REME - Revista Mineira de Enfermagem

ISSN (on-line): 2316-9389
ISSN (Versão Impressa): 1415-2762

QUALIS/CAPES: B1
Periodicidade Continuada

Enfermagem UFMG

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Volume: 16.3

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Editorial

Escola de enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais: 80 anos!*

 

A vida inventa. A gente principia as coisas no não saber por que, e perde o poder de continuação, porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada.1

Guimarães Rosa traduz, em sua sabedoria, nesta epígrafe, os 80 anos de existência da Escola de Enfermagem da UFMG (EEUFMG). Escola que teve seu começo dependente de vontades individuais, e encontrou seu caminho para a criação de uma instituição fundamentada nas necessidades dos serviços hospitalares e sanitários de Belo Horizonte, com vocação humanitária e educativa, segundo seus fundadores. Nasceu idealista, sofreu por ter bases materiais fragilizadas e falta de apoio político, mas os pioneiros enfrentaram cada momento com galhardia e, com o passar do tempo, a Escola ganhou o mundo e hoje é referência no Brasil e no exterior, com marcas fundamentais na formação de incontáveis profissionais, dedicados ao cuidar da vida como enfermeiros, nutricionistas ou gestores de saúde.

São 80 anos construídos pelos esforços de professores, funcionários técnico-administrativos e alunos que, ao longo do tempo, foram deixando suas contribuições para a consolidação da nossa casa. Casa que conserva os traços e a tradição das mãos que a criaram e por ela lutaram, traduzidos em pequenos gestos cotidianos: aulas, experimentos, inovações, programas de trabalho, de ensino, pesquisa, extensão e atividades administrativas: projetos voltados ao cuidar da vida. Casa acolhedora que recebe, aceita e enfrenta os desafios para a construção e disseminação de novos saberes, incessantemente renovados, criados e recriados. Muitas mãos remexeram e deram a têmpera a essa instituição. Alguns com ideias, negociações, outros "colocando a mão na massa", ensinando e praticando a enfermagem, cuidando da vida.

Com muito orgulho e alegria, iniciamos hoje as comemorações das oito décadas de trabalho que moldaram o que fomos, que resultaram no que somos e que delineiam o que poderemos ser: múltiplas faces identificadas pelo pertencimento a esta casa - a Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais.

Formar enfermeiras perfeitamente instruídas, convenientemente preparadas e em número suficiente para os hospitais e para os serviços sanitários, [sendo uma] oportunidade para as moças mineiras abraçar uma nobre e humanitária profissão, facilitando-lhes a aquisição do necessário preparo técnico [...] Uma escola moderna, nos moldes da Escola Oficial Padrão Anna Nery, do Rio de Janeiro.

Esse foi o discurso de sua fundação, na fala oficial do diretor de saúde pública de Minas Gerais, Ernani Agrícola, e em notícias de jornais da época.2

A Escola de Enfermagem nasceu sob a égide do pioneirismo: em 7 de julho de 1933 foi criada, por decreto governamental, como a primeira escola estadual para a formação de enfermeiros no Brasil, instalada no Hospital São Vicente de Paulo, recebendo o nome do grande idealizador dessa formação em nosso país: Carlos Chagas.3

Sintetizar em breves minutos de fala a história da nossa escola é uma tarefa impossível. Ainda assim, é importante recordar alguns acontecimentos determinantes da nossa face, do nosso olhar, das nossas palavras.

As três primeiras décadas foram de notáveis lutas para conquistar o espaço do exercício das atividades que nos distinguem e garantir o reconhecimento das competências próprias por parte da sociedade e da academia. As dificuldades desse período ficam patentes quando se conhecem as constantes negociações, com avanços e retrocessos, na busca de hospitais e serviços de saúde onde se pudessem construir os campos de estágio e de prática profissional. Os empecilhos à consolidação da escola nesse período se tornam claros com a menção às muitas mudanças e localizações dos prédios onde funcionou. A Escola de Enfermagem Carlos Chagas não esquentava lugar, não encontrava casa própria.

Laís Netto dos Reys, vinda da Diretoria de Saúde Pública, foi a primeira diretora. Em seguida, vieram Clitemnestra Pessana, Rosa de Lima Moreira e Waleska Paixão. Esta última, como o sobrenome indica, foi um marco na luta para que a formação fosse mais reconhecida, tendo mesmo de entrar em conflitos, dada a falta de espaço físico no Hospital São Vicente de Paulo, de onde lhe foi solicitada a desocupação, inclusive da parte administrativa da escola.2

A Escola Carlos Chagas mudou-se para uma casa na Rua Santa Rita Durão sem, contudo, diminuir sua incessante busca por outros campos de estágio e prática. Foram anos duros, mas a Escola firmou-se, sobretudo, como formadora de enfermeiras para a saúde pública. Enquanto isso, na Faculdade de Medicina, que perdeu a relação direta com a Escola dentro do Hospital São Vicente de Paulo, chegou-se a cogitar, em 1948, a criação de outra escola de enfermagem subordinada à faculdade, aprovando-se a proposta em 1949, mas que não saiu do papel. Waleska Paixão, apaixonada e "cansada de guerra", como diria o poeta, retorna ao Rio de Janeiro, de onde havia saído para dirigir a EECC.4

Em 1950, a Escola de Enfermagem Carlos Chagas voltou a atuar no Hospital São Vicente de Paulo e, em dezembro do mesmo ano, foi incorporada à Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, por força de lei federal e com dotação orçamentária específica, mas sem representação na Congregação da Faculdade.4

Na década de 1950, o desafio foi, então, vencer a estagnação do ensino motivada pela dependência financeira e administrativa decorrente da anexação da Escola Carlos Chagas à Faculdade de Medicina. As diretoras foram todas freiras, as Filhas de Caridade de SãoVicente de Paulo: Irmãs HelenaVillac, Maria Cândida Menescal Fiuza, Maria Carmen Teixeira e Emília Clarízia, que se ocupavam dos problemas internos e tinham pouca presença política na definição dos caminhos da Instituição, o que durou até 1967. Anos de perda de autonomia administrativa e financeira, mas crescimento do sentimento da necessidade de desvinculação, o que aparece claramente na gestão de Irmã Emília Clarízia, incansável para que a escola se tornasse uma unidade da Universidade.3

Nessa situação continuou até 1968, quando conquistou a autonomia pela desvinculação da Faculdade de Medicina, tendo como diretora a professora Carmelita Pinto Rabelo. Nesse ano, ocupou sua sede definitiva, ainda inacabada, e passou a ser denominada "Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais", conforme é conhecida atualmente. Em 1972, viu concluída sua obra física.4

A partir daí, a Escola viveu anos de reinstitucionalização, de retomar e reconstruir valores e fundamentos, redefinir caminhos pedagógicos e didáticos, formas de reorganização administrativa e de poder, para que fosse, de fato e de direito, reconhecida como parte da universidade pública, gratuita e de qualidade, pela qual os brasileiros lutaram e foram às ruas em 1968. Coube às professoras Carmelita Pinto Rabelo, Yole de Carvalho Mazzoni, Izaltina Goulart de Azevedo, Maria Noemi Ferreira Ribeiro, Maria Rizoneide Negreiros de Araújo e Alcinéia Eustáquia Costa dirigir a Escola nos momentos mais intensos da luta política que se instalou na sociedade, na década de 1970, com a concentração do poder pela ditadura militar, até o final da década de 1980. Submissas ou contrárias à situação política, silenciosamente, discretas ou abertamente, fizeram o papel de estar à frente da reorganização administrativa, de refazer ou desatar nós nas relações com outras instituições, de firmar ou de romper compromissos, para que também o simbólico-social da instituição, como diria Castoriadis,5 mostrasse a sua "cara".

As lutas das primeiras décadas de existência foram incorporadas ao sangue da Escola de Enfermagem, que mesmo com casa própria não desistiu de continuar crescendo e comprovando sua competência, com projetos inovadores e o contínuo desenvolvimento, que fazem dela referência no campo dos cuidados com a vida.

No início da década de 1990, contou, na Diretoria, com a professora Marlene Natividade de Oliveira. Em seguida, vieram as professoras Maria José Cabral Grillo e Roseni Rosângela de Sena. A Escola tomou novo rumo com essas duas guerreiras, à frente de seu tempo, trazendo para o centro o olhar instituinte de professores e funcionários que queriam uma instituição mais aberta ao mundo, ainda mais comprometida com os valores da Saúde como um direito de todos e um dever do Estado, com o estabelecimento do Sistema Único de Saúde, bem como com o crescimento da EEUFMG no interior da própria UFMG e na relação com as demais instituições. Vieram grandes projetos de ensino, como a mudança curricular e o Internato Rural; projetos de extensão, com destaque para o Proden, pelo qual o Banco de Dados de Enfermagem foi criado, em convênio com Centro Latino-Americano e do Caribe (Bireme), com o compromisso de alimentar a Base de Dados Lilacs; além do Projeto de Formação de Trabalhadores para a Área de Saúde em Larga Escala,paraformaropessoalleigoda assistênciadeenfermagemquerecebeu o título de"auxiliaresdeenfermagem". Foram anos, também, de consolidação de projetos com os serviços públicos de saúde de Belo Horizonte, para que nossos alunos vivessem seus aprendizados na prática desde o início da formação e desenvolvessem, junto com os professores, os projetos extensionistas que deram a marca da vocação social da escola.4

Merecem grande destaque, ainda, a criação da Revista REME, em 1997, inicialmente bianual e hoje trimestral e indexada em diversas bases de dados; a consolidação do Centro de Tecnologia Educacional em Enfermagem (CTENF) como órgão complementar, quando também foi criado o site da Escola, em 1999; a luta para a criação do Curso de Mestrado em Enfermagem desde 1990, que iniciou suas atividades em 1994, e do curso de Nutrição desde 1999, que teve sua primeira turma em 2004, já na gestão do professor Francisco Carlos de Félix Lana. Em 2004, o Curso de Doutorado em Enfermagem foi aprovado pela UFMG, iniciando suas atividades em 2005, compondo o Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, que hoje tem a avaliação com nota 5 pela Capes.5

O professor Francisco também teve a honra de dar continuidade e realizar a expansão física da Escola de Enfermagem, com redimensionamento dos espaços e revitalização de fachadas do antigo prédio, da cantina e a construção de mais um prédio anexo, o chamado "Bloco Sul", inaugurado em 2006. Também foi criado o Centro de Memória e Assessoria de Comunicação da Escola, tendo como referência as novas tecnologias de comunicação, e iniciaram-se as discussões para a criação de uma empresa júnior, intitulada "Arterial UFMG Júnior", que foi aprovada em 2008, na gestão 2006-2010 da professora Marília Alves.5

Em 2007, a Escola aderiu à Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) no bojo do esforço da UFMG para seu crescimento, aumentando, no Curso de Nutrição, de 30 para 36 vagas semestrais, e criando o curso noturno de Gestão em Serviços de Saúde, com 100 vagas anuais, tendo sua primeira turma no 1º semestre de 2009. Também foi implantado o Programa Nacional de Reorientação da Formação Profissional em Saúde (Pró-Saúde), lançado no governo do presidente Lula, desde 2005, que se encontra, atualmente, na sua 3ª versão, e o Programa de Educação pelo Trabalho em Saúde (PET-Saúde), desde 2009. Ressalte-se, ainda, que a Escola tornou-se Centro Colaborador em Alimentação e Nutrição (Cecam-Sudeste II) do Ministério da Saúde, em 2009, e da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Atualmente, a coordenação da Rede BVS Enfermería Internacional está sob a responsabilidade de um dos nossos professores.5

Somos, em 2012, uma comunidade de 163 pessoas, 88 professores efetivos, 11 contratados (substitutos), 48 funcionários técnico-administrativos, 11 técnicos contratados e 5 bolsistas da Cruz Vermelha, unindo esforços com o objetivo de formar enfermeiros, nutricionistas e gestores de saúde nos níveis de graduação, especialização, mestrado e doutorado, em um número que atingiu, neste ano, 1.100 alunos regularmente matriculados na graduação, 1.500 em especializações presenciais e a distância, e 120 em mestrado e doutorado, totalizando 2.720 estudantes na Escola.5

A EEUFMG graduou, de 1936 até hoje, 3.206 enfermeiros e 245 nutricionistas, e teremos, em julho de 2013, a primeira turma de gestores de serviços de saúde graduada. No curso de graduação em Enfermagem, vale ressaltar o trabalho incansável de formação dos alunos e a contribuição para a atenção à saúde da população e para a organização dos serviços de saúde, em diversos municípios do interior de Minas Gerais e na região metropolitana de Belo Horizonte, como disciplina obrigatória, o chamado Internato Rural e Metropolitano. O Curso de Nutrição incluiu, também, o Internato Rural em seu currículo e, hoje, temos alunos dos dois cursos participando diretamente da consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS), em regime de calendário contínuo, que permanecem nas cidades por um semestre, com acompanhamento dos profissionais e do docente supervisor.

Na pós-graduação, já formamos 378 mestres e 26 doutores, estes últimos de 2008 até agora. Fizemos convênios com faculdades de enfermagem do chamado Polo Sul, Pouso Alegre, Itajubá e Alfenas, com a Universidade Federal de Juiz de fora, com a Pontifícia Universidade Católica de Goiânia para o oferecimento do Curso de Mestrado em Enfermagem nessas localidades. Em 2012, iniciamos um programa Dinter, com o apoio da Capes, para desenvolver o Curso de Doutorado em Enfermagem com a Universidade Federal de São João del-Rei, Campus Divinópolis. Além disso, a Escola vem oferecendo, ao longo dos anos, diversos cursos de especialização, como o de Enfermagem de Saúde Pública, ofertado em tempos em que as instituições de serviços de saúde assumiam os custos do acompanhamento dos professores nos campos de trabalho dos alunos. Fizemos convênios com várias cidades da região metropolitana de Belo Horizonte, com cidades do Vale do Jequitinhonha e do Vale do Mucuri, formando em torno de 200 enfermeiros. Também tivemos: Especialização em Saúde Mental, com cerca de 60 concluintes, de Administração da Assistência de Enfermagem em Serviços de Saúde, havendo, aproximadamente, 150 concluintes; Especialização em Saúde da Família: Projeto Veredas de Minas, com 753 concluintes; Especialização em Sistematização da Assistência de Enfermagem, com 120 concluintes; Especialização em Saúde da Família, criado pelo Polo de Capacitação, Formação e Educação Permanente de Pessoal para Saúde da Família (PoloSF/UFMG); e participamos, contribuindo na formulação e oferecendo módulos, juntamente com outros professores das demais faculdades da área da saúde da UFMG, do Curso de Especialização em Saúde da Família-BH Vida, que capacitou 1.097 profissionais de nível superior, integrando, ainda, a capacitação em trabalho em equipe de 4.152 profissionais, entre gerentes, auxiliares de enfermagem, técnicos e agentes comunitários dos serviços de atenção primária em saúde de Belo Horizonte. Além desses, a Escola desenvolveu o curso de Especialização em Enfermagem Obstétrica, com o apoio do Hospital Sofia Feldman, já tendo formado 188 enfermeiros; Especialização em Enfermagem Hospitalar, com 254 concluintes; Especialização em Saúde Coletiva, com 248 concluintes; e o Curso de Especialização de Formação Pedagógica em Educação Profissional: Enfermagem (CEFPEPE), com aproximadamente 300 concluintes; além do Curso de Especialização em Atenção Básica em Saúde da Família (CEASBSF), juntamente ao Nescon, com 948 concluintes. Hoje, a escola participa da Residência Integrada Multiprofissional na área da saúde do idoso e na área de saúde cardiovascular, desenvolvido no Hospital das Clínicas, no Hospital Risoleta Neves e nas unidades de saúde do Distrito Nordeste de BH, contando com 36 residentes em 2012. Oferece especializações na área da saúde coletiva, multiprofissional, de assistência de enfermagem de média e alta complexidade; de enfermagem obstétrica e de gestão pedagógica nas Escolas Técnicas do SUS, totalizando 375 alunos em 2012, todas estas coordenadas diretamente pela EEUFMG; e, também, as especializações em Formação Pedagógica para profissionais de saúde (300 alunos) e a Atenção Básica em Saúde da Família, coordenados pelo Nescon da Faculdade de Medicina. Somam-se, ainda, todas as formações de nível médio, que foram desenvolvidas pela EEUFMG, capacitando aproximadamente 5 mil agentes comunitários de saúde de Minas Gerais, 2.300 atendentes para habilitação em auxiliar de enfermagem; 2.700 auxiliares para a habilitação em técnico de enfermagem, em mais de 200 municípios de Minas Gerais, pelo CPTENF, de acordo com a política de formação de recursos humanos do Ministério da Saúde. Podemos afirmar, portanto, que a Escola formou em torno de 20 mil profissionais, nos mais diversos níveis, de 1936 até o primeiro semestre de 2012. Em 2012, a Escola integra a formação de enfermeiros obstetras, no Programa de Residência/Especialização, proposto pelo Ministério da Saúde, que terá o Hospital das Clínicas, o Hospital Risoleta Neves, o Hospital Sofia Feldman e centros de saúde do munícipio de Belo Horizonte como parceiros.5

Ressalte-se que nosso alunado tem se comprometido cada vez mais, junto com os professores, no desenvolvimento da pesquisa na EEUFMG. De 1997, quando se formaram os primeiros alunos de mestrado, para cá, houve um salto de qualidade e numérico em suas publicações. Foram quase 2 mil artigos publicados em periódicos da área da saúde, nacionais e internacionais, mais de uma centena de livros e em torno de 330 capítulos de livros.6 Os grupos de pesquisa estão cada vez mais atuantes e contarão, em um futuro bastante próximo, uma vez que os projetos já estão sendo executados para a construção de mais um prédio anexo para abrigar os laboratórios de pesquisa e de tecnologias para o ensino da enfermagem, nutrição e gestão de serviços de saúde. Para isso, já temos verba assegurada e esperamos que as obras se iniciem o mais rápido possível, para que docentes e alunos tenham condições adequadas para o desenvolvimento da pesquisa em suas áreas. A Revista Mineira de Enfermagem (REME), acompanhando as transformações, está sendo reformulada para que atinja patamares ainda mais elevados de publicação qualificada e respeitada internacionalmente.

Olhando para todos esses resultados, podemos afirmar que sempre se trabalhou muito na Escola de Enfermagem. Há que se lembrar que durante todos esses anos atravessamos muitos temporais e trovoadas, sofremos com salários nem sempre justos ou adequados, com condições de trabalho que, tantas vezes, geram estresse e adoecimentos, que sempre tivemos de lutar para ter o devido reconhecimento na própria instituição universitária, com um processo de trabalho cada vez mais intenso, a ponto de nos perguntarmos até quando íamos aguentar tanta pressão. Vivemos muitas greves, da década de 1980 até hoje, algumas mais compartilhadas do que outras, mas todas com o olhar de quem acredita que é preciso lutar para mudar algo. Neste ano atravessamos a greve que começou em junho na UFMG. Funcionários lutam por melhores salários e pela existência de uma carreira e os professores querem sua carreira mais justa, também com melhores salários: as duas categorias buscam o reconhecimento de seu trabalho. Ainda há muito que fazer, mas sabemos que o corpo docente e o técnico-administrativo da EEUFMG têm o compromisso com o crescimento da Escola, com sua administração e sua coesão em torno do princípio maior de formar profissionais comprometidos com o cuidado da vida.

Somos filhas e filhos do cuidado, uma condição prévia que nos permite existir. Precisamos do cuidado, mesmo antes de nascer e até depois da morte. Compreendendo a vida como um bem valioso, o cuidado se manifesta no trabalho pela preservação do potencial saudável dos cidadãos, de uma pessoa e da população. Concretiza-se no contexto da vida em sociedade, fundado na possibilidade de ter compaixão (no sentido de compartir, com-partilhar), colocandonos no lugar do outro, valorizando a vida em sua complexidade, contribuindo para proteger, promover e preservar a humanidade, apoiando as pessoas para encontrar significados na saúde e na doença, enfim, na existência. Ajudar o outro a obter conhecimento, autoconhecimento e poder de decisão para que, autonomamente, ele também possa participar na melhoria da qualidade de vida de todos.

Cuidar significa se engajar e se comprometer com a espécie humana, com a vida em sociedade, cultural e politicamente, para que todos tenham acesso universal e de qualidade aos bens gerados nesta sociedade, e contribuir para um convívio ecológico e de sustentabilidade para as gerações que virão.

Cuidar na área da saúde pede o direito à liberdade e à justiça, à ética da solidariedade e do amor, sem confundir "nível de vida com nível de consumo, sem confundir qualidade de vida com quantidade de coisas", como diria o escritor Eduardo Galeano, filósofo dos nossos tempos.

A Enfermagem, a Nutrição, a Gestão em Saúde, professores, funcionários e alunos da Escola de Enfermagem têm, portanto, o compromisso de aprender, ensinar, buscar novos conhecimentos, aplicá-los e contribuir, juntamente com todos os demais profissionais da área da saúde, para o CUIDADO DA VIDA. Em toda a sua plenitude.

 

REFERÊNCIAS

1. Rosa, JG. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

2. Santos, GF; Grillo, MJC; Caldeira, V. P. Movimentos da Faculdade de Medicina para a criação de uma Escola de Enfermeiras a uma Escola de Enfermagem com maioridade e competência. In: Pedroso, ERP. Centenário da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais: UFMG 1911-2011. Belo Horizonte: Folium, 2012.

3. Nascimento, ES; Santos, GF; Caldeira, VP. Criação, quotidiano e trajetória da Escola de Enfermagem da UFMG: um mergulho no passado. Belo Horizonte: Escola de Enfermagem da UFMG, 1999.

4. Castoriadis, CL; L'institution imaginaire de la société. Paris: Seuil, 1975.

5. Atas, Relatórios, Base de Dados da EEUFMG para pesquisa documental: Secretaria Geral, Diretoria; Seção de Pessoal, Centro de Memória, Colegiado de Graduação, Colegiado de Pós-Graduação, CPTENF, PRODEN.

6. Sistema Lattes - CNPq. <http://lattes.cnpq.br/>. Acesso em: 25 ago. 2012.

 

 

* Discurso da Diretora, Profª Drª Maria Imaculada de Fátima Freitas, na Sessão Solene de Abertura das Comemorações dos 80 anos da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais, em 27 de agosto de 2012.

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