REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 9.3

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Revisão Teórica

Análise do conceito de grupo como estratégia para o cuidado de enfermagem

Analysis of the group concept as a strategy for the nursing care

Maria Adelane Alves MonteiroI; Ana Karina Bezerra PinheiroII; Glória da Conceição Mesquita LeitãoII

IEnfermeira Mestranda em Enfermagem em Saúde Comunitária e Enfermeira Assistencial da Santa Casa de Sobral - CE
IIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente do Curso de Enfermagem da UFC

Endereço para correspondência

Rua Dr. Manuel Marinho, 171, Domingos Olímpio
Sobral - CE
E-mail: jeesuita@ig.com.br

Recebido em: 09/03/2005
Aprovado em: 23/03/2005

Resumo

O trabalho em grupo traz benefícios enquanto estratégia para atuação da enfermagem. O estudo teve como objetivos analisar o conceito de grupo e analisar como a enfermagem vem desenvolvendo o trabalho com grupos. Trata-se de uma revisão bibliográfica para orientar o desenvolvimento de um projeto de pesquisa sobre como o grupo pode contribuir no cuidado de enfermagem realizado às puérperas que estão acompanhando o filho hospitalizado. Considerando que a enfermagem já vem utilizando o grupo como recurso metodológico, é preciso que este continue sendo investigado para que possa contribuir de forma mais concreta para a prática.

Palavras-chave: Cuidados Primários de Saúde, Puerpério, Enfermagem Materno-Infantil

 

INTRODUÇÃO

Foi implantado em Sobral - CE um projeto de saúde materno-infantil financiado pelo convênio entre a Confederação das Misericórdias do Brasil e o Banco Interamericano de Desenvolvimento. Esse projeto tinha como objetivo implantar um Modelo de Atenção à Saúde Materno-Infantil no município e acompanhava gestantes de risco por toda a gravidez, parto e puerpério.

Funcionou de 1999 a março de 2004, em um hospital filantrópico de referência secundária e terciária. Em 2001, o mesmoprojetoimplantou um local onde as puérperas residentes em outras localidades, cujos recém-nascidos (R.N.) precisassem ficar hospitalizados na unidade neonatal de cuidados intermediários a qual não dispõe de estrutura física para que as mães permaneçam no setor, pudessem ser alojadas e acompanhar seus filhos.

Trata-se de uma casa com ambiente familiar e acolhedor, localizada vizinho ao hospital e que veio possibilitar a prática do aleitamento materno exclusivo entre puérperas e os R.N. internados, auxiliando na recuperação dos bebês e também permitir a aproximação entre estes contribuindo desta forma, para o fortalecimento dos laços afetivos entre pais e filhos1, pois a separação da mãe e de seu bebê de forma tão precoce é prejudicial devendo ser criadas alternativas que não ocasionem essa separação2.

Essas mães vivenciam uma experiência nova ao serem alojadas nesse local, pois até então as crianças que necessitassem de hospitalização eram separadas de suas mães que só as viam por ocasião da visita. O que mais chama a atenção é a forma como cada uma reage de maneira diferente diante das circunstâncias que envolvem está longe da família por tanto tempo, com o R.N. hospitalizado e ainda atravessando uma fase importante do ciclo gravídico-puerperal que é o puerpério.

Na etapa do puerpério, há a necessidade de readaptação diante das mudanças ocorridas com a chegada do bebê. Algumas mães, em poucas semanas já retomam seu percurso familiar, ao mesmo tempo em que se sentem disponíveis para cuidar de seu bebê. Para outras, trata-se de uma tarefa bastante difícil, podendo apresentar sintomas especiais que merecem atenção e cuidado2.

A transcendência de uma condição (ser mulher) à outra (ser mãe) é um processo de crescimento e amadurecimento que exige um olhar diferenciado do profissional de saúde, pois são vivenciadas experiências que traduzem: dá conta do nascimento do bebê e de suas obrigações, de assumir a responsabilidade por ele, a sua vulnerabilidade, chegar ao limite de sua capacidade, extravasar seus sentimentos e perceber-se como mãe3.

Diante de toda a complexidade dos fatores envolvidos no período puerperal e levando-se em conta que a mãe que está com o R.N. hospitalizado não pode participar do sistema de alojamento conjunto que tanto possibilita a aproximação mãe-filho como permite desenvolver habilidade e compromisso materno em relação ao cuidado com a criança4, nos questionamos como a enfermagem poderia prestar cuidados de forma eficiente que pudesse atender as necessidades da puérpera que estivesse vivenciando esta experiência.

Sabe-se que o trabalho em grupo é uma realidade no cotidiano do enfermeiro, sendo vivenciado em todo o período da sua formação acadêmica, bem como em toda sua vida profissional, seja na atenção direta aos clientes, ou na relação com a equipe10.

Dessa forma, considerando que o trabalho em grupo traz benefícios atuando como estratégia para o exercício da enfermagem, pretendemos desenvolver uma pesquisa sobre como o grupo pode contribuir no cuidado de enfermagem prestado as puérperas que estão acompanhando o filho hospitalizado.

Para a realização dessa investigação é necessário que desenvolvemos conceitos para o objeto de estudo e que estes se tornem claros e precisos para que tenham maior utilidade na pesquisa.

Conceitos são as idéias do autor que dirigem sua proposta; de sua definição se desenvolve a correspondência entre o construído e a realidade. Expressa o modo como o autor percebe a realidade em seu contexto. Um conceito é uma imagem ou representação simbólica de uma idéia abstrata e o significado ou enunciação de um conceito é sua definição6,7.

De acordo com as mesmas, como os conceitos são a base para aperfeiçoar idéias e desenvolver teoria, é importante que um pesquisador escolha aqueles que refletem claramente o tema.

Em alguns estudos é destacada a utilidade de definir conceitos como meio de esclarecer os propósitos, orientar as funções e assegurar os resultados de uma investigação8 . Analisá-los é um exercício intelectual em enfermagem. Esse processo é de grande importância para a enfermagem por sinalizar uma organização lógica e semântica de concepções 9.

Desta forma, poderemos refletir sobre o trabalho em grupo como cuidado de enfermagem na tentativa de construir um marco conceitual para orientar o desenvolvimento da referida pesquisa.

Portanto, o presente estudo tem como objetivos analisar o conceito de grupo e a maneira como a enfermagem vem desenvolvendo o trabalho com grupos.

 

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo do tipo descritivo, caracterizado por uma pesquisa bibliográfica realizada no período de maio a junho de 2004.

A pesquisa bibliográfica é associada a uma revisão de literatura conduzida para facilitar a seleção e delimitação do tema, propósito ou desenvolvimento de um marco teórico, a escolha de métodos e técnicas na condução de qualquer pesquisa. As autoras afirmam que este tipo de pesquisa inclui os estudos que propõem a construção de teorias e marcos conceituais pelo método dedutivo e estudos conduzidos para traçar uma imagem do saber produzido ou os vazios em determinado fenômeno10.

A investigação foi efetuada via Internet, junto à Biblioteca Virtual em Saúde do Centro Latino Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde - BVS/BIREME onde foram pesquisados os periódicos do período de 1994 a 2004, indexados nas bases de dados Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde - LILACS e Banco de Dados de Enfermagem - BDENF. Também foram consultados a Revista da Rede de Enfermagem do Nordeste - RENE e o Banco de Teses - CAPES. Utilizamos os seguintes descritores: cuidado, enfermagem e grupo.

Para auxiliar no processo de conceptualização do termo grupo, recorremos à literatura da área de psiquiatria e psicologia, onde escolhemos para utilizar neste estudo, os conceitos de Zimerman & Osório(12) e Rogers(11) .

Foram encontrados 27 estudos apresentando a abordagem grupal no cuidado de enfermagem, sendo 16 na LILACS e BDENF, 5 na RENE e 6 no Banco de Teses - CAPES. Todos foram analisados qualitativamente, sendo que apenas os mais relevantes estão citados no presente trabalho.

 

CONCEITUANDO O TERMO GRUPO

O homem é um ser de natureza gregária, por necessidade, antes mesmo de ter consciência deste fato. Grande parte das atividades cotidianas do ser humano é desenvolvida em grupos, tornando-se de grande relevância o estudo sobre o tema.

"É evidente que houve e sempre haverá grupos, enquanto o homem sobreviver neste planeta" e, segundo o autor é a mais poderosa invenção social do século e a que mais rapidamente se expande. Isso se deve ao fato de uma crescente desumanização de nossa cultura e uma conseqüente fome de relações próximas e verdadeiras, em que sentimentos e emoções possam se expressar espontaneiamente11.

A primeira experiência do indivíduo com grupos ocorre na infância, em sua família, um grupo natural. A segunda para a maioria das pessoas é a escola. Assim, a associação em grupos é uma parte importante da vida de qualquer um, porque os seres humanos são inerentemente sociais e os indivíduos dependem uns dos outros para serviços que necessitam.

Na busca do entendimento da grupalidade nata do ser humano, vale tentar compreender o significado do termo grupo.

Grupo não é um mero somatório de indivíduos; pelo contrário, ele se constitui como uma nova entidade, com leis e mecanismos próprios e específicos. É semelhante a um organismo, possuindo o sentido da sua própria direção, ainda que não possa definir intelectualmente essa direção11,12.

O grupo é uma entidade em si, com qualidades que podem diferir daquelas de cada membro em particular. A concepção que as autoras têm a respeito de grupo é que ele é o mediador da relação entre o todo e a particularidade do indivíduo13. Por isso, não é possível analisarmos o grupo de forma isolada, especialmente quando se trata de utilizá-lo como forma de ajuda entre pessoas.

Outras autoras atribuem ao grupo um significado amplo, que vai além da reunião de um número determinado de pessoas em um local, mas pressupõe alguns pontos que envolvem todos os integrantes, incluindo o facilitador, como: parceria, respeito, ética, simplicidade, transparência, entre outros14.

O grupo também é um espaço onde o participante deve ser valorizado como pessoa humana e, suas potencialidades devem ser ressaltadas e energizadas, a fim de ajudá-lo a superar suas limitações e obter reações para o enfrentamento de situações difíceis. A terapia promovida através de grupos de auto-ajuda, por exemplo, com base na utilização de uma linguagem única e familiar, da receptividade, do estímulo e do apoio dos organizadores, contribui para o crescimento pessoal dos integrantes do grupo15.

O grupo deve se estruturar a partir da realidade existente. Todos os membros do grupo devem ter sua própria maneira de pensar e agir, sendo que todos devem direcionar suas ações para um determinado fim. Portanto, o grupo se constrói através da constância presença de seus elementos e na rotina de suas atividades, na organização de seus encaminhamentos e pelas diferenças entre seus participantes. As explosões e os conflitos também auxiliam na formação de um grupo, bem como a cumplicidade da alegria, da raiva, da tristeza do medo e do prazer16.

A respeito da característica de totalidade do grupo, autores fazem analogia com a relação entre as peças separadas de um quebra-cabeças e deste com o todo a ser armado. Apesar de um grupo se configurar como uma nova entidade, é indispensável que se preserve as identidades específicas de cada um dos indivíduos12.

Todos os integrantes de um grupo estão reunidos em torno de uma tarefa e objetivo comuns e é inerente ao conceito de grupo a existência entre seus membros de uma interação afetiva12.

Os grupos assumem diversos formatos conforme suas finalidades, podendo ter o objetivo de oferecer suporte, realizar tarefas, socializar, aprender mudanças de comportamentos, treinar relações humanas e oferecer psicoterapia13. Também podem ser classificados como operativos (ensino-aprendizagem, institucionais, comunitários e terapêuticos) ou psicoterapêuticos (psicodramático, teoria sistêmica, cognitivo-comportamental e psicanalítico)12.

No entanto, o grupo pode não funcionar com apenas um objetivo. Embora, na maioria das vezes, seja o coordenador quem estabelece o objetivo central do grupo é possível que no seu desenvolvimento outros objetivos possam ser estabelecidos e incorporados pelas próprias necessidades do grupo. Portanto, o coordenador deve ser sensível para perceber o movimento do grupo e para trabalhar de forma flexível com o que emerge13.

Assim, o papel do coordenador é de suma importância, dependendo também do desempenho deste, o sucesso do andamento do grupo.

"O modelo das lideranças é o maior responsável pelos valores e características de um grupo, seja ele qual for." São exemplos deatributos um coordenador de grupo deve possuir: gostar e acreditar e grupos, amar a verdade, trabalhar com coerência, senso de ética, respeito, paciência, comunicação, empatia, síntese e integração, entre outros12.

Entretanto, outro autor já atribui ao papel do coordenador o de facilitador, que deve desejar que o grupo desenvolva suas próprias direções sem fixar um objetivo específico. O facilitador deve criar um ambiente propício, aceitar o grupo e cada indivíduo, compreendê-los, atuar segundo aquilo que sente e evitar comentários interpretativos11.

Quando o enfermeiro se propõe a trabalhar com grupos no atendimento das necessidades do cliente deve-se questionar como e por que utilizar esse recurso e sentir-se preparado. Também é necessária a sondagem das expectativas e aceitação da instituição/sistema de saúde frente a proposta de trabalhar com grupos, sendo fundamental o apoio desta no que diz respeito a liberação de recurso materiais, espaço físico e do próprio profissional para essa atividade13.

Desta forma, consideramos o grupo não só como um recurso que a enfermagem pode utilizar na prestação de seus cuidados, mas também e principalmente por se tratar de um espaço terapêutico natural, uma necessidade em casos especiais que envolvem circunstâncias geradoras de sofrimento, pois não há como cuidar da saúde de um indivíduo de forma integral, se seu componente emocional encontra-se afetado.

 

TRABALHO EM GRUPO: ESTRATÉGIA PARA O CUIDADO DE ENFERMAGEM

O marco histórico do desenvolvimento do trabalho com grupos se deu em 1905 nos EUA, onde Dr. Pratt iniciou sua primeira experiência com pacientes tuberculosos. No campo da psiquiatria, no início da década de 20 foram inseridos os primeiros trabalhos de grupo no tratamento de pacientes psiquiátricos institucionais, surgindo mais tarde a terapia grupal fora das instituições13.

Jacob Lewin Moreno cria no início do século a abordagem psicodramática na condução da psicoterapia grupal. Na década de 30, Kurt Lewin usa a expressão "dinâmica de grupo", influenciando o aparecimento dos grupos de crescimento pessoal na década de 60 e os anos 70 foram marcados pela consolidação dos grupos de auto-ajuda13.

Na enfermagem, a enfermeira norte-americana Máxime Loomis tem como base para seu trabalho, a obra de Yalon, psiquiatra que estudou o grupo quanto instância terapêutica. Loomis desde 1979 tem servido de guia para enfermeiros na compreensão do trabalho grupal13.

Nota-se que muitos deram sua contribuição na evolução do processo de utilização da abordagem grupal, fazendo com que atualmente várias correntes possam ser seguidas. Na área da enfermagem não se trata de uma novidade, pois há vários registros da utilização dessa estratégia.

Percebemos através da pesquisa que embora o trabalho grupal não faça parte da prática diária de todos os profissionais de enfermagem, consiste atualmente, em uma preocupação de estudiosos na tentativa de firmá-lo como opção para a qualificação do trabalho do enfermeiro, para a humanização da assistência por ele prestada e ainda, como alternativa para esse profissional que poderá atender várias pessoas ao mesmo tempo com muito mais qualidade, considerando os "fatores curativos" que podem ocorrer no grupo17,18.

O trabalho em grupo também aparece como uma possibilidade de incrementar a qualidade da assistência de enfermagem em estudos realizados com grupos de gestantes, revelando-se como uma forma destas obterem melhor entendimento da maternidade. As participantes e seus acompanhantes podem expressar suas ansiedades, trocar experiências e informações úteis, esclarecer dúvidas, desenvolver trabalho corporal e ainda conhecer as rotinas e área física da maternidade nos grupos. Esse trabalho faz com que aprendam técnicas para enfrentar os períodos de gestação, parto e pós-parto, de maneira positiva, vivenciando de forma mais tranqüila o momento da internação e todo o processo do nascimento19,20.

O Grupo de Encontro busca que cada membro se revele como pessoa através da verbalização dos sentimentos12. Na enfermagem os grupos de encontros têm privilegiado temas relacionados à saúde, encontrando-se registros da formação de grupos com: hipertensos, diabéticos, cardíacos, gestantes, puérperas entre outros. O mesmo foi considerado uma ferramenta de ação em estudos, com grande relevância para o processo do cuidado humanístico. . Os "Grupos de Encontro em Saúde" ensejam que as pessoas que vivem problemas comuns de saúde relatem seus sentimentos, medos, ansiedade, buscando respostas. No estudo de Cardoso(21) a enfermeira participou como coordenadora desse tipo de grupo, traçou estratégias e métodos que contemplaram os objetivos de propiciar o bem-estar das participantes, mães de crianças com deficiência ocular em tratamento.

Ora, se é função da enfermagem promover a saúde do individuo, e se considerarmos o conceito de saúde em toda sua dimensão, é mister que o enfermeiro busque meios para o seu alcance, de forma que todas as necessidades do cliente sejam atendidas.

Trabalhos demonstram como os "grupos de espera" sugerem uma alternativa para o cuidado de enfermagem, tendo sido a atuação do enfermeiro a de facilitador, nesse momento. Em ambulatórios de saúde mental com a participação dos pacientes psiquiátricos e seus familiares é possível proporcionar um espaço onde todos podem colocar suas ansiedades e dúvidas, principalmente em relação aos cuidados com o doente mental22,23.

A formação de grupos também tem demonstrado resultados positivos no que concerne o trabalho com familiares de pacientes ou pessoas acometidas com alguma patologia. Um estudo apresenta a experiência com adultos familiares, responsáveis pelo cuidado domiciliar à criança portadora de Diabetes Melllitus24.

Estudos como estes servem como fonte para redimensionarmos a prática da enfermagem. Durante a realização dos mesmos as famílias mostraram-se abertas e com interesse em participar desse tipo de experiência. Podemos considerar um aspecto positivo no que diz respeito à qualidade da assistência prestada ao cliente, pois as famílias se constituem grandes aliadas na realização do cuidado efetivo.

O relato de experiência de uma prática assistencial com o propósito de desenvolver a educação em saúde participativa a pessoas ostomizadas a partir da formação de grupos, revelou que a abordagem com base na relação dialógica possibilitou compartilhar saberes e experiências entre os membros do grupo e a desenvolver estratégias de enfrentamento mais efetivas25, pois embora cada vez mais seja investido na educação em saúde, muito ainda se tem a progredir.

Estudos sobre a prática de cuidado educativa aplicados em grupos específicos de mulheres demonstram como ainda a assistência situa-se no descompasso entre o que é oferecido e o que a clientela deseja. Apontam para a necessidade de a enfermagem construir um modelo de assistência que possibilite compreendê-la em seu contexto, atendendo as suas necessidades reais26.

Assim, se as experiências com a realização de diferentes tipos de grupos para desenvolver educação em saúde têm apontado para a relevância dessa opção16, resta-nos aplicá-la na tentativa de promover uma ação educativa participante, crítica, reflexiva e transformadora, alicerçada em teoria e método. Procurando adequar à realidade em que atuamos e aperfeiçoando-nos cada vez mais. Talvez, desta forma nossa clientela possa realmente ser assistida com qualidade.

A eficiência do grupo como um recurso para trabalharmos a ansiedade, medo e tensão, presentes durante a internação, foi destacada quando se utilizou o grupo de suporte/apoio para abordagem do paciente cirúrgico internado18.

O trabalho da enfermagem com grupos também tem contribuído para a reabilitação de pessoas e, especialmente, favorecido o processo de aceitação de viver com uma condição crônica de saúde. Ele oferece suporte para desenvolver suas atividades da vida diária e, conseqüentemente, uma melhor qualidade de vida16.

Após a vivência com um grupo de mães com recém-nascidos internados, autoras relatam acreditar que os grupos se constituem em um espaço para livre expressão e contribuem para que as mães com seus filhos internados sintam-se mais apoiadas e valorizadas, pois, segundo as mesmas a experiência grupal entre pessoas com problemas semelhantes pode favorecer relações de ajuda entre seus participantes14.

Outra experiência relata a implementação de ações dirigidas aos pais de bebês hospitalizados, através da formação de grupos de apoio. Essa iniciativa tornou-se um programa executado por alunas de enfermagem, onde se desenvolve treinamento para alta, envolvimento dos pais no cuidado progressivo do filho, técnicas de dinâmica de grupo, atividades manuais e discussão de temas básicos27.

É nesse sentido, por meio de estratégias como estas que se espera contribuir com o processo de construção de uma assistência mais integral e humanizada. Desta forma, o cuidado pode ser realmente realizado numa visão holística, onde além de assistir o bebê hospitalizado, os pais recebem atenção. Consideramos, diante disso, que o grupo pode surgir como uma forma de prestar cuidado a toda família.

Estudando a interação no grupo de auto-ajuda de mulheres mastectomizadas, autores afirmam que a enfermagem é uma profissão que deve utilizar a técnica grupal para prestar assistência ao paciente, pois favorece a enfermeira na identificação de necessidades, dúvidas, interesses e medos externados pela clientela, fator de extrema importância para o direcionamento dos cuidados e sucesso do tratamento15.

Numa experiência em grupo realizada com uma equipe de profissionais que integram assistência ao binômio mãe/filho na Unidade de Internação Neonatal de uma Maternidade pública de alta complexidade, autoras relatam que o trabalho realizado em grupo resulta em mudanças significativas para o crescimento coletivo, melhorando a auto-estima, na responsabilidade pessoal e profissional, o respeito ao outro e o cuidar, essência da arte da enfermagem28.

Outros trabalhos revelam a importância de desenvolver este tipo de experiência para estimular a reflexão e contribuir para a construção do conhecimento sobre o cuidador em saúde. Através da proposta de um espaço para expressão, vivências e imaginação incentivada foi possível considerar o cuidado dependente de quem o aplica, levando-se em conta as implicações dos profissionais na instituição de trabalho, além das implicações pessoais29.

Percebemos desta forma, que o trabalho em grupo pode contribuir para o cuidado de enfermagem quando também proporciona benefícios para o profissional que interage com os participantes no desenvolvimento do processo grupal. Também apresenta-se como estratégia no sentido de fortalecer o trabalho em equipe, repercutindo no cuidado prestado pela enfermagem.

O trabalho em grupo foi considerado um instrumento de grande valia para o enfermeiro no planejamento de sua intervenção, oferecendo caminhos para o cuidado emocional. No entanto, requer preparo específico do profissional e domínio da dinâmica grupal, como forma de melhor aproveitar os "fatores curativos" do grupo30.

Trabalhar com grupo e vivenciar sua trajetória podendo refletir sobre seus movimentos é fundamental para apreendermos o papel de coordenador de atividades grupais, suas dificuldades e desafios. Apesar do trabalho grupal estar integrado ao cotidiano de nossas vidas, e muitas vezes ser nossa ferramenta de trabalho, nem sempre consideramos os determinantes ligados ao seu êxito ou ao fracasso. A união entre embasamento teórico, reflexão e experiência concreta no trabalho grupal, traz a verdadeira aprendizagem acerca do grupo de deus benefícios enquanto estratégia para o trabalho da enfermagem30.

Segundo as mesmas autoras, o grupo é possuidor de vida própria e única, em que cada componente é um ser repleto de experiência, sentimentos e conhecimentos. Acreditam que quando consideramos esses aspectos no cuidado de enfermagem podemos dizer que estamos desenvolvendo assistência que tem como fundamento melhorar a qualidade de vida, que pode ser entendida para o cliente, mas também para o profissional, permitindo-lhe ter prazer no que faz e sentir-se satisfeito com o seu trabalho.

Diante do exposto, percebemos que trabalhar com grupos na enfermagem vem se constituindo em uma prática cada vez mais freqüente e valorizada. Reconhecemos que a literatura disponível em enfermagem dispõe de estudos diversificados em relação ao sucesso do trabalho com grupos, permitindo a divulgação dessa estratégia bem como o desenvolvimento de pesquisas cada vez mais aprofundadas sobre a temática.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Consideramos que a comunidade científica de enfermagem vem estudando os benefícios do grupo enquanto estratégia para a qualidade da assistência em diversos contextos, possuindo caráter de ensino-aprendizagem para o âmbito da docência; preventivo, quando se constitui estratégia de enfrentamento; operativo, na tentativa de se fazer educação em saúde de uma forma mais participativa; como recurso terapêutico, entre outros.

Em todos os estudos foi ressaltada a possibilidade de interação, diálogo, troca de experiência, aprendizado, ajuda como mecanismos inerentes ao grupo. Lembramos aqui que todos esses fatores devem fazer parte das ações que constituem a assistência de enfermagem.

Apesar do grupo conduzir seu próprio caminho, não podendo o facilitador prever seu andamento, percebemos que é necessário somar às experiências existentes com o trabalho em grupo, o aprofundamento teórico sobre essa prática, no intuito de tornar essa intervenção mais efetiva.

Desta forma, além de ser utilizado e estudado na enfermagem como um recurso metodológico ou uma técnica para se alcançar determinado fim, é preciso que o grupo continue sendo investigado, no que diz respeito à elaboração de teorias. Assim, é possível contribuir de forma mais concreta para o conhecimento científico e para a prática de enfermagem.

 

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