REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 10.3

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Pesquisa

Inclusão do tema plantas medicinais no currículo dos cursos da área da saúde: uma realidade necessária

Including herbal medicine in the health curriculum: a necessary reality

Janaína Sena1; Maria Cristina Flores Soares2; Marta Regina Cezar-Vaz3; Ângela Sena4; Ana Luiza Muccillo-Baisch5

1Enfermeira. Mestre em Enfermagem pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande - FURG. Professora do Departamento de Enfermagem da FURG. E-mail: janaenf@hotmail.com
2Fisioterapeuta. Doutora em Fisiologia da Reprodução - Universite de Paris. Professora do Departamento de Ciências Fisiológicas da FURG. E-mail: cristina@octpus.furg.br
3Enfermeira. Doutora em Filosofia da Enfermagem pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Professora do Departamento de Enfermagem da FURG. E-mail: cezarvaz@vetorialnet.com.br
4Farmacêutica Bioquímica. Pós-graduanda em Saúde Pública ISEPE. E-mail: angelafarm@hotmail.com
5Enfermeira. Doutora em Ciências Biológicas - BORDEAUX. Professora do Departamento de Ciências Fisiológicas da FURG. E-mail: abaisch@octopus.furg.br

Endereço para correspondência

Av: Santos Dumont, 513 A, bloco G1, apto 303, Bairro Junção
Rio Grande - RS. CEP: 96202090

Recebido em: 13/10/2005
Aprovado em: 08/09/2006

Resumo

Esta pesquisa, realizada com docentes de universidades da região sul do Rio Grande do Sul e da Campanha, buscou verificar como acontecia a organização do tema plantas medicinais, a importância atribuída, mostrando a necessidade da inclusão do tema no currículo. É uma pesquisa quantitativa realizada com 183 docentes (61%). Verificou-se que o tema não é desenvolvido pela maioria dos docentes; 92,16% consideram importante a difusão do tema; e, 81,70% reconhecem a necessidade da inclusão do tema no currículo; precedida de sua ampla discussão nos meios acadêmicos, pois docentes apontam a necessidade da inclusão desse conteúdo em cursos relacionados à saúde.

Palavras-chave: Plantas Medicinais, Currículo, Educação Superior, Educação em Saúde

 

INTRODUÇÃO

Na pesquisa desenvolvida, o conhecimento sobre as plantas medicinais foi entendido como instrumento de trabalho com possibilidade de contribuir na área da saúde, suprindo necessidades básicas, já que as plantas são utilizadas popularmente como alimentos auxiliares em terapias e algumas se mostram eficazes.

Nesse sentido, uma consideração relevante é a que refere a saúde como dimensão fundamental e princípio norteador do desenvolvimento, assim como a construção efetiva do SUS, sendo dever do Estado garantir o direito de todos ao acesso às várias terapias disponíveis para promoção, proteção, recuperação e reabilitação da saúde.(1)

Assim, entende-se que a saúde deva incluir em suas referências as crenças, valores, conhecimentos e práticas vivenciadas por nós, indivíduos, tornando-se, dessa forma, um conceito subjetivo, particular e peculiar para cada indivíduo e grupo, intimamente ligado com a qualidade de vida desejada e esperada.

Refletindo sobre a subjetividade do sujeito, a qual envolve um contexto cultural, considerou-se de grande relevância a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS), para que os países membros, especialmente os do Terceiro Mundo, procurem ampliar o arsenal terapêutico para a saúde pública por meio do aproveitamento de práticas de medicina caseira empregadas pela população.(2) A esse respeito, é importante refletir sobre o que Matos(2) refere, e assim perceber que as plantas medicinais, se usadas com base em princípios científicos, podem ser a solução para algumas das dificuldades apresentadas no setor saúde, já que são econômica e culturalmente viáveis à população em geral, voltando-se à promoção da saúde.

Ainda, a Organização Mundial da Saúde recomendou formalmente, na Conferência de Alma-Ata(3), que os recursos de medicina tradicional e popular fossem utilizados pelos sistemas nacionais de saúde, recrutando os praticantes dessa medicina como aliados na organização e implementação de medidas para melhorar a saúde da comunidade.

Para tanto, ao pensar nesses recursos tradicionais e populares, verifica-se a necessidade de os futuros profissionais da saúde, em sua formação acadêmica, receberem informações sobre tais recursos, para que possam contribuir com medidas de promoção e proteção da saúde.

Assim, nessa mesma direção, tem-se como objetivo visualizar como se dá a organização do tema plantas medicinais no trabalho desenvolvido pelos docentes dos cursos de graduação em Enfermagem e Medicina da FURG, da UFPEL e do curso de graduação em Enfermagem da URCAMP-Bagé. Este complementa-se através dos seguintes objetivos específicos:

- considerar em quais disciplinas e/ou atividades o tema é desenvolvido;

- visualizar a importância dada ao tema plantas medicinais;

- ressaltar a necessidade de inclusão do tema plantas medicinais nos currículos dos curso da área da saúde.

 

METODOLOGIA

O desenvolvimento desta pesquisa surgiu da necessidade de compreender como se insere o tema plantas medicinais em universidades, por meio do processo de trabalho educativo, considerando para tanto o conhecimento sobre o tema plantas medicinais como instrumento.

O estudo foi desenvolvido como uma pesquisa quantitativa com metodologia exploratória, descritiva e analítica. Esta pesquisa abrange os municípios de Rio Grande, Pelotas e Bagé, sendo os dois primeiros inseridos na região Sul, e o último, na região da Campanha do estado do Rio Grande do Sul.

Como fase inicial obtiveram-se informações sobre as universidades, sendo enviada uma solicitação ao Departamento de Pessoal/ Recursos Humanos das universidades para se ter acesso ao quantitativo de docentes e seus respectivos nomes, explicitando o Departamento/Instituto/Faculdade/Centro ao qual pertencem.

A população-alvo selecionada foi constituída de docentes efetivos e substitutos dos cursos de graduação em Enfermagem e Medicina da Fundação Universidade Federal do Rio Grande (FURG), da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e do curso de graduação em Enfermagem da Universidade da Região da Campanha - Bagé (URCAMP-Bagé).

Assim, dentre todos os Departamentos/Institutos/Faculdades/Centros existentes nas universidades, optou-se por selecionar uma amostra dos que administram aulas para os cursos de Enfermagem e/ou Medicina. Para a aplicação do instrumento da pesquisa, entrou-se em contato com o respondente para marcação de um local que este considerasse o mais adequado para responder ao questionário, tendo-se preferência por aplicá-lo na instituição de ensino na qual o docente atua. Os docentes foram procurados para aplicação do instrumento no máximo três vezes.

Desse modo, na FURG, fizeram parte do estudo 89 docentes, assim distribuídos: Departamentos de Enfermagem (21); Matemática (1); Educação e Ciências do Comportamento (1); Materno-Infantil (10); Medicina Interna (19); Ciências Morfo-Biológicas (3); Ciências Fisiológicas (11); Patologia (9) e Cirurgia (14).

Na UFPEL fizeram parte da pesquisa 79 docentes, dos quais 18 da Faculdade de Enfermagem; 9 do Departamento de Medicina Especializada; 8 do Departamento Materno-infantil; 5 do Departamento de Saúde Mental; 7 do Departamento de Medicina Social; 12 do Departamento de Clínica Médica; 8 do Departamento de Cirurgia Geral. No Instituto de Biologia, participaram 3 docentes do Departamento de Zoologia Genética, 2 de Microbiologia e Parasitologia, 4 de Fisiologia e Farmacologia e 1 do Departamento de Morfologia; ainda, 1 docente do Instituto de Química e Geociências e 1 do Instituto de Física e Matemática.

Já na URCAMP, teve-se a participação de 15 docentes, distribuídos nos Centros que seguem: Ciências da Saúde (10); Economia e Informática (1); Educação, Comunicação e Artes (2) e Ciências Rurais (2).

A ausência de dados referentes ao conhecimento sobre o tema plantas medicinais na formação acadêmica nas universidades a serem abordadas nos levou a estimar que 5% dos docentes abordam o tema em algum momento,

no seu processo de trabalho. O nível de confiança admitido foi de 95%, com margem de erro de 5%. Tinha-se um total de 300 docentes que ministravam aulas para os cursos de Enfermagem e/ou Medicina, sendo então retirada uma amostra de 183 docentes (61%) desse total.(4)

O instrumento utilizado para coleta de dados foi um questionário, contendo perguntas fechadas, as quais possibilitam ao participante responder questões pré-formuladas, expondo sua opinião sobre a organização do tema plantas medicinais em Instituições de Ensino Superior, enfocando os cursos de Enfermagem e Medicina; a importância da difusão do tema plantas medicinais e a necessidade da inclusão do tema nos currículos da área da saúde.

Os participantes foram esclarecidos previamente acerca dos objetivos e finalidade da pesquisa, respeitando-se os aspectos éticos de pesquisas que envolvem seres humanos, os quais constam na Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, contemplando suas Diretrizes e Normas, garantindo ainda o anonimato dos respondentes, por meio do Consentimento Livre e Esclarecido.

Na análise de dados foi realizada a distribuição de freqüência para visualização dos dados coletados. Após, as diferenças entre porcentagens foram analisadas utilizando-se o Teste do Qui-Quadrado - X2,, tendo sido considerados estatisticamente significativos os valores em que p<0,05; para que após, se pudesse realizar o Teste de "Multiple Comparisons for Proportions"(5) nos casos em que a análise das porcentagens fosse realizada entre mais de dois grupos.

Após o término da coleta de dados, obteve-se um total de 153 docentes participantes, dos 183 pretendidos, havendo 34 perdas (distribuídas entre FURG (2) e UFPEL (32)), o que equivale a 18,38%, que ocorreram devido a negativa em participar da pesquisa, por parte dos sujeitos; ao fato de terem sido procurados mais de três vezes e não encontrados, e à pouca colaboração por parte de outros profissionais.

 

RESULTADOS

Organização do tema plantas medicinais

A organização do tema, nas três instituições questionadas, não é desenvolvida, em sua maioria; porém, o que se considerou interessante nessa análise foi a tentativa dos docentes da FURG, de organizar o tema individualmente, da UFPEL, com os colegas discentes, e da URCAMP, com colegas de outras áreas e de profissão (TAB. 1).

Disciplinas e/ou atividades nas quais o tema plantas medicinais é desenvolvido

A tabela 2 mostra que em todos os cursos, a maioria dos docentes não desenvolve o tema nas disciplinas. Entre os que desenvolvem esta temática, destaca-se a porcentagem de docentes dos cursos de Enfermagem da UFPEL (33,31%), URCAMP (11,76%), FURG (6,66%) que o fazem em disciplinas profissionalizantes.

Importância da difusão do tema plantas medicinais

Quanto à importância dada à difusão do tema plantas medicinais, pode-se verificar que 92,16% dos entrevistados a consideram importante (TAB. 3). Como pode ser visto na tabela 4 (GRÁF. 1), 100% dos entrevistados da URCAMP consideram importante a difusão do tema plantas medicinais. Esta porcentagem, segundo o Teste de Comparação Múltipla de Proporções(5) é significativamente maior (p < 0,000000) quando comparada às demais instituições.

 

 

 

 

 

 

Ainda, em relação a curso/instituição, vê-se, primeiramente, com 100% dos entrevistados, os cursos de graduação em Enfermagem da URCAMP e da FURG, e por último, com 84%, a Medicina da UFPEL. Nessa relação curso/instituição, os cursos de Enfermagem (FURG e URCAMP) apontam uma importância significativamente maior (p< 0,000006) para a difusão do tema, quando comparadas com os de Medicina (FURG e UFPEL); bem como a Enfermagem UFPEL apresenta uma diferença significativamente maior (p < 0,000006) que a Medicina UFPEL (GRÁF. 2).

 

 

Necessidade da inclusão do tema plantas medicinais nos currículos dos cursos de graduação da área da saúde

Nesta pesquisa, uma análise que se considerou importante foi o entendimento dos docentes quanto à necessidade da inclusão do tema plantas medicinais nos currículos. Nesse sentido, pode-se observar na tabela 5 que 81,70% dos entrevistados concordam com essa inclusão. Para uma melhor visualização dessa variável, optou-se também por demonstrar essa questão relativamente às instituições. Pode-se observar que na URCAMP a porcentagem (94,12%) de docentes que apontam a necessidade de inclusão do tema plantas medicinais nos currículos é significativamente maior (p < 0,000000) do que na FURG, segundo o Teste de Comparação Múltipla de Proporções (ZAR, 1984). Quando é considerada a relação curso/instituição verifica-se que uma porcentagem significativamente maior (p<0,006) dos docentes dos cursos de Enfermagem das três instituições referem essa necessidade quando comparados aos cursos de Medicina FURG e UFPEL (TAB. 6; GRÁF. 3).

 

 

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Nesta pesquisa, teve-se a necessidade de verificar como se dava a organização do tema plantas medicinais, e pode-se observar que esta, quando ocorre, na FURG se faz individualmente; na UFPEL, faz-se com os colegas discentes, e na URCAMP, com colegas de outras áreas e de profissão (TAB.1). Essa diferença relativa à organização pode estar relacionada ao fato de não estar regularizado o tema referente às plantas medicinais nos currículos, o que faz com que os docentes que apresentam interesse, o façam sozinhos, em suas atividades; ainda, com os alunos, talvez através de trabalhos científicos e, com colegas que possuam a mesma afinidade, sejam colegas de profissão ou de outras áreas que possam apresentar alguma integração.

Cabe salientar que o paradigma cartesiano, o qual se baseia na compartimentalização do conhecimento, não foi superado nos meios acadêmicos.(6) Dessa forma, as terapias complementares têm que apresentar argumentos convincentes sobre a sua cientificidade e suas práticas, para que, mesmo com este paradigma, possam demonstrar sua contribuição para a saúde dos indivíduos e possam fazer parte da organização das atividades realizadas pelos docentes.(7,8)

No que tange às disciplinas dos cursos de graduação, pode-se verificar que a maior parte dos entrevistados não aborda o tema em disciplinas, porém, mesmo que em pequena proporção, o tema aparece em todas as instituições, e que mais se vê essa abordagem é nas disciplinas profissionalizantes. A tabela 2 mostra que a Enfermagem FURG desenvolve o tema plantas medicinais através das disciplinas profissionalizantes (6,66%), bem como a Enfermagem UFPEL, com 33,31% dos entrevistados, e a Enfermagem URCAMP, com 11,76% dos docentes.

Ainda, apesar da diferença das porcentagens entre os cursos, as graduações em Medicina da FURG e da UFPEL também desenvolvem o tema em disciplinas profissionalizantes (3,38% e 4% respectivamente). A ausência de dados referentes ao conhecimento sobre o tema plantas medicinais na formação acadêmica nas universidades a serem abordadas nos levou a estimar que 5% dos docentes abordam o tema em algum momento, no seu processo de trabalho, mas pôde-se verificar que a Enfermagem supera essa hipótese, enquanto a Medicina está abaixo dessa expectativa.

As disciplinas profissionalizantes são responsáveis pela formação das características específicas de cada curso, em que são fornecidas as informações para a atuação profissional diretamente, o que não exclui a importância das disciplinas básicas, já que sem estas não haveria como desenvolver os demais conteúdos. Porém, talvez por esse motivo, estarem diretamente ligadas à formação profissional, o tema seja abordado nas disciplinas profissionalizantes.

Nessa direção, as Diretrizes Curriculares dos cursos de graduação em Enfermagem e Medicina referem que os conteúdos devem estar relacionados com todo o processo saúde-doença do cidadão, da família e da comunidade, devendo contemplar conteúdos técnicos, metodológicos e os instrumentos inerentes ao trabalho do Enfermeiro e da Enfermagem em nível individual e coletivo.(9)

Os padrões de conceitos acadêmicos de saúde, os quais têm evoluído historicamente, encontram dificuldade de generalização exatamente por causa da grande variabilidade e até mesmo da contradição dos padrões e comportamentos relacionados à herança cultural das várias sociedades humanas.(10) Nesse sentido, cabe pensar que talvez essa diferença nos padrões e comportamentos incorporados à herança cultural de cada indivíduo e da sua instituição de ensino, seja o fator que explique a diferença na abordagem dada pela Enfermagem da UFPEL (33,31%).

Torna-se relevante salientar que no corpo docente da graduação em Enfermagem da UFPEL encontra-se um grupo de professores oriundos da região Nordeste do Brasil. A tradição dessa região no uso de plantas medicinais poderia interferir positivamente na abordagem do tema entre os próprios docentes, oriundos ou não da região Nordeste, bem como junto ao corpo discente. Destaca-se ainda que a origem e a história de vida dos indivíduos poderiam ser outros fatores que possibilitariam essa interferência positiva.

Após observar como se dava a organização do tema plantas medicinais, tornou-se imprescindível verificar a importância dirigida à difusão do tema, e, pode-se constatar que 92,16% dos entrevistados o consideram importante (TAB. 3). Já na tabela 4, relativa às instituições, vê-se também o interesse dos docentes de todas as instituições para que o tema seja difundido, cabendo destacar que a URCAMP demonstra um interesse significativamente maior. Já na relação curso/instituição, vê-se que os cursos de Enfermagem (FURG e URCAMP) apontam uma importância significativamente maior para a difusão do tema, quando comparados com os cursos de Medicina (FURG e UFPEL); bem como a Enfermagem UFPEL apresenta uma diferença significativamente maior que a Medicina UFPEL. Nessa relação, tem-se a Enfermagem como o curso que mostra maior interação com o tema.

A difusão do tema plantas medicinais contribui para a preservação e resgate da cultura popular, e o trabalho com plantas medicinais serve como um recurso para a saúde, que pode vir a ser utilizado pela população, implicando o exercício de várias atividades que possibilitem a melhor capacitação pessoal e o permanente resgate do conhecimento sobre o tema.(11)

Neste contexto, a Enfermagem, como força de trabalho, na maioria dos seus discursos mostra-se favorável à utilização de novos recursos para a saúde e à busca de conhecimentos mais complexos, incorporando novas idéias e técnicas na assistência prestada ao cliente.(12) Percebe-se assim que a Enfermagem está em processo de expansão, aberta a descobertas que possam contribuir para a melhoria da qualidade da assistência prestada à população.

De suma importância, já que foi referida a difusão do tema plantas medicinais, é esta mesma abordagem, mas agora direcionada para os currículos dos cursos de graduação na área da saúde. Pode-se pensar que para os docentes questionados existe a necessidade da inclusão do tema plantas medicinais nos currículos, já que 81,70% deles a consideraram relevante (TAB. 5). Vê-se que a necessidade da inclusão do tema plantas medicinais nos currículos dos cursos de graduação da área da saúde apresenta-se significativamente maior na URCAMP do que na FURG (TAB. 6).

Nesse sentido, das universidades para as quais esteve direcionada a pesquisa, a FURG tem vocação natural à compreensão das inter-relações entre os organismos, incluindo-se aí o homem e o meio ambiente; a UFPEL tem uma tradição de qualidade nos estudos e pesquisas que desenvolve na área das Ciências Agrárias; e a URCAMP-Bagé, tem como compromisso a dimensão global do saber e a inserção com a realidade do homem da região. Todas elas mostram-se como instituições de ensino comprometidas com as questões relativas à sociedade que as cerca, levando a pensar que o conjunto de experiências populares ligadas às plantas medicinais deveria ser resgatado, pois faz parte da cultura dessas sociedades.

Ainda, novamente, quando a abordagem se volta para a relação curso/instituição, essa necessidade mostra-se significativamente maior nos cursos de Enfermagem (FURG, UFPEL e URCAMP) do que nos de Medicina (FURG e UFPEL), já que a Enfermagem nas três instituições mostra-se mais favorável à inclusão do tema do que a Medicina.

Nessa direção, a Enfermagem, para que possa dar orientações efetivas sobre plantas medicinais, necessita possuir conhecimentos das propriedades terapêuticas mais conhecidas e usadas e do seu preparo, indicação, cuidados e doses. Assim, complementa a autora, acredita-se que "esses aspectos deveriam constar do currículo mínimo dos cursos de graduação em Enfermagem, para que o profissional possa ter condições de orientar."(13:253)

Além disso, na pesquisa realizada, 83,8% dos discentes entrevistados falaram da importância desse conhecimento para a Enfermagem na orientação dos clientes.(6) Dessa forma, a Enfermagem não pode deixar de buscar informações sobre o tema, pois o seu objeto de trabalho, os alunos, consideram importante esse tipo de conhecimento para a execução do seu trabalho. Da mesma forma, no estudo da própria autora, dos docentes das três instituições pesquisadas, 96,6% sentem necessidade da inclusão de conteúdo sistematizado do uso de plantas medicinais como conhecimento científico na grade curricular.

E mais, a utilização de plantas medicinais como parte integrante de programas de atenção em saúde pode ser uma alternativa terapêutica, porque tem baixo custo, havendo facilidade na aquisição e compatibilidade com a cultura da população atendida.(11) Portanto, sendo os entrevistados favoráveis à inclusão do tema nos currículos, vê-se a necessidade de buscar opções para a inclusão dessa prática no meio acadêmico, pois esse é o campo que forma profissionais que irão atuar nos serviços de saúde, onde irão se deparar com diferentes culturas e práticas, necessitando assim de um conhecimento prévio que possibilite atuarem nessas situações.

Por fim, para complementar a idéia, traz-se a referência da Lei de Diretrizes e Bases dos cursos de graduação inseridos nesta pesquisa quanto à Educação Superior, destacando que esta tem como finalidade formar di

plomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, os quais devem promover a divulgação dos conhecimentos culturais, científicos e técnicos, comunicando o saber através do ensino, de publicações ou de outras formas de comunicação.(14)

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir do observado ressalta-se a importância de buscar conhecimentos sobre as plantas medicinais, forma de sua utilização correta, bem como das doses adequadas a cada situação, para que realmente se possa usufruir de seus benefícios. Partindo-se da necessidade de reconhecer esse uso, torna-se imperativo inserir esse tema nos currículos de graduação da área de saúde. Vê-se que a enfermagem está mais voltada para essas considerações, possibilitando pensar que está em processo de expansão, aberta a descobertas, por meio de evidências clínicas, que possam contribuir para a melhoria da qualidade da assistência prestada à população.

Outro fator relevante se refere às disciplinas da graduação, nas quais o tema já é abordado, demonstrando que as instituições estão voltando-se, mesmo que lentamente, para outras formas de auxiliar na atenção à saúde das populações.

Sugere-se ainda a existência de um paradoxo, já que o tema é abordado em disciplinas, mas não consta nas ementas dos cursos, possibilitando pensar que o aspecto cultural, ligado ao saber popular, o qual deveria estar relacionado na Educação Superior dos futuros profissionais parece estar sendo negado pelo saber científico, no que se refere à construção dos currículos.

Assim, vê-se a necessidade de buscar opções para a inclusão dessa prática no meio acadêmico, pois esse é o campo no qual se formam profissionais que atuarão nos serviços de saúde, onde irão se deparar com diferentes culturas e práticas, necessitando, assim, de um conhecimento prévio que possibilite atuarem nessas situações.

Para tanto, acredita-se ser importante que as universidades incluam nos seus currículos disciplinas voltadas para o conhecimento sobre o tema plantas medicinais com o objetivo de formar um profissional conhecedor desta prática e com capacidade para esclarecer as comunidades quanto aos benefícios e os riscos de sua utilização.

Por fim, com a inclusão do tema plantas medicinais nos currículos, esse saber, por estar inserido em um meio de formação profissional, receberá a devida atenção para que as informações sejam repassadas com toda a garantia necessária, destacando-se a forma de uso, posologia, entre outros cuidados, fazendo com que possa ser visualizado como um saber científico, podendo ser oferecido com a devida segurança à população. Essa inserção do tema nos currículos pode se dar através das ementas dos cursos, o que poderia vir a ampliar a abordagem dada ao tema plantas medicinais, já que estaria regularizada no meio acadêmico.

 

REFERÊNCIAS

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2. Matos FJA. Plantas medicinais: guia de seleção e emprego de plantas usadas em fitoterapia no Nordeste do Brasil. 2ª ed. Fortaleza: Imprensa Universitária - UFC; 2000.

3. World Health Organization. Declaration of Alma-Ata. International Conference on Primary Health Care, Alma-Ata, USSR, 6-12 September, 1978. [on line]. [Citado em: 11 jan. 2004]. Disponível em: www.who.int/hpr/NPH/docs/declarationalmaata.pdf..

4. Triola MF. Introdução à Estatística. Rio de Janeiro: LTC, 1999.

5. Zar JH. Biostatistical Analysis. New Jersey: Second Edition, 1984.

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10. Patrício ZM, Saupe R. Repensando paradigmas de saúde: ensinando e aprendendo terapêuticas alternativas para ser saudável. Texto Contexto Enf 1992;1(2):142-51.

11. Medeiros LCM. As plantas medicinais e a enfermagem - a arte de assistir, de curar, de cuidar e de transformar os saberes. Rio de Janeiro: EDUFPI; 2002.

12. Almeida MCP, Rocha JSY. O Saber de enfermagem e sua dimensão prática. São Paulo: Cortez; 1989.

13. Geraldes ZA, Lim TA, Leite MM, Lemmi RC, Fernandes MA. Medicamentos vegetais de origem popular e suas implicações na assistência e ensino de enfermagem. Rev Esc Enf USP 1981;15(3):247-255.

14. Brasil. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília; 1996.

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