REME - Revista Mineira de Enfermagem

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ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

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Enfermagem UFMG

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Volume: 10.2

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Pesquisa

O programa de educação tutorial - pet - sob a ótica dos iniciantes

Tutorial education program - pet - from the point of view of beginner scholarship holders

Renata Fiúza Damasceno1; Ludimila Brunório1; Maria Betânia Tinti de Andrade2

1Acadêmicas de Enfermagem do Curso de Enfermagem - UNIFAL-MG. Bolsistas do Programa de Educação Tutorial -PET. E-mail: renatalontra@bol.com.br
2Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Professora Adjunto do Curso de Enfermagem -UNIFAL-MG

Endereço para correspondência

Rua Tiradentes, nº 1811, Centro
Alfenas -MG. CEP. 37130-000
Tel: (35)32927880 / (38)99584698

Recebido em: 21/09/2005
Aprovado em: 18/01/2006

Resumo

Trata-se de um estudo qualitativo, na vertente fenomenológica, que teve como objetivo compreender o significado de estar no Programa de Educação Tutorial - PET na perspectiva de bolsistas iniciantes. Participaram deste estudo oito sujeitos dos cursos de Enfermagem e Odontologia da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG), que ingressaram no PET no ano de 2004. Revelou-se que estar no PET significa ter acesso a uma ampla formação acadêmica; realização de um objetivo; expectativas para formação profissional futura e importância da bolsa do PET para a realização de atividades extracurriculares.

Palavras-chave: Ensino Superior, Apoio a Pesquisa, Responsabilidade Social, Educação em Enfermagem, Pesquisa em Enfermagem

 

1. INTRODUÇÃO

Para o profissional do Novo Milênio será mais importante sua capacidade enquanto ser humano, ou seja, criatividade, versatilidade, flexibilidade, capacidade de relacionar-se, comunicar-se, resolver problemas, do que apenas a formação profissional oferecida pelas Universidades, pois neste mercado competitivo a regra número um será estar no topo do ranking da excelência, onde será mais importante "saber-ser" do que "saber-fazer". (1)

Com o objetivo de formar profissionais com esse perfil, o Programa Especial de Treinamento - PET, baseado nas experiências da Faculdade de Ciências Econômicas (FACE) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e nos Honors Programs das universidades americanas, foi implantado no Brasil em 1979 pelo professor Cláudio de Moura Castro, ex-diretor geral da Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES). É um programa a ser desenvolvido juntamente com o curso de graduação; visa buscar a excelência profissional de seus bolsistas, valorizando ao máximo suas atividades acadêmicas e intelectuais, proporcionando-lhes assim, uma formação geral mais sólida.(2)

Dentre os programas de melhoria da graduação implementados pelo Ministério da Educação (MEC) através da CAPES desde a década de 1970, o Programa de Educação Tutorial - PET, inicialmente denominado Programa Especial de Treinamento, é o único que continua ativo, completando 25 anos em 2004.(3)

O PET constitui-se, portanto, em uma modalidade de investimento acadêmico em cursos de graduação que têm sérios compromissos epistemológicos, pedagógicos, éticos e sociais. Com uma concepção baseada nos moldes de grupos tutoriais de aprendizagem e orientado pelo objetivo de formar globalmente o aluno.(4)

Na Escola de Farmácia e Odontologia de Alfenas/Centro Universitário Federal (Efoa/Ceufe) transformada recentemente em Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG), o programa iniciou-se em 1991 com a fundação do grupo PET- Farmácia, logo após, formaram-se os grupos da Enfermagem e Odontologia.

Hoje, a UNIFAL-MG conta com três grupos PET, sendo dez bolsistas do curso de Enfermagem, nove do curso de Farmácia e nove do curso de Odontologia.

Como integrantes do PET desde 2003 e acadêmicas do curso de Enfermagem, nos propusemos a realizar este estudo que tem por objetivo compreender o significado de estar no PET na perspectiva de bolsistas iniciantes, movidas pelo interesse em conhecer os motivos que levariam os acadêmicos a ingressarem no PET e suas percepções ao estarem inseridos neste programa.

 

2. REVISÃO DE LITERATURA

O PET foi implantado em 1979 como Programa Especial de Treinamento em diversas universidades brasileiras, com o desafio especial de fomentar a qualificação do aluno de graduação e de provocar significativo impacto sobre o curso ao qual o grupo está vinculado.

Nesses anos de existência, é possível perceber seu efeito, já que a dedicação integral ao curso e ao programa tem possibilitado aos alunos e professores, diretamente envolvidos, uma ampla vivência acadêmica, com repercussão altamente positiva na comunidade local, ao provocar um aumento significativo no número de atividades extracurriculares e o envolvimento dinâmico e interdisciplinar do corpo docente e discente da Unidade.

Através dos trabalhos de extensão e de formação continuada, as atividades dos atuais 314 grupos PET existentes beneficiam diretamente 3.600 alunos e mais de 300 mil pessoas com projetos ligados à agricultura, saúde, alfabetização de adultos, comunidades prisionais, comunidades indígenas, entre outros tantos projetos de responsabilidade social, sempre sob dedicação sistemática de tutores que orientam estas atividades de maneira a proporcionar ao aluno uma formação acadêmica ampla, valorizando o trabalho em grupo e a interação sistemática dos bolsistas com o curso e com a sociedade.(5)

O PET consiste de grupos formados por até doze alunos, orientados por um professor tutor que deve encorajá-los criativamente a entender, construir e reconstruir os conhecimentos que adquirem ou deparam durante o curso. É destinado a alunos que demonstrem potencial interesse e habilidades destacadas em cursos de graduação das Instituições de Ensino Superior. O apoio é concedido ao curso por um período indeterminado e ao bolsista até a conclusão da sua graduação. Esses alunos são selecionados e ingressam no programa a partir do segundo semestre do curso. Até o final da graduação, estão comprometidos, no mínimo, com vinte horas semanais de dedicação ao programa. Não podem ter reprovações curriculares. Devem estudar uma segunda língua, ter capacidade de leitura, pesquisa, iniciativa, crítica, trabalho em equipe, expressão oral e argumentação.

Além das atividades beneficiárias ao crescimento do grupo, o programa tem claros efeitos multiplicadores. Os bolsistas normalmente são modelos exemplares e catalisadores de interesse de colegas e as atividades promovidas pelo PET beneficiam os alunos da graduação, a comunidade e a Instituição. Os petianos promovem cursos, debates, palestras e eventos para a graduação e comunidade, desenvolvem projetos de pesquisa e extensão, estudo em grupo e troca de experiências.(6)

Esse programa surgiu como uma tentativa de diminuir alguns aspectos negativos do ensino superior no país, predominantemente baseado na memorização de informações pelos alunos, condicionados a uma aprendizagem tecnicista e pouco crítica, já que ele dá ênfase na atuação coletiva e interpessoal de aprendizagem, procurando fortalecer o compromisso social do aluno em sua futura área de atuação.(7)

Assim, iniciou-se em um contexto em que as universidades brasileiras apresentavam, além de restrições humanas e materiais, maior demanda de candidatos, acesso de estudantes com embasamento insuficiente e um ensino de qualidade questionável. Com isso foi observada a necessidade de criar mecanismos que contribuíssem com o desenvolvimento das potencialidades dos estudantes que apresentassem um rendimento acadêmico destacado; pretendia-se criar uma elite intelectual e, conseqüentemente, a formação de profissionais de alto nível para todos os segmentos do mercado de trabalho.(8)

Foram fundamentais para o surgimento do PET, as reformas educacionais no pós-64, com destaque para a "modernização" do ensino superior como parte do avanço do sistema educacional(9), a criação de cursos de pós-graduação e também o aparecimento de programas que auxiliassem os alunos no desenvolvimento de suas capacidades intelectuais na década de 70.(8)

Segundo a coordenadora do PET na CAPES, no período de 1984-1990 e 1993-1994, Maria Auxiliadora Dessen, a implantação do PET estava relacionada a um modelo de proposta pedagógica inovadora para a graduação. Observa-se que o programa contempla as propostas da Política Nacional de Graduação do Fórum de Pró-Reitores de Graduação (ForGRAD), principalmente no que se refere à indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.(3)

Desde o seu surgimento até 1994, o número de grupos PET passou de três para 255, comprovando o crescimento do programa. Apesar do seu desenvolvimento qualitativo ao longo dos anos, em meados de 1984 o PET passou por dificuldades, sendo proposto sua desativação pela Direção Geral da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES. Contudo, a Coordenadoria de Treinamento, responsável pelo seu gerenciamento na época, propôs uma avaliação sistemática do programa, justificando assim, a importância de sua manutenção para o ensino de graduação e pós-graduação, bem como a necessidade de sua ampliação em nível nacional. Neste cenário, surgiu a "Proposta de Reformulação do Programa", com a decisão de mantê-lo e investir em sua ampliação. Em 1986, o PET passou a ser gerenciado pela Coordenadoria de Bolsas no País - CBP, que exerceu o papel de efetuar a conscientização dos grupos em funcionamento e das Pró-Reitorias de pós-graduação ou órgãos equivalentes sobre a real necessidade das Instituições de Ensino Superior (IES) assumirem a responsabilidade pelo gerenciamento de seus grupos. A institucionalização do PET na Instituição de Ensino Superior e na CAPES foi oficializada em 1987, com a divulgação do documento de "Orientações Básicas do Programa - 1987", ocorrendo a primeira expansão formal do número de grupos. Com o passar dos anos, apesar de ter enfrentado outras dificuldades, o PET cresceu em todo país e hoje procura, cada vez mais, ampliar seus horizontes.(8)

A partir do ano 2000, com a transferência da responsabilidade do financiamento do programa para a SESu - Secretaria de Ensino Superior, ligada e controlada pelo Ministério da Educação e Cultura, o PET viu-se ameaçado de perder a qualidade e de estreitar seu alcance, colocando em risco a continuidade dos projetos que vinham sendo desenvolvidos ao longo desses 22 anos de existência. Neste momento, diversas atividades foram planejadas, audiências e encontros nacionais e regionais se transformaram em fóruns de luta em defesa dos grupos PET; uma demonstração clara de resistência ao sucateamento do ensino público, na defesa da qualidade da educação no país e também da utilização do dinheiro público em projetos de reconhecido valor social. Com isso, uma Comissão Nacional de Defesa do PET foi constituída para mediar os interesses acadêmicos dos diversos grupos junto às instâncias de poder em Brasília, tendo utilizado a Internet como instrumento facilitador de mobilização, de informação e de troca entre os grupos mais distantes, através da Lista PET-br. Dessa forma, mesmo com dificuldades, os grupos PET conseguiram manter suas atividades, um exemplo claro de compromisso social, serenidade acadêmica e maturação política.(5)

O relatório proveniente do estudo realizado por uma comissão de consultores convocada pela CAPES em 1998, conclui que o PET melhora o desempenho global do curso e colabora na introdução de melhorias da grade curricular. O parecer final considera o programa uma das iniciativas mais consistentes e produtivas, no sentido de estimular os estudantes e melhorar a qualidade de ensino de graduação no país e as relações com a comunidade.(3)

Brasil(4) reconhece a importância do PET e defende sua existência. Ele afirma que esse tipo de programa vinculado ao curso de graduação proporciona aos bolsistas e demais estudantes a possibilidade de ampliar a gama de experiências em sua formação acadêmica. Segundo ele, o PET tem por objetivo complementar a perspectiva convencional de educação escolar baseada em um conjunto qualitativamente limitado de constituintes curriculares, assumindo, assim, a responsabilidade de contribuir para uma melhor qualificação do aluno como pessoa humana e como membro da sociedade.

 

3. TRAJETÓRIA METODOLÓGICA

Esta pesquisa baseia-se na abordagem qualitativa segundo a vertente fenomenológica, visto que o objetivo da pesquisa é compreender a essência de uma experiência vivida pelo ser humano.

Para se chegar à estrutura e à compreensão do fenômeno foram percorridos três momentos fundamentais na trajetória proposta por Martins e Bicudo (10): descrição, redução e compreensão fenomenológica.

Na descrição, fomos ao encontro dos depoimentos dos sujeitos, do seu falar espontâneo, sem interpretações ou reflexões prévias do que estes estão vivendo no seu "mundo-vida". Os depoimentos partiram de uma questão aberta, geral, capaz de nortear sem, contudo, restringir a exposição dos sujeitos sobre o tema investigado. Na redução, selecionamos nos discursos o que foi considerado essencial e que constituiu momentos da experiência do sujeito. Já na compreensão fenomenológica, houve o distanciamento para a reflexão e análise das vivências.

Foram sujeitos da pesquisa, oito bolsistas dos grupos PET dos cursos de Enfermagem e Odontologia da UNIFAL-MG ingressos em 2004.

Os dados foram coletados por meio de uma entrevista aberta, gravada, que teve como direcionamento uma única pergunta: "O que significa para você estar no Programa de Educação Tutorial - PET?"

Antes de responder a essa pergunta, os bolsistas eram informados acerca da pesquisa, em linhas gerais, e era-lhes solicitada sua concordância em participar do trabalho. Caso aceitassem, era fornecido a eles o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para que o assinassem, respeitando-se assim a Resolução 196/96, que trata de pesquisas envolvendo seres humanos.(11)

As entrevistas foram realizadas no Campus da Universidade Federal de Alfenas, situado na cidade de Alfenas-MG, e a repetição dos relatos, mostrando sinais de desocultamento do fenômeno, foi suficiente para encerrar a coleta de dados na oitava entrevista.

 

4. ANÁLISE COMPREENSIVA

De acordo com as recomendações de Graças(12), foram realizadas leituras sucessivas dos discursos até inteirar-se do seu contexto, mantendo o olhar sensível para aquilo que contém significações existenciais do fenômeno que procuramos compreender. Aos poucos, foram identificadas partes que, na relação com o todo, trazem sentido ao seu mundo vida; surgindo então, de forma espontânea, as unidades de significado, que revelam o pensar da pessoa pesquisada sobre a experiência vivida. Destacadas as unidades de significado, as convergimos conforme semelhança, o que possibilitou a construção de quatro categorias de análise: Formação acadêmica ampla, Realizações/Dificuldades, Formação profissional futura, Importância da bolsa.

4.1. Formação acadêmica ampla

Fica perceptível que para os petianos uma das oportunidades mais importantes que o PET os oferece é a formação acadêmica ampla.

Petrilli-Filho e Martins(2) concordam ao afirmarem que o PET consiste em um programa abrangente, pois ao longo de sua permanência no grupo os bolsistas se envolvem em atividades de ensino, pesquisa e extensão, o que permite uma formação acadêmica global.

D1: "Estar no PET, eu acho muito importante, porque proporciona uma formação mais ampla..."

D4: "... eu tô sentido que vou crescer muito com o PET..."

O "crescer em todos os sentidos" é marca registrada desse programa, pois além do incentivo à pesquisa, ele estimula o trabalho em equipe, a organização de tarefas, a inteligência emocional e o envolvimento sócio-cultural.

A dedicação integral ao curso e ao PET tem possibilitado aos alunos e professores diretamente envolvidos uma ampla vivência acadêmica, que valoriza o trabalho em grupo e a interação sistemática dos bolsistas com o curso e com a sociedade.(5)

D4: "... ele ensina a gente a organizar nossa vida e a crescer em todos os sentidos..."

D5: "Ele me dá oportunidade de pesquisar, de aumentar meu conhecimento e de me ajudar também a estar aprendendo a me relacionar melhor, a trabalhar em grupo, a falar...

Um dos objetivos do PET é oferecer uma formação acadêmica de excelente nível, visando a formação de um profissional crítico e atuante, através da facilitação do domínio dos processos e métodos gerais e específicos da investigação, análise e atuação da área de conhecimento.(2)

D8: "... a forma como são desenvolvidas as atividades de grupo proporciona (...) aos bolsistas, no caso, estar desenvolvendo maior senso crítico..."

Além de estimular seus participantes a atuarem como pesquisadores, o PET estimula o envolvimento social, político e cultural, o que o difere de um Programa de Iniciação Científica propriamente dito.

D1: "... também trabalha com a parte cultural na faculdade".

D2: "Além disso, também tem o envolvimento social, não só científico..."

D8: "... faz você ficar com uma percepção maior sobre questões sociais..."

A maioria dos alunos procura o PET por acreditar que se trata de um Programa de Iniciação Científica, com uma bolsa destinada ao aluno para desenvolver projetos e / ou investigações, mas no decorrer das atividades, ele se depara com um programa que visa além de desenvolver o espírito científico, investir em um aluno "com potencial", estimulando sua criatividade, conhecimentos gerais e específicos e relacionamento grupal.(13)

D8: "... um exemplo atual que nós temos tratado aqui seria a Reforma Universitária..."

Os bolsistas reconhecem a preocupação deste programa em dar ênfase na atuação coletiva e interpessoal de aprendizagem, o que fortalece o compromisso social e político do acadêmico.

4.2. Realização / Dificuldades

Os bolsistas consideram o ingresso no PET uma realização, o alcance de um objetivo maior enquanto acadêmicos. Cassiane et al.(13) reconhecem as aspirações dos acadêmicos que buscam ingressarem nesse programa, pois segundo eles o PET é uma das únicas programações que financia alunos com potencial e propicia condições para a realização de atividades extracurriculares que favorecem a formação acadêmica, a integração no mercado profissional e o desenvolvimento de estudos em programas de pós-graduação.

D3: "... é a realização de um sonho (...) Eu nunca pensei que eu tivesse chance de estudar na Efoa, quanto mais de entrar no PET".

D4: "... estar no PET é uma realização".

Compreendemos que o principal fator motivador que leva o acadêmico a participar do Programa de Educação Tutorial é o acesso a uma formação acadêmica ampla e diferenciada, normalmente não oferecida pela universidade, apesar de ser proposta pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9.394/96) que a Educação Superior deva estimular a criação cultural, o desenvolvimento do espírito científico e do pensamento reflexivo, além de formar nas diferentes áreas do conhecimento, profissionais aptos para a inserção em diferentes setores profissionais e participantes no desenvolvimento da sociedade brasileira.(14)

Dessa forma, embora as escolas pretendam preparar um profissional que seja líder, criativo e engajado, não oferecem outras oportunidades de aprendizagem ao aluno.(15)

Mas, apesar da satisfação dos bolsistas ao ingressam no PET, eles se referem às dificuldades em se adequarem às exigências do programa.

D3: "É tudo que eu queria, só que eu tô achando muito difícil agora".

D4: "No começo, eu achei que fosse difícil, e é difícil..."

Espera-se que o bolsista do PET mantenha bom rendimento no curso de graduação, apresente excelente rendimento acadêmico avaliado pelo professor-tutor, participe ativamente das atividades específicas do grupo, dedique-se em tempo integral às atividades do curso e do programa e não receba outro tipo de bolsa. Freqüentemente, os alunos ingressantes são mais passivos no início, esperando do tutor iniciativas, soluções de conflitos e participação nos trabalhos. Entretanto, tal posição tende a modificar-se quando a relação grupal é estabelecida e há confiança entre seus membros.(13)

As dificuldades a que os petianos iniciantes atribuem se referem principalmente ao tempo que eles precisam dispor para realizar as atividades propostas pelo programa e a necessidade de conciliá-las com a graduação, além do limitado conhecimento sobre pesquisa e o medo de se expor ao público em atividades como a apresentação de seminários.

D6: "Eu tô achando muito apertado ter que estudar para as provas, fazer trabalhos e ainda desenvolver as atividades do PET. O PET significa trabalho. Trabalha bastante!".

D3: "... se não fosse a vergonha de apresentar seminários..."

D8: "... temos também que desenvolver pesquisa, e para isso precisamos estudar, já que entramos no PET não sabendo quase nada sobre pesquisa".

4.3. Formação profissional futura

Para os bolsistas, o Programa de Educação Tutorial prepara-os para se diferenciarem no mercado de trabalho e abre oportunidade para a pós-graduação.

D1: "... é bastante válido pro acadêmico (...) para formação profissional".

D2: "... além disso, vem o acréscimo pro seu currículo..."

D5: "e me preparar melhor mesmo pra minha vida profissional..."

D7: "... oportunidade de crescer cada vez mais na profissão..."

Petrilli-Filho e Martins(2) entendem que o PET é de suma importância na formação profissional do novo milênio, visto que os objetivos desse programa buscam oferecer uma formação acadêmica de excelente nível aos alunos de graduação, além de incentivar o ingresso na pós-graduação, estimular a melhoria da qualidade de ensino de graduação através do desenvolvimento de novas práticas e experiências pedagógicas, multiplicar as atividades desenvolvidas pelos bolsistas e aumentar a interação dos alunos do programa com o corpo docente e discente da instituição.

D2: "Se você tem a pretensão de fazer uma pós-graduação futuramente, é lógico que isso vai pesar muito mais do que a gente imagina".

Os bolsistas participam de atividades características de programas de pós-graduação, tendo eles a oportunidade de se engajarem no universo da pesquisa, tornando-se profissionais diferenciados.

D8: "... isso também vai estar ajudando para que eu possa, quando tiver entrando no mercado de trabalho, quando me formar, eu poder ser um profissional mais qualificado".

O PET passou por várias fases desde sua criação, mantendo o objetivo de formar profissionais de alto nível para todos os segmentos do mercado de trabalho, com destaque para a carreira universitária e a pós-graduação.(13)

Uma das metas deste programa é promover a integração da formação acadêmica com a futura atividade profissional, especialmente no caso da carreira universitária, através da interação entre as atividades de ensino, pesquisa e extensão.(2)

Portanto, verifica-se que o PET é um investimento direcionado para a formação profissional, cuja meta é reverter esse investimento em benefícios para a profissão e conseqüentemente para a sociedade.

4.4. Importância da bolsa

Os petianos discorrem sobre a importância da bolsa para a realização de atividades extracurriculares que favorecem uma formação acadêmica ampla.

D7: "... além de inúmeras vantagens como a própria bolsa..."

D8: "E além do mais, receber a bolsa vai me ajudar a me qualificar melhor..."

O financiamento externo é necessário, já que a maioria das instituições não dispõe de recursos suficientes para seus programas de pesquisa, dependendo, portanto, de conselhos, fundações ou fundos para pesquisa, bancos ou outros organismos doadores de bolsas.(16)

D8: "... então o PET também proporciona isso pra gente, estar nos qualificando melhor, poder estar fazendo cursos através da bolsa que a gente recebe..."

De acordo com as falas dos sujeitos, compreendemos que a bolsa fornecida mensalmente pelo programa é um estímulo financeiro e uma fonte de incentivo aos integrantes do PET, permitindo aos mesmos a participação em atividades extracurriculares e a realização de cursos que são exigência do próprio programa, como os de língua estrangeira e informática.

 

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A existência e permanência de programas de investimento acadêmico como o Programa de Educação Tutorial - PET é de suma importância tanto para os bolsistas, que tem a oportunidade de obter uma ampla vivência acadêmica e um futuro profissional promissor, quanto para os alunos da graduação, que se beneficiam das atividades desenvolvidas pelo programa. A sociedade também se beneficia quando se dispõe de profissionais qualificados, atuantes e comprometidos socialmente.

É possível perceber que, para os bolsistas, o ingresso no PET lhes dá segurança quanto a sua formação acadêmica e ao futuro profissional, já que esse programa os possibilita desenvolver ações de ensino, pesquisa e extensão, facilitando a realização de atividades extracurriculares e cursos utilizando a bolsa, o que complementa sua grade de conhecimento. O PET também estimula o envolvimento social, político e cultural do bolsista, além de estimular a criatividade, o senso crítico e o trabalho em equipe.

Apesar das dificuldades em se adequarem às exigências do programa, os bolsistas iniciantes são persistentes e demonstram satisfação em participar do PET, o que permite a esse programa atingir seu objetivo: formar cidadãos com ampla visão de mundo e com responsabilidade social.

 

6. REFERÊNCIAS

1. Sordi MRL, Bargnato MHS. Subsídios para uma formação profissional crítico-reflexiva na área da saúde desafio da virada de século. Rev Latino-Am Enf 1998;2(6):83-8.

2. Petrilli Filho JF, Martins DC. O programa especial de treinamento na formação do profissional de enfermagem do novo milênio: relato de experiência. Rev Latino-Am Enf 2001;4(9):91-3.

3. Martin MGMB. O Programa de Educação Tutorial - PET: formação ampla na graduação [dissertação]. Curitiba, PR: Universidade Federal de Paraná; 2005.

4. Brasil. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Superior. Manual de orientações básicas - PET. Brasília; 2002.

5. Cabral FA. Dez anos do grupo PET Ciências Sociais. Marília: UNESP; 2003.

6. PET-Brasil. Disponível em: http://www.eco.ufrj.br/pet/pet-brasil.htm. Acesso em: 02 abr. 2004.

7. O que O que é PET-JUR? Disponível em: <http://www.puc-rio.br/sobrepuc/depto/direito/pet-jur/petjur.html.> Acesso em: 03 abr. 2004.

8. Dessen MA. O Programa Especial de Treinamento - PET: evolução e perspectivas futuras. Rev Cient. UNESP 1994;30:27-49.

9. Paoli NJ. O princípio da indissociabilidade do ensino e da pesquisa: elementos para uma discussão. Cad Cedes 1988;(22):34-41.

10. Martins J, Bicudo MAV. A pesquisa qualitativa em psicologia: fundamentos e recursos básicos. São Paulo: Moraes; 1994.

11. Brasil. Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde. Resolução nº 196/96 de 10 de outubro de 1996. Diretrizes e Normas regulamentares de pesquisa envolvendo seres humanos. Brasília; 1996.

12. Graças EM. Pesquisa qualitativa e a perspectiva fenomenológica: fundamentos que norteiam sua trajetória. REME Rev Min Enf 2000;1(4):28-33.

13. Cassiane SHDB, Ricci WZ, Souza CR. A experiência do Programa Especial de Treinamento na educação de estudantes de graduação em enfermagem. Rev Latino-Am Enf 1988;1(6):63-9.

14. LDBEN. Disponível em: <http://www.pr.gov.br/cee/legis-lei.html>. Acesso em: 03 abr. 2004.

15. Angerami ELS, Gomes DLS, Mishima SM, Hayashida M, Ribeiro CMM, Reis JN. Disciplinas ministradas nos cursos de enfermagem da região sudeste - caracterização da situação existente. Ribeirão Preto: Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto-USP; 1994.

16. Rey L. Planejar e redigir trabalhos científicos. São Paulo: Edgar Blücher; 2003.

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