REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 10.3

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Relato de experiência

Interrupção do uso do tabaco: a consulta de enfermagem como estratégia para promoção da saúde baseada em protocolo

Tobacco interruption: nursing care as a strategy for health promotion based on protocol

Cristina Arreguy-Sena1; Eloiza Augusta Gomes2; Maria Inês Alves Cabral3; Sabrina Centellas 4; Leonardo Neves Fonseca4

1Enfermeira. Doutora. Professora Adjunto da Faculdade de Enfermagem da Universidade Fedral de Juiz de Fora. Docente do Curso de Residência de Enfermagem "Enfermagem Saúde do Adulto" da FACENF-UFJF
2Enfermeira. Especialista em Ações Institucionais em Saúde Coletiva e em Saúde do Adulto. Professora Substituta da Faculdade de Enfermagem-UFJF
3Enfermeira. Gerente do Serviço de Pronto Atendimento e Ambulatório do Hospital Universitário da UFJF
4Enfermeiro. Residente de Enfermagem em Saúde do Adulto pela Faculdade de Enfermagem da UFJF

Endereço para correspondência

Rua Olegário Maciel nº 1716/204, Paineiras
Juiz de Fora - MG. CEP: 36.016011
Telefax (32)3216.2532

Recebido em: 21/02/2006
Aprovado em: 04/07/2006

Resumo

Descrevemos nossa experiência para sistematizar e construir um protocolo que subsidie o atendimento realizado no Hospital Universitário-UFJF com clientela referendada pelo SUS em uso passivo/ativo de tabaco que procura a Consulta de Enfermagem para tratamento terapêutico. Apresentamos o instrumento de coleta de dados elaborado segundo Dorothéia Orem; aplicamos a linha de raciocínio de Risner para identificarmos o problema de enfermagem (Diagnóstico de Enfermagem). Foi adotada a taxonomia da NANDA para uniformizar o enunciado do diagnóstico de enfermagem e apresentar as diretrizes de abordagens do diagnóstico "Comportamento de busca de saúde" aplicado para a interrupção do uso do tabaco.

Palavras-chave: Cuidados de Enfermagem, Tabagismo, Enfermagem, Abandono do Uso de Tabaco, Tabaco

 

INTRODUÇÃO

O processo do cuidar é um traço humano universal, sendo vivenciado nos domicílios de maneiras e com intensidade distinta entre os povos e possuindo significados diferentes nas diversas culturas. Os determinantes históricos do surgimento da enfermagem como profissão remontam ao período em que as precursoras da enfermagem atendiam às demandas de guerra, sendo as atividades do cuidar realizadas nas frentes de batalhas ou nos campos de guerra com vista à preservação e/ou à recuperação precoce de soldados.(1)

Atualmente, embora a normatização do exercício da profissão seja regulamentada pelo Conselho da Categoria, encontramos no quotidiano dos profissionais enfermeiros os alicerces de sustentação da configuração das atividades laborais da profissão e em seus anseios a construção dos fundamentos científicos para sua atuação.(2)

Integrando a equipe multidisciplinar da área de saúde e coordenando a equipe de enfermagem, o Enfermeiro possui atribuições privativas à sua qualificação, dentre as quais destacamos: a realização da Consulta de Enfermagem, a prescrição de enfermagem, a prestação de cuidados diretos de enfermagem a pacientes graves com risco de vida, a realização de cuidados de enfermagem de maior complexidade técnica e que exijam conhecimentos de bases científicas e capacidade de tomar decisões diretas, dentre outros.(3)

Com base em nossa experiência e em consonância com as necessidades emergentes do exercício profissional contemporâneo, temos observado que a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), que teve seus fundamentos no Brasil lançados na década de 70, configura-se como sendo capaz de dar ao exercício profissional diretrizes que posicionam o Enfermeiro como o mediador de uma profissão que, embora tenha características manuais, é desenvolvida com base no processo científico, desencadeada a partir do raciocínio clínico capaz de instrumentalizar a equipe de enfermagem com inovações tecnológicas apropriadas à apreensão do seu objeto de atuação - o cuidado.

Embora todo o processo de implementação e consolidação da SAE - como um instrumento laboral útil para o exercício da profissão - tenha contado com opositores que mencionam restrições a seu uso (tais como: quantitativo de recursos humanos, configuração do processo de articulação multidisciplinar hegemônico, modelo de saúde hospitalocêntrico e curativista, sobrecarga de atividades administrativas sob a responsabilidade do enfermeiro, pouco investimento na capacitação da equipe de enfermagem, entre outros), a obrigatoriedade de sua utilização em todas as instituições de saúde brasileiras, constitui uma estratégia política da categoria evidenciada pela Resolução No 272/2002 do COFEN.(3)

De acordo com dados divulgados na literatura nacional(4,5,6),o tabagismo é considerado a maior causa de morbi-mortalidade evitável, sendo a multiplicação de estratégias para a interrupção de seu consumo passivo/ativo, quando bem estruturada, uma iniciativa de impacto do ponto de vista financeiro e epidemiológico para o setor saúde.

Considerando que a dependência ao tabaco é fator multidimensional, em nossa experiência, temos observado que a Consulta de Enfermagem constitui uma modalidade de atendimento às pessoas que consomem tabaco e seus derivados, capaz de assegurar abordagem terapêutica para as necessidades individualizadas do tabagista, sendo que o delineamento das ações de competência do Enfermeiro pode ser estruturado por meio de protocolo. Buscando subsidiar, na modalidade da Consulta de Enfermagem, o atendimento realizado por Enfermeiros às pessoas com comportamento de fumar, identificamos a necessidade de construir um protocolo por considerá-lo uma estratégia capaz de subsidiar simultaneamente a definição prévia das possibilidades terapêuticas, com suas respectivas fundamentações científicas, e das condutas a serem prescritas aos usuários, evitando improvisações ineficazes durante a Consulta de Enfermagem.

 

OBJETIVO

Analisar o processo de sistematização da assistência da Consulta de enfermagem como suporte terapêutico para interrupção do uso passivo ou ativo de tabaco; descrever a construção do instrumento destinado a coleta de dados e apresentar o protocolo elaborado para as principais abordagens do diagnóstico de enfermagem intitulado "comportamento de busca de saúde" aplicado para a interrupção do uso do tabaco.

 

MÉTODOS

Relato do conjunto de procedimentos utilizados para a estruturação da sistematização da assistência de enfermagem na modalidade de consulta destinada à clientela consumidora passiva ou ativa do tabaco que é atendida no ambulatório de uma instituição de ensino federal, tendo como fio condutor o julgamento clínico. A escolha do julgamento clínico deveu-se ao fato de ele possibilitar a criação de links estruturais entre as etapas de coleta de dados, bem como a definição do diagnóstico de enfermagem, a definição da meta terapêutica e a explicitação das intervenções de enfermagem.

Didaticamente, descrevemos a trajetória metodológica em seis fases, a saber: 1) realização de reuniões para aprofundamento bibliográfico sobre as diretrizes nacionais e internacionais de abordagem terapêutica para interrupção do uso do tabaco e realização do aprofundamento de contato com experiência do atendimento da consulta de enfermagem em outras áreas de atuação(4, 5, 7, 8, 9, 10, 11); 2) identificação de respaldo legal de inserção do profissional enfermeiro em ações de promoção da saúde na modalidade de consulta de enfermagem; 3) elaboração de um instrumento de coleta de dados baseado na teoria de Dorothéa Orem(12), 4) utilização da linha de raciocínio de Risner(13) para identificação do problema de enfermagem entre pessoas usuárias do tabaco; 5) aplicação da taxonomia da NANDA- North American Nursing Diagnosis Association(14) para enunciar o diagnóstico de enfermagem e 6) construção de protocolos para nortear/padronizar ações terapêuticas a serem utilizadas durante a consulta de enfermagem.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Com base no levantamento bibliográfico realizado, identificamos uma concordância nas recomendações da Sociedade Brasileira de Cardiologia, do Instituto Nacional de Câncer- INCA e nas publicações respaldadas pelo Ministério da Saúde, sendo essa a tendência atual de abordagem terapêutica brasileira para interrupção do uso do tabaco.(4, 5, 6)

Embora tenhamos identificado a recomendação para que todos os profissionais de saúde adotem um enfoque multidisciplinar no combate ao consumo passivo ou ativo do tabaco, foi necessário estabelecermos uma comparação entre as recomendações gerais existentes para a interrupção do uso do tabaco e aquelas passíveis de serem implementadas por Enfermeiros, com base na Resolução 272/2002(3). Para tanto, construímos um instrumento de coleta de dados, baseado na teoria de Dorothéia Orem(12), que apresentamos no QUAD. 1.

Após realizarmos a coleta de dados, aplicamos a linha de raciocínio de Risner(13) até a obtenção do diagnóstico de enfermagem, segundo a NANDA(14), ou seja, construímos por meio do raciocínio clínico a definição das situações em que o profissional Enfermeiro possui respaldo legal para intervir terapeuticamente. Nomeamos os problemas de enfermagem a partir da aplicação da taxonomia da NANDA(14, 16), conforme apresentado no QUAD. 2.

Com base no diagnóstico de Enfermagem explicitado, utilizamos um roteiro para definir a meta terapêutica, as intervenções a serem implementadas e os parâmetros a serem empregados na evolução das Consultas subseqüentes(13), conforme consta no quadro 3.

Buscando conciliar as recomendações nacionais e internacionais para interrupção do consumo do tabaco monitorada terapeuticamente(4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11) com a estruturação da Consulta de Enfermagem e pretendendo favorecer a uniformização de condutas terapêuticas recomendadas pelos residentes de enfermagem matriculados no Programa "Saúde do Adulto"/HU-UFJF durante a realização da Consulta de Enfermagem, elaboramos um protocolo (contendo diretrizes gerais para a interrupção do consumo do tabaco) passível de ser aplicado às pessoas inseridas no Programa de Interrupção do Consumo do tabaco-UFJF, com vista à promoção da saúde e ao favorecimento da interrupção do hábito de fumar.

Considerando que cada consulta de retorno possui como núcleo central da abordagem terapêutica a demanda emergente do usuário e da forma como ele fez o enfrentamento diante do início do tratamento de interrupção do consumo do tabaco, estabelecemos um protocolo (QUAD. 4) para a abordagem geral do diagnóstico intitulado "Comportamento de busca de saúde" com vista a nortear/auxiliar a abordagem terapêutica inicial. O conteúdo do protocolo contempla: 1) a identificação dos benefícios e as razões para se interromper o hábito de fumar; 2) as justificativas que poderiam subsidiar as crenças de que o tabaco é um droga de adição; 3) a definição de uma data para iniciar a interrupção do tabagismo; 4) os motivos que levaram ao insucesso do cliente em suas tentativas anteriores de parar de fumar; 5) as formas de enfrentamento do estresse; 6) as possibilidades de enfrentamento da síndrome de abstinência, entre outras.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para obtenção da sistematização da consulta de enfermagem, elaboramos um instrumento de coleta de dados baseado na Teoria de Dorothéia Orem (teoria do autocuidado), aplicamos a linha de raciocínio de Risner e a taxonomia da NANDA para identificarmos e uniformizarmos a forma de enunciar o diagnóstico de enfermagem e, simultaneamente, elaboramos um protocolo para subsidiar a realização da consulta de enfermagem de pessoas inscritas no programa de interrupção do tabaco.

A construção das etapas anteriormente mencionadas viabilizou a elaboração da consulta de enfermagem, norteando ações a serem orientadas e consolidando informações de fundamental importância no processo de incentivo à mudança de comportamento diante do hábito de fumar.

 

REFERÊNCIAS

1. Nightingale F. Notas sobre a enfermagem: o que é e o que não é. São Paulo: Cortez; 1989. 174p.

2. Brasil.Legislação e Normas: Lei n.7.498 de 25 jun.1986. Dispõe sobre a regulamentação do exercício da Enfermagem e dá outras providências. Diário Oficial da União, 26 jun. 1986; seção 1, p.9274.

3. Conselho Regional de Enfermagem-MG. Legislação e Normas. Resolução COFEN n.272/2002. Dispõe sobre a Sistematização da Assistência de Enfermagem- SAE- nas Instituições de Saúde Brasileira. Belo Horizonte, COREn-MG; 2003.

4. Brasil. Ministério da Saúde. Instituto Nacional de Câncer. Preciso deixar de fumar... me ajuda? Brasília: Ministério da Saúde; 1999. 18p.

5. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria Nacional de Assistência à Saúde. Instituto Nacional de Câncer. Coordenação Nacional de Controle do Tabagismo e Prevenção Primária de Câncer. (Contapp). Deixando de fumar sem mistérios: manual do participante. Rio de Janeiro: INCA; 1997. 33p.

6. Mion Jr D, Nobre F. Risco Cardiovascular global: convencendo o paciente a reduzir o risco. São Paulo: Lemos Editorial; 2002.:138-160.

7. Fageström KO. Measuring degree of physical dependence to tobacco smoking with reference to individualization of treatment. Addic Behav 1979;3:235-41.

8. West R, Mcneill A, Raw M. Smoking cessation guidelines for health professionals: an update. Thorax 2000;(55):987-99.

9. Laranjeiras R, Pillon S, Dunn J. Environmental tobacco smoke exposure among non-smoking waiters: measurement of expired carbon monoxide levels. Med J Rev Paul Med 2000;118(4):89-92.

10. Marley MW, Wpps RP, Glynn TJ. The clinician's role in promoting smoking cessation among clinic patients. Med Clin North Am 1992;76:477-94.

11. Laranjeiras R, Lourenço MTC, Samaia HB. Como ajudar seu paciente a parar de fumar. Diagn Tratam.1998;(3):44-9.

12. George JB, Organizadora. Teorias de enfermagem: os fundamentos para a prática profissional. In: Foster PC, Janssens NP. Dorothéa e Orem. Porto Alegre: Artes Médicas; 1993. p. 90-107

13. Sena CA, Carvalho EC, Rossi LA, Rufino ME. Estratégias de implementação do processo de enfermagem para uma pessoa infectada pelo HIV. Rev Latino-Am Enf 2001 jan.;9(1):27-38.

14. North American Nursing Diagnosis Association. Diagnósticos de Enfermagem da NANDA: Definições e classificação 2005-2006. Porto Alegre: Artmed; 2006. 312p.

15. Porto CC. Exame clínico: bases para a prática médica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2004.

16. Arreguy-Sena C, Stuchi RAG, Carvalho EC. Boulding e a segunda versão da taxonomia da NANDA: estratégia aplicada ao processo ensino-aprendizagem. In: Anais do Simpósio Brasileiro de Comunicação em Enfermagem- SIBRACEN. Ribeirão Preto: EERP-USP; 2003.

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