a individualidade do cuidado e/ou a qualidade da assistência. Para Silva e Dias(22) o registro inadequado ou subentendido colocam em dúvida as ações de enfermagem executadas.

 

CONCLUSÃO

O maior ganho de peso interdialítico pode ter sido o responsável pelo maior número de complicações intradialíticas, sendo a hipertensão e hipotensão as mais freqüentes.

Pode se observar em relação à assistência de enfermagem prestada aos pacientes a priorização do monitoramento dos sinais vitais, administração de medicações, dentre essas, analgésicos, anti-hipertensivos, oxigenoterapia e orientação quanto ao peso. Contudo, observou-se durante a coleta de dados que assistência como: mudança de posição, aporte emocional, avaliação do nível de consciência e sensibilidade dolorosa são freqüentemente prestados, porém, não são registrados nos prontuários.

Em face dos resultados, sugere-se:

• Registro da assistência de enfermagem para fins de documentação legal;

• Sistematização da assistência de enfermagem (Apêndice I).

 

REFERÊNCIAS

1) Martins LM, França APD, Kimura M. Qualidade de vida das pessoas com doença crônica. Rev Latino-Am Enf 1996;3(4):5-18.

2) Marcondes E. Pediatria básica. São Paulo: Sarvier; 1999. 1790p.

3) Riella MC. Princípio de nefrologia e distúrbios hidroeletrolíticos. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2003. 1033p.

4) Soares CMB. Curso clínico da insuficiência renal crônica em crianças e adolescentes admitidos no programa interdisciplinar do HC-UFMG. J Bras Nefrol 2003;25(3):117-25.

5) Romão Junior JE. Alterações de cálcio e fósforo séricos e hiperparatireoidismo na insuficiência renal crônica incidente. J Bras Nefrol 2004;26(1):6-11.

6) Martins MRI, Cesarino CB. Atualização sobre programas de educação e reabilitação para pacientes renais crônicos submetidos à hemodiálise. J Bras Nefrol 2004;26(1):45-50.

7) Manfredi RS. Hemodiálise: vinculo entre paciente e equipe de enfermagem. Nursing 2001;40(4):6.

8) Castro MCM. Atualização em diálise: complicações agudas em hemodiálise. J Bras Nefrol 2001;23(2):108-13.

9) Pinheiro ME, Alves CMP. Hipertensão arterial na diálise e no transplante renal. J Bras Nefrol 2003;25(3):142-8.

10) Barros E. Nefrologia: rotinas, diagnóstico e tratamento. Porto Alegre: Artmed; 1999. 627p.

11) Moreno MAC, Herrero MSDB. Servicio enfermero ofertado en una unidad de hospitalización de Nefrología. Rev Soc Esp Enferm Nefrol 2004;17(3):21-5.

12) Fermi MRV. Manual de diálise para enfermagem. São Paulo: Medsi; 2003. 139p.

13) Galache BA. Diagnósticos de enfermería en pacientes con insuficiencia renal crónica en hemodiálisis. Rev Soc Esp Enferm Nefrol 2004;17(3):158-63.

14) Rouquayrol MZ, Almeida Filho N. Epidemiologia e saúde. Rio de Janeiro: Medsi; 1999. 538p.

15) Carvalho MMC. Metodologia científica fundamentos e técnicas: construindo o saber. Campinas: Papirus; 1994. 173p.

16) Andrade MM. Introdução à metodologia científica. São Paulo: Atlas; 2001. 173p.

17) Brasil. Ministério da Saúde. Resolução 196, de 10 de outubro de 1996. Brasília; 1996.

18) Sabater MDA. Aplicación de una técnica cualitativa para la elaboración de un plan de atención al paciente pluripatológico en hemodiálisis. Rev Soc Esp Enferm Nefrol 2004;17(4):67-71.

19) Martins C, Riella MC. Nutrição e o rim. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2001. p.115-129.

20) Antoniazzi AL. Cefaléia relacionada à hemodiálise: análise dos possíveis fatores desencadeantes e do tratamento empregado. Arq Neuro-Psiquiatr 2002;60(3):27-35.

21) Daugirdas JT, Blake M, Ing TS. Manual de diálise. Rio de Janeiro: Medsi; 2003. 661p.

22) Silva MJP, Dias DC. O registro da prática de enfermagem: da realidade ao cuidado rotineiro à utopia do cuidado individualizado. Nursing 1999;11(2):316-21.

 

 

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