REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 10.2

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Artigo Reflexivo

Reflexões sobre a intermediação da linguagem na relação entre professor e aluno de graduação em enfermagem

Reflections on language intermediation in the relation between nursing teachers and undergraduate students

Andréia Jorge da Costa1; Maria da Soledade Simeão dos Santos2; Neiva Maria Picinini Santos3

1Enfermeira. Mestre em Enfermagem da Escola da EEAN/UFRJ. Membro do Núcleo de Pesquisa em Educação, Gerência e Exercício Profissional da Enfermagem do Departamento de Metodologia da Enfermagem da EEAN/UFRJ
2Enfermeira. Doutora em Enfermagem da EERP/USP. Professora Assistente do Dep. Metodologia da EEAN/UFRJ
3Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunto do Departamento de Metodologia da EEAN/UFRJ.Membro do NUPEGEPEn

Endereço para correspondência

Rua Afonso Arinos, 82c.2.
Méier. Rio de Janeiro - RJ
E-mail: andreiajcosta@msn.com

Recebido em: 16/12/2005
Aprovado em: 14/02/2006

Resumo

A universidade deve estimular a ampliação das competências comunicativas dos discentes; portanto, as referências bibliográficas, as ferramentas educacionais e a abordagem dos alunos pelos professores são importantes na formação de indivíduos para o exercício profissional, docência e pesquisa. É desafiante para docentes abrangerem conteúdos programáticos curriculares em classes numerosas e heterogêneas, constituindo-se a relação professor-aluno como auxiliar nesta organização escolar. O objetivo deste trabalho é compreender as interfaces da linguagem na relação professor-aluno de graduação em Enfermagem. As autoras afirmam ser fundamental para essa relação a reflexão dos professores acerca da linguagem, das variações lingüísticas e gêneros discursivos, os quais valorizam enunciados e conceitos e favorecem o aprendizado dos alunos.

Palavras-chave: Educação em Enfermagem, Ensino Superior, Estudantes de Enfermagem, Inter-Relação

 

INTRODUÇÃO

As autoras deste trabalho estão continuamente envolvidas em atividades didáticas e educativas com alunos de Enfermagem em sala de aula ou em campo prático e, portanto, atentas quanto a atualizações e renovações em suas práticas docentes, no sentido de buscar estratégias de ensino-aprendizagem e fortalecimento da relação professor-aluno atingindo objetivos de um processo de ensino, tornando-o também prazeroso para docentes e discentes.

Este estudo aponta considerações que geram reflexões para uma prática docente com melhoria no ambiente de ensino, no sentido de buscar constantemente estratégias de ensino-aprendizagem para utilização de linguagens, textos, explicações com a finalidade de fortalecimento do relacionamento com alunos. Dessa forma, os conteúdos programáticos curriculares devem ser abordados e explorados pelo professor em sala de aula de modo eficaz e eficiente, visando a uma facilitação no entendimento do docente quanto às suas práticas de ensino e ao aprendizado dos alunos. A comunicação e a interação entre professor e aluno neste processo de ensino-aprendizagem tornam-se fundamentais. Consideramos que uma comunicação efetiva é tão importante quanto o desenvolvimento de hábitos que promovam relações interpessoais e estímulo do pensamento crítico nos alunos por uma troca mútua de idéias.(1) No contexto da sala de aula, alunos e professores estabelecem relações sociais, trocam informações e constroem um conhecimento científico.

Entendemos que o homem a todo momento estabelece relações socais e de poder, interfere e sofre influências da sociedade e do ambiente onde se insere. Cada vez mais se tornam mundialmente crescentes as transformações sociais, científicas, tecnológicas, políticas, econômicas e culturais entre as sociedades. É por meio de estudos, reflexões, absorção de conhecimentos, conceitos e habilidades na convivência com familiares, escola, sociedade e meios de comunicação de massa que o homem consegue captar a realidade e ter contato com diversos enunciados e discursos, entendendo-os, (re)significando-os e repassando-os. O acesso a ferramentas educacionais como a leitura, a escrita e a linguagem torna-se também um requisito para situar-se na sociedade e no mercado de trabalho.

Nesse contexto, envolve-se a formação de propriedades humanas: físicas, morais, intelectuais e estáticas, entre outras, com vistas à orientação da atividade do homem na interação com o meio social num determinado espaço. O ensino engloba estratégias, ações e meios para a concretização da instrução do indivíduo.(2)

O ensino superior no Brasil, tanto o público quanto o privado, está constituído em um tripé: ensino, pesquisa e extensão, em seus três níveis - graduação, pós-graduação latu senso (especialização e aperfeiçoamento) e pós-graduação strictu senso (mestrado e doutorado). Existem três papéis atribuídos ao ensino superior: o primeiro propõe a formação de indivíduos para o desempenho de uma carreira profissional; já o segundo assume o papel de ministrar uma educação generalista; e o terceiro proporciona a produção de novos conhecimentos.(3)

A universidade, como instituição de ensino, e os professores, como mediadores no processo educativo, assumem um papel primordial na educação do homem, estando atentos à vida prática e social, voltados à formação de pessoas aptas para a inserção no mercado de trabalho.

O processo de ensino-aprendizagem é composto por quatro elementos: o professor, o aluno, o conteúdo e as variáveis (características da escola), os quais exercem maior ou menor influência no processo, de acordo com a maneira como se relacionam em um determinado contexto. A compreensão e a inter-relação desses elementos promovem a melhoria da qualidade de ensino nas instituições de nível superior, a saber (4):

Professor: dimensão do relacionamento professor-aluno; dimensão cognitiva (aspectos intelectuais e técnico-didáticos); atitude do educador; capacidade inovadora e comprometimento com o processo de ensino-aprendizagem;

Conteúdo: adequação às dimensões do aluno; significado/valor e aplicabilidade prática;

Escola: sistema de crenças dos dirigentes e entendimento da essência do processo educacional e liderança;

Aluno: capacidade (inteligência, velocidade de aprendizagem); experiência anterior (conhecimentos prévios); disposição e boa vontade; interesse; estrutura sócioeconômica e saúde.

O professor deve estabelecer metas, estratégias de ensino, selecionando e organizando conteúdos e métodos para melhor condução de sua classe proporcionando a assimilação de conhecimentos, hábitos e habilidades. O professor é um mediador do processo de ensino-aprendizagem quando adota condutas que contemplam as diretrizes curriculares e que permeiam os conteúdos, as unidades de ensino e gêneros textuais denominados objetos de ensino. Portanto, deve criar um contexto para que o aluno aprenda e participe do aprendizado, o que, longe de ser uma tarefa fácil, constitui-se em uma grande responsabilidade do professor em ensinar.

Não há uma receita ou manual de procedimentos para a prática docente, porém existem aspectos necessários para o desenvolvimento dessa prática, incluindo o contexto social da sala de aula, as estratégias pedagógicas, métodos de ensino e o contexto político institucional. Cada sujeito é único, ou seja, cada professor é um professor com suas particularidades, formação, discursos e linguagens. Assim também acontece na classe de alunos que trazem consigo, individualmente, sua bagagem sociocultural e linguagem prévia. Por isso, a interação professor e alunos também favorece o alcance dos objetivos do processo de ensino-aprendizagem. Essa interação é um aspecto fundamental da "organização didática" para o alcance dos objetivos do ensino, porém não é o único fator determinante da organização do ensino. Existem dois aspectos fundamentais nesta interação e no trabalho docente: o aspecto cognitivo (formas de comunicação dos conteúdos escolares e tipos de tarefas indicadas aos alunos) e o aspecto socioemocional (relações pessoais entre professor e aluno e observância das normas disciplinares concernentes ao trabalho docente).(2)

Refletindo sobre a importância da linguagem no ensino, é importante ressaltar a necessidade de se dar ênfase à leitura e à aprendizagem das linguagens escrita e falada desde o ingresso do ser humano na fase infantil, na escola. Esta será um espaço de interlocução em que a criança tem a oportunidade de interação com uma infinidade de textos orais e escritos com características lingüísticas particulares. O importante é a transmissão de mensagens e explicações de forma clara e objetiva e que o receptor (aluno) tenha o entendimento dessas mensagens. Koegler, citando Bakhtin, destaca que é sabido que pela interação verbal a língua é falada, penetrada e constituída. Toda enunciação "é determinada tanto pelo fato que procede de alguém, como pelo fato de que se dirige para alguém". Portanto, trabalhar com a língua é um trabalho dialógico entre locutor/autor e ouvinte/leitor em que a compreensão é um processo ativo e produtivo.(5)

Os alunos antes de ingressarem na universidade trazem consigo uma bagagem prévia cultural, lingüística, definições, padrões e experiências pessoais. Isso deve ser respeitado e levado em conta pelo corpo docente e pela instituição de ensino, principalmente quando são oferecidos novos conceitos, conhecimentos e explicações, pois, o conhecimento científico não é estático.

Em sala de aula, o professor se depara muitas vezes com dicotomias em relação aos saberes populares que os alunos trazem consigo, aprendidos previamente, e com as informações científicas que devem ser ensinadas pelo professor e compreendidas pelos educandos. Assim, em contato com novas informações, há (re)significação de conceitos, enunciados e discursos para o aprendizado do conhecimento científico.

Ainda argumentando sob a óptica de Bakhtin, em uma dada situação lingüística o falante/ouvinte produz uma estrutura comunicativa que se configurará em formas-padrão relativamente estáveis de um enunciado, pois são formas marcadas a partir de contextos sociais e históricos. Em outras palavras, relata que essas "formas" estão susceptíveis a alterações em sua estrutura, dependendo do contato de produção e dos falantes/ouvintes que os produzem atribuindo sentido a determinado discurso. (6)

Torna-se fundamental uma reflexão dos educadores e instituições de ensino acerca da importância da linguagem, a variação lingüística e gêneros de discursos presentes em sala de aula. Desta maneira, transmitem-se conceitos, explicações, promove-se o pensamento crítico e reflexivo dos alunos, articulando-os para uma vivência em sociedade, preparando-os para uma carreira profissional.

A linguagem como meio de comunicação "possui múltiplas finalidades: dá unidade a um povo, aproxima o ser humano de sua família e das amizades e o coloca em sintonia com a realidade do mundo que o cerca". É um instrumento utilizado para informações, ordens, súplicas, promessas, ajuda a pensar e sonhar, entre outras coisas, e essa multiplicidade é sintetizada em funções ou finalidades básicas da linguagem.(7) Logo, o uso da linguagem tem plena condição de favorecer o aspecto comunicativo e o diálogo de professores com seus alunos em sala de aula, para haver uma melhor interação e facilitação da oferta de explicações, novos conhecimentos e também a reconstrução de sentidos e significados.

A relação entre professor e aluno constitui um aspecto auxiliar na organização escolar, tendo em vista o alcance dos objetivos práticos do processo de ensino: transmissão, assimilação e troca de conhecimentos, hábitos e habilidades. Portanto, a relação iniciada pelo professor influi nos alunos os quais por sua vez influem no comportamento do professor e reforça determinados estilos de relação professor-aluno, sendo fundamental no processo de ensino e também complexa. As relações de professores com os alunos podem e devem incidir positivamente no aprendizado destes, não só com o conteúdo das matérias ensinadas mas também pela satisfação pessoal e profissional do professor em ensinar. Devem ser movidas pelo respeito mútuo e equilíbrio dos pólos no processo de ensino-autoridade do professor e autonomia dos alunos. Caso ocorra alguma dificuldade no aprendizado e o professor perceba, este pode intervir de forma positiva e construtiva de forma que seus alunos consigam superar essas barreiras.(8)

Na sala de aula, o professor de Enfermagem deve interagir com seus alunos, a fim de não só atender os requisitos de uma disciplina, mas também participar na formação dos futuros profissionais e conhecer suas dificuldades na compreensão do conhecimento científico, linguagem e enunciados transmitidos. Portanto, a escola de Enfermagem como instituição de ensino e os professores como mediadores no processo educativo assumem importante participação na transmissão de conhecimentos. Dessa maneira, cumprir-se-á o seu papel com a sociedade, porque lançarão, no mercado, profissionais habilitados para exercer a função.

Permeando essas relações de professores, alunos e dos conteúdos abordados em sala de aula está uma riqueza de questões relacionadas ao uso de linguagens entre sujeitos e gêneros discursivos cotidianos (orais e escritos), práticas pedagógicas e estratégias de ensino e torna-se necessário ressaltar a importância da linguagem em sala de aula e compreender sua ação facilitadora na comunicação e no relacionamento entre professores e alunos.

 

CONHECENDO A LINGUAGEM E SUAS POSSIBILIDADES

Existe a necessidade intrínseca de o homem comunicar-se, vivendo interações com a realidade que o cerca e com os outros seres humanos com os quais dividem visões de mundo e trocam experiências por meio de um sistema estruturado por sinais o qual denominamos como linguagem. A linguagem não é arbitrária de um homem só, mas um patrimônio comum de um grupo. Deve ser compreendida como um veículo do pensamento, um meio de comunicação entre os homens e, portanto, fator primordial de associação.(9)

Desde os tempos mais remotos "as línguas não são uniformes, apresentando variações de acordo com o ambiente, com a cultura, com a época e a classe social a que pertencem os falantes". Por isso, a linguagem é mais uma maneira de integração dos seres humanos incluídos em um grupo social. O homem é capaz de incorporar marcas lingüísticas do meio em que vive como as variações de pronúncias e vocabulários.(9)

Existem três funções da linguagem segundo Bühher: representação ou símbolo; expressão ou sintoma e apelo ou sinal. No ato discursivo, o enunciado desempenharia as três funções conforme se relacionasse com o estado das coisas de que se fala (representação), com aquele que fala (expressão) e aquele a quem se fala (apelo). Cardoso, referindo-se ao trabalho de Jackobson (1963), este explica que as funções da linguagem são projetadas para a comunicação e se desmembram em seis fatores envolvidos no ato de uma comunicação verbal (10):

• Um remetente: emissor ou destinador de signos;

• Uma mensagem: alude a um contexto;

• Um destinatário: ouvinte ou receptor de signos;

• Um canal: por meio do qual a mensagem passa do emissor ao receptor;

• Um código: parcialmente comum ao emissor e ao receptor, e

• Um contexto: puramente conceptual e não físico, chamado impropriamente de "referente".

Cada mensagem pode englobar várias funções de linguagem. Normalmente, pode aparecer um feixe de funções, que segundo Jakobson não é uma acumulação. Daí a classificação das funções de acordo com o fator que se destaca no ato de comunicação: referencial - ênfase no contexto; emotiva - ênfase no remetente; conativa - ênfase no destinatário; fática - ênfase no contato; metalingüística - ênfase no código e poética - ênfase na mensagem.(10) São destacadas as diferentes funções da linguagem descritas por Jakobson a seguir(7):

1) Função Referencial ou Denotativa - transmite uma idéia objetiva sobre a realidade. Dá prioridade aos dados concretos, fatos e circunstâncias, suprimindo tanto as valorações como o sentimento de quem fala (o emissor). É a função característica do discurso científico e de qualquer exposição de conceitos. Ela põe em evidência o referente, ou seja, o assunto ao qual a mensagem se refere;

2) Função Expressiva ou Emotiva - reflete o estado de ânimo do emissor, os seus sentimentos e emoções. Exprime-se a partir da perspectiva do emissor, sempre resultando em textos subjetivos, escritos em primeira pessoa. Um dos indicadores da função emotiva num texto é a presença de interjeições e de alguns sinais de pontuação, como as reticências e o ponto de exclamação;

3) Função Apelativa ou Conotativa - seu objetivo é influenciar o receptor ou destinatário, com a intenção de convencê-lo de algo ou dar-lhe ordens. São próprios dessa função os recursos que podem motivar o ouvinte a praticar uma ação, dar uma resposta ou reagir afetivamente. Está permeada de recursos apelativos sutis ou não, tais como o uso do imperativo, do vocativo, da interrogação e de recursos literários freqüentes na linguagem da propaganda;

4) Função Poética ou Estética - é aquela que põe em evidência a forma da mensagem, ou seja, que se preocupa mais em como dizer do que com o que dizer. O escritor, por exemplo, procura fugir das formas habituais de expressão, buscando deixar mais bonito o seu texto, surpreender, fugir da lógica ou provocar um efeito humorístico. Embora seja própria da obra literária, a função poética não é exclusiva da poesia nem da literatura em geral, pois se encontra com freqüência nas expressões cotidianas de valor metafórico e também na publicidade;

5) Função Fática - tem por finalidade estabelecer, prolongar ou interromper a comunicação. É aplicada em situações em que o mais importante não é o que se fala, nem como se fala, mas sim o contato entre o emissor e o receptor. Aparece, geralmente, nas fórmulas de cumprimento ou em expressões que confirmam que alguém está ouvindo ou está sendo ouvido. Conseqüentemente, o objetivo principal é proteger e reforçar o canal de comunicação;

6) Metalingüística - é aquela que possibilita a expressão de um código - língua, sinais de trânsito, linguagem braile - referir-se a si mesmo. É a palavra comentando a palavra, o cinema falando do cinema, a pintura expressando a pintura. Com a finalidade de garantir que o falante e o ouvinte utilizem o mesmo código, a metalinguagem é usada em qualquer aprendizado de uma língua, como se vêem nas gramáticas e nos dicionários.

Mediante o conteúdo exposto, entendemos que o professor deve estar familiarizado com a tipologia textual; saber definir com a classe que tipo de discurso está sendo produzido, qual a intenção do autor e a quem se destina. Esse conhecimento é indispensável para que o aluno atribua sentido ao que se fala e o que escreve, articulando o saber teórico a habilidade prática, desenvolvendo o pensamento crítico-reflexivo, habilitando-o para o exercício profissional. Em vista disso, cabe ao professor, traçar estratégias para que as competências profissionais dos alunos sejam trabalhadas. As formas de linguagens e suas funções auxiliarão o professor na comunicação verbal com seus alunos na instituição, favorecendo a relação entre professor e aluno. O docente deve estar atento na oferta de explicações, conhecimentos, hábitos e habilidades, sempre tentando driblar as dicotomias presentes no processo de ensino-aprendizagem.

 

A RELAÇÃO ENTRE PROFESSORES E ALUNOS NA GRADUAÇÃO EM ENFERMAGEM

O conhecimento científico não é estático. As sociedades ganham mudanças com as constantes transformações e avanços científicos no contexto deste novo milênio, movido por períodos de mudanças sociais, econômicas e políticas que abrangem um aumento de conhecimentos para todas as ciências, de modo que essas transformações também refletem nas ciências biomédicas.(11)

A Enfermagem também acompanha essas mudanças, descobertas e inovações, a fim de incrementar a atuação na relação trabalho-formação, refletindo, principalmente, em reformas na grade curricular e no sistema de graduação. Em sua arte e profissão no "cuidado do ser humano com outro ser humano", a Enfermagem interage a todo o momento assistindo clientes, familiares e demais profissionais. Para tanto, há necessidade de preparar profissionais habilitados e capacitados ao mercado de trabalho, porque este se torna cada vez mais exigente. Hoje as empresas preconizam a excelência no atendimento, e os clientes não são mais vistos como elementos passivos em seu tratamento.

A profissão Enfermagem exige "um enfermeiro apto a responder pelo cuidar de um grupo de pessoas sob sua responsabilidade". Assim é necessário um profissional que interaja em equipe, identifique e atue adequadamente em situações específicas e emergenciais, possuindo um conhecimento técnico-científico no contexto de sua prática.(11)

Ao ingressar no curso de graduação em Enfermagem, os alunos se deparam com ensinamentos direcionados ao cuidado com o ser humano. Já, no ciclo básico entram em contato com novos conceitos, conteúdos programáticos curriculares específicos e, portanto, com novos enunciados, gêneros discursivos e linguagens. Então, o aluno deve adquirir habilidades e conhecimentos específicos para uma reflexão-ação-reflexão através da interligação entre o pensar e o fazer. Constata-se que a formação do aluno no curso de graduação em Enfermagem é realizada por meio de aulas teóricas, práticas laboratoriais e posteriormente com a introdução em campo de estágio prático, à medida que atinja um determinado período da graduação e um nível de cumprimento da grade curricular específica.

Portanto, é necessário que a educação deva focalizar a pessoa em sua totalidade e reconhecer que a aprendizagem é subjetiva, contextual e fortalecida em diálogo. Em vista disso, fica evidente a necessidade de domínio do professor em utilizar recursos estratégicos, abordagem metodológica e a utilização da linguagem para a comunicação com seus alunos favorecendo a interação e a facilitação do processo de ensino-aprendizagem.(12)

Quanto à comunicação, torna-se clara a promoção da reformulação da tradicional "transmissão de informações" em que se pressupõe a incidência de um emissor e um receptor passível. Ao contemplar os integrantes de uma organização, os atores (professor) e a comunicação devem considerar que há formas de reinterpretação de significados que não estão limitados aos padrões simbólicos, culturais, originados das experiências de cada ator, uma vez que trazidas de fora da organização (escola) e/ou constituídas nas relações com outros atores dentro da organização.(13)

Logo se torna necessário despertar nos alunos o pensamento crítico, no sentido de que eles possam raciocinar sobre o conhecimento oferecido, já que uma disciplina não deve ser encarada como sem motivação pelos alunos, nem tampouco as aulas serem aceitas como um ritual de massificação de informações. As escolas necessitam de professores que tenham compromisso com uma prática transformadora e inovadora que possibilite o crescimento e amadurecimento dos alunos em todos os sentidos.

Metodologias e conhecimentos devem ser utilizados pelo professor, para propiciar aulas atraentes a seus alunos, de modo que nasça o desejo de descobrir e apreender, cada vez mais, novos saberes. É agregando estratégias operacionais de aprendizagem à disponibilidade afetiva que o aluno melhor compreenderá a experiência do aprender a apreender.(12)

Com relação ao tripé aluno-professor-conteúdo, existem fatores que afetam o processo de ensino, os quais estão demonstrados no quadro a seguir(4):

 

 

Torna-se essencial ressaltar a importância da adoção de comportamentos pelo professor com relação à prática pedagógica, fundamentada em um trabalho desenvolvido por dois educadores e pesquisadores americanos Chickering e Gamson(4), em que são descritos "sete princípios para a boa prática na educação do ensino superior", relacionados abaixo:

• Princípio 1: A boa prática encoraja o contato entre aluno e professor - professores que encorajam o contato com os alunos, tanto dentro como fora da sala de aula obtêm estudantes mais motivados. Assim sendo, a interação entre esse binômio caracteriza um ensino de qualidade e ajuda os estudantes a atingir seu objetivo de aprendizagem.

• Princípio 2: A boa prática encoraja a cooperação entre os alunos - trabalhar com outras pessoas, normalmente, aumenta o envolvimento com a aprendizagem, promove a troca de idéias entre os colegas, favorece o raciocínio e o aprofundamento do entendimento .

• Princípio 3: A boa prática encoraja a aprendizagem ativa - Ações: despertar o interesse e a curiosidade do aluno; usar exemplos, fazendo conexões do conteúdo com a vida real e as experiências pessoais; estimular o desenvolvimento de estudos e pesquisas individuais e em grupos; utilizar métodos vivenciais de ensino como: jogos, simulações, estudos de caso ou laboratórios e realizar atividades de extensão extraclasse (palestra, seminários).

• Princípio 4: A boa prática fornece feedback imediato - os alunos precisam checar constantemente sua performance para obter um melhor aproveitamento. Esses momentos de feedback podem ocorrer durante as aulas de maneira informal ou estar relacionados à avaliação formal. Também, o uso constante em sala de aula de diferentes instrumentos de mediação de desempenho tais como exercícios de fixação, resumos, apresentação oral, debates e trabalhos de pesquisa.

• Princípio 5: A boa prática enfatiza o tempo de tarefa - este princípio enfatiza a preocupação necessária com aspectos que vão das etapas de planejamento curricular e de definição de horário pelas instituições até à elaboração dos planos de curso e de aula pelo professor.

• Princípio 6: A boa prática comunica altas expectativas - os estudos e as experiências têm revelado que o professor que mantém altas expectativas em relação ao desempenho dos alunos, alcança efeitos positivos: maior rendimento, maior índice de freqüência às aulas e maior senso de responsabilidade.

• Princípio 7: A boa prática respeita os diversos talentos e as diferentes formas de aprendizagem - o professor deve reconhecer os diferentes talentos e estilos de aprendizagem que os alunos trazem consigo para a faculdade. Por isso, ele deve buscar uma variedade de técnicas/métodos de ensino visando atender aos diferentes estilos de aprendizagem dos alunos e, ainda, ser sensível às diferenças respeitando as individualidades.

Acerca das relações entre professores e alunos é descrito um modelo de multidimensionalidade desta relação, estabelecendo três áreas de atuação do professor em relações interpessoais, estrutura do aprendizado e apoio da autonomia e do desenvolvimento integral do aluno descritas a seguir(8):

A qualidade das relações interpessoais manifesta-se de várias formas como por exemplo: dedicar tempo à comunicação com alunos, expressar interesse e afeto, interagir com os alunos de forma prazerosa elogiando sempre com sinceridade. Caso contrário, ocorrem rejeição, distância, ignorância a respeito dos alunos e desinteresse deles.

A estrutura do aprendizado refere-se à quantidade e à qualidade de informações dadas aos alunos para a eficácia do aprendizado, tais como: manifestação de expectativas, respostas consistentes, dar informações de ajuda e ajustar-se ao nível dos alunos. Caso contrário, o aprendizado vai se tornando um caos.

Dar apoio à autonomia dos alunos consiste na concessão de liberdade nas atividades de aprendizado, pois se relaciona com a função motivadora do professor de forma interna, criando um clima favorável. Assim, os alunos sentem que devem trabalhar e aprender.

Fazendo um elo com o já exposto, o professor deve estar atento à transmissão dos conhecimentos e à assimilação destes pelos seus alunos; criando um clima favorável em sala de aula para que os alunos sintam-se envolvidos em seu aprendizado, de modo que estejam receptivos e motivados. Afinal, eles receberão muitas explicações e estas devem ser bem conduzidas pelo professor.

O professor precisa ter em mente as funções da linguagem e suas articulações projetadas para a comunicação, já citadas anteriormente, para que os alunos realmente aprendam, interajam com o professor e demais alunos, minimizando possíveis falhas nesse processo comunicativo.

As aulas podem ser mais dinâmicas, à medida que se adotem várias técnicas de ensino, como: discussão em pequenos grupos, realização de estudos dirigidos, seminários, palestras, discussão de casos clínicos, investimento de utilização de recursos audiovisuais tais como: projetor de slides, informática, vídeo, entre outros. As aulas puramente expositivas estabelecem um monólogo pelo professor; depois, o aluno é conduzido a leituras de textos e de livros complexos, por isso há o desestímulo da classe.

As aulas dinamizadas com a introdução de técnicas e recursos audiovisuais tendem a aproximar o aluno da realidade, estimulam a sua participação e a freqüência nas aulas e o aprendizado tende a ser mais efetivo. A linguagem audiovisual "desenvolve múltiplas atitudes perceptivas: solicita constantemente a imaginação e reinveste a afetividade com um papel de mediação primordial no mundo, enquanto que a linguagem escrita desenvolve mais o rigor, a organização, a abstração e a análise lógica". A empregabilidade desses recursos não substitui a figura do professor e nem tampouco deve ser usada para "camuflar" uma aula.(14)

Com o uso adequado desses recursos, as escolas de Enfermagem cumprem seu papel para com a sociedade e o mercado de trabalho, formando profissionais capacitados, habilitados, críticos e comprometidos com sua prática profissional no cuidado ao cliente, e relacionamento com familiares, empresa empregadora e equipes multiprofissionais de saúde.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Universidade, como instituição de ensino, torna-se fundamental na formação do ser humano preparando-o para uma vivência em sociedade e inserção no mercado de trabalho. É importante ressaltar que no espaço de sala de aula circula uma riqueza de enunciados, discursos e linguagens, que deve ser aproveitada pelo professor na interação com sua classe e adoção de estratégias de ensino, permitindo um melhor rendimento e aproveitamento dos conteúdos abordados em aula.

A aprendizagem exige esforço, incentivo e compromisso das universidades (instituições de ensino), do corpo docente e dos alunos. O professor é uma figura facilitadora no processo de ensino-aprendizagem, estimulando a mente, a criatividade e o pensamento crítico-reflexivo na aquisição de conhecimentos, hábitos e habilidades.

O investimento em uma política educacional justa, com implementação de maior autonomia às universidades e de injeção de investimentos de recursos humanos, financeiros, tecnologia educacional e realização de obras em prol da comunidade universitária são metas a serem guiadas pelos nossos governantes.

Destacamos, a seguir, sugestões para motivar professores, alunos e escolas de Enfermagem para um ensino de qualidade, subsidiado pelos princípios descritos anteriormente:

• Ampliar oferta de meios e recursos tecnológicos que proporcionem maior diversidade e riqueza de linguagens, conhecimentos e envolvimento dos alunos;

• Estimular constantemente o corpo docente oferecendo oportunidades para o crescimento profissional, criando novos métodos de trabalho e de abordagem com seus alunos em sala de aula;

• Diminuir o quantitativo de alunos por classe e ampliar o corpo docente a fim de que o professor melhor atenda às expectativas dos alunos, facilitando a relação professor-aluno e a motivação dos alunos para o aprendizado;

• Promover dinâmicas diversificadas em sala de aula ou em laboratórios, que possibilitem o envolvimento entrosamento do aluno em seu aprendizado;

• Proporcionar maior abertura ao diálogo e à participação dos alunos em sala de aula.

Esperamos que esse artigo possibilite uma contribuição ao corpo discente e docente nas escolas de graduação em Enfermagem, a fim de que o uso de linguagens favoreça a comunicação na relação entre professores e alunos e também na abordagem do conteúdo programático ensinado. Em vista disso, o professor pode criar contextos em sala de aula em que o aluno participe e aprenda e ele - mestre - seja um facilitador do processo de ensino-aprendizagem.

Concluímos ser necessário ao professor buscar uma constante reflexão sobre sua prática docente, contemplando os objetivos do processo de ensino-aprendizagem e, também, promover o fortalecimento da multiplicidade de informações que são transmitidas aos alunos e com isso valorizar a existência de enunciados, discursos, (re)significações de conceitos e assimilação de novas mensagens, visto que os alunos poderão, também, vivenciar maiores oportunidades de aprendizado e contribuir para o fortalecimento da relação com professores em sala de aula.

 

REFERÊNCIAS

1. Lefevre RA. Pensamento crítico em Enfermagem: um enfoque prático. Porto Alegre: Artes Médicas;1996.

2. Libâneo JC. Didática. São Paulo: Cortez; 2001.

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4. Santos SCO. Processo de ensino-aprendizagem e a relação professor-aluno: aplicação dos "sete princípios para a boa prática na educação de ensino superior". Cad Pesq Adm, São Paulo, 2001 jan./mar;8(1):69-82.

5. Koegler CE. Refletindo sobre a linguagem. Santa Catarina; 2004. [Citado em: 01jan. 2004]. Disponível em http://www.cce.ufsc.br/~neitzel/psicolinguistica/cleonice .

6. Carvalho MAF. Os gêneros do discurso e o texto escrito na sala de aula. Uma contribuição ao ensino. [Citado em: 4 jan. 2004]. Disponível em http://www.filologia.org.br/vicnef/anais/os%20generos.

7. UOL-Educação. Quais são as funções da linguagem?. 1996. [Citado em: 21 abr. 2004]. Disponível em http://www.noticias.uol.com.Br/educação/materiais -klik/ensino- fundamental/português/0,5387.

8. Morales P. A Relação professor-aluno: o que é e como se faz. 4ª ed. São Paulo: Loyola; 2003.

9. Antunes E. A linguagem e suas variações. [Citado em: 15 abr. 2004]. Disponível em http://www. navedapalavra.com.br/resenhas/alinguagemesuasvariacoes . Acesso em 15 abr. 2004.

10. Cardoso SHB. Discurso e ensino. Belo Horizonte: Autêntica; 2000

11. Ide CAC, Domênico EBL. Ensinando e aprendendo um novo estilo de cuidar. São Paulo: Atheneu; 2001.

12. Waldow VR, Lopes MJM, Meyer DE. Maneiras de cuidar: maneiras de ensinar. A Enfermagem entre a escola e a prática profissional. Porto Alegre: Artes Médicas; 1995.

13. Gentilini JA. Comunicação, cultura e gestão educacional. Cad Cedes 2001 Ago;21(54):41-53.

14. Moran JM. O vídeo na sala de aula. São Paulo; maio 1995. [Citado em: 5 jan. 2004]. Disponível em: http://www.batina.com/moran/video.

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