REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 16.1

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Pesquisa

Satisfação e frustração no desempenho do trabalho docente em enfermagem

Satisfaction and frustration in the performance of nursing faculty job

Maithê de Carvalho e LemosI; Joanir Pereira PassosII

IEnfermeira egressa da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Mestranda-bolsista CAPES do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UNIRIO. Integrante do Grupo: Laboratório de Pesquisa: Enfermagem, Tecnologias, Saúde e Trabalho. E-mail: mait_lemos@yahoo.com.br
IIDoutora em Enfermagem. Professora Associada do Departamento de Enfermagem de Saúde Pública da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Líder do Grupo: Laboratório de Pesquisa: Enfermagem, Tecnologias, Saúde e Trabalho. E-mail: joanirpassos@bol.com.br

Endereço para correspondência

Rua João Pinto, 114, Piratininga
Niterói, Rio de Janeiro-RJ. CEP: 24358-210
E-mail: joanirpassos@bol.com.br

Data de submissão: 30/09/2010
Data de aprovação: 06/10/2011

Resumo

A satisfação no trabalho é um fenômeno complexo e de difícil definição, por se tratar de um estado subjetivo, podendo variar de acordo com a pessoa, com as circunstâncias e com o tempo. Ela pode afetar a saúde física e mental do trabalhador, interferindo em seu comportamento profissional e/ou social. Os objetivos com este estudo foram identificar e classificar as expressões de satisfação no desempenho do trabalho do docente de enfermagem. Optou-se pela realização de uma pesquisa descritiva, com abordagem qualitativa. Os 21 sujeitos participantes eram docentes enfermeiros. Para coleta dos dados foi utilizada como instrumento a entrevista semiestruturada individual. Os aspectos éticos foram respeitados. Obteve-se a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Instituição envolvida. Como resultado, verificou-se que a satisfação no trabalho docente significa, para os entrevistados, um conjunto de fatores ideais que devem ser bem articulados no ambiente laboral e que cada um desses elementos, isoladamente, não proporciona a satisfação plena no que diz respeito ao processo produtivo do docente de enfermagem. Concluiu-se que o significado gerado do relato de pessoas que estão na lida diária com as atividades pertinentes à sua profissão deve ser considerado como relevante para a instituição à qual pertencem, de forma a otimizar o ambiente de trabalho e potencializar a qualidade de vida nele, gerando resultados positivos na produção.

Palavras-chave: Saúde do Trabalhador; Docente de Enfermagem; Satisfação no Trabalho

 

INTRODUÇÃO

Na busca da produção do conhecimento em enfermagem, observamos que a ênfase dos estudos relativos à saúde do trabalhador de enfermagem está voltada para a assistência. Diante de tal fato, surge o interesse sobre a relação trabalho-saúde-doença, priorizando o prazer e a frustração do trabalho docente de enfermagem.

O termo "trabalho" se refere a uma atividade própria do homem, entendido como um processo entre a natureza e o homem. Nesse processo, ao final do trabalho humano surge um resultado que antes do início do processo já existia na mente do homem. Assim, trabalho em sentido amplo é toda a atividade humana que transforma a natureza de dada matéria. A palavra deriva do latim tripaliare, que significa torturar; daí passou à ideia de sofrer ou esforçar-se e, finalmente, de trabalhar ou agir. O trabalho, em sentido econômico, é toda atividade desenvolvida pelo homem sobre uma matéria-prima, geralmente com a ajuda de instrumentos, com a finalidade de produzir bens e serviços.1

No caso dos professores, o significado de seu trabalho é formado pela finalidade da ação de ensinar, isto é, pelo seu objetivo e pelo conteúdo concreto efetivado através das operações realizadas conscientemente pelo professor, considerando as condições reais e objetivas na condução do processo de apropriação do conhecimento pelo aluno. [...] O trabalho docente concebido como uma unidade, é considerado em sua totalidade que não se reduz à soma das partes, mas sim em suas relações essenciais, em seus elementos articulados, responsáveis pela sua natureza, sua produção e seu desenvolvimento. A análise do trabalho docente, assim compreendido, pressupõe o exame das relações entre as condições subjetivas - formação do professor - e as condições objetivas, entendidas como as condições efetivas de trabalho, englobando desde a organização da prática - participação no planejamento escolar, preparação de aula etc. - até a remuneração do professor.2:21

O trabalho docente é permeado de situações com intencionalidade, problematização e enfrentamento que induzem o professor a renovar estratégias para produzir um ensino inovador. Na enfermagem, a reprodução do processo de ensino-aprendizagem em uma organização curricular fechada dificulta a interação do professor com seus alunos, inviabiliza o pensamento reflexivo, e por fim, gera frustrações a ambos.3

O docente em enfermagem, portanto, passou a enfrentar diversos problemas, como conhecer a teoria, possuir a vivência prática, lidar com exigências da carreira universitária e ainda saber como administrar a relação docente-aluno de maneira a contribuir de forma positiva no aprendizado.4 Desse modo, entendemos que o processo de trabalho do docente em enfermagem envolve os seguintes elementos: pessoas - alunos, indivíduos doentes ou indivíduos/grupos sadios, os quais constituem seu objeto de trabalho; os instrumentos, as condutas didático-pedagógicas e técnicas próprias dessas áreas de conhecimento - o saber (educação e saúde) - , que representam os meios de trabalho; e as atividades desenvolvidas por esses profissionais - os docentes têm por finalidade: a formação (o ensino), a produção científica (o saber técnico) e a assistência (o fazer - cuidado), que determinam o produto final do trabalho docente.

Os valores das organizações também podem ser uma das fontes geradoras de prazer no trabalho, se favorece o trabalho flexível, com possibilidade de negociações das regras e normas dos processos de trabalho, com participação dos trabalhadores e gestão coletiva das necessidades individuais e organizacionais. Quando isto não acontece, dá-se lugar ao sofrimento no trabalho, que pode muitas vezes ser mascarado, levando à dificuldade de identificação de suas causas e meios para que haja uma transformação.5

As vivências de prazer-sofrimento formam um único constructo composto por três fatores: valorização e reconhecimento, que definem o prazer; e desgaste com o trabalho, que define o sofrimento. O prazer é vivenciado quando são experimentados sentimentos de valorização e reconhecimento no trabalho. A valorização é o sentimento de que o trabalho tem sentido e valor por si mesmo, é importante e significativo para a organização e a sociedade. O reconhecimento é o sentimento de ser aceito e admirado no trabalho e ter liberdade para expressar sua individualidade. O sofrimento é vivenciado quando experimentado o desgaste em relação ao trabalho, que significa a sensação de cansaço, desânimo e descontentamento com o trabalho. Assim sendo, prazer-sofrimento são vivências de sentimentos de valorização, reconhecimento e/ou desgaste no trabalho.5:40

Satisfação no trabalho é um fenômeno complexo e de difícil definição, por se tratar de um estado subjetivo, podendo variar de pessoa para pessoa, de circunstância para circunstância e ao longo do tempo para a mesma pessoa. A satisfação está sujeita à influência de forças internas e externas ao ambiente de trabalho imediato. Ela pode afetar a saúde física e mental do trabalhador, interferindo em seu comportamento profissional e/ou social.6

Nesse contexto, o objeto deste estudo é a satisfação no desempenho do trabalho docente.

 

OBJETIVOS

Identificar e classificar as expressões de satisfação e frustração no desempenho do trabalho docente em enfermagem.

 

METODOLOGIA

Considerando o recorte estabelecido e o objeto deste estudo, a satisfação no desempenho do trabalho docente de enfermagem, optou-se pela realização de uma pesquisa descritiva, com abordagem qualitativa.

O cenário do estudo foi uma instituição pública de ensino superior, da cidade do Rio de Janeiro, onde os dados foram coletados nos meses de setembro e outubro de 2009. Os participantes foram constituídos por docentes enfermeiros, totalizando 21 sujeitos. Foram adotados os seguintes critérios de inclusão e exclusão de sujeitos, respectivamente: fazer parte do quadro permanente e fazer parte do quadro de docentes temporários da instituição.

Para coleta dos dados, utilizamos como instrumento a entrevista semiestruturada e individual, direcionadas para estabelecer o perfil dos participantes e identificar as expressões de prazer e frustração no desempenho do trabalho docente.

Para a análise das entrevistas, adotamos os seguintes procedimentos: leitura e re-leitura das entrevistas e mapeamento das falas individuais com base na leitura e dos objetivos da pesquisa, destacando as palavras e/ou frases significativas interpretadas pelas pesquisadoras. Posteriormente, foram analisadas e classificadas à luz do referencial teórico de satisfação e frustração no trabalho.

É importante ressaltar que todos os cuidados relacionados aos aspectos éticos envolvidos na pesquisa foram devidamente observados, o projeto foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Instituição envolvida (CAAE: 0014.0.313.000-09), sob o nº 17/2009, de acordo com estabelecido na Resolução nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde.7

Os sujeitos manifestaram aceitação em participar da pesquisa, por escrito, mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), e lhes foi facultada a possibilidade de desistirem a qualquer momento de participar, sem qualquer tipo de prejuízo. Para garantir o anonimato dos sujeitos participantes, os fragmentos das falas quando apresentados nos resultados, foram identificados e codificados pela letra "D" e o respectivo número relativo à ordem de sua entrevista.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Com base nas entrevistas, apresentamos os dados coletados de forma conjunta, com vista à análise descritiva na perspectiva de ampliar o entendimento dos resultados encontrados.

Os resultados das entrevistas foram organizados e sistematizados em duas partes, a fim de facilitar a apresentação das respostas obtidas e sua compreensão.

Na primeira parte, a apresentação descritiva, os sujeitos estudados foram caracterizados por departamento de ensino, regime de trabalho, tempo de docência e classe. A segunda relacionou-se ao significado da satisfação no trabalho docente de enfermagem.

Caracterização dos sujeitos

Os sujeitos entrevistados foram alocados por departamentos de ensino na Universidade, que agrupam os conhecimentos na grande área enfermagem, como pode ser observado na TAB. 1.

 

 

Dos 21 docentes entrevistados (TAB. 1), sete (33%) eram lotados no Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgico, seguido do Departamento de Enfermagem de Saúde Pública e de Enfermagem Fundamental, com cinco (25%), respectivamente, e quatro (19%) do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil.

Na TAB. 2, apresentamos a distribuição dos docentes por regime de trabalho, visto que nem todos possuíam a mesma carga horária e, portanto, o mesmo tempo de dedicação à docência.

 

 

Podemos observar, na TAB. 2, que o regime de trabalho do total dos investigados representa 19 docentes (91%) de dedicação exclusiva e os 2 docentes restantes (9%) possuem o regime de trabalho de 40 horas.

Na TAB. 3, apresentamos o tempo de docência dos entrevistados, visto que alguns docentes começaram a lecionar precocemente em sua carreira profissional.

 

 

Verificamos, na TAB. 3, que a maioria 16 (76%) dos entrevistados exerce atividade docente há mais de 11 anos, denotando uma dada experiência de vida profissional.

Na TAB. 4, apontamos a classe dos docentes entrevistados e, consequentemente, a titulação dos professores dessa Universidade.

 

 

Observamos (TAB. 4) que a maioria dos investigados pertence à classe de professores adjuntos, representando 12 (57%) do total dos entrevistados.

Dentre os resultados das características dos entrevistados apresentadas, destaca-se a experiência na atividade que exercem, ou seja, a maioria (76%) atua há mais de 11 anos, a totalidade (100%) dispõe de tempo integral para dedicação à docência, além de 96% possuírem o título de Doutor conforme demonstrado na distribuição por classe (adjunto, associado, titular) o que efetivamente pode contribuir para um ensino de qualidade.

Significado da satisfação no trabalho docente

Com relação ao significado da satisfação no trabalho docente de enfermagem, as respostas foram agrupadas em categorias, seguindo as frases mais relevantes para a pergunta em questão, como apontado no QUADRO 1.

Observa-se que o significado da satisfação no trabalho para os entrevistados decorre da relação professor-aluno, relação trabalho-docente, atividades acadêmicas, incluindo as condições de trabalho.

Categoria - Relação professor-aluno

Na categoria relação professor-aluno, percebe-se que a satisfação do trabalho docente perpassa pelo convívio com os discentes, o crescimento do aluno ao longo do curso, a possibilidade de formar profissionais, além de o reconhecimento pelos discentes do trabalho docente.

O trabalhador comprometido com o trabalho sente-se excitado pelos desafios, satisfeito com a atividade que realiza e sente prazer em transmitir seus valores na relação com o outro. Na docência do ensino superior, não é diferente, o professor é o transmissor de conteúdos, deve cumprir metas, prazos e detém poder decisório no que se refere à metodologia e ao emprego do conhecimento. Nesse sentido, o docente em enfermagem deve assumir o papel de mediador e ampliar as possibilidades de conhecimento, de dúvidas e interação entre os alunos, porém essa dinâmica somente ocorre, de fato, se esse profissional estiver satisfeito com as atividades que desempenha e se sentindo valorizado na Universidade onde trabalha.8

Fica claro, nas falas a seguir, que para o educador o interesse e o desenvolvimento profissional de seu aluno, além do convívio com o estudante, produzem não somente o resultado do seu trabalho, mas lhe trazem prazer para trabalhar e satisfação no trabalho. O discente começa o curso inexperiente, e é lapidado aos poucos, até se tornar um profissional, dotado de conhecimento teórico e habilidades técnicas:

Ter prazer em estar com o discente, vê-lo crescer durante a formação. (D10)

Significa reconhecimento dos discentes pelo seu trabalho. (D2)

Estudantes entusiasmados e com interesse em aprender; estudantes participativos. (D5)

Verificar os alunos seguros, crescendo em sua formação e encontrá-los bem profissionalmente. (D14)

Poder contribuir na formação de pessoas que atuaram profissionalmente na assistência. (D20)

Deve-se considerar, ainda, a questão do vínculo afetivo, quando mencionamos o sentimento de prazer associado ao papel desempenhado pela enfermagem. Nesse sentido, o professor percebe-se importante para o aluno e, da mesma maneira, o convívio diário pode proporcionar o surgimento de amizade entre o educador e o educando. Essa convivência gera sentimentos gratificantes de alegria, satisfação, realização e aprendizagem para ambos os lados.9

Categoria - Relação trabalho-docente

A satisfação no trabalho também engloba a relação trabalho-docente. O prazer e a motivação no desempenho do trabalho e o bom relacionamento com o corpo social do curso de graduação são os aspectos que podem ser observado nas seguintes falas:

Os colegas de trabalho reconheçam seu esforço e que não haja tanta competição desnecessária. (D4)

Bom relacionamento no ambiente de trabalho. (D18)

Ter prazer em vir trabalhar na [...], os docentes se respeitarem [...]. (D3)

É trabalhar num espaço sem pressão, com delicadeza, com clareza acerca das coisas, com lealdade. (D21)

Os professores entrevistados relataram o prazer em trabalhar e o bom relacionamento com seus pares como geradores de satisfação, que podem ser entendidos como formadores de sua identidade profissional.

Entende-se que a experiência profissional demanda domínio cognitivo e instrumental, porém existe outros saberes igualmente importantes para a formação da identidade profissional. A socialização na profissão e a vivência profissional permitem ao indivíduo experimentar elementos emocionais, relacionais e simbólicos e, assim, assumir sua condição de professor, abrangendo aspectos como se sentir bem em trabalhar na profissão, o sentimento de estar no seu lugar, o estabelecimento de relações positivas com seus colegas de trabalho, capacidade de enfrentar problemas, etc.10

Categoria - Atividades acadêmicas

Para os investigados, o significado da satisfação no trabalho docente inclui as atividades acadêmicas, explicitadas no prazer em desenvolver as atividades docentes, além da possibilidade de realizar novas descobertas e contínuo aprendizado, como pode ser percebido nas falas a seguir:

Possibilidade de novas descobertas e contínuo aprendizado. (D9)

Fazer o que gosto; ter o que aprender no processo. (D16)

O retorno na forma de produtividade acadêmica do empenho profissional, a experiência de constante desenvolvimento intelectual. (D18)

Segundo os docentes, a satisfação surge do desafio, de realizar as atividades de sua competência e de estar se aprimorando intelectualmente. A docência pode ser entendida como uma forma de compartilhamento, troca e aprendizado mútuo, por esse motivo depende da disponibilidade tanto do professor quanto do aluno para que de fato aconteça.9

Embora cuidar/assistir o cliente não tenha aparecido com grande frequência, consideramos importante destacá-lo, no significado dado pelos entrevistados, pelo fato de se tratar do trabalho docente de enfermagem. E o professor não se desvincula da essência de sua formação de enfermeiro, ou seja, cuidar/assistir estão sempre presentes no seu processo de trabalho, ainda que indiretamente. As falas significativas que evidenciam a associação da prática assistencial à docência de enfermagem são:

O desenvolvimento e amadurecimento dos alunos, gerando resultados positivos na profissão e nos clientes. (D11)

Poder contribuir na formação de pessoas que atuarem profissionalmente na assistência as pessoas com agravos a sua saúde durante todo o ciclo vital. (D20)

Cuidar dos clientes, mesmo que indiretamente. (D10)

Os docentes, ao mencionarem a assistência, no contexto do significado da satisfação no trabalho docente, deixam claro que, mesmo não atuando diretamente no cliente, possuem a intenção de perpetuar o sentido da profissão enfermagem.

Antes a docente de enfermagem concentrava suas ações nas tarefas assistenciais, era vista e respeitada como aquela que sabia cuidar do paciente. Posteriormente, a enfermagem tornou-se uma carreira universitária e a pesquisa passou a ser imprescindível. Com esta evolução, o docente passou a enfrentar o problema de ter que conhecer a teoria, de ter vivência da prática, embora deixando de desenvolver uma atividade contínua no campo. Passou a ser vista pelo aluno como aquela que conhece a teoria e é respeitada pelo seu saber, enquanto o enfermeiro assistencial é o modelo da capacidade técnica, é o que sabe fazer.4:81

Categoria - Condições de trabalho

Por fim, as condições de trabalho é outra categoria relacionada ao significado da satisfação no trabalho docente e envolve a remuneração digna, boas condições de infraestrutura e instrumentos administrativos ágeis no processo de trabalho, o que pode ser visto nas seguintes falas:

Satisfação no trabalho docente é o resultado de um conjunto de fatores, tais como ambiente de trabalho com condições de trabalho dignas [...]. A questão da remuneração é também um fator importante quando o que está em jogo é a satisfação de todo e qualquer trabalhador. (D6)

Ter estrutura mínima que permita o desenvolvimento das atividades. (D16)

O perfil da instituição que proporciona satisfação no trabalho docente é aquele em que são oferecidas condições para um bom desempenho profissional, otimização do trabalho, identificação com as atividades, seguido de uma remuneração considerada justa, que reverterá em melhor qualidade de vida e de trabalho.11

Os diversos conflitos presentes na atividade docente, em sua maioria no campo das relações sociais, dificultam a conciliação entre família e profissão, gerando conflitos e desestimulando o docente. Esses fatores, associados à falta de condições de trabalho, que levam ao constante improviso na tentativa de suprir a falta de recursos, geram sobrecarga no trabalho e insatisfação ao trabalhar. Na enfermagem, os sentimentos de inferioridade, discriminação, desvalorização e falta de apoio institucional já são conhecidos, porém os mesmos sentimentos se fazem presente quando falamos da docência em enfermagem, além dos baixos salários e falta de reconhecimento dos pares.12

Podemos entender, portanto, que a satisfação no trabalho docente significa, para os entrevistados, um conjunto de fatores ideais que devem ser bem articulados no ambiente laboral e que cada um desses elementos, isoladamente, não proporciona a satisfação plena no que diz respeito ao processo produtivo do docente de enfermagem.

Ao significado da satisfação no trabalho os docentes atribuem a construção de uma carreira em uma instituição com infraestrutura que permita o desenvolvimento pleno das atividades relativas ao processo de trabalho, que valorize o profissional, remuneração condizente com as atividades, além do bom convívio com o corpo social e da contribuição de inserir seus discípulos no mercado de trabalho.

Atividades exercidas com satisfação

No processo produtivo, há atividades que podem ser exercidas com satisfação ou insatisfação. As atividades apontadas pelos entrevistados como as que são realizadas com satisfação são aquelas pautadas pelo próprio processo de trabalho do docente (como aulas teóricas, aulas práticas, pesquisas, orientações e atividades de extensão); a participação e a divulgação a produção do conhecimento em eventos científicos; e também a possibilidade de participar do crescimento dos alunos na sua formação profissional. As falas mais significativas que evidenciam tais atividades exercidas com satisfação são:

Aula teórica, prática, orientação de pesquisa, porque envolve a relação docente-discente que eu amooo!!! (D2)

As aulas teóricas na graduação. O ensino clínico com os alunos. Essas atividades são prazerosas visto que podemos passar a nossa vivência profissional para os discentes. (D3)

[...] Poder contribuir mais diretamente para o conhecimento do discente. Estar com os alunos, trocar conhecimentos. Ensinar e aprender. Oportunidade de estudar e ampliar conhecimentos. (D17)

Para muitos dos docentes entrevistados, alcançar a satisfação e exercer suas atividades de forma prazerosa é estar sintonizado na realidade do aluno. As expressões "ter o que aprender", "contato com os alunos" e "gosto de participar do crescimento" surgiram na maioria das falas, o que reforça a ideia de que cada vez mais o professor se aproxima dos alunos de forma interativa, o que facilita a produção do conhecimento e do pensamento crítico.

Em contrapartida, a arrogância do docente e a sensação de segurança e de poder podem produzir um aprendizado equivocado e covarde, já que se torna um costume culpabilizar o aluno pelos resultados aquém das expectativas. Nesses casos, o que ocorre é a reprodução sequencial do que já existe, inibindo o pensamento crítico e a criatividade.13

Na enfermagem, o modelo de educação é pautado pela atuação instrumental do professor e baseado em princípios e técnicas cientificas, ignorando-se, por fim, atitudes e valores éticos e políticos. Existe, porém, a corresponsabilidade das instituições de ensino superior no que diz respeito à formação de cidadãos e profissionais. Esse modelo retrógrado é concebido como mero reprodutor de vícios e mitos, sem sustentação conceitual, o que viabiliza o empobrecimento do pensamento e a diminuição do estímulo e do interesse de docentes e de alunos.14

No sentido de buscar uma prática educativa e reflexiva com ênfase na investigação da própria prática e no diálogo, os docentes buscam situações de aprendizagem em que é preciso construir, experimentar e corrigir para que os alunos se conscientizem dos objetivos propostos e das estratégias escolhidas e possam exercer sua autonomia.14

Por meio da fala Ensinar a cuidar (D4), podemos observar que a assistência ao cliente é um elo determinante na enfermagem e não se dissocia mesmo quando o processo de trabalho se diferencia da prática hospitalar, como foi dito. Assim como a assistência está presente no ideal do significado da satisfação no trabalho docente, o cuidado permeia como atividade real que é exercida com satisfação:

Ministrar aulas, desenvolver atividades práticas nos diferentes cenários de atuação profissional, participar de grupos de ensino-pesquisa e extensão. Acredito que essas atividades fortalecem o trabalho acadêmico. (D9)

Ver o resultado dos alunos quanto às aprovações em concursos. (D13)

O contato com os alunos me instiga a melhora e isso é precioso [...]. Trabalhar com unidades que compõem a rede de saúde (o que me faz aprender). [...] Aprender é o meu combustível de prazer e renovação no trabalho. (D16)

De acordo com os entrevistados, as atividades exercidas com satisfação são aquelas inerentes ao processo de trabalho. O contato com o aluno está presente nas falas, ou seja, o seu objeto de trabalho é uma fonte de satisfação, deixando de ser um elemento passivo e se tornando um fator de interação, troca e aprendizado.

O ato de ensinar gera fatores estressantes e motivação. Neste último, a satisfação está na relação emocionalmente afetiva com os alunos, prazer em ensinar, superar dificuldades e vivenciar o crescimento dos discentes. Se por um lado o trabalho docente gera desgaste, por outro é renovador e potencializador da qualidade de vida no trabalho.11

Atividades que trazem frustração

As atividades que não trazem satisfação ao docente, nesse contexto, são aquelas em que há sobrecarga de trabalho, tanto docente quanto administrativo, e a obrigatoriedade de produção, que geralmente deixam o docente cansado, gerando irritação e baixa produtividade.

Os professores assumem enorme carga de trabalho, ocupam cargos de chefia e de representações, dadas as atividades acadêmicas, e ainda contam com ausência de recursos humanos na área técnico-administrativa, estrutura física inadequada, escassez de recursos materiais e equipamentos que viabilizem sua prática profissional. Esse aumento quantitativo de carga de trabalho, bem como aumento qualitativo, pois cada vez mais se exige um grande aprofundamento teórico-metodológico, é visível e ocorre dada a necessidade de alcançar resultados e produtividade para manter em elevado grau de estima a universidade em que se trabalha.14

Dessa forma, a qualidade da educação e da pesquisa é constantemente ameaçada pela pressão por produção, uma vez que o aumento da produtividade nem sempre significa aumento de qualidade. Nesse sentido, os resultados apontam para a diminuição das ações inovadoras e do desenvolvimento do pensamento.15

As falas significativas que demonstram quais atividades geram insatisfação ao docente são:

Trabalhos burocráticos, que deveriam fazer parte do trabalho técnico-administrativo. (D2)

As atividades realizadas na nossa casa, à noite, geralmente, tais como elaborar aulas, projetos, correção de provas e outros. (D3)

Atividades burocráticas que deveriam ser realizadas por técnicos administrativos. A imposição de produção e publicação. (D12)

O excesso de atividades, como estar no ensino teórico e prático, tudo ao mesmo tempo, e ainda ter que publicar é muita atividade. Não temos tempo nem para almoçar. (D14)

As atividades que resultam do trabalho docente, porém, não são de exclusiva competência deste. Por exemplo: protocolar, encaminhar (levar) documentos, digitar ofícios, memorandos, atas. (D15)

Trabalho de secretaria, como redigir e entregar memorandos, tais atividades ocupam um tempo que poderia ser específico para trabalho docente. Participar de reuniões que muitas vezes são pouco objetivas e produtivas. Aplicar prova momento que poderia estar realizando outra atividade docente. (D17)

Reuniões chatas que não vão a lugar nenhum, que se repetem as mesmas coisas. (D21)

A realização de atividades que não trazem satisfação pode se tornar fator estressor no ambiente de trabalho, o qual é categorizado em intrínsecos, papéis estressores, relações no trabalho, estressores na carreira, estrutura organizacional e interface trabalho-casa. As condições inadequadas de trabalho, o turno, a carga horária, os riscos, os papéis conflituosos, o grau de responsabilidades, as relações difíceis com o chefe e subordinados, a insegurança no trabalho, dentre outros, são alguns dos muitos fatores estressores no trabalho.16

Em síntese, exercer uma profissão em que algumas atividades trazem sobrecarga de trabalho, como ter de trabalhar além do horário estabelecido e realizar afazeres que competem a outra profissão, além de ser pressionado constantemente em prol da produção, gera insatisfação no trabalho, contribuindo para a diminuição da qualidade de vida no trabalho.

Soma-se a isso o fato de a enfermagem ser uma profissão composta majoritariamente por mulheres e, por esse motivo, a multiplicidade de atividades se torna um desafio diário. Constantemente a satisfação no trabalho vai estar ameaçada intrinsecamente por aspectos como a falta de tempo para cuidar da casa, do marido e dos filhos, ou seja, aspectos relacionados a outros papéis assumidos e a cobrança que existe em torno dele. Não obstante isso, o desejo de sucesso profissional se projeta concomitantemente com a satisfação no desempenho de seus papéis no plano familiar.17

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O regime de trabalho dos entrevistados nos leva a crer que a disponibilidade do tempo para as atividades docentes faz o professor se dedicar de forma integral à docência, obtendo e compartilhando experiências, perpetuando o conhecimento de forma saudável e aprimorando seu saber, o que leva a um ensino sólido e de qualidade. Além disso, percebemos, por meio das entrevistas, que, apesar da insatisfação ao realizar algumas atividades e da obrigatoriedade do cumprimento de metas, a satisfação e o prazer em estar com o aluno, realizar as atividades docentes e principalmente vê-lo crescer profissionalmente superam qualquer desagravo com a profissão.

O fato de conviver com o discente promove renovação e satisfação no desempenho do trabalho docente. Ao se aproximar da realidade do aluno, o professor compreende melhor suas dúvidas, transmite o conhecimento de forma clara e contribui para o aprendizado de forma interessante e interativa. Podemos, portanto, associar o ideal ao real, no que tange à satisfação no desempenho do trabalho docente, por meio do que foi apresentado nas entrevistas, quando os investigados apontam à relação docente-discente como um dos fatores relevantes para o estímulo e o prazer no trabalho.

Construir um ambiente laboral no qual haja qualidade de vida e os trabalhadores exerçam suas atividades com satisfação requer modificações de forma a torná-lo de acordo com seus anseios como profissional e com suas necessidades intelectuais. Na docência de enfermagem, também há exploração da força de trabalho, exigindo, nesse caso, mais do intelecto do que das propriedades físicas, mas não é menos cansativo e desgastante.

Para que se possa implementar a qualidade de vida no trabalho, usufruindo o significado atribuído à satisfação no trabalho, é preciso, primeiro, entendê-la, porém não há uma definição específica para a mesma. Contudo, para amenizarmos o desprazer gerado pelo exercício da docência, englobando aquelas atividades que não trazem satisfação ao professor, há que explorarmos a fundo o significado dado pelos entrevistados à satisfação no desempenho do trabalho docente de enfermagem. O significado gerado do relato de pessoas que estão na lida diária com as atividades pertinentes à sua profissão deve ser considerado como relevante para a instituição à qual pertencem, de forma a propiciar condições no ambiente laboral a fim de potencializar a qualidade de vida no trabalho, gerando resultados positivos na produção.

 

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